Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Manuel Magalhães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Manuel Magalhães. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Páramo


Na varanda sem paz eu vejo o mar
mas já não vejo junto desses olhos
que viam o mar amordaçar-me.
A varanda, todavia, ainda traz
na ondulação, nas maresias
a ilusão de um silêncio
em que tu pretendias: aqui,
nesta lei tão dura, senti
que nada mais terei do que ser de ti.
A varanda continua a sua conjura,
eu continuo o desgaste do mar
só que noutra jura a tua vida dura
e até o mar te deixou de esperar.

O vário vento que vem e que voa
sobre argolas com vasos de gerânios
que tombam vagarosos e rosas
sobre ruas ruidosas de Lisboa
toca ao de leve no copo por que bebo
esquecido e sozinho ali
onde dantes vinhas com o maior apego
ouvir ao fim da tarde eu olhar para ti.

Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem
havia um andar quase arruinado
com o estilhaço, a cólera, o fermento
de quem se resignava também
a que não valesse a pena nada.
No vagar desse desmoronamento
essa ruína foi tua e foi minha,
o seu reboco de cal, a pele refém,
a cisterna petrificada.
Amávamo-nos entre eléctricos que passavam
do nascer do dia até ao nascer do dia.

Não há nada que se peça que nos seja dado
mesmo quando gritamos alto por perdão.
Merecemos tudo o que ficou fragmentado
no pensamento que não sabe inebriar-se
quando os sentidos perderam o condão.

Essas ruas de Lisboa que findaram
como findaram os dedos que prenderam
o bordão de ternura
que tantos outros nos cortaram.

Tal qual o prédio caímos
e apenas o pó
desenha entre o que nem persigo
um resto que sabe que está só
porque nenhuma solidão vem ter consigo.

Joaquim Manuel Magalhães
Alta Noite em Alta Fraga
2001, ed. Relógio d'Água
pintura de Domingos Pinho

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Acendimento



Seria bom sentir no quarto qualquer música
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detrás das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que não cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
É isso que te levo, isso que me dás
quando dizes, já sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de mercúrio trespassa.
Na gravilha passos que não há
esmagam a música que ninguém escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,
a insónia repentina, o entorpecimento.

Ouve a espessura dos nervos, a sua câmara
de conchas escavadas, a roseira azul do vime,
pastos químicos que transformam
o gradeamento acolhedor detrás do cérebro
na fauce lacerada
por onde o alibi imóvel parece fugir.

Ao lado cantam os arpões.
Eu passo com as mãos no seu cabelo.
E o passado é um tempo que não passa
em cada uma das dores que me pertence
e me roubaram.

Aquele que tem fome desconhece
o alimento, pede apenas folhas,
a farinha de um vestuário com uso
e desmedido.
Mas o que sempre comeu
não sabe os caminhos que sangram
e um dia a morte só lhe trará terror.

Acordei cansado com os sonhos.
O rosto que foi amado e se perdeu
cintilava na roldana de corrente cega,
a floresta em carvão acorrentava
o pavor agrícola da pobreza,
e dentro do sonho um sonho mais disforme
mãos que sabiam sempre agarrar tudo
o que não fosse qualquer outra mão.

Sorria para o asfalto. Com o casaco
desabotoado e o embrulho em cima da carrinha.
As nuvens corriam pelo chão de aguaceiro.
Findavam para si minúsculas assombrações.
Correu a mão sobre a testa, ergueu
o cabelo que fervia.
Vi-o inclinado sobre nada,
o pó fazia goma nos seus pés,
estava eu defrontado com um vulto
entregue à felicidade.

Quando me viu levou o embrulho
para o banco de trás e trancou as portas.
Tinha a cara azul, os olhos de vinho antigo,
fez-me um sinal desconhecido
antes de reabrir a porta e me fechar
na cidade inteira onde já não existia.

Um fato de flanela cai muito bem
numa tez esguia, batida pela neblina.
Cortei-lhe as calças com a lâmina pequena
e guardei a maior para a suavidade tardia
junto do empedrado
onde num clamor sem verdade
o morto caminho de volta diz
tristes de todas as coisas.

