segunda-feira, 21 de março de 2011

21 de Março, dia da poesia

Alguns da minha estante, a quem hoje, especialmente, saúdo.











organizados por ordem de publicação do primeiro livro (salvo erro): Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Irene Lisboa, Sophia de Mello Breyner Anderson, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Salette Tavares, Ana Hatherly, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, Gastão Cruz, Yvette K. Centeno, Armando Silva Carvalho, Joaquim Manuel Magalhães, Jaime Rocha, Manuel António Pina, Al Berto, Eduarda Chiote, Helga Moreira, Isabel de Sá, Regina Guimarães, Luís Miguel Nava, Fátima Maldonado, Rosa Alice Branco, Rui Pires Cabral, António Carlos Cortez, Manuel de Freitas, Rui Lage, Miguel-Manso.

E os outros

que, não sendo poetas, o são muitíssimo para mim.








por ordem de publicação do primeiro álbum:
Sarah McLachlan,
Trent Reznor (Nine Inch Nails)
Tori Amos,
Eddie Vedder (Pearl Jam),
Daniel Cavanagh, John Douglas e Duncan Patterson (Anathema),
Miguel Guedes (Blind Zero),
Matt Bellamy (Muse).
(os nomes destacados são, evidentemente, os autores das letras)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Agustina tem destas coisas... (21)

Elas hão-de recompensá-los, não com jogos eróticos, mas tortilhas de camarão e sopas de alho francês. Que há mais luxúria num prato de lentilhas, do que nas confissões duma freira.
.
.
.
.
.
.
.
de "O Concerto dos Flamengos"

The Gift: Explode

QUARTO CRESCENTE

Finalmente, chega-nos às mãos o quarto álbum de originais dos The Gift. O último, "AM-FM" era de 2004, e neste hiato de sete anos, os The Gift lançaram ainda "Fácil de Entender", um CD-DVD ao vivo, que fazia uma espécie de apanhado de algumas das melhores canções desde "Vinyl", de 1998. Estava visto que esta colectânea expressava uma certa vontade de iniciar um novo ciclo, que se sentia já nos dois inéditos que tínhamos no álbum ao vivo, "654" e "Nice and Sweet".
O projecto Amália Hoje reuniu Nuno Gonçalves e Sónia Tavares a Paulo Praça e Fernando Ribeiro. É discutível a qualidade desse álbum, porque além do álbum em si, houve todo um aproveitamento dele que em muito condiciona a percepção que se poderá ter dele.


