quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Florbela Espanca (algumas fotografias)


 
Florbela e o primeiro marido, Alberto Moutinho. Foram casados entre 1913 e 1921

António Guimarães, o segundo marido, com quem Florbela esteve casada entre 1921 e 1925

O terceiro marido, Mário Lage. O casamento durou de 1925 até 1930, ano em que Florbela se suicida.

Apeles Espanca, o irmão mais novo de Florbela, a quem é dedicado o ''Livro de Mágoas'' (1919). Apeles morre em 1927. Florbela escreve, em sua memória, o livro de contos ''As Máscaras do Destino'', editado postumamente em 1931.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quando os dias se movem


usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
e se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparêcia (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

Vasco Graça Moura
Instrumentos para a Melancolia
1980, ed. O Oiro do Dia
pintura de Mário Botas

sábado, 9 de fevereiro de 2013

[de cima, de antes, de mais fundo]


de cima, de antes, de mais fundo
me suspendo, de um jardim, de um espelho
em reflexão, de um automóvel em corrida,
de mais fundo me suspendo, internamente,
de antes, de cima, do mais fundo estado,
como um dente a entrar no alimento,
como um rio a entrar no estado sólido,
recônditamente entro, reconcentro
os vários sítios no meu centro,
em reflexão.

Luiza Neto Jorge
O Seu a Seu Tempo
1966, ed. Ulisseia
gravura de Francisco Goya y Luycientes

Tame Impala: Lonerism

O PRAZER DA CONFUSÃO

Se houve banda que, a meu ver, mudou o rock irreversivelmente, essa banda foram os Nine Inch Nails (Talvez não devesse falar no plural, uma vez que se trata de uma one-man-band.). O lançamento, em 1989, de 'Pretty Hate Machine' é um acontecimento muito mais importante do que muitas vezes nos lembramos. Antes de Marilyn Manson, que traria também algo de muito novo ao género, Trent Reznor conseguiu, sozinho, assimilar toda a história do rock e subvertê-la de uma forma que o deixou, por assim dizer, orgulhosamente só num lugar cujo impacto está ainda por apurar. As experiências de bandas que, goste-se ou não, fizeram a história deste género e dos mais próximos (Penso nos Joy Division, nos Guns'n'Roses, nos Slayer, nos The Doors, nos Faith No More, etc.) parecem ter sido condensadas por Reznor que, por um lado, as continua e, por outro, se recusa a continuá-las. A adição da electrónica e do ritmo quase dançável , vindos de tendências aparentemente opostas ao rock, às canções brutas, agressivas e pesadas como que colocava em cena dois actores incapazes de contracenar. Se isto parecia um dramedy improvável, Reznor conseguiu produzir um álbum que, mais do que ficar na história da música, a mudou e, depois de 'Pretty Hate Machine' tem conseguido outros momentos de impressionante arrebatamento, como 'The Fragile' (1999), 'With Teeth' (2005) ou 'The Slip' (2008).
Muitas experiências que, entenda-se, são verdadeiramente originais, não teriam tido, possivelmente, espaço para essa originalidade, se os caminhos não tivessem sido já abertos por Reznor (E por alguns outros depois dele.). 

