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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Marés Vivas: Goldfrapp

ELECTRO-CHOQUES


Além do amadorismo da organização e do ambiente a roçar o são-joanino, o primeiro dia do festival Marés Vivas (Vila Nova de Gaia) foi marcado, em termos de música, pelo regresso de Skye Edwards aos Morcheeba e pelo concerto dos Goldfrapp, que regressam a Portugal para apresentar "Head First".
Este concerto, com dois anos de distância do anterior, no Sudoeste, vem provar duas coisas: a primeira é que os Goldfrapp são uma grande banda, a segunda é que o público português não percebe muito do assunto, e o do Marés Vivas menos ainda. A noite foi, em comparação ao SW, parada e aborrecida, o que não deixa de ser estranho porque me quer parecer que o alinhamento deste concerto era mais "festivaleiro" do que o do SW.


Mas esqueçamos o público e foquemo-nos no concerto. A verdade é que "Head First" é um disco que vem recuperar o fôlego onde o seu antecessor, "Seventh Tree" respirava calmamente. As canções, onde não deixa de ser notório um rumor de anos 80, intercalaram-se neste concerto com canções passadas que são agora transformadas, trazidas essencialmente de "Black Cherry" (2003) e "Supernature" (2006).
E talvez tenha mesmo sido "Supernature" o maior problema deste concerto: as canções são poderosas, sonantes e verdadeiramente chamativas, mas a verdade é que passaram dois discos deste esse e "Supernature" ainda é obrigatório. Se por um lado isso é um evidente sinal de que os Goldfrapp têm (pelo menos) aí um grande álbum, por outro um concerto de apresentação deixa de o ser propriamente. Claramente este era um concerto de dança, mais que outra coisa qualquer, e a melhor prova continua a ser o facto de em "Felt Mountain" (2000) e em "Seventh Tree" (2008) não se ter tocado.




Fora isso, os Goldfrapp souberam seleccionar as canções mais festivas e mais do lado electropop, tanto do álbum mais recente, como "Alive", "Dreaming", "Shiny and Warm" além do obrigatório "Rocket", quer do passado, como "Train", "Cristalline Green" que abriu o concerto em grande estilo, "Ride On a White Horse", "Number One", "U Never Know" ou o evidente "Ooh La La". Para o fim ficou a nova versão de "Strict Machine" que foi o culminar de todos os electrochoques que marcam o estilo dos Goldfrapp. Apesar do som estar demasiado alto, pareceu-me, estava assinalavelmente nítido, com a distinção perfeita entre os vários instrumentos e os vários sintetizadores, tocados pela banda vestida à anos 80.
Foi de lamentar que não houvesse encore.
Allison Goldfrapp estava fantástica como sempre, Shiny and Warm no seu poncho preto e prata e o seu estilo ébrio/perverso. Falando pouco, acabou por comunicar bem com o público através do movimento e de pequenos comentários. Escusado será dizer que apoteose foi em "Ooh La La", o único momento em que o festival se assemelhou minimamente a um festival. Não deixa de ser estranho, porque afinal a música dos Goldfrapp celebra a vida.
Como sempre, excelente.


Number One


Ooh La La


Rocket

terça-feira, 6 de abril de 2010

Goldfrapp: Head First

RECORDAR E (SOBRE)VIVER

Quando em 2000 os Goldfrapp se lançaram com "Felt Mountain", por mais que o álbum roçasse a genialidade, ninguém podia prever a influência que o duo britânico ia exercer sobre tantas bandas. A sonoridade que no primeiro álbum é melódica e sinfónica, sem dispensar todo o tipo de maquinarias ao lado da voz suave de Allison Goldfrapp no segundo disco deu lugar ao quase puramente electrónico: "Black Cherry" era uma inesperadíssima reviravolta na música dos Goldfrapp, com pouquíssimo em comum com o priemiro álbum. Depois, "Supernature" haveria de começar um processo de assimilação entre as duas vertentes, que será mais completo em "Seventh Tree", que teve direito a passagem pelo Sudoeste de 2008.
E onde "Supernature" se inclinava mais para "Black Cherry", "Seventh Tree" veio pender mais para o lado de "Felt Mountain".
De qualquer forma, "Supernature" será sem dúvida um dos discos mais influentes dos últimos anos: é fácil perceber a contaminação quer em bandas que o souberam inserir numa sonoridade diferente e pessoal, caso dos Editors em "In This Light and On This Evening" ou de "The Resistance" dos Muse, quer em bandas com um som mais verde, caso dos La Roux.




Mesmo assim, o percurso dos Goldfrapp não cai na repetição. E se "Seventh Tree" parecia um momento de descanso e de retorno ao lado intimista de "Felt Mountain", o quinto álbum de originais, lançado há poucas semanas com o vídeo de "The Rocket" vem virar tudo ao contrário. Outra vez.
Podemos colar este disco, de entre os quatro anteriores, a "Black Cherry", mas parece-me também interessante verificar as raízes de "Head First" em relação à música que não a dos Goldfrapp.
E se "Black Cherry" vinha reverter completamente todos os sentidos da electro-pop, "Head First" parece ir buscar influências muito mais recuadas, nomeadamente na disco dos anos 80. Mas não se fica pelo revivalismo, que foi a morte de muitas experiências já feitas no passado. As beats e alguns tiques facilmente associáveis aos eighties são adaptados à personalidade musical dos Goldfrapp. Assim sendo, não é raro neste disco sermos remetidos para algumas canções do passado, principalmente do segundo e terceiro álbuns.
Mas em relação a esses trabalhos, "Head First" representa um passo em frente para um som inovado, ou, se se quiser, melhorado. É a prova derradeira de que os Goldfrapp não passam muito tempo a produzir o mesmo tipo de som.
Assim, em "Head First" tanto temos momentos de maior euforia, como "Alive" ou "Rocket", como momentos em que o electrónico e o dançável se tornam estranhamente íntimos, como "Dreaming" ou "Hunt", uma das melhores canções deste disco.




O lado acústico volta a desaparecer quase totalmente, surgindo apenas de relance em algumas faixas, como o piano em "Head First" (a canção).
A voz de Allison Goldfrapp mostra-se como sempre muito competente para acompanhar as diferentes ambiências que o disco, no seu todo, atravessa. E tanto a encontramos perto daquele frenesim que ouvimos em tempos em "Ooh La La" como a encontramos no tom melancólico dos idos "Lovely Head" ou "Deer Stop", e, uma vez mais, movimenta-se muito bem em qualquer uma delas, indo do sussurro (Brutal em "Shiny and Warm".) ao grito num ápice.
Em relação aos discos anteriores, também me parece que, contrariamente ao que pode parecer numa primeira audição, "Head First" representa também uma sonoridade mais densa, e menos radio friendly do que os anteriores. "Rocket" é, nesse sentido, uma canção de excepção: não sendo a melhor do disco, é certamente uma boa escolha para single de avanço, por ser a canção mais leve ou de mais fácil audição, não sendo, no entanto, a melhor faixa.
Nesse aspecto, a composição mais complexa e que causa maior estranheza será talvez "Hunt", canção marcada por vocalizações bizarras e vários momentos de pausa.
Se voltaremos a ter algum hit com a dimensão de "Ooh La La", ainda não se sabe. Mas certamente temos um álbum muito à altura dos Goldfrapp.



o vídeo de "Rocket"


"Hunt"