segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Elizabeth Eleanor Siddal, fotografada



Os manos Rossetti, noutra foto de Lewis Carroll


Da esquerda para a direita:
Christina Rossetti (1830-1894), poeta e escritora; Maria Rossetti (1827-1876), freira e autora de um ensaio sobre Dante Allighieri; Frances Lavinia Polidori (1800-1886), a mãe; e Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), pintor, fundador da Pre-Raphaelite Brotherhood e poeta.

[Correste depressa demais]


Correste depressa demais
na ânsia de tudo alcançar

Mas por entre os dedos se escoou a vida
nem saudades nem rancores ficaram

Nada viste nada sentiste
e em tudo um sabor a fastio

Papéis amarfanhados
palavras inacabadas
lixo...

E para quê tanta sofreguidão?

Só ficarás perante as trevas
frente ao mistério inexplicável
e nem um ombro firme onde te apoiares
só ficarás perante ti

HENRIQUE RISQUES PEREIRA
Transparência do Tempo (poesia)
2003, ed. Quasi

fotografia de SLAVA MOGUTIN

domingo, 7 de agosto de 2011

O novo álbum dos Anathema

será lançado a 5 de Setembro deste ano. Falling Deeper é o belíssimo título do álbum que promete novas versões, ao estilo orquestral e sinfónico de agora, de canções retiradas do primeiro LP da banda, Serenades, de 1993, e dos EPs Pentecost III e The Crestfallen, de 1992 e 1995. Ou seja, a fase doom-metal.
Será uma boa oportunidade de revisitar as origens dos Anathema, mas adaptadas ao que a banda de melhor já fez e, ao que parece, continuará a fazer.



Anathema no Vagos Open Air (5.8.11)

WE'RE HERE BECAUSE THEY'RE GREAT


Li não sei onde que, a pessoas como eu, se chama Anathemaniacs. O neologismo é, parece-me, bastante claro, e explicará certamente por que este texto, mais do que o habitual, não é nem poderia ser imparcial.

O concerto dos Anathema no Vagos Open Air 2011 foi na sexta-feira, ao fim da tarde. Desde logo me desagrada que, além de não serem cabeças de cartaz, os Anathema sejam atirados para um horário tão pouco nobre. No entanto, quando a música é boa, o resto não chega a ser nem cantigas e, na verdade, este foi o melhor concerto do primeiro dia do festival.

A banda dos irmãos Cavanagh subiu ao palco com uma longa introdução, que viria a dar origem a “Thin Air”, que é também o tema de abertura do álbum We’re Here Because We’re Here, lançado o ano passado, sendo, até agora, o mais recente. Seguiu-se “Summernight Horizon”, onde Vincent Cavanagh foi acompanhado na voz por Lee Douglas. “Dreaming Light” marca o primeiro momento suave do concerto, para ser logo de seguida compensado pela energia de “Everything”, o primeiro single do álbum de 2010.

Apresentado então o novo teclista dos Anathema, Daniel Cardoso, português, seguiu-se uma boa oportunidade para este brilhar, e também o primeiro regresso ao passado, com “Closer”, do álbum A Natural Disaster de 2003. Por norma, esta canção é tocada como segunda parte de “Balance”. Ainda que eu ache que a junção das duas canções resulta num objecto realmente grandioso, tenho que reconhecer que a escolha dos Anathema para este concerto me surpreendeu pela positiva, uma vez que a canção se mostrou um portento enquanto objecto autónomo.

E pelo passado se continuaria ainda, visitando os álbuns que mais se relacionam com a fase actual dos Anathema, com "Deep" de Judgement (1999), seguido de um regresso a 2010 com "A Simple Mistake", a soar muitíssimo mais forte ao vivo. A minha canção preferida, "Empty" foi uma boa escolha, claro, para representar o álbum Alternative 4 (1998), mas, pela segunda vez, o som é interrompido durante a canção. Tinha acontecido durante "Summernight Horizon" e aconteceu nesta canção três vezes, o que, mesmo assim, não foi suficiente para estragar o momento, já que o público não hesitou em fazer as vezes da guitarra eléctrica.

A Natural Disaster, retirado do álbum homónimo, trouxe a maravilhosa Lee Douglas para a voz principal, numa versão que se transformou numa espécie de grande dueto entre ela e Vincent Cavanagh. Foi, e com toda a justiça, um dos momentos mais aplaudidos da noite. Do mesmo álbum, Flying ainda nos deu um daqueles momentos memoráveis, com o genial solo de guitarra eléctrica com que o genial Daniel Cavanagh fecha a canção.

Depois disso, e seguindo a linha realmente mais melódica que os Anathema pareceram querer deixar para o fim, regressou-se a We're Here Because We're Here com "Universal", canção que vai crescendo discretamente até explodir num final tenso que só pode produzir um grande efeito ao vivo.

