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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Granizo Três


As planícies de fogo morrem,
são uma arte simples.

Os peixes são de dezembro
assim como as colunas que nascem da água.

Porque chove no corpo concreto.
Nas mulheres existe o vidro
e o cetim que nasce do esquecimento,
o ar é nu, sofre,
diz ao longo dos meses os teus cânticos triláteros,
é uma arte simples.

Os aluviões surgem das montanhas,
as folhas transformam-se e secam
quando se acendem as luzes das campas.

As aves e as asas das aves
têm nos teus seios um equilíbrio exacto,
lavam-se no teu corpo,

morrem,
são uma arte simples.

Jaime Rocha
Beber a Cor
1985, ed. &etc
pintura de Vanessa Chrystie

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Travelling III


Limpei os óculos a uma mulher a quem esqueci o nome.
Nunca lho perguntei. Foi um acto de amor. Falámos e de tudo o que dissémos
nada foi importante.
Jamais senti desejo de revê-la.
Despedi-me de seu corpo
rasguei-o sem perder-me.

Tudo isso e o ladrar de um cão
ficará na memória.
Talvez renasça um dia numa saga. Comigo
passa-se com os animais o mesmo que se passa com as pessoas.
gosto deles mas temo aproximar-me. Sinto-me tão exterior às coisas.
Uso-as com o máximo de desonestidade
mas isso não me preocupa,
tenho a vida inteira à minha frente para sentir remorso.


Eduarda Chiote
Travelling
1983, ed. O Oiro do Dia (com "Quem Não Vier do Sul" de Helga Moreira)
pintura de Vanessa Chrystie