sexta-feira, 8 de julho de 2011

necrópole


ateada e vivente alguém me enterra
nestas vilas sem flor entre os cadáveres
que ninguém reconhece apodrecidos
na dissimulação.

de entre as parreiras, indistinto é o sangue.
rumores nos cercam: vivos? perfilados
de encontro às amarelas mãos da giesta
-da gesta- expiram; pulmão branco, o vento
carrega os vapores ásperos da cal.

também os animais não surgem.
fêmeas mastigam na poeira o lento
minguar dos corredores, velozes membros,
e, endurecido o leite, as crias velam,
que estrebuçam formais e transparentes.

é verão acaso?
esta secura, os fósseis sobre a lama,
o cio inexistente, os mutilados
buscando os seus pedaços nas encostas,
-é do tempo que faz, ou de uma história
de onde as estações fogem, repugnadas?

matilhas passam: alcateias lúcidas
pelo pescoço trazem indefesos
ao centro das ruínas- resto e fama
de uma caçada medieva e imensa.

nem dos céus descaiu esta catástrofe,
nem dos elementos térreos, mas dos príncipes
que roubaram da morte os negros ritos
da tradição.
aqui fogueiras roxas carbonizam,
lascivamente, os últimos vassalos.
«lugar de todos é a pátria.» eis pois
este lugar comum: a vala.
término.

esquecem-se, porém, senhores, dos filhos
que agora deambulam nas coutadas
alimentados pelo mel e as seivas
e abrigados nas tocas dos arbustos,
crescendo a sós, com arranhões e luta,
tempo por tempo -e as vossas vestes de oiro
em seus pequenos pensamentos pálidos
na memória da infância: permanente.

é de prazo a questão -vossa a vitória

(esquecem-se, porém, dos nossos filhos)

NÃO VOS ESPANTEM, POIS, RESSURREIÇÕES.



Hélia Correia

in "&etc", nº 10

1974

fotografia de Slava Mogutin

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lamb no CCB (11.6.11)

O aguardado regresso dos Lamb a Portugal contou com três concertos, no Algarve, em Lisboa no Porto. Aquele a que assisti, no CCB é, de facto, merecedor de algumas notas.
Para alguém como eu, um concerto destes só pode ser boa notícia. Não só porque "5" me pareceu um bom retorno da banda, pelo qual valeu a pena esperar seis anos, como porque detesto os santos populares e um concerto destes é uma excelentíssima alternativa.
Depois da primeira parte, entregue a Jay Leighton, os Lamb entraram no palco acompanhados apenas por Jon Thorne, contrabaixista. Lou Rhodes vinha, claro, lindíssima, ela sim, verdadeiramente angelical, e Andy Barlow bem-disposto, como esperaria qualquer um que já tenha assistido aos Lamb ao vivo.

A entrada em palco foi feita com Another Language, o tema que abre "5". A escolha não podia ser mais acertada. Um regresso depois de um hiato em que os Lamb anunciaram o seu fim, não pode senão marcar-se pela busca de algo novo; e essa ideia fica muito bem explicada por esta canção.
O álbum "5" seria o protagonista da noite, contrariando a tendência natural da revisitação dos clássicos, que até seria natual numa banda que tem bastantes, como é o caso dos Lamb.
Regressos ao passado aconteceram com Little Things e Lusty do álbum "Fear of Fours", com Gabriel e What Sound de "What Sound" e com Gorecki e Trans Fatty Acid de "Lamb". De fora, com muita pena minha, ficou "Between Darkness and Wonder".
Repare-se ainda que Trans Fatty Acid vem terminar o concerto: isto mostra-nos como, de facto, em "5" não deixa de haver um certo retorno àquilo que foram as origens dos Lamb, mais ligados a uma crueza e acidez que, entretanto, se foi suavizando e ganhando outras matizes.
E fica também claro que, ainda assim, "5" está muito longe de ser uma mera repetição daquilo que já fora feito. O público manteve-se de pé a maior parte do tempo, abanando-se muito ligeiramente, mas demonstrando, de qualquer forma, alguma receptividade ou até mesmo algum agrado por canções novas como Strong the Root, Wise Enough, Butterfly Effect, She Walks, Existencial Itch ou The Spectacle. O que continua a desagradar-me nos concertos dos Lamb, e este não foi excepção, é a obsessão que o público tem por ouvir Gabriel, dando a nítida impressão de não se interessar por ouvir mais nada. No entanto, para aqueles que se interessem realmente pela banda, este concerto terá sido bastante positivo.
A meu ver, esta actuação pecou apenas pela escolha de utilizar quase na íntegra todos os samplers que constituem as versões de estúdio das canções. Ao contrário do que aconteceu na digressão de "Between Darkness and Wonder", de que assisti a um concerto no ido ano de 2004, desta vez os Lamb não tocam com uma banda, apenas com um contrabaixista. E esta teria sido uma boa oportunidade de dar ao público um outro lado das canções, mais acústico ou mais simplificado, que talvez tivesse bastante interesse. E estranho mais ainda esta situação ao lembrar-me que Lou Rhodes fez precisamente o contrário com os seus primeiros dois trabalhos a solo: ao passo que em "Beloved One", em estúdio, estava quase sempre sozinha, em palco apresentou-se com banda, invertendo depois essas situações em "Bloom".
É uma opção, esta de usar o samplers, discutível portanto.
Fora isso e o facto do concerto ter durado apenas cerca de uma hora, nada a dizer. Valeu a pena esperar.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lamb no CCB (11.6.11) alguns vídeos