Os braços por cima do seu tronco
a lua nova as constelações o ruído da terra
um vivo círculo mortal em seu redor.

Joaquim Manuel Magalhães
Alta Noite em Alta Fraga
2001, ed. Relógio d'Água
pintura de Frans Snijders

terça-feira, 8 de março de 2011

Cinco


Vais cada vez mais cedo para a rua
dantes só o outro dia te levava.
Não tem mal, deixa-me falar
das pessoas encontradas num jardim
escondo-me no verde dos seus olhos
se fossem os meus, esses acordavam
com a folha de fogo na videira
na latada ao dia mais brilhante
de maio quando as aves voltam
e a glicínia começa a cair.

É assim, eu sei. Depois de se querer tudo
queremos só o corpo e depois nem isso,
apenas que te lembres
de certo canto de rua, da garrafa
num café de bairro, do papel
que tanto recado te levou,
do jardim ao anoitecer
enrolávamos cigarros
na folha de papel "conquistador".

Virás ainda a amar, como por mim,
quem mais amei e se foi embora.
A cabeça curva-se ao desígnio.
A mão de cada um entende essa desordem.
A primeira palavra diz-nos tudo,
a segunda já quase nada diz
dizemos depois dela "até outra altura".
Na tenaz noite quem ganhou
ganhei-te eu ganhaste-me tu, a mim?

Se um dia a oliveira selvagem
souber tão bem a ti como sabe à cabra
cala-te, vai com a criança jogar ao pião.
Leva o teu jogo para tão longe
que não o siga a história.
O combate da razão e da melodia
reanima o coração ameaçado.
Pareces livre na vaia dos relâmpagos.

Um jardim de goivos e de cardos
e rícinos num nódulo de chorões
abre um refúgio junto da falésia.
O mar encapelado finda numa lâmina
sobre o promontório.
E vês alguém sentado numa rua
refaz um charro a muito custo
assobia baixinho uma canção antiga.
Joaquim Manuel Magalhães
António Palolo (1978)
in Consequência do Lugar
2001, ed. Relógio d´Água
pintura de Edward Hopper

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um poema


“Deita-te comigo nesta cama de pedra.”
Canta de novo esse convite, tantos anos passados,
de novo nas ruínas da rua do emprego
onde fiquei de te esperar.

Está deitado aqui o corpo que recorda, está deitado.
Os ornamentos de metal, a música portátil,
o tambor de uma criança na rua,
o risco amarelo da coberta.

O braço que descai debaixo do pescoço
o coração cujo ritmo decresce
os olhos em que dói a luz do candeeiro
os pés à procura da lã do cobertor
o esperma que seca sobre o peito
o sono entrecortado da respiração.

Trocas de luz errante, ervas sem nome
que me dizias serem feno grego, junça, melodia.

Joaquim Manuel Magalhães
Uma Luz com um Toldo Vermelho
1990, ed. Presença
fotografia de Nan Goldin

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Poema


Foste para a América como um camponês
dum romance que li no avião
até à cidade onde me esperava
o teu amigo.
Tinha sido ontem.
Ninguém sabia ao certo, os andaimes
ao alto dos andares, talvez findasses
antes de bater no chão.
O cabelo loiro rasgado de sangue.

Um miserável vapor o corpo vai.
Um grau inferior e rutilante
findara.
Nunca mais sigo a teu lado
na ferida da adolescência.
Volto os olhos para o nome dos barcos,
a colina com árvores baixas,
sombras de mulheres com cestos,
gaivotas pousadas no armazém.
O lençol com que te taparam
leva contigo
a maldição dos movimentos reais.

Não te vás embora.
Aquele inverno foi o mais feliz,
pela primeira vez tinha uma lareira,
vinha a voz aceitadora do teu pai
trazer-me de manhã duas laranjas,
as galinhas no quintal a comer milho,
a lua sobre o mar no espelho da sala.

A solitária vida e o teu amigo
diziam-me para entrar naquele bar
com músicas de ninguém.


