terça-feira, 17 de maio de 2011

Christina Rossetti: O Mercado dos Duendes e outros poemas (Versão de Margarida Vale de Gato)

É já de 2001 esta edição, organizada e prefaciada por Ana Rosa Nobre, de alguns poemas de Christina Rossetti, em versões de Margarida Vale de Gato.

Daquela que me parece ser a mais importante poeta Pré-Rafaelita existe, além deste livro, apenas uma outra selecção de poemas, na antologia "Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética", organizado por Helena Barbas e editado em 2005 pela Assírio e Alvim. É pena que assim seja, pois, como de resto acontece frequentemente com a publicação de poesia estrangeira no nosso país, isso gera uma lacuna considerável num dos períodos mais ricos da cultura britânica, neste caso.

Foi em 1862 que, depois de alguma publicação dispersa, Christina Rossetti lançou o seu primeiro livro: "Goblin Market and Other Poems", ilustrado com gravuras do irmão da poeta, o pintor e também poeta Dante Gabriel Rossetti, foi um sucesso, aliás, o primeiro grande sucesso da poesia Pré-Rafaelita, de tal maneira que Christina, como nos é explicado no prefácio, sempre temeu não ser capaz de igualar a qualidade do poema inicial, "Goblin Market".





O volume português, "O Mercado dos Duendes e outros poemas", leva o mesmo título do primeiro livro de Christina, mas não é uma tradução integral dele, preferindo fazer uma selecção de poemas colhidos da obra completa de Christina. A opção parece-me interessante dado que, na altura, era a primeira vez que esta autora era publicada em Portugal.

Abre então com o poema mais conhecido de Christina, "O Mercado dos Duendes". Ainda que, pessoalmente, me pareça que a intensidade da escrita de Christina Rossetti atinge o seu pico noutros poemas, mais íntimos, percebe-se o porquê do destaque dado a este poema. De facto, em muito, ele representa um culminar de várias características do Pré-Rafaelitas. Trata-se de um muito longo poema narrativo que nos conta a história de duas irmãs, Lizzie e Laura, que observam a passagem de um bando de duendes em direcção a um lugar onde venderão frutas que haviam colhido dos seus pomares. O poema inicia com os pregões dos duendes, em versos curtos, criando um ritmo viciante e muito musical. Laura sente-se tentada a ir ter com eles e comprar-lhes fruta ainda que Lizzie, mais cautelosa, a alerte para o perigo de comer a fruta vinda de criaturas "malditas"



"Não", disse Lizzie, "Não;

Suas ofertas não nos devem tentar,

Suas prendas do demo mal nos farão."

(p.33/35)



Como seria de esperar, certa noite, Laura foge de encontro aos gnomos e come dos seus frutos. Depois disso, lentamente começa a definhar. Lizzie, levada pela urgência de salvar a irmã, irá também de encontro aos duendes, para lhes comprar fruta, acabando por ser atacada por eles. Ainda assim, com o corpo sujo do sumo das frutas, consegue salvar a vida de Laura. Esta passagem é, de facto, assinalável, em vários aspectos: revela-nos, a um tempo, a dimensão poderosa do amor fraternal, mas também uma grande carga erótica (Ou homo-erótica, como se preferir.), assinalável se tivermos em conta que este poema foi escrito em 1859:



Gritou "Laura", assomando ao jardim,

"Sentiste falta de mim?

Anda, beija-me.

Não te apoquentes com minhas feridas,

Abraça-me, sorve das minhas seivas

Para ti espremidas dos frutos dos duendes,

Polpa de duende, orvalho de duende.

Come-me, bebe-me, ama-me.

Laura, faz de mim o que te aprouver,

Por teu amor ao vale eu desci

E c'os anões me tive de haver."

(p.61)



A modernidade deste poema está, não só na ousadia com que muitas vezes se manifesta, mas também nalguns detalhes técnicos, particularmente na métrica: apesar de seguir sempre esquemas rimáticos, estes vão-se alterando; e a métrica também se muda, como que para servir a energia do próprio poema: se inicialmente os pregões dos duendes eram escritos em versos curtos, à medida que o poema avança e se centra na relação entre as duas irmãs e o que se passa nas suas vidas, os versos vão-se tornando mais longos e mais densos. Ou seja, dentro da regularidade, Christina consegue tornar o esquema deste poema irregular.

A língua inglesa será uma das mais difíceis de traduzir para português. Logo porque as duas línguas pouco se equivalem e raramente sequer se aproximam, mas também pelas diferenças na contagem de sílabas e, no caso da poesia, da organização das estruturas, como Margarida Vale de Gato nos explica na sua nota final. Parece-me, no entanto, que "O Mercado dos Duendes" terá sido o poema mais difícil de traduzir precisamente por esta característica de tornar a regularidade irregular. Mesmo assim, sacrificando muitas vezes a exactidão das palavras de Christina, Margarida Vale de Gato consegue satisfatóriamente dar uma ideia do poema, tanto da sua mensagem como também da sua estrutura, ainda que, muitas vezes, a tradutora seja obrigada a torcer um pouco a estrutura original. O que é certo é que numa tradução há sempre alguma coisa que tem que ser sacrificada. Se compararmos a versão de Margarida Vale de Gato com a de Helena Barbas, veremos isso. Neste livro, a tradutora preferiu dar-nos uma noção aproximada da forma e da estrutura, e penso que a sua versão será suficiente para que essas duas questões sejam bem entendidas.

A nível temático, como dizia, este poema em muito vai de encontro aos interesses pré-rafaelitas. Para começar, a própria ideia do mercado dos duendes é muito medievalista e fantasiosa, e essas eram duas das linhas-mestras da ideologia deste grupo; e também a ideia dos frutos e da maneira como eles são descritos, cheia de colorido e de lirismo, vão muito de encontro a esta estética tão particular. E os conceitos mais gerais deste poema, que serão a tentação (Gerada pela beleza.) e a salvação (Resultante do amor.) são conceitos nada estranhos ao trabalho, quer plástico quer poético, da Pre-Raphaelite Brotherhood.

Meticulosa e inquieta, Christina, enquanto ia publicando outros livros, reeditou este seu primeiro cinco vezes, sendo que William Michael Rossetti o editou uma vez mais ainda, depois da morte da poeta, sua irmã.

Ainda sobre os poemas escolhidos do primeiro volume da autora, há que dizer que o rasgo de profunda imaginação que pauta em todos os aspectos o primeiro poema nunca é verdadeiramente perdido, ainda que os restantes poemas se afastem da matriz deste primeiro.

Ana Rosa Nobre seleccionou mais 17 poemas de "Goblin Market and Other Poems". Neles, encontramos temas mais intimistas e mais ligados à realidade emocional da autora, sendo que alguns deles se escrevem de uma forma mais reflexiva e outros mantém ainda o lado mais narrativo, como acontece com "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento".

Seguindo estruturas mais definidas e mais clássicas, nomeadamente a do soneto, Christina fala-nos, acima de tudo, da solidão e da perda.

Estas duas noções são traçadas de várias matrizes. A primeira será a perda de uma paixão, de uma relação amorosa: nestes poemas, como "Remember/ Recorda" ou "After Death/Depois da Morte" ou "Echo/ Eco", intervém muitas vezes a morte, outro tema muito caro aos Pré-Rafaelitas. A morte é um assunto presente em quase todos os poemas deste livro. A tonalidade de agonia é essencial para entender a escrita de Christina Rossetti, pois ela parece colocar-nos continuamente perante um apodrecimento lento da vida, e, quando nos coloca em situações de morte, mantém sempre a capacidade de pensar e sentir. Nestes poemas, por assim dizer, Christina traça através de um corpo morto, o seu, uma espécie de espelho, pois é a partir dele que as situações se invertem: que o amor perdido regressa, e que a sua frieza se transforma em choro, como vemos, por exemplo, em "Depois da Morte":


Não tocou na mortalha nem no véu,

Nem p'ra me dar a mão a sua mão se ergueu;

Nem o coxim em que me estendia


Desmanchou; não me amou quando eu vivia;

Mas é bom saber que morta me deu

O seu calor, embora eu esteja fria.

(p.73)


É de notar como, nestes poemas, o olhar de Christina volta a mostrar-se-nos treinado para a atenção ao detalhe: estes poemas vivem muito de imagens, imagens criteriosamente escolhidas, pois são muitas vezes elas que ditam a energia do poema: paradas por vezes, quase mortas; outras vezes imagens de movimento, que nos dão conta de um estado de inquietude. Destas últimas, dou um exemplo, retirado de um dos poemas que leva como título "Song/ Canção":



Duas pombas pousadas num só galho,

Dois lírios gémeos a despontar,

Duas borboletas sobre uma flor:

Felizes os que os podem contemplar.

