quarta-feira, 27 de julho de 2011

Frailty de Bill Paxton

ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS



Com uma longa carreira como actor, Bill Paxton estreou-se na realização em 2002, com este "Frailty", que em português se chama "Pela Mão do Senhor". É um filme difícil de definir. Nele se cruza o drama familiar com o horror, sendo a ligação conseguida através do tema, presente nalguns filmes deste último género, da obsessão religiosa.

Fenton Meiks (Matthew McConnaughey) vai uma noite procurar o detective Wesley Doyle (Powers Boothe), dizendo-lhe ter informações sobre o assassino que Doyle investiga, conhecido por Mão do Senhor. É assim que Meiks, revelando que o assassino é o seu irmão Adam (Levi Kreis), se lança a contar a história da sua infância. Depois da morte da mãe, Fenton e Adam passam a viver só com o pai (Bill Paxton), numa vida harmoniosa, até à noite em que o pai é visitado por um Anjo que o incumbe da missão de, representando a Mão do Senhor, destruir os demónios que estão espalhados pela Terra. E assim, o pai vai recebendo listas de pessoas que deve assassinar. Adam parece aceitar esta ideia muito facilmente, dizendo que, tal como o pai, consegue ver o demónio que se esconde por baixo da aparência humana das pessoas nas listas. Mas Fenton tem sérias dificuldades, o que lhe origina uma série de dissabores, que culminam com a sua clausura numa masmorra subterrânea que ele mesmo, sob as ordens do pai, escavara. E assim a infância violenta e delirante dos rapazes acabaria por, depois da morte do pai, "marcar" Adam para seguir com a missão de assassinar os demónios.

O que "Frailty" tem de interessante é que consegue notoriamente desviar-se dos clichés em que facilmente poderia ter caído, centrando a história no drama pessoal de Fenton e no seu conflito de valores. E é através desta violência exercida sobre a criança que Paxton consegue criar o verdadeiro horror do filme. Não há cenas particularmente gore ao longo da história, nem propriamente a pressão de ter que criar sustos contínuos e o resultado é que o horror se vai desenrolando a um nível psicológico que, como sabemos, resulta tanto ou mais que o físico.

A temática da obsessão religiosa ou do delírio a ela ligada é também muito bem abordada pelo argumentista Brent Hanley, recusando os caminhos mais evidentes, para, no final, sofrer uma resolução bastante surpreendente e que, para todos os efeitos, fecha as possibilidades abertas pelo filme, deixando de fora qualquer ambiguidade. Numa situação normal, esta escolha poderia não ser a melhor mas, na verdade, é essa mesma escolha que torna o final inesperado. Paxton revela-se um realizador competente, conseguindo alguns planos realmente marcantes, e bastante bem-sucedido na criação de um ambiente onde são notórias características como o isolamento, o secretismo, a dúvida e o medo, claro. Matt O'Leary e Jeremy Sumpter também estão surpreendentemente bem para a idade, nos papéis de Fenton e Adam enquanto crianças, contrariando a ideia de Alfred Hitchcock de que não se deve filmar com crianças. Outro exemplo de como isto nem sempre se confirma, seria "The Others" de Alejandro Amenabar.

Matthew McConnaughey também está surpreendente, no papel de um personagem torturado e por isso mesmo um tanto parado.



Ainda que este filme possa ser uma desilusão para quem espera algo de declaradamente violento e aterrorizante, na verdade, parece-me que, por se recusar precisamente a esses papéis acaba por resultar bastante melhor.


Bikini Grils On Ice de Geoff Klein

NINGUÉM MERECE






É de 2009 esta bodega (E vão ter que me desculpar, mas recuso-me a tratar isto por "filme".) realizada por Geoff Klein. Deste realizador existiam, antes, apenas duas curtas-metragens, que não vi. E pelas impressões com que fiquei da primeira longa-metragem, este "Bikini Girls On Ice", nem me interessa ver as curtas.

Esta bodega apresenta-se como uma bodega de terror, ou como thriller, mas, na verdade, não consegue ser coisa nenhuma. Se o título é premonitório de uma bodega cheia de meninas em bikini e muitas cenas de sexo e gore gratuito, a verdade é que só a primeira premissa se cumpre.

"Bikini Girls On Ice" conta-nos a história (?) de um grupo de raparigas que, para angariar fundos para alguma coisa que não chegamos a saber o que é, se propõe a lavar carros na estrada, usando apenas bikinis. São acompanhadas por Blake (Tarek Ghader) e Tommy (Ivan Perik), que tratarão da manutenção do evento. O problema é que o autocarro onde se deslocam sofre uma avaria, e, em vez de fazerem o car-wash na praia, como planeado, têm que fazê-lo numa bomba de gasolina abandonada, numa estrada deserta do interior. Isto aontece no primeiro quarto de hora da bodega, e cumpre já um sem-número de clichés ligados ao cinema comercial que se apodera do terror. O que acontece com este tipo de objectos de venda é que, por norma, o terror é um mero pretexto para filmar imensas cenas de sexo e de nudez. E é mesmo aqui, e só aqui, que "Bikini Girls On Ice" consegue surpreender. De facto, as raparigas, imensas, aparecem sempre de bikini, mesmo nas situações mais inusitadas, mas não há cenas de nudez. Cenas de sexo há apenas uma, rápida e sem qualquer noção de erotismo, e, isso sim surpreendente, sem noção de como fazer vender uma cena de sexo.

Quanto ao gore, que por norma é a justificação da designação "terror", também não o há. As cenas de perseguição por parte de um assassino nojento que grunhe culminam sempre com planos da cara dele e com salpicos de sangue nas paredes.

As personagens não chegam sequer a ter existência, são meros corpos, sem qualquer tipo de backstory ou de seja o que for. Seria de esperar, pelo menos, corpos sensuais. Mas nem isso. As raparigas são, na sua maioria, feias e desengraçadas, algumas mesmo mal-feitas e todas, sem excepção, não fazem a mínima ideia do que é sensualidade. E, como seria de esperar, são todas más actrizes. Mas chegam a ser tão más que se torna penoso vê-las. A protagonista, Cindel Chartrand, é absolutamente inexpressiva, de um rosto liso e frio, e, quando fala, é sem o mínimo de convicção. Não surpreende ninguém que para uma bodega destas não se tenham conseguido boas actrizes, pois nenhuma mulher inteligente e que se auto-respeite aceitaria fazer um papel destes.

Os rapazes, apenas dois, e que são remetidos para quase figurantes, também não fazem melhor figura. Um e outro parecem seriamente inertes e incompetentes, não servindo os actores para sequer um papel tão frugal como o que aqui têm.

A inconsistência da premissa também vai sendo evidente ao longo destes tortuosos oitenta minutos, sendo o assassino uma figura mal empregada, realmente nojento de aspecto, mas tão mal construído enquanto personagem que não chega a causar nem o mais leve calafrio.

O final da bodega arrasta-se imenso, para um final bastante frouxo, de resto bastante à altura de tudo o que aqui é feito.






Eu já vi maus filmes. Já vi filmes muito maus, muitas vezes. Mas foram muito raras as vezes em que, como aqui, tive tanto a certeza que o realizador nem sequer estava a tentar. A tentar fazer um filme, já nem digo um bom filme.

Uma coisa destas, ninguém merece ver. O título "Bikini Girls On Ice" promete um misto de pornografia e horror, mas a bodega acaba por não resultar nem para um nem para outro.

E desafio qualquer pessoa a encontrar um filme pior do que este, excepção feita a Alexandre Aja, que conseguiu no seu "Piranha" igualar a proeza de Geoff Klein. Sinceramente, eu apoio qualquer lei que exija que Geoff Klein seja preso num asilo psiquiátrico e impedido de, alguma vez na vida, voltar a pegar numa câmara de filmar. Nem que seja para filmar a sua última vontade e testamento.




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terça-feira, 26 de julho de 2011

The Ward de John Carpenter

CHOQUE

Não havíamos longa metragem desde "Ghosts of Mars", de 2001. Em exactamente dez anos, aquele que será um dos maiores mestres do cinema de horror, John Carpenter, realizou duas médias-metragens para a série de televisão "Masters of Horror", "Cigarette Burns" (2005) e "Pro-Life" (2006), além de ter visto dois dos seus mais marcantes filmes serem brutalmente violados, "The Fog" e "Halloween" em remakes de Rupert Wainwright e Rob Zombie, respectivamente.








