quarta-feira, 11 de julho de 2012

A infância! Esse musical falar. De morte.


Falas de amor.
Não conheço tal cadência,
nunca estive completa,
nunca teve forma
a forma servilíssima da forma.
E quem a nota? «Não te amo, quero-te
com o furor cego que o sangue me devora?»
Não conheço essa gota _devocional_
de um verso em rima.
Preparavas a mesa, o pão
de cego oiro _gramaticais acentos
de vertigem,
mas havia o som agudíssimo das trevas
e grave, com ternários, se medindo.
Repara!, no altar em que tocámos a súplica
pungentíssima do vinho.
Iam assim correndo, sem abrandar, Eysinga,
na musical execução do trecho,
cravos _nuances
de pianos e piedades,
cordas de desprezo: martelos de ignonímia.
Não conheço essa cova
que ao dares-me vida, honraste
a doce perdição da minha morte e só por isso,
ó meu lugar deserto de erros, míseras
generosidades _cordas, linhas,
compaixão sem paixão,
meu canto breve o corpo,
pois tê-lo enchido de desprezo nobre
foi infantil recuperá-lo enigma.

Eduarda Chiote
Branca Morte
1994, ed. &etc
desenho de Jorge Pinheiro


Canção para o dia de hoje



The Black Box Revelation: High on a Wire (Do álbum 'Silver Threats', 2010)

Algumas 'Irreflexões'


Deus é um deus cinzento
que não se manifesta

Deus é. Mas só existe
quando se manifesta em mim.

Não há comunicação.
A pessoa que morre separou-se.

É pouco a pouco
que os mortos se separam.

Não são vários. É um único
permanente.

Escrever: forma de ir resistindo.

O amor: continuação nos outros
de nós mesmos.

Eis que o corpo é o único templo
verdadeiro


Yvette K. Centeno
Irreflexões
1974, ed. Ática
desenho de Robbert van Wynendaele

terça-feira, 10 de julho de 2012

Norah Jones: Little Broken Hearts


E A VIDA CONTINUA

'Come Away with Me' foi um fenómeno em 2002. Oito Grammies, incluindo os de todas as categorias principais, a aprovação da crítica e a adesão do público deram a Norah Jones uma estreia como poucos músicos verdadeiramente tiveram. No ano anterior, dera-se um fenómeno semelhante, 'Songs in A Minor' de Alicia Keys, que teve praticamente o mesmo impacto que o álbum de Norah Jones.
Em 2003 Alicia Keys lança o seu segundo álbum, 'The Diary of Alicia Keys' e em 2004, Norah Jones edita o seu segundo álbum, 'Feels Like Home'. Acontece que, após um início assinalável que ambas tiveram, ambas produziram álbuns relativamente menos conseguidos. No caso de Norah, ainda que em 'Feels Like Home' encontrássemos boas canções, sentíamos acima de tudo a pressão de lançar um segundo álbum depois do estrondo do primeiro.
É a partir do terceiro álbum que realmente Jones e Keys começam a diferenciar os seus percursos. Alicia Keys, apesar da voz invulgar e da facilidade em compor, após 'Songs in A Minor' tem, até hoje, produzido acima de tudo álbuns mornos, que não trazem, no fundo, nada de novo.
Em 2007, Norah lança o seu terceiro álbum. Era premonitório o título 'Not Too Late'. De facto, ainda não era demasiado tarde para recuperar, e este álbum, mudando consideravelmente de direcção, era o regresso que esperaríamos de Norah Jones após um álbum como 'Come Away With Me' e assim ficávamos esclarecidos: o álbum de estreia não tinha sido só fogo-de-vista.
Se 'Not Too Late' o afirmou, 'The Fall' (2009 -de que falei aqui.) veio confirmá-lo em força. Era um álbum perfeitamente conseguido, polido e distanciado daquela imagem inicial que se tinha de Norah, de que fazia música serena e baixinha, que inclusivamente lhe valeu a alcunha de Snorah Jones.