(p.77)








Christina Rossetti, que Virginia Woolf considerava "um génio" tem sido negligenciada, muito por ser mulher. A consciência desta questão não escapava à poeta. Apesar de ser considerada membro dos Pré-Rafaelitas, ela nunca o foi a tempo inteiro, pois as mulheres, à data, não tinham nem que remotamente, parte dos direitos e da liberdade que tinham os homens, pelo que o seu percurso foi sendo um bastante solitário, o de uma pessoa que se sentia "Morta Antes da Morte (Dead Before Death)"


Mudada e fria, fria e ressequida!

Lábios hirtos, olhar indiferente,

Contudo a mesma, pouco esclarecida;

Foi esta a promessa de antigamente.

(p.91)


Aqui encontramos um certo ressentimento à condição feminina, em que um estado de "pouco esclarecida", afecta o próprio corpo, o aspecto da autora, que, realmente, vemos de uma profunda tristeza nos vários retratos que dela fez Dante Gabriel Rossetti. A questão da mulher vai ser ainda essencial em dois momentos aqui antologiados. O primeiro é "Monna Innominata: Um Soneto de Sonetos", um conjunto retirado do livro "A Pageant and Other Poems", de 1881. No prefácio que escreve a este conjunto de 14 sonetos (Tantos como os versos de um soneto.), Christina fala-nos de Beatriz e Laura, imortalizadas por Dante Alighieri e Petrarca, "heroínas mundialmente famosas [que] foram precedidas por uma hoste de damas não nomeadas, "donne innominate" (...) Se uma dessas damas tivesse falado por si, talvez o retrato que nos deixasse fosse mais terno(...)" (p.145). É pois sobre o silenciamento que existe sobre as mulheres nas sociedades patricarcais e machistas que Christina se debruça nestes catorze sonetos, dos quais aqui temos quatro. A solidão e a imcompreensão são o fio de ariane que une estes textos. Não só as mulheres têm que viver na solidão de não poderem ter voz nem nome, como também têm que viver a condenação de nunca, verdadeiramente, serem entendidas em qualquer matéria. É isso que vemos no soneto 11:



Dirão de ti as gentes do porvir:

_Amou-a! _enquanto de mim, ufanas,

Hão-de dizer que te amei a fingir

Como fazem as mulheres levianas

(p.151)


e quando, no soneto 14, Christina diz


Perdida a beleza e a juventude_

Se é que algum dia o meu rosto foi belo_

Tudo perdido, foi-se a beatitude.

(p.153)



ela está, talvez discretamente, a lançar a mais dura crítica à sociedade patrircal, pois a mulher, quando perde a beleza e a juventude tem "Tudo perdido", ou seja, torna-se inútil e inexistente, pois o que na verdade lhe resta, os sentimentos e a inteligência, não são ouvidos por ninguém, anulando-a assim.

Esta distância entre o que a pessoa, neste caso a mulher, é, e o que dela é visto ou admitido é um assunto retomado em "In an Artist's Studio/ No Estúdio de um Artista", poema escrito em 1856 e só publicado postumamente


De dia e de noite o seu rosto venera,

E ela lhe devolve o olhar risonho

Brilhante como a lua e a claridade,


Sem que nunca a ensombre a saudade:

Não como é, mas como p'ra ele era;

Não como é, mas como surge em sonho

(p.191)


é possível que este poema se refira a Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, mas isso é irrelevante para o caso. O essencial deste poema é que o homem que venera o rosto da mulher não é capaz de o representar de acordo com aquilo que essa mulher é, mas apenas de acordo com aquilo que ele sonha (Pensa.) que ela seja. Mais uma vez, a verdadeira personalidade da mulher é anulada por uma falocracia de efeitos realmente assassinos para as mulheres.

Outro tema que é importante referir sobre esta antologia de Christina Rossetti é a do amor místico. Porque aqui, uma vez mais, se entende a modernidade desta poesia, que, recusando uma postura de pura adoração e admiração cristã, se situa muito mais na linha de uma Santa Teresa de Ávila, de uma Hadewijch de Antuérpia ou de um São João da Cruz. Longe de se transformar numa consolação para a vida, o amor espiritual escrito por Christina Rossetti ganha um lado físico, erótico e nem sempre de celebração, servindo muitas vezes como salvação. Assim vemos em "A Better Ressurrection/ Uma Melhor Ressurreição":



Minha vida é uma taça quebrada,

Taça que verte e não pode suster

De minh'alma uma só gota orvalhada

Ou doce néctar, neste frio de tolher;

Deitai ao fogo a coisa sem valor,

Fundi-a e refundi-a até enfim

Ser cálice para o meu Salvador:

Jesus, bebe de mim!

(p.109)


Ainda que a questão do amor místico seja de capital importância nalguma da poesia de Christina Rossetti, para este livro foram seleccionados poucos poemas desta temática.

Voltando às versões de Margarida Vale de Gato, penso que lhes cabe o mérito de nunca adulterarem a mensagem destes poemas, mas a opção de valorizar a forma, que não é errada, custa muitas vezes a perda de algumas subtilezas da poesia de Christina Rossetti, pelo que o ideal seria, como em todas as traduções, de resto, ser-se capaz de ler o original.

A poesia de Christina Rossetti mostra-se, acima de tudo, muito inventiva, particularmente no que toca à criação constante de imagens, trabalhadas a partir do real para uma dimensão mais lírica; que consegue sempre conciliar com estruturas regulares de rimas e de métricas, salvo nalgumas excepções. É de assinalar ainda a capacidade de Christina para o poema narrativo longo, onde, com excepção de "O Mercado dos Duendes", a poeta trabalha sobre situações do real quotidiano, como vemos acontecer um pouco em "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento" ou, mais ainda, em "Songs in a Cornfield/ Desfolhada", onde quase se aproxima de uma poesia realista; um pouco por todo o livro "The Prince's Progress and Other Poems" de 1866, livro que parece, realmente, ser todo ele uma espécie de narrativa. É também uma poesia realmente dolorosa e atroz por vezes, que, acima de tudo, nos mostra um ser humano de rara capacidade de observação, que depois se transforma num lirismo cuidado e equilibrado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti

pormenor de "Ecce Ancilla Domini! A anunciação"

Algumas notas sobre Christina Rossetti

Quando Christina começava a amá-lo e a delicada intimidade criativa diminuía a ansiedade sexual, Collinson retirou-se bruscamente. O seu catolicismo renascia, como que levantando do abismo em que o lançava a estética do grupo. De algum modo, ele roçara as paredes do inferno e recuava à pressa, apavorado, calcando aos pés a roupa enegrecida. Enviou a Christina um soneto em que dava como inconciliáveis o impulso amoroso e a devoção. Ela rasgou-o de imediato, prevendo o golpe que, de facto, não tardou. Muitos anos mais tarde, refê-lo, verso a verso. Ficara-lhe gravado na memória.

William conta como a saúda de irmã, já tão deteriorada, se agravou. Talvez o sentimento dominante fosse a humilhação, mais dolorosa do que um puro desgosto de abandono. Dir-se-á que os poemas recolheram parte da agonia. Eles aspiravam, como ventosas, os seus poros infectados. E, quando ela escrevia sobre a perda, sobre aquilo que morrera e aquilo que jazia no seu também já morto coração, a beleza da febre triunfava.


Hélia Correia

in "Adoecer"
2010, ed. Relógio d´Água

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



pormenor de "A Infância da Virgem Maria"

Canção

Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha campa
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
E se quiseres esquece.

Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
Cantando como viúva.
E, sonhando p'lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.


Christina Rossetti

Versão de Margarida Vale de Gato

in "O Mercado dos Duendes e outros poemas"

2001, ed. Relógio d' Água

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Song (1848)

When I am dead, my dearest,
..........Sing no sad songs for me;
Plant thou no roses at my head,
..........Nor shady cypress tree:
Be the green grass above me
.........With showers and dewdrops wet;
And if thou wilt, remember,
..........And if thou wilt, forget.

I shall not see the shadows,
..........I shall not feel the rain;
I shall not hear the nightingale
..........Sing on, as if in pain:
And dreaming through the twilight
...........That doth not rise nor set,
Haply I may remember,
............And haply may forget.



Christina Rossetti


Goblin Market and other poems


1862

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Algumas notas sobre Christina Rossetti

Christina não aceita os modelos de comportamento social, cultural e estético do século XIX, procura antes transformá-los de acordo com os seus desejos e expectativas. Aquela, para quem a poesia surge da angústia de querer sempre mais, possuía a arte de fazer seu tudo quanto existia e que o véu do silenciamento, tecido por uma ancestral cultura masculina , encobrira: "Este coração condenado/ Por um homem, em triste hora, / Leva-o p'ra ser estudado/ Por dentro como por fora./ Como fogo há-de brilhar,/ Expurga-o de sua escória." ("Duas Vezes").

No tempo em que a escritora viveu, as mulheres não eram encorajadas a ser artistas. Muito pelo contrário. Ainda que surgissem frequentemente como objecto de representação dos textos do Vitorianismo, e embora esses textos, de autoria masculina, configurassem um modelo de feminino, poucos são os nomes de mulheres que pertencem ao cânone literário da época. Mais ainda, não lhes era reconhecida legitimidade para escreverem sobre assuntos que pusessem em causa os valores da cultura patriarcal ou, até mesmo, as convenções literárias masculinas. Christina está consciente deste facto (...).