Para o encerramento, voltou-se a um dos melhores momentos de Alternative 4, e um dos melhores momentos dos Anathema, com "Fragile Dreams", que acabou por se revelar um apoteótico final.

Dada a pouca aptidão do público português para entender a música dos Anathema, está visto que não tiveram direito a encores, porque só o têm os cabeças de cartaz. Mas a hora e pouco que durou este concerto, onde, como Danny Cavanagh disse no final, tudo correu mal, acabou por resultar num grandioso concerto que nos relembra como a música dos Anathema é bela e violenta e mortífera, mas que nos reconcilia com a vida como nenhuma outra consegue.

No final, ainda houve uma muito simpática sessão de autógrafos, e a boa promessa do álbum Falling Deeper que será editado em Setembro e que agoira nova visita desta banda britânica a Portugal. São boas notícias, definitivamente.











terça-feira, 2 de agosto de 2011

Um poema


Eis-me diante do abismo, o quase pânico.
Tu, a amada, virás com os dedos examinados à luz da demência, as roupas brancas, os cabelos chispados de lama
a boca belíssima na geada desse riso.
Sobre o leito bebias do desgosto ervas esmagadas, insistias em chorar a fronte loira, o amor de teus vinte anos.
Oiço-te ainda na secura das paredes. As ideias, a paixão como se nada mais fosse possível.


ISABEL DE SÁ
O Festim das Serpentes Novas
1982, ed. Brasília

pintura de ISABEL DE SÁ

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Les Amours Imaginaires de Xavier Dolan

SWEET DREAMS ARE MADE OF THIS



Se há assuntos verdadeiramente inesgotáveis, eles são a mente humana e as relações humanas. Isto é uma conclusão a que podemos chegar pelo simples facto de, em arte, raramente encontrarmos outros assuntos. E se partirmos do princípio que a mente é quem dita as relações, então nem sequer há assuntos inesgotáveis; há apenas um, sobre o qual se discorre, se deriva, se discute, arranjando novos pontos de vista, discussões, contrariando muitas vezes o que foi dito e feito no passado para, no final, ficarmos na mesma: temos um ponto de vista que, muito provavelmente, acabará por ser refutado mais à frente. Mas há maneiras de contornar o rápido envelhecimento das sentenças que se lançam sobre o assunto das relações humanas.

Uma delas, e, até prova em contrário, a escolhida por Xavier Dolan, é dar aos objectos artísticos um cunho declaradamente pessoal e íntimo em que o criador se desinteressa de julgar, e prefere colocar-nos ante hipóteses, casos particulares.






Era assim com o assinalável "J'Ai Tué Ma Mère", de que falei há poucos dias; e volta a ser assim com "Les Amours Imaginaires", que Dolan realizou o ano passado ou seja, um ano depois do primeiro.

Uma das coisas que assinalei, ao falar do filme de estreia do realizador, foi a questão da sexualidade que, em "J'Ai Tué Ma Mère" se afigurava um tanto ao quanto lírica e adolescente.

Interessa pensar-se na questão da sexualidade pois ela, ao contrário de no primeiro filme, o assunto central deste "Les Amours Imaginaires".

A história é a de dois amigos, Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokrie), que se apaixonam pelo mesmo rapaz, Nicolas (Niels Schneider). Ao passo que a relação entre os dois amigos vai começando a transformar-se, já que ambos, ainda que timidamente, se sentem apaixonados; é muito claro que Nicolas não tem sentimentos alguns por nenhum dos dois -ainda que chegue a dizer que sim-, ficando sempre na posição de alguém que gosta que gostem de si. Dado a sinais dúbios, a insinuações que não redundam em nada, Nicolas consegue, mesmo assim, ser seguido pelos dois amigos, que, como seria de esperar, acabam por se virar um contra o outro, ainda que de uma forma só brevemente agressiva.

Tanto Marie como Francis se nos afiguram como pessoas solitárias e tímidas, um tanto fadadas para a desgraça da rejeição; ideia que é reforçada pelos planos que entrecortam o filme, em que várias pessoas contam, precisamente, histórias de rejeição.

E assim o filme vai passando.

Eu penso que "Les Amours Imaginaires" pode ser dividido em dois campos distintos:

O primeiro seria o da construção dos personagens, em si. Esse está irrepreensível. Dolan, que já antes se mostrara um argumentista muito capaz, consegue aqui criar três personagens consistentes, sabendo distribuir a informação que sobre eles recebemos, e sabendo, mais ainda, jogar com uma espécie de cheio e vazio: vai-nos dando sempre novas informações sobre a vida e a personalidade de Marie e de Francis; ao passo que pouco nos vai dando sobre Nicolas, conseguindo, assim, dar-nos o contraste entre a riqueza de personagens que sentem e o personagem narcisista, que nada tem a dar, excepto a expectativa de ser adorado. Xavier Dolan é, sem dúvida, um bom cinzelador de seres humanos, e essa é uma qualidade rara; os seus personagens têm a consistência de um corpo verdadeiro.