Joaquim Manuel Magalhães
Intervalo e Tentativa
1977, ed. Inova
pintura de Carla Gonçalves

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Gelo com Flores


Diziam no café que estava prestes
a ser servido, mas o quê?
A tua nuca? Essas mãos
desamparadas sobre a mesa puída
com nós embaciados de furtivos usos
e conversas engalanadas e malsãs?

Não posso dizer que tenho ainda,
sequer neste interior nocturno com abóbadas,
o ímpeto de dor que noutras ruas
à claridade do sul perto do mar
(como eu odeio a claridade, o sul e o seu mar)
me fez sossobrar ao segredo do álcool.
Mas porque não jurar-te - é o crepúsculo -
que certos fogos próximos do fim
ganham duma inércia consumida
o maior poder de cremação.

De repente um holofote mais baço
acendeu-se contra o alvo de centro perdido.
Atira o dardo, é a tua vez. Porque esperas?
Queres que seja eu, em tudo, a manejar?
E tu de mãos tão hábeis, o pulso grosso e mesteiral,
o cabelo farpado sobre as sobrancelhas de vinil.

Com as calças vermelhas, a camisa de riscas ferozes
e a gabardina abandonada num banco de balcão,
o tocador de alaúde saúda um tempo que passou,
alegra o tumulto contido do salão onde as bebidas,
as refeições ligeiras, os últimos encontros do dia
se preparam para amanhã, para um quase sempre
de entradas e saídas acompanhadas de risos
e olhares onde a ternura se esquiva para a rua.

Agora é tarde. Sobe para além da noite
o nevoeiro habitado na comporta
onde correm lamas e a ferrugem
de todas as coisas abandonadas.
Quando sorriste por entre os remos,
a convulsão viscosa dos detritos
cresceu em arbustos vermelhos
com as bagas crepitando na sombra;
e uma rede de pássaros invisíveis
cantou para ninguém, nos cimos,
na flutuação de chamas inesperadas

Joaquim Manuel Magalhães
in "As Escadas Não Têm Degraus" nº1
ed. Cotovia
pintura de Mark Rothko

quinta-feira, 4 de março de 2010

Joaquim Manuel Magalhães: Um Toldo Vermelho

COMO DESTRUÍR UMA GRANDE OBRA EM MENOS DE 200 PÁGINAS

Que Joaquim Manuel Magalhães ande de candeias às avessas com a própria obra poética não constitui novidade. Já em 1981 veio declarar excluída toda a sua produção desde 1970. Reescreveu os poemas, deu-lhes novas roupagens, fez inúmeros cortes, resultado “Alguns Livros Reunidos”, um livro onde apresenta as, em princípio, definitivas versões dos seus anteriores poemas. A edição, esgotada, foi depois reeditada pela Relógio d´Água em 2001. Outros livros, entretanto, iam sendo publicados, a maioria na colecção Forma da editorial Presença, e, ao que parece, iam construindo uma nova obra sobre alicerces renovados. Quando tudo parece ter corrido bem, nomeadamente com o livro “Uma Luz com Um Toldo Vermelho”, Magalhães anuncia um novo livro, “Um Toldo Vermelho” em que reunirá toda a sua obra.
Dado à estampa ainda esta semana, “Um Toldo Vermelho”, edição da Relógio d´Água, tem numa das últimas páginas esta alarmante nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.” Mas não estamos, afinal, perante uma poesia reunida. É um manual que explica, capítulo a capítulo, como destruir uma grande obra em menos de 200 páginas.
Ainda que o livro faça alusão a livros passados (Caso de “Envelope”, “Alta Noite em Alta Fraga” e “Segredos, Sebes, Aluviões”- que passa a “Segredo, Sebe, Aluvião”.), qualquer semelhança a qualquer um desses livros é pura coincidência.