Ana Rosa Nobre

prefácio a "O Mercado dos Duendes e outros poemas"

2001, ed. Relógio d' Água

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



Eco

Vem até mim no silêncio da noite,
.............Vem no silêncio sussurrante de um sonho,
Vem com faces cheias e doces e olhos brilhantes
..............Como a luz do sol num regato,
..................Vem de volta em lágrimas
Oh! memória, esperança, amor de anos findos.

Oh! sonho deco, tão doce, demasiado amargo e doce,
..................Cujo acordar deveria ter lugar no Paraíso,
Onde as almas transbordantes de amor vivem e se encontram
...................Onde os olhos sedentos anelantes
.........................Observam a lenta porta
Que abrindo-se, deixando entrar, não mais deixa sair.

Mas vem até mim em sonhos, para que possa de novo viver
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,A minha vida verdadeira, embora fria na morte
Vem de volta para mim em sonhos, para que possa dar
...................Pulsar por pulsar, alento por alento:
..........................Fala baixinho, inclina-te mais
Como há tanto tempo, meu amor, há quanto tempo.



Christina Rossetti

tradução de Helena Barbas

in "Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética"

2005, ed. Assírio e Alvim

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Echo (1854)

Come to me in the silence of the night;
............Come in the speaking silence of a dream;
Come with soft rounded cheeks and eyes as bright
.............As sunlight on a stream;
.............Come back in tears,
O memory, hope and love of finished years.

O dream how sweet, too sweet, too bitter-sweet,
.............Whose wakening should have been in Paradise,
Where souls brim-full of love abide and meet;
..............Where thirsting longing eyes
..........................Watch the slow door
That opening, letting in, lets out no more.


Yet come to me in dreams, that I may live
...............My very life again though cold in death;
Come back to me in dreams, that I may give
...............Pulse for pulse, breath for breath:
..........................Speak low, lean low,
As long ago, my love, how long ago.







Christina Rossetti



Goblin Market and Other Poems



1962

Christina Rossetti fotografada por Lewis Carroll



A primeira representação de Elizabeth Siddal

foi este "Twelfth Night", de Walter Deverell, que adapta uma cena de Shakespeare. Elizabeth é a primeira figura à esquerda, uma mulher vestida de homem. No mesmo quadro, ainda antes de se envolver amorosamente com Elizabeth, Dante Gabriel Rossetti posa como o palhaço.

The Ghost Writer de Roman Polanski

FANTASMAS VÁRIOS



O mais recente filme de Roman Polanski tem, uma vez mais, tudo para ser polémico. Acontece um pouco com todos os filmes que envolvem tramas políticas, como é o caso deste "The Ghost Writer", baseado num romance de Robert Harris, que assina o argumento juntamente com Polanski.




A história fala-nos de um homem cujo nome nunca ouvimos (Ewan McGregor), que é um escritor-fantasma, ou seja: ele reescreve livros autobiográficos de figuras públicas, de modo a torná-las literariamente boas. É para esse efeito que ele é contratado para trabalhar nas memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan), um antigo Primeiro-Ministro britânico. Acontece que o anterior escritor-fantasma de Lang havia morrido de uma maneira estranha muito recentemente. O escritor voa então para os Estados Unidos, onde o político se encontrava, numa pequena ilha sossegada. É aí que conhece Ruth (A minha querida Olivia Williams.), a mulher de Adam, e Amelia (Kim Catrall), a secretária e amante.

Ao mesmo tempo, Adam está a ser acusado de ter capturado ilegalmente alguns terroristas e de os ter entregue à CIA para serem torturados. Esta acusação gera várias manifestações contra Adam que, ao que dizem, havia sempre seguido políticas que beneficiassem os Estados Unidos.

O escritor-fantasma encontra-se então a trabalhar nas memórias do político e começa a perceber que a chave para as irregularidades e as tendências políticas de Adam podem estar escondidas no dactiloescrito em que está a trabalhar, e que havia já sido trabalhado pelo seu antecessor. E, impelido pelas suas descobertas, ele decide investigar, concluindo que uma série de questões subterrâneas da carreira política de Adam remontam à sua adolescência, nos anos 70.

É difícil não achar que, em "The Ghost Writer" há uma dura crítica a Tony Blair e às suas políticas que pareceram várias vezes interessadas em agradar aos Estados Unidos. Esta foi uma das críticas mais apontadas a este filme de Polanski que não se preocupa em ser brando e, pelo contrário, se permite fazer determinadas análises aos comportamentos políticos e às realações internacionais que, muitas vezes, parecem tomar a forma de fantasmas, ou seja, tornam-se invisíveis, um pouco como o papel do escritor neste filme.

Se essa "acusação" se destina a Blair ou não, é pouco relevante. Há vários políticos que se poderiam enquadrar no aqui descrito.

Mais ainda, parece-me que também os Estados Unidos são outro alvo de crítica neste filme pois, afinal, surge-nos como uma nação preocupada acima de tudo em manipular os países estrangeiros, defendendo dissimuladamente os seus interesses.

De resto, o filme de Polanski está, como seria de esperar, filmado com grande mestria, sendo que o realizador consegue realmente suscitar-nos a sensação de apagamento (Que é reforçada também pelo facto de o próprio escritor não chegar a ter nome.) e secretismo que a sinopse exige, nomeadamente através da paisagem escolhida, que é a de uma ilha quase deserta e inóspita, com um ambiente chuvoso ou cinzento. A própria casa escolhida é também uma fonte simbólica interessante, pois trata-se de uma casa moderna e grande, onde, no entanto, os personagens se encontram não raras vezes enclausurados e onde tudo é demasiado protegido e glacial.




A direcção de actores também não desilude: Ewan McGregor consegue acompanhar muito bem a transição que o seu personagem sofre ao longo do filme, Brosnan, apesar de aparecer e desaparecer várias vezes, consegue uma interpretação dúbia, muito conveniente para um personagem cheio de segredos e de questões dúbias; Olivia Williams, como sempre, está magistral, muito à vontade num papel de mulher altiva e forte, que é a sua especialidade, como vimos na série "Dollhouse".

Parece-me que, somadas as coisas, este é mais um bom filme, a juntar a outros como "Repulsion" (1965) ou "The Nineth Gate" (1999).




domingo, 15 de maio de 2011

Manos artistas...



da esquerda para a direita: Dante Gabriel Rossetti (pintor e poeta), Christina Rossetti (poeta), a mãe Frances Lavinia Polidori e William Michael Rossetti (crítico de arte e editor).

fotografia de Lewis Carroll

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Piranha 3D de Alexandre Aja


O pior filme que já vi na minha vida. Ridículo demais para eu conseguir sequer escrever um texto. E é tudo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Nightmare on Elm Street de Samuel Bayer

TRÊS COISAS CONTRA O RESTO

Desde os Nirvana aos The Cranberries a Marilyn Manson aos The Strokes a Justin Timberlake, entre muitíssimos outros, desde 1991, Samuel Bayer já realizou videoclips -alguns deles bastante criativos -para imensos músicos e de estilos muito variados.

A decisão de realizar um filme chega só em 2010 e, diga-se de passagem, Bayer não se propõe um desafio qualquer: trata-se nem mais nem menos do que o remake de "Pesadelo em Elm Street" (1984) de Wes Craven, um dos mais aclamados clássicos do slasher.



O argumento fica entregue a Wesley Strick e a Eric Heisserer: o segundo é praticamente um principiante e o primeiro, de entre vários filmes, foi responsável pelo argumento de dois que interessa aqui destacar: um é "Aracnophobia" (1990), um dos filmes mais realmente parvos que o cinema já viu; o segundo é "The Glass House" (2001), um suposto thriller que acaba por resultar em pouco mais que um drama familiar com uma banda sonora empolgante. Interessa referir as tentativas do argumentista de se aproximar do cinema de terror, para que se perceba que, se aqui havia alguma esperança, era ainda o facto deste filme ser um remake.

Pessoalmente, sou contra os remakes, principalmente remakes de filmes que ganham o estatuto de clássicos: não por achar que isso os torna intocáveis, mas que os torna delicados e difíceis. Portanto, ou o realizador da nova versão é realmente muito bom e consegue produzir uma película aceitável, ou temos a receita certa para um filme desastroso que será visto por milhões de adolescentes que adoram filmes de terror mas não têm qualquer tipo de gosto formado.

