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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Este ano


























Este ano cresceu de joelhos 
a noite conservou as quatro luas 
as crianças têm os seus cabelos 
seus gritos de paz intransmissíveis

Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
1964, ed. Portugália
fotografia minha (Âncora, Agosto 2013) sujeita a um filtro do Instagram

domingo, 7 de julho de 2013

Desvios




















Surdem da infância medos totais 
Nem mesmo o tempo ou o riso os sara. 
Homens que tinham jeito de pais 
entreabriram com arte rara 

O sobretudo, mostrando o sexo; 
E os ciganos vinham aos quintais. 
Mas foi no quarto grande o reflexo, 
Quando era noite, em dois frontais, 

Infindos espelhos o que me trouxe 
Pavores maiores, os do diabo: 
Fugas pela casa, gritos, não fosse 
Ir-me às orelhas ou ver-me o rabo



Luiza Neto Jorge
A Lume
1989, ed. Assírio e Alvim
desenho de Emma Kwiatkowska

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Canção para o dia igual






















maria pobre de corpo
não tem mãos

ainda agora nasceu
não tem mãos

maria pobre de corpo
não tem cabelos

viajam no vento as tranças
com selos de nostalgia

maria pobre de corpo
entorna os braços pelo dia

longo ritmo de sede
e vida maria

Luiza Neto Jorge
A Noite Vertebrada
1960, ed. autora, col. A Palavra
desenho de Daniela Gomes

sábado, 9 de fevereiro de 2013

[de cima, de antes, de mais fundo]


de cima, de antes, de mais fundo
me suspendo, de um jardim, de um espelho
em reflexão, de um automóvel em corrida,
de mais fundo me suspendo, internamente,
de antes, de cima, do mais fundo estado,
como um dente a entrar no alimento,
como um rio a entrar no estado sólido,
recônditamente entro, reconcentro
os vários sítios no meu centro,
em reflexão.

Luiza Neto Jorge
O Seu a Seu Tempo
1966, ed. Ulisseia
gravura de Francisco Goya y Luycientes

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sátrapa



Olhos e ouvidos do rei
comedor de aranhas
irmão dos faquires


vê um ex-ditador
(todo de estrangeiro
sobre um dicionário)
a lamber os pires


De sono e silêncio
a boca fechada


a cria do pobre
inventa-se em cio
come-se à dentada


Sátrapa
Babilónia é rica
e Lisboa tem
cem muros de sombra


olhos e ouvidos do rei
escuta


Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
1964, Portugália  editora
pintura de Francis Bacon

sábado, 12 de março de 2011

O Poema I


Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
1964, ed. Portugália
fotografia de David Penprase

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Poema 1


Pássaros mutilados. Em todas as paragens
do horizonte um homem cai para trás

Punhos maduros rebentados de sol
sobre os telhados verdes sangue ainda

Punhos riscados de solidão vasta
favos húmidos de não sei quê no mundo

Sombras caídas por terra
como frutos indóceis
sombras abertas todas
mortas manhã cedo
Luiza Neto Jorge
A Noite Vertebrada
1960, col. A Palavra
pintura de Francis Bacon

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Difícil Poema de Amor


Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me. Não me tens amor.

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço

nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.


Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

Luiza Neto Jorge
Os Sítios Sitiados
1973, ed. Plátano
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Lume II


Vivo em lama
à beira do derrame.
Na cratera.

Vivo em cama
de pregos, vidros,
dentes de fera.

Vivo em chama.
Pegou-se o fogo ao fato
que morte e vida
irmana.