Ocorre isto para falar dos Tame Impala, especificamente do álbum 'Lonerism', lançado no final de 2012. O álbum anterior, 'Innerspeaker' (2010) mostrava-nos a tendência algo psicadélica da música da banda australiana e o uso da electrónica remontava discretamente aos NIN, sem no entanto a glosar. 
Em 'Lonerism', a inclinação para a electrónica desconcertante a soar no meio das guitarras não desaparece. Pelo contrário, intensifica-se e acontece de uma forma muito mais equilibrada e inteligente.
Be Above It, que abre o novo álbum, tem algo de ensurdecedor e de confuso, que perpassará para as outras canções. No seu todo, 'Lonerism' leva à letra a palavra psicadélico, tem momentos obsessivos e excessivos, vemos isso em Apocalypse Dreams e em Elephant principalmente, e outros que, sendo mais relaxados, continuam a ter, estranhamente, algo de descosido, de interrompido, como acontece com a canção final, Sun's Coming Up. A estranheza que causa, a início, um álbum dos Tame Impala (Mais ou menos o mesmo acontecia com o anterior.) prende-se com o facto da música dar a impressão de ser construída não com instrumentos nem com voz, mas com uma espécie de patchwork de energias contraditórias que, apesar do seu desequilíbrio intrínseco, combinadas formam canções muito perfeitas. 
A própria fragilidade da voz de Kevin Parker, espécie de eco longínquo em que as palavras se vão perdendo e metamorfoseando, parece apontar para a constante desconstrução das canções. Mind Mischief ou Why Won't They Talk To Me? são exemplos dessa desconstrução, uma vez que a própria voz parece vir quase de uma canção diferente
Ao longo de 'Lonerism', as faixas dão a impressão de aparecer e desaparecer umas nas outras. O resultado é que o álbum, longe de parecer a partir de certo ponto mais do mesmo, nos soa como um todo, efectivamente. 
Instrumentalmente, esta música vive da bizarra comunicação entre as guitarras estridentes e dos sintetizadores frenéticos, com a bateria e a voz a firmarem ou a fragilizarem essa comunicação. Feels Like We Only Go Backwords será talvez a canção onde esse jogo de atracção/repulsão fica mais à vista.
Todo o álbum parece ser feito não necessariamente de contradições, mas de antagonismos. A própria atmosfera do álbum é melancólica (As próprias letras, escritas pelo vocalista, para isso nos orientam.), mas descontraída. Why Won't They Talk to Me, Keep on Lying ou She Just Won't Believe Me, por exemplo, tratam de assuntos um tanto tristes, mas são tocados com uma sonoridade vaga e relaxada, com longos solos instrumentais que derivam da letra para outras zonas mais delirantes, por assim dizer.
Se em certos momentos nos parece ouvir na música dos Tame Impala alguns ecos longínquos _penso nos Doors, em David Bowie, nos Pink Floyd, nos Faith no More e até, em Elephant (Uma das melhores canções do álbum.) nos Goldfrapp_  a verdade é que, acima de tudo, esta música tem qualquer coisa de inqualificável e de novo.
Em 1989, 'Pretty Hate Machine' foi realmente um acontecimento e, se abriu o caminho aos Nine Inch Nails, abriu também uma série de outros para outros projectos. Os NIN não serão a referência que mais imediatamente nos ocorre, mas o trabalho de articulação entre a electrónica e o rock puro e duro, que os Tame Impala herdam directamente, foi desenvolvido em pleno por Trent Reznor (Uma vez que o glam rock não foi verdadeiramente capaz de levar essa junção ao extremo.).
Mas se 'Lonerism' mostra alguma coisa, é que os Tame Impala podem ter herdado o groundbreaking dos Nine Inch Nails, mas souberam fazer a sua própria música. E fazê-la bem, claro.




Todos por Um


A manhã está triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de recorrer à vala comum.

Mário Cesariny de Vasconcelos
Nobilíssima Visão
3a edição Assírio e Alvim,  1991
pintura de Kazemir Malevich

Decomposição das Almas


A eternidade começa na decomposição pessoal.
Quando era pequena as galinhas que passavam
sem cabeça pareciam dirigir-se a qualquer lado.
Iam apressadas na ignorância de que as galinhas mortas
estão fora do tempo porque a eternidade
só decompõe a alma.  Sacrificam-nas pelo pescoço
e o sangue espalhado guarda-se numa bacia.
Não se serve em cálice, que as galinhas não são crucificadas.
Mas graças a ti todos os dias ressuscitam no aviário.
Tal como tu, Senhor, elas também não ocupam espaço.

