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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Indispensável


Elementos Naturais e Outros Figurantes
pintura e assemblage da pintora e poeta Isabel de Sá
inaugura na Galeira Porto Oriental, amanhã

segunda-feira, 20 de abril de 2009

também

na Galeria Trindade, Miguel Bombarda



Silêncio (Ou As Variações de Goldberg) de Isabel Quaresma




Le Theatre de Salpêtrière de Cláudia Melo

Isabel Lhano: Nós

A mais recente série de pintura de Isabel Lhano encontra-se agora exposta no Solar de Santo António,Rua do Rosário, Miguel Bombarda.

Ao longo do percurso de Isabel Lhano pela pintura, é perceptível uma obcessão pela intimidade. No entanto, as formas de a representar têm sido variadas, desde figuras de silhueta estilizada, às mulheres e homens de inspiração renascentista, até à fase em que inicia, mantendo o estilo escultórico, imagens hiper-realistas, que depois passam a desenvolver-se em monocromatismo.

Seguindo esta fase mais recente iniciada em 2005 com "Elogio do Essencial", "Nós" desenvolve-se numa linha em que a volumetria, aspecto essencial na obra da pintora, é conseguida através de gradações numa única cor. No entanto, relativamente à exposição anterior, "A Concha Quadrada", nota-se aqui uma drástica depuração: Isabel Lhano prossegue nas suas abordagens directas da intimidade, mas desta vez, fá-lo apenas com a representação de dois pares de mãos. E é o suficiente.

Através das posições muitas vezes confusas mas sempre de grande precisão, são transmitidas imagens de um maior desejo, ou agressividade, ou paixão, ou fuga, ou o que se quiser. Esta multiplicidade e complexidade de nós e de cruzamentos também resulta numa quase metáfora para um sem-número de elementos que não mãos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Peter Zumthor: só até amanhã



no LX FACTORY



O arquitecto Peter Zumthor, nascido na Suíça, já trabalhou em vários projectos de reconstrucções, reformulações urbanas, recebendo assim uma noção ampla das características de materiais muito diversificados, o que, a par com a influência da Arquitectura Modernista e a incorporação de formas retiradas de elementos naturais (Pedras, árvores,etc.), o fez chegar ao tipo de construcções que podem agora ser observadas na exposição "Peter Zumthor: Edifícios e Projectos 1986-2007" em maquetes, projectos ou apresentações de vídeo.





Não em português, mas em castelhano, pela editora Gustavo Gili, pode-se ainda ler o ensaio "Pensar a Arquitectura", publicado em 2005.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Damião Porto: Circus, Espaço Balizado

"A Maquilhagem do Anão Pichio"

A nova exposição de Damião Porto localiza as suas imagens num espaço que o próprio título diz balizado: o circo. Não se trata de uma visão superficial ou habitual deste assunto, obviamente. De facto, pelo tipo de imagens apresentadas, nota-se uma investigação e selecção de ícones ligados ao circo.
Há algo de repulsivo e algo de comovente nestas imagens que Damião Porto pinta ou desenha. E se podemos falar das influências de Júlio Pomar ao observar as particularidades técnicas dos trabalhos, é muito mais importante referir as reminiscências ideológicas que nos conduzem a Toulouse Lautrec e Seurat, influências mais ideológicas. Há a mesma atmosfera de tristeza e de maldade que a cor e o espctáculo tapam, seguindo um pouco aquela ideia dos Queen quando dizem "the show must go on".
Assim sendo, o circo é retratado não enquanto espectáculo, mas enquanto espectáculo sustentado por seres humanos, com estados de espírito por vezes dissidentes daqueles que é suposto provocarem. Aí reside o ponto forte destas imagens: as figuras coloridas e cheias de folhos e adereços que nos olham com ódio, ou com medo, ou com raiva, ou também com alegria, claro.
A ver no Solar de Santo António, até 14 de Julho.

sábado, 26 de abril de 2008

Ricardo Barros: Identidade Oceânica





Os portugueses, por ocasião geográfica, foram sempre vivendo um pouco do mar, fomos os primeiros a ir atravessá-lo para saquear outras terras, e só com o final da Guerra Colonial deixamos esses saques.Ricardo Barros não é, portanto, o primeiro artista português a debruçar-se sobre a questão atlântica, mas fá-lo de uma forma distinta, e muito expressiva.



