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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Insónia


Insónia. Abro a janela. Esvaimento
No abismo da solidão estrelada.
É inquietante a paz e um sentimento
De hora nenhuma vai da lua ao nada.

Tem nisto um deus sinistro o instrumento
De submeter-me em morte figurada?
Silêncio astral. Estático tormento
No eterno insone que inspira a hora parada.

Suga-me o sangue um polvo agonizante.
Marginam o pensamento delirante
Espectros de prostitutas na avenida.

Pesam as pálpebras. Apodrece a ideia
De adormecer. O dia já clareia
Num galho tenro da árvore da vida.


Natália Correia
Inéditos (1985-1990)
Poesia Completa
1999, ed. Dom Quixote
pintura de Miguel Leal

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Feiticeira Cotovia



Se a palavra poderosa
Ilumina o que é vedado
Há-de abrir-se a brusca rosa
Do que está vaticinado.


Onde não soube a cidade
Merecer a alma que tinha
Num espasmo de carvões há-de
Ter na cinza a sua sina.


Como a Virgem dos Destroços
Que é o luar das ruínas
Plantarei florestas de ossos
Onde eram Sete Colinas.


Vou joalhar no ourives
De um áureo tempo futuro
O poeta que em mim vive
Como um gato no escuro.


Pela peregrinação
Dos nervos de Fernão Pinto
Vou partir no galeão
Que falta do nosso instinto.


Vou pelos campos de linho
Do Poeta D. Dinis
Atirar a flor do pinho
Que onde cai é um país.


Vou por tardes de alecrim
Unir em saltos de corça
A abelha Bernardim
Com a rosa menina e moça.


 Eis-me nua e salamandra
Enchendo a noite de jóias
Trazendo como Cassandra
Um diadema de Tróias.


Nossa Senhora Astarteia
Com seios como damascos;
Pancada de lua cheia
Na fronte dos meus carrascos.


Natália Correia
Comunicação
1959, ed. Contraponto
desenho de Edward Burne-Jones

domingo, 24 de julho de 2011

(Des)Crucificações





No decurso do II Encontro da Associação Portuguesa de Prevenção do Alcoolismo, foi abordado o tema “O Álcool na Literatura _ O Escritor e a Obra” que incluiu uma homenagem a Natália Correia, para a qual me pediram colaboração. Escolhi nessa ocasião dar um testemunho sobre algumas dimensões menos visíveis da personalidade desta escritora que me impressionaram e tocaram duma forma especial (por ter sido sua amiga e por ter privado com ela) e poderão ajudar a compreendê-la um pouco melhor.

Se um talento esplendoroso, uma inteligência luminosa e um magnífico sentido de auto-encenação foram responsáveis pela incendiada admiração que tantos de nós sentimos por Natália Correia, a pose majestática, tonitruante e por vezes feroz, assustaram outros tantos; mas apenas um olhar disponível e sem preconceitos podia dar-se conta, ao arrepio dos lugares comuns que sempre se foram dizendo a seu respeito, do absoluto desamparo e da total fragilidade deste ser excessivamente complexo e paradoxal.

A quem se deixava impregnar pelo carisma desta mulher extraordinária, não podia deixar de surpreender o intenso curto-circuito que a sua personalidade exprimia pela mistura do esplendor com o arcaico, ou como ela própria disse em “Madona”, referindo-se a uma personagem, podíamos senti-la como se estivesse “...misticamente ligada a uma religião onde as forças extremas, o sórdido e o sublime se fundiam numa única e inominável divindade... não havia qualquer duplicidade moral nesta sua forma de tocar os dois pólos da alma. Dir-se-ia que o seu espírito tinha um perpétuo movimento circular que incessantemente abrangia o superior e o inferior” (p. 41)

Esta complexidade e estes contrastes foram desde sempre para mim um poderosíssimo apelo à decifração. Tentar esclarecer alguns equívocos que envolveram a figura e a vida de Natália Correia é um tributo de quantos a conheceram e amaram.