Esperámos três anos pelo quinto álbum de originais de Norah. Em Abril deste ano, chega-nos, finalmente, 'Little Broken Hearts'. E aquilo que, acima de tudo, fica provado neste quinto álbum é que, realmente, Norah Jones é daquelas cantoras que nunca nos cansamos de ouvir, porque, excepção feita para o segundo álbum, consegue sempre surpreender-nos sem ser infiel ao seu projecto musical e consegue criar canções que realmente nos comovem ao ponto de nos deixar sem respiração, mas sem nunca ser lamechas, nem previsível, nem de mau-gosto.
Inteiramente composto por Norah e por Brian Burton (Dos Gnars Barkley.), 'Little Broken Hearts' centra-se acima de tudo em ideias ligadas a separações amorosas, lutos e na descoberta de que a vida é ainda possível. O próprio título é bastante subtil, pois tratando os corações partidos como se fossem brinquedinhos, acaba por desdramatizar a ideia de uma ruptura, e este álbum está longe de ser deprimente. Bem pelo contrário, parece orientado para abraçar as nuances de country e de um certo pop que já iam dando sinais no terceiro e no quarto álbuns, mas mantendo sempre a inclinação para o jazz que, desde o início, tem sido a marca essencial de Norah.
Canções como Goodbye ou 4 Broken Hearts são prova precisamente disto. Estas canções são exemplos de como, neste álbum, a voz de Norah, mais do que nunca, encontra uma perfeita combinação entre as melodias e as letras e a própria tonalidade da voz que, sendo bastante expressiva e versátil, continua a inserir-se melhor em canções melancólicas mas, de alguma forma, contidas. Aliás, muitas destas canções parecem funcionar quase como segredos que Norah contasse a alguém, ou até diálogos de si para si, acabado por se tornar extremamente intimista, como vemos acontecer em Take it Back, Little Broken Hearts ou Miriam, sendo que esta última abre até espaço para um certo storytelling que por vezes ia realmente acontecendo nas canções de Jones.
Outro aspecto que deve ser assinalado neste álbum é o da sua simplicidade. É gravado como trabalho de uma banda e é pouco dado a extravagâncias. Assim, o som acaba por ser bastante homogéneo, sem por isso abdicar de ter várias texturas, que o impedem de se tornar aborrecido. Para este efeito, compare-se uma canção melancólica como Take it Back com outra mais irónica como Goodbye (Aliás uma das melhores letras do álbum.) ou com outras mais expeditas como Out on the Road ou Happy Pills.


Em relação aos outros álbuns, este representa, mais do que nunca, a tentativa, bem sucedida, de uma coesão interna, que passa pela banda fixa e por todas as canções serem compostas pelos mesmos autores, ao contrário do que tem acontecido até aqui. Aliás, relembremos que para o seu primeiro álbum, Norah havia composto apenas três das catorze canções que o integravam, e se é facto que, à medida que o tempo foi passando, Norah se foi afirmando cada vez mais como autora, neste álbum parece ter assumido mais do que nunca esse papel, o que talvez tenha contribuido para a adequação que se faz sentir da música à interpretação. E, ainda comparando 'Little Broken Hearts' com os seus predecessores, é de notar que, ainda mais do que em 'The Fall', se sente uma inclinação para a guitarra, ao contrário da fase inicial, em que as canções eram essencialmente construidas em torno do piano.
Mais ainda, assinale-se que, neste álbum, Norah parece correr alguns riscos que, de certa forma, lhe poderão abrir possibilidades para o futuro. É o caso de  canções como All a Dream e I Don't Wanna Hear Another Sound, em que se sente uma ambiência ligada ao low-rock, com qualquer coisa de Morphine e que de todo não é despropositada aqui. E diga-se que Norah se insere muito bem neste estilo, que, sendo ligeiro, passa um pouco pelo sobressalto, estando nesta dualidade a dificuldade para o intérprete. E, claro, Norah não tem problemas em deixar a banda brilhar sozinha, havendo neste álbum vários solos, sendo os destas canções dos mais belos. Aliás, já para o final do álbum, tem interesse recordar o início, e ao compararmos uma canção como I Don't Wanna Hear Another Sound com a primeira, Good Morning, mostra-nos como, neste álbum, as canções estão realmente pensadas de maneira a formarem uma sequência, acabando por o todo ser uma espécie de história que se conta, não só pelas palavras, mas pela própria tonalidade das canções.
Somados os factores, 'Little Broken Hearts' é um regresso muito digno para Norah Jones e prova-nos que cada vez mais Norah vai melhorando o seu projecto e se vai tornando uma artista madura e de rara densidade. Quer seja um relato de um luto, quer seja um elogio da solidão, este álbum é realmente dos melhores de Norah e, não fossem as provas dadas até hoje da sua capacidade musical, dir-se-ia que este é difícil fazer melhor.

Canção para o dia de hoje



dEUS: The Architect (do álbum 'Vantage Point', 2008)

O spectabiles viri / Antiphon for Patriarchs and Prophets




Spectacular men! you see
with the spirit's eyes,
piercing the veil.
In a luminous shade you proclaim
a sharp living brightness
that buds from a branch
that blossomed alone
when the radical light took root.