Deixando de lado o meu cepticismo, ao começar a ver este "Pesadelo em Elm Street" até descansei um pouco: depois de um genérico bastante interessante a nível gráfico, a primeira sequência, em que vemos Dean (Kellan Lutz) a vaguear num café e percebemos imediatamente tratar-se de um sonho está muitíssimo bem conseguida, em termos de luz, de cenário, de tempo, enfim: absolutamente perfeita. Aí nos surge Kris (Katie Cassidy), com quem Dean fala sobre os problemas que tem tido com o sono e com os pesadelos. Vemos ainda um grupo de amigos numa outra mesa, entre os quais Jesse (Thomas Dekker) e Quentin (Kyle Gallner) e a empregada, Nancy (Rooney Mara), que acabará por ser a protagonista do filme. Interessa falar deles aqui, ainda que não tenham grande importância nesta cena em concreto porque, logo nos primeiros minutos, há ainda outra coisa positiva que eu tenho que assinalar neste filme: é que os actores escolhidos e a respectiva caracterização estão muito longe de serem as típicas de um filme de terror sobre adolescentes. Não há aqui propriamente rapazes atléticos nem com ar de top-model, e as raparigas idem-aspas, ainda que sejam menos, ao longo do filme. Uma das coisas que, a meu ver, mais tem estragado o género do cinema de terror é a esteriotipia em que caíram os personagens, dando um pouco a impressão de que o medo tem que ser contrabalançado pela perfeição física.

Posto isto, agora há que dizer que, logo aqui, o filme começa a ganhar contornos estranhos. A morte de Dean surge-nos como perfeitamente inusitada e seriamente mal resolvida e, a partir dela, as coisas começam a desenvolver-se com uma aceleração excessiva e que não passa despercebida. Para se ter uma ideia, o clima de pânico e de estranheza e secretismo já acontece quando o filme conta ainda 12 minutos. É como se lhe faltasse noção do real e, principalmente, subtileza.

Não deve também passar despercebido ao espectador atento que, no genérico, nos é dada a indicação de que este "Pesadelo em Elm Street" é baseado em personagens criadas por Wes Craven. Esta é, evidentemente, a maneira mais segura de um filme destes se apresentar, quase lavando as mãos de tentar recriar o original. No entanto, é mesmo isso que acontece: tenta-se recriar o filme de Wes Craven.

Surpreendentemente ou não, Samuel Bayer demonstra-se bastante incompetente para recriar as cenas mais importantes do filme de 1984. E digo surpreendente porque, afinal de contas, passaram vinte e cinco anos desde o filme original, o que significa que os meios para criar certos efeitos mais inverosímeis são agora mais e melhores: no entanto, em vez destas cenas nos parecerem mais credíveis, parecem-nos claramente digitais e também realizadas com uma incipiência que não suspeitaríamos num sujeito que conta com vinte anos de trabalho -mesmo que não em cinema. Serve de exemplo a famosa cena em que Fred Krueger aparece atrás do papel de parede.

Em relação às mortes, elas aqui também surgem com uma falta de intensidade que só pode irritar-nos; principalmente a de Kris, que deixa uma sensação de ejaculação precoce que raramente se encontra no cinema de terror: é que dá impressão de que Bayer nem tentou fazer daquilo uma boa cena.

Com os sonhos, principalmente os primeiros, acontece o oposto: parece que Bayer está a esforçar-se demasiado: esses primeiros sonhos -principalmente o da aula- são tão excessivos e sofrem de tamanha falta de subtileza que nem por delírios podem passar: são mesmo cenas de filme.

Por outro lado, a nível do argumento, é de notar um esforço por aqui aprofundar um pouco a questão do sono e essa opção é boa. No que toca, depois, à história de Fred Krueger, acontece o contrário: surge-nos como uma versão distorcida da de Craven, que estava perfeitamente construída. É que nem sequer mudam os factos, apenas mudam o tratamento que se lhes dá, mas a mudança, neste caso, não é para melhor.

O gore que se vai vendo ao longo do filme também não está propriamente bem conseguido: ele parece sempre estar algo deslocado, faz falta nalgumas situações, noutras está a mais e, ainda por cima, os níveis de gore variam tanto que nem se pode dizer que haja nisso um equilíbrio.

Há que destacar, no entanto, a cena em que Quentin tem o sonho que lhe dará acesso à verdadeira história de Freddy: essa cena está tão bem pensada e tão bem filmada que quase se podia dizer que, isolada do resto do filme, daria uma excelente curta-metragem.



O que parece acontecer é que as melhores cenas deste "Pesadelo em Elm Street" (Esse sonho de Quentin e o sonho primeiro de Dean.) são precisamente aquelas que foram feitas especificamente para este filme e que não faziam parte do de 1984.

O final do filme também foi alterado, pelo menos em grande parte, e diga-se que o final original fazia muito mais sentido no contexto da história do que este faz. É que o final de Wes Craven era um final para "Pesadelo em Elm Street", ao passo que o final que Bayer agora nos propõe poderia ser o final de qualquer filme de terror e nem sequer se afasta muito do final de muitos deles, e serve de exemplo o final de "Friday the 13th".

Ainda que neste filme haja três aspectos positivos a apontar, no geral, está longe de ser uma boa razão para quem, como eu, detestar remakes mudar de opinião.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

5 coisas que eu proíbia na Feira do Livro de Lisboa

1: aquele espaço megalómano da LeYa
2: o espaço bizarro e megalómano da Babel
3: as aulas de ginástica ao fim-de-semana
4: a mistura de editoras de literatura com as de literatura infantil
5: as barracas das farturas

Boas notícias






contrariamente ao que a Fox tinha anunciado há uns tempos atrás, "Fringe" terá quarta temporada. Fico felicíssimo, já que penso tratar-se de uma das melhores séries de ficção científica de sempre. Além disso, o último episódio da terceira temporada, passado ontem, é particularmente empolgante.






Crises, Casamentos e outras coisas começadas por C

Costumo jantar num sitiozinho pequinino perto de casa, onde aproveito para ver os noticiários, já que, em casa, não vejo televisão.
Aqui há uns dias, encontrei algo de interessante: com as medidas impostas pela troika do FMI & Cia, estavam a fazer um especial sobre o ponto de vista dos portugueses residentes em Londres acerca do casamento real. Eu tenho pouco talento para este tipo de matérias e, até ter visto uma notícia no jornal, na véspera do casamento, pensava que o princípe que ia casar era o Harry. Evidentemente, nem segui o casamento pela TV, nem andei à procura de nada sobre o assunto, por várias razões, das quais a mais decisiva é o facto de não me importar.


Entretanto, como começava este texto, há uns dias, estou a tentar seguir o noticiário, quando, após algumas notícias sobre as peripécias do Governo e dos seus comparsas, começam a falar de novo sobre o casamento de Kate Middleton com o príncipe William.


Àparte o facto de eu achar interessante que haja quem se preocupe com isto ao mesmo tempo que se diz que as medidas do FMI serão piores do que o PEC4; pensei que era um verdadeiro achado quando um comentador qualquer dizia que, no fundo, o casamento de Kate e William era uma mensagem de esperança para toda a gente, porque afinal, o príncipe casou com uma plebeia. Esse foi o momento em que tive que me rir. Se é o caso, deviam condecorar Kate Middleton com uma medalha de mérito por fazer serviço público, uma medalha dourada que tivesse a seguinte inscrição: KEEPING THE DREAM ALIVE. Seria cómico, no mínimo.


Não sei ao certo, mas penso que li algures que, actualmente, há no mundo inteiro 31 monarquias. Como não tenho paciência para uma investigação mais detalhada, vamos partir do princípio que cada uma delas conta com dois príncipes solteiros: isso resulta em 62 potenciais casamentos com meninas plebeias. E, assim sendo, a mensagem de esperança de Kate aplica-se hipoteticamente a 62 pessoas espalhadas por 31 países do mundo. Meritório, não haja dúvidas. Se tudo correr bem, as tais meninas plebeias percebem isso, e o que acontece? Temo-las espalhadas pelo mundo a cantar "I´m beggin of you, please don´t take my man!".


Também não entendo a originalidade da ideia do príncipe casar com uma menina do povo, depois do caso de Letizia Ortiz. Um casamento com uma sem-abrigo seria mais criativo.


Acho ainda curioso o facto de Portugal ser uma República, portanto, não tendo monarquia, para onde vai essa "mensagem de esperança"? Mais ainda, mesmo que esse fosse o caso, em que é que sonhar ajuda quando estamos a lidar com a questão da crise, que, aparentemente, bem que pode passar para segundo plano ao lado do casamento real britânico?


Uma vez mais, temos a televisão a desprezar aquilo que realmente importa: consciencializar as pessoas acerca daquilo que se está a passar.


Tudo bem... temos uma crise a decorrer e preparamo-nos para viver mais espartilhados do que o habitual, mas felizmente há, não luar, mas casamento real. No Reino Unido.



domingo, 8 de maio de 2011

7 Livros de Contos

Desde Irene Lisboa, cuja maioria da obra se encontrava no registo do diário e da novela e dos apontamentos, que percebemos que o público não aceita muito bem qualquer prosa que não seja romance.