Rosa Alice Branco
O Gado do Senhor
2009, ed. Espiral Maior
pintura de Theodore Géricaut

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Gare Central/ Antuérpia


The Borgias, season 3

Arctic Monkeys: Temptation Greets You Like Your Naughty Friend



Do single 'Brainstorm' (2007)
Letra de Alex Turner e Dizzee Rascal

(...)
Temptation greets you like your naughty mate,
One that made you steal and set things on fire,
But one you haven't seen of late.

(...)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eléctrico


XI


(Que vontade de esbofetear estes palermas
a meu lado nos cafés e nos eléctricos, a
fingirem Vida Acesa!)


Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.

São mortos sem cemitério,
mortos da Morte Arrefecida
_a quem tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.

José Gomes Ferreira
Eléctrico
1956, Iniciativas editoriais
pintura de James Ensor

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tori Amos: Gold Dust

RAÍZES

Quando em 2011 Tori Amos lançou o seu décimo álbum de originais, 'Night of Hunters' era dificilmente aquilo que se esperaria após 'Abnormally Attracted to Sin' (2009). 'Night of Hunters' consistia numa recriação de várias peças de compositores eruditos, contava uma história com recurso a várias metáforas que existem dentro da música erudita e realçava a cultura de Amos não só enquanto cantora, mas também enquanto compositora e, essencialmente, enquanto artista.
Pouco depois do lançamento desse álbum, Myra Ellen anunciou que, no seguinte, iria gravar canções dos seus trabalhos anteriores em versões sinfónicas. Não pareceu, de todo, pouco natural esta ideia, depois de 'Night of Hunters'.


No final de 2012, chega-nos então 'Gold Dust', que vai buscar o título a uma das mais belas canções de Amos, do álbum 'Scarlet's Walk' (2002), uma canção que, já na sua versão original, era gravada apenas com piano e orquestra.
O álbum é gravado quase inteiramente da mesma forma, contando com a Metropole Orchestra conduzida por Jules Buckley e com os arranjos de John Phillip Shenale e o alinhamento conta com canções de todos os trabalhos de Amos, incluindo o álbum de natal 'Midwinter Graces' (2009), mas não 'The Beekeeper' (2005).
O alinhamento será, para aqueles que conhecem bem o percurso de Amos, talvez aquilo que nos deixa mais reticentes em relação a 'Gold Dust'. Se a música de Tori sempre teve assumidamente uma herança da música erudita, particularmente a barroca, a verdade é que nalgumas canções isso era mais notório do que noutras. O que acontece é que a maioria destas canções são precisamente aquelas onde a presença erudita e a vertente sinfónica eram mais claras, como é o caso de Jackie's Stenght, Cloud on My Tongue, Gold Dust, Winter, Marianne, Girl Disappearing ou de Flavour que, aliás, foi escolhida para apresentar o álbum. São mais raras as canções em que essa presença era menos nítida, como Precious Things, Flying Dutchman ou Programmable Soda. Por um lado, podemos achar talvez demasiado imediatista a escolha que Amos faz, dentro do seu trabalho. Gravar canções como Professional Widow, Raspberry Swirl, Teenage Hustling, You Can Bring Your Dog ou Give teria sido muito mais ousado e, provavelmente, teria causado em nós uma efeito muito mais exacerbado.
No entanto, logo que começamos a ouvir o álbum, percebemos que talvez não seja exactamente assim. As canções, apesar de já conhecidas, tem uma aspereza e uma atmosfera pesada que não teríamos, possivelmente, ouvido tão imediatamente nas versões originais. O facto é que estas versões sinfónicas realçam as emoções mais negras das canções, elas tornam-se grandiosas e angustiadas. Dessa perspectiva, entende-se melhor a selecção que Amos fez do seu trabalho: se imaginarmos as canções que usei como exemplo acima, ou outras dentro do mesmo género, refeitas desta forma, elas perdem o sentido original para ganharem outro sentido que não faz, por assim dizer, muito sentido.
Exemplo máximo disto será talvez a versão de Gold Dust, em que o esquema instrumental quase não é alterado, mas que soa, aqui, como um lamento fortíssimo que nos deixa derrotados. Imagine-se o efeito que uma roupagem destas teria, por exemplo, em You Can Bring Your Dog, e percebe-se como, efectivamente, o que motivou a escolha de Amos foi a inteligência mais do que o desejo de surpreender.
Tal como acontecia com 'Night of Hunters', este álbum funciona mais como um todo do que como um conjunto de peças individuais. Já desde 'American Doll Posse' (2007) que Tori começou a fazer uso das capacidades teatrais que teve sempre, e nos últimos dois álbum, isso é tanto mais importante. A verdade é que nunca canções como Cloud on my Tongue, Precious Things ou Winter tiveram tanta corpulência quanto têm nestas novas versões. Se estes momentos mais melancólicos são ocasionalmente interrompidos, a verdade é que canções como Flying Dutchman, Programmable Soda ou Snow Cherries From France, parecendo momentos mais cómicos, funcionam mais como forma de balanço e não se pode dizer que 'Gold Dust' tenha propriamente um lado mais animado. Nada contra, entenda-se. Este é um álbum triste e depressivo, e o que interessa verdadeiramente é se o é com qualidade. Parece ser o caso. 'Gold Dust' é, em quase todos os seus momentos, arrebatador e resplandecente. Por exemplo Star of Wonder, que à partida não seria mais do que uma canção de natal, acaba resultando perfeitamente, ao ponto em que nos esquecemos que é uma canção de natal e passa a ser mais um capítulo da história que aqui é contada.
A voz de Amos continua perfeita, muito à vontade nas canções mais pesadas precisamente e as suas capacidades como pianista estão, agora, mais claras, até pelas características da música que está a fazer. Aliás, ao ouvir 'Gold Dust', parece ocorrer-nos que é até estranho que Tori Amos nunca tenha gravado antes um álbum deste género, uma vez que parece tão à vontade e tão favorecida pelo estilo deste trabalho.


