Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O´Neill. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O´Neill. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Salvados

Um chapéu de coral atado a uma medalha de cobre
Uma cómoda estilo primas Lagarto
Um piano de cauda com uma cabeleira de índio
Um garfo sem sombra
Uma imitação do olho esquerdo de Napoleão III tirada no momento em que Ele assinava a lei dos meios das primas Lagarto
Um carneiro de purpurina
O ferro forjado que serviu para Lord Nelson
Uma fotografia a sépia que as primas Lagarto no campo tamanho natural
Um grilo em papel manteiga
O triciclo que pertenceu a Kropotkine
A gravata hidrométrica Inhásse Paderevsky
Um exemplar original de "Vida e Obras de Gânglia Vermouth" com lindas águas-fortes de mestre Inácia Coreto assinadas Pépita Lamartine
Uma perna de carneiro assado
Um lençol com sinais de vómito italiano
Uma cadeira de rodas ainda com o corpo
Uma lágrima de Staline

e de diversos de: primas Lagarto Lao-Tsé Goethe, Hedy Lamarr Nicolau II etc. etc. etc.

cadavre-esquis de Mário Cesariny de Vasconcelos e
Alexandre O´Neill
"Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito"
selecção de Mário Cesariny de Vasconcelos
Guimarães editores 1961

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.




poema de Alexandre O´Neill, fotografia de Inês d´Orey