"Wise Enough" do álbum "5" (2011)



"What Sound" do álbum "What Sound" (2001)

domingo, 12 de junho de 2011

A Mal Acabada 6

E tudo nasce de tão mudo
gritando
entre dois instantes de tristeza
ou de estudo

Acordo estranha a mim
como fato esquecido num roupeiro
e saio da cama
sabendo o muito que fica
por despertar


Regina Guimarães

A Mal Acabada

2011, ed. Hélastre

sexta-feira, 10 de junho de 2011

É já amanhã



Lamb: Wise Enough (do álbum "5", 2011)

15:00 showcase na Fnac do CC Colombo
21:00 concerto no Grande Auditório do CCB (primeira parte: Jay Leighton)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Hoje



às 18:30 no Palácio do Marquês de Fronteira (Monsanto), acontece o lançamento de "As Luzes de Leonor", o novo romance de Maria Teresa Horta. Partindo da personagem de Leonor de Almeida Portugal, quarta Marquesa de Alorna, Maria Teresa Horta escreve um longo romance a que não escapam uma formação poética por inteiro, e também feminista.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mal por mal

De acordo com as sondagens publicadas no dia anterior às eleições, a vitória de Pedro Passos Coelho nas Legislativas de ontem não constitui surpresa alguma. As percentagens de votos é que talvez possam surpreender. Relembre-se que o PSD conseguiu 38,63% dos votos, o PS 28,05%, 11,74% para o CDS-PP, 7,94% para o PCP-PEV e 5,19% para o Bloco de Esquerda.

Apesar da nítida impreparação de Pedro Passos Coelho (Nada a ver com a experiência que, boa ou má, era vasta de Manuela Ferreira Leite.), o PSD sobre, em comparação a 2009, 9,52%. Eu penso que isto significa que o problema não era Portugal querer Passos Coelho mas sim, acima de tudo, não querer José Sócrates. Não só o PS desce 8,5% em comparação a 2009, como, desta vez, nem sequer consegue chegar a ter 30% dos votos, o que já não acontecia desde 1991, quando Jorge Sampaio concorreu contra Aníbal Cavaco Silva. O resultado, vergonhoso, não pode propriamente surpreender ninguém: os dois executivos de Sócrates foram demonstrações de pura falta de capacidade de governação, pois, afinal de contas, usou uma maioria absoluta, em 2005, contra os eleitores, denotando um perfil assustadoramente ditatorial e, ao perder essa maioria em 2009, mostrou-se ainda mais incapaz de governar, culminando as suas peripécias com a vinda do FMI para Portugal, de que, aliás, notavelmente Sócrates lavou as mãos, usando, como sempre foi seu costume, doses e overdoses de demagogia, manipulação e arrogância.

Sendo José Sócrates o tipo de homem que não convém ter-se por Primeiro Ministro, verdade se diga que Passos Coelho não é grande alternativa. Com um currículo político diminuto e um exacerbado talento para más escolhas a que, ainda por cima, falta subtileza; Passos benificiou, principalmente, de dois factores: o primeiro, já referido, foi a repulsa que os portugueses ganharam -e com razão -a José Sócrates; o segundo foi uma interessante campanha, arquitectada por alguns Górgias, em que o PSD conseguiu dissimular satisfatoriamente o facto de ter tido um papel importante, senão decisivo, nos eventos políticos que nos conduziram à situação em que nos encontramos. Os portugueses, pouco dados a hipermnésias, provavelmente esqueceram-se que os primeiros três PECs tiveram a participação e a aprovação do PSD e que, se o mesmo não sucedeu com o PEC 4, foi porque, por essa altura, já Sócrates avançava no seu jogo de recuperação de Poder que, afinal, resultou ao contrário.

De destacar, mas não de surpreender, é também a demissão de José Sócrates do cargo de secretário-geral do Partido Socialista. Nunca fui sequer simpatizante deste partido, mas acho que qualquer um de nós, com um pouco de objectividade, pode concluir que faz falta ao PS um outro líder que, se não mais, pelo menos seja de esquerda, num partido de centro-esquerda. Como seria de esperar, há já alguns sussurros não-oficiais sobre novos líderes, dos quais se destacam António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, Francisco Assis, deputado eleito pelo Porto e António José Seguro, eleito por Braga.

A terceira força política mantém-se à direita, com o CDS-PP, que sobe 1,31%. Contrariamente ao que possa parecer, este resultado é, na verdade, muitíssimo insatisfatório para o partido, por mais que os seus representantes digam o contrário. Isto porque, afinal de contas, até ao momento da vitória, muitos dos próprios militantes do PSD não acreditavam em Passos Coelho. Com a direita pouco convicta, seria de esperar uma subida considerável para o CDS e basta recordar que havia sondagens que apontavam para os 13% e Paulo Portas deixava subentendido que esperava mais. Pergunto-me eu se finalmente os portugueses terão percebido que Portas não passa de um sensacionalista que aproveita deixas vindas de todos os partidos, à direita e à esquerda, para fazer oposição; prostituindo, de certa forma, o programa que apresenta. Ninguém mais do que eu gostou de o ver desancar em José Sócrates, mas há que manter os pés bem assentes nesta terra e perceber que há um abismo entre os argumentos que Portas apresenta nos seus debates e as ideias que apresenta no seu programa. Tal como Miguel Sousa Tavares, eu não compreendo por que Portas ainda não se demitiu.