O segundo campo seria o da relação triangular que se sugere. E aqui mesmo é que "Les Amours Imaginaires" começa a falhar. De facto, era importante que houvesse uma certa frieza entre os três personagens, já que o amor que as une é, acima de tudo, imaginário. E nisso, o filme está bem conseguido: conseguimos ver o desespero e o delírio tanto de Marie como de Francis, quando não estão com Nicolas. É importante que esse lado de uma quase fuga à realidade exista e seja claro, porque, no fundo, o amor que ambos sentem por Nicolas só tem concretização no domínio dos sonhos, um pouco como o título da famosa canção dos Eurythmics.

Mas, nas cenas em que estão os três, o contacto entre eles não consegue, pura e simplesmente, transparecer a complexidade da situação em que estão envolvidos, parecendo que a abordagem escolhida por Xavier Dolan não ultrapassa os anátemas da adolescência. É esse o defeito maior de "Les Amours Imaginaires", não conseguir, quando o triângulo surge, ir muito além do mais básico. A este nível, a única situação realmente bem conseguida é o final do filme, onde o argumento consegue surpreender-nos com uma solução lógica mas bastante subtil.

O tratamento um tanto impreparado da sexualidade pode parecer estranho, dada a mestria com que Dolan consegue construir as suas personagens, mas, de facto, este é talvez o assunto mais complexo de todos e aqui, deixa um pouco a desejar.




Fora isto, "Les Amours Imaginaires" não tem que se lhe aponte. Mostra uma realização bem mais minuciosa e inteligente do que "J'Ai Tué Ma Mère" que, por si, já não estava mal realizado. Dolan tem o olhar treinado para os detalhes, tanto nas personagens, como nos cenários e no espaço ou no guarda-roupa; continua a preferir os ambientes carregados suburbanos, criando à volta das personagens uma certa noção de isolamento, muito conveniente quando estamos perante pessoas que se sentem um tanto perdidas. Destaco também a banda sonora, onde ouvimos várias vezes, e não sem uma certa ironia, a versão de Dalida do "Bang Bang" de Nancy Sinatra.

Se este filme é ou não melhor que "J'Ai Tué Ma Mère" é uma questão que nos pode ocorrer, mas que no fundo é irrelevante, por mais que seja respondida. Acima de tudo, o conjunto dos dois filmes dá-nos noção de um projecto artístico interessantíssimo e fecundo. E nos dias de hoje, isso vai-se tornando perigosamente raro.


Vozes


Vozes
contra as paredes

nessas vozes
não se pode nadar

o fluido é espesso
misto de alga
e de esgoto
destroçar
das paixões

Água libertadora
na praia
ao fim da tarde

nadando
com a maré vaza
na direcção da rocha
onde os deuses
se escondem

YVETTE K. CENTENO
Entre Silêncios
1997, ed. Pedra Formosa

pintura de ÂNGELO DE SOUSA

domingo, 31 de julho de 2011

[Les absences occupent plus de place]




Les absences occupent plus de place
que les présences
un fantôme est plus grand qu'une personne
de cahir et d'os
son inconsistance même le dilate
plus grands les morts que les vifs
Une absence me bouscule
m'oublige à rentrer le ventre
à m'effacer sur son passage
et quand je veux la chasser
je réalise que c'est moi-même
ma part d'absence cure à mon insu
comme un enfant qu'on n'a pas vu
depuis longtemps

SAGUENAIL
Le Peu de Chose
2009, ed. Hélastre

pintura de JOHN McDONALD

Agustina tem destas coisas... (26)

Estava sempre em riscos de se matar, e João Pinheiro (que ele tratava sempre por tio, porque, dizia, assim não sofreria traumas edipianos) esperava a todo o momento a notícia de uma fatalidade.
_É um doido -dizia, não sem uma ponta de orgulho. Todos os pais sentem pelos filhos delinquentes a predilecção que se tem pelo perigo não de todo indomável.




de "Prazer e Glória" (1988)

Christina Rossetti, outra vez







Estou correntemente a ler a antologia "Selected Poems" de Christina Rossetti, publicada em 1994 pela Wordsworth editions, que me faz lamentar que não exista uma edição de semelhante amplitude em Portugal. Palmas para a Relógio d'Água, no entanto, que já publicou uma antologia, ainda que bastante menor, com versões de Margarida Vale de Gato, já aqui comentada há uns meses.

