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sábado, 22 de dezembro de 2012

It's Allright, Ma...


Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.



Manuel António Pina
Cuidados Intensivos
1994, ed. Afrontamento
fotografia de Slava Mogutin

sábado, 22 de setembro de 2012

Fluxo



















Há quanto tempo te perdi esqueci
Do coração a areia em vagas
fixas o sangue molha
como as margens frias o
rio
que da fonte escorre ainda
como um sulco de esperma
sobre a pele
do perdido desejo traça a via

Com o manto
da terra te confundo
manto da noite que
te envolve e és
como o dia submetes-te
ao abrupto
movimento da noite sobre o céu

núcleo da névoa como um nó
de cinza
labririnto da água foz do fogo
caos irreal da
vida
mais irreal
perder-te que reter
no teu interior o amor
absorto


Gastão Cruz
Órgão de Luzes
1981, ed. &etc
fotografia de Slava Mogutin

sábado, 25 de agosto de 2012

Lament for my Cock

 
Lament for my cock
Sore & crucified
I seek to know you
acquiring soulful wisdom
you can open walls of
mystery
strip-show


How to get death
On the morning
show


T.V. death
which the child

absorbs
 
death-well
mystery
which makes
me write

 
Slow train
The death of my cock
gives life


Guitar player
Ancient wise satyr
Sing your ode
to my cock
caress its lament
stiffen & guide
us

 
Lost cells
The knowledge of cancer
To speak to the heart
& give the great gift
words

 
power
 
trance
 
This stable friend
& the beasts of his zoo
wild, haired chicks
each color connects
to create the boat
which rocks the race

 
could any hell be more
horrible than now
& real

 
"I pressed her thigh
& death smiled"

 
death, old friend
death & my cock
are the world

 
I can forgive
my injuries
in the name of
wisdom

 
luxury
 
romance
 
Sentence upon sentence.
Words are healing.

 
Words got me the wound
& will get me well

 
If you believe it.
 
All join now in lament
for the death of my cock
a tongue of knowledge
in the feathered night

 
boys get crazy in the head
& suffer
I sacrifice my cock
on the altar
of silence


Jim Morrison
The Village Reading (gravado em fita magnética em 1970)
Últimos Escritos
1993, ed. Assírio e Alvim
desenho de Brian Kenny e Slava Mogutin

terça-feira, 31 de julho de 2012

Coisas minhas I



A FINE DAY TO EXIT*

A cidade parece
uma miniatura na esfera
de vidro e eu caminho nela,
encurralado. À espera.
Assim
me afundo, páro

no café onde não estás
e sei que este
é um bom dia para ir embora.

Estou noutro lugar,
entre segredos que dizem
o teu nome.

Estendo os braços,
já nem à tua procura,
apenas na tentativa de estar menos só
num tão bom dia para ir embora.

Debruçado na janela vejo
os carros, as luzes

e sobe o eco das conversas.
Quero descer,

inclino-me próximo da queda
No espelho há um rosto
a perder-se no teu,

e penso então que este é
um bom dia para ir embora.

Porque a cidade tem ainda
as suas zonas de sombra
onde é possível um abraço,

devo acreditar que haverá
um bom dia para ficar.
 


[João Borges: Lisboa, 1.3.2011]
*é o título de uma canção e de um álbum, de 2001, dos Anathema
fotografia de Slava Mogutin

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hora Grave


Quem chora agora algures no mundo,
     sem motivo chora no mundo,
     chora por mim.


Quem ri agora algures na noite,
      sem motivo ri na noite,
      ri de mim.


Quem vagueia agora pelo mundo,
      sem motivo vagueia pelo mundo,
       vem até mim.


Quem morre agora algures no mundo,
       sem motivo morre no mundo:
       olha para mim.