Holy ones of old! you foretold
deliverance for the souls
of exiles
slumped in the dead lands.

Like wheels you
spun round in wonder as you spoke
of the mysterious mountain
at the brink of heaven
that stills many waters, sailing
over the waves.

And a shining lamp
burned in the midst of you!
Pointing,
he runs to the mountain.



Hildegard von Bingen
trad. Barbara Newman
desenho de Edward Burne-Jones

Jan van Ruusbroec


Místico flamengo do século XIV, nascido em Ruusbroec, perto de Bruxelas, autor de textos essenciais da teologia medieval, como 'Os Esposos Espirituais', 'O Livro da Pedra Brilhante', 'O Livro da Suprema Verdade' e 'O Livro das Doze Beguinas'.
(Apesar de ser autor de relevância tanto para a teologia quanto para a literatura, nenhuma obra sua existe ou existiu alguma vez em Portugal.)

Machiavelli sobre Cesare Borgia


Apenas poderá ele [Cesare Borgia] ser censurado na criação do pontífice Júlio, na qual se lhe vê eleição desacertada; porque, como disse, não podendo fazer um papa a seu gosto, poderia evitar que um qualquer cardeal o fosse, e nunca deveria consentir que ascendesse ao papado qualquer um daqueles a quem tinha ofendido, ou que, uma vez papas, viessem a temê-lo. Porque os homens ofendem ou por medo ou por ódio.

Niccolo Machiavelli
O Príncipe
trad. Carlos Eduardo Soveral, Guimarães editores
(Na imagem, retrato de Cesare Borgia por autor anónimo.)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

domingo, 8 de julho de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mapa de Antuérpia, séc. XVII


Mapa da cidade de Antuérpia, na actual província de Antuérpia (Bélgica), do século XVII.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Mapa de Brugge, séc. XVIII


A cidade de Brugge, na actual província da Flandres Ocidental (Bélgica), num mapa de 1775

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Mapa de Leuven, século XVIII


A cidade de Leuven, no actual Brabante Flamengo (Bélgica), num mapa de 1775


sexta-feira, 22 de junho de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

The Chant: A Healing Place

O PESADO RENASCIMENTO

Talvez o sentimento que mais facilmente se associa ao rock seja a tristeza. Parece ser predominante. Mas um olhar atento sobre o que muitas bandas têm feito mostra-nos que não é obrigatoriamente a tristeza que encontramos na música rock. Bem pelo contrário, se olharmos para o percurso de algumas bandas, encontraremos canções de uma leveza e de um brilho extremos, como acontece, por exemplo, com algumas canções dos Anathema, dos Pearl Jam, dos Muse, dos Placebo, entre tantos outros. O que acontece é que, provavelmente, o rock é ainda uma expressão profunda e, daí, pesada dos sentimentos todos e assim é pesado e pesadamente honesto mesmo ao expressar felicidade, e o que distingue do pop é precisamente o facto do pop, quer fale de tristeza, quer fale de alegria, se expressar com facilitismo e superficialidade.
Servem estas considerações de introdução a algumas notas sobre o segundo álbum dos The Chant, editado há cerca de uma semana. Em 2010, a banda finlandesa lançava o seu segundo álbum, 'This is the World We Know', o primeiro a dar-lhes alguma visibilidade, ainda que discreta, na Europa. Era um álbum onde o encontro do rock com o metal dava canções intensas que, em muito, surpreendiam. Surpreendiam porque, apenas ao segundo álbum, os The Chant conseguiam impressionantes resultados dessa fusão que, parecendo fácil, é na verdade difícil, e que outras bandas conseguiram demorando mais tempo, como acontece um pouco com o Tool e, a partir deles, os A Perfect Circle, ou então os Anathema. 'This is the World We Know' não era, portanto, uma promessa, era já confirmação.


'A Healing Place' chega-nos dois anos depois de 'This is the World we Know' e o título, só por si, já anuncia a tendência para uma espécie de renascimento sobre os cenários negros que encontrávamos no álbum anterior, e também em 'Ghostlines' (2008), o primeiro.
A capa apresenta-nos uma espécie de paisagem interior, em que o indivíduo surge como uma silheta negra e sozinha num quadro algo apocalítico. E, ao ouvirmos o álbum, percebemos que há um sentido muito forte na imagem da capa. De certa forma, estas canções são o ruír daqueles cenários do primeiro álbum, e apresenta-nos o indivíduo no lugar onde se cura, onde renasce, para a reconstrução do (seu) mundo.
O álbum começa com os seguintes versos:

My eyes
adjusting
so that I can
see the outlines

ou seja, o indivíduo começa a ver os contornos, os contornos talvez das ruínas, que lhe permitirão recomeçar. Assim sendo, 'A Healing Place' parece traçar uma sequência com 'This is the World we Know'. Não se trata propriamente de fazer um álbum que seja o oposto do anterior, mas de continuá-lo.
A primeira canção, Outlines, mostra-nos que, mais uma vez, é entre o rock e o metal que os The Chant se situam, e é também um exemplo de como é difícil fundir os dois géneros. Mas os The Chant conseguem aqui uma canção absolutamente perfeita, uma espécie de expressão da angústia, que a letra consegue dizer sem recorrer àquilo que de mais vulgar se escreve sobre.
Spectral Light é uma canção mais complexa, constituida por duas secções, começando com uma guitarra dedilhada a que se juntam, depois, a bateria e os arranjos, uma vez mais subtis e melódicos, e a voz de Ilpo Paasela e o piano de Mari Jaamback. É uma canção cheia de momentos negros, que logo são rematados por outros momentos mais sinfónicos, onde, mais ainda, se nota o perfeccionismo nos arranjos, pensados milimetricamente para criar uma canção equilibrada e densa.
Outra das melhores canções do álbum é Riverbed, onde o ritmo lento e a voz por vezes sussurrada abrem caminho ao refrão emotivo e pesado, resultando uma vez mais numa canção equilibrada e fluida, que cria uma espécie de paisagem fria onde, ainda assim, nos sentimos perfeitamente aconchegados, e talvez a letra, de Jussi Hämäläinen, contribua para isso.
The Black Corner será talvez a canção que mais nos alude a 'This is The World we Know'. Ainda que musicalmente nos pareça realmente refém do álbum anterior, a letra é significativa para toda a génese de 'A Healing Place' já que é precisamente a esta canção que o álbum vem buscar o seu título. A linha de baixo confere um certo peso à canção e isto explicará certamente aquela ideia de que falei no início deste texto: é que efectivamente esse peso é uma forma de expressão, da expressão, neste caso, do desejo de recomeçar, de nos curarmos. E precisamente a partir daí começa The Ocean Speaks, outra das canções mais pesadas do álbum, mas também das que mais vai ao encontro da ideia do título. É uma música cheia de pausas e recomeços, de interrupções e repetições e, na sua barroca estrutura, acaba por resultar muitíssimo bem.
Segue-se Distant Drums, onde o discreto piano guia o ritmo da música, também ela cheia de pausas cujos renascimentos são pesados e marcados. Nesta canção fica muito clara a qualidade vocal de Ilpo Paasela que, a uma audição atenta pode parecer uma voz vulgar dentro do que, por norma, são os vocalistas de rock, mas que, na verdade, tem uma forte expressividade e uma capacidade invulgar de se moldar às canções que canta e, se compararmos o que ouvimos dele em Outlines e o que ouvimos, por exemplo, aqui, veremos como, de facto, há uma versatilidade nele que só favorece os The Chant.
My Kin é uma canção lenta, que nos mantém num certo impasse, mas é sem dúvida uma canção forte, que nos mostra precisamente que uma canção leve pode ser tão pesada quanto uma mais barulhente.
O mesmo, mais ou menos, acontece com Regret, a canção que fecha o álbum. É outra canção constituida por secções, indo do mais leve e sussurrado, até ao explosivo e gritado. E, fechando o ciclo, de certa forma parece reiniciar o próprio álbum, mantendo-nos um pouco fechados nele.


De facto, não tenho dúvidas de que 'A Healing Place' é um grande álbum rock, mas há que admitir que é tudo menos fácil. Para começar, as canções são densas e profundas e exigem atenção a ser ouvidas e, por outro lado, o álbum é executado pelas opções sempre mais difíceis. Se os The Chant fossem mais imediatistas, um álbum com este título seria um álbum cheio de canções melodiosas e quase acústicas, brilhantes e simples, mas não é o caso. Os The Chant mostram-nos como renascer e recomeçar são actos violentos, como a libertação é difícil e não raras vezes angustiante, ao ponto em que nos dá vontade de desistir. Mas o facto é que quando se ouve 'A Healing Place' com atenção, percebemos como tudo nele é sincero e quase visceral, como as composições sombrias são caminhos para a libertação e como este álbum fala directamente ao coração daquele que se sente preso mas não se sente morto, ou pelo menos não tão morto que se disponha a viver o resto da vida no lugar negro em que está. Ao contrário dos álbuns anteriores, este é inteiramente escrito e composto pelo guitarrista Jussi Hämäläinen que não deixa dúvidas quanto á sua qualidade poética e musical, e a partir das melodias e das letras, Ilpo Paasela demonstra uma vez mais a sua garra enquanto vocalista, conseguindo cantar de uma forma em que, mesmo que não houvesse letra, conseguiríamos perceber quais os sentimentos que são cantados. Momentos como Oultines, Riverbed ou Regret são, nesse aspecto, verdadeiramente impagáveis, e 'A Healing Place' é um sucessor mais que digno a um álbum como 'This is the World We Know', sentindo-se apenas falta de uma maior presença do piano, que caracterizava muito esse álbum anterior.
Esta é uma banda discreta e, no geral, menos conhecida do que deveria ser, mesmo dentro dos circuitos mais fechados do rock. Mas se 'A Healing Place' nos prova alguma coisa, é que definitivamente lhes deveria ser dada mais atenção, pois não é tão comum como se pense que uma banda tenha a coragem de se despir desta forma, e de nos despir a nós, que a ouvimos.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tame Impala: Lucidity



