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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Poema


Foste para a América como um camponês
dum romance que li no avião
até à cidade onde me esperava
o teu amigo.
Tinha sido ontem.
Ninguém sabia ao certo, os andaimes
ao alto dos andares, talvez findasses
antes de bater no chão.
O cabelo loiro rasgado de sangue.

Um miserável vapor o corpo vai.
Um grau inferior e rutilante
findara.
Nunca mais sigo a teu lado
na ferida da adolescência.
Volto os olhos para o nome dos barcos,
a colina com árvores baixas,
sombras de mulheres com cestos,
gaivotas pousadas no armazém.
O lençol com que te taparam
leva contigo
a maldição dos movimentos reais.

Não te vás embora.
Aquele inverno foi o mais feliz,
pela primeira vez tinha uma lareira,
vinha a voz aceitadora do teu pai
trazer-me de manhã duas laranjas,
as galinhas no quintal a comer milho,
a lua sobre o mar no espelho da sala.

A solitária vida e o teu amigo
diziam-me para entrar naquele bar
com músicas de ninguém.


Joaquim Manuel Magalhães
Intervalo e Tentativa
1977, ed. Inova
pintura de Carla Gonçalves

sábado, 14 de agosto de 2010

Arte de Inventar os Personagens



Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente por os seus nomes
e os personagens aparecem


Mário Cesariny de Vasconcelos
Manual de Prestidigitação
1956, ed. Contraponto
retratoplastia de Carla Gonçalves


terça-feira, 4 de maio de 2010

Animais da Terra



Estranho fruto
o que amadurece entre as mãos
e a madrugada:
é uma ideia,
sempre a mesma ideia da terra
pressentida nos uivos dos animais
que tu aceitas

porque se move a pedra
e só o cão está atento
enquanto os marinheiros fumam
junto ao cais

parecem velhas histórias
de raparigas nuas
mas é o tempo
a vaguear na inquietude.
A eternidade é só a demência do homem
diante do império
que temivelmente repete
a continuidade

Por quem temem os animais?
pobres mensageiros sem palavra
em que primeiro a terra se ressente.
E ainda o marinheiro
passa a mão pelo pêlo húmido
do ar do cais

Com estas mesmas palavras
alguém dirá um dia
uma outra terra
a ideia
que acolheste nas mãos
e o tempo trabalhou
na tua ausência.






Rosa Alice Branco
Animais da Terra
ed. Limiar, Maio de 1988


imagem de Carla Gonçalves

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

um fragmento sobre a imortalidade



Era preciso prevenir as pessoas destas coisas. Ensinar-lhes que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que ainda acontece. Que não se anuncia como tal, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que existe no pormenor, mas apenas no princípio.
(...)
Que a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, que não é uma questão de imortalidade, que é questão de outra coisa que permanece ignorada.


Marguerite Duras
"O Amante"
imagem: Carla Gonçalves