Tendo em conta que "Ghosts of Mars" era um filme que nos apresentava Carpenter no seu melhor e mais complexo, quando a isto se acrescenta uma quase-ausência de dez anos, um filme como "The Ward" só pode ser muitíssimo aguardado, o que significa também que, sobre ele, recaem grandes expectativas.

O argumento de "The Ward", escrito por Michael e Shawn Rasmussen, leva-nos a 1966, ao Hospital Psiquiátrico de North Bend, onde Kristen (Amber Heard) acaba de ser internada, depois de ter incendiado uma casa isolada junto à floresta. Kristen passa a habitar o quarto da falecida Tammy que, na sequência inicial do filme, é assassinada em circunstâncias estranhas, dentro do quarto.

No hospital, além da terapia com o dr. Stringer (Jared Harris), Kristen trava conhecimento com mais quatro pacientes ali internadas, Emily (Mamie Gummer), Iris (Lyndsy Fonseca), Zoey (Laura Leigh) e Sarah (Danielle Panabaker). O convívio com estas mulheres, que ostentam sinais de psicose mais ou menos evidentes, é complicado para Kristen, na medida em que, como seria de esperar, esta se considera lúcida, ainda que não consiga perceber concretamente o que fez com que fosse internada no Hospital Psiquiátrico.

Acontece também que, a certa altura, as pacientes começam a desaparecer, enquanto Kristen tem alucinações com um fantasma de uma rapariga chamada Alice, e que teria sido também paciente daquele hospital. E não só as circunstâncias da morte de Alice se afiguram misteriosas, como o desaparecimento das outras parece apontar para o mesmo mistério, onde se prevê uma história de vingança.

O filme evoluiu num sério crescendo de tensão, até ao desenlace que, não sendo brutalmente insólito, é pelo menos inesperado.

Há aqui duas questões que têm que ser separadas: o argumento e a realização.

O que acontece é que o argumento de "The Ward" carece de um certo sentido de ritmo. A primeira metade do filme vai alternando entre o convívio das pacientes e as consultas com o psiquiatra e, ainda que se sinta um certo clima de mistério, falta tensão e também uma exploração mais profunda dos elementos que vão sendo dados para que se entenda esse mistério, parecendo que tudo fica em suspenso, para ser explorado depois, a partir mais ou menos dos sessenta minutos quando, aí sim, a tensão começa realmente a fazer-se sentir. O que acontece é que o argumento deveria estar escrito de maneira a distribuir tudo isto de uma forma mais equilibrada, criando no espectador a vontade de ir descobrindo o segredo que "The Ward" encerra. Mas, estando escrito da maneira que está, o argumento parece, primeiro, demasiado lento e, depois, preocupado em compensar.

O que vem salvar tudo é, como seria de esperar, a realização meticulosa e inteligente de John Carpenter. À primeira vista, poderia parecer que "The Ward" quase homenageia "The Shining" de Stanley Kubrik, mas, se repararmos realmente no cinema de Carpenter, percebemos que, nele, há sempre um sentido arquitectónico, que acontece, de novo, neste filme. O espaço é, de facto, filmado de maneira a mostrar-nos mais ou menos o que sentir em relação àquele espaço. E Carpenter sabe sempre como utilizar esse espaço, e os seus pormenores, para legitimar as situações que filma. E se, de facto, na sua primeira hora, "The Ward" vai tendo algo de interessante, é às minúcias de realização que o deve; e também à direcção de actores, que volta a estar perfeita. Não só Carpenter consegue planos inesperados e contundentes, principalmente no que toca às aparições do fantasma de Alice e na morte das primeiras pacientes; como as actrizes se demonstram perfeitamente competentes no que toca a entretecer um clima entre si, que oscila entre a loucura e a convivência infantil. E, claro, há que referir também o genérico inicial, inteligente e sensível, na utilização de ilustrações relacionadas com as técnicas psiquiátricas em voga nos anos sessenta e a simbologia do vidro que parte, como símbolo da mente que se divide ou que se estilhaça.






Não se pode dizer, em verdade, que "The Ward" seja um filme mau. Àparte questões de ritmo que não estão bem resolvidas no argumento e que a realização só pode contornar até certo ponto, a verdade é que este filme é bem-sucedido no que toca às ideias de desconfiança da mente própria, de clausura e claustrofobia, e até de conspiração. E se este fosse um filme de um qualquer outro realizador, seria de aplaudir. O problema é que este é não só um filme de John Carpenter, como a primeira longa-metragem que este realiza num espaço de dez anos. E de Carpenter seria de esperar muito melhor. As suas marcas mais garridas estão todas presentes, mas falta-lhe movimento, falta-lhe alguma invulgaridade.

O que não se compreende é como é possível que Carpenter, numa média-metragem para televisão, tenha realizado um filme que é um clássico imediato e um dos melhores filmes de horror de sempre e que, com todos os meios próprios de uma longa-metragem para cinema tenha feito um filme que, pura e simplesmente, não pode competir com grande parte dos filmes que Carpenter tem na sua filmografia.

Esperemos que haja outro filme, em menos de dez anos, que venha repor a fascinação que John Carpenter nos merece, sem dúvida.



domingo, 24 de julho de 2011

(Des)Crucificações





No decurso do II Encontro da Associação Portuguesa de Prevenção do Alcoolismo, foi abordado o tema “O Álcool na Literatura _ O Escritor e a Obra” que incluiu uma homenagem a Natália Correia, para a qual me pediram colaboração. Escolhi nessa ocasião dar um testemunho sobre algumas dimensões menos visíveis da personalidade desta escritora que me impressionaram e tocaram duma forma especial (por ter sido sua amiga e por ter privado com ela) e poderão ajudar a compreendê-la um pouco melhor.

Se um talento esplendoroso, uma inteligência luminosa e um magnífico sentido de auto-encenação foram responsáveis pela incendiada admiração que tantos de nós sentimos por Natália Correia, a pose majestática, tonitruante e por vezes feroz, assustaram outros tantos; mas apenas um olhar disponível e sem preconceitos podia dar-se conta, ao arrepio dos lugares comuns que sempre se foram dizendo a seu respeito, do absoluto desamparo e da total fragilidade deste ser excessivamente complexo e paradoxal.

A quem se deixava impregnar pelo carisma desta mulher extraordinária, não podia deixar de surpreender o intenso curto-circuito que a sua personalidade exprimia pela mistura do esplendor com o arcaico, ou como ela própria disse em “Madona”, referindo-se a uma personagem, podíamos senti-la como se estivesse “...misticamente ligada a uma religião onde as forças extremas, o sórdido e o sublime se fundiam numa única e inominável divindade... não havia qualquer duplicidade moral nesta sua forma de tocar os dois pólos da alma. Dir-se-ia que o seu espírito tinha um perpétuo movimento circular que incessantemente abrangia o superior e o inferior” (p. 41)

Esta complexidade e estes contrastes foram desde sempre para mim um poderosíssimo apelo à decifração. Tentar esclarecer alguns equívocos que envolveram a figura e a vida de Natália Correia é um tributo de quantos a conheceram e amaram.

O primeiro equívoco é sugerido pela associação da Natália à problemática do alcoolismo. Já por altura da sua morte houve quem, nunca a tendo conhecido, comentasse terem sido o álcool e o tabaco a vitimá-la. Nada mais injusto.

É verdade que Natália frequentava um bar regularmente, animando noite após noite tertúlias e convívios; defendeu exaltadamente marginalidades e marginais; celebrou com álcool festas e encontros; e abominou em discursos excessivos todas as formas de puritanismo. Tratava-se duma postura intelectual, uma atitude romântica, insubmissa e desafiadora, que partilhava desde a juventude com os surrealistas, de quem foi amiga, companheira de muitos percursos e em alguns casos musa inspiradora.

No entanto bebia muito moderadamente, apenas em situações sociais, e afirmava mesmo nunca se ter excedido. Quando deixou de beber e fumar por conselho médico, nunca a ouvi queixar-se por lhe sentir a falta; apenas sofria por ter perdido a saúde que lhe permitira no passado beber e fumar.