Aqui deixo algumas curiosidades sobre aquela que será provavelmente o maior poeta Pré-Rafaelita: manuscritos, cartas, capas e páginas de edições antigas e recentes; e um retrato, pintado pelo irmão, o pintor e também poeta Dante Gabriel Rossetti.








Um texto


Grande parte dos poetas escrevem, a certa altura, a sua "arte poética", que é a sua explicação de como escrevem, de como fazem a sua poesia. Os prosadores também o fazem, senão nos próprios livros, muitas vezes em entrevista.
Maria Gabriela Llansol está certamente entre o poeta e o prosador, pendendo umas vezes mais para um lado, outras vezes mais para o outro. Nos seus textos, frequentemente ela conversa com o livro e com a própria escrita. O acto de escrever é também assunto de muitas das suas páginas, um acto que está em constante mutação, a reformular continuamente as suas próprias regras, fugindo delas, e fazendo desse desvio uma nova regra.
Em 1991, Llansol publica "Um Beijo Dado Mais Tarde" (ed. Rolim), onde se pressente mais ainda uma dimensão pessoal, que se não é auto-retrato, é pelo menos auto-representação. Nele, uma rapariga ensina a sua criada a ler, como Santa Ana ensina Maria/Myriam. Quase no final do livro, encontramos o seguinte texto, que será uma das mais belas, mais complexas e mais completas explicações de como nasce e se transforma o texto de Maria Gabriela Llansol:


Cada vez está mais vento, com mutações de Sol excessivas para os meus olhos que agora, com o ar, o sol e a cor, se fatigam. Eu explico. Trabalho muito com eles, fixando intensamente um ponto-paisagem antes de começar a escrever; depois, o decurso do texto depende do que essa concentração, num lugar vazio, permite. O olhar atento vai voltando a si mesmo e, então, o queeu consigo ouvir são as ondulações vibratórias entre esses dois pontos. Os meus olhos recebem, num ponto-voraz, as linhas que sustentam o espaço, feixes incidentes paralelos, raios que se afastam progressivamente, termos geométricos.
Lá onde estás, deve ser assim.
Nunca olhes o bordos de um texto. Tens que começar numa palavra. Numa palavra qualquer se conta. Mas, no ponto-voraz, surgem fugazes as imagens. Também lhes chamo figuras. Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é impostura da língua. Vou, finalmente, soletrar-te as imagens deste texto, antes que meus olhos se fatiguem. O milionésimo sentido da voz, "tiro o lápis da mão", o gesto de partir a luz, o pensamento de uma criança, cópias da noite, passeio nocturno, "era um dia verde", o afecto do negro, sob o lenço da noite. O indizível é feito de mim mesma, Gabi, agarrada ao silêncio que elas representam.

sábado, 30 de julho de 2011

Um poema a quem de direito


REFERÊNCIA


Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

O que chega primeiro
e só parte por vezes
antes de eu perceber
que já tinhas voltado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Aquele que me beija
e me possui
me toma e me deixa
ficando a meu lado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Que sempre me enlouquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado

MARIA TERESA HORTA
Só de Amor
1999, ed. Quetzal

fotografia de SLAVA MOGUTIN

J'Ai Tué Ma Mère de Xavier Dolan

MOMMY ISSUES






O título deste filme é sugestivo. Desde o matricídio propriamente dito a sugestões de complexo de Édipo, parece não haver nenhum tipo de mommy issues de que não possamos suspeitar. "J'Ai Tué Ma Mère" é o primeiro filme de Xavier Dolan quer como realizador quer como argumentista, sendo que créditos como actor já tinha antes de 2009. O filme chamou a atenção no Festival de Cannes e agora, que finalmente o vejo, parece-me que nem tudo foi fogo de vista.

Este filme tem uma narrativa, mas não tem propriamente uma história, no sentido em que cria uma trama cuja resolução será também a resolução do filme. Nada contra, porque o cinema é uma arte em si, e não um filho da literatura, e não tem que ser julgado apenas pela qualidade da sinopse.

Acima de tudo, "J'Ai Tué Ma Mère" é, portanto, um filme psicológico, até porque a verdadeira acção entre os personagens acontece a um nível psicológico. Por isso mesmo, aqui há vários infanticídios e vários matricídios, sem que qualquer um dos protagonistas morra fisicamente durante o filme. A relação instável e quase doentia entre Chantal (Anne Dorval) e o seu filho Hubert (Xavier Dolan) é o assunto que acompanhamos quase ininterruptamente.