Ainda assim, é em tempo-record que nos chega este "Explode". E, logo a começar pela capa, vemos que definitivamente, alguma coisa mudou.
Ainda que pessoalmente eu ache a capa muito desagradável, sendo objectivo, penso que ela dá testemunho da nova fase que agora se inicia para os Gift. A sessão fotográfica, feita na Índia, dá-nos conta de um universo colorido ao ponto do fantasioso e, de certa forma, hedonista.
Quando começamos a ouvir "Let It Be By Me", percebemos a ligação entre a capa e a atmosfera que se ouve. Estes não são os Gift que tocavam "Me, Myself and I" nem "11:33", e também não são os Gift que ouvíamos em "Wake Up" ou "Real (Get Me For)".
Independentemente disso, a qualidade e a entrega que se sente nestas canções é a mesma de sempre: total.
A primeira coisa que se sente é que a música dos Gift nos surge simplificada. O álbum parece ser mais baseado no trabalho dos quatro músicos da banda e do baterista, Mário Barreiros. Desaparecem os arranjos de cordas tocados por uma orquestra, a que já nos habituáramos desde "Vinyl" mas que, de certa forma, era uma tendência já um pouco contrariada pelo lado FM de "AM-FM".
Mesmo assim, a aposta na electrónica mantém-se firme, sendo esta a estrutura de todas as canções. Paralelamente, ouvimos aqui mais guitarras e mais piano acústico do que ouvíamos habitualmente. Esse lado é particularmente claro em "RGB" ou "Mermaid Song".
Outra tendência que parece clara em "Explode" é a inclinação para o rock, se, de certa forma, mesmo sendo as canções mais alegres dos Gift, mesmo assim têm algo de realmente explosivo, de pesado, que tem mais a ver com o rock. Este lado é também claro nas canções menos frenéticas, como é o caso de "The Singles" ou de "Race is Long".
"The Singles" parece-me ser uma das canções centrais deste álbum. Será talvez a que mais perturbação nos causa. A construção é irrepreensível, com mudanças de ritmo constantes e fundindo sonoridades diferentes, além de ser o exemplo de uma excelente letra, da autoria de Sónia Tavares.
A meio do álbum, e depois dos quase treze minutos de "The Singles", encontramos o lado mais calmo de "Explode". Primeiro, com "Primavera", uma balada cantada em português, tornando-se assim a terceira canção dos Gift em português (Sendo as primeiras "Ouvir" e "Fácil de Entender".), que é particularmente eficaz no sentido em que consegue fundir uma melodia algo triste com um ritmo aparentemente dissidente, mas que, como bem vemos, acaba por não sê-lo. Depois, "Aquatica" continua esta linha, fazendo até lembrar outros tempos dos The Gift, mais barrocos e, neste caso, com um certo sabor a chanson, o que não deixa de ser surpreendente.
"My Sun", que se segue, retoma o lado de mais frenesi. Além disso, faz-nos também perceber algo: este álbum dos The Gift não vem do nada, já anteriormente houve indícios de que eles seriam capazes de um álbum assim. "My Sun" vem precisamente recordar alguns desses momentos, como fossem "An Answer" ou "Red Light", ambos de "AM-FM" ou "Clown" e "Question of Love", que encontramos em "Film". Nesta canção, é ainda de notar um certo e tímido retorno aos arranjos de cordas, ainda que aqui sejam sintéticas. Acontece um pouco por todo o álbum, o que é óptimo porque, para o bem e o mal, os Gift estarão sempre um pouco associados a um tipo de música mais complexo, mais barroco, se quisermos e o facto de aparecer aqui, significa que nada disso é impossível num álbum que se quer mais festivo.
"Suit Full of Colours" é outra das canções serenas de "Explode" e, eventualmente, a mais simples de todas. A canção em tudo se aproxima daquilo que são os The Gift em palco, e "Fácil de Entender" é disto particularmente um bom exemplo. E uma vez mais aqui vemos que os Gift não precisam de abdicar do lado grandioso da sua música, esse sim, verdadeiramente explosivo desde sempre.
A fechar, encontramos "Always Better If You Wait For The Sunrise", que, além de uma das melhores canções deste álbum, parece ser uma das melhores dos The Gift. Representa realmente um trabalho de uma banda de cinco músicos por si só, e capazes de criar uma canção assim tão hipnotizante e verdadeiramente perfeita. E, uma vez mais, palmas para a letra de Sónia Tavares.
À primeira vista, em "Explode" parece mais fácil apontar influências aos Gift do que nos anteriores. Parece-nos ouvir aqui qualquer coisa de Arcade Fire, de Clap Your Hands Say Yeah ou até de alguma coisa dos Kings of Convenience (É de assinalar que o produtor deste álbum, Ken Nelson, trabalhou com estes últimos.). No entanto, ouvindo o álbum segunda vez, percebemos que essas influências, podendo ocorrer-nos quase intuitivamente, na verdade não são tão garridas como poderia parecer. É facto que este é, até à data, o álbum mais trendy dos The Gift. Mas, se bem ouvido, percebemos que não é tão fácil como possa parecer. Por um lado, ele tem algo daquilo que se passa na música alternativa em geral, mas, por outro lado, não deixa de soar também como uma espécie de reacção, ou seja, como uma prova de que determinados conceitos podem ser utilizados sem significarem propriamente uma cedência ou uma perda de identidade. De facto, não há nem cedências nem perdas de identidade aqui.