Aquilo que de mais subterrâneo a terá impelido para certos ambientes, sugeriu-o em “Madona”, a propósito de bares e do cortejo de seres bizarros que sempre lhes estão associados: “Perante essa inquietante sociedade de seres oníricos [Miguel], dava-me a impressão de um coleccionador de coisas fantásticas nas quais fazia entrar a tragédia afogada em risos desses palhaços da comédia dos sexos” (p. 84). Ou: “... Mas o que ele procurava era uma forma... de nadar naquele mar de naufragados, o único elemento que lhe permitia a sensação de se agitar e de se achar vivo no pulsar dessa agitação” (p.55). Ou ainda: “É no meio desses infelizes que eu me posso sentir um ser humano” (p.178).

Outro equívoco terrível que crucificou Natália Correia em vida diz respeito à lenda de “mulher fatal”, “vamp”, “devoradora de homens” (ou nem só), tecida através de inúmeras histórias e enredos, qual deles mais descabelado, com que mistificaram a sua vida amorosa. Este equívoco partilhou-o com outras mulheres de gerações próximas da sua. Grandes actrizes que ajudaram a criar e difundir o mito da “mulher fatal” surgem-nos hoje em dia, através de biografias póstumas (Garbo, Marlene, Marilyn, etc.), como vítimas destroçadas pelas armadilhas a que deram rosto, e revelam-se-nos mulheres imaturas, sexualmente inibidas, com vidas amorosas precárias e infelizes. Esta verdadeira patologia da feminilidade não parece encontrar-se nas gerações com menos de 60 anos. O cinema continua a promover imagens de mulheres belas e sensuais, mas distantes da “mulher fatal” dos anos 50. Sucessivas revoluções sexuais fizeram aparecer novas expressões para a mesma patologia da feminilidade, e ironicamente os herdeiros actuais destas “femmes fatales” dos idos 50 parecem ser certos travestis do “show business”.

Natália Correia contribuiu para este equívoco que se lhe colou à pele e à vida: foi uma mulher muito bela e uma sedutora compulsiva, uma “allumeuse”. Com as suas ideias libertárias e atitudes desafiadoras demoliu publicamente muitos tabus, sexuais incluídos, ajudando a criar uma imagem com que viria a ser perversamente agredida.

Era por isso totalmente inesperado darmo-nos conta, ao privar com ela, de quanto a sua vida e os valores pelos quais pautava o seu comportamento contradiziam esta ousada encenação intelectual. Confessava repetidamente, a pessoas quase sempre incrédulas, que se considerava uma mulher sexualmente inexperiente, inapetente e inapta. Emitia juízos de valor a respeito de comportamentos de pessoas que lhe eram próximas, que mais do que conservadores, chegavam a ser reaccionariamente puritanos.

Mas ela própria afirmou: “A minha ousadia era puramente intelectual, ou seja, a cobardia de viver” (“Madona”, p. 165). Ou: “...A poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência.” (Ibid., p. 154). Ou ainda: “... Fazer poemas enquanto se mata/ durante a cópula quando faminto/ esses nunca os vi fazer// A poesia é sempre em vez/mênstruo da alma uma vez por mês/ sangrenta flor abortada/ da natureza infecunda” (“Poema Sáfaro”, in “O Vinho e a Lira”).

Perante a perplexidade de quantos a procuravam compreender, tornava-se claro que não se tratava de fingimento: não havia uma Natália actriz “vs “ a pessoa; a figura pública “vs” a existência privada; a máscara “vs” o rosto. Ao contrário, estávamos sempre dentro do mesmo cenário, barroco, que ora nos aparecia pelo direito, ora pelo avesso, numa constante reversibilidade dos contrários.

Um dia contou-me que, quando criança, ainda nos Açores, vira num filme bíblico cristãos a serem devorados por leões num circo romano, e imediatamente tomara o partido dos leões. Nesta frase extraordinária, Natália Correia condensou toda a sua tragédia narcísica: ela foi sempre a vítima, condenada implacavelmente a ser comida pelo leão – em que ela própria se tornava para poder sobreviver. Cristão devorado e leão devorador, Natália Correia cumpriu este destino em vida e obra. Vítima sacrificial desde sempre crucificada na sua tragédia interior, o que a compeliu a trabalhar obsessivamente, e magnificamente, o tema da descrucificação.

Esta primordial crucificação (tão dilaceradamente exposta em “Uma Estátua Para Herodes”) dum ser que simultaneamente irrompia com uma energia anímica assombrosa (Henry Miller chamou-lhe “uma força da natureza”) pertencia ao que em Natália Correia permanecia um enigma em busca de decifração. Sensíveis à carga mítica que desde sempre a envolveu, podíamos ao mesmo tempo adivinhar a criança dependente, humilhada e culpabilizada que também foi. Com a sua admirável vitalidade “deu a volta por cima”, sem no entanto se soltar do fio da navalha onde sempre se equilibrou pela criação e fantasia que fizeram dela a genial fabricante de sonhos que conhecemos.

A devoção e admiração que procurava permanentemente obter à sua volta, foram a forma sublime com que recusou submeter-se à sua aflita dependência, que noutros planos sentiu com um desmesurado embaraço. A vergonha e humilhação transfigurou-as em magnífica arrogância com que golpeava implacavelmente quantos ameaçavam apequená-la. A terrível culpabilidade em que se consumia converteu-se em desafio e provocação com que “levantava as saias a essa podridão vestida de marido, de pai, de sacerdote” (“Madona, p. 36).

Neste precário equilíbrio entre dependência e necessidade de ser admirada, humilhação e arrogância ou mesmo culpa e desafio, Natália cumpriu-se excessiva e exuberante em cada um destes pólos antitéticos.

Alquimicando esta humaníssima dilaceração, o seu extraordinário talento marcou-lhe encontro com as próximas gerações, quando a sua vastíssima obra for conhecida, compreendida, apreciada e ocupar o lugar cimeiro que lhe pertence no panorama cultural do nosso século. O futuro deixar-se-á impregnar pela genialidade fulgurante das suas dádivas maiores: “...E à branca praia nos leva a onda materna/ Porque os deuses aí não são longínquos./ Têm seus tronos onde nos esperam/ Imutáveis os mitos” (in “O Armistício”).

É lá que a Natália Correia nos espera.


M. Manuela Gonçalves dos Santos
in "Se...Não"
nº 2, 2011

sábado, 23 de julho de 2011

Amy, a artista

A morte, hoje, de Amy Winehouse não surpreende, mas não deixa de ser triste.
Dois álbuns de excelente qualidade, infelizmente, não lhe deram tanta fama quanto os problemas com o álcool e as drogas. Provável e lamentavelmente, será essa condição de deprimida não tratada a construir a lenda à volta de Amy.
É pena. O destaque deveria ser dado a canções como "In My Bed", "Me and Mr. Jones" ou "Back to Black".
Porque colocar a tónica no álcool e nas drogas fará dela uma estrela, mas não uma artista, agora que, depois da morte, a recordamos. E isso, a meu ver, torná-la-à indigna, porque a estrela facilmente se torna vulgar, substituível, dispensável. Mas a Amy era uma artista, por isso mesmo invulgar e irrepetível. Eu prefiro lembrá-la assim. Haja mais alguns que a lembrem assim!
E, para assinalar o seu triste desaparecimento, aqui fica a minha música favorita das suas, "Back to Black".



Amy Winehouse

1983-2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

"Biophilia", o sétimo álbum de originais de Björk vem em Setembro



"Crystalline"




"Cosmogony"

Harry Potter and The Deathly Hallows part2 de David Yates



ENCOLHER OS OMBROS


Sobre a segunda parte de "Harry Potter and The Deathly Hallows" recaía uma grande pressão. Primeiro por ser o filme que encerra a saga e também porque a primeira parte se apresentava como um objecto cinematográfico respeitável, com qualidades que covinha manter.
Chegada então a conclusão aos cinemas muito recentemente, o
que parece é que David Yates não foi realmente capaz de fazer um filme à altura.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção relativamente à primeira parte, estreada o ano passado, foi que, comparativamente a todos os filmes da saga, este era aquele que parecia ter uma consistência realmente cinematográfica e visual, sabendo como inventar-se a partir do imaginário dos livros de J.K. Rowling.
Esse é um dos defeitos desta segunda parte: é que parece limitar-se a dar uma dimensão visual àquilo que Rowling escreve, não tendo, consequentemente, grande independência enquanto filme. Mais ainda, há cenas neste filme que também parecem seguir um facilitismo muito evitável, colando-se a filmes recentes do mesmo género, dos quais o exemplo mais evidente será o da saga "Lord of the Rings", muito notório na cena da invasão dos Devoradores da Morte à escola de Hogwarts.
Sendo que este filme representa a batalha final entre Lord
Voldemort (Ralph Fiennes) e Harry Potter (Daniel Radcliffe), seria de esperar que Yates conseguisse criar uma tensão conveniente nessa batalha. Pelo contrário, Yates parece adiar deliberadamente esse confronto para, quando ele finalmente acontece, parecer despachado num instante, deixando seriamente a desejar.
O delírio de Harry, do reencontro com o falecido Albus Dumbledore
(Michael Gambon), conta com um bom diálogo, mas visualmente também se nos apresenta bastante pobre, além de pouco criativo. É facto que Yates poderia ter levado a cena bastante mais longe.