O primeiro equívoco é sugerido pela associação da Natália à problemática do alcoolismo. Já por altura da sua morte houve quem, nunca a tendo conhecido, comentasse terem sido o álcool e o tabaco a vitimá-la. Nada mais injusto.

É verdade que Natália frequentava um bar regularmente, animando noite após noite tertúlias e convívios; defendeu exaltadamente marginalidades e marginais; celebrou com álcool festas e encontros; e abominou em discursos excessivos todas as formas de puritanismo. Tratava-se duma postura intelectual, uma atitude romântica, insubmissa e desafiadora, que partilhava desde a juventude com os surrealistas, de quem foi amiga, companheira de muitos percursos e em alguns casos musa inspiradora.

No entanto bebia muito moderadamente, apenas em situações sociais, e afirmava mesmo nunca se ter excedido. Quando deixou de beber e fumar por conselho médico, nunca a ouvi queixar-se por lhe sentir a falta; apenas sofria por ter perdido a saúde que lhe permitira no passado beber e fumar.

Aquilo que de mais subterrâneo a terá impelido para certos ambientes, sugeriu-o em “Madona”, a propósito de bares e do cortejo de seres bizarros que sempre lhes estão associados: “Perante essa inquietante sociedade de seres oníricos [Miguel], dava-me a impressão de um coleccionador de coisas fantásticas nas quais fazia entrar a tragédia afogada em risos desses palhaços da comédia dos sexos” (p. 84). Ou: “... Mas o que ele procurava era uma forma... de nadar naquele mar de naufragados, o único elemento que lhe permitia a sensação de se agitar e de se achar vivo no pulsar dessa agitação” (p.55). Ou ainda: “É no meio desses infelizes que eu me posso sentir um ser humano” (p.178).

Outro equívoco terrível que crucificou Natália Correia em vida diz respeito à lenda de “mulher fatal”, “vamp”, “devoradora de homens” (ou nem só), tecida através de inúmeras histórias e enredos, qual deles mais descabelado, com que mistificaram a sua vida amorosa. Este equívoco partilhou-o com outras mulheres de gerações próximas da sua. Grandes actrizes que ajudaram a criar e difundir o mito da “mulher fatal” surgem-nos hoje em dia, através de biografias póstumas (Garbo, Marlene, Marilyn, etc.), como vítimas destroçadas pelas armadilhas a que deram rosto, e revelam-se-nos mulheres imaturas, sexualmente inibidas, com vidas amorosas precárias e infelizes. Esta verdadeira patologia da feminilidade não parece encontrar-se nas gerações com menos de 60 anos. O cinema continua a promover imagens de mulheres belas e sensuais, mas distantes da “mulher fatal” dos anos 50. Sucessivas revoluções sexuais fizeram aparecer novas expressões para a mesma patologia da feminilidade, e ironicamente os herdeiros actuais destas “femmes fatales” dos idos 50 parecem ser certos travestis do “show business”.

Natália Correia contribuiu para este equívoco que se lhe colou à pele e à vida: foi uma mulher muito bela e uma sedutora compulsiva, uma “allumeuse”. Com as suas ideias libertárias e atitudes desafiadoras demoliu publicamente muitos tabus, sexuais incluídos, ajudando a criar uma imagem com que viria a ser perversamente agredida.

Era por isso totalmente inesperado darmo-nos conta, ao privar com ela, de quanto a sua vida e os valores pelos quais pautava o seu comportamento contradiziam esta ousada encenação intelectual. Confessava repetidamente, a pessoas quase sempre incrédulas, que se considerava uma mulher sexualmente inexperiente, inapetente e inapta. Emitia juízos de valor a respeito de comportamentos de pessoas que lhe eram próximas, que mais do que conservadores, chegavam a ser reaccionariamente puritanos.

