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sábado, 9 de fevereiro de 2013

[de cima, de antes, de mais fundo]


de cima, de antes, de mais fundo
me suspendo, de um jardim, de um espelho
em reflexão, de um automóvel em corrida,
de mais fundo me suspendo, internamente,
de antes, de cima, do mais fundo estado,
como um dente a entrar no alimento,
como um rio a entrar no estado sólido,
recônditamente entro, reconcentro
os vários sítios no meu centro,
em reflexão.

Luiza Neto Jorge
O Seu a Seu Tempo
1966, ed. Ulisseia
gravura de Francisco Goya y Luycientes

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tene Me (fragmento)


Mesmo o ouro, o terrível, o que faz
correr baba dos dentes,
o que cai
sobre os impérios como uma mordaça
e entra nas traqueias, de maneira
que o próprio respirar sufoca os homens,
mesmo o ouro, essa febre,
se comove.
Deita-se às vezes junto aos enterrados,
cobrindo-lhes o rosto.
Há um sorriso
que constitui toda a felicidade
do morto,
amado pela sua máscara.

Hélia Correia
Apodera-te de Mim
2002, ed. Black Sun
pintura de Francesco Goya y Lucientes

sábado, 21 de janeiro de 2012

Onde Todas as Identidades se Confundem


Distingo, como autor e actor, de entre todos os versos
os de uma funesta
melza: «Doravante
terás o pénis mole, não mais filhos; e depois
morrerás.»
Distingo. Não confundo, pois, o organismo
do texto
com a eternidade do seu órgão
genital.
Acredito que, se o jogo do escritor, a partir de certa altura,
é por si mesmo
proibido de bem o representar
ou pôr em cena; o do órgão desvalorizado e aguardando
uma morte iminente
pode apodrecer, nele, como um poema
sem carne.
Esclareço e de uma forma amável
que se podem fazer versos sem órgãos, sangue,
sexo: ha (sempre houve) perfumes sem flores
e santos sem altares.
No entanto. A partir do momento em que o desejo de vida
a não penetre, a poesia torna-se,
para mim, um embuste
insuportável.

Eduarda Chiote
Órgãos Epistolares
2011, ed. Afrontamento
pintura de Francesco Goya y Lucientes

sábado, 15 de outubro de 2011

The Annihilation of Nothing



Nothing remained: Nothing, the wanton name
That nightly I rehearsed till led away
To a dark sleep, or sleep that held one dream.


In this a huge contagious absence lay,
More space than space, over the cloud and slime,
Defined but by the encroachments of its sway.

Stripped to indifference at the turns of time,
Whose end I knew, I woke without desire,
And welcomed zero as a paradigm.

But now it breaks—images burst with fire
Into the quiet sphere where I have bided,
Showing the landscape holding yet entire:

The power that I envisaged, that presided
Ultimate in its abstract devastations,
Is merely change, the atoms it divided

Complete, in ignorance, new combinations.
Only an infinite finitude I see
In those peculiar lovely variations.

It is despair that nothing cannot be
Flares in the mind and leaves a smoky mark
Of dread.
               Look upward. Neither firm nor free,

Purposeless matter hovers in the dark.

Thom Gunn
Collected Poems
1994
pintura de Francesco Goya

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

(simília similibus)


Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta - o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida
- porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento


Herberto Helder
Photomaton & Vox
1979, ed. Assírio e Alvim
gravura de Francisco Goya

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Saved From Myself



How often i've cried out
in silent tongue
to be saved
from myself

in the middle of the night
too afraid
to move

horrified the answer
may be beyond the
capability of my
own two hands
so small



(no one should feel this alone)





Jewel
A Night Without Armour
ed. Harper Paperbacks, 1998
desenho de Francisco Goya

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

death is a drummer



Não há nada a fazer: domingos. Espesso,
demasiado claro, o silêncio tomba
sobre as ruas da cidade - e Junho
é um mês difícil, digam o que disserem
os ingleses e os poetas promovidos
pela cruel certeza de Abril. Junho,
ao domingo: no meu bairro fecharam
as lojas, as mercearias e os restaurantes.
Aberta, no entanto, a agência funerária,
mesmo em frente à casa de um poeta
amigo. E as tabernas que sobrevivem-
calçada dos Mestres n.º 44,
rua de Campolide n.º 82 - com
seus restos de tristeza, serradura e óleo.


Os santos (populares) repousam hoje
nos meus ombros terminais.
Nenhum trânsito, parcos transeuntes
hesitam em poluir a minha solidão
retórica. Um fado suspenso,
dir-se-ia, o bolor que devagar se forma
em volta de um manjerico falso.


Na porta da oficina de automóveis
uma cruz de cinza fotocopiada
justifica o ócio, a urgência de uma farda
já sem manchas de óleo (mas antes fumo
e gravata). Sim, a morte. Haverá

outro assunto? Tão óbvias sempre, e
mais próximas, as carícias com que chega
ao rosto que estamos a deixar de ter.


Sem sinos nem gritos de amor
bem temperado, ouve-se na tarde
apenas o rumor íntimo e distante
de um tambor que nos chama,
incessantemente. E os poemas,
os poemas todos, lhe obedecem.


Para que seja domingo sobre a terra
que pesada e fria nos esquece,
nos esqueceu já.



Manuel de Freitas
[SIC]
2002, assírio e alvim
imagem: Francisco de Goya y Lucientes