O envolvimento da pianista com uma série de projectos mais ligados ao teatro e a espectáculos de música erudita parecem, de certa forma, tê-la afastado um pouco da composição de novos originais dentro do estilo que, por agora, termina em 'Abnormally Attracted to Sin'. Por outro lado, a sua música, ao intelectualizar-se, parece estar agora a explorar as próprias raízes (É um exercício interessante ouvir este álbum em face do primeirinho 'Little Earthquakes'.) e não se pode dizer que os resultados não estejam à altura. Pelo contrário, 'Gold Dust' causa o efeito que causam sempre os álbum de Amos, que é a vontade de ouvir repetidamente.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Perfect Circle: Blue



Do álbum 'Thirteenth Step' (2003)
Letra de Billy Howerdel e Maynard James Keenan

(...)
Mistook their nods for an approval
Just ignore the smoke and smile

Call it aftermath, she's turning blue
Such a lovely color for you

(...)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Teresa Salgueiro: A Máscara



Do álbum 'O Mistério' (2012)
Letra de Teresa Salgueiro

(...)
Ocupa o teu espaço
Um lugar nesta dança
E com paciência
Imprime a urgência
Promove a mudança

Todos somos igualmente sós
Pouco a pouco vais saber quem és

(...)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Para Sophia


Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.

Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que um tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.

Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.

Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.

Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra
água.