Já a CDU pode cantar de alegria. Apesar de uma subida quase imperceptível, de 0,08% em comparação a 2009, passam para quarto partido da Assembleia, acrescentando um deputado aos 15 que já contavam. Jerónimo de Sousa beneficia assim de se ter mantido firme ao programa e às ideologias do partido, nomeadamente no que toca a ter recusado o acordo com a troika.

O mesmo já não se pode dizer do Bloco de Esqueda, por mais que isso me incomode. A verdade é que foram os primeiros a recusar o acordo, mas isso não apagou o facto de se terem juntado ao PSD e ao CDS-PP na Moção de Censura ao Governo. Entenda-se que, por mais que o Governo o merecesse, todos sabiam de antemão que o resultado seria nulo e, de qualquer maneira, o Bloco juntou-se precisamente aos dois partidos de direita representados na Assembleia. Mais ainda, a junção ao PS para apoiar Manuel Alegre é capaz de não ter agradado a muitas pessoas de esquerda que já andavam de candeias às avessas com o partido de Sócrates. O resultado é a perda de metade dos deputados e a passagem para último partido na Assembleia.

O resultado não é mais do que um "mal por mal". O problema é que, seja como fôr, o futuro não aparenta ser em nada melhor do que o passado. O melhor é irmos todos embora e o último que sair apaga a luz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

25 canções para 25 situações difíceis

1. Para aqueles dias em que só nos apetece morrer: A Fine Day to Exit, Anathema

2. Para terminar um namoro com jeitinho: Thinkin About You, Norah Jones

3. Para terminar um namoro violentamente: Back to Black, Amy Winehouse

4. Para uma declaração de amor difícil: Strange and Beautiful, Aqualung

5. Para uma declaração de amor evidente: Whiskey Thoughts, Greta Gaines

6. Para nos mostrarmos altruístas com aqueles que amamos: Gates of the Country, Black Lab

7. Para dizermos subtilmente que queremos sexo: Body and Soul, Tori Amos

8. Para dizermos declaradamente que queremos sexo: Ooh La La, Goldfrapp

9. Para fazer promessas quando não se tem certezas: Till We Run Out of Road, Jewel

10. Para matar o/a namorado/a: Gun, Emiliana Torrini

11. Para pedir desculpas sinceras: White Flag, Dido

12. Para nos livrarmos de um desgosto amoroso: Ready to Let You Go, Michelle Branch

13. Para aconselhar um amigo com problemas: All Is Full Of Love, Björk

14. Para percebermos o que a vida realmente custa: Breathe Underwater, Placebo

15. Para anunciar uma deliciosa vingança: Empty, Anathema

16. Para manifestar o nosso desagrado com a classe política: Yo George, Tori Amos

17. Para sossegar um/a namorado/a inquieto/a: A Place Called Home, PJ Harvey

18. Para ficarmos felizes por estarmos apaixonados: Jungle Drum, Emiliana Torrini

19. Para falar do futuro: Leave no Trace, Anathema

20. Para delirar numa monumental bebedeira: My Stomach is the Most Violent of All of Italy, The Legendary Tigerman feat. Asia Argento

21. Para falar de desejos não-consumados: Paradise Circus, Massive Attack feat. Hope Sandoval

22. Para ter medo de tudo e acabar a tentar controlar tudo e mais alguma coisa: 8 Easy Steps, Alanis Morissette

23. Para convidar alguém para dançar: Sway, Vanessa Carlton

24. Para convidar um/a desconhecido/a para dançar: Please Don´t Stop the Music, Jamie Cullum

25. Para nos sentarmos e ficarmos à espera da morte: Forgotten Hopes, Anathema

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Purificação sacrificial

89.
Do condenado que me está mais próximo, não sei sequer o nome. Sei que matou num mês de Março e que, no dia em que matou, passou a existir. Foi então que lhe deram

um nome,

catre

e chicote, e lhe dirigiram a palavra para o interrogar

se só havia mar.

Nem tinha intuição suficiente para medir a ironia da pergunta, e


90.

o seu espírito entrou no jardim do meu pensamento, porque a porta imaginária estava aberta, e a comida irreal das imagens de Psalmodia cheirava bem.

Vieram, depois, um a um, quando me viram a fazer um momente de ramos mortos e de madeiras velhas. Desmanchava as naus para que houvesse lume e calor, e convidei-os a que renovassem intensamente pelo fogo os destinos quue traziam.


91.

Para arder, trazem poucas ideias.

E as intenções, e as atitudes, são as habituais:

mão pesada, boca suja, faca e caralho mortais.

Mas acabaram por me dizer, porque eu lhes disse ou lhes inspirei o que deviam dizer, que tinham lançado matreiramente e, por vezes, a grande distância, e corda da forca no Oceano,

que, nas suas vidas, não fora nem cova, nem senda.

Sabiam, todavia,


92.

que a linha de vida de um podia salvar a linha de vida de outro e que a frota, onde não eram mais nem humilhados, nem distinguidos, era o conjunto ermo das naus e sinal da paranóia real "puer natus est nobis, cujus imperium...".

_Onde está o vosso capitão? -perguntou-lhes Psalmodia, e viu-lhes nas cervizes o medo.