Neste filme, tal como no anterior, faz-se também sentir, ligeiramente, a presença da adolescência, num pendor romântico, mas, ao passo que anteriormente este lado surgia de uma forma realmente orgânica, neste filme parece ser algo de apressado e que está ali apenas para manter uma certa fidelidade ao livro, sem ser realmente significativa para o filme.
Por fim, outra cena que só pode ser uma desilusão é a sequência final em que, 19 anos depois da batalha final, Harry leva o filho ao Hogwarts Express. A escolha de usar os mesmos actores é deplorável, porque não há, pura e simplesmente, maneira de estes actores parecerem estar próximos dos 40 anos. Toda a maquilhagem e tratamentos conseguiriam, no máximo, fazê-los parecer uns cinco anos mais velhos, pelo que a cena final se nos afigura absolutamente indigna do orçamento que este filme teve para ser produzido. Não se admitia um erro tão crasso a não ser numa produção escolar (E mesmo aí, poder-se-iam encontrar soluções mais acertadas.).
De facto, esta segunda parte de "Harry Potter and the Deathly Hallows" está muito longe quer de ser um bom final para a saga de Harry Potter, quer de ser um filme particularmente bom. O que mais desilude é que David Yates realizou aquele que poderá ser o melhor filme desta saga, para afinal vir a realizar um outro que mais não provoca em nós que um encolher de ombros.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre a Areia


Sair do mar deitar

na areia o corpo como se o chamasse

o sonho desta noite tão exacta


na reconstituição do que era

oh alucinação da juventude

aproximar dos corpos



Gastão Cruz

in "Corrente d'Escritas 2010"


pintura de Henry Wallis

segunda-feira, 18 de julho de 2011

É bem verdade...

Love is great, love is fine
Out the box, outta line



Rhianna, S'n'M

1962, Agosto, A-Ver-o-Mar



Que longo dia para a minha tristeza! Longe é onde há vozes, chamamentos, passos, acenos de adeus. Aqui o silêncio é um túmulo aberto que me força a olhar a inutilidade da luz.

A paisagem movente, ensolarada, azul, luminosa e marinha é aquele que eu tinha decidido seria para sempre como entrar na infância e no sonho. Mas não tenho nenhum sonho para habitar a paisagem que se fere de insídias, de abandono, se lacera de ausência. Como foi possível? Não há só destinos. Há maus fados. Só nas histórias antigas é que tudo era de sempre e para sempre, porque o tempo não existe, é auroral, eterno, sem desgaste.

Vela que passaste entre as ramagens, a memória traz-me afagos, instantes, uma voz... Tudo breve, breve sombra de asas sobre as dunas.



Inocentes, as crianças dormem. A noite entra pela janela e pousa uma túnica, inconsútil de luar, na minha cama vazia. Fecho a vidraça. Pelo menos o choro soluçante da maré quedar-se-à fora. Mas não posso evitar o que em mim morre. Não sei bem o que é. Morre lenta, dolorosamente, morre, como um difícil afogar de pétalas.



Luísa Dacosta

Na Água do Tempo, diário

1992, ed. Quimera

fotografia de David Penprase

domingo, 10 de julho de 2011

O Livro dos Amantes (fragmentos)


IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.

Quero-te conciso.

Adão depois do paraíso

errando mais nítido à distância

onde te exalto porque te demoras.





VI

Aumentámos a vida com palavras

água a correr num fundo tão vazio.

As vidas são histórias aumentadas.

Há que ser rio.



Passámos tanta vez naquela estrada

talvez a curva onde se ilude o mundo.

O amor é ser-se dono e não ter nada.

Mas pede tudo.





VIII

Eis-me sem explicações

crucificada em amor:

a boca do fruto e o sabor.





IX

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficámos nas paredes do vento

a escorrer por tudo o que ele invade.



Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos a carne de um segredo.



Natália Correia

Poemas

1955, ed. autora

fotografia de Floria Sigismondi

sábado, 9 de julho de 2011

Boas notícias

Apesar de ter dito que "Ruas", de 2009, seria o seu último álbum, Mísia confirmou já a edição de mais um disco para o outono deste ano. "Senhora da Noite" será o título, seguindo um espectáculo que Mísia tem vindo a interpretar por vários palcos europeus.
São boas notícias, já que Mísia não deixa de ser a mais complexa fadista, com um projecto que, desde sempre, tem sabido cruzar da melhor maneira o fado quer com outras sonoridades, quer com a poesia e com densos imaginários de que nos dão conta as fotografias que acompanham os álbuns e os videoclips.
Abaixo fica um teaser do que será o sucessor de "Ruas". Com imagens de Francisco Aragão, colaboração nada recente, Mísia mostra-nos duas canções: a primeira, "Senhora da Noite", que dá título ao álbum conta com um interessante poema de Hélia Correia; a segunda, "Simplesmente", tem letra de Amélia Muge.
Pelas previsões, não ficaremos desiludidos.



[em folhas de acetato me proteges]


em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.



António Franco Alexandre

A Pequena Face

1986, ed. Assírio e Alvim

pintura de Paul Gauguin

"Lillias Fraser": O Perigo de Revelar o Nome

Recentemente, reabri "Lillias Fraser", um dos melhores (Senão o melhor mesmo.) romance de Hélia Correia. Na altura em que o li pela primeira vez, aqui escrevi um texto (Este.) com algumas notas de leitura sobre o livro, editado em 2001. No entanto, quer-me parecer que houve uma questão que descurei (O que não será tão estranho assim.) ou a que, pelo menos, não dei a devida importância. Creio que acontece assim com os grandes livros: e
xigem-nos que voltemos a eles para se revelarem totalmente a nossos olhos. E, sendo que, para mim, é inquestionável que "Lillias Fraser" é um grande livro, quer-me parecer que, de cada vez que o ler, e certamente o lerei mais vezes ainda, encontrarei algo de novo.
Neste caso, já um pouco descentrado da ideia da terceira visão que, numa primeira leitura, me pareceu um dos aspectos cruciais para entender tanto o romance como a personagem de Lillias; o que me chamou a atenção foi a questão da identidade. O problema da identidade é assunto de muitos livros, senão de todos mesmo, e não tenho dúvidas de que "Lillias Fraser" será um dos exemplos mais complexos e mais bem-sucedidos desse problema.
Hélia Correia já antes havia abordado, e de várias perspectivas, o problema da identidade: em "O Número dos Vivos" (1982), acompanhamos o percurso de uma rapariga do campo que se infiltra numa família rica e assim se vai metamorfoseando; em "Soma" (1986) encontramos um indivíduo que, no limiar da velhice se confronta com os seus valores de juventude; em "A Casa Eterna" (1991) uma mulher vai visitar a casa onde um amigo poeta havia nascido e onde havia voltado para morrer, na tentativa de reconstruir a sua vida. E, mesmo depois de "Lillias Fraser", Hélia voltou à questão identitária em livros como "Bastardia" (2005) e, de certa forma, mesmo em "Adoecer" (2010).