Lídia Jorge

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

'The Hours'

E ainda a propósito do aniversário de Virginia Woolf, relembremos o filme de Stephen Daldry adaptado do romance de Michael Cunningham, 'As Horas' que acompanha os últimos dias de Virginia Woolf, além da vida de duas mulheres cuja vida, de alguma forma, se encaixa na personagem de 'Mrs. Dalloway'.
O filme conta com a brilhante interpretação de Nicole Kidman, que lhe valeu aliás o Oscar de Melhor Actriz, que quase se demite enquanto actriz e encarna com uma verosimilhança impressionante a personalidade que transpira dos textos íntimos (O Diário e as cartas.) de Virginia Woolf.
Um filme trágico sobre a procura do amor, a inevitabilidade da morte e a força dos sentimentos que perduram para além da desgraça que Mrs. Dalloway pressentia no início do romance, quando decidiu comprar as flores ela mesma.

«I Am Christina Rossetti»



Hoje comemorar-se-ia o aniversário da escritora britânica Virginia Woolf, autora conhecida por romances como 'Mrs. Dalloway', 'Orlando' ou 'Os Anos'. Ainda que tenha sido reconhecida essencialmente como romancista, a vários títulos revolucionária, Woolf foi também autora de vários contos, ensaios e reflexões.
Um pouco para celebrar esta sua data, pensei em transcrever um texto do livro 'The Common Reader', escrito em 1930, quando precisamente se celebravam os 100 anos sobre o nascimento da minha poeta preferida, Christina Rossetti [1830-1896], sobre quem Virginia fala com uma actualidade impressionante para a época, e a quem se dirige directamente.