Mas ela própria afirmou: “A minha ousadia era puramente intelectual, ou seja, a cobardia de viver” (“Madona”, p. 165). Ou: “...A poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência.” (Ibid., p. 154). Ou ainda: “... Fazer poemas enquanto se mata/ durante a cópula quando faminto/ esses nunca os vi fazer// A poesia é sempre em vez/mênstruo da alma uma vez por mês/ sangrenta flor abortada/ da natureza infecunda” (“Poema Sáfaro”, in “O Vinho e a Lira”).

Perante a perplexidade de quantos a procuravam compreender, tornava-se claro que não se tratava de fingimento: não havia uma Natália actriz “vs “ a pessoa; a figura pública “vs” a existência privada; a máscara “vs” o rosto. Ao contrário, estávamos sempre dentro do mesmo cenário, barroco, que ora nos aparecia pelo direito, ora pelo avesso, numa constante reversibilidade dos contrários.

Um dia contou-me que, quando criança, ainda nos Açores, vira num filme bíblico cristãos a serem devorados por leões num circo romano, e imediatamente tomara o partido dos leões. Nesta frase extraordinária, Natália Correia condensou toda a sua tragédia narcísica: ela foi sempre a vítima, condenada implacavelmente a ser comida pelo leão – em que ela própria se tornava para poder sobreviver. Cristão devorado e leão devorador, Natália Correia cumpriu este destino em vida e obra. Vítima sacrificial desde sempre crucificada na sua tragédia interior, o que a compeliu a trabalhar obsessivamente, e magnificamente, o tema da descrucificação.

Esta primordial crucificação (tão dilaceradamente exposta em “Uma Estátua Para Herodes”) dum ser que simultaneamente irrompia com uma energia anímica assombrosa (Henry Miller chamou-lhe “uma força da natureza”) pertencia ao que em Natália Correia permanecia um enigma em busca de decifração. Sensíveis à carga mítica que desde sempre a envolveu, podíamos ao mesmo tempo adivinhar a criança dependente, humilhada e culpabilizada que também foi. Com a sua admirável vitalidade “deu a volta por cima”, sem no entanto se soltar do fio da navalha onde sempre se equilibrou pela criação e fantasia que fizeram dela a genial fabricante de sonhos que conhecemos.

A devoção e admiração que procurava permanentemente obter à sua volta, foram a forma sublime com que recusou submeter-se à sua aflita dependência, que noutros planos sentiu com um desmesurado embaraço. A vergonha e humilhação transfigurou-as em magnífica arrogância com que golpeava implacavelmente quantos ameaçavam apequená-la. A terrível culpabilidade em que se consumia converteu-se em desafio e provocação com que “levantava as saias a essa podridão vestida de marido, de pai, de sacerdote” (“Madona, p. 36).

Neste precário equilíbrio entre dependência e necessidade de ser admirada, humilhação e arrogância ou mesmo culpa e desafio, Natália cumpriu-se excessiva e exuberante em cada um destes pólos antitéticos.

Alquimicando esta humaníssima dilaceração, o seu extraordinário talento marcou-lhe encontro com as próximas gerações, quando a sua vastíssima obra for conhecida, compreendida, apreciada e ocupar o lugar cimeiro que lhe pertence no panorama cultural do nosso século. O futuro deixar-se-á impregnar pela genialidade fulgurante das suas dádivas maiores: “...E à branca praia nos leva a onda materna/ Porque os deuses aí não são longínquos./ Têm seus tronos onde nos esperam/ Imutáveis os mitos” (in “O Armistício”).

É lá que a Natália Correia nos espera.


M. Manuela Gonçalves dos Santos
in "Se...Não"
nº 2, 2011

domingo, 10 de julho de 2011

O Livro dos Amantes (fragmentos)


IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.

Quero-te conciso.

Adão depois do paraíso

errando mais nítido à distância

onde te exalto porque te demoras.





VI

Aumentámos a vida com palavras

água a correr num fundo tão vazio.

As vidas são histórias aumentadas.

