terça-feira, 31 de maio de 2011

Lamb: 5

OUTRA LINGUAGEM, DE FACTO



Terá sido um desgosto para muita gente -eu incluído- quando, em 2004, Lou Rhodes e Andy Barlow anunciaram o fim dos Lamb. Deixaram-nos com "Best Kept Secrets 1996-2004", uma complição sem originais, que se seguia ao fenomenal "Between Darkness and Wonder" (2003). Parecia particularmente estranho quando esse último álbum de originais, o quarto, parecia ser um trabalho maduro, complexo mas muito bem conseguido.

Entretanto, os dois elementos seguiram por carreiras alternativas, sendo que Barlow se envolveu em vários projectos sem grande visibilidade, e Lou editou três excelentíssimos álbuns a solo, "Beloved One" (2006), "Bloom" (2007) e "One Good Thing" (2010).





Quando, ainda em 2010, se anunciou o regresso dos Lamb, pareceu, ainda que estranho, motivo para alegrias. Depois de alguma espera, acaba de chegar-nos este "5" que, como o nome indica, é o quinto álbum dos Lamb -e o primeiro em sete anos- e realmente, é razão para se ficar feliz, logo à partida porque se trata de um generoso álbum duplo.

Para já, é de notar que a separação, ainda que temporária, deixou bem profundas as suas marcas. Ainda que a electrónica continue a ser o prato-forte destas canções, é de notar aqui uma tendência mais melódica e serena que, vindo a acontecer um pouco desde "What Sound" (2001), não deixa de nos parecer mais presente nos álbuns a solo de Lou Rhodes. Exemplos disso são canções como Wise Enough ou Build a Fire. No entanto, é em Rounds que se sente mais a importância que teve o percurso a solo de Lou Rhodes, sendo uma canção que quase quase podia ser só dela. Na maioria das canções, as letras também nos parecem mais próximas das de Rhodes, que, verdade se diga, sempre se mostrou uma letrista bastante competente.

Ouve-se neste álbum também alguma acidez, bem medida, principalmente nas canções de abertura. Nestas, a matriz parece estar situada algures entre "Lamb" (1996) e "Fear of Fours" (1999), ainda que a procura de um certo equilíbrio com o lado acústico e com a exploração da maravilhosa voz de Rhodes deva muito às experiências de "Between Darkness and Wonder". Ainda assim, é notório o esforço por que "5" traga algo de novo, e a verdade é que traz; e isso ouve-se logo a partir de Another Language-título premonitório para uma canção de abertura- e prossegue por Butterfly Effect, que são duas das canções que melhor nos soam neste disco.

É preciso não esquecer que os Lamb estão também muito marcados pelo sucesso de Gabriel, o single de apresentação de "What Sound". O ano de 2001 vai longe mas ainda ninguém esqueceu essa canção. Isso tem o seu lado positivo e o negativo, claro. Parece-me claro que "5" é um disco que pede para ser ouvido; com atenção e na íntegra, o que pode assinalar uma tentativa de que a vida continue depois de um grande sucesso.

Muitas destas canções exigem-nos precisamente que as ouçamos com atenção, pois são tudo menos fáceis de ficar no ouvido. Um bom exemplo disso é Strong The Root que vem ressuscitar algumas características do primeiro álbum, fazendo, nalguns dos seus momentos, lembrar um pouco Trans Fatty Acid, sendo que, aqui, a ideia de canção crua e simplificada a nível instrumental é levada ao extremo. Essa simplificação, que até ajuda a aumentar a acidez da música dos Lamb, acontece um pouco na parte final do álbum, por exemplo em She Walks ou em Last Night The Sky, onde se sente ainda uma referência à música oriental, muito bem inserida, não soando, de todo, a uma coisa facilitista, como tem acontecido com tanta gente que tenta ir buscar esta influência.





O segundo disco acumula aquilo que parecem ser algumas faixas extra -excepto que estas são mais nove. Aqui encontramos Dischord, uma canção acústica onde, mesmo assim, sentimos uma certa distância em relação ao percurso a solo de Rhodes; bem como Back to Beggining, uma excelente canção com uma excelente participação de Damien Rice. De resto, encontramos versões instrumentais de quatro das canções do primeiro disco; a demo de Rounds e uma segunda versão de The Spectacle. São faixas que vale a pena ouvir, nem que seja para ter uma outra percepção das canções.

