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sábado, 22 de dezembro de 2012

It's Allright, Ma...


Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.



Manuel António Pina
Cuidados Intensivos
1994, ed. Afrontamento
fotografia de Slava Mogutin

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina

(1943-2012)

O seu primeiro poema começava assim
 
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
 
isto, em 1974. Em 2012 não estamos, os vivos, muito melhores. Manuel António Pina escreveu sobre isso, tanto na sua poesia, como nas suas crónicas. O seu olhar, arguto, melancólico, lúcido e até saudoso deixa-nos algumas páginas (Poéticas e não só.) que muito terão a dizer sobre estes tempos, que não estão bons para nós, estejamos mortos ou vivos, páginas que inclusivamente lhe mereceram, no ano passado, o Prémio Camões.
Hoje, Manuel António Pina junta-se a esses de quem falava no seu primeiro poema. A obra fica-nos e, esperar-se-ia, talvez nos ajude a melhorar os tempos.




terça-feira, 20 de março de 2012

Não o Sonho


Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina
Atropelamento e Fuga
2001, ed. Asa
desenho de Robbert van Wynendaele

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Último dos Homens


Não há nada e não o sei
e a ciência de tudo é impossível e a
ciência da ciência da impossibilidade de tudo
Já fiz tudo, já estive aqui, já li tudo!

Aquele que quer morrer
dança sobre os destroços de tudo.
Ó insolência da escrita! Lá vens tu, ó fa-
diga, ó lágrimas!

Difícil solidão (de cócoras) a do escriba,
atravessa o deserto às costas do melhor amigo.
Tem que se lembrar de tudo
pequenas frases, umas primeiro outras depois.


Manuel António Pina
Aquele Que Quer Morrer
1978, ed. A Rega do Jogo
fotografia de Hans Bellmer