Uma das coisas mais importantes para um músico é, a meu ver, a capacidade de não se repetir. É facto que "Explode" não vem repetir nada daquilo que os Gift têm feito, ainda que em algumas canções encontramos já alguns indicadores do que viria a ser este álbum. Por um lado, é sempre boa esta capacidade de reinvenção. Os novos Gift são, de facto, mais coloridos e mais "explosivos", mas há algumas reservas que, àparte tudo isso, tenho que colocar. A maior será, penso, esta: os The Gift têm como vocalista uma das melhores cantoras portuguesas. A voz de Sónia Tavares, goste-se ou não, é sempre um prato-forte da banda, quer pela força portentosa, quer pela invulgaridade. Pergunto-me se em algumas (Mas mesmo só em algumas.) canções de "Explode" a voz de Sónia não estará demasiado discreta. Talvez não seja bem assim, mas é facto que, de alguma forma, por vezes se sente falta daqueles delírios que ouvíamos em "Nowadays" ou "Cube".
Aparte isso, penso que "Explode" vem mesmo trazer algo de novo para os Gift, e algumas das suas melhores canções estão precisamente neste álbum. Fico curioso em relação à transposição para o palco. No Teatro Tivoli temos concertos hoje e amanhã e depois nos dias 25 e 26 de Março. A base é boa e eu confio que os Gift não vão desiludir em palco. Como sempre.




quinta-feira, 17 de março de 2011

Ferida Consentida



Textos de "Um Beijo Dado Mais Tarde" (1990) de Maria Gabriela Llansol, ditos por Regina Guimarães e cantados por Ana Deus. Guitarra de Alexandre Soares.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Natália, 18 anos depois


Hoje, 16 de Março de 2011, completam-se 18 anos desde a morte de Natália Correia, aos 69 anos. Sendo que o volume da poesia completa de Natália marca a minha primeira incursão pela poesia, não podia deixar de assinalar este dia.
Aqui ficam as capas do primeiro romance de Natália, de 1946, "Anoiteceu no Bairro", e o primeiro livro de poemas, uma edição de autor datada de 1947, "Rio de Nuvens".
Mais não será preciso de dizer, a obra de Natália fala por si mesma.


terça-feira, 15 de março de 2011

Agustina tem destas coisas... (20)

Depois, não tendo a quem ferir e desprezar, caiu em si, o que é o mesmo que cair de uma escada.
.
.
.
.
.
.
de "O Concerto dos Flamengos" (1994)

domingo, 13 de março de 2011

Excerto da Sensualética Llansoliana


O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
Ela entra e diz-me
_Sim -diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: _Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
_Alguém que queira ressuscitar para ti?
_Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.

Maria Gabriela Llansol
O Jogo da Liberdade da Alma
2003, ed. Relógio d' Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

Masters of Horror: The Black Cat de Stuart Gordon (2x11)

AQUI NÃO HÁ GATO

Na primeira época de "Masters of Horror", Stuart Gordon realizou um dos piores filmes que já vi. Falo de "Dreams In The Witch House", uma mistura muito duvidosa de Edgar Allan Poe com "The Amytiville Horror" que pura e simplesmente não conseguia evitar assemelhar-se a uma história para crianças e nem particularmente bem feita.