De facto, sete anos de espera por um novo álbum dos Lamb não se podiam mostrar mais produtivos. "5" é um grande álbum e um regresso muito à altura para a banda de Till The Clouds Clear. Agora é só esperar alguns dias pelos concertos em Portugal, a saber: 10 de Junho em Lagoa (Algarve), 11 de Junho no CCB de Lisboa e 12 de Junho no Coliseu do Porto.




quinta-feira, 26 de maio de 2011

The Machinist de Brad Anderson

A VELHA AMIGA INSÓNIA






Já por várias vezes aqui falei do trabalho cinematográfico de Brad Anderson. É, a meu ver, o seu filme "Session 9" (2002), o melhor filme do género de terror da primeira década de 2000. De sua autoria são ainda duas interessantes propostas distribuidas por duas séries dedicadas ao mesmo género, Masters Of Horror e Fear Itself, respectivamente "Sounds Like" (2005) e "Spooked" (2006); além de ser um dos realizadores duma das melhores e mais originais séries que têm passado na TV nas duas últimas décadas, Fringe.






É também de Brad Anderson este "The Machinist", de 2004. O tema geral, pessoalmente, não me poderia ser mais grato: a insónia. Já em 2002, um outro realizador bastante interessante, Christopher Nolan, focara o assunto em "Insomnia". Ainda que a película de Nolan não seja desinteressane, acaba por se revelar pouco criativa na abordagem do assunto que lhe dá título.


Bem pelo contrário, este filme de Brad Anderson é perfeitamente capaz de explorar os limites ou ilimites da insónia em favor da criação de um objecto inteligentemente confuso e que tem ainda a altivez de não nos oferecer, nalguns aspectos, respostas claras.


E não é apenas o argumento, escrito por Scott Kosar, que, efectivamente está escrito de maneira a dar-nos uma ideia que lentamente percebemos não ser tão linear quanto isso; mas também os aspectos que dizem respeito especificamente ao filme estão pensados para nos fazer deambular por ele, algo condenados a não atingir aquilo a que se pudesse chamar a verdade.


Encontramo-nos perante a vida estranha de Trevor Reznik (Christian Bale), um operário maquinista que não dorme há um ano. A estranheza quer dos seus hábitos e das suas relações vai-se tornando razoável aos nosso olhos quando o vemos dar continuamente sinais de inércia, astenia, lentidão e de uma debilidade quase incomodativa; mesmo a nível físico. É aqui de assinalar o empenho de Christian Bale neste papel, sendo que, para o interpretar, perdeu 28 kilos, conseguindo, efectivamente, ter o corpo de um esfomeado, de uma magreza grotesca.


Além do trabalho como maquinista, a vida de Trevor passa pela companhia de Stevie (Jennifer Jason-Leigh), uma prostituta; e de Marie (Aiatana Sánchez-Gijón), uma empregada de café com quem Trevor acaba por criar uma relação de amizade.


Depois de um acidente de trabalho provocado por Trevor, que custa a um dos seus colegas um braço; e do cruzamento com Ivan (John Sharian), um colega de trabalho que ninguém mais havia visto, Trevor começa a acreditar que está a ser vítima de uma conspiração que, percebemos, poderá vir a revelar algum segredo que ele esconda. Esta ideia é reforçada pela estranha apiração de post-hit com o jogo do enforcado, que Trevor vai preenchendo com várias possíveis palavras. E é através destes elementos que nos vamos aproximando do segredo de Trevor.


A sinopse consegue facilmente enredar-nos no estado de espírito deprimente e destrutivo de Trevor e, quer sem excessos quer sem predicabilidades, consegue, gradualmente, aproximar-nos da origem de todo o mal-estar que rodeia Trevor e que este parece espalhar à sua volta.


Nota-se que "The Machinist" está pensado ao pormenor, mesmo a nível visual (Ou principalmente a nível visual.): a fotografia parece-nos quase a preto e branco, sempre esbatida, os planos são longos quando nada de especial se passa e fugazes nos momentos decisivos, como se entrássemos na cabeça de Reznik, onde a verdade parece, de alguma forma, inacessível. E é ao filmar essa incapacidade de chegar ao real que Brad Anderson se mostra, uma vez mais, muito competente, tal como já havia acontece na maioria dos seus filmes. Isto é indicador claro de que Anderson tem mesmo um universo particular, e, como "The Machinist" confirma, muito rico.


