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domingo, 13 de janeiro de 2013

A Pequena Morte (9)


Pode a serenidade destas rosas
atravessar a noite
sem que a esfolhem
os comovidos ares?

Sem que este perigo
_este sabor a perigo_
empalideça as mais
sombrias pétalas?

Ou esperarão, acaso,
com seus olhos
impotentes de flor,
com seu disforme e pútrido
alimento,
esperarão, inclinados,
exalando perfumes tumulares?

Vigiarão teu cerco, salivando,
escorrendo ânsias carnais;
seguirão o teu corpo,
palpitando
inchadas como um sexo
ouvindo as garras?

Assistindo ao amor,
aos instrumentos
e paixões do amor,
à crueldade,

mordem, pedindo sangue,
essas obscenas,
ferozes bocas:

com sua antiga vocação
de rosas
_a de vestir
cadáveres,
a de ornar
os vencidos despojos,
virão, sorrindo,
sobre a minha morte.

Hélia Correia
A Pequena Morte
(publicado com 'Esse Eterno Canto' de Jaime Rocha)
1986, ed. Black Sun
pintura de Constant Montald

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

[Vou no sono com dedos de fulvas cabeleiras]


Suspeitas eram às teorias dos homens certas aves ou faunos.
Ondulantes. Digamos que iguais, nunca. Evolutivos à passagem das mulheres vendendo ramos. Estremecendo ao canto das crianças.
Repudiando o tédio mágico

doméstico ou não
dessa constatação burguesa.

Isabel de Sá
O Festim das Serpentes Novas
1982, ed. Brasília
pintura de Constant Montald