******

Em "Lillias Fraser", a questão da identidade é de longe muito mais directa do que em qualquer outro livro, já que ela se assume, através, por um lado, do silêncio de Lillias, poucas vezes quebrado ao longo da sua história, e, por outro lado, pela impossibilidade da menina revelar o nome verdadeiro.
Filha e irmã de rebeldes de guerra, na Escócia, ao tempo da Batalha de Culloden, Lillias é salva pela sua capacidade de antever a morte das pessoas quando esta se aproxima. Escondida por várias pessoas, é-lhe dito a certa altura que não fale. Mas aquilo que era uma maneira de ninguém reparar que Lillias ali estava é interpretado pela própria como uma ordem permanente e, na grande maioria das páginas encontramos Lillias num mutismo estóico que, quando é quebrado, mais não revela do que trivialidades, sem que a rapariga alguma vez manifeste algo de verdadeiramente importante.
O fim da batalha amaldiçoa o nome Fraser em território escocês, e os acolhedores de Lillias acabam por lhe atribuir outros apelidos, sendo McLean o mais duradouro, que se perpetua até depois da sua vinda para Portugal, onde fica, inicialmente, a viver no Convento das Inglesinhas, em Lisboa. A sua estadia no convento termina com o Grande Terramoto. Lillias acaba por juntar-se a um grupo que tenta escapar à destruição causada pelo terramoto. Entre essas pessoas, encontra-se Cílicia Peres, que acabará por adoptar Lillias, dando-lhe um novo nome: Lília Peres.
A personalidade fortíssima da rapariga é evidente, mas manifesta-se sempre por outros modos que não a fala. Ela mantém o seu silêncio, nunca sequer protestando acerca dos novos nomes que lhe atribuem. Parte do seu medo em revelar a sua verdade parte também de alguns dissabores que tivera por causa do seu dom, sendo que este dom, por mais nefasto que fosse ou que pudesse parecer, será inevitavelmente uma parte dessa verdade íntima.
A questão do nome assume, aqui, como é claro, uma dimensão simbólica. Sabemos que na vida real, o nosso nome pouco diz de nós ou da nossa verdade. No entanto, no romance, somos levados a olhar para o nome como uma identidade e Lillias, tendo vários nomes, acaba por não ter nenhum, ou seja: quando lhe atribuem outros nomes, outras personalidades, estão, na realidade, a anular a verdade, a verdadeira identidade e esta passa a existir apenas dentro da própria Lillias Fraser, sem que mais ninguém tenha acesso a ela.
Pressente-se ao longo do livro que, tanto o mutismo quase contínuo como a não resistência aos novos nomes não resultado do medo que Lillias sente. Não é forçado que assim pensemos pois o momento em que Lillias recebe a "ordem" de não falar é um momento de grande medo, pois, ainda criança, percebera que estava a ser perseguida. E se essa primeira perseguição era justificada por uma questão familiar, a verdade é que outras perseguições se dão posteriormente, essas justificadas pelo dom que Lillias tem, de antever a morte. Se o medo, ou mesmo uma certa apreensão, não passam, é natural que a menina perpetue o silêncio e que não se oponha a ter o verdadeiro nome anulado.
A entrada em cena de Jayme, o filho desaparecido de Cilícia vem trazer, no fundo, uma alteração a um tempo ligeira e astronómica. Movida por um certo sentimento passional, Lillias muda de comportamentos, parecendo tornar-se mais "leve", menos introspectiva ou menos amedrontada, acompanha Jayme, ouve-o, reage a ele, sem, no entanto, quebrar significativamente o seu mutismo. E sem lhe revelar o nome, ainda que disso pudesse parecer muito próxima.
Se o seu medo por um lado se atenua, por outro não se dissipa.

Confirmaremos que este medo tem razão de ser mais à frente, quando Lillias, acompanhada de Cilícia, se encontra entre tropas escocesas em Portugal.
Na cena em que Lillias é levada junto do general escocês, ela ouve, pela primeira vez em muitos anos, a sua língua de nascença, com a mesma pronúncia. Aqui, a língua assume a mesma importância que o nome: por mais que não tenha uma importância tão extrema no quotidiano, ela apresenta-se-nos como mais um detentor de identidade, um elemento ligado ao íntimo e ao verdadeiro. Ou pelo menos é assim que Lillias reage: quando lhe perguntam o nome, responde "Lillias Fraser".
É a primeira vez, desde que fugira da Escócia, revela o seu nome a alguém. Mas vemos que a sensação de conforto e de intimidade que lhe fora sugerida pela língua se revela falsa: o nome Fraser ainda está ligado aos rebeldes e Lillias tem, de novo, que fugir, para evitar ser assassinada:

"No estado de alegria em que se achava, Lillias disse o seu nome verdadeiro. (...) Um tal esforço de grandeza de alma deixara Lord Loudon tão exausto que o seu humor sofreu um duro golpe. (...) Ela chegou e respondeu-lhe: «Lillias Fraser». O general suportaria tudo menos o nome Fraser outra vez"


E assim Lillias confirma o perigo de revelar o seu nome verdadeiro. Outras interpretações poderiam haver, nomeadamente a de que o apelido Fraser estava associado à guerra, portanto, a uma forma de violência, mas também a uma forma de resistência pois, seja como for, ambas são difíceis de aceitar pelo comum dos mortais. E, assim sendo, o nome que tem um passado de violência, dela não pode fugir nem no presente nem no futuro, pois é inegável que o impedimento de revelar o nome verdadeiro é de uma violência extrema, ainda que de outro tipo.
E, associada com esta problemática, surge-nos uma outra, que é a do reconhecimento: no final do livro, Lillias cruza-se com Blimunda Sete Luas, a personagem do "Memorial do Convento" de José Saramago, que tem um dom semelhante ao de Lillias, ainda que "mais feliz". E aí vemos que só verdadeiramente aquela que tem dentro de si algo de semelhante, algo que por vezes tem que ser silenciado, pode, sem perigo, ouvir o nome de Lillias, representando um quase-espelho, que esse, afinal, terá o direito de saber a verdade.

At Home


When I was dead, my spirit turned
To seek the much-frequented house:
I passed the door, and saw my friends
Feasting beneath green orange boughs;
From hand to hand they pushed the wine,
They sucked the pulp of plum and peach;
They sang, they jested, and they laughed,
For each was loved of each.

I listened to thier honest chat:
Said one: "To-morrow we shall be
Plod plod along the featureless sands,
And coasting miles and miles of sea."
Said one: "Before the turn of tide
We will achieve the eyrie-seat."
Said one: "To-morrow shall be like
To-day, but much more sweet."

"To-morrow," said they, strong with hope,
And dwelt upon the pleasant way:
"To-morrow," cried they, one and all,
While no one spoke of yesterday.
Their life stood full at blessed noon;
I, only I, had passed away:
"To-morrow and to-day," they cried;
I was of yesterday.

I shivered comfortless, but cast
No chill across the table-cloth;
I, all-forgotten, shivered, sad
To stay, and yet to part how loth:
I passed from the familiar room,
I who from love had passed away,
Like the remembrance of a guest
That tarrieth but a day.



Christina Rossetti

Goblin Market, The Prince's Progress and other poems

1879, ed. Macmillan

pintura de Edvard Munch

sexta-feira, 8 de julho de 2011

necrópole


ateada e vivente alguém me enterra
nestas vilas sem flor entre os cadáveres
que ninguém reconhece apodrecidos
na dissimulação.

de entre as parreiras, indistinto é o sangue.
rumores nos cercam: vivos? perfilados
de encontro às amarelas mãos da giesta
-da gesta- expiram; pulmão branco, o vento
carrega os vapores ásperos da cal.

também os animais não surgem.
fêmeas mastigam na poeira o lento
minguar dos corredores, velozes membros,
e, endurecido o leite, as crias velam,
que estrebuçam formais e transparentes.

é verão acaso?
esta secura, os fósseis sobre a lama,
o cio inexistente, os mutilados
buscando os seus pedaços nas encostas,
-é do tempo que faz, ou de uma história
de onde as estações fogem, repugnadas?

matilhas passam: alcateias lúcidas
pelo pescoço trazem indefesos
ao centro das ruínas- resto e fama
de uma caçada medieva e imensa.

nem dos céus descaiu esta catástrofe,
nem dos elementos térreos, mas dos príncipes
que roubaram da morte os negros ritos
da tradição.
aqui fogueiras roxas carbonizam,
lascivamente, os últimos vassalos.
«lugar de todos é a pátria.» eis pois
este lugar comum: a vala.
término.

esquecem-se, porém, senhores, dos filhos
que agora deambulam nas coutadas
alimentados pelo mel e as seivas
e abrigados nas tocas dos arbustos,
crescendo a sós, com arranhões e luta,
tempo por tempo -e as vossas vestes de oiro
em seus pequenos pensamentos pálidos
na memória da infância: permanente.

é de prazo a questão -vossa a vitória

(esquecem-se, porém, dos nossos filhos)

NÃO VOS ESPANTEM, POIS, RESSURREIÇÕES.