Do álbum 'Innerspeaker' (2010)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Páramo


Na varanda sem paz eu vejo o mar
mas já não vejo junto desses olhos
que viam o mar amordaçar-me.
A varanda, todavia, ainda traz
na ondulação, nas maresias
a ilusão de um silêncio
em que tu pretendias: aqui,
nesta lei tão dura, senti
que nada mais terei do que ser de ti.
A varanda continua a sua conjura,
eu continuo o desgaste do mar
só que noutra jura a tua vida dura
e até o mar te deixou de esperar.

O vário vento que vem e que voa
sobre argolas com vasos de gerânios
que tombam vagarosos e rosas
sobre ruas ruidosas de Lisboa
toca ao de leve no copo por que bebo
esquecido e sozinho ali
onde dantes vinhas com o maior apego
ouvir ao fim da tarde eu olhar para ti.

Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem
havia um andar quase arruinado
com o estilhaço, a cólera, o fermento
de quem se resignava também
a que não valesse a pena nada.
No vagar desse desmoronamento
essa ruína foi tua e foi minha,
o seu reboco de cal, a pele refém,
a cisterna petrificada.
Amávamo-nos entre eléctricos que passavam
do nascer do dia até ao nascer do dia.

Não há nada que se peça que nos seja dado
mesmo quando gritamos alto por perdão.
Merecemos tudo o que ficou fragmentado
no pensamento que não sabe inebriar-se
quando os sentidos perderam o condão.

Essas ruas de Lisboa que findaram
como findaram os dedos que prenderam
o bordão de ternura
que tantos outros nos cortaram.

Tal qual o prédio caímos
e apenas o pó
desenha entre o que nem persigo
um resto que sabe que está só
porque nenhuma solidão vem ter consigo.

Joaquim Manuel Magalhães
Alta Noite em Alta Fraga
2001, ed. Relógio d'Água
pintura de Domingos Pinho

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Hellraiser: Revelations de Victor Garcia