Ainda que seja uma coisa de minorias, a poesia sempre conserva uma certa "nobreza", ao passo que os contos frequentemente são vistos como obras menores dos seus autores, e até como textos sem qualquer importância. Discordo deste ponto de vista, e aqui deixo sete propostas, entre muitas outras que poderia deixar, de livros de contos; que são tudo menos obras menores.




António Lobo Antunes: Livro de Crónicas (ed. Dom Quixote)








António Lobo Antunes já conta quatro livros de crónicas. Escolho o primeiro, apenas por ser o primeiro. Qualquer um dos outros poderia estar aqui. Apesar de se apresentarem como crónicas, estes textos, publicados quinzenalmente na "Visão", são curtas narrativas, bastante interessantes e, como todos os textos do autor, interessadas em captar o mundo interior dos seus personagens. Num registo bastante mais curto, no entanto, Lobo Antunes é perfeitamente capaz de recriar a sua voz, ao mesmo tempo que torna consistentes estas personagens, que sempre nos apresentam alguma história momentânea, nem por isso menos capaz de nos surpreender.




Lídia Jorge: Praça de Londres (ed. Dom Quixote)





Com três livros de contos publicados até agora, escolho de Lídia Jorge estes "cinco contos situados", como nos sugere o subtítulo. E escolho por razões meramente pessoais: além da exploração minuciosa e humaníssima que Lídia Jorge sempre opera na sua escrita, nestes contos as cidades têm uma importância crucial, interagindo com os personagens que por ela vagueiam. Uma certa tendência para a narrativa psicológica faz-se sentir nestes textos, anunciando um pouco aquele que viria a ser o romance mais conseguido a esse nível, "A Noite das Mulheres Cantoras". Pautados por uma certa invulgaridade e, por vezes, um certo sentido de mistério, estes contos são alguns dos melhores já escritos por Lídia Jorge.



Luísa Costa Gomes: Setembro e outros contos (ed. Dom Quixote)






Luísa Costa Gomes tem publicado vários romances e também algumas peças de teatro. No entanto, a sua estreia, em 1981, dá-se com os "Treze Contos de Sobressalto" e uma boa parte da sua melhor obra encontra-se, a meu ver, nos contos. "Setembro e outros contos" surge-nos dividido em duas partes. A primeira, "Setembro" apresenta-nos contos mais longos onde as questões da escrita, da criatividade e da introspeção têm papel principal: são contos densos, analíticos, com um olhar cru sobre a realidade. Mais dispersos a nível temático, e mais curtos, mas igualmente pautados por um olhar atento e despido sobre a realidade, os contos de "Outros Contos" completam o livro.




Luísa Dacosta: Corpo Recusado (ed. Figueirinhas)





O caso de Luísa Dacosta, de que tenho vindo a falar aqui há já algum tempo, é um caso realmente de excepção entre nós: ao contrário do habitual, grande parte da obra de Luísa Dacosta é precisamente escrita em contos e crónicas. Além destas, a publicação de dois diários é ainda assinalável; e, até agora, Luísa Dacosta publicou apenas um romance, "O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui Antes de Mim". "Corpo Recusado", de 1985, é o mais recente de três livros de contos que a autora publicou, e escolho-o por razões pessoais, uma vez mais. É neste livro que Luísa Dacosta mais plenamente consegue abordar o tema da solidão humana e do desamparo, construídos os contos, a um tempo, por uma linguagem encantarória que nem por isso é menos realista e crua no seu olhar sobre o real e, principalmente, sobre as pessoas.



Maria Isabel Barreno: Contos Analógicos (ed. Rolim)






"Contos Analógicos" é o primeiro livro de contos de Isabel Barreno, publicado já depois de dois dos seus mais importantes romances: "Os Outros Legítimos Superiores" e "A Morte da Mãe". O seu estilo de escrita pende muito para um lado analítico profundo, que se torna quase ensaístico. No entanto, a transição para textos mais curtos (Um destes contos não chega a ocupar uma página.) não apaga essa dimensão da escrita de Maria Isabel Barreno. Pelo contrário, este livro quase cataloga alguns exemplos de estruturas sociais e humanas e aí mesmo reside a sua maior força: a capacidade que tem de, em muito poucas palavras, despertar todo um sistema filosófico.




Maria Regina Louro: Sapos Vivos e Outros Monstros (ed. Relógio d´Água)




A obra de Maria Regina Louro é, a meu ver uma das mais originais, apesar da falta de visibilidade. Desde as "Novas Bárbaras" que assina com Miguel Serras Pereira até a "À Sombra das Altas Torres do Bugio", Regina Louro confronta-nos com um universo onde todo um imaginário popular se transfigura poeticamente, através não só de uma sensibilidade que não abdica nunca da uma acutilante inteligência e de uma linguagem densa e grotesca.


"Sapos Vivos e Outros Monstros" é o livro que se segue a "Apocalipse", um livro de poemas em prosa. E, nestes contos, em que a figura ou a ideia do monstro é protagonista, nota-se muito essa inclinação para a poesia, sendo que muitos destes contos quase podiam ser poemas em prosa, narrativos. O encontro com o monstro que nos rodeia e que está também dentro de nós é a força que move a escrita destes contos, uma escrita a um tempo irónica e cruel, que por isso mesmo resulta desarmante, no que toca a expor-nos a verdadeira fragilidade de qualquer monstro.





Nuno Júdice: O Tesouro da Raínha de Sabá (ed. Rolim)





Apesar de eu não ser um apreciador da poesia de Nuno Júdice (Excluindo alguns livros que me parecem de uma muito interessante linguagem simbolista.), acho que na ficção, Júdice tem obras bastante interessantes. Este "conto pós-moderno" é um bom exemplo disso, contando com uma narrativa algo futurista, mas sempre através de uma linguagem metafórica e muito poética.



De assinalar é ainda a colecção "Fantástico", das edições Rolim, uma colecção bastante longa e constituida maioritariamente por contos (Ainda que hajam algumas novelas.), contrariando a tendência do mercado para o romance.

É mesmo verdade

Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad

Christina Rossetti

Uma canção para o dia de hoje



Mísia: Duas Luas (do álbum "Ritual", 2000)

Fear Itself: Spooked de Brad Anderson (1x02)

FANTASMAS E GRAFITTIS



Já por várias vezes aqui falei de Brad Anderson, cujo trabalho considero de excepção, como atestam filmes como "Session 9" (2002) ou "Sounds Like" (2005), a média-metragem com que participou em "Masters of Horror", além do seu envolvimento numa série que também me parece absolutamente genial: "Fringe".




Ele é um dos realizadores que transita de "Masters of Horror" para "Fear Itself". E ainda bem. O seu filme é o segundo episódio, que tem como título "Spooked".

E este filme também contribui para que se perceba que, efectivamente, Anderson tem um estilo, quer-se dizer, um padrão que pode unir todos os seus filmes (Ou pelo menos os seus filmes ligados a este género.). Por norma, ele lida com situações traumáticas e com perturbações psíquicas, desfocando bastante o limite entre estas últimas e o sobrenatural. Em "Spooked", isso volta a acontecer, ainda que, ao contrário do que acontece em "Session 9" e em "Sounds Like", desta feita, o realizador não assine o argumento, entregue neste caso a Matt Venne.

Conta-nos a história de Harry Seigel (Eric Roberts), um polícia cujos métodos assaz cruéis levam à reforma antecipada e que, quinze anos mais tarde, ganha a vida como investigador privado, ocupação em que continua a usar alguns métodos um tanto ao quanto discutiveis do ponto de vista ético.

É neste contexto que é contactado por Meredith (Cynthia Watros), uma mulher que suspeita que o marido tem uma ou várias amantes. Harry instala-se numa casa abandonada em frente da casa de Cynthia a fim de gravar algumas imagens que ajudem Meredith no suposto divórcio.

A casa onde Harry se instala está num verdadeiro estado de decadência, cheia de grafittis e de estranhos símbolos místicos. Depois de descobrir que há alguns adolescentes a passarem lá a noite por causa de uma aposta, Harry descobre que aquela casa, suposto, terá assassinado quatro crianças há vários anos atrás, o que é corroborado por um dos grafittis que apresenta quatro figuras com facas. Como começa a ter alucinações e flashbacks do seu passado, nomeadamente no que toca ao facto de, acidentalmente, ter alvejado o irmão, quando eram ainda crianças, Harry decide desistir do caso. Meredith consegue convencê-lo a não desistir, e é assim que Harry regressa à casa que parece mesmo estar a afectar o seu discernimento relativamente ao real. Daí até que Harry descubra não só os verdadeiros efeitos da casa, mas também a verdadeira razão que o colocou ali, desenvolve-se toda a trama do filme, particularmente tensa e com uma dimensão psicológica distorcida, que vem confirmar um pouco os princípios a que Brad Anderson nos habituou, como acima já tinha dito.





Não é difícil encontrar aqui algumas semelhanças com "Session 9". Primeiro, pela própria concepção espacial, que, apesar da escala bastante menor, tem algumas semelhanças com o hospício de Denver, onde se passava o filme de 2002; e também pela própria relação entre o indivíduo e um espaço inóspito que despontará dentro dele uma série de processos desviantes que acabarão por constituir o cerne de todo o filme.