On the fifth of this December Christina Rossetti will celebrate her centenary, or, more properly speaking, we shall celebrate it for her, and perhaps not a little to her distress, for she was one of the shyest of women, and to be spoken of, as we shall certainly speak of her, would have caused her acute discomfort. Nevertheless, it is inevitable; centenaries are inexorable; talk of her we must. We shall read her life; we shall read her letters; we shall study her portraits, speculate about her diseases — of which she had a great variety; and rattle the drawers of her writing-table, which are for the most part empty. Let us begin with the biography — for what could be more amusing? As everybody knows, the fascination of reading biographies is irresistible. No sooner have we opened the pages of Miss Sandars’s careful and competent book (Life of Christina Rossetti, by Mary F. Sandars. (Hutchinson)) than the old illusion comes over us. Here is the past and all its inhabitants miraculously sealed as in a magic tank; all we have to do is to look and to listen and to listen and to look and soon the little figures — for they are rather under life size — will begin to move and to speak, and as they move we shall arrange them in all sorts of patterns of which they were ignorant, for they thought when they were alive that they could go where they liked; and as they speak we shall read into their sayings all kinds of meanings which never struck them, for they believed when they were alive that they said straight off whatever came into their heads. But once you are in a biography all is different.
Here, then, is Hallam Street, Portland Place, about the year 1830; and here are the Rossettis, an Italian family consisting of father and mother and four small children. The street was unfashionable and the home rather poverty-stricken; but the poverty did not matter, for, being foreigners, the Rossettis did not care much about the customs and conventions of the usual middle-class British family. They kept themselves to themselves, dressed as they liked, entertained Italian exiles, among them organ-grinders and other distressed compatriots, and made ends meet by teaching and writing and other odd jobs. By degrees Christina detached herself from the family group. It is plain that she was a quiet and observant child, with her own way of life already fixed in her head — she was to write — but all the more did she admire the superior competence of her elders. Soon we begin to surround her with a few friends and to endow her with a few characteristics. She detested parties. She dressed anyhow. She liked her brother’s friends and little gatherings of young artists and poets who were to reform the world, rather to her amusement, for although so sedate, she was also whimsical and freakish, and liked making fun of people who took themselves with egotistic solemnity. And though she meant to be a poet she had very little of the vanity and stress of young poets; her verses seem to have formed themselves whole and entire in her head, and she did not worry very much what was said of them because in her own mind she knew that they were good. She had also immense powers of admiration — for her mother, for example, who was so quiet, and so sagacious, so simple and so sincere; and for her elder sister Maria, who had no taste for painting or for poetry, but was, for that very reason, perhaps more vigorous and effective in daily life. For example, Maria always refused to visit the Mummy Room at the British Museum because, she said, the Day of Resurrection might suddenly dawn and it would be very unseemly if the corpses had to put on immortality under the gaze of mere sight-seers — a reflection which had not struck Christina, but seemed to her admirable. Here, of course, we, who are outside the tank, enjoy a hearty laugh, but Christina, who is inside the tank and exposed to all its heats and currents, thought her sister’s conduct worthy of the highest respect. Indeed, if we look at her a little more closely we shall see that something dark and hard, like a kernel, had already formed in the centre of Christina Rossetti’s being.
It was religion, of course. Even when she was quite a girl her lifelong absorption in the relation of the soul with God had taken possession of her. Her sixty-four years might seem outwardly spent in Hallam Street and Endsleigh Gardens and Torrington Square, but in reality she dwelt in some curious region where the spirit strives towards an unseen God — in her case, a dark God, a harsh God — a God who decreed that all the pleasures of the world were hateful to Him. The theatre was hateful, the opera was hateful, nakedness was hateful — when her friend Miss Thompson painted naked figures in her pictures she had to tell Christina that they were fairies, but Christina saw through the imposture — everything in Christina’s life radiated from that knot of agony and intensity in the centre. Her belief regulated her life in the smallest particulars. It taught her that chess was wrong, but that whist and cribbage did not matter. But also it interfered in the most tremendous questions of her heart. There was a young painter called James Collinson, and she loved James Collinson and he loved her, but he was a Roman Catholic and so she refused him. Obligingly he became a member of the Church of England, and she accepted him. Vacillating, however, for he was a slippery man, he wobbled back to Rome, and Christina, though it broke her heart and for ever shadowed her life, cancelled the engagement. Years afterwards another, and it seems better founded, prospect of happiness presented itself. Charles Cayley proposed to her. But alas, this abstract and erudite man who shuffled about the world in a state of absent-minded dishabille, and translated the gospel into Iroquois, and asked smart ladies at a party “whether they were interested in the Gulf Stream”, and for a present gave Christina a sea mouse preserved in spirits, was, not unnaturally, a free thinker. Him, too, Christina put from her. Though “no woman ever loved a man more deeply”, she would not be the wife of a sceptic. She who loved the “obtuse and furry”— the wombats, toads, and mice of the earth — and called Charles Cayley “my blindest buzzard, my special mole”, admitted no moles, wombats, buzzards, or Cayleys to her heaven.
So one might go on looking and listening for ever. There is no limit to the strangeness, amusement, and oddity of the past sealed in a tank. But just as we are wondering which cranny of this extraordinary territory to explore next, the principal figure intervenes. It is as if a fish, whose unconscious gyrations we had been watching in and out of reeds, round and round rocks, suddenly dashed at the glass and broke it. A tea-party is the occasion. For some reason Christina went to a party given by Mrs. Virtue Tebbs. What happened there is unknown — perhaps something was said in a casual, frivolous, tea-party way about poetry. At any rate,
suddenly there uprose from a chair and paced forward into the centre of the room a little woman dressed in black, who announced solemnly, “I am Christina Rossetti!” and having so said, returned to her chair.