Maria Gabriela Llansol

Da Sebe ao Ser

1988, ed. Rolim

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lamb: 5

OUTRA LINGUAGEM, DE FACTO



Terá sido um desgosto para muita gente -eu incluído- quando, em 2004, Lou Rhodes e Andy Barlow anunciaram o fim dos Lamb. Deixaram-nos com "Best Kept Secrets 1996-2004", uma complição sem originais, que se seguia ao fenomenal "Between Darkness and Wonder" (2003). Parecia particularmente estranho quando esse último álbum de originais, o quarto, parecia ser um trabalho maduro, complexo mas muito bem conseguido.

Entretanto, os dois elementos seguiram por carreiras alternativas, sendo que Barlow se envolveu em vários projectos sem grande visibilidade, e Lou editou três excelentíssimos álbuns a solo, "Beloved One" (2006), "Bloom" (2007) e "One Good Thing" (2010).





Quando, ainda em 2010, se anunciou o regresso dos Lamb, pareceu, ainda que estranho, motivo para alegrias. Depois de alguma espera, acaba de chegar-nos este "5" que, como o nome indica, é o quinto álbum dos Lamb -e o primeiro em sete anos- e realmente, é razão para se ficar feliz, logo à partida porque se trata de um generoso álbum duplo.

Para já, é de notar que a separação, ainda que temporária, deixou bem profundas as suas marcas. Ainda que a electrónica continue a ser o prato-forte destas canções, é de notar aqui uma tendência mais melódica e serena que, vindo a acontecer um pouco desde "What Sound" (2001), não deixa de nos parecer mais presente nos álbuns a solo de Lou Rhodes. Exemplos disso são canções como Wise Enough ou Build a Fire. No entanto, é em Rounds que se sente mais a importância que teve o percurso a solo de Lou Rhodes, sendo uma canção que quase quase podia ser só dela. Na maioria das canções, as letras também nos parecem mais próximas das de Rhodes, que, verdade se diga, sempre se mostrou uma letrista bastante competente.

Ouve-se neste álbum também alguma acidez, bem medida, principalmente nas canções de abertura. Nestas, a matriz parece estar situada algures entre "Lamb" (1996) e "Fear of Fours" (1999), ainda que a procura de um certo equilíbrio com o lado acústico e com a exploração da maravilhosa voz de Rhodes deva muito às experiências de "Between Darkness and Wonder". Ainda assim, é notório o esforço por que "5" traga algo de novo, e a verdade é que traz; e isso ouve-se logo a partir de Another Language-título premonitório para uma canção de abertura- e prossegue por Butterfly Effect, que são duas das canções que melhor nos soam neste disco.

É preciso não esquecer que os Lamb estão também muito marcados pelo sucesso de Gabriel, o single de apresentação de "What Sound". O ano de 2001 vai longe mas ainda ninguém esqueceu essa canção. Isso tem o seu lado positivo e o negativo, claro. Parece-me claro que "5" é um disco que pede para ser ouvido; com atenção e na íntegra, o que pode assinalar uma tentativa de que a vida continue depois de um grande sucesso.

Muitas destas canções exigem-nos precisamente que as ouçamos com atenção, pois são tudo menos fáceis de ficar no ouvido. Um bom exemplo disso é Strong The Root que vem ressuscitar algumas características do primeiro álbum, fazendo, nalguns dos seus momentos, lembrar um pouco Trans Fatty Acid, sendo que, aqui, a ideia de canção crua e simplificada a nível instrumental é levada ao extremo. Essa simplificação, que até ajuda a aumentar a acidez da música dos Lamb, acontece um pouco na parte final do álbum, por exemplo em She Walks ou em Last Night The Sky, onde se sente ainda uma referência à música oriental, muito bem inserida, não soando, de todo, a uma coisa facilitista, como tem acontecido com tanta gente que tenta ir buscar esta influência.





O segundo disco acumula aquilo que parecem ser algumas faixas extra -excepto que estas são mais nove. Aqui encontramos Dischord, uma canção acústica onde, mesmo assim, sentimos uma certa distância em relação ao percurso a solo de Rhodes; bem como Back to Beggining, uma excelente canção com uma excelente participação de Damien Rice. De resto, encontramos versões instrumentais de quatro das canções do primeiro disco; a demo de Rounds e uma segunda versão de The Spectacle. São faixas que vale a pena ouvir, nem que seja para ter uma outra percepção das canções.

De facto, sete anos de espera por um novo álbum dos Lamb não se podiam mostrar mais produtivos. "5" é um grande álbum e um regresso muito à altura para a banda de Till The Clouds Clear. Agora é só esperar alguns dias pelos concertos em Portugal, a saber: 10 de Junho em Lagoa (Algarve), 11 de Junho no CCB de Lisboa e 12 de Junho no Coliseu do Porto.




quinta-feira, 26 de maio de 2011

The Machinist de Brad Anderson

A VELHA AMIGA INSÓNIA






Já por várias vezes aqui falei do trabalho cinematográfico de Brad Anderson. É, a meu ver, o seu filme "Session 9" (2002), o melhor filme do género de terror da primeira década de 2000. De sua autoria são ainda duas interessantes propostas distribuidas por duas séries dedicadas ao mesmo género, Masters Of Horror e Fear Itself, respectivamente "Sounds Like" (2005) e "Spooked" (2006); além de ser um dos realizadores duma das melhores e mais originais séries que têm passado na TV nas duas últimas décadas, Fringe.






É também de Brad Anderson este "The Machinist", de 2004. O tema geral, pessoalmente, não me poderia ser mais grato: a insónia. Já em 2002, um outro realizador bastante interessante, Christopher Nolan, focara o assunto em "Insomnia". Ainda que a película de Nolan não seja desinteressane, acaba por se revelar pouco criativa na abordagem do assunto que lhe dá título.