Mais ainda, a situação dos fantasmas do passado volta a ter importância, e aí, é mais fácil lembrarmo-nos de "Sounds Like", ainda que aqui tudo surja de uma maneira diferente.

O que Anderson tem de realmente bom é que, partindo de um argumento já de si interessante, tem suficiente inteligência visual para transformá-lo num filme ainda melhor. E ainda que neste filme se façam sentir negativamente os efeitos da limitação de tempo (45 minutos.), Anderson consegue contornar tudo e encontrar uma série de imagens fortes e invulgares que, definitivamente, falam por todo o filme.

O que é facto é que "Spooked" beneficiaria de mais tempo, ou seja, seria provavelmente mais equilibrado e mais pungente se fosse uma longa-metragem. Acontece com alguns dos filmes, já desde "Masters of Horror".

No entanto, não seria justo dizer que "Spooked" é alguma coisa, senão um bom fime.




Contagem Decrescente

Acompanhas a passagem de mais um ano
com humor negro
e juras de mudança de vida.

A teu lado os amigos
comprometem-se – pelo menos esta noite –
a não deixar que diante de ti se abra
um abismo de sujeições.

Mas pouco a pouco
distrai-os a contagem decrescente,
um fogo-de-artifício
no céu televisionado.

Habituaste-te
a acertar as horas
pelo rumor de uma estrela,
acendendo cigarro atrás de cigarro,

embora às vezes ainda esperes
Qualquer recompensa
do tempo inamovível.




Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
ed. Presença, 2003


pintura de Isabel de Sá

sábado, 7 de maio de 2011

Fear Itself: The Sacrifice de Breck Eisner (1X01)

O VAMPIRO ATLETA



A génese de "Fear Itself" é basciamente a mesma de "Masters of Horror". Depois de terminada a segunda época da série dos mestres, Mick Garris surge-nos com esta nova versão, de que é, de novo, o criador. A diferença mais substancial será que, em "Fear Itself" encontramos muitos mais nomes desconhecidos, ao passo que "Masters of Horror" conseguiu reunir nomes mais sonantes como John Carpenter, Dario Argento e Tobe Hooper a nomes mais recentes como Brad Anderson.






A iniciar a série nova, temos este "The Sacrifice", de que Garris assina o argumento (Baseado num conto de Del Howinson.); realizado por Breck Eisner. Eisner é precisamente um realizador emergente, que, entretanto, já realizou dois filmes, sendo que apenas um deles se insere no género do horror, e foi realizado já depois da sua participação em "Fear Itself". Por aqui se vê já alguma diferença em relação a "Masters of Horror".

Onde não se vê a diferença é na qualidade dos argumentos de Garris: o deste filme é tão mau como "Valerie on the Stairs" ou "Chocolate", só não consegue ser pior do que o de "The V Word", ainda que seja deste que, tematicamente, "The Sacrifice" mais se aproxima.

Ainda que se demore bastante a entender isso, "The Sacrifice" é um filme de vampiros. Conta s história de quatro traficantes de armas que, para tentar ajudar um que está ferido, perdidos no meio da neve, se refugiam num forte isolado, onde conhecem três raparigas que nunca haviam saído dali. Logo se percebe que, por alguma razão, estas raparigas estão a tentar encurralar os quatro visitantes, de maneira a dá-los de comer a uma criatura que ali vive também.

Na premissa, não há nada de novo, mas também não há nada de errado.

O problema, no argumento, é a questão dos diálogos, que muitas vezes peca pela predicabilidade e pela tendência para o desperdício de palavras. O que acontece é que Mick Garris é pouco capaz de nos surpreender, usando as artimanhas mais frequentes que uma sinopse destas poderia proprocionar, nomeadamente no que toca ao facto de as raparigas usarem a sugestão sexual como forma de fazerem os rapazes cair nas suas armadilhas.

Visualmente, o filme não está mal pensado, sendo que, aqui e ali consegue alguns planos bastante interessantes, ainda que se fique com a sensação de que o espaço do forte das três irmãs tinha potencial para proporcionar planos bastante mais desenvolvidos e poéticos.





O que realmente vem arruinar "The Sacrifice" é a figura do vampiro que, ainda que tenha uma história interessante, nos surge como uma espécie de atleta ensanguentado. Daqui até aos lugares comuns das dentadas e das presas e dos contágios é apenas um pequeno passo que nem Garris nem Eisner parecem ter pudor em dar.

Como resultado, temos aqui algumas cenas supostamente empolgantes de perseguições, ataques e armadilhas.

A única coisa que realmente corre bem é a sequência final: não a nível de argumento onde, apesar de lógico, o final não tem nada de surpreendente, mas através do uso da metáfora que é o portão da fortaleza, que nos indica exactamente aquilo que aconteceria depois do fim do filme.

A verdade é que "Fear Itself" bem que poderia ter um início mais agradável do que este, que mais não é do que uma prova da falta de jeito de Mick Garris, a que se acrescenta uma certa inépcia por parte de Breck Eisner. Esperemos que haja melhores dias para esta série.


Masters of Horror: Dream Cruise de Norio Tsuruta (2x13)

DRAMA COM ASSOMBRAÇÃO





A fechar "Maters of Horror" encontramos este "Dream Cruise", realizado por Norio Tsuruta, cujo trabalho cinematográfico mais conhecido será, eventualmente, "Ringu 0: The Birthday", a prequela para o famoso "Ringu" de Hideo Nakkata, que viria a dar origem ao remake de Gore Verbinski, "The Ring".

A média que Tsuruta apresenta para o encerramento desta série conta com uma sinopse interessante, que faz uso de algumas das técnicas mais eficazes para tornar um filme de terror forte; a saber: a criação de um drama pessoal que será decisivo para o desenrolar da história, a colocação dos personagens numa situação de isolamento e a consequente impossibilidade de fuga.

Jack Miller (Daniel Gillies) é um advogado americano radicado no Japão, que carrega consigo o trauma de infância de não ter sido capaz de salvar o irmão de morrer afogado. Por causa do seu trabalho, acaba por reunir-se nas docas com um cliente, Eiji (Ryo Ishibashi). Isso é um pouco constangedor, dado que Jack se encontra amantizado com a mulher de Eiji, Yuri (Yoshino Kimura). Os três acabam por ir para o barco, a fim de discutirem assuntos legais, por mais que Jack não pareça satisfeito com a ideia.

À medida que se torna claro que Eiji tem conhecimento do envolvimento da mulher com o advogado, vem ao de cima o mistério do desaparecimento súbito da primeira mulher de Eiji, que redunda numa espécie de assombração sobre aquele mar e aquele barco.

A sinopse em si tende muitíssimo mais para o drama, familiar e passional, do que propriamente para o filme de terror. Não é, aliás, muito claro, qual a parte deste argumento que continuaria a ser terror sem as imagens. Nada contra, até porque se o cinema é cinema é porque não é livro nem coisa assim.





"Dream Cruise" está longe de ser um mau filme, mas também não está perto de ser muito bom. O que acontece é que o dramatismo da premissa se torna tão forte que, quando as imagens nos colocam perante o medo, o grotesco e o paranormal, sentimos que estamos a assistir a um drama que conta com assombrações; e há momentos em que, se não nos esforçarmos, não distinguimos a assombração do enfrentar dos fantasmas pessoais; e isto tem particular ênfase na personagem de Jack.

Também creio que este filme sobrevive por ter sido realizado por um realizador não americano. Goste-se ou não, a verdade é que os japoneses têm concepções de cinema de terror redondamente diferentes das americanas, nomeadamente no que toca ao aspecto visual do filme, aos detalhes gráficos e à violência bruta mas subtil. É assim que "Dream Cruise" consegue os seus momentos de esgar e de calafrio, ainda que não seja um filme particularmente gore.

O que mais chateia neste "Dream Cruise", mesmo assim, é o seu desenlace, onde parecem faltar algumas explicações; e o final em si é bastante desinteressante.

Não posso dizer que ache que este filme seja algo de assinalável, mas, ao mesmo tempo, safa-se bastante melhor do que muitos dos filmes que integraram a segunda época de "Masters of Horror".



sexta-feira, 6 de maio de 2011



The First Day

I wish I could remember the first day,
First hour, first moment of your meeting me;
If bright or dim the season, it might be
Summer or winter for aught I can say.
So unrecorded did it slip away,
So blind was I to see and to foresee,
So dull to mark the budding of my tree
That would not blossom yet for many a May.
If only I could recollect it! Such
A day of days! I let it come and go
As traceless as a thaw of bygone snow.
It seemed to mean so little, meant so much!
If only now I could recall that touch,
First touch of hand in hand! - Did one but know!