PARTIR PARA O INSULTO


Não há dúvida que vivemos na era do capital. Que se perdeu a vontade de fazer arte quando se pega numa câmara de filmar, já não é novidade nenhuma. Que as grandes produtoras sugam o sangue dos grandes clássicos, também já sabemos, e que no caso do cinema de horror isso é ainda mais notório, é impossível não saber. Eis um breve levantamento:
The Texas Chainsaw Massacre de Tobe Hooper, 1974 - 2 sequelas, 1 remake
Halloween de John Carpenter, 1978 -7 sequelas, 1 remake e 1 sequela do remake
Friday the 13th de Sean S. Cunningham, 1980 - 10 sequelas, 1 remake
A Nightmare on Elm Street de Wes Craven, 1983 -7 sequelas, 1 remake
Hellraiser de Clive Barker, 1987 -8 sequelas
Como se vê, 'Hellraiser' é de todos os exemplos, o mais recente, mas o segundo com mais sequelas. O que é ainda mais grave é que, a partir de 'Hellraiser: Inferno' (2000), o quinto filme, nenhum dos argumentos foi escrito originalmente como sequela do filme de Clive Barker, o imaginário desse filme foi apenas inserido num contexto que, inicialmente, em nada lhe dizia respeito. E se no caso de 'Hellraiser: Inferno' isso não era particularmente notório, nos restantes era difícil não o perceber e o resultado acabava sempre por ser ou incompreensível (Como em 'Hellraiser: Deader' (2005).) ou pura e simplesmente insultuoso (Em 'Hellraiser: Hellseeker' (2002) e 'Hellraiser: Hellworld' (2005).).
E se o absoluto fiasco que foi o oitavo filme deixou os admiradores da série bastante indignados, aparentemente não chegou para que o pessoal da Dimension Films, que neste momento é detentora dos direitos sobre 'Hellraiser', desistisse, finalmente, de tentar continuar um grande filme que nunca deveria ter tido sequela nenhuma. Isto porque falar do mero oportunismo que caracterizou a saga a partir do seu quinto filme é não referir que as anteriores sequelas, ainda que escritas especificamente para este imaginário, também estavam longe de ser assinaláveis.
Acontece que há já alguns anos que se anda a anunciar um remake para 'Hellraiser' o que, duma perspectiva mercantilista, tem todo o sentido, porque é outro dos clássicos com inúmeras sequelas, mas o único que não tem remake. O projecto já por várias vezes teve e perdeu realizadores e argumentistas, e o prazo para a estreia vai sendo adiado constantemente. Ora, quem tenha visto o que recentemente se fez com 'Hellraiser' há-de achar que até é bom que esse remake não apareça. Mas há um facto que fica negligenciado: a Dimension tem que ir utilizando o nome 'Hellraiser' para não perder os direitos de obra e, com eles, o direito de fazer o remake.
Assim sendo, em 2011, sendo uma vez mais adiada a produção do remake, a Dimension dá por si perigosamente perto de perder os direitos de obra e toma uma decisão: entregam a um infeliz realizador que precisa de trabalhar para viver um argumentozinho qualquer, dão-lhe uma semana e meia para realizar um filme e, em tempo-record, surge uma nova sequela de 'Hellraiser', a oitava.
Se tivesse havido algum suspense antes do filme estar pronto, certamente os fãs teriam ficado contentes por saber que, pela primeira vez desde 1996, a sequela de 'Hellraiser' foi, efectivamente, escrita como tal, ao invés da técnica de inserir o imaginário num argumento qualquer.