Hélia Correia

in "&etc", nº 10

1974

fotografia de Slava Mogutin

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lamb no CCB (11.6.11)

O aguardado regresso dos Lamb a Portugal contou com três concertos, no Algarve, em Lisboa no Porto. Aquele a que assisti, no CCB é, de facto, merecedor de algumas notas.
Para alguém como eu, um concerto destes só pode ser boa notícia. Não só porque "5" me pareceu um bom retorno da banda, pelo qual valeu a pena esperar seis anos, como porque detesto os santos populares e um concerto destes é uma excelentíssima alternativa.
Depois da primeira parte, entregue a Jay Leighton, os Lamb entraram no palco acompanhados apenas por Jon Thorne, contrabaixista. Lou Rhodes vinha, claro, lindíssima, ela sim, verdadeiramente angelical, e Andy Barlow bem-disposto, como esperaria qualquer um que já tenha assistido aos Lamb ao vivo.

A entrada em palco foi feita com Another Language, o tema que abre "5". A escolha não podia ser mais acertada. Um regresso depois de um hiato em que os Lamb anunciaram o seu fim, não pode senão marcar-se pela busca de algo novo; e essa ideia fica muito bem explicada por esta canção.
O álbum "5" seria o protagonista da noite, contrariando a tendência natural da revisitação dos clássicos, que até seria natual numa banda que tem bastantes, como é o caso dos Lamb.
Regressos ao passado aconteceram com Little Things e Lusty do álbum "Fear of Fours", com Gabriel e What Sound de "What Sound" e com Gorecki e Trans Fatty Acid de "Lamb". De fora, com muita pena minha, ficou "Between Darkness and Wonder".
Repare-se ainda que Trans Fatty Acid vem terminar o concerto: isto mostra-nos como, de facto, em "5" não deixa de haver um certo retorno àquilo que foram as origens dos Lamb, mais ligados a uma crueza e acidez que, entretanto, se foi suavizando e ganhando outras matizes.
E fica também claro que, ainda assim, "5" está muito longe de ser uma mera repetição daquilo que já fora feito. O público manteve-se de pé a maior parte do tempo, abanando-se muito ligeiramente, mas demonstrando, de qualquer forma, alguma receptividade ou até mesmo algum agrado por canções novas como Strong the Root, Wise Enough, Butterfly Effect, She Walks, Existencial Itch ou The Spectacle. O que continua a desagradar-me nos concertos dos Lamb, e este não foi excepção, é a obsessão que o público tem por ouvir Gabriel, dando a nítida impressão de não se interessar por ouvir mais nada. No entanto, para aqueles que se interessem realmente pela banda, este concerto terá sido bastante positivo.
A meu ver, esta actuação pecou apenas pela escolha de utilizar quase na íntegra todos os samplers que constituem as versões de estúdio das canções. Ao contrário do que aconteceu na digressão de "Between Darkness and Wonder", de que assisti a um concerto no ido ano de 2004, desta vez os Lamb não tocam com uma banda, apenas com um contrabaixista. E esta teria sido uma boa oportunidade de dar ao público um outro lado das canções, mais acústico ou mais simplificado, que talvez tivesse bastante interesse. E estranho mais ainda esta situação ao lembrar-me que Lou Rhodes fez precisamente o contrário com os seus primeiros dois trabalhos a solo: ao passo que em "Beloved One", em estúdio, estava quase sempre sozinha, em palco apresentou-se com banda, invertendo depois essas situações em "Bloom".
É uma opção, esta de usar o samplers, discutível portanto.
Fora isso e o facto do concerto ter durado apenas cerca de uma hora, nada a dizer. Valeu a pena esperar.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lamb no CCB (11.6.11) alguns vídeos



"Wise Enough" do álbum "5" (2011)



"What Sound" do álbum "What Sound" (2001)

domingo, 12 de junho de 2011

A Mal Acabada 6

E tudo nasce de tão mudo
gritando
entre dois instantes de tristeza
ou de estudo

Acordo estranha a mim
como fato esquecido num roupeiro
e saio da cama
sabendo o muito que fica
por despertar


Regina Guimarães

A Mal Acabada

2011, ed. Hélastre

sexta-feira, 10 de junho de 2011

É já amanhã



Lamb: Wise Enough (do álbum "5", 2011)

15:00 showcase na Fnac do CC Colombo
21:00 concerto no Grande Auditório do CCB (primeira parte: Jay Leighton)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Hoje



às 18:30 no Palácio do Marquês de Fronteira (Monsanto), acontece o lançamento de "As Luzes de Leonor", o novo romance de Maria Teresa Horta. Partindo da personagem de Leonor de Almeida Portugal, quarta Marquesa de Alorna, Maria Teresa Horta escreve um longo romance a que não escapam uma formação poética por inteiro, e também feminista.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mal por mal

De acordo com as sondagens publicadas no dia anterior às eleições, a vitória de Pedro Passos Coelho nas Legislativas de ontem não constitui surpresa alguma. As percentagens de votos é que talvez possam surpreender. Relembre-se que o PSD conseguiu 38,63% dos votos, o PS 28,05%, 11,74% para o CDS-PP, 7,94% para o PCP-PEV e 5,19% para o Bloco de Esquerda.

Apesar da nítida impreparação de Pedro Passos Coelho (Nada a ver com a experiência que, boa ou má, era vasta de Manuela Ferreira Leite.), o PSD sobre, em comparação a 2009, 9,52%. Eu penso que isto significa que o problema não era Portugal querer Passos Coelho mas sim, acima de tudo, não querer José Sócrates. Não só o PS desce 8,5% em comparação a 2009, como, desta vez, nem sequer consegue chegar a ter 30% dos votos, o que já não acontecia desde 1991, quando Jorge Sampaio concorreu contra Aníbal Cavaco Silva. O resultado, vergonhoso, não pode propriamente surpreender ninguém: os dois executivos de Sócrates foram demonstrações de pura falta de capacidade de governação, pois, afinal de contas, usou uma maioria absoluta, em 2005, contra os eleitores, denotando um perfil assustadoramente ditatorial e, ao perder essa maioria em 2009, mostrou-se ainda mais incapaz de governar, culminando as suas peripécias com a vinda do FMI para Portugal, de que, aliás, notavelmente Sócrates lavou as mãos, usando, como sempre foi seu costume, doses e overdoses de demagogia, manipulação e arrogância.

Sendo José Sócrates o tipo de homem que não convém ter-se por Primeiro Ministro, verdade se diga que Passos Coelho não é grande alternativa. Com um currículo político diminuto e um exacerbado talento para más escolhas a que, ainda por cima, falta subtileza; Passos benificiou, principalmente, de dois factores: o primeiro, já referido, foi a repulsa que os portugueses ganharam -e com razão -a José Sócrates; o segundo foi uma interessante campanha, arquitectada por alguns Górgias, em que o PSD conseguiu dissimular satisfatoriamente o facto de ter tido um papel importante, senão decisivo, nos eventos políticos que nos conduziram à situação em que nos encontramos. Os portugueses, pouco dados a hipermnésias, provavelmente esqueceram-se que os primeiros três PECs tiveram a participação e a aprovação do PSD e que, se o mesmo não sucedeu com o PEC 4, foi porque, por essa altura, já Sócrates avançava no seu jogo de recuperação de Poder que, afinal, resultou ao contrário.

De destacar, mas não de surpreender, é também a demissão de José Sócrates do cargo de secretário-geral do Partido Socialista. Nunca fui sequer simpatizante deste partido, mas acho que qualquer um de nós, com um pouco de objectividade, pode concluir que faz falta ao PS um outro líder que, se não mais, pelo menos seja de esquerda, num partido de centro-esquerda. Como seria de esperar, há já alguns sussurros não-oficiais sobre novos líderes, dos quais se destacam António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, Francisco Assis, deputado eleito pelo Porto e António José Seguro, eleito por Braga.