Rainer Maria Rilke
(trad. Maria João Costa Pereira)
O Livro das Imagens
2005, ed. Relógio d'Água
fotografia de Slava Mogutin

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Direito de Resposta



Com as mãos fechadas
se constrói a nossa única
verdade: o amor desencontrado


Apertamos as mãos suadas
uma contra a outra
para as molharmos
nas mãos reinventadas


e vamos no frio do Inverno
e nos seus gumes
ao encontro um do outro
e somos só os desencontros


Nas roupas já suadas descobrimos
a fúria de viver e os mil perfumes
do fundo destas mágoas
e a verdade passa a ser


o modo como calamos e fugimos
das palavras e dos gestos   Já sabemos
que nada pode mais acontecer
só o gosto da pele em que existimos

António Carlos Cortez
À Flor da Pele
2007, ed. Casa do Sul
fotografia de Slava Mogutin

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Tarde Longa


Se eu for à casa do amor
Hei-de encontrar-te sentado
À espera que eu me dispa
Conforme foi combinado

E se a tarde for inteira
Essa pátria a que pertenço
Ficaremos abraçados
Estendidos como num lenço

Ah, quem me dera que os céus
Fossem mais largos, mais fundos,
Despidos somos de deus,
Vestidos somos do mundo

Mas de nós mesmos seremos
Se a tarde for tão comprida
Que o mesmo lenço se estenda
Ao longo de toda a vida

Lídia Jorge
no álbum ''Senhora da Noite'' de Mísia
2011
fotografia de Slava Mogutin



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Penumbra



O silêncio esvai-se na penumbra
e o olhar cresce. Invernoso regressa sobre uma asa
apenas.
É o olhar cego da memória
que ordena esse jardim.


No extremo da razão quase se acende um rio nocturno
e a boca pena solitária
a lentidão do apodrecimento.

Rui Magalhães
A Voracidade Tranquila do Olhar
1988, ed. Limiar
fotografia de Slava Mogutin

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

[A paisagem de vidro, levíssima asa.]



A paisagem de vidro, levíssima asa.
Era um lábio de rapaz devorando outro rapaz, era uma árvore crescendo em sangue só de fios.
Em direcção ao espelho o corpo transformava-se. A voz perturbava, ainda. Havia excessiva luz e uma frescura impossível.

Isabel de Sá
Nervura
1984, ed. Mirto
fotografia de Slava Mogutin

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

[Correste depressa demais]


Correste depressa demais
na ânsia de tudo alcançar

Mas por entre os dedos se escoou a vida
nem saudades nem rancores ficaram

Nada viste nada sentiste
e em tudo um sabor a fastio

Papéis amarfanhados
palavras inacabadas
lixo...

E para quê tanta sofreguidão?

Só ficarás perante as trevas
frente ao mistério inexplicável
e nem um ombro firme onde te apoiares
só ficarás perante ti

HENRIQUE RISQUES PEREIRA
Transparência do Tempo (poesia)
2003, ed. Quasi

fotografia de SLAVA MOGUTIN

sábado, 30 de julho de 2011

Um poema a quem de direito


REFERÊNCIA


Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

O que chega primeiro
e só parte por vezes
antes de eu perceber
que já tinhas voltado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Aquele que me beija
e me possui
me toma e me deixa
ficando a meu lado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Que sempre me enlouquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado

MARIA TERESA HORTA
Só de Amor
1999, ed. Quetzal

fotografia de SLAVA MOGUTIN

sexta-feira, 8 de julho de 2011

necrópole


ateada e vivente alguém me enterra
nestas vilas sem flor entre os cadáveres
que ninguém reconhece apodrecidos
na dissimulação.

de entre as parreiras, indistinto é o sangue.
rumores nos cercam: vivos? perfilados
de encontro às amarelas mãos da giesta
-da gesta- expiram; pulmão branco, o vento
carrega os vapores ásperos da cal.

também os animais não surgem.
fêmeas mastigam na poeira o lento
minguar dos corredores, velozes membros,
e, endurecido o leite, as crias velam,
que estrebuçam formais e transparentes.

