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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Eu cantarei um dia



Eu cantarei um dia da tristeza
Por uns termos tão ternos e saudosos,
Que deixem aos alegres invejosos
De chorarem o mal, que lhes não pesa.


Abrandarei das penhas a dureza,
Exalando suspiros tão queixosos,
Que jamais os rochedos cavernosos
Os repitam da mesma natureza.


Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
Ave, fonte, montanha, flor, corrente,
Comigo hão-de chorar de amor enredos:


Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
Que eu derramo os meus ais inutilmente.

Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna
Poesias
prefácio e notas de Hernâni Cidade
1941, ed. Sá da Costa
pintura de Isabel de Sá

Júbilo


Há um presságio de júbilo
à sua beira, um tecido
na trama do contrário


Uma rosa de mar
na sua esteira, uma espécie
de ardil em seu afago


Um modo
Um todo
Uma maneira


De misturar 
o doce
e o amargo.

Maria Teresa Horta
in Jornal de Letras,  nº 1061
Junho de 2011
imagem: Retrato de D. Leonor de Almeida Portugal, Condessa de Oyenhausen e quarta Marquesa de Alorna