A terceira força política mantém-se à direita, com o CDS-PP, que sobe 1,31%. Contrariamente ao que possa parecer, este resultado é, na verdade, muitíssimo insatisfatório para o partido, por mais que os seus representantes digam o contrário. Isto porque, afinal de contas, até ao momento da vitória, muitos dos próprios militantes do PSD não acreditavam em Passos Coelho. Com a direita pouco convicta, seria de esperar uma subida considerável para o CDS e basta recordar que havia sondagens que apontavam para os 13% e Paulo Portas deixava subentendido que esperava mais. Pergunto-me eu se finalmente os portugueses terão percebido que Portas não passa de um sensacionalista que aproveita deixas vindas de todos os partidos, à direita e à esquerda, para fazer oposição; prostituindo, de certa forma, o programa que apresenta. Ninguém mais do que eu gostou de o ver desancar em José Sócrates, mas há que manter os pés bem assentes nesta terra e perceber que há um abismo entre os argumentos que Portas apresenta nos seus debates e as ideias que apresenta no seu programa. Tal como Miguel Sousa Tavares, eu não compreendo por que Portas ainda não se demitiu.

Já a CDU pode cantar de alegria. Apesar de uma subida quase imperceptível, de 0,08% em comparação a 2009, passam para quarto partido da Assembleia, acrescentando um deputado aos 15 que já contavam. Jerónimo de Sousa beneficia assim de se ter mantido firme ao programa e às ideologias do partido, nomeadamente no que toca a ter recusado o acordo com a troika.

O mesmo já não se pode dizer do Bloco de Esqueda, por mais que isso me incomode. A verdade é que foram os primeiros a recusar o acordo, mas isso não apagou o facto de se terem juntado ao PSD e ao CDS-PP na Moção de Censura ao Governo. Entenda-se que, por mais que o Governo o merecesse, todos sabiam de antemão que o resultado seria nulo e, de qualquer maneira, o Bloco juntou-se precisamente aos dois partidos de direita representados na Assembleia. Mais ainda, a junção ao PS para apoiar Manuel Alegre é capaz de não ter agradado a muitas pessoas de esquerda que já andavam de candeias às avessas com o partido de Sócrates. O resultado é a perda de metade dos deputados e a passagem para último partido na Assembleia.

O resultado não é mais do que um "mal por mal". O problema é que, seja como fôr, o futuro não aparenta ser em nada melhor do que o passado. O melhor é irmos todos embora e o último que sair apaga a luz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

25 canções para 25 situações difíceis

1. Para aqueles dias em que só nos apetece morrer: A Fine Day to Exit, Anathema

2. Para terminar um namoro com jeitinho: Thinkin About You, Norah Jones

3. Para terminar um namoro violentamente: Back to Black, Amy Winehouse

4. Para uma declaração de amor difícil: Strange and Beautiful, Aqualung

5. Para uma declaração de amor evidente: Whiskey Thoughts, Greta Gaines

6. Para nos mostrarmos altruístas com aqueles que amamos: Gates of the Country, Black Lab

7. Para dizermos subtilmente que queremos sexo: Body and Soul, Tori Amos

8. Para dizermos declaradamente que queremos sexo: Ooh La La, Goldfrapp

9. Para fazer promessas quando não se tem certezas: Till We Run Out of Road, Jewel

10. Para matar o/a namorado/a: Gun, Emiliana Torrini

11. Para pedir desculpas sinceras: White Flag, Dido

12. Para nos livrarmos de um desgosto amoroso: Ready to Let You Go, Michelle Branch

13. Para aconselhar um amigo com problemas: All Is Full Of Love, Björk

14. Para percebermos o que a vida realmente custa: Breathe Underwater, Placebo

15. Para anunciar uma deliciosa vingança: Empty, Anathema

16. Para manifestar o nosso desagrado com a classe política: Yo George, Tori Amos

17. Para sossegar um/a namorado/a inquieto/a: A Place Called Home, PJ Harvey

18. Para ficarmos felizes por estarmos apaixonados: Jungle Drum, Emiliana Torrini

19. Para falar do futuro: Leave no Trace, Anathema

20. Para delirar numa monumental bebedeira: My Stomach is the Most Violent of All of Italy, The Legendary Tigerman feat. Asia Argento

21. Para falar de desejos não-consumados: Paradise Circus, Massive Attack feat. Hope Sandoval

22. Para ter medo de tudo e acabar a tentar controlar tudo e mais alguma coisa: 8 Easy Steps, Alanis Morissette

23. Para convidar alguém para dançar: Sway, Vanessa Carlton

24. Para convidar um/a desconhecido/a para dançar: Please Don´t Stop the Music, Jamie Cullum

25. Para nos sentarmos e ficarmos à espera da morte: Forgotten Hopes, Anathema

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Purificação sacrificial

89.
Do condenado que me está mais próximo, não sei sequer o nome. Sei que matou num mês de Março e que, no dia em que matou, passou a existir. Foi então que lhe deram

um nome,

catre

e chicote, e lhe dirigiram a palavra para o interrogar

se só havia mar.

Nem tinha intuição suficiente para medir a ironia da pergunta, e


90.

o seu espírito entrou no jardim do meu pensamento, porque a porta imaginária estava aberta, e a comida irreal das imagens de Psalmodia cheirava bem.

Vieram, depois, um a um, quando me viram a fazer um momente de ramos mortos e de madeiras velhas. Desmanchava as naus para que houvesse lume e calor, e convidei-os a que renovassem intensamente pelo fogo os destinos quue traziam.


91.

Para arder, trazem poucas ideias.

E as intenções, e as atitudes, são as habituais:

mão pesada, boca suja, faca e caralho mortais.

Mas acabaram por me dizer, porque eu lhes disse ou lhes inspirei o que deviam dizer, que tinham lançado matreiramente e, por vezes, a grande distância, e corda da forca no Oceano,

que, nas suas vidas, não fora nem cova, nem senda.

Sabiam, todavia,


92.

que a linha de vida de um podia salvar a linha de vida de outro e que a frota, onde não eram mais nem humilhados, nem distinguidos, era o conjunto ermo das naus e sinal da paranóia real "puer natus est nobis, cujus imperium...".

_Onde está o vosso capitão? -perguntou-lhes Psalmodia, e viu-lhes nas cervizes o medo.



Maria Gabriela Llansol

Da Sebe ao Ser

1988, ed. Rolim

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lamb: 5

OUTRA LINGUAGEM, DE FACTO



Terá sido um desgosto para muita gente -eu incluído- quando, em 2004, Lou Rhodes e Andy Barlow anunciaram o fim dos Lamb. Deixaram-nos com "Best Kept Secrets 1996-2004", uma complição sem originais, que se seguia ao fenomenal "Between Darkness and Wonder" (2003). Parecia particularmente estranho quando esse último álbum de originais, o quarto, parecia ser um trabalho maduro, complexo mas muito bem conseguido.

Entretanto, os dois elementos seguiram por carreiras alternativas, sendo que Barlow se envolveu em vários projectos sem grande visibilidade, e Lou editou três excelentíssimos álbuns a solo, "Beloved One" (2006), "Bloom" (2007) e "One Good Thing" (2010).





Quando, ainda em 2010, se anunciou o regresso dos Lamb, pareceu, ainda que estranho, motivo para alegrias. Depois de alguma espera, acaba de chegar-nos este "5" que, como o nome indica, é o quinto álbum dos Lamb -e o primeiro em sete anos- e realmente, é razão para se ficar feliz, logo à partida porque se trata de um generoso álbum duplo.

Para já, é de notar que a separação, ainda que temporária, deixou bem profundas as suas marcas. Ainda que a electrónica continue a ser o prato-forte destas canções, é de notar aqui uma tendência mais melódica e serena que, vindo a acontecer um pouco desde "What Sound" (2001), não deixa de nos parecer mais presente nos álbuns a solo de Lou Rhodes. Exemplos disso são canções como Wise Enough ou Build a Fire. No entanto, é em Rounds que se sente mais a importância que teve o percurso a solo de Lou Rhodes, sendo uma canção que quase quase podia ser só dela. Na maioria das canções, as letras também nos parecem mais próximas das de Rhodes, que, verdade se diga, sempre se mostrou uma letrista bastante competente.

Ouve-se neste álbum também alguma acidez, bem medida, principalmente nas canções de abertura. Nestas, a matriz parece estar situada algures entre "Lamb" (1996) e "Fear of Fours" (1999), ainda que a procura de um certo equilíbrio com o lado acústico e com a exploração da maravilhosa voz de Rhodes deva muito às experiências de "Between Darkness and Wonder". Ainda assim, é notório o esforço por que "5" traga algo de novo, e a verdade é que traz; e isso ouve-se logo a partir de Another Language-título premonitório para uma canção de abertura- e prossegue por Butterfly Effect, que são duas das canções que melhor nos soam neste disco.