Desde Freud que percebemos que as relações entre os filhos (Rapazes.) e as mães são não raro complexas, ao ponto do próprio Freud não ter acertado na maioria das teorias que sobre isto formulou. Que Dolan aos vinte anos certos se tenha aventurado a ensaiar sobre o assunto não deixa de nos parecer uma ideia arriscada. Porque esta premissa poderia ser uma boa receita para o desastre. No entanto, o realizador acaba por, ao dar à história um cunho pessoal e intimista, nada interessado em traçar uma sentença geral sobre o assunto, conseguir resguardar-se desse desastre em que facilmente poderia ter caído.

Não encontramos em "J'Ai Tué Ma Mère" uma tentativa de generalização e, daí, de categorização. Pelo contrário, tanto Chantal como Hubert se nos apresentam como duas figuras perto do sui generis, e há que realçar que, enquanto personagens, estão perfeitamente construídas. Por isso mesmo, o filme nunca nos parece inusitado. O que aqui encontramos não chega a ser uma história de crueldade. É, isso sim, uma história de impossibilidade. Da impossibilidade do amor entre estas duas pessoas que, indubitavelmente, se amam, mas que não conseguem coexistir; só conseguindo amar-se ou à distância ou no meio da destruição.

É um mérito que cabe a Xavier Dolan, enquanto argumentista, ter conseguido criar dois personagens tão sólidos e, entre eles, uma relação lógica e contundente para quem a observa.

Se ao argumento não há, a meu ver, defeitos de maior a apontar, as falhas de "J'Ai Tué Ma Mère" começam na realização.

Nota-se que Dolan não é néscio, e que tem inteligência visual, ou sensibilidade, fazendo uso dos pormenores do cenário e do guarda-roupa e da própria paisagem. No entanto, há alguns erros um tanto evitáveis. Exemplo disso é que, com excepção de uma cena de jantar, nunca quando dois personagens estão sentados a uma mesa se sentam um de frente para o outro: estão sempre de lado, o que dá aos planos um ar um tanto teatral que, neste contexto, não tem muito sentido. E num filme onde se notam cuidados pessoais na imagem, não deixam de parecer perfeitamente evitáveis alguns planos escandalosamente pop, como é o caso do início da única cena de sexo do filme, com as tintas e a pintura.

E a direcção de actores, não sendo nada má -dado que tanto Dorval como Dolan se mostram bastante competentes- é um tanto discutível. Há muitos momentos de histeria neste filme, por parte de ambos os protagonistas, e há cenas em que, pura e simplesmente, a histeria é tão histérica que não parece real. E é perfeitamente dispensável que haja excesso naquilo que é já por si só excesso.

Por fim, a cena em que Hubert persegue a sua mãe vestida de noiva, filmada entre o videoclip e o vídeo caseiro, pura e simplesmente não está bem filmada, ainda que fizesse, para a construção da ideia, todo o sentido.






O que é certo é que "J'Ai Tué Ma Mère" consegue demarcar-se da ideia batida do complexo de Édipo, ainda que tenha uma ou outra cena em que isso nos ocorra. Mas Dolan desvia-se e leva-nos por caminhos que são, a um tempo, mais interessantes e mais credíveis. A questão da sexualidade, no entanto, é aqui atirada para segundo plano. Nada contra, porque o facto do protagonista ser homossexual não é a origem dos seus problemas de relacionamento com a mãe. No entanto, há uma pequena regra que devia ter sido seguida: é que se é um assunto secundário, deveria ser abordado da forma mais simples possível. Mas o que acontece é que, no plano da sexualidade de Hubert, encontramos um pequeno episódio com um outro rapaz, enquanto mantém um outro namorado. Esse episódio não tem utilidade nenhuma. Há apenas um beijo, cujo impacto é nulo. Mas gera uma certa distracção desnecessária. A sexualidade é um tema por demais complexo -talvez o mais complexo de todos- e o que parece é que, nessa área, Xavier Dolan ainda não se movimenta particularmente bem, pois parece, de alguma forma, ligado ainda às quimeras líricas e adolescentes. Por isso ainda bem que este assunto fica, neste caso, em segundo plano. Porque se assim não fosse, é certo que esta questão acabaria por desequilibrar o filme.