Bem pelo contrário, este filme de Brad Anderson é perfeitamente capaz de explorar os limites ou ilimites da insónia em favor da criação de um objecto inteligentemente confuso e que tem ainda a altivez de não nos oferecer, nalguns aspectos, respostas claras.


E não é apenas o argumento, escrito por Scott Kosar, que, efectivamente está escrito de maneira a dar-nos uma ideia que lentamente percebemos não ser tão linear quanto isso; mas também os aspectos que dizem respeito especificamente ao filme estão pensados para nos fazer deambular por ele, algo condenados a não atingir aquilo a que se pudesse chamar a verdade.


Encontramo-nos perante a vida estranha de Trevor Reznik (Christian Bale), um operário maquinista que não dorme há um ano. A estranheza quer dos seus hábitos e das suas relações vai-se tornando razoável aos nosso olhos quando o vemos dar continuamente sinais de inércia, astenia, lentidão e de uma debilidade quase incomodativa; mesmo a nível físico. É aqui de assinalar o empenho de Christian Bale neste papel, sendo que, para o interpretar, perdeu 28 kilos, conseguindo, efectivamente, ter o corpo de um esfomeado, de uma magreza grotesca.


Além do trabalho como maquinista, a vida de Trevor passa pela companhia de Stevie (Jennifer Jason-Leigh), uma prostituta; e de Marie (Aiatana Sánchez-Gijón), uma empregada de café com quem Trevor acaba por criar uma relação de amizade.


Depois de um acidente de trabalho provocado por Trevor, que custa a um dos seus colegas um braço; e do cruzamento com Ivan (John Sharian), um colega de trabalho que ninguém mais havia visto, Trevor começa a acreditar que está a ser vítima de uma conspiração que, percebemos, poderá vir a revelar algum segredo que ele esconda. Esta ideia é reforçada pela estranha apiração de post-hit com o jogo do enforcado, que Trevor vai preenchendo com várias possíveis palavras. E é através destes elementos que nos vamos aproximando do segredo de Trevor.


A sinopse consegue facilmente enredar-nos no estado de espírito deprimente e destrutivo de Trevor e, quer sem excessos quer sem predicabilidades, consegue, gradualmente, aproximar-nos da origem de todo o mal-estar que rodeia Trevor e que este parece espalhar à sua volta.


Nota-se que "The Machinist" está pensado ao pormenor, mesmo a nível visual (Ou principalmente a nível visual.): a fotografia parece-nos quase a preto e branco, sempre esbatida, os planos são longos quando nada de especial se passa e fugazes nos momentos decisivos, como se entrássemos na cabeça de Reznik, onde a verdade parece, de alguma forma, inacessível. E é ao filmar essa incapacidade de chegar ao real que Brad Anderson se mostra, uma vez mais, muito competente, tal como já havia acontece na maioria dos seus filmes. Isto é indicador claro de que Anderson tem mesmo um universo particular, e, como "The Machinist" confirma, muito rico.


Como acima dizia, ao contrário do que acontecia com o filme de Christopher Nolan, neste a insónia consegue mesmo ser assunto central e dominar todo o filme. Não seria fácil tornar tão clara a "visão" de uma pessoa incapaz de dormir, mas Anderson consegue-o. Será talvez por isso que "The Machinist" se torna tão angustiante e quase doloroso: há nele algo de realismo psicológico, pois é pelos olhos afectados de Reznik que atravessamos o filme; com bastante eficácia.






De louvar é também a direcção de actores, sendo que, mesmo assim, se destaca Christian Bale, que está sempre muitíssimo à vontade em papéis melancólicos (Como vemos, por exemplo, em "Velvet Goldmine" de Todd Haynes.) e volto a assinalar o lado físico do seu personagem, que, de tão esquálido, quase parece um cadáver.


Feitas as contas, este é mais um muito bom filme de Brad Anderson. Esperemos que sejam todos assim, futuramente.




terça-feira, 17 de maio de 2011



Outrora à Musa Perguntei

Outrora à musa perguntei, e ela
Respondeu-me:
No fim encontrá-lo-ás.
Nenhum mortal pode abarcá-lo.
Quero guardar o silêncio sobre o Altíssimo.
Porém a Pátria é sobretudo
Fruto proibido, tal como o loureiro. Mas que por fim
Cada um venha a dele provar.

Muito engana o princípio
E o fim.
Porém o último é
O sinal do Céu, que arranca
...... e.............. homens
Para longe. Disso teve medo
Hércules. Mas por termos nascido
Indolentes, é necessário o falcão, cujo voo
Era seguido por um cavaleiro
Ao caçar.

No............ quando
E o príncipe

......................e o fogo e vapor de fumo floresce
Sobre seco relvado,
E no meio, sem mistura, o bálsamo
Da batalha, a voz que brota do príncipe.

Vasos são a obra de um artista.
E compra

...............................mas quando
Chega a altura do julgamento
E tocou castamente o lábio
De um semideus

E oferece o que mais ama
Aos estéreis
Pois a partir de agora deixa
O sagrado de ter utilizade.




Friedrich Holderlin

Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

"Hinos Tardios"

2000, ed. Assírio e Alvim

pintura de Edward Burne Jones

Christina Rossetti: O Mercado dos Duendes e outros poemas (Versão de Margarida Vale de Gato)

É já de 2001 esta edição, organizada e prefaciada por Ana Rosa Nobre, de alguns poemas de Christina Rossetti, em versões de Margarida Vale de Gato.