É preciso não esquecer que os Lamb estão também muito marcados pelo sucesso de Gabriel, o single de apresentação de "What Sound". O ano de 2001 vai longe mas ainda ninguém esqueceu essa canção. Isso tem o seu lado positivo e o negativo, claro. Parece-me claro que "5" é um disco que pede para ser ouvido; com atenção e na íntegra, o que pode assinalar uma tentativa de que a vida continue depois de um grande sucesso.

Muitas destas canções exigem-nos precisamente que as ouçamos com atenção, pois são tudo menos fáceis de ficar no ouvido. Um bom exemplo disso é Strong The Root que vem ressuscitar algumas características do primeiro álbum, fazendo, nalguns dos seus momentos, lembrar um pouco Trans Fatty Acid, sendo que, aqui, a ideia de canção crua e simplificada a nível instrumental é levada ao extremo. Essa simplificação, que até ajuda a aumentar a acidez da música dos Lamb, acontece um pouco na parte final do álbum, por exemplo em She Walks ou em Last Night The Sky, onde se sente ainda uma referência à música oriental, muito bem inserida, não soando, de todo, a uma coisa facilitista, como tem acontecido com tanta gente que tenta ir buscar esta influência.





O segundo disco acumula aquilo que parecem ser algumas faixas extra -excepto que estas são mais nove. Aqui encontramos Dischord, uma canção acústica onde, mesmo assim, sentimos uma certa distância em relação ao percurso a solo de Rhodes; bem como Back to Beggining, uma excelente canção com uma excelente participação de Damien Rice. De resto, encontramos versões instrumentais de quatro das canções do primeiro disco; a demo de Rounds e uma segunda versão de The Spectacle. São faixas que vale a pena ouvir, nem que seja para ter uma outra percepção das canções.

De facto, sete anos de espera por um novo álbum dos Lamb não se podiam mostrar mais produtivos. "5" é um grande álbum e um regresso muito à altura para a banda de Till The Clouds Clear. Agora é só esperar alguns dias pelos concertos em Portugal, a saber: 10 de Junho em Lagoa (Algarve), 11 de Junho no CCB de Lisboa e 12 de Junho no Coliseu do Porto.




quinta-feira, 26 de maio de 2011

The Machinist de Brad Anderson

A VELHA AMIGA INSÓNIA






Já por várias vezes aqui falei do trabalho cinematográfico de Brad Anderson. É, a meu ver, o seu filme "Session 9" (2002), o melhor filme do género de terror da primeira década de 2000. De sua autoria são ainda duas interessantes propostas distribuidas por duas séries dedicadas ao mesmo género, Masters Of Horror e Fear Itself, respectivamente "Sounds Like" (2005) e "Spooked" (2006); além de ser um dos realizadores duma das melhores e mais originais séries que têm passado na TV nas duas últimas décadas, Fringe.






É também de Brad Anderson este "The Machinist", de 2004. O tema geral, pessoalmente, não me poderia ser mais grato: a insónia. Já em 2002, um outro realizador bastante interessante, Christopher Nolan, focara o assunto em "Insomnia". Ainda que a película de Nolan não seja desinteressane, acaba por se revelar pouco criativa na abordagem do assunto que lhe dá título.


Bem pelo contrário, este filme de Brad Anderson é perfeitamente capaz de explorar os limites ou ilimites da insónia em favor da criação de um objecto inteligentemente confuso e que tem ainda a altivez de não nos oferecer, nalguns aspectos, respostas claras.


E não é apenas o argumento, escrito por Scott Kosar, que, efectivamente está escrito de maneira a dar-nos uma ideia que lentamente percebemos não ser tão linear quanto isso; mas também os aspectos que dizem respeito especificamente ao filme estão pensados para nos fazer deambular por ele, algo condenados a não atingir aquilo a que se pudesse chamar a verdade.


Encontramo-nos perante a vida estranha de Trevor Reznik (Christian Bale), um operário maquinista que não dorme há um ano. A estranheza quer dos seus hábitos e das suas relações vai-se tornando razoável aos nosso olhos quando o vemos dar continuamente sinais de inércia, astenia, lentidão e de uma debilidade quase incomodativa; mesmo a nível físico. É aqui de assinalar o empenho de Christian Bale neste papel, sendo que, para o interpretar, perdeu 28 kilos, conseguindo, efectivamente, ter o corpo de um esfomeado, de uma magreza grotesca.


Além do trabalho como maquinista, a vida de Trevor passa pela companhia de Stevie (Jennifer Jason-Leigh), uma prostituta; e de Marie (Aiatana Sánchez-Gijón), uma empregada de café com quem Trevor acaba por criar uma relação de amizade.


Depois de um acidente de trabalho provocado por Trevor, que custa a um dos seus colegas um braço; e do cruzamento com Ivan (John Sharian), um colega de trabalho que ninguém mais havia visto, Trevor começa a acreditar que está a ser vítima de uma conspiração que, percebemos, poderá vir a revelar algum segredo que ele esconda. Esta ideia é reforçada pela estranha apiração de post-hit com o jogo do enforcado, que Trevor vai preenchendo com várias possíveis palavras. E é através destes elementos que nos vamos aproximando do segredo de Trevor.


A sinopse consegue facilmente enredar-nos no estado de espírito deprimente e destrutivo de Trevor e, quer sem excessos quer sem predicabilidades, consegue, gradualmente, aproximar-nos da origem de todo o mal-estar que rodeia Trevor e que este parece espalhar à sua volta.


Nota-se que "The Machinist" está pensado ao pormenor, mesmo a nível visual (Ou principalmente a nível visual.): a fotografia parece-nos quase a preto e branco, sempre esbatida, os planos são longos quando nada de especial se passa e fugazes nos momentos decisivos, como se entrássemos na cabeça de Reznik, onde a verdade parece, de alguma forma, inacessível. E é ao filmar essa incapacidade de chegar ao real que Brad Anderson se mostra, uma vez mais, muito competente, tal como já havia acontece na maioria dos seus filmes. Isto é indicador claro de que Anderson tem mesmo um universo particular, e, como "The Machinist" confirma, muito rico.


Como acima dizia, ao contrário do que acontecia com o filme de Christopher Nolan, neste a insónia consegue mesmo ser assunto central e dominar todo o filme. Não seria fácil tornar tão clara a "visão" de uma pessoa incapaz de dormir, mas Anderson consegue-o. Será talvez por isso que "The Machinist" se torna tão angustiante e quase doloroso: há nele algo de realismo psicológico, pois é pelos olhos afectados de Reznik que atravessamos o filme; com bastante eficácia.






De louvar é também a direcção de actores, sendo que, mesmo assim, se destaca Christian Bale, que está sempre muitíssimo à vontade em papéis melancólicos (Como vemos, por exemplo, em "Velvet Goldmine" de Todd Haynes.) e volto a assinalar o lado físico do seu personagem, que, de tão esquálido, quase parece um cadáver.


Feitas as contas, este é mais um muito bom filme de Brad Anderson. Esperemos que sejam todos assim, futuramente.




terça-feira, 17 de maio de 2011



Outrora à Musa Perguntei

Outrora à musa perguntei, e ela
Respondeu-me:
No fim encontrá-lo-ás.
Nenhum mortal pode abarcá-lo.
Quero guardar o silêncio sobre o Altíssimo.
Porém a Pátria é sobretudo
Fruto proibido, tal como o loureiro. Mas que por fim
Cada um venha a dele provar.

Muito engana o princípio
E o fim.
Porém o último é
O sinal do Céu, que arranca
...... e.............. homens
Para longe. Disso teve medo
Hércules. Mas por termos nascido
Indolentes, é necessário o falcão, cujo voo
Era seguido por um cavaleiro
Ao caçar.

No............ quando
E o príncipe

......................e o fogo e vapor de fumo floresce
Sobre seco relvado,
E no meio, sem mistura, o bálsamo
Da batalha, a voz que brota do príncipe.

Vasos são a obra de um artista.
E compra

...............................mas quando
Chega a altura do julgamento
E tocou castamente o lábio
De um semideus

E oferece o que mais ama
Aos estéreis
Pois a partir de agora deixa
O sagrado de ter utilizade.




Friedrich Holderlin

Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

"Hinos Tardios"

2000, ed. Assírio e Alvim

pintura de Edward Burne Jones