Feitas as contas, "J'Ai Tué Ma Mère", com todas as falhas que vai tendo, é um muitíssimo bom filme. E mesmo que se possa pensar de outra forma, acho que, no mínimo dos mínimos, este filme deixa uma séria promessa.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Katy Brand sabe exactamente o que eu sinto quando ouço Mariah Carey



Outros exemplos da estética surrealista nos vídeos de Marilyn Manson



"The Beautiful People" do álbum "Antichrist Superstar" (1996). Realizado por Floria Sigismondi



"Coma White" do álbum "Mechanical Animals" (1998). Realizado por Samuel Bayer



"Disposable Teens" do álbum "Holy Wood (In The Shadow of the Valley of Death" (2000). Realizado por Samuel Bayer

Doppelherz de Marilyn Manson

"Doppelherz" é o nome da curta-metragem realizada por Marilyn Manson em 2003, para acompanhar o álbum "The Golden Age of Grotesque". Manson parece ter convocado para este filme a herança surrealista como estética, o que não é, de todo, estranho ao seu imaginário. Nunca podemos esquecer que Manson, ainda que seja acima de tudo músico, não deixa de ter contado, desde "Portrait of an American Family" (1994), com uma dimensão imagética bastante complexa e forte, que Manson sempre soube renovar ao longo da sua carreira.
Este filme não esquece nada disso. Pelo contrário, "Doppelherz" parece ter chegado um tanto atrasado: é de estranhar que Manson nunca tenha antes transportado o seu lado visual para filme, excluindo, como é evidente, os videoclips. É certo que em 2000, no tempo de "Holy Wood (In The Shadow of the Valley of Death)" Manson fizera o controverso "Autopsy" onde filma uma autópsia brutalmente, mas este vídeo, ainda que significativo para compreender o universo do músico/artista, não tem nem a complexidade nem a originalidade de "Doppelherz".
Também não é estranha a presença do surrealismo neste filme, se lembrarmos que tem sido o surrealismo, enquanto total liberdade inventiva, a pautar todos os videos de Marilyn Manson. Mais ainda, poder-se-ia falar de uma estética barroca, quer no uso da máscara, quer no uso de um decorativismo exacerbado.
É um pouco aquilo que acontece com esta curta-metragem, que transporta toda uma gramática vinda destes conceitos.
Manson apresenta-se como realizador, mas conta com o trabalho plástico -aqui ligado à body-art- de Gottfried Helnwein, responsável pela direcção de arte de "The Golden Age of Grotesque". Todo o filme tem como banda sonora o tema instrumental "Theater", que é a introdução do álbum. Sobre essa música, obsessiva, repetitiva e sinistra, Manson declama um poema seu, também chamado "Doppelherz". "Doppelherz" significa "Duplo Coração". O tema está subliminarmente presente ao longo do longo poema, que passa pela repetição contínua de frases, que vão sendo ditas com diferentes entoações e desenvolvidas também, desdobrando-se em vários sentidos diferentes. Os assuntos são os mais caros às letras de Manson: a morte, a dor, a agonia, a amputação, a trucidação, a necrofilia, o isolamento, o luto, o pesadelo e, como não podia deixar de ser, também o lado político, ligado à filosofia de vida americana, que Manson vem criticando desde 1994. As imagens, parecendo desenvolver-se num plano completamente distinto, estão, no fundo, visceralmente ligadas com o poema.
O surrealismo aqui é uma estética, apenas, não significa nenhum tipo de arbitrariedade. Muitas destas imagens apontam-nos para duas mulheres siamesas, ao mesmo tempo que outras são claras em ideias de amputação, e isto aponta, evidentemente, para a ideia do "Duplo Coração" que, sendo dividido e justaposto a outro, causa a dor, o sofrimento, o pesadelo que este filme parece captar.
É essencialmente a ideia de pesadelo que mais facilmente podemos ligar a "Doppelherz". Em planos sempre escuros, um corpo inicialmente só vai-se mascarando, vai pintado o seu rosto, confrontado com as duas mulheres que são um só corpo. Com a chegada da divisão, da incisão, o corpo vai-se mascarando mais ainda, vai-se reinventando, como forma de resistir à dor. Ao mesmo tempo, há uma estrada a ser percorrida, sem que alguma vez chegue a qualquer lugar. Estas ideias parecem conjugar-se umas com as outras, formando uma só ideia, aliás muito básica, que é a defesa de uma pessoa perante uma perda, que significa a perda de uma parte de si mesma, do seu outro coração.
No final, lemos que este filme não quer explicações. Mas, como objecto artístico que é, pode ter leituras. Esta é a minha. E, independentemente da minha leitura ser mais ou menos adequada, a mim parece-me que "Doppelherz" é um objecto muitíssimo interessante.