Há que ser rio.



Passámos tanta vez naquela estrada

talvez a curva onde se ilude o mundo.

O amor é ser-se dono e não ter nada.

Mas pede tudo.





VIII

Eis-me sem explicações

crucificada em amor:

a boca do fruto e o sabor.





IX

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficámos nas paredes do vento

a escorrer por tudo o que ele invade.



Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos a carne de um segredo.



Natália Correia

Poemas

1955, ed. autora

fotografia de Floria Sigismondi

quarta-feira, 16 de março de 2011

Natália, 18 anos depois


Hoje, 16 de Março de 2011, completam-se 18 anos desde a morte de Natália Correia, aos 69 anos. Sendo que o volume da poesia completa de Natália marca a minha primeira incursão pela poesia, não podia deixar de assinalar este dia.
Aqui ficam as capas do primeiro romance de Natália, de 1946, "Anoiteceu no Bairro", e o primeiro livro de poemas, uma edição de autor datada de 1947, "Rio de Nuvens".
Mais não será preciso de dizer, a obra de Natália fala por si mesma.


quarta-feira, 2 de março de 2011

A Arte de Ser Amada


Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.

Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966, ed. Afrodite
pintura de Leon Kossoff

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rio de Nuvens VII


Turva hora onde
Principia a noite
E o dia se esconde

Hora de abandonos
Em que a gente esquece
Aquilo que somos
E o tempo adormece

Nevoenta hora
Hora de ninguém
Em que a gente chora
Não sabe por quem.

E tudo se esconde
Nessa hora onde
Por estranha magia
Brilha o sol de noite
E o luar de dia.


Natália Correia
Rio de Nuvens
1947, ed. autora
pintura de René Magritte

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Beijo de Antikonie (II)



De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
1979- edições Dom Quixote


imagem: Helena Almeida, Pintura Habitada

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ultrabiográfico




Que sexta-feira de estilhaços!
(na via-sacra é a paixão)
Se já morri foi nos meus braços
Por não haver ressurreição.

Cheguei a esta mitologia
Como os ciganos, pelo caminho.
Na minha humana eucaristia
Não há o pão. Só bebo o vinho.

Deixem ao céu a concordata
Com uma flor, se lhe apetece.
Mas não me mostrem santos de prata
Como quem mostra o que padece.

Para Jeová, sofro de mais.
Para o demónio, sofro de menos.
Prefiro os olhos dos animais
E o meu vestido de ver a Vénus.

Natália Correia
Passaporte
edição da autora, 1958
imagem: Artur do Cruzeiro Seixas

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Para Aquela Que Morreu Inexplicavelmente Porque Era Amada

Chegaste e eras o ar. Agora sei
Que já era ar o rosto que tiveste,
Pois no oráculo do vento decifrei
Que não és rosa nem ave nem cipreste.

Talvez que a tua aragem no meu braço
Seja o amor que agora eu te mereça.
Mas se adormeço é sempre em teu regaço
Que os anjos me coroam a cabeça.

Talvez seja eu a morta. E tu ao lado
Não tenhas mãos para me abrir a porta
Nem haja porta se te sinto ao lado.

Talvez não sejas tu nem eu nem nada
Enrolada no rasto desta estrela
Que me arrastou na sua queda errada.

Talvez outras areias sem areias;
Talvez um outro Abril sem rosas bravas;
Talvez a direcção das tuas veias
Para a esfinge que não te suspeitavas.

Talvez a que já era antes de ti
Agora nos meus limos afogada.
Mas só porque te olhei e não te vi
Tu vens ao cimo e não me dizes nada.


NATÁLIA CORREIA, Dimensão Encontrada
edição da autora, Lisboa, 1957
imagem: Matthew Barney

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Natália Correia: Sonetos Românticos

AMOR, MORTE, POESIA. “MAIS LUZ! MAIS LUZ!”