Luiza Neto Jorge
A Lume
1989, ed. Assírio e Alvim
Pintura de Edvard Munch

sábado, 7 de agosto de 2010

O Poema Ensina a Cair


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

O Seu a Seu Tempo

1966, ed. Ulisseia
pintura de Victor Brauner

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Diálogo com o Melhor Amigo



as árvores piam (não têm mãe)
as sombras envelhecem

o meu amigo
(o melhor amigo)
na vala comum
do medo
apodreceu

(quando eu vier não me reconhece)
colheitas de sombra
estios de paciência
e um gato familiar
fatal
arranhou seus olhos

corpos de água e vento
sonhos convexos e côncavos

(meu amigo teu sorriso lento
quando eu nascer não me saudará)





Luiza Neto Jorge
in Antologia de Poesia Universitária
1964, Portugália editora

fotografia de Slava Mogutin

domingo, 2 de agosto de 2009

luiza neto jorge


Pode
pode sentar-se senhora


Eu não sou senhora eu não sou menina
sem olhos sem ouvidos fala
sento-me que de pé sou um balão vazio
pois sento-me embora haja frio
e calor na sala
harpias de esquecimento
riscos na carteira
e a ciência inteira casqueando ideias
puzzles legiões de ideias
que são novas velhas
Sento-me
................. evidentemente
................. circunspectamente
................. irremediavelmente
senhor professor doutor

Eu não sou senhor professor doutor
minha não-senhora minha não-menina
e se estou de pé é ilusão de óptica
eu estou sentado todos nós sentados
isto é não rígidos não equilibrados

Decerto que é isso que o senhor me diz
.......... ao princípio é mundo
.......... ao princípio é deus
.......... ao princípio é homem
.......... ao princípio é fim
Passam aviões o céu está vermelho
.......... que será de mim
.......... artista batido
.......... persiana branca
.......... uma mulher nua
.......... perdição do homem
.......... ao princípio é ela
.......... e depois sou eu
Já sabem que o outro era esse mesmo
construíu um vácuo e deitou-se a esmo
......... de cabeça ao caos
......... os homens são maus
......... não são não senhor pode ser que seja
......... apenas temor
......... o que é é pode ser que seja
......... apenas não ser

........ pleno é vazio
sei lá o que é pleno
sei lá o que é vazio
pode ser plano pode ser navio
sei lá que é destino dão-lhe muitos nomes
........ um só lhe convém
as árvores cortam o meu pensamento
o tinteiro tem qualquer sangue dentro
mas no homem não há tinta livre
......... fácil liberdade
......... há facilidade
......... há atrocidade
são palavras válidas colhidas no vento
sim professor senhor professor doutor

Estou de pé dentro nem de alma alguma
cinzeiro de cinza cindida
não vale a pena dizer que me sinto
homogéneo átomo
como um voo sem asas

aflito esquisito heraclito
não grito dizem que é feio um homem gritar
........ mas eu sou mulher
já me esquecia eu não sou mulher
de análise psíquica
quid emocional
não olhem para mim
......... a voz perdeu-se
......... a voz encontrou-se
......... nada é por mal

........ e mais
se não fosse estrada de mil direcções
........ era um verme triste
........ um cão acossado
........ o qual possuía uma biblioteca
eu também algures uma discoteca
sem caos sem destino o que vai ser de nós

Meu amor vivias antes de Cristo
......... não percebo isto
......... a morte que é vida
a terra redonda o barco na onda
cai um grão de pó em cada demora

......... senhor professor doutor
......... senhor professor
......... senhor
......... se

Já passa da hora


de Quarta Dimensão

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Magnólia/ Magnolia´s Dead


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


Luiza Neto Jorge, "O Seu a Seu Tempo"
ulisseia, 1966


imagem:
Graça Martins, Magnolia´s Dead
2005

sexta-feira, 17 de abril de 2009

luiza neto jorge por rodrigo leão


o poema "A Magnólia" de O Seu a Seu Tempo (1966), interpretada por Rodrigo Leão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

o poema



Morreu com o dia
o sol fiel que nos aquecia
e veio outro sol
depredador

Também ele nos deixou
em cena, sós
extintos actores

E veio outro sol
desfigurado
e outro dia sem cheiro e sem sabor

A fulgurância do supremo actor
um fio de voz a repercute
no coração de quem lhe escute
anterior às réplicas o tremor.






de "A Lume", Assírio e Alvim, 1989

LUIZA NETO JORGE
10.5.1939- 23.2.1989