Como acima dizia, ao contrário do que acontecia com o filme de Christopher Nolan, neste a insónia consegue mesmo ser assunto central e dominar todo o filme. Não seria fácil tornar tão clara a "visão" de uma pessoa incapaz de dormir, mas Anderson consegue-o. Será talvez por isso que "The Machinist" se torna tão angustiante e quase doloroso: há nele algo de realismo psicológico, pois é pelos olhos afectados de Reznik que atravessamos o filme; com bastante eficácia.






De louvar é também a direcção de actores, sendo que, mesmo assim, se destaca Christian Bale, que está sempre muitíssimo à vontade em papéis melancólicos (Como vemos, por exemplo, em "Velvet Goldmine" de Todd Haynes.) e volto a assinalar o lado físico do seu personagem, que, de tão esquálido, quase parece um cadáver.


Feitas as contas, este é mais um muito bom filme de Brad Anderson. Esperemos que sejam todos assim, futuramente.




terça-feira, 17 de maio de 2011



Outrora à Musa Perguntei

Outrora à musa perguntei, e ela
Respondeu-me:
No fim encontrá-lo-ás.
Nenhum mortal pode abarcá-lo.
Quero guardar o silêncio sobre o Altíssimo.
Porém a Pátria é sobretudo
Fruto proibido, tal como o loureiro. Mas que por fim
Cada um venha a dele provar.

Muito engana o princípio
E o fim.
Porém o último é
O sinal do Céu, que arranca
...... e.............. homens
Para longe. Disso teve medo
Hércules. Mas por termos nascido
Indolentes, é necessário o falcão, cujo voo
Era seguido por um cavaleiro
Ao caçar.

No............ quando
E o príncipe

......................e o fogo e vapor de fumo floresce
Sobre seco relvado,
E no meio, sem mistura, o bálsamo
Da batalha, a voz que brota do príncipe.

Vasos são a obra de um artista.
E compra

...............................mas quando
Chega a altura do julgamento
E tocou castamente o lábio
De um semideus

E oferece o que mais ama
Aos estéreis
Pois a partir de agora deixa
O sagrado de ter utilizade.




Friedrich Holderlin

Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

"Hinos Tardios"

2000, ed. Assírio e Alvim

pintura de Edward Burne Jones

Christina Rossetti: O Mercado dos Duendes e outros poemas (Versão de Margarida Vale de Gato)

É já de 2001 esta edição, organizada e prefaciada por Ana Rosa Nobre, de alguns poemas de Christina Rossetti, em versões de Margarida Vale de Gato.

Daquela que me parece ser a mais importante poeta Pré-Rafaelita existe, além deste livro, apenas uma outra selecção de poemas, na antologia "Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética", organizado por Helena Barbas e editado em 2005 pela Assírio e Alvim. É pena que assim seja, pois, como de resto acontece frequentemente com a publicação de poesia estrangeira no nosso país, isso gera uma lacuna considerável num dos períodos mais ricos da cultura britânica, neste caso.

Foi em 1862 que, depois de alguma publicação dispersa, Christina Rossetti lançou o seu primeiro livro: "Goblin Market and Other Poems", ilustrado com gravuras do irmão da poeta, o pintor e também poeta Dante Gabriel Rossetti, foi um sucesso, aliás, o primeiro grande sucesso da poesia Pré-Rafaelita, de tal maneira que Christina, como nos é explicado no prefácio, sempre temeu não ser capaz de igualar a qualidade do poema inicial, "Goblin Market".





O volume português, "O Mercado dos Duendes e outros poemas", leva o mesmo título do primeiro livro de Christina, mas não é uma tradução integral dele, preferindo fazer uma selecção de poemas colhidos da obra completa de Christina. A opção parece-me interessante dado que, na altura, era a primeira vez que esta autora era publicada em Portugal.

Abre então com o poema mais conhecido de Christina, "O Mercado dos Duendes". Ainda que, pessoalmente, me pareça que a intensidade da escrita de Christina Rossetti atinge o seu pico noutros poemas, mais íntimos, percebe-se o porquê do destaque dado a este poema. De facto, em muito, ele representa um culminar de várias características do Pré-Rafaelitas. Trata-se de um muito longo poema narrativo que nos conta a história de duas irmãs, Lizzie e Laura, que observam a passagem de um bando de duendes em direcção a um lugar onde venderão frutas que haviam colhido dos seus pomares. O poema inicia com os pregões dos duendes, em versos curtos, criando um ritmo viciante e muito musical. Laura sente-se tentada a ir ter com eles e comprar-lhes fruta ainda que Lizzie, mais cautelosa, a alerte para o perigo de comer a fruta vinda de criaturas "malditas"



"Não", disse Lizzie, "Não;

Suas ofertas não nos devem tentar,

Suas prendas do demo mal nos farão."