São óleos pintados como se fossem aguarelas, poderiam lembrar Turner, mas estes são mais pesados, sem dúvida.
E são pesados porque nestes trabalhos, o mar, enquanto vastidão, enquanto massa ilimitada (Ou quase ilimitada.), surge como elemento separador: saudade, distância, ausência, espera, possivelmente um pouco de morte, todos confundidos na superfície do mar, aos olhos de um observador que parece procurar instrospeção.
Nascido no Porto, Ricardo Barros partiu em 2001 para os Açores, onde começou a produzir os trabalhos expostos agora sob o título "Identidade Oceânica". O tema principal é, como se disse o mar. No entanto, a estas paisagens juntam-se machas de tinta formando grafismos bizarros, desenhos em aparente esboço, com reminiscências renascentistas, "O Pintor Morreu" com uma bela influência da pintura barroca, e ainda vários retratos do compositor Johannes Brahms e do escritor Antero de Quental.
Quem lembra pessoas como Natália Correia ou José Medeiros, vindos dos Açores para o continente, certamente lhes lembrará um discurso poético e muito individual. Estas características pertencem também a estas obras de Ricardo Barros, mas de uma forma inversa, porque se sente uma certa tensão, uma certa sensação de evasão emotiva a transpirar através das pinceladas soltas mas exactas.
No caso dos trabalhos não figurativos, pode-se quase falar de uma atitude expressionista, ainda que não seja exactamente isso; e, definitivamente, pode-se falar de uma criação impulsiva, em que a cor e a forma se juntam, deixam espaço para muitíssimas interpretações, e, indo mais longe, parecem estar intrinsecamente ligados aos restantes trabalhos, não sendo a abstracção uma forma de desligar estas imagens das imagens figurativas.
No fundo, ver esta exposição é como visitar várias alas de uma mesma casa, ainda que esta não tenha existência física, tem, certamente, muita consistência.
Para ver na Galeria Artes do Solar de Santo António até 20 de Maio.

O VÍDEO da exposição, com as obras e imagens da inauguração pode ser visto no YouTube, em http://www.youtube.com/watch?v=9xCqgQMW1Sc&feature=user

terça-feira, 22 de abril de 2008

Rute Rosas: Não Há Príncipe Azul no Elefante Cor-de-Rosa



Com um longo percurso ligado á instalação, á escultura têxtil, e á utilização de diferentes materiais num só trabalho, Rute Rosas tem fomentado a imagem de uma artista com muito de português, e fiel a determinados imaginários. Numa perspectiva tridimensional, a artista portuense explora questões que já vimos noutros artistas, como sejam Sónia Boyce ou Helena Almeida. A intervenção plástica que faz dessas liturgias, no entanto, tem sido o ponto forte de Rute Rosas. Trabalha continuamente com o tridimensional, trata a instalação por tu, não se limitando a criar vídeos, ou fotos ou esculturas, mas complementando-os e criando uma ambiência.
No entanto, “Não Há Príncipe Azul No Elefante Cor-de-Rosa”, exposição inaugurada no dia 19, o que vemos não é igual a algo que já tenhamos visto.
Quem conhece o Espaço Ilimitado, sabe que não é uma galeria vulgar: trata-se de uma casa antiga utilizada como local de divulgação cultural, e está incluída no Circuito de Miguel Bombarda, nome mais que familiar a qualquer pessoa interessada nas artes que viva no Porto, ou que por lá passe. Não ao acaso Rute Rosas terá escolhido este espaço para mostrar ao público esta instalação: a sua intervenção passa pela total remodelação do espaço: desde o papel de parede, aos candeeiros, aos móveis, ao fogão, aos biscoitos, aos licores, tudo faz parte deste trabalho, não só os objectos grandes como também outros pequenos, tão pequenos que, se não se for cuidadoso, nem se dá por eles. Ou seja, mais que uma simples instalação, “Não Há Príncipe Azul no Elefante Cor-de-Rosa” é uma casa toda, talvez de um casal, ou de uma pessoa sozinha talvez que não pertença a este tempo, ou nele não decorou a casa, mas sim de um outro tempo, mais passado, mais ainda muito familiarmente português: logo na entrada num pequeno relicário, um menino jesus em palhas tem em cima um pano bordado pela artista onde se lê “era uma vez”. Este tipo de bordados, que a artista define como esculturas, serão encontrados um pouco por todo o espaço, com inscrições em pano e não só, bem como os fragmentos na parede de entrada, ou as fotografias emolduradas da artista a bordar.
Visitar esta exposição é pois penetrar num ambiente com o qual os tempos modernos já não nos permitem conviver no dia-a-dia.