DOPPELHERZ
(Poema de Marilyn Manson)

My pilot light has flickered out
You’ve knocked me off the hook
The person you are trying to reach is no longer here
I’m not really tall, dark and handsome
I just look that way
I’m a canvas that bleeds
And I’m painted with fingers
Childish pictures
Of you that still linger
Bury you’re wasted into the moon
Hoping that it sinks to the earth soon
Bury you’re wasted into the moon
I hope that it sinks into the earth soon
My pilot light has flickered out
You’ve knocked me off the hook
I’m a canvas that bleeds
And I’m painted with fingers
Childish pictures of you that still linger
I am a vcr
A funeral of dead memory waste
You can see it on my face
I’m a vcr funeral
Of dead memory waste
You can see it on my face
My smile is a chain link fence
I dare not frown
For fear of what comes out
My smile is a chain link fence
And I dare not frown for fear of what comes out
Sing a song kitty
Sing it
Sing it kitty
Sing it
Some people don’t think that lily
Is smart enough to understand what I’m thinking
But I know if she could she would kill
Everybody that I hate, cos she loves me
Cos I took care of her since she was a little baby
I am a vcr funeral of dead memory waste
You can see it in my face
As drink crawls down the oesophagus staircase
Into my bowels of hell
Naked like clown faces all smeared clean
Naked like clown faces all smeared clean in the spotlight
I’m a vcr funeral of dead memory waste you can see it on my face
Dead memory waste
Kill me, kill everyone, you can let them all die
The only thing in this world that does not die is money
You can kill me, you can kill them, you can let everyone die
The only thing in this world that does not die is money
The only thing immoral in this world is money
The only thing oral in this world is money
The only thing in this is money
The only thing is ney
The
Ney
The
The only thing immortal in this world is money
The person you are trying to reach is no longer here
You have knocked me off the hook
You are afraid that you are no equal
While you are spending my money
You can kill me, you can kill them, you can let everyone die
The only thing immortal in this world is money
Why would I want to be equal with anyone
You think you’re not equal while you’re spending my money
Why would I wan to be equal with anyone
To be equal you have to add or subtract
And I have never liked math
To be equal you have to add or subtract
And I have never liked math
You are recognisable, as just another part in a vast machine
The only thing immortal in this world is money
The only thing original in this world is the way we destroy things
Everything has already been created
So we can only deal with new ways of destroying them
Everything has already been created
So we can only think of new ways of destroying them
Stop rehearsing alcohol and start performing narcotics
Do you think that animals believe in god
To be equal you must add or subtract
People who want to be equal have lives that are filled with subtractions and auditions
To be equal you must add or subtract
People who want to be equal’s lives’ are filled with subtractions and auditions
We will call you back and tell you
Don’t call us, we’ll call you
Do animals believe in god
Stop rehearsing alcohol and start performing narcotics
This is a caucasian occasion
Could someone please autograph the frontal lobe
The insurance will not cover this
Could someone please autograph the frontal lobe
The insurance will not cover this
Can someone please autograph the frontal lobe, the insurance will not cover this
And the young are too senile
The young are too senile
The young zeich heil
Young are too senile
The young zeich heil
Do animals believe in god
I’m a kickstand in your mouth
I am a kickstand in your mouth
The insurance won’t cover this
You can run as fast as you want
But you can never outrun the cliché
The young are senile the young are senile
Have I outgrown my spotlight
My pupils are not students, they dilate but they never learn
Each time we roll up the dollar bill, we suffocate the president
Each time we roll up a dollar bill, we suffocate the president
Each time we roll up the dollar bill, we are suffocating the president
Each time we roll up the dollar bill, we suffocate the president
Just say now
Would you suck america’s tits
I want you to just say now, would you suck america’s tits
I want downloadable suicide
I want everything when I want it and I want it now
I want everything before I want it and I already wanted it so I don’t want it anymore
I want everything when I want it and I want it now
I want everything before I want it so I don’t want it anymore
I want downloadable suicide
I want a newer version
I want downloadable suicide
Version I don’t no
Version I don’t point no
Version I don’t pint no
Version I point the gun at me
O
Version I don’t no
Version I point the gun at me point o o o o o
I want downloadable suicide
If I sneeze will anyone bless me
Stop rehearsing alcohol and start performing narcotics
I keep watering a dead flower
Keep watering a dead flower
Keep watering the dead flower
Keep watering a dead flower
Everything I make is a piece of plant
In some day it could have been a flower
And the things that are flowers are dead
I keep watering a dead flower
Keep watering a dead flower
There’s not enough of me to make a bouquet
Stop watering a dead flower
Stop watering the dead flower
Stop watering a dead flower
I have no balance
I am like snow
And I melt away
I have no balance and I am like snow and I melt away
I have to balance
I am like snow
And I melt away
As you are listening
I want you to know
That you are nothing
But a screen that I will project
My images of sorrow, pain and sex upon
Although there is no difference between the three
As you are listening
I want you to know
That you are nothing
But a screen that I will project
My images of sorrow, pain and sex upon
Although there is no difference between the three
As you are listening I want you to know that you are nothing but a screen
That I project my images of sorrow, pain and suffering and sex upon
Although there is no difference between the three and the one
As you are listening I want you to know that you are nothing but a screen
That I project my images of suffering, sorrow, pain, sex
And the brief glimmer of happiness I find in the misery
Of those who are sitting in the theatre of which this screen exists
I want you to know as you are listening
That you are nothing but a screen
That I project my images of sorrow, pain, suffering, sex
And the brief glimpse of happiness I get from the misery
Of those who sit in the theatre that this screen exists will feel while they listen
The brief glimpse of happiness that I feel as
Those who sit in the theatre that this screen exists will feel as they listen
This isn’t about music
This is about the difference between you and me
I am a birthday cake that we light up, blow out, cut apart and forget
I am a birthday cake that you light up, blow out, cut apart, devour and forget
And I’m just like a holiday because I make everyone in the family cry
Love you’re enemy because love is the enemy
You’re sell by date has expired
Our commercial should be faster because we are all just slowguns
Waiting to have our triggers pulled
The commercials need to be faster because we are all just slowguns
Waiting to have our triggers pulled
The commercials should be faster because we are just slowguns
Waiting to have our triggers pulled
Don’t bother trying to save the brainforest
My pain is not ashamed to repeat itself
The aspiration to save the world is a morbid phenomenon of today’s youth
It’s time someone believes what I say, I’ve become a lie
Each time someone believes what I say, I become a lie
We have reached the end of history
The only thing left is cosmetic changes
We have reached the end of history
The only thing that’s left is cosmetic changes