De facto, 'Hellraiser: Revelations' apresenta-nos um argumento que, sem dúvida, foi escrito para esta saga. Mas, independentemente de todas as cambiantes, a verdade é uma: as qualidades deste filme esgotam-se nesse facto -e apenas no facto, uma vez que o argumento propriamente dito não é uma boa notícia.
O fantasma do remake passa por aqui. Em muitos dos momentos de 'Hellraiser: Revelations' chega a tornar-se pouco claro se estamos perante uma sequela, se perante um remake inusitado. Vejamos a história: Steven (Nick Eversman) e Nico (Jay Gillespie) são dois amigos no final da adolescência que decidem fugir da sua vida de pequenos-burgueses para o México, em busca de mulheres e alcóol. Os dois desaparecem e a família de Steven consegue receber apenas uma mochila com alguns recurdos da viagem final, que incluem uma máquina de filmar com algumas gravações e a caixa-puzzle que conhecemos como Configuração do Lamento.
As famílias dos dois reunem-se frequentemente, mas nunca falam deles. A única que parece ter vontade de o fazer é Emma (Tracey Fairaway), irmã de Steven e namorada de Nico, que se sente indignada com o silêncio em volta deles, principalmente tendo em conta que a sua mãe (Devon Sorvari) vê obcessivamente as gravações da máquina de filmar, mas não deixa a filha vê-las.
Num desses jantares, Emma tem um freak-out e decide exigir dos seus pais e dos pais de Nico também presentes que se fale sobre eles. Este é o momento em que nos preparamos para a hora-da-coincidência: precisamente durante esse mesmo jantar, Steven aparece misteriosamente no jardim, completamente desorientado e com uma conversa fragmentada em que fala de Cenobites.
E, depois da hora-da-coincidência, temos que nos preparar para a hora-da-estupidez: Emma vai buscar um dicionário e lê uma definição de Cenobite. Ela LÊ uma definição de Cenobite, por amador que isto nos possa parecer! E, como se isto não fosse suficiente, a definição que ela lê nada tem que ver com os Cenobites de 'Hellraiser', ou seja, além de amadoramente estúpido, este momento é inconsequente.
A chegada de Steven dá-nos mais pormenores sobre a visita ao México e, com eles, surge a hora-do-dejá-vu: eles chegaram ao México e, num bar, enquanto engatavam prostitutas, encontraram um vagabundo que lhes mostrou a Configuração do Lamento. Quando Nico tentou comprá-la, o vagabundo deu-lha, dizendo-lhe que sempre lhe havia pertencido, ou seja, exactamente a mesma ideia que víamos no primeiro Hellraiser.
Daí para a frente, tudo é muito semelhante ao original de Clive Barker: Nico é levado pelos Cenobites, regressa, Steven angaria algumas prostitutas para lhe restituir um corpo. A única diferença surge quando Nico pede a Steven que arranje um homem para que ele lhe possa ficar com a pele e Steven, já atolado por sentimentos de culpa, se recusa a fazê-lo.
Como percebemos depois, Nico decidiu então matar Steven e usar-lhe a pele e é portanto ele quem regressa, na pele do amigo.
Enquanto tudo isto, a Configuração do Lamento vai sendo aberta e fechada sem consequências morosas e Pinhead, que pela primeira vez Doug Bradley se recusou a incarnar, neste caso portanto representado por Stephen Smith Collins, parece estar descansadinho no seu inferno a fazer esgares supostamente assustadores e a preparar um novo Pinhead. É verdade: UM NOVO PINHEAD.
Além destas maravilhas que já descrevi, o argumento de Gary Tunnicliffe ainda nos apresenta outras subtilezas que tais, como um beijo incestuoso que não tem qualquer consequência, ou o facto de na verdade Steven e Nico terem fugido para o México porque descobriram que a mãe de um era amante do pai do outro, ou ainda as explicações que Nico-na-pele-de-Steven dá sobre as razões da fuga, que parecem retiradas do diário de um adolescente revoltado com a normalidade da sua vida. Neste último caso não é que eu não concorde, mas acho que as coisas poderiam ser feitas com um pouco mais de classe. O próprio título do filme promete revelações, mas não as encontramos em lugar nenhum. Só as há como as que há em qualquer filme: as que dizem respeito ao filme em questão. Sobre os anteriores, sobre este universo, não há qualquer revelação e o título perde completamente o sentido.
Já vimos que imaturidade e falta de bom-senso não faltam ao argumento de 'Hellraiser: Revelations'. Falta agora falar da realização. Sinceramente, eu tenho pena de Víctor Garcia. Como qualquer pessoa, Garcia precisa de comer e, como tal, precisa de dinheiro. E eu só lamento que as produtoras continuem a aproveitar-se desta situação para angariar realizadores e entregar-lhes filmes sem lhes dar a hipótese de realizarem um trabalho de qualidade. Aqui, nem sequer está em questão se o filme tem mais ou menos qualidade. O facto é que não havia, pura e simplesmente, hipótese alguma de 'Hellraiser: Revelations' ficar bem feito. Com um tempo de produção de 12 dias, não é possível que se faça um filme de jeito. Garcia parece várias vezes tentar, consegue um ou outro plano mais interessante, mas, no geral, não consegue dar ao argumento previsível e falho uma roupagem que precisamente compense essas falhas. Tudo aqui nos parece adolescente e superficial, um pouco à imagem dos dois protagonistas deste filme. Garcia tenta jogar com a luz e com os elementos visuais, mas nada é credível. A perda de Doug Bradley como actor para Pinhead também é assinalável, porque o seu rosto era muito específico, mas não é só o rosto que não é o mesmo. Os próprios pregos, ao serem grandes demais, parecem estar prestes a cair, e o rosto de Pinhead acaba por parecer mais uma máscara do que a cara de um Cenobite. Os próprios actores em pouco favorecem o filme. Três deles são de maior importância: Tracey Faiaraway como menina revoltada de luto acaba por não parecer mais que uma menina histérica e balofa, Devon Sorvari como mãe e esposa enganada envereda pelos clichés da mulher frígida/doméstica exemplar que vemos em qualquer filme de domingo à tarde, e Nick Eversman até se esforça, mas os diálogos que lhe cabem enquanto Nico-na-pele-de-Steven são tão maus que não há expressividade vocal ou corporal que o salve.


'Hellraiser: Revelations' estava, portanto, condenado ainda antes de ter sido começado. E o que a Dimension não parece perceber é que filmes destes não vão propriamente seduzir ninguém para ver o remake, quando e se esse remake realmente se fizer.
É que nos anteriores, tudo começava a ser francamente mau. Mas em 'Hellraiser: Revelations', já não estamos a falar de um mau filme: estamos a falar de partir para o insulto. O insulto a toda a gente: a Clive Barker e aos admiradores da saga e a qualquer pessoa que, mesmo não tendo nenhum dos outros filmes, tropece neste. É um insulto para qualquer um, na verdade.

Poéme I


Si froid que soit encore l'hiver
les jours brefs et les nuits longues,
le fier été vient à grand pas
qui de tristesse nous libère:
voici la saison nouvelle
les noisetiers font des chatons:
il n'est signe plus fidèle
_Ay, vale, vale millies_
Vous tous qui, ce printemps,
_si dixero, non satis est_
voulez de l'amour goûter le bonheur!