With those words the glass is broken. Yes [she seems to say], I am a poet. You who pretend to honour my centenary are no better than the idle people at Mrs. Tebb’s tea-party. Here you are rambling among unimportant trifles, rattling my writing-table drawers, making fun of the Mummies and Maria and my love affairs when all I care for you to know is here. Behold this green volume. It is a copy of my collected works. It costs four shillings and sixpence. Read that. And so she returns to her chair.
How absolute and unaccommodating these poets are! Poetry, they say, has nothing to do with life. Mummies and wombats, Hallam Street and omnibuses, James Collinson and Charles Cayley, sea mice and Mrs. Virtue Tebbs, Torrington Square and Endsleigh Gardens, even the vagaries of religious belief, are irrelevant, extraneous, superfluous, unreal. It is poetry that matters. The only question of any interest is whether that poetry is good or bad. But this question of poetry, one might point out if only to gain time, is one of the greatest difficulty. Very little of value has been said about poetry since the world began. The judgment of contemporaries is almost always wrong. For example, most of the poems which figure in Christina Rossetti’s complete works were rejected by editors. Her annual income from her poetry was for many years about ten pounds. On the other hand, the works of Jean Ingelow, as she noted sardonically, went into eight editions. There were, of course, among her contemporaries one or two poets and one or two critics whose judgment must be respectfully consulted. But what very different impressions they seem to gather from the same works — by what different standards they judge! For instance, when Swinburne read her poetry he exclaimed: “I have always thought that nothing more glorious in poetry has ever been written”, and went on to say of her New Year Hymn that it was
touched as with the fire and bathed as in the light of sunbeams, tuned as to chords and cadences of refluent sea-music beyond reach of harp and organ, large echoes of the serene and sonorous tides of heaven
Then Professor Saintsbury comes with his vast learning, and examines Goblin Market, and reports that
The metre of the principal poem [“Goblin Market”] may be best described as a dedoggerelised Skeltonic, with the gathered music of the various metrical progress since Spenser, utilised in the place of the wooden rattling of the followers of Chaucer. There may be discerned in it the same inclination towards line irregularity which has broken out, at different times, in the Pindaric of the late seventeenth and earlier eighteenth centuries, and in the rhymelessness of Sayers earlier and of Mr. Arnold later.
And then there is Sir Walter Raleigh:
I think she is the best poet alive. . . . The worst of it is you cannot lecture on really pure poetry any more than you can talk about the ingredients of pure water — it is adulterated, methylated, sanded poetry that makes the best lectures. The only thing that Christina makes me want to do, is cry, not lecture.
It would appear, then, that there are at least three schools of criticism: the refluent sea-music school; the line-irregularity school, and the school that bids one not criticise but cry. This is confusing; if we follow them all we shall only come to grief. Better perhaps read for oneself, expose the mind bare to the poem, and transcribe in all its haste and imperfection whatever may be the result of the impact. In this case it might run something as follows: O Christina Rossetti, I have humbly to confess that though I know many of your poems by heart, I have not read your works from cover to cover. I have not followed your course and traced your development. I doubt indeed that you developed very much. You were an instinctive poet. You saw the world from the same angle always. Years and the traffic of the mind with men and books did not affect you in the least. You carefully ignored any book that could shake your faith or any human being who could trouble your instincts. You were wise perhaps. Your instinct was so sure, so direct, so intense that it produced poems that sing like music in one’s ears — like a melody by Mozart or an air by Gluck. Yet for all its symmetry, yours was a complex song. When you struck your harp many strings sounded together. Like all instinctives you had a keen sense of the visual beauty of the world. Your poems are full of gold dust and “sweet geraniums’ varied brightness”; your eye noted incessantly how rushes are “velvet-headed”, and lizards have a “strange metallic mail”— your eye, indeed, observed with a sensual pre-Raphaelite intensity that must have surprised Christina the Anglo-Catholic. But to her you owed perhaps the fixity and sadness of your muse. The pressure of a tremendous faith circles and clamps together these little songs. Perhaps they owe to it their solidity. Certainly they owe to it their sadness — your God was a harsh God, your heavenly crown was set with thorns. No sooner have you feasted on beauty with your eyes than your mind tells you that beauty is vain and beauty passes. Death, oblivion, and rest lap round your songs with their dark wave. And then, incongruously, a sound of scurrying and laughter is heard. There is the patter of animals’ feet and the odd guttural notes of rooks and the snufflings of obtuse furry animals grunting and nosing. For you were not a pure saint by any means. You pulled legs; you tweaked noses. You were at war with all humbug and pretence. Modest as you were, still you were drastic, sure of your gift, convinced of your vision. A firm hand pruned your lines; a sharp ear tested their music. Nothing soft, otiose, irrelevant cumbered your pages. In a word, you were an artist. And thus was kept open, even when you wrote idly, tinkling bells for your own diversion, a pathway for the descent of that fiery visitant who came now and then and fused your lines into that indissoluble connection which no hand can put asunder:
But bring me poppies brimmed with sleepy death
And ivy choking what it garlandeth
And primroses that open to the moon.
Indeed so strange is the constitution of things, and so great the miracle of poetry, that some of the poems you wrote in your little back room will be found adhering in perfect symmetry when the Albert Memorial is dust and tinsel. Our remote posterity will be singing:
When I am dead, my dearest,
or:
My heart is like a singing bird,
when Torrington Square is a reef of coral perhaps and the fishes shoot in and out where your bedroom window used to be; or perhaps the forest will have reclaimed those pavements and the wombat and the ratel will be shuffling on soft, uncertain feet among the green undergrowth that will then tangle the area railings. In view of all this, and to return to your biography, had I been present when Mrs. Virtue Tebbs gave her party, and had a short elderly woman in black risen to her feet and advanced to the middle of the room, I should certainly have committed some indiscretion — have broken a paper-knife or smashed a tea-cup in the awkward ardour of my admiration when she said, “I am Christina Rossetti”.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sarah McLachlan: Circle