Christina Rossetti

A Pageant and Other Poemas

1881


gravura de Dante Gabriel Rossetti

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma canção a quem a merece...



i´ll be the smoothest thing to touch your skin


...


so take me in the hand and walk on by



Emiliana Torrini: Gun (do álbum "Me and Armini", 2008)

Masters of Horror: The Washingtonians de Peter Medak (2x12)

SLEEP DURING IT




"Zorro, The Gay Blade" (1981) e "Romeo Is Bleeding" (1993) são filmes que, goste-se ou não, deixam mais ou menos uma impressão sobre Peter Medak: essa impressão é a de que ele aprecia um certo humor negro e crítico sobre a sociedade e os seus mitos; que bem pode ser um estilo interessante em cinema.




A média-metragem com que se apresenta na segunda época de "Masters of Horror" não foge a esta regra. O argumento de "The Washingtonians", baseado num conto de Bentley Little, e assinado por Richard Chizmar e Johnathon Schaech, sendo que este último é também o protagonista, tem alguma coisa de ousado e de chamativo: Mike Franks (Schaech) muda-se com a mulher, Pam (Venus Terzo) e a filha, Amy (Julia Tortolano) para a casa da sua falecida avó. É lá que encontra um antigo retrato de George Washington, atrás do qual está escondida uma carta, assinada G.W., que sugere que o pai da América seria um canibal e um infanticida. A carta chega ao conhecimento de alguns habitantes locais, e logo Mike começa a receber visitas de homens mascarados de revolucionários que exigem que ele lhes dê a carta. Através da ajuda de um amigo, o professor Harkinson (Saul Rubinek), um historiador, Mike toma conhecimento de um clube de canibais, os Washingtonians, que vive naquela localidade e protege o segredo da verdadeira vida de George Washington, sendo, para eles, essencial que a carta não seja divulgada.

Pode haver aqui um sentido crítico bastante apurado; principalmente no que toca aos bastidores da História e da mitologia política americana e isso poderia ter resultado num filme interessante; e também num filme de terror interessante, ou pelo menos um bocadinho gore, já que o assunto do canibalismo, não sendo novo, também não tem sido dos mais explorados.

No entanto, "The Washingtonians" é tudo menos isso. Ainda que o argumento apresente algumas fragilidades, nomeadamente no que toca a clichés ligados às conspirações (Como a repetição da expressão "Sleep on it".); tinha potencial de resultar num filme bom, mas Medak parece, literalmente, dar cabo dele.

A começar pelo momento em que Mike descobre a carta, que parece seriamente mal resolvido em termos de aspecto; passando pelos gritos constantes de Amy que mais não são do que irritantes e forçados; a acabar na abordagem visual do tema do canibalismo. As cenas em que vemos os Washingtonians comer carne humana são realmente repugnantes, não no sentido em que geram um calafrio, mas no sentido em que se limitam a ser pura e simplesmente asquerosas, além de um tanto ao quanto incredíveis.

A própria concepção dos integrantes daquele clube não passa de uma teatralidade mal disfarçada, com uma maquilhagem bastante taxativa e nada realista, principalmente nos dentes, que mais parecem de um fumador compulsivo de haxixe do que de um canibal. Particularmente a cena em que pela primeira vez os Washingtonians batem à porta da família de Mike revela uma falta de jeito incrível: mais parece uma cena estranha para assustar crianças. Lembro-me que havia um episódio de CSI: Las Vegas que mostrava aqueles clubes que fazem re-encenações de guerras; esse episódio de CSI estava bastante mais conseguido do que este filme está.



A ideia de forjar algumas pinturas onde a verdade sobre George Washington fica expressa é boa, e provavelmente será das coisas que melhor corre neste filme, ainda que se trate de uma sequência de cerca de três minutos.


A própria resolução do problema, e aqui se revela outra fragilidade no argumento, peca por ser tão ambígua que se torna incompreensível. A sequência final parece realmente vir reforçar a ironia que o argumento pretende, mas a reação de Amy à troca de George Washington por George W. Bush nas notas de 1 dólar, francamente não fica bem.

É curioso ver que, na segunda época de "Masters of Horror", há uma série de filmes que parecem ter sido feitos para assustar criancinhas de 6 ou 7 anos. Eu não percebo bem como pode um realizador defender um filme destes, quanto mais mostrá-lo.

Por mais que ao longo do filme repitam "Sleep on it", para ser sincero, eu fiz um enorme esforço por não adormecer durante ele. E é tudo.


quarta-feira, 4 de maio de 2011



Sem Palavras Nem Coisas

2

entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura.
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.



António Franco Alexandre

Sem Palavras Nem Coisas

1974, Iniciativas editoriais


pintura de Ferdinand Hodler

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Me enagana, que eu gosto"

Economia - Sócrates anuncia acordo com a Troika - RTP Noticias, Vídeo

Sarah McLachlan: Laws of Illusion

LOVING HER IS EASY



Recentemente nos chega o novo álbum de originais de Sarah McLachlan. O anterior, "Afterglow", data de 2003. Nestes anos, Sarah parece ter estado a arrumar a casa, pois encontramos um álbum ao vivo, "Afterglow Live" (2004), um álbum de remixes, "Bloom" (2005), um de canções de natal, "Winter Song" (2006), "Rarities, B-Sides and Other Stuff, Volume 2" (2008) e o best-off, "Closer" (2008).

Sendo que eu sou absolutamente contra álbuns de remixes, salvo raras excepções, e que nunca ouço discos de natal, porque acho deprimentes; é de notar que os dois álbuns lançados em 2008 nos prenunciam, claramente, um ponto de viragem no percurso da cantora canadiana, que começa em 1998 com o álbum "Touch".





Quando começamos a ouvir "Laws of Illusion", percebemos que essa viragem, de facto, aconteceu.

"Afterglow" era, a meu ver, um álbum perfeito: conciso, coerente, equilibrado e realmente novo no contexto da discografia de Sarah McLachlan. Talvez por ser todas essas coisas, ele fechava completamente um ciclo, e impunha a necessidade de seguir outros caminhos. Sarah percebeu isso.

"Laws of Illusion" vem, em parte, retomar algumas pontas que haviam ficado soltas aquando dos primeiros álbuns, especificamente, "Touch", "Solace" (1991) e "Fumbling Towards Ecstasy" (1993). E se este último era um álbum também bastante conseguido, a verdade é que os primeiros dois pareciam, de alguma for, ter algo por terminar. Sarah deu o salto de maturidade no seu terceiro álbum, mas isso não significa que anteriormente não tivesse encontrado algumas soluções e algumas características que convinha não perder.

E se "Surfacing" (1997) vinha continuar essa fase de maturidade e "Afterglow" era o seu culminar, talvez nesse ponto Sarah se tenha encontrado com capacidade de repensar a sua fase inicial e reinventá-la.

"Laws of Illusion" é tudo isso, em primeiro lugar. Logo em "Awakenings" reconhecemos alguns traços que encontrávamos nos primeiros anos de Sarah McLachlan, mais ligados a uma dream-pop do que ao lado intimista entre o piano-rock e a alternativa que a pianista seguiu depois.

E isso acontece depois, em praticamente todas as canções. Sarah parece ter aceite um lado mais expedito e quase alegre, sem, no entanto, perder as características essenciais da sua música, que passam pelas vocalizações etéreas (É preciso ter em conta que estamos perante uma voz em que a suavidade encontra um lado grave também.) e por linhas de piano que fazem a estrutura das canções.

É assim com "Awakenings", que é uma das melhores canções de "Laws of Illusion", e também com "Illusions of Bliss".

À terceira faixa, "Loving You is Easy", econtramos elevadas ao máximo as características das primeiras duas canções. De facto, nunca ouvíramos a Sarah McLachlan uma canção assim, tão garrida e emotiva ao mesmo tempo. É também uma das canções onde se nota maior uso dos músculos criativos no piano, que nos relembra que Sarah é, além de uma boa voz, uma exímia pianista.

"Forgiveness", sendo uma canção que se encontra mais no estilo de "Fumbing Towards Ecstasy", é uma das melhores letras que Sarah já escreveu. É claro que Sarah foi sempre uma excelente letrista, encontrando-se em "Afterglow" letras que são verdadeiros poemas; e esta canção vem acrescentar-se à lista das melhores. É de notar que este é o primeiro álbum que Sarah McLachlan edita depois do divórcio do baterista Ashwin Sood. Por norma, interessa-me pouco a vida pessoal dos músicos, mas, neste caso, é importante referi-lo, pois o tema da separação amorosa e da ilusão/desilusão vem pautar muitas das canções que encontramos aqui.

"Rivers of Love" não é uma cover da canção de Lisa Ekhdal, mas é uma canção onde encontramos uma tendência jazzy que não é de desprezar; e que nos confirma que, de facto, "Laws of Illusion" é a procura de uma sonoridade renovada. "Love Come", outra das melhores canções do álbum, mantém-se nessa busca, mas faz algo interessante, que é procurar essa renovação nos concertos ao vivo. É claro que a grande maioria dos músicos sempre procura nos álbuns em estúdio recriar o que se passa no palco, mas nem sempre esta tentativa redunda nalguma coisa de especial. Não é o caso aqui. Ouvir álbuns como "Mirrorball" (1999) ou "Afterglow Live", confirmar-nos-á que, na sua maioria, estas canções conseguem recriar o palco. "Love Come" é bom exemplo disso, bem como "Out of Time", que parece ser uma espécie de segunda parte para uma canção já antiga de Sarah, "Possession", ainda que a criatividade na composição acabe por afastar "Out of Time" da outra canção.