(p.33/35)



Como seria de esperar, certa noite, Laura foge de encontro aos gnomos e come dos seus frutos. Depois disso, lentamente começa a definhar. Lizzie, levada pela urgência de salvar a irmã, irá também de encontro aos duendes, para lhes comprar fruta, acabando por ser atacada por eles. Ainda assim, com o corpo sujo do sumo das frutas, consegue salvar a vida de Laura. Esta passagem é, de facto, assinalável, em vários aspectos: revela-nos, a um tempo, a dimensão poderosa do amor fraternal, mas também uma grande carga erótica (Ou homo-erótica, como se preferir.), assinalável se tivermos em conta que este poema foi escrito em 1859:



Gritou "Laura", assomando ao jardim,

"Sentiste falta de mim?

Anda, beija-me.

Não te apoquentes com minhas feridas,

Abraça-me, sorve das minhas seivas

Para ti espremidas dos frutos dos duendes,

Polpa de duende, orvalho de duende.

Come-me, bebe-me, ama-me.

Laura, faz de mim o que te aprouver,

Por teu amor ao vale eu desci

E c'os anões me tive de haver."

(p.61)



A modernidade deste poema está, não só na ousadia com que muitas vezes se manifesta, mas também nalguns detalhes técnicos, particularmente na métrica: apesar de seguir sempre esquemas rimáticos, estes vão-se alterando; e a métrica também se muda, como que para servir a energia do próprio poema: se inicialmente os pregões dos duendes eram escritos em versos curtos, à medida que o poema avança e se centra na relação entre as duas irmãs e o que se passa nas suas vidas, os versos vão-se tornando mais longos e mais densos. Ou seja, dentro da regularidade, Christina consegue tornar o esquema deste poema irregular.

A língua inglesa será uma das mais difíceis de traduzir para português. Logo porque as duas línguas pouco se equivalem e raramente sequer se aproximam, mas também pelas diferenças na contagem de sílabas e, no caso da poesia, da organização das estruturas, como Margarida Vale de Gato nos explica na sua nota final. Parece-me, no entanto, que "O Mercado dos Duendes" terá sido o poema mais difícil de traduzir precisamente por esta característica de tornar a regularidade irregular. Mesmo assim, sacrificando muitas vezes a exactidão das palavras de Christina, Margarida Vale de Gato consegue satisfatóriamente dar uma ideia do poema, tanto da sua mensagem como também da sua estrutura, ainda que, muitas vezes, a tradutora seja obrigada a torcer um pouco a estrutura original. O que é certo é que numa tradução há sempre alguma coisa que tem que ser sacrificada. Se compararmos a versão de Margarida Vale de Gato com a de Helena Barbas, veremos isso. Neste livro, a tradutora preferiu dar-nos uma noção aproximada da forma e da estrutura, e penso que a sua versão será suficiente para que essas duas questões sejam bem entendidas.

A nível temático, como dizia, este poema em muito vai de encontro aos interesses pré-rafaelitas. Para começar, a própria ideia do mercado dos duendes é muito medievalista e fantasiosa, e essas eram duas das linhas-mestras da ideologia deste grupo; e também a ideia dos frutos e da maneira como eles são descritos, cheia de colorido e de lirismo, vão muito de encontro a esta estética tão particular. E os conceitos mais gerais deste poema, que serão a tentação (Gerada pela beleza.) e a salvação (Resultante do amor.) são conceitos nada estranhos ao trabalho, quer plástico quer poético, da Pre-Raphaelite Brotherhood.

Meticulosa e inquieta, Christina, enquanto ia publicando outros livros, reeditou este seu primeiro cinco vezes, sendo que William Michael Rossetti o editou uma vez mais ainda, depois da morte da poeta, sua irmã.

Ainda sobre os poemas escolhidos do primeiro volume da autora, há que dizer que o rasgo de profunda imaginação que pauta em todos os aspectos o primeiro poema nunca é verdadeiramente perdido, ainda que os restantes poemas se afastem da matriz deste primeiro.

Ana Rosa Nobre seleccionou mais 17 poemas de "Goblin Market and Other Poems". Neles, encontramos temas mais intimistas e mais ligados à realidade emocional da autora, sendo que alguns deles se escrevem de uma forma mais reflexiva e outros mantém ainda o lado mais narrativo, como acontece com "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento".