é verão acaso?
esta secura, os fósseis sobre a lama,
o cio inexistente, os mutilados
buscando os seus pedaços nas encostas,
-é do tempo que faz, ou de uma história
de onde as estações fogem, repugnadas?

matilhas passam: alcateias lúcidas
pelo pescoço trazem indefesos
ao centro das ruínas- resto e fama
de uma caçada medieva e imensa.

nem dos céus descaiu esta catástrofe,
nem dos elementos térreos, mas dos príncipes
que roubaram da morte os negros ritos
da tradição.
aqui fogueiras roxas carbonizam,
lascivamente, os últimos vassalos.
«lugar de todos é a pátria.» eis pois
este lugar comum: a vala.
término.

esquecem-se, porém, senhores, dos filhos
que agora deambulam nas coutadas
alimentados pelo mel e as seivas
e abrigados nas tocas dos arbustos,
crescendo a sós, com arranhões e luta,
tempo por tempo -e as vossas vestes de oiro
em seus pequenos pensamentos pálidos
na memória da infância: permanente.

é de prazo a questão -vossa a vitória

(esquecem-se, porém, dos nossos filhos)

NÃO VOS ESPANTEM, POIS, RESSURREIÇÕES.



Hélia Correia

in "&etc", nº 10

1974

fotografia de Slava Mogutin

sexta-feira, 22 de abril de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Poema Sobre o Ciúme


Que dizer do ciúme
se não faca

se não fome ou fogo
ou ferro aceso

Que dizer do ciúme
que eu não faça
ou afunde no corpo em que me enterro

Que dizer do ciúme
se não lava

se não fenda ou febre
do teu ventre

Que dizer do ciúme
que eu não abra
ou procure em ti raivosamente

Maria Teresa Horta
Minha Senhora de Mim
1971, ed. Dom Quixote
fotografia de Slava Mogutin

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Rave dos Pobres


Antes a floresta engastava na casa
agora surgem eliminando espécies
à toa na gente quase bêbeda
as garras cortam o impedir da marcha,
por causa dos incêndios replicam
os que dizem velar tanta harmonia
cedendo terra aos palmos
conforme rasam cunhas ou quantias.
A casa, as ruínas da casa foram resistindo
por vezes coito de ladrões,
à volta pastores ucranianos
ovelhas mutiladas seguem trôpegas
rotas de quem conhece pouco a região
imitam o tempo que lhes pertenceu
guiando tristes réplicas
à fidelidade inútil dos vencidos.
Aos pobres dão vestígios
a televisão falara de raves
e eles viam ricos, camisas marcadas
a música altíssima, pastilhas no sangue
escorrendo alegria por quanto era poro.
Não havia caminho senão o da terra
à frente da casa nos carros vetustos
jornais acabados perfaziam restos
garrafas partidas juncavam mortalhas
e apenas tocava um altifalante
a música exausta
zurzia ao acaso a mesma canção.
Despojos do tecto
o toldo riscado
deixara escapar culturas já gastas:
as praias da Foz há mais de cem anos
as divas nas rochas
colhiam o dedo os aristocratas
ainda mais cedo, Veneza no auge,
ídolos pintavam cabelos ao sol
as caras à sombra de certos lavrados
brocando na face as sedas exímias
simulam presença na tenda fendida.
Cortando à navalha aqueles destroços
a casca do tempo despiu a beleza
num bosque de perigos
flores mais caninas
prendiam nos estames
os pobres de rastos
perdidas na casa
sobravam nas teias
aranhas rendidas
a sonhos catárticos.

Fátima Maldonado
Vida Extenuada
2008, ed. &etc
fotografia de Slava Mogutin

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Diálogo com o Melhor Amigo



as árvores piam (não têm mãe)
as sombras envelhecem

o meu amigo
(o melhor amigo)
na vala comum
do medo
apodreceu

(quando eu vier não me reconhece)
colheitas de sombra
estios de paciência
e um gato familiar
fatal
arranhou seus olhos

corpos de água e vento
sonhos convexos e côncavos

(meu amigo teu sorriso lento
quando eu nascer não me saudará)





Luiza Neto Jorge
in Antologia de Poesia Universitária
1964, Portugália editora

fotografia de Slava Mogutin