segunda-feira, 18 de agosto de 2008

este coleccionismo

Foi em 1978, quatro anos depois de abrir, que a mítica editora &etc iniciou a colecção subterrâneo três. Advirá este nome, certamente, do facto da sede da editora se localizar no subterrâneo três de um edifício numa das ruas da baixa lisboeta. O que é certo é que a colecção existiu até 1989, começando com "O Corpo O Luxo A Obra" de Herberto Helder e terminando com "Código Evidente" de Dimíter Ángelov, e contando, no final, 42 obras publicadas.

Pela colecção passaram nomes tão sonantes como Isabel de Sá, António Ramos Rosa, Nuno Júdice, Helga Moreira, Eduarda Chiote, Jorge Fallorca, Regina Guimarães, Luís Miguel Nava ou Gastão Cruz.

Os livros são folhetos, com poucas páginas e poucos poemas. Poucos e bons. Seguem-se algumas capas, que demonstram o apuradíssimo sentido estético que complementa a qualidade dos textos.









Legenda:

"O Corpo O Luxo A Obra" Herberto Hélder 1978 (esgotado)

"Equizo Frenia" Isabel de Sá 1979 (esgotado)

"O Voo de Igitur Num Copo de Dados" Nuno Júdice 1981 (esgotado)

"Órgão de Luzes" Gastão Cruz 1981 (esgotado)

"A Inércia da Deserção" Luís Miguel Nava 1981 (esgotado)

"Altas Voam Pombas" Eduarda Chiote 1983
"Intimidade da Fala" Wanda Ramos 1983 (esgotado)

"Aromas" Helga Moreira 1985 (esgotado)

"Anelar, Mínimo" Regina Guimarães 1985

"Alpende" Jorge Fallorca 1988

"Código Evidente" Dimíter Angelov 1989 (esgotado)




a verdade

it´s so hard to love when
love was your great disappointment
.
.
.
.
.
1984 do álbum "Rattlesnakes"

ecos do simbolismo



Gostava de música, quando tocada num quarto
andar, à noite, entre poucos amigos e uma garrafa
de aguardente. Nunca lera Rimbaud: a literatura,
para ela, era um equívoco. Mas escrevia poemas; e neles,
entre citações e lugares comuns, inscrevia-se
algo da sua alma. Amei-a; não especificamente o ser
físico, o corpo, a pele, embora me lembre dos seus
lábios e, por vezes, das mãos. Mas havia um modo
de estar, uma inquietação, fragmentos de uma alegria
indefinida que, por fim, se transformava num silêncio
de desespero- tudo de acordo com a época,
penso. Desenhos obscuros em guardanapos de papel,
crises de misticismo sobrevivendo à tardia luz
do crepúsculo, livros de bolso, três ou quatro cafés por dia.


Nuno Júdice
"O Voo de Igitur Num Copo de Dados"
1981, edição &etc- esgotado
Imagem: "A Noite" de Ferdinand Hodler

sábado, 16 de agosto de 2008

o poema



Mas sente agora a minha crueldade
sem defesa,
porque to confesso e confesso em verdade
e com verdade: se de alguma coisa tive medo
foi do teu riso trémulo
e poroso como um
desmaio,
do recorte dos ombros,
da tua camisola verde- de um poema
de Byron.
E, sobretudo, sim, da tua grande, da tua imensa
tristeza.
E só por isso
me doeu o deserto que te (e me) arrastava; tantas as mágoas,
as afinidades,
as cumplicidades.
Porque nós somos únicos
e raros.
Juro.


excerto de "Únicos e Raros"
Eduarda Chiote, "O Meu Lugar à Mesa", edições Quasi, 2006
Imagem: Helena Almeida, "Dias Tranquilos", 1981

3 poemas



1.
As manhãs avançam incendiadas de ausência. Estremeço em ti, em mim.
Estar com os outros é muitas vezes não estar- é encontrar-me absolutamente só num espaço imenso de procura ou aridez. Passo pelos dias inteiramente estranha e nada me é por completo real. Pareço não ter qualquer ligação com o tempo.