Iniciada em 1947, a obra poética de Natália Correia destaca-se das suas contemporâneas por conseguir coadunar uma forma clássica ou erudita a um conteúdo original e próprio, associável facilmente a um surrealismo tardio onde se podem incluir Herberto Helder ou Luiza Neto Jorge: já mais longe do hermetismo lírico de Cesariny, mas mais próximos de uma modernidade de tratamento da própria poesia.
Natália, dos três, terá sido, definitivamente a mais mediatizada: Herberto silencia-se nos anos 80, Luiza interrompe a produção poética a partir de 1973 (Vindo a publicar postumamente “A Lume”.). Natália, por outro lado, constrói um percurso individual, vasto e coerente. A par com questões literárias, participa activamente na vida política do pós-25 de Abril e nunca deixa de estar inserida numa determinada elite lisboeta que passaria pelo Botequim, casa de fados que a própria possuía.

A sua produção começa no romance, “Anoiteceu no Bairro”, em 1946, obra onde revela uma maturidade e capacidade analítica surpreendente para os seus 23 anos.
Foi no ano seguinte que se estreou na poesia: “Rio de Nuvens” teria sido escrito por volta dos dezasseis anos da autora. Como ela própria explica no prefácio à sua “Poesia Completa” (edições Dom Quixote, 1999), este livro teria sido vítima de cortes de certos poemas por parte do autor do prefácio, que “exagera a tónica de se passar” por mestre da poeta. Mesmo assim, não há como negar que em “Rio de Nuvens” é de prever um futuro interessante no que toca à poesia. Tal não aconteceu, pois todas as expectativas que este debut pudesse criar foram definitivamente ultrapassadas. Fiel ao seu estilo, Natália erigiu, até à morte, em 1993, uma das obras de maior importância e qualidade da história da literatura. Obras como “Dimensão Encontrada” (1957), “O Armistício” (1985), “O Vinho e a Lira” (1966) ou (Apesar do péssimo título.) “Poemas” (1955) falam por si e, certamente, confirmam o que disse.

Mas “Sonetos Românticos” é um livro que não pode ser incluído em qualquer ciclo que a poeta tenha atravessado ao longo do seu percurso. Se podemos entender que “O Anjo de Ferro à Entrada do Ocidente” e “Epístola Aos Iamitas” formarão um ciclo mais politizado ou de “Dimensão Encontrada” a “O Dilúvio e a Pomba” encontramos uma fase densamente metafórica ou metafísica, a verdade é que “Sonetos Românticos”, última obra poética publicada por Natália Correia, em 1990, constitui um livro singular e sem equivalentes.
É verdade que já “Epístola aos Iamitas” (1976) fora inteiramente redigido em sonetos, ou que em inúmeros dos seus livros o tema dos amantes e do amor romântico surge, se não continuamente, pelo menos constantemente. “Sonetos Românticos” é outra coisa.

