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domingo, 8 de abril de 2012

Pródromo


Vamos ficar sozinhos no mundo,
estrídulo ermo na ignição do pó.

Batem as pancadas na cabeça,
de noite, de dia.

Autismo. Olhar de sangue. Gestos
de náufrago na secura.

A terra? Vai ser máquina, sem boca
nem olhos. Só garras, a esgravatar
no cérebro. A devorá-lo ficam
a alucinação «in progressu»,
as pulverizações.

Invoco só os construtores de vento.
Vento para atear o pó do império,
furacões varrendo os mapas,
cidades e países e empresas,
vendavais
pra enxotar os bois do investimento,
as vacas que mugem no emprego,
as mulas do crescimento,
a formiga eléctrica do lucro.

A cabeça não explode,
por causa do cabelo.

Júlio Henriques
Modas & Bordados d'Alice Corinde
1995, ed. Fenda
pintura de Frans Snijders

sexta-feira, 2 de março de 2012

A Terceira Miséria, 23



A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.



Hélia Correia
A Terceira Miséria
2012, ed. Relógio d'Água
pintura de Frans Snijders

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Acendimento



Seria bom sentir no quarto qualquer música
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detrás das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que não cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
É isso que te levo, isso que me dás
quando dizes, já sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de mercúrio trespassa.
Na gravilha passos que não há
esmagam a música que ninguém escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,
a insónia repentina, o entorpecimento.

Ouve a espessura dos nervos, a sua câmara
de conchas escavadas, a roseira azul do vime,
pastos químicos que transformam
o gradeamento acolhedor detrás do cérebro
na fauce lacerada
por onde o alibi imóvel parece fugir.

Ao lado cantam os arpões.
Eu passo com as mãos no seu cabelo.
E o passado é um tempo que não passa
em cada uma das dores que me pertence
e me roubaram.

Aquele que tem fome desconhece
o alimento, pede apenas folhas,
a farinha de um vestuário com uso
e desmedido.
Mas o que sempre comeu
não sabe os caminhos que sangram
e um dia a morte só lhe trará terror.

Acordei cansado com os sonhos.
O rosto que foi amado e se perdeu
cintilava na roldana de corrente cega,
a floresta em carvão acorrentava
o pavor agrícola da pobreza,
e dentro do sonho um sonho mais disforme
mãos que sabiam sempre agarrar tudo
o que não fosse qualquer outra mão.

Sorria para o asfalto. Com o casaco
desabotoado e o embrulho em cima da carrinha.
As nuvens corriam pelo chão de aguaceiro.
Findavam para si minúsculas assombrações.
Correu a mão sobre a testa, ergueu
o cabelo que fervia.
Vi-o inclinado sobre nada,
o pó fazia goma nos seus pés,
estava eu defrontado com um vulto
entregue à felicidade.

Quando me viu levou o embrulho
para o banco de trás e trancou as portas.
Tinha a cara azul, os olhos de vinho antigo,
fez-me um sinal desconhecido
antes de reabrir a porta e me fechar
na cidade inteira onde já não existia.

Um fato de flanela cai muito bem
numa tez esguia, batida pela neblina.
Cortei-lhe as calças com a lâmina pequena
e guardei a maior para a suavidade tardia
junto do empedrado
onde num clamor sem verdade
o morto caminho de volta diz
tristes de todas as coisas.

Os braços por cima do seu tronco
a lua nova as constelações o ruído da terra
um vivo círculo mortal em seu redor.

Joaquim Manuel Magalhães
Alta Noite em Alta Fraga
2001, ed. Relógio d'Água
pintura de Frans Snijders