“Um Toldo Vermelho” começa, logo nos primeiros poemas, por se mover contra os princípios críticos que o próprio Joaquim Manuel Magalhães há tanto tempo anda a alarviar. São pequenos poemas, quase haikus, anti-discursivos, e, em boa parte, inconsequentes (Alguns fazem lembrar levemente uma página de agenda.). Além disso, como João Luís Barreto Guimarães muito bem viu, é difícil ler estes poemas, pelo menos os iniciais, sem pensar nos tiques do Poesia61, esse happening que, a julgar pela crítica de Magalhães, terá sido do pior que aconteceu à literatura portuguesa.
Mais ainda, a poesia de Joaquim Manuel Magalhães sempre se mostrou altamente original, com ecos muito longínquos apenas. Ao ler este livro, é difícil não pensar em outros autores.
Por exemplo, num poema como este

A manzilla
adquire um toque suicida.
A goela vomita ressaca,
evaporou uma cúpula de linho,
o café um algar telegráfico,
subvertes a sucata submersa
da colecção
(pag. 87)

ou este

Fiada ficava/ hirta, imperativa
hipnótica sirga/ siena carcomido (…)
(pag.89)

é difícil não pensar nos poemas de Fátima Maldonado, primeiro pelo ritmo corrido, e depois pelo léxico que é, nessa poeta em específico, muito demarcado. Ou então num dos poemas inciais, onde lemos

O voo da ampola
na reflexão de um aro,
batalha.

Pêndulo,
tarefa laqueada.
Fossil o ardil em dualidade
(pag. 12)

facilmente nos ocorre a fase inicial de Maria Teresa Horta, profundamente simbólica e enumerativa.
Nalguns casos, também, fica-se com a sensação de se estar a ler um Herberto Helder sem fôlego, algo que relembra um pouco Jorge Melícias, por exemplo aqui

A nortada no alcantil.

Do areal ao campo lavrado
alimenta-se de larva de besouro.

Ao relento catos e o tojo
dobram
e a viseira domina.

O bálsamo,
o inóquo equilíbrio do ar.

Planta migratória,
aí o fuselo pousará.
(pag. 131)

O primeiro dos casos que referi, da página 87, é também exemplo de algo que acontece com frequência neste “Um Toldo Vermelho”: a destruição completa de poemas brutais que estavam em livros anteriores, neste caso, Maig de “Uma Luz Com Um Toldo Vermelho”.
Serve-me esse poema também para referir outro dos aspectos que mais decepciona nesta poesia reunida: o corte de toda e qualquer pulsão erótica. Se falássemos, antes deste livro, de poesia erótica em Portugal, dois nomes eram obrigatórios: o de Joaquim Manuel Magalhães (Numa perspectiva homo-erótica.) e o de Maria Teresa Horta. Depois deste livro, a grande poesia erótica portuguesa é a de Maria Teresa Hora.




A leitura destas quase duzentas páginas não pode senão deixar um travo muito azedo na boca.
É evidente que todos, incluindo Joaquim Manuel Magalhães, sabemos que por ele ter renegado toda a sua anterior obra não signifique que ela deixe de existir. Há livros ainda disponíveis na Presença e na Relógio d´Água e, quanto mais não seja, na BNP ou na Gulbenkian. E claro que o poeta, qualquer poeta, é livre de fazer da sua obra o que quiser, mesmo que seja reduzi-la a lixo, como é o caso. Valham-nos esses livros antigos de Joaquim Manuel Magalhães para o ter como referência, porque, se nos basearmos somente neste, está ao nível de qualquer candidato medíocre a poeta.
Na minha opinião o realmente grave, mesmo assim, é que Joaquim Manuel Magalhães tenha vindo retirar a sua obra poética que era, inegavelmente, uma das mais assinaláveis entre nós, em vez de retirar, por exemplo, todos os disparates críticos que tem vindo a vomitar ao longo dos anos. E à luz deste “Toldo Vermelho”, a primeira coisa a fazer seria enaltecer nomes como o de Fiama, Gastão Cruz, Teresa Horta, entre outros, que realmente agora surgem nas entrelinhas de um poeta que já uma vez foi grande.
Por outro lado, quem sabe se Joaquim Manuel Magalhães não estará a tentar ser um novo Herberto Helder ao, renegando todas as obras, inflaccionar os preços dos seus anteriores livros. Como diz uma sábia amiga minha, "sabe-se lá o que vai na cabeça de uma pessoa...."