Daquela que me parece ser a mais importante poeta Pré-Rafaelita existe, além deste livro, apenas uma outra selecção de poemas, na antologia "Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética", organizado por Helena Barbas e editado em 2005 pela Assírio e Alvim. É pena que assim seja, pois, como de resto acontece frequentemente com a publicação de poesia estrangeira no nosso país, isso gera uma lacuna considerável num dos períodos mais ricos da cultura britânica, neste caso.

Foi em 1862 que, depois de alguma publicação dispersa, Christina Rossetti lançou o seu primeiro livro: "Goblin Market and Other Poems", ilustrado com gravuras do irmão da poeta, o pintor e também poeta Dante Gabriel Rossetti, foi um sucesso, aliás, o primeiro grande sucesso da poesia Pré-Rafaelita, de tal maneira que Christina, como nos é explicado no prefácio, sempre temeu não ser capaz de igualar a qualidade do poema inicial, "Goblin Market".





O volume português, "O Mercado dos Duendes e outros poemas", leva o mesmo título do primeiro livro de Christina, mas não é uma tradução integral dele, preferindo fazer uma selecção de poemas colhidos da obra completa de Christina. A opção parece-me interessante dado que, na altura, era a primeira vez que esta autora era publicada em Portugal.

Abre então com o poema mais conhecido de Christina, "O Mercado dos Duendes". Ainda que, pessoalmente, me pareça que a intensidade da escrita de Christina Rossetti atinge o seu pico noutros poemas, mais íntimos, percebe-se o porquê do destaque dado a este poema. De facto, em muito, ele representa um culminar de várias características do Pré-Rafaelitas. Trata-se de um muito longo poema narrativo que nos conta a história de duas irmãs, Lizzie e Laura, que observam a passagem de um bando de duendes em direcção a um lugar onde venderão frutas que haviam colhido dos seus pomares. O poema inicia com os pregões dos duendes, em versos curtos, criando um ritmo viciante e muito musical. Laura sente-se tentada a ir ter com eles e comprar-lhes fruta ainda que Lizzie, mais cautelosa, a alerte para o perigo de comer a fruta vinda de criaturas "malditas"



"Não", disse Lizzie, "Não;

Suas ofertas não nos devem tentar,

Suas prendas do demo mal nos farão."

(p.33/35)



Como seria de esperar, certa noite, Laura foge de encontro aos gnomos e come dos seus frutos. Depois disso, lentamente começa a definhar. Lizzie, levada pela urgência de salvar a irmã, irá também de encontro aos duendes, para lhes comprar fruta, acabando por ser atacada por eles. Ainda assim, com o corpo sujo do sumo das frutas, consegue salvar a vida de Laura. Esta passagem é, de facto, assinalável, em vários aspectos: revela-nos, a um tempo, a dimensão poderosa do amor fraternal, mas também uma grande carga erótica (Ou homo-erótica, como se preferir.), assinalável se tivermos em conta que este poema foi escrito em 1859:



Gritou "Laura", assomando ao jardim,

"Sentiste falta de mim?

Anda, beija-me.

Não te apoquentes com minhas feridas,

Abraça-me, sorve das minhas seivas

Para ti espremidas dos frutos dos duendes,

Polpa de duende, orvalho de duende.

Come-me, bebe-me, ama-me.

Laura, faz de mim o que te aprouver,

Por teu amor ao vale eu desci

E c'os anões me tive de haver."

(p.61)



A modernidade deste poema está, não só na ousadia com que muitas vezes se manifesta, mas também nalguns detalhes técnicos, particularmente na métrica: apesar de seguir sempre esquemas rimáticos, estes vão-se alterando; e a métrica também se muda, como que para servir a energia do próprio poema: se inicialmente os pregões dos duendes eram escritos em versos curtos, à medida que o poema avança e se centra na relação entre as duas irmãs e o que se passa nas suas vidas, os versos vão-se tornando mais longos e mais densos. Ou seja, dentro da regularidade, Christina consegue tornar o esquema deste poema irregular.

A língua inglesa será uma das mais difíceis de traduzir para português. Logo porque as duas línguas pouco se equivalem e raramente sequer se aproximam, mas também pelas diferenças na contagem de sílabas e, no caso da poesia, da organização das estruturas, como Margarida Vale de Gato nos explica na sua nota final. Parece-me, no entanto, que "O Mercado dos Duendes" terá sido o poema mais difícil de traduzir precisamente por esta característica de tornar a regularidade irregular. Mesmo assim, sacrificando muitas vezes a exactidão das palavras de Christina, Margarida Vale de Gato consegue satisfatóriamente dar uma ideia do poema, tanto da sua mensagem como também da sua estrutura, ainda que, muitas vezes, a tradutora seja obrigada a torcer um pouco a estrutura original. O que é certo é que numa tradução há sempre alguma coisa que tem que ser sacrificada. Se compararmos a versão de Margarida Vale de Gato com a de Helena Barbas, veremos isso. Neste livro, a tradutora preferiu dar-nos uma noção aproximada da forma e da estrutura, e penso que a sua versão será suficiente para que essas duas questões sejam bem entendidas.