Ao mesmo tempo, o título remete-nos para uma história da tradição oral (O que já acontecia em “São Rosas, Senhor” de 2005.), e para uma ausência ou uma esperança vã, como nos remete o facto de estarmos numa casa em que nos é dada a sensação de que estamos num local privado no qual não deveríamos estar sem permissão, sob o perigo do(s) dono(s) nos surpreender(em) e acusar(em) de invasão de privacidade, e no entanto, há todo um vazio que é quase abandono que também povoa o espaço, indicado precisamente pelo desfasamento do tempo, evidente em muitos elementos que não revelo para não destruir a surpresa a quem quer que leia isto e queira ir ver a exposição.
Uma segunda parte do projecto encontra-se no centro do Centro Comercial Bombarda, uma peça que percebemos estar quase deslocada do Espaço Ilimitado, sob o título “…abre a janela, inspira e…!”, e ainda uma terceira parte está á venda no Matéria Prima do Edifício Artes em Partes, com o nome “para princesas, príncipes e ladrões de sonhos”.
A não perder nestes três locais do Circuito, até 24 de Maio.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Das Margens de Vitor Ribeiro

Falar de margens, como falar de tantas outras coisas, pode ser falar de tantas coisas quantas pessoas falarem delas. No entanto, quando se fala de margens, a primeira imagem que nos surgirá, digo eu, será mesmo a das margens de um rio. Mas podemos encarar a margem como um comportamento que foge ao comportamento usual.
E estas duas ideias distintas, parecem ser igualmente aplicáveis á mais recente exposição de Vítor Ribeiro.






"Árvore das Margens"


O artista portuense, nascido em 1957, mostra assim 17 esculturas e alguns desenhos projectuais, em Brecha de Santo António.
São principalmente, imagens de árvores. Árvores que podem muito bem ser o que existe nas margens de um rio. E estas árvores são esculpidas aproveitando a textura do material, a rugosidade ainda não polida, e construindo os ramos de uma forma simplista, quase tosca, não fosse a delicadeza das curvas e contracurvas. Mas não há nenhuma preocupação em ser muito realista. É-nos dada a certeza de que estamos perante a escultura de uma árvore, na maioria das vezes sem serem esculpidas muitas folhas ou uma reprodução minuciosa da textura dos troncos. E é aqui que entra a outra margem, a escolha de recusar os elementos habituais para nos dar a sugestão de uma árvore. E assim, Vítor Ribeiro cria algumas dualidades muito interessantes, como o facto de alguns ramos parecerem quase antropomórficos, pessoas em poses de momento, como as estátuas do Barroco. Mas isto depende muito da imaginação de quem vê. No entanto, o facto de ser possível, faz da exposição susceptível a várias interpretações, e este é um dos princípios da arte.