Seguindo estruturas mais definidas e mais clássicas, nomeadamente a do soneto, Christina fala-nos, acima de tudo, da solidão e da perda.

Estas duas noções são traçadas de várias matrizes. A primeira será a perda de uma paixão, de uma relação amorosa: nestes poemas, como "Remember/ Recorda" ou "After Death/Depois da Morte" ou "Echo/ Eco", intervém muitas vezes a morte, outro tema muito caro aos Pré-Rafaelitas. A morte é um assunto presente em quase todos os poemas deste livro. A tonalidade de agonia é essencial para entender a escrita de Christina Rossetti, pois ela parece colocar-nos continuamente perante um apodrecimento lento da vida, e, quando nos coloca em situações de morte, mantém sempre a capacidade de pensar e sentir. Nestes poemas, por assim dizer, Christina traça através de um corpo morto, o seu, uma espécie de espelho, pois é a partir dele que as situações se invertem: que o amor perdido regressa, e que a sua frieza se transforma em choro, como vemos, por exemplo, em "Depois da Morte":


Não tocou na mortalha nem no véu,

Nem p'ra me dar a mão a sua mão se ergueu;

Nem o coxim em que me estendia


Desmanchou; não me amou quando eu vivia;

Mas é bom saber que morta me deu

O seu calor, embora eu esteja fria.

(p.73)


É de notar como, nestes poemas, o olhar de Christina volta a mostrar-se-nos treinado para a atenção ao detalhe: estes poemas vivem muito de imagens, imagens criteriosamente escolhidas, pois são muitas vezes elas que ditam a energia do poema: paradas por vezes, quase mortas; outras vezes imagens de movimento, que nos dão conta de um estado de inquietude. Destas últimas, dou um exemplo, retirado de um dos poemas que leva como título "Song/ Canção":



Duas pombas pousadas num só galho,

Dois lírios gémeos a despontar,

Duas borboletas sobre uma flor:

Felizes os que os podem contemplar.

(p.77)








Christina Rossetti, que Virginia Woolf considerava "um génio" tem sido negligenciada, muito por ser mulher. A consciência desta questão não escapava à poeta. Apesar de ser considerada membro dos Pré-Rafaelitas, ela nunca o foi a tempo inteiro, pois as mulheres, à data, não tinham nem que remotamente, parte dos direitos e da liberdade que tinham os homens, pelo que o seu percurso foi sendo um bastante solitário, o de uma pessoa que se sentia "Morta Antes da Morte (Dead Before Death)"


Mudada e fria, fria e ressequida!

Lábios hirtos, olhar indiferente,

Contudo a mesma, pouco esclarecida;

Foi esta a promessa de antigamente.

(p.91)


Aqui encontramos um certo ressentimento à condição feminina, em que um estado de "pouco esclarecida", afecta o próprio corpo, o aspecto da autora, que, realmente, vemos de uma profunda tristeza nos vários retratos que dela fez Dante Gabriel Rossetti. A questão da mulher vai ser ainda essencial em dois momentos aqui antologiados. O primeiro é "Monna Innominata: Um Soneto de Sonetos", um conjunto retirado do livro "A Pageant and Other Poems", de 1881. No prefácio que escreve a este conjunto de 14 sonetos (Tantos como os versos de um soneto.), Christina fala-nos de Beatriz e Laura, imortalizadas por Dante Alighieri e Petrarca, "heroínas mundialmente famosas [que] foram precedidas por uma hoste de damas não nomeadas, "donne innominate" (...) Se uma dessas damas tivesse falado por si, talvez o retrato que nos deixasse fosse mais terno(...)" (p.145). É pois sobre o silenciamento que existe sobre as mulheres nas sociedades patricarcais e machistas que Christina se debruça nestes catorze sonetos, dos quais aqui temos quatro. A solidão e a imcompreensão são o fio de ariane que une estes textos. Não só as mulheres têm que viver na solidão de não poderem ter voz nem nome, como também têm que viver a condenação de nunca, verdadeiramente, serem entendidas em qualquer matéria. É isso que vemos no soneto 11:



Dirão de ti as gentes do porvir:

_Amou-a! _enquanto de mim, ufanas,

Hão-de dizer que te amei a fingir

Como fazem as mulheres levianas

(p.151)


e quando, no soