sábado, 20 de setembro de 2014

''Anything could happen'': Ellie Goulding/ Floria Sigismondi




Um videoclip de Ellie Goulding, realizado por Floria Sigismondi, fotógrafa e artista plástica que admiro bastante. O feliz encontro entre estas duas mulheres dá origem a um vídeo em que convergem a mitologia clássica (Penélope e Ulisses) e o imaginário cristão (a figura de Goulding a lembrar uma santa). 
O que admiro essencialmente no trabalho de Sigismondi, como fotógrafa e como realizadora de videoclips, é a sua capacidade de, atrás do que parecem meras imagens de inspiração surrealista e simbolista, convocar vários momentos da história cultural europeia, e de reintegrá-las no contexto actual, trabalhando igualmente com a ruptura e com a continuidade. Neste caso, Ulisses e Penélope transformam-se num casal urbano destroçado por um acidente de automóvel junto ao mar onde ela o espera. Por outro lado, Goulding aparece convertida numa andrajosa figura mítica, que não assenta sobre uma nuvem (como no imaginário comum católico), mas que é arrastada sobre o mar por essa nuvem.
A produção visual que acompanha o trabalho de Ellie Goulding já várias vezes invocou estéticas semelhantes, por exemplo no vídeo de Figure 8, realizado por W.I.Z., ou então no vídeo, já mais antigo, de Guns and horses, realizado por Petro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Memorial temporário #6

Um pequeno apontamento (meu) sobre um poema do livro de estreia de Yvette K. Centeno, aqui.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ellie Goulding: Ritual



Da edição especial do álbum 'Halcyon' (2012)
Letra de Ellie Goulding / Stannard/ Howes

(...)
We move into the devil’s shoes 
It’s far too late to be rescued 
From highway seas and thunder skies 
We see our fate, you hear our cries 

 They go, oh oh oh oh 
And it won't stop here, echo in my ear 
There's a raging fire, and it burns so near 
But I'm ready now, but I’m ready now 

It’s a ritual, and I know you feel it 
It’s a ritual, and I know you see it
(...)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Uma promessa do mundo

Urbanização*

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava 
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

Neste poema, pertencente à última recolha publicada em vida da autora, Fiama Hasse Pais Brandão escreve no sentido de, através do espaço, abolir o tempo, ou a passagem do tempo, no sentido em que estamos habituados a compreendê-la. Mas o que Urbanização tem de mais intenso é a forma como, logo nos primeiros versos, se recusa a fazê-lo através da colocação do poema no espaço da memória. A fusão entre o passado e o presente dá-se ''no puro espaço/ dos cinco sentidos''. Assim, ''a dupla configuração de um campo'' não é narrada como se se contasse uma história. É facto que primeiro existe ''o mundo, raso/ um campo vazio de tojo seco'' e que depois ''alguém/ urbanizou o vazio''. Mas não se trata de um exercício de memória. Neste poema, a visão é dupla, e só assim pode actuar sobre o mundo que tem diante de si, com o qual se encontra. O que aqui temos, quando o eu do poema nos narra o seu ver, é uma espécie de fenomenologia, uma imaginação sensorial do próprio espaço. A visão dupla (que Fiama reclamara já no poema Do Amor IV, do mesmo livro), é a própria imaginação, que se desenha como uma forma de consciência. É assim que o eu consegue intuir o vazio sob a urbanização, o tojo sob as casas.
Por isso, o poema de Fiama apresenta-nos não menos do que uma verdade elementar sobre o espaço construído: cidade e casa, urbanismo e arquitectura. A acção humana de alguém que urbaniza o vazio opõe-se ao que existe inicialmente. O ''campo vazio de tojo seco'' é uma imagem do deserto. Esse deserto subsiste mesmo quando é preenchido por construção. Não só porque o eu é capaz ainda de o ver, de saber que ele continua ali sob as construções, mas também porque o próprio deserto é, de certa forma, um espaço sempre de ''dupla configuração''. Sabemos disso porque o poema não se faz nem pela memória nem pela linguagem, mas pelos cinco sentidos. Isto significa que é através do corpo do eu que a fusão do passado e do presente ocorre. Nesse sentido, sempre o vazio do deserto e a vastidão do vazio serão espaços privilegiados para a imaginação do mundo. No poema de Fiama, o espaço deserto é uma matriz inicial, uma promessa do mundo, ele contém já a urbanização que nele virá a erguer-se. Essa cidade já existe ali, mas é visível só pelo olhar sensorial e ilimitado da imaginação. Reciprocamente, a urbanização erguida não pode deixar de conter o ''mundo raso'' de onde nasceu.


A linguagem do poema é simples mas enigmática, os versos curtos são fluidos mas tensos. Essa tensão justifica-se nos últimos versos, em que o eu nos diz que assiste ao crescimento da urbanização ''ou a sós em silêncio/ ou narrando esse meu ver''. O poema está assim na tangente entre silêncio e fala. Ele depende de uma imaginação, de uma experiência total que só em parte pode ser resolvida pela linguagem. Daí o tom enigmático do discurso: a experiência é sensível, quase sensual, e só parte dela é transmissível por palavras. O não-escrito, que descobrimos ao ler o poema, pode ser uma forma de acesso ao resto do que foi experienciado. Talvez este poema só possa ser entendido se repetirmos por nós mesmos o movimento que lhe dá origem: se olharmos imaginosamente para o espaço da cidade e conseguirmos sentir o vazio iniciático, que não nos levará ao início do tempo, mas criará uma espécie de experiência simultânea dos tempos. Como a que acontece neste poema.


________
*Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas. ed. Quasi. Vila Nova de Famalicão, 2002. p.32

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Memorial temporário #5



Uma versão corrigida do meu texto sobre os «Órgãos epistolares», ainda o mais recente livro de poesia de Eduarda Chiote. Aqui.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

3 apontamentos sobre as Eleições Europeias

1. A abstenção
66,09% dos cidadãos portugueses com idade para votar escolheram não o fazer nestas Eleições Europeias. Há sempre quem diga (por norma o ou os derrotados) que, em casos assim, quem venceu foi a abstenção. Infelizmente, é até certo ponto verdade. A maior parte das vezes, quem se abstém fá-lo (ou assim o diz) por duas razões: como forma de protesto, ou então por não achar importante votar, neste caso nas Europeias. Em ambos os casos, parecem-me razões pobres. Como forma de protesto, torna-se ineficaz, pois abdica-se de um direito com o objectivo de, em princípio, nos manifestarmos contra o que sentimos como um ataque precisamente aos nossos direitos ou à nossa dignidade enquanto cidadãos; e, no fim de contas, houve quem votasse, houve resultados e esses resultados são válidos e aqueles que quisemos punir tiveram resultados, mais satisfatórios ou menos, sem precisar do nosso contributo. Achar que determinadas eleições não são importantes ou não nos dizem respeito deveria ser razão para procurarmos saber por que, se esse é o caso, nos pedem que votemos; em última análise, esta é uma desculpa que, através de uma ideia pré-concebida (a de que a Europa não nos diz respeito) justifica o prolongar de uma ignorância relativamente ao assunto. Na Europa, o Luxemburgo, a Bélgica e a Grécia têm voto obrigatório. Talvez essa fosse uma boa opção para Portugal. Num país que celebra, este ano, 40 anos de democracia e, portanto, 40 anos de direito ao voto, conquistado pelo sofrimento e pelo sacrifício daqueles que se opuseram ao Estado Novo é simplesmente inaceitável uma abstenção que roça os 70%.

2. O problema europeu
No seu ensaio 'A Identidade cultural Europeia', o poeta Vasco Graça Moura, que foi também Deputado Europeu, explica como há, em Portugal e não só, o grave problema de não nos sentirmos europeus, senão quando a Europa nos soa a estratégia de saída para os problemas nacionais. É um facto que a Europa nos diz pouco e, em bom rigor, mesmo entre os poucos que foram votar hoje, é discutível quantos têm verdadeira consciência do que está em causa. Não faltou quem votasse nas Europeias para agoirar as futuras Legislativas, não faltou quem votasse em Partidos portugueses que, bem vistas as coisas, integrarão grupos outros em Bruxelas. É difícil, ainda, compreender ao certo para que elegemos os nossos deputados europeus. Até certo ponto, os grandes responsáveis são os nossos dirigentes políticos. É a eles que cabe o esclarecimento dos objectivos de uma eleição. No meu ponto de vista, é sempre função de qualquer cidadão informar-se, mas há questões das quais os dirigentes políticos não podem fugir. Mas os dois principais partidos são também parte interessada em perceber quem querem os portugueses castigar e recompensar pela política interna. Um esclarecimento do verdadeiro sentido das Eleições Europeias correria o risco de acabar com um precioso barómetro que, conquanto dê (mais) algumas luzes aos partidos quanto às intenções de voto dos portugueses, não tem na prática o valor que deveria ter.

3. Leituras, elações, distorções
Um dos aspectos mais interessantes nos discursos dos dirigentes e candidatos de hoje foi a pouca atenção que recaiu sobre o papel que os eleitos terão na Europa. A maioria dos discursos prendeu-se quase exclusivamente com as próximas Legislativas. Não seria inusitado pensar que, particularmente PS, PSD e CDS-PP investiram nas Europeias como quem investe numa sondagem. Se os próprios portugueses que votaram nestas eleições o fizeram para anunciar o que planeiam fazer nas próximas Legislativas, isso não deve ser ignorado pelos partidos, evidentemente. Por outro lado, apenas o PCP teve um resultado que garantisse, nesse sentido, segurança suficiente para lançar uma proposta (a de uma moção de censura). Tanto Francisco Assis como António José Seguro, do lado do PS, reiteraram reiteradamente a vitória do partido, no entanto, parece, com consciência de que a ''grande'' vitória do PS não foi nem por sombras a vitória que o PS esperava. 

domingo, 27 de abril de 2014

mudinha e quieta




















pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
são as gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.

alguém dirá que ao criador te entregas,
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.

se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.

mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quieta, por sinal,
há gente bem pior no panteão.


Vasco Graça Moura
3 de Janeiro de 1942 - 27 de Abril de 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Memorial Temporário #4


"A morte do debate público'', um texto meu sobre debates, conversas e trocas de opiniões em redes sociais, que podem ler aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

[Quem fala]


























Quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou
da concha do meu sol


É ele que caminha nos meus passos

e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar um reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?


Eu digo eu ainda

mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

António Ramos Rosa
Numa folha, leve e livre
2013, ed. Lua de Marfim
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

terça-feira, 1 de abril de 2014

um cão para pompeia
























aos amantes enlaçados contraponho
um cão de pompeia, decerto ele andaria
a brincar junto ao forum, à cata de algum osso,
quando o vesúvio o caçou, mais lesto,

para moldá-lo em pedra-pomes.
insisto em vê-lo como um bicho magro e descuidado,
de penúria diuturna. passou de leve
pelos peristilos, alheio ao luxo, à corrupção,

à astrologia, e nunca dos triclínios
lhe caiu um naco envenenado, nunca se tornou
nem animal simbólico, nem mito que ganisse.
nunca foi encontrado nas escavações, mas é para aqui chamado.

era um cão, just a dog, com pulgas e
que alçava a perna como todos os cães
e ladrava e mordia quando era preciso.
fazia pela vida e, fauno das esquinas, pelas cadelas no cio.

alguma tabuleta diria cave canem em tésseras minúsculas,
sem alaridos da história, e só sobreviveu
nos livros de latim expurgados, misturada
com a guerra das gálias e alguns nomes de deuses.

eu canto um cão sem fábula nem pedigree, que não fugiu aos fados,
um rafeiro vulgar, digamos, de plínio
o velho que, a propósito, morreu perto dali,
talvez uivando, uns dias depois dele.

“você é um cerebral”, disse-me cloé, flava e enervada.
“sim”, disse-lhe eu com prudência, “mas há tantos.
e o amor e a morte sempre foram pensáveis”.
e acrescentei “e depois? que mal faz isso ao cão?”


Vasco Graça Moura
A Furiosa paixão pelo tangível
1987, ed. Quetzal
pintura de Paul Klee

quarta-feira, 26 de março de 2014

Ellie Goulding: Don't say a word



Do álbum 'Halcyon' (2012)
Escrito por Ellie Goulding e Jim Elliot

(...)
I'm more alive I've ever been
So now I give you all my sins
I've chosen you, I've chosen you
But don't say a word
(...)

Peeping Tom





















Ojos de solitario, muchachito atónito
que sorprendí mirándonos
en aquel pinarcillo, junto a la Facultad de Letras,
hace más de once años,

al ir a separarme,
todavía atontado de saliva y de arena,
después de revolcarnos los dos medio vestidos,
felices como bestias.

Te recuerdo, es curioso
con qué reconcentrada intensidad de símbolo,
va unido a aquella historia,
mi primera experiencia de amor correspondido.

A veces me pregunto qué habrá sido de ti.
Y si ahora en tus noches junto a un cuerpo
vuelve la vieja escena
y todavía espías nuestros besos.

Así me vuelve a mí desde el pasado,
como un grito inconexo,
la imagen de tus ojos. Expresión
de mi propio deseo.

Jaime Gil de Biedma
Moralidades
Antologia Poética
1992, ed. Cotovia
imagem de Christopher McKenney

terça-feira, 25 de março de 2014

Face uma da outra





















De uma para a outra
em cada tapeçaria
o rosto da Dama difere

Numa lenta
mutação
de belezas corrompidas

Conforme o olhar
do Unicórnio

e dos pequenos animais
em torno delas

Tal como o Pintor as criara
diversas uma e outra
tecidas, entretecidas

Lianas de mãe e filha

Maria Teresa Horta
A Dama e o Unicórnio
2013, ed. Dom Quixote

segunda-feira, 24 de março de 2014

Lana del Rey: Cola



Do álbum ''Born to Die (The Paradise edition)'', 2013
Letra de Lana del Rey e Rick Nowels

My pussy tastes like Pepsi Cola
My eyes are wide like cherry pies
I got a taste for men who're older
It's always been, so it's no surprise

Harvey's in the sky with diamonds
And he's makin me crazy
(I come alive)
(...)

domingo, 23 de março de 2014

Apontamentos #1 (Camille Paglia)


How did beauty begin? Earth-cult, supressing the eye, locks man in the belly of mothers. There is, I insist, nothing beautiful in nature. Nature is primal power, coarse and turbulent. Beauty is our weapon against nature; by it we make objects, giving them limit, symmetry, proportion. Beauty halts and freezes the melting flux of nature.
Beauty was made by men acting together. Hamlets, forts, cities, spread across the Near East after the founding of Jericho (ca. 8000 B.C.), the first known settlement in the world. But it was not until Egypt that art broke its enslavement to nature. High art is nonutilitarian. That is, the art object, though retaining its ritualism, is no longer a tool of something else. Beauty is the art object's license to life. The object exists on its own, godlike. Beauty is the art object's light from within. We know it by the eye. Beauty is our escape from the murky flesh-envelope that imprisions us.
[...]
The masculine art form of construction begins in Egypt. There were public works before, as in the fabled walls of Jericho, but they did not cater to the eye. In Egypt, construction is male geometry, a glorification of the visible. The first clarity of intelligible form appears in Egypt, the basis of Greek Appolonianism in art and thought. Egypt discovers foursquare architecture, a rigid grid laid against mother nature's malting ovals. Social order becomes a visible aesthetic, countering nature's chthonian invisibilities.

Camille Paglia
Sexual Personae
1990, ed. Vintage
[pp.57-59]
Imagem: Tempo de Hatshepsut (XVIII Dinastia), do arquitecto Senenmut, 1490-1460 a.C.

terça-feira, 18 de março de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Memorial Temporário #3


''A batota inocente de Florbela Espanca'', um texto meu sobre algumas cartas da escritora ao segundo marido, que podem ler aqui.

(na imagem, o retrato de Florbela por Graça Martins)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sequência X


herdei de ti a máquina de barbear
(eu que não faço a barba)
para enfrentar o terror de limpar os teus
pelinhos póstumos

escanhoei o rosto e durante semanas
aleijei-o com o teu cheiro

Miguel-Manso
Supremo 16/70
2013, ed. Artefacto
imagem de Miguel Leal