Na segunda época, Gordon traz-nos este "The Black Cat", onde a influência de Poe é assumida, visto que Poe é o personagem central do filme, que, não tendo nada de biopic, não deixa de se centrar na vida pessoal do escritor, em vez de num dos seus contos. Terreno pantanoso, portanto, principalmente se tivermos em conta que o mais provável é uma personalidade complexa e, em muitos aspectos, inexplicável como parece ter sido a de Poe, não caber numa média-metragem.
Infelizmente, essa suspeita com que podemos ficar ainda antes de vermos o filme, confirma-se nele.
Encontramos aqui Poe (Jeffrey Combs) em pleno bloqueio criativo, mas com necessidade de produzir, uma vez que se encontra praticamente falido, situação particularmente desesperante dado que a esposa Virginia (Elise Levesque) se encontra gravemente doente. Na mesma casa, vive ainda um gato preto que se demonstra bastante hostil para Edgar.
Este gato será, por um lado, razão de grande desequilíbrio para o escritor, ao mesmo tempo que acabará por lhe dar inspiração para aquele que viria a ser um dos seus contos mais conhecidos.
A tarefa que Stuart Gordon se auto-propõe é difícil, e a verdade é que o senhor não se mostra muito competente em resolvê-la da melhor maneira.
Em "The Black Cat", o que mais encontramos são cenas que surpreendem pela puerilidade, inaceitável num realizador com a experiência de Gordon. Serve de exemplo a cena em que Poe, tentando matar o gato preto, acaba por acidentalmente assassinar a mulher. Raramente em cinema vi uma cena tão mal aproveitada, tão desastrosamente filmada. Isto torna-se particularmente bizarro quando sabemos que Stuart Gordon já tem vindo a inspirar-se em Poe vezes e vezes sem conta ao longo do seu percurso, quer no cinema quer no teatro.
O mais difícil neste filme seria construir a personagem de Edgar Allan Poe. O Poe que aqui encontramos é excêntrico, de facto, mas parece sê-lo acima de tudo por incompetência, mostrando-se pouco mais que um bêbado ridículo e cheio de delírios estúpidos e ficamos com a sensação de que qualquer semelhança entre este Poe e o génio que o verdadeiro Poe foi, é pura coincidência. E qualquer caracterização da época não fica atrás da superficialidade com que o personagem central é tratado.


Uma vez mais, tenho que reconhecer que há realizadores que não distinguem o cinema de terror das histórias assustadoras que se contam às criancinhas para adormecer. Porque tudo aqui tem um lado muito infantil, mas que não soa a frescor, antes a falta de jeito.
Jeffrey Combs é parecido fisicamente com Poe, é um facto, mas a sua interpretação não vai muito além do óbvio e só contribui para desacreditar o filme.
Como se nada disto fosse suficiente, um final à conto de fadas e também muito mal resolvido coroa um filme que nada de interessante parece ter para dar.
Entre este "The Black Cat" e "Dreams in the Witch House", não me parece possível eleger um como o pior.


sábado, 12 de março de 2011

Assim se Vive


Anda uma pessoa fechada consigo.
Assim se vive.
Se vive, se finge que vive.

Lindos dias.
Atravessam-se jardins, vê-se gente.
E a paz e o movimento e fora e dentro de casa
um vácuo, um vácuo!

Não dei aquele beijo...
Não o podia dar.
Mas senti que mo pediram.
Aquela mansidão!
Não era bondade, era só desejo.

Não dei aquele beijo que devia ter dado e acei-
tado se fosse mais hábil.
Dado e aceitado sem amor profundo.
Amor profundo!...
Dado e aceitado por gosto, gosto de beijar.
Tão raro, tão imprevisto, tão mal praticado!
Gosto do amor? Talvez.
Desespero, desespero apaixonado.

Irene Lisboa
Outono Havias de Vir
1937, ed. Seara Nova
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

Pela Mão de Alguém


Olham pela vigia. Parados nas nuvens.
Atados a uma cadeira presa ao chão.
O tempo sobre com o aroma do café,
rodopia na colher que os vai adoçando.
Turbulência, cintos apertados.
Dez horas a passarem nas vozes em surdina.
Se eu soubesse, se pudesse saber tudo o que levam
nas malas. Mas também eu vou no porão.
Hei-de rolar no tapete até que peguem em mim.
Como um livro de bolso vou espreitar a cidade
pela mão de alguém. Tenho um segredo,
digo, uma combinação. Tenho os órgãos
espalhados pela cama de um quarto de hotel.
Mãos viajantes fecham-me os pulmões.
A cidade retalhada pelo clique da máquina
será deles por uns dias. Resta-me a tumba
do armário até à próxima reencarnação.

Rosa Alice Branco
O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos
2009, ed. Quasi
desenho de Júlio Resende