Escusado será dizer que "Laws of Illusion" é um álbum de baladas, mas estamos longe de encontrar aqui lamentos lamechas. Nunca foi propriamente isso que encontrámos em Sarah, mas é facto que, onde "Afterglow" era calma e limpidez, "Laws of Illusion" vem-se mostrar esperançoso e nada amargo, acrescentando também alguns travos ligados ao folk na maioria das canções. Essa tendência vinha a acontecer um pouco desde "Surfacing" mas fôra um pouco posta de lado em "Afterglow". Agora, regressa em força. A canção onde notamos mais isso será, evidentemente, "Heartbreak", onde ouvimos uma linha de dobro, magistralmente tocada por Luke Doucet (Um dos músicos da banda ao vivo de Sarah, lá está.).

"Don´t Give Up On Us" aparece-nos aqui resgatado de "Closer", o best of. Apesar de não ter tanta força como a maioria das canções novas, entende-se a inclusão desta canção neste álbum, pois aí parecem estar já algumas raízes daquilo que este novo material viria a ser.

"U Want Me 2" é um pouco a mesma coisa, uma questão de raízes, ainda que se note que, ao contrário de "Don´t Give Up On Us", esta canção parece mais próxima de uma sonoridade pop que não foi exactamente a que Sarah seguiu nas canções novas.

De notar é que, pela primeira vez, na maioria das faixas, Sarah tem ajuda na composição de Pierre Marchand. Se este é já produtor dos seus álbuns desde há muitos anos, a verdade é que só agora tem realmente um papel mais omnipresente na composição das canções, o que nos pode fazer concluir que talvez venha um pouco dele a tendência mais "alegre" que se nota nalgumas canções.

A fechar o álbum encontramos "Bring on the Wonder", canção escrita por Susan Enan, que canta a canção em dueto com Sarah; e, por fim, uma versão acústica de "Love Come", com arranjos orquestrais.

Estas quatro canções poderiam funcionar um pouco como faixas extra.

Sete anos de espera, afinal, não foram em vão, e estou certo que este álbum, apesar de ter algo de inesperado, agradará aos que acompanham o percurso desta senhora, que, com mais ou menos Grammies, tem sido uma das mais interessantes.


Scream 4 de Wes Craven

ACTO FALHADO






Tive ontem a infelicidade de ir ver a quarta parte da saga "Scream", assinada, como todas as outras, por Wes Craven.


Convém relembrar que, em 1996, quando se achava que a fórmula do slasher movie estava já esgotada e mais não se fazia do que repetir as receitas dos grandes clássicos como "The Texas Chainsaw Massacre" de Tobe Hooper (1974), "Halloween" de John Carpenter (1978), "Friday the 13th" de Sean S. Cunningham (1980) e "A Nightmare on Elm Street" do próprio Wes Craven (1984); Craven traz-nos um filme que, ao mesmo tempo, renova e analisa esse mesmo esquema que orienta os filmes citados. Assumida que ficava a influência doentia do cinema na vida real, o filme resultava muitíssimo bem e não deixava de nos parecer uma boa maneira de contornar o bocejo em que o cinema de terror, em particular na sua variante slasher, se havia tornado.


Já nessa altura, "Scream" era-nos apresentado como uma trilogia e, portanto, prossegue em "Scream 2" em 1997 e "Scream 3" em 2000. Enquanto que a segunda parte ainda nos soava credível e uma continuação bastante inteligente das questões apresentadas no primeiro filme, a terceira parte era já de si bastante inusitada e seriamente mal-resolvida, ainda que, num ou outro aspecto, conseguisse continuar as mesmas problemáticas da fronteira entre o cinema e o real.






Oito anos depois de encerrada a trilogia, Wes Craven vem anunciar que, afinal, haverá um "Scream 4". Tendo em conta a qualidade duvidosa do terceiro capítulo e a contradição que uma terceira sequela representaria, seria de ficar alarmado em relação a ela; mas sempre se dava o benefício da dúvida por se entender que o elenco principal integraria mais este filme: Neve Campbell como Sidney Prescott, Cortney Cox como Gale Weathers e David Arquette como Dewey Riley.


No entanto, chegados a 2011, o filme estreia finalmente, e diga-se de passagem que o facto em si é uma infelicidade.


A película abre com várias cenas dos filmes "Stab", adaptações cinematográficas dos crimes de Woodsboro (Relembre-se que "Scream 3" se passava na produção de um desses filmes.), cada uma mais ridícula do que a outra, com imensos clichés. Quando, finalmente, temos o início de "Scream 4" propriamente dito, a coisa não corre melhor. Para cena passada "no real", Wes Craven escolhe uma sequência absolutamente dejá-vu, que repete um pouco a maneira como morria Tatum Riley (Rose McGowan) no primeiro filme.


Assim, enquanto Ghostface parece estar de volta, Sidney Prescott acaba de lançar "Out of Darkness", a sua autobiografia, e vem apresentá-la a Woodsboro, a sua terra natal, precisamente no aniversário do massacre de que ela fizera parte.


No lançamento do livro, encontra os seus velhos amigos, o casal Gale Weathers e Dewey Riley, que se encontram já a par do duplo homicídio que ocorrera.


Desta vez, no centro de tudo, encontra-se a prima de Sidney, Jill, que é aluna no colégio da cidade. São as suas amigas que começam a ser assassinadas, duma forma que parece repetir o primeiro massacre.


"Scream 4" passa grande parte do seu tempo a analisar as regras de filmes de terror, quer de sequelas quer de remakes; mas o que no primeiro filme dava conta de um estilo e de um objectivo, neste filme não deixa de parecer uma auto-justificação que nunca seria necessária se o filme fosse bom.


É de notar uma enorme falta de criatividade quer nas mortes dos personagens, quer nas resoluções que o próprio filme procura, limitando-se a repetir de uma forma aborrecida não só aquilo que já vimos nesta saga, como aquilo que temos visto numa série de outros filmes: aqui temos as adolescentes mamalhudas que não trancam as portas de casa, o parque de estacionamento, a maratona de filmes de terror, os nerds, a questão estúpida da virgindade, etc.


Mais ainda, se há algo de perturbante neste "Scream 4" são os diálogos: nunca antes se viu nada de tão amador, parecendo conversinhas entre crianças, com mais de ridículo do que de aterrador.


As personagens também nos aparecem como um pouco desfiguradas: a escrita de uma auto-biografia parece-nos, inicialmente, um tanto fora de sítio em Sidney Prescott, ainda que depois isso seja suavizado. Mas a relação entre Dewey e Gale surge-nos com uma frieza completamente deslocada, Dewey praticamente não tem importância ao longo do filme; sendo que Gale ainda vai sendo aquela que, na continuidade, mais se parece consigo mesma. No entanto, o ataque que fazem à antiga jornalista no Stabathon parece completamente despropositado e também bastante vão, no sentido em que se percebe logo à partida que é um ataque mal-sucedido.






O final também não se nos afigura particularmente surpreendente. Nota-se um certo esforço para que assim seja, e até poderia, em parte, ter sido. Mas depois a quantidade de justificações estúpidas e irrealistas estragam tudo, bem como a repetição descarada do desenlace de "Scream 2". A personagem que se revela ser o assassino também não chega a merecer qualquer tipo de sentimento da nossa parte, senão o de uma profunda irritação, não nos parecendo mais do que um excesso de mimo, como uma criança que faz uma birra.


Neve Campbell e Cortney Cox continuam perfeitamente capazes de incarnar os seus personagens. Já David Arquette parece completamente apagado ao longo do filme, o que faz com que, nas suas poucas e ridículas aparições, não nos pareça mais que um atrasado mental.


Hayden Penattiere e Nico Tortorella estão bem nos seus papéis, que aqui surgem pela primeira vez, bem como Rory Culkin e Eric Knudsen também, sendo que estes dois têm papéis ligeiramente mais exigentes. Quanto a Emma Roberts, que tem afinal um papel central, a única coisa que há a dizer é que é pura e simplesmente má, parecendo sempre que está a tentar exageradamente, perdendo qualquer credibilidade.


Deste filme, creio eu, não se salva quase nada, senão algumas boas interpretações. Wes Craven realiza este filme com uma falta de jeito que é o que mais surpreende.


Fui vê-lo em nome dos meus anos de iniciação ao cinema de terror, mas acabei por me rir como se estivesse a assistir a uma comédia. É raro ver-se um filme tão ridículo.


O nome a fixar é o que Kevin Williamson, o argumentista. É esse o nome do homem a abater.