A nível temático, como dizia, este poema em muito vai de encontro aos interesses pré-rafaelitas. Para começar, a própria ideia do mercado dos duendes é muito medievalista e fantasiosa, e essas eram duas das linhas-mestras da ideologia deste grupo; e também a ideia dos frutos e da maneira como eles são descritos, cheia de colorido e de lirismo, vão muito de encontro a esta estética tão particular. E os conceitos mais gerais deste poema, que serão a tentação (Gerada pela beleza.) e a salvação (Resultante do amor.) são conceitos nada estranhos ao trabalho, quer plástico quer poético, da Pre-Raphaelite Brotherhood.

Meticulosa e inquieta, Christina, enquanto ia publicando outros livros, reeditou este seu primeiro cinco vezes, sendo que William Michael Rossetti o editou uma vez mais ainda, depois da morte da poeta, sua irmã.

Ainda sobre os poemas escolhidos do primeiro volume da autora, há que dizer que o rasgo de profunda imaginação que pauta em todos os aspectos o primeiro poema nunca é verdadeiramente perdido, ainda que os restantes poemas se afastem da matriz deste primeiro.

Ana Rosa Nobre seleccionou mais 17 poemas de "Goblin Market and Other Poems". Neles, encontramos temas mais intimistas e mais ligados à realidade emocional da autora, sendo que alguns deles se escrevem de uma forma mais reflexiva e outros mantém ainda o lado mais narrativo, como acontece com "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento".

Seguindo estruturas mais definidas e mais clássicas, nomeadamente a do soneto, Christina fala-nos, acima de tudo, da solidão e da perda.

Estas duas noções são traçadas de várias matrizes. A primeira será a perda de uma paixão, de uma relação amorosa: nestes poemas, como "Remember/ Recorda" ou "After Death/Depois da Morte" ou "Echo/ Eco", intervém muitas vezes a morte, outro tema muito caro aos Pré-Rafaelitas. A morte é um assunto presente em quase todos os poemas deste livro. A tonalidade de agonia é essencial para entender a escrita de Christina Rossetti, pois ela parece colocar-nos continuamente perante um apodrecimento lento da vida, e, quando nos coloca em situações de morte, mantém sempre a capacidade de pensar e sentir. Nestes poemas, por assim dizer, Christina traça através de um corpo morto, o seu, uma espécie de espelho, pois é a partir dele que as situações se invertem: que o amor perdido regressa, e que a sua frieza se transforma em choro, como vemos, por exemplo, em "Depois da Morte":


Não tocou na mortalha nem no véu,

Nem p'ra me dar a mão a sua mão se ergueu;

Nem o coxim em que me estendia


Desmanchou; não me amou quando eu vivia;

Mas é bom saber que morta me deu

O seu calor, embora eu esteja fria.

(p.73)


É de notar como, nestes poemas, o olhar de Christina volta a mostrar-se-nos treinado para a atenção ao detalhe: estes poemas vivem muito de imagens, imagens criteriosamente escolhidas, pois são muitas vezes elas que ditam a energia do poema: paradas por vezes, quase mortas; outras vezes imagens de movimento, que nos dão conta de um estado de inquietude. Destas últimas, dou um exemplo, retirado de um dos poemas que leva como título "Song/ Canção":



Duas pombas pousadas num só galho,

Dois lírios gémeos a despontar,

Duas borboletas sobre uma flor:

Felizes os que os podem contemplar.

(p.77)








Christina Rossetti, que Virginia Woolf considerava "um génio" tem sido negligenciada, muito por ser mulher. A consciência desta questão não escapava à poeta. Apesar de ser considerada membro dos Pré-Rafaelitas, ela nunca o foi a tempo inteiro, pois as mulheres, à data, não tinham nem que remotamente, parte dos direitos e da liberdade que tinham os homens, pelo que o seu percurso foi sendo um bastante solitário, o de uma pessoa que se sentia "Morta Antes da Morte (Dead Before Death)"


Mudada e fria, fria e ressequida!

Lábios hirtos, olhar indiferente,

Contudo a mesma, pouco esclarecida;

Foi esta a promessa de antigamente.

(p.91)


Aqui encontramos um certo ressentimento à condição feminina, em que um estado de "pouco esclarecida", afecta o próprio corpo, o aspecto da autora, que, realmente, vemos de uma profunda tristeza nos vários retratos que dela fez Dante Gabriel Rossetti. A questão da mulher vai ser ainda essencial em dois momentos aqui antologiados. O primeiro é "Monna Innominata: Um Soneto de Sonetos", um conjunto retirado do livro "A Pageant and Other Poems", de 1881. No prefácio que escreve a este conjunto de 14 sonetos (Tantos como os versos de um soneto.), Christina fala-nos de Beatriz e Laura, imortalizadas por Dante Alighieri e Petrarca, "heroínas mundialmente famosas [que] foram precedidas por uma hoste de damas não nomeadas, "donne innominate" (...) Se uma dessas damas tivesse falado por si, talvez o retrato que nos deixasse fosse mais terno(...)" (p.145). É pois sobre o silenciamento que existe sobre as mulheres nas sociedades patricarcais e machistas que Christina se debruça nestes catorze sonetos, dos quais aqui temos quatro. A solidão e a imcompreensão são o fio de ariane que une estes textos. Não só as mulheres têm que viver na solidão de não poderem ter voz nem nome, como também têm que viver a condenação de nunca, verdadeiramente, serem entendidas em qualquer matéria. É isso que vemos no soneto 11:



Dirão de ti as gentes do porvir:

_Amou-a! _enquanto de mim, ufanas,

Hão-de dizer que te amei a fingir

Como fazem as mulheres levianas

(p.151)


e quando, no soneto 14, Christina diz


Perdida a beleza e a juventude_

Se é que algum dia o meu rosto foi belo_

Tudo perdido, foi-se a beatitude.