2.
Acredito sobretudo na grande solidão.
Digo-te não saber exactamente que tipo de equilíbrio procuro. A noite forma-se agarrada ao desejo de tactear-te a boca, a geada de riso. De voz.
Muitos dias se acumulam à procura de um gesto decisivo. De um sonho.


3.
Tenho mais uma noite amarga para meu conforto.




Isabel de Sá, "Desejo Ou Asa Leve"
1982, Fenda Edições- esgotado
Imagem: Francis Bacon

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

rendo-me

a abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing está absolutamente perfeita. por favor, tentem ver as repetições na tv ou no YouTube

smokes in the afternoon

Não devem levar isto demasiado a sério. Isto foi uma brincadeira em fotografia/ vídeo que fiz com a Ana Sofia Rafael em Novembro de 2007. São dez fotografias, além de um vídeo não publicado por motivos tecnicos de demorar muito tempo a carregar aqui. Poderei acrescentar que este pequeno “projecto” gastou vários cigarros e uma tarde com a luz apropriada.

gates of the country/ nan and brian in bed



April
Back in New York
The 31st floor
It seems somehow everything's changed
The kitchen too small
Plates on the wall
The sound of machinery


May
Where have you been?
Who were you running with?
Wasn´t he someone you used to call home?
Where is the ring?
Where is the boy who went travelling alone?


She is much better without me.
She walks through the gates of the country
Her hands at her side
And I smile as I watch her walk by
Somehow I see there are ships in her eyes
She is better off now


June
The curtain is shut
The patterns are cut
The maid who will wake you at dawn
Pulls out a chair
Pulls down your hair
It´s just like you wanted


July
What´s going on?
What are you running from?
Why are you sleeping alone on the floor?
Some people change
Others hang on till they can't anymore


She is much better without me
She walks through the gates of the country
Hands at her side
And I smile as I watch her walk by
Somehow I see there are ships in her eyes
She is better off now.

She is much better without me
She walks through the gates of the country
Hands in the air
And I smile as I watch her walk by
Somehow I see there are ships in her eyes yeah
She is much better now.




Gates Of The Country, por Paul Durham para os Black Lab (álbum: Your Body Above Me, 1997)


Nan and Brian in Bed, de Nan Goldin, 1983

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Passagem pelo Sudoeste 3 (algumas fotos)

bjork


Passagem pelo Sudoeste 2 (apontamento)

Brilhante instalação/happening/performance em pleno Festival do Sudoeste. Uma plataforma de banhos transparentes. À entrada, um rapaz recebe o mulheru ou o homeru com um olhar sorumbático. Estes entram, pisando um tapete rolante. Primeiro molham-se, depois uma menina ou duas meninas seringam-nos com gel de banho, molham-se de novo, secam, e saem com um cartão enorme que diz ENROLA-TE COMIGO.
Enquanto isto, três sapos gigantes passeiam e falam com as pessoas.
Influências claras de Robert Mapplethorpe pelo erotismo de todos os envolvidos; de David Lynch e Louise Bourgeois na naturalidade com que sapos e pessoas conversam. Brilhante.

Passagem pelo Sudoeste 1 (os concertos)

CLÃ
dia 7

Os Clã são certamente uma das melhores bandas portuguesas, mais do que afirmadas. Este concerto foi mais uma prova. Com passagem por vários dos pontos altos da sua carreira, de "Sopro do Coração" a "Tira a Teima", Manuela Azevedo e comparsas não deixaram de brilhar.
Além da versão a guitarra acústica e voz de "Sopro do Coração", destaque para "h2omem", com Arnaldo Antunes como convidado, "GTI", previsivelmente um dos melhores momentos e "Dançar na Corda Bamba", que o público parecia esperar desde o início.