"Árvore Debruçada"




Assim sendo, e fazendo lembrar a belíssima fase dos “Escravos” de Miguel Ângelo Buonarrotti, vemos estas árvores que vão emergindo do bloco (“Friso”.) ou que irrompem dele como se se levantassem (“Tronco”.), que apenas assumem os seus próprios contornos (“Tronco Velho”.), ou que vão devorando de fora para dentro (“Árvore das Folhas.”), ou que vão vertendo da pedra sobre os suportes de ferro (“Árvore Debruçada”.). Além desta possível reminiscência renascentista/ maneirista, é possível, pelo aspecto rude do todo das esculturas, encontrar algumas referências pré-históricas, assumindo o artista várias estilizações da imagem da árvore.
Além das árvores, em dois trabalhos, Vítor Ribeiro apresenta casas: “Imbordeiro” e “Da Minha Casa Á Tua”, em que usa a irregularidade da pedra e, sobre ela, que dá a sugestão de vertente de montanha, ou de aproximação a um vale onde corra um rio, esculpe as casas, também de uma forma simplória e estilizada. Em “Imbordeiro” toma ainda a opção de colocar a casa e uma pequena árvore sobre o vale, e o vale sobre um expositor cónico, como se houvesse o perigo do transbordar das margens.

"Árvore do Rio"


Ou seja, nesta exposição, são as árvores o elemento que decide onde estamos. O espectador, na sua posição de observador, observa as esculturas desde o rio, é o que passa e vislumbra as margens, vê o que fica ali, erecto, erguido ao ar. O rio, esse, passa na Galeria de São Mamede, em Lisboa, até Abril. A passar, devagarinho.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Histórias Improvaveis de Benedita Kendall

"Histórias Improvaveis" é o nome da mais recente exposição de Benedita Kendall, artista nascida no Porto em 1971. Tendo formação em várias áreas, do Desenho de Arquitectura á Pintura, nestes trabalhos essas várias áreas cruzam-se. Era importante, não só para a diversidade de referências artísticas como pela diversidade de referências culturais o sentido gráfico que a artista apresenta, tela a tela.


"Conectividades II"

A primeira característica que se nota é a agressividade dos fundos. Neles, a pintora assume a pincelada, furiosa, frenética, entrecruzada e entrecortada. Noutros ainda, ela simula através da pincelada essa mesma agressividade, mas já remetendo a alguns padrões como os círculos interiores de uma árvore, a casca da árvore, caracóis de cabelo ou rendilhados. Sobre estes fundos, a artista aplica imagens que nos levam ao universo da fábula, com animais personificados (Vestidos, a fumar, a discutir, etc.), outras vezes para personagens mais introspectivas ("A Máquina do Tempo".), ou para imagens de reminiscência social. Em tudo isto, a artista não se coibe de utilizar métodos de representação muito variados e com incontáveis referências. Se nuns, as figuras simplificadas e deslocadas do espaço nos levam imediatamente ao universo da ilustração ("Fábula Sobre a Solidão."), noutros os edifícios surgem desenhados, o que nos leva á aquitectura ("Histórias Improvaveis".), noutros a ilustração é feita como se faria num prato ou numa jarra ("Margem de Segurança".), nalguns surge a pintura, com os modelados, noutros apenas a linha, desenhada. As figuras em si são ora plácidas e concentradas na sua própria forma ou nos seus próprios gestos ("Histórias Improvaveis".), ora dotadas de uma apresentação mais barroca ("Rivalidades".), ora um desenho mais ligado á banda desenhada ("Fábula sobre a Fragilidade".).



"Histórias Improvaveis"



Algumas referências á representação tradicional oriental também se fazem sentir, bem como figuras ligadas a esta mitologia, como o dragão com a cauda na boca ("Timidez".).
Assim não é só no cruzamento de tantas personagens e temáticas diferentes que as histórias de Benedita Kendall se tornam improvaveis. É também na multiplicidade de referências artísticas tão distantes, que também parecem originar um ecótono de tempos.
É nisto que o novo trabalho de Kendall é interessante: pela capacidade que a artista tem de, utilizando as suas capacidades gráficas, fundir referências tão variadas, vindas de áreas distintas (Ilustração, pintura, literatura, arquitectura.), que resultam, no final, em telas muito coerentes, e capazes de suscitar ideias multiplas.