Letra de Sarah McLachlan
Do álbum 'Fumbling Towards Ecstasy' (1993)

(...)

I know too many people unhappy
In a life from which they'd love to flee
Watching others get everything offered
They're wanton for discovery

(...)

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Pequena Morte (9)


Pode a serenidade destas rosas
atravessar a noite
sem que a esfolhem
os comovidos ares?

Sem que este perigo
_este sabor a perigo_
empalideça as mais
sombrias pétalas?

Ou esperarão, acaso,
com seus olhos
impotentes de flor,
com seu disforme e pútrido
alimento,
esperarão, inclinados,
exalando perfumes tumulares?

Vigiarão teu cerco, salivando,
escorrendo ânsias carnais;
seguirão o teu corpo,
palpitando
inchadas como um sexo
ouvindo as garras?

Assistindo ao amor,
aos instrumentos
e paixões do amor,
à crueldade,

mordem, pedindo sangue,
essas obscenas,
ferozes bocas:

com sua antiga vocação
de rosas
_a de vestir
cadáveres,
a de ornar
os vencidos despojos,
virão, sorrindo,
sobre a minha morte.

Hélia Correia
A Pequena Morte
(publicado com 'Esse Eterno Canto' de Jaime Rocha)
1986, ed. Black Sun
pintura de Constant Montald

Sebastien Tellier: La Ritournelle



Do álbum 'Politics' (2004)

[Um fragmento]


    Sentada
no adro, vejo a igreja de São Martinho aberta,
mas tão aberta
que a Física explode. O ar é puro. O ar é raro. De uma grande raridade humana por entre as árvores de que preciso saber os nomes. O lápis corre rápido com o que tem a dizer ao espaço vazio que lá dentro guarda o segredo do humano
escreve rápido, pede-lhe o ar

bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real
bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano
bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível
bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança
bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos
bem-aventurada sejas tu, ó Terra, porque tua será a explosão que levará o vivo a todo o Universo.

   Imóvel, fico-vos a olhar, Teresa, ou Hadewijch,
mas vós não vos inquietais,
correis sobre o vivo _e arrastando o vivo que vos investe.
Peixes, no rio do tempo.
    A figura intermédia, pelo ler saudada,

é o vosso Joshua.

Maria Gabriela Llansol
Ardente Texto Joshua
1998, ed. Relógio d'Água
pintura de El Greco