Luther



Terminou recentemente a segunda temporada da série britânica "Luther". A primeira contava com seis episódios e a segunda com quarto. É um pouco triste que uma série com as qualidades desta tenha tão poucos episódios enquanto outras, menos interessantes mas mais vendáveis, se arrastam por intermináveis temporadas com inúmeros episódios que já não convencem ninguém. Claro que me estou a referir a "CSI".
"Luther" é uma série de investigação criminal, mas que nos obriga a esquecer tudo o que pensamos que sabemos sobre séries de investigação criminal. Dizer que isto se deve ao facto de esta ser uma série europeia pode parecer árido à primeira vista, mas a verdade é que explica muita coisa.
Segui avidamente a primeira época que nos conta a história de um polícia, John Luther (Idris Elba) que, por mais competente que seja, não nos surge nunca como um herói, nem perto disso. Luther tem um carácter agressivo e quase totalitário, é o homem que não olha a meios para atingir os fins. Só não é detestável porque os seus fins são, em princípio, nobres. A descoberta da sua personalidade e da sua vida conturbada é assunto dos episódios, bem como dos crimes, invulgares, agoniantes e violentos, que investiga na cidade de Londres.


No entanto, o que aqui há de mais fascinante é a relação insólita que John Luther desenvolve com a primeira criminosa que investiga mas que não consegue apanhar: Alice Morgan (Ruth Wilson) é uma sociopata charmosa, genial e absolutamente maligna a quem acontece o pequeno acidente de se fascinar pelo homem que tenta provar que ela havia assassinado os pais a sangue frio. É pouco claro se Alice se apaixona por Luther (Porque se coloca a questão se uma sociopata poderá verdadeiramente ter sentimentos.), mas o que é certo é que se comporta dessa forma, talvez por finalmente conhecer alguém de quem se sente igual, e não superior.
A relação entre os dois vai avançando ao longo dos episódios e instiga em nós talvez bem mais curiosidade do que propriamente os crimes investigados.
É por isso que esta segunda época corre mal. Tudo o resto que a série tinha de interessante, tanto a nível de argumento como de realização, mantém-se. Mas Alice Morgan desaparece no segundo episódio. Luther tem uma nova "protegida", Jenny Jones (Aimee Ffion-Edwards) que pode ser adorável, mas não é fascinante como Alice Morgan.
Destaque-se ainda uma banda sonora excelente, em que se ouvem canções de Emiliana Torrini, Marilyn Manson, Sia Furler e Muse, entre outros.
Ainda não está decidido se "Luther" terá terceira temporada. Mas a meu ver, nem vale a pena tentar, se Alice Morgan não estiver incluida.


(A série integral pode ser descarregada a partir daqui: http://www.baixartv.com/download/luther/)



Agustina tem destas coisas... (25)

Tinha conseguido três filhos dum marido meio assexuado e que detestava crianças. Ela disse:
_Fiz a minha obrigação. Agora quero viver sossegada e fazer montes de outras coisas.
_Não sabes fazer nada. Mesmo os teus filhos nasceram à custa de cesarianas. Que aldrabona, menina!
_Não me esforcei, mas o caso não era para isso. Dar à luz já não é uma brutalidade, tenhamos maneiras.





de "Prazer e Glória" (1988)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Parece que saiu há pouco tempo

o quarto livro de Rui Lage. "Um Arraial Português" é uma edição Ulisseia, e sucede-se a "Corvo" de 2008.