(p.153)



ela está, talvez discretamente, a lançar a mais dura crítica à sociedade patrircal, pois a mulher, quando perde a beleza e a juventude tem "Tudo perdido", ou seja, torna-se inútil e inexistente, pois o que na verdade lhe resta, os sentimentos e a inteligência, não são ouvidos por ninguém, anulando-a assim.

Esta distância entre o que a pessoa, neste caso a mulher, é, e o que dela é visto ou admitido é um assunto retomado em "In an Artist's Studio/ No Estúdio de um Artista", poema escrito em 1856 e só publicado postumamente


De dia e de noite o seu rosto venera,

E ela lhe devolve o olhar risonho

Brilhante como a lua e a claridade,


Sem que nunca a ensombre a saudade:

Não como é, mas como p'ra ele era;

Não como é, mas como surge em sonho

(p.191)


é possível que este poema se refira a Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, mas isso é irrelevante para o caso. O essencial deste poema é que o homem que venera o rosto da mulher não é capaz de o representar de acordo com aquilo que essa mulher é, mas apenas de acordo com aquilo que ele sonha (Pensa.) que ela seja. Mais uma vez, a verdadeira personalidade da mulher é anulada por uma falocracia de efeitos realmente assassinos para as mulheres.

Outro tema que é importante referir sobre esta antologia de Christina Rossetti é a do amor místico. Porque aqui, uma vez mais, se entende a modernidade desta poesia, que, recusando uma postura de pura adoração e admiração cristã, se situa muito mais na linha de uma Santa Teresa de Ávila, de uma Hadewijch de Antuérpia ou de um São João da Cruz. Longe de se transformar numa consolação para a vida, o amor espiritual escrito por Christina Rossetti ganha um lado físico, erótico e nem sempre de celebração, servindo muitas vezes como salvação. Assim vemos em "A Better Ressurrection/ Uma Melhor Ressurreição":



Minha vida é uma taça quebrada,

Taça que verte e não pode suster

De minh'alma uma só gota orvalhada

Ou doce néctar, neste frio de tolher;

Deitai ao fogo a coisa sem valor,

Fundi-a e refundi-a até enfim

Ser cálice para o meu Salvador:

Jesus, bebe de mim!

(p.109)


Ainda que a questão do amor místico seja de capital importância nalguma da poesia de Christina Rossetti, para este livro foram seleccionados poucos poemas desta temática.

Voltando às versões de Margarida Vale de Gato, penso que lhes cabe o mérito de nunca adulterarem a mensagem destes poemas, mas a opção de valorizar a forma, que não é errada, custa muitas vezes a perda de algumas subtilezas da poesia de Christina Rossetti, pelo que o ideal seria, como em todas as traduções, de resto, ser-se capaz de ler o original.

A poesia de Christina Rossetti mostra-se, acima de tudo, muito inventiva, particularmente no que toca à criação constante de imagens, trabalhadas a partir do real para uma dimensão mais lírica; que consegue sempre conciliar com estruturas regulares de rimas e de métricas, salvo nalgumas excepções. É de assinalar ainda a capacidade de Christina para o poema narrativo longo, onde, com excepção de "O Mercado dos Duendes", a poeta trabalha sobre situações do real quotidiano, como vemos acontecer um pouco em "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento" ou, mais ainda, em "Songs in a Cornfield/ Desfolhada", onde quase se aproxima de uma poesia realista; um pouco por todo o livro "The Prince's Progress and Other Poems" de 1866, livro que parece, realmente, ser todo ele uma espécie de narrativa. É também uma poesia realmente dolorosa e atroz por vezes, que, acima de tudo, nos mostra um ser humano de rara capacidade de observação, que depois se transforma num lirismo cuidado e equilibrado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti

pormenor de "Ecce Ancilla Domini! A anunciação"

Algumas notas sobre Christina Rossetti

Quando Christina começava a amá-lo e a delicada intimidade criativa diminuía a ansiedade sexual, Collinson retirou-se bruscamente. O seu catolicismo renascia, como que levantando do abismo em que o lançava a estética do grupo. De algum modo, ele roçara as paredes do inferno e recuava à pressa, apavorado, calcando aos pés a roupa enegrecida. Enviou a Christina um soneto em que dava como inconciliáveis o impulso amoroso e a devoção. Ela rasgou-o de imediato, prevendo o golpe que, de facto, não tardou. Muitos anos mais tarde, refê-lo, verso a verso. Ficara-lhe gravado na memória.

William conta como a saúda de irmã, já tão deteriorada, se agravou. Talvez o sentimento dominante fosse a humilhação, mais dolorosa do que um puro desgosto de abandono. Dir-se-á que os poemas recolheram parte da agonia. Eles aspiravam, como ventosas, os seus poros infectados. E, quando ela escrevia sobre a perda, sobre aquilo que morrera e aquilo que jazia no seu também já morto coração, a beleza da febre triunfava.


Hélia Correia

in "Adoecer"
2010, ed. Relógio d´Água

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



pormenor de "A Infância da Virgem Maria"

Canção

Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha campa
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
E se quiseres esquece.

Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
Cantando como viúva.
E, sonhando p'lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.


Christina Rossetti

Versão de Margarida Vale de Gato

in "O Mercado dos Duendes e outros poemas"

2001, ed. Relógio d' Água