Logo ao começar, lê-se em epígrafe “Visando a unidade,/ o soneto é o ouro/ da culminação da Obra Poética.”
Estamos, portanto, perante uma poeta que se confronta com a proximidade da morte. Novidade nenhuma a morte na poesia de Natália. No livro anterior, publicado cinco anos antes, a morte era quase assunto omnipresente. Mas aqui não se trata da morte, mas sim da nitidez com que agora esta é vista. É, pois, alguém que sente o fim a chegar. O fim de tudo. Até da Obra Poética, a sua culminação.
O soneto, forma que já muito dissera a Florbela Espanca, Antero de Quental , Camões ou Bocage, é o assunto central do primeiro capítulo deste livro. Quatro sonetos sobre sonetos, “Ars Aurifera”. Interessante será citar precisamente o início “Do soneto que sémen e ovo inclui”, ou seja, o soneto é aqui chave por representar o uníssono do masculino e do feminino, esse “Misterioso nó que em sacra escrita/Cismos e abismos une.”
A outra parte do título diz respeito ao “romântico”. À vista desarmada poder-se-ia pensar que se trata de um livro de sonetos de amor. Mas a palavra “românticos” assume aqui um outro significado, englobando também este primeiro: a apropriação de uma linguagem mais ligada à poesia romântica de Garrett, por exemplo. E, ainda que continuemos a sentir um forte eco do surrealismo e até de um certo simbolismo, aqui, a linguagem é realmente outra, mais interior, menos imagética, mais psíquica. Não é uma característica que se aplique a todos os poemas, mas à maior parte.
O segundo capítulo vem evidenciar também a recusa a um certo surrealismo. “Rogando à Musa que Torne Claro o Coração Obscuro”. O que se nota, também, ao longo desta leitura, é uma procura de clareza e de limpidez como nunca se vira em Natália Correia (Com excepção, possivelmente, dos raros poemas em prosa que foi incluindo nos seus livros.) A proximidade de um fim, efectivamente, pode induzir o poeta a querer esclarecer em definitivo a sua poesia, ou pelo menos, assim parece acontecer aqui.
É interessante aqui um parêntesis para um paralelismo: Luiza Neto Jorge, outro dos nomes desta “onda”, manteve características surrealistas no grosso da sua obra entre 1960 e 1973. “A Lume”, livro póstumo publicado em 1989, no entanto, surgia com uma outra clareza de discurso, uma linguagem mais depurada e mais simplificada onde também se notava a consciência do declínio do corpo e da vida a esmorecer aos poucos.
O declínio do corpo faz-se sentir raramente aqui, mas, mais à frente, no soneto “O Espírito”, sente-se, porque “cruentas/ Rugas me humilham. Não mais em estilo brando.”
Mas, sendo este um espírito de reflexão e de derradeira retrospectiva, não é de estranhar que o terceiro capítulo, “Mãe Ilha” vá resgatar as figuras marcantes não na obra poética de Natália, mas em toda a sua obra, precisamente a Mãe e a Ilha. Há que não esquecer que Natália era açoreana de origem e que foi criada pela mãe, pianista, uma vez o seu pai teria fugido para o Brasil. Aliás, o quarto soneto tem como subtítulo “sempre que ouço piano”, referência inequívoca á figura da Mãe: um e outro são indissociáveis nas obras de Natália.
“Louvado Seja o Génio da Noite”. É mais antigo do que o mundo que a noite seja associada à morte, pelo que os quatro sonetos deste capítulo serão talvez os mais ambivalentes de todo o livro. “Lenta declina a luz e a noite vai/ Entrando no tardo entardecer./ Vaga e intérmina uma folha cai,/ Subtil suspira um deus nesse descer.” Palavras que falarão por si. Mas talvez a mais clara passagem deste livro seja “Génio da eternidade enternecida,/ Dá-me do sonho a loucura exacta/ Que liberta a alma taciturna.” Clara porque nos revela exactamente o espírito com que Natália Correia olha a morte. Não há, em momento algum, um lamento pela partida. Pelo contrário, morrer é um acto heróico a fazer de cabeça levantada.
Ela própria tem noção de que “Nascer é um deus que prega uma partida”, que “Eu não sou deste mundo.”.
Ainda a destacar é o capítulo “Do Amor que Acorda o Espírito que Dorme”, dividido em “O Corpo”, “A Alma” e “O Espírito”, três dos melhores poemas da obra da autora. E, claro, o poema que, para todos os efeitos, foi o seu último, misto de ironia (Uma vez que Natália não foi nunca católica.) e de discurso de quem não lamenta a vida. Nem a morte.
Ele aqui fica:

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de uma astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amén.


NOTA: Para quem conhece o volume da “Poesia Completa”, montado pela autora ainda em vida, e publicado pela Dom Quixote, já na segunda edição, não é novidade que o conceito original deste livro seria serem sonetos e cantigas de amigo, em capítulos separados. No entanto, Natália acabou por decidir incluir apenas os sonetos, pelo que considero o poema acima o último da sua obra.