BJORK
dia 7




Claramente o melhor momento de todo o festival, Bjork entrou no palco após um espectáculo de marionetas vivas suspensas sobre o público com percussão e uma trapezista. Dentro de um escultórico vestido (ou kimono) que lhe dava um dos aspectos mais invulgares que já teve, entrou com "Earth Intruders", single de avanço de "Volta", que haveria de dar o mote para uma autentica manifestação tribal do mais bizarro possível.
Sofrendo incríveis transmutações, a noite permitiu-nos ouvir clássicos como "Army Of Me" mais rock que outra coisa, "Hyperballad" com ritmo dançável a terminar, "Pluto" mais agressivo do que o normal, "Pagan Poetry" indescritível, "Immature" sempre interessante, "I Miss You" absolutamente inesperado, "Hunter" um verdadeiro transe, "Who Is It" mais ritmado, "Vokuro" comovente, "All Is Full Of Love" agora com um cravo a marcar o ritmo, "Pleasure Is All Mine" do controverso "Medulla", agora mais sinistro do que nunca, entre as canções do mais recente "Volta", que incluiam "Wanderlust" e "Hope", onde se fez acompanhar por Toumani Diabaté em deliciosos solos de kora. Para os aopteóticos encores, reservou "The Anchor Song" e "Declare Independence", onde as minhas cordas vocais se danificaram consideravelmente.
Sobre Bjork, uma palavra: deus!
É caso para lhe dizer "OBRIGADO", se possível com o mesmo sotaque giríssimo com que ela foi dizendo, em várias entoações.



GOLDFRAPP
dia 8

Allison Goldfrapp e Will Gregory, acompanhados pela sua banda, registaram o momento alto do segundo dia de festival. Ainda que, infelizmente, a maioria do público estivesse à frente do palco apenas para assegurar um bom lugar em Chemical Brothers, o concerto dos Goldfrapp valeu por si próprio.
Começando com "Utopia", fez passagem pelos restantes três álbuns da banda. O defeito é que este concerto parecia promover "Supernature", em vez de "Seventh Tree", apesar da interessantíssima decoração do palco.
Fora isto, nada se pode apontar à performance da banda, em momentos tão bons como "A&E", "Satin Chic", "Train" ou "Number1". Destaque, no entanto, para "Ooh La La" e "Strict Machine", a terminar em grande. Uma pena ter sido tão curto.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

E + 10 Discos Para o Verão

Tarde, claro, vem a tradição anual do Camel e Coca-Cola dos dez discos para ouvir durante os meses que, por definição e para a generalidade, são os de não fazer nada. Música para o sol e para as noites quentes, então.


A NAIFA, "Canções Subterrâneas" 2004



São palavras de pessoas como José Luís Peixoto, Rui Lage, Adília Lopes ou Carlos Luis Bessa, interpretadas numa sonoridade de "fado, baixo e bateria". Com um sabor definitivamente suave e brilhante, "Canções Subterrâneas" marca o início de uma banda incontornável.

KINGS OF CONVENIENCE, "Riot In an Empty Street" (2007)


O som quente e simples de sempre. Certamente uma das bandas nórdias mais sonantes, os Kings of Convenience têm em "Riot On an Empty Street" mais um bom álbum, com canções tão atraentes como "I´d Rather Dance With You", uma das melhores desde "I Don´t Know What I Can Save You From".

ANNIE LENNOX, "Songs Of Mass Destruction" (2007)



O álbum mais recente da antiga metade feminina dos Eurythmics. Annie Lennox envereda pelos arranjos enormes e pela grande produção, mas sem perder nenhuma das características que a tornavam Annie Lennox. "Songs Of Mass Destruction" é decididamente uma boa opção para olhar para o mar ou o que quer que seja.

NICK DRAKE, "Pink Moon" (1972)


Último álbum de originais do cantor que nos deixou cedo demais. Indubitavelmente o senhor de algumas das melhores canções que já se fizeram, Nick Drake tinha, como poucos, o dom de cantar os sentimentos de clausura e de tristeza como se fosse um mestre zen. Palavras para quê?


TORI AMOS, "Scarlet´s Walk" (2002)

É certamente um álbum muito politizado. Mas canções como "Taxi Ride", "A Sorta Fairytale", "I Can´t See New York" ou "Don´t Make Me Come To Vegas" não podem faltar a ninguém. É mais um álbum da grande Mayra Ellen, o mais brilhante e meigo de todos, provavelmente.