"Rivalidades"

Para ver até Abril na Galeria de Sao Mamede, em Lisboa.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Susana Bravo: Circo Aberto


É essencial ao estar-se perante uma obra de arte saber quais são as armas de se devem usar para a ver e apreciar devidamente. A arte como lente que abre as portas para uma observação de uma realidade é importante e, felizmente, cada vez mais comum. A intervenção, ou seja, a capacidade de expressar alguma ideia relativa a essa realidade é um segundo passo, igual ao primeiro em termos de importância. Assim sendo, a observação é levada a um segundo estatuto, o da análise.
Em Susana Bravo, a observação é óbvia. A análise não é perceptível á primeira vista. O que se denota é, primeiro, uma tentativa de ver o mundo através dos olhos destes personagens, e só daí podemos retirar uma análise. Essa análise não existe no sentido em que critica alguma coisa, no sentido em que choca; mas no sentido em que coloca á vista do espectador algo que não estava explicito antes.


Em termos técnicos, as telas estão muito bem conseguidas. Povoadas maioritáriamente por mulheres, o sentido caótico não se perde: as figuras sobrepõem-se, criam uma espécie de revolução sobre a superfície. O sentido cénico é aguçado, pondo em evidência este espaço que é o circo, e que a exposição coloca em aberto. Para isto, acaba por fundir pintura e desenho na mesma tela: algumas das figuras estão, de facto, pintadas outras são sugeridas apenas pela linha desenhada. No entanto, este caos que reina, acaba por ser inserido em cores suaves, que funcionam como um elemento que embeleza ou confere algum brilho ás imagens, tornando-as menos agressivas e mais idílicas.


Susana Bravo explora também o acto de ver. Em vários componentes de "O Circo Aberto" existe um personagem de costas, que olha para a sua frente, ou até um personagem fixo noutro ponto da tela. Esta inserção de um observador acaba por nos guiar, por nos fazer ver o que a pintora quer que vejamos.


Há, no entanto, um defeito nestes trabalhos: por vezes, parece demasiado óbvia a influência de Paula Rego no que toca á representação do corpo feminino. Ainda que a pintora use uma forma suave e tranquila no desenho das figuras, por vezes remete demasiado para Paula Rego, quer pela distorção das proporções, quer por pequenos detalhes como as figuras que surgem em escalas diferentes.
No entanto, eu sou apologista de que devemos ter uma noção tão larga quanto possível do que está á nossa volta, e esta colecção explora um tema quase insólito. Portanto, a ver, até dia 29 de Março, na Galeria Artes do Solar de Santo António.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Isabel de Sá: The Love Box



A poucos dias do final da exposição, falo de “The Love Box” de Isabel de Sá que, além de artista plástica é também poetisa, já referida recentemente nos posts do Camel & Coca-Cola.
Mas quem pensa na poesia de Isabel de Sá leva algum tempo a acreditar que é também ela a autora de peças de pintura como “Folhas” ou, uma vez que são frutos de uma pintura aparentemente espontânea e explosiva mais do que racional e perfeccionista, como é a poesia.
É obvio que nada daquilo que a artista terá feito até á data é feito ao acaso. Em termos de pensamento, portanto, será errado dizer que a poesia e as artes plásticas em Isabel de Sá, nascem de formas opostas. Do que se fala é do resultado final. E ao passo que na escrita tudo é pormenorizado, pensado, calculado, a maior parte dos seus trabalhos como artista plástica resultam em imagens explosivas, de carácter impulsivo e de uma beleza que mistura a agressividade com a inocência.
Mas “O Rosto do Mundo” de 2005, já parecia dar sinais de fuga a toda essa explosão aparentemente irracional. Assim, estas pinturas/colagens, fundiam o estilo habitual de Isabel de Sá com uma composição mais pensada.
“The Love Box”, um muitos dos seus componentes, já se aproxima mais de um perfeccionismo calculado, e revela-se, então, um trabalho insólito no percurso da artista de Esmoriz.
E esta aproximação ao resultado final que observamos no seu trabalho como escritora é na realidade muito coerente com a génese do trabalho.
Este é o abrir da gaveta do artista/escritor, a revelação dos seus instrumentos de trabalho, ou seja, o que temos, nestas 39 peças, é uma junção do universo da pintura com o universo da escrita. Isabel de Sá insere em caixas, telas ou placas de madeira objectos do seu quotidiano, essencialmente do(s) seu(s) trabalhos. Desde livros a lápis de cor, pincéis, CDs, a outros mais intimistas como isqueiros, berlindes, bonecos, espelhos, e até desenhos em que formas humanas se inserem em formas de fechaduras. Estes elementos surgem dispostos de uma forma organizada, mas com alterações (Como pinceladas rápidas, ou presos por pregos.) que além de reforçarem a presença da artista como pintora, criam uma segunda linguagem plástica que transveste os objectos, criando quase uma representação dele sobre ele próprio, resultando assim nalgo mais caótico do que á primeira vista poderia parecer-nos.



Um outro elemento assume-se como crucial: a cor. Numa das caixas surge um coração vermelho atado por fios torcidos pretos. Ao lado, um coração preto é atado por fios torcidos vermelhos. Esta dualidade emotiva marca possivelmente o elemento autobiográfico e pessoal de Isabel de Sá aquando do desenvolvimento destas peças. De resto, os corações marcam presença em muitas das peças, assim como outros elementos em que as cores caóticas e cada cor nos remetem para o amor que o título da exposição nos promete.
E amor será, digo eu, um dos sentimentos que quem quer que veja esta exposição sentirá pelas suas peças. Falo por mim, que o senti, digo sem exagero.
A não perder, na Galeria Artes Solar Sto. António, na Rua do Rosário, até meados de Fevereiro.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Isabel Lhano: A Concha Quadrada

É sob o título "A Concha Quadrada" que Isabel Lhano, artista nascida em Vila do Conde, expõe uma série de pinturas a acrílico sobre tela, carregadas de um fortíssimo realismo (Quase hiper-realismo.).




"Sinto-te a Boca"



São encontros entre Vénus e Marte, ou Marte e Marte que Isabel Lhano retrata aqui. Imagens eróticas, por vezes homoeróticas, momentos da mais inviolável intimidade, invios de representação (Aparentemente.).
Claramente há sexo e sensualidade em cada uma destas imagens, mas nessa representação violadora da privacidade das fusões destas pessoas num só corpo repartido, não há qualquer violação da privacidade. Raramente vemos as caras, e as cores surgem adulteradas, como se um filtro de cor nos impedisse de chegar á realidade da pele destas pessoas.







"Sentidos Absolutos"

Mas, se é verdade que não ficamos a conhecer as caras a quem pertencem estas mãos, estes mamilos, estas pernas, estes braços, a verdade é que ficamos a conhecer algo de muito mais interessante, e de muito mais belo: a forma como se tocam, as suas maneiras de seduzir, a intimidade que têm... quem é seguro de si, quem precisa de ser protegido, quem tem necessidade de se fundir com o outro para se sentir completo, quem domina quem... é a estas perguntas que Isabel Lhano tão brilhantemente responde com as pinturas de "Concha Quadrada".

O próprio espectador sente-se a mais ao olhar estas telas. Á nossa frente, pessoas tocam-se, pessoas pedem ao outro que lhes entre no corpo, e que lhes entre na alma. E nós assistimos. Talvez reconheçamos os nossos próprios gestos, a nossa própria forma de pedir ao outro que se torne parte do nosso corpo, parte da nossa alma.






"Pousa-me"



E o facto de não vermos as caras, só nos leva ainda mais a ser capazes de encontrar-nos a nós mesmos a segurar o outro assim, a puxar ou empurrar o outro assim, a desejá-lo assim, a saciarmos o nosso desejo assim. E é aí que se torna tão irrevogável, e mesmo comovente, a colecção "Concha Quadrada". Foi nesta concha que já todos nos fechámos, e é nela que nos queremos fechar tantas vezes, fechar a nossa concha em torno da concha do outro, e não largar. Porque pode ser esse o assunto desta exposição: a nossa intimidade com o outro.



"Segura-me o Coração"

A série completa está no site da Galeria de São Mamede, na página http://www.saomamede.com/fr_exposicoes.asp?idexp=258. A não perder.