Les âmes fières, en tout assaut
qui por Amour elles affrontent,
auront pensée droite et pure:
«C'est ici qui victoire m'attend:
je veux gagner, que Dieu me donne
ce qui sied au seul Amour:
si tel est son bon plaisir,
le désastre est mon honneur.»
_Ay, vale, vale millies_
Vous tous qui pour aimer l'Amour,
_si dixero, non satis est_
d'un coeur patient, tentez l'aventure!

Pauvre femme, que farai-je?
Haïrai-je la fortune?
Ah! que j'ai regret de vivre!
je ne puis aimer ni laisser d'aimer.
Aventure et fortune de même
me sont cruelles: abandonnée
de moi-même et de tout être!
C'est injure à la nature!
_Ay, vale, vale millies_
Amis, laisser-vous attendrir
_si dixero, non satis est_
sur celle qu'Amour fait ainsi pleurer!

Hélas! je fus fière de l'Amour aussitôt
que je l'entendis nommer,
et je me fiai à sa libre puissance:
c'est de quoi tous me condamnent
amis ou étrangers, jeunes ou vieux,
que je servais de toutes mes forces,
bonne envers eux toujours,
appelant sur eux toute faveur d'Amour.
_Ay, vale, vale millies_
Amis, n'épargnez nul éffort,
_si dixero, non satis est_
si dur à vos yeux paraisse mon sort.

Ah! pauvrette, je ne puis me donner
la vie, non plus que la mort!
Ah! doux Seigneur, pourquoi faut-il
que ces gents me veulent ruiner?
Qu'ils vous laissent donc le soin
de me frapper pour mes fautes:
vous me fairez bonne justice,
et pour eux-mêmes ils n'auront nul dommage.
_Ay, valle, valle millies_
Ce n'est pas l'amour que je vous témoignez, mais la haine,
_si dixero, non satis est_
vous qui ne laissez pas le Seigneur agir.

Tout qu'ils se penchent, indiscrets, sur mon âme,
qui d'entre eux peut aimer l'Amour?
Mieux vaudrait por eux suivre le chemin libre,
où l'on apprend à vous connaître.
Ils prétendent vous aider en ma conduite,
ce dont, certes, il n'est pas besoin:
vous savez frapper ou absoudre
et nous mettre à l'epreuve de la claire vérité.
_Ay, vale, vale millies_
Amis, prenez le parti de Dieu,
_si dixero, non satis est_
qu'il rende justice ou qu'il tasse grâce!

Ah! Salomon sagement nous conseille
de ne point scruter les secrets
qui dépassent nos forces,
et de ne pas nous risquer
à recherche trop haute
pour nos débites atteintes
mais de laisser le bel Amour
nous lier ou nos rendre la liberté.
_Ay, vale, vale millies_
Vous qui, jusq'au sécret de cer amour,
_si dixero, non satis est_
d'un nouveau degré, montez chaque jour.

Les pensées de l'homme sont petites,
la puissance de Dieu les passe infiniment.
L'espirit divin seul est sage:
ne rendons qu'à lui cette louange,
et laissons-le porter sentence
de vindicte ou de pardon!
Il n'est oeuvre se lointaine
qu'elle ne paraisse devant ses yeux.
_Ay, vale, vale millies_
Âmes livreés toutes à l'amour
_si dixero, non satis est_
qui sauvez en tout plaire à son régard!

Que Dieu nous donne le sens nouveau
d'un amour plus libre et plus noble:
qu'en lui, notre vie renouvelée,
reçoive toute bénédiction;
que le goût nouveau donne vie nouvelle,
comme l'amour peut le donner dans sa pire fraîcheur,
l'amour est puissante et nouvelle récompense
de ceux dont la vie se renouvelle pour lui seul.
_Ay, vale, vale millies_
Vous qui nouvellement désirez connaître,
_si dixero, non satis est_
au printemps nouveau, le nouvel amour.

Hadewijch de Antuérpia
trad. de J.-B. Porion
Écrits Mystiques des Béguines
2ª edição, 2008, Point, col. Sagesses
pintura de Paulo Damião

sexta-feira, 1 de junho de 2012

[As mães são outra coisa]

As mães são outra coisa
outra massa outra farinha
peneirada como quem semeia.
E de qualquer terra nasce o fruto
já maduro e elas teimam
que não está pronto para a colheita:
-não está e pronto

Rosa Alice Branco
Concerto ao Vivo
2012, ed. &etc
colagem de João Rios