CAROLINE, "Murmurs" (2004)

Não, não tem mesmo nada a ver com a Bjork, é outra coisa. Caroline tem a suavidade na voz, o minimalismo no gosto, e decididamente, uma calma tremenda na sua música. "Murmurs" é feito de paisagens idílicas e de sons optimistas. Portanto, muito lógico.


JOANNA NEWSOM, "The Milk Eyed Mender" (2004)

Idílica também, mas definitivamente mais bizarra. Joanna Newsom acompanhada da sua harpa ou do seu piano ou do seu cravo em 12 canções que ficam para a história, uma por uma. Correndo o risco de parecer taxativo, não é um álbum para quem adormece facilmente com um pouco de calor e uma música em que a tónica fica na suavidade.


JEWEL, "Pieces Of You" (1994)

Álbum de estreia de miss Jewel Kilcher, longínquo e no entanto, com um som sem tempo. É simples, é apenas Jewel e a sua guitarra, aqui e ali um ou outro arranjo de piano, de bateria ou de baixo. Inesquecível por peças como "You Were Meant For Me", "Foolish Games" ou "Little Sister".


RUFUS WAINWRIGHT, "Want Two" (2005)

O génio por excelência, Rufus Wanwright tem em "Want Two" o mais barroco e luminoso dos seus álbuns. O ponto de rebuçado do compositor que se começava a revelar em "Cigarrettes and Chocolate Milk" ou "Greek Song". Os arranjos são grandiosos e o som agradável e medievalista. A ouvir.


MORCHEEBA, "Charango" (2002)

Skye Edwards brilha com os Morcheeba neste álbum que foi, para muitos dos fãs o climax da carreira da banda. A voz meiga e profunda cose-se com a electronica discreta e os ritmos envolventes. O resultado é óptimo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

já agora

passem pelo blog da pintora Graça Martins, acabado de construir. Conta já com uma previsão da próxima exposição.

domingo, 3 de agosto de 2008

o poema



Vão os pássaros crivando
o ar de sons,
moradores das árvores
que há séculos
perduram: populosas cidades
onde pulula
o corvo, o melro, o rouxinol,
refúgios musicais
cuja sombra atinge
a criança despida
e a piscina sangrenta
onde nadou
de "Modas e Bordados d´Alice Corinde"
Fenda Edições, 1995- esgotado

sábado, 2 de agosto de 2008

cut writing

I´m so sad, like a good book I can´t pull this day back. Look how it ends, see the way it kills. Thought I´ve tried, fallen I have, sunk so low, I messed up. I cannot dessapear, I´ve tried again and again and again and again. I´ve been down so god damn long that it looks like up to me . I was alone, falling free trying my best not to forget lips are turning blue, a kiss I can´t rennew, I only think of you. You give yours I give you mine and we´ll fast forward to a few years later, and no one knows except the both of us.
All the king´s horses and all the king´s men, they couldn´t put our two heart together again, so I got me some horses to ride somewhere too close, not far away. And clever got me this far, then tricky got me in. Then your look chenged into leftovers of a war in our name, I refuse. Here, there´s a time when independence fells a lot like lonelyness. Bleeding is breathing, I saw you crawling to the door. And you should know that love will never die, but see how it kills you in the blink of an eye. You came on your own and that´s how you´ll leave.

A partir de músicas de Tori Amos, The Gift, Sarah McLachlan, Jewel, The Doors, Placebo, Muse, Alanis Morisette, Aretha Franklin, Caroline Lufkin, A Perfect Circle, Blind Zero, Lou Rhodes, Natalie Imbruglia, The Cardigans, The Editors.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

2 poemas de Safo

1.
Querida mãe, a teia
não mais teço. Por um rapaz
de amor me dobra
a sempre terna Afrodite.

2.
(...)
De uma erva de rara essencia
o corpo, que aroma, te ungi
e teus longos cabelos perfumei
E terna ao meu lado deitada
num leito macio, como tu em mim
não mitigavas tua sede e fome
SAFO, líricas em fragmentos, tradução de Pedro Alvim, edição Vega, 1991

definitivamente

"Criminal Minds- Mentes Criminosas" é razão para voltar a ver televisão. Na Sic, depois de 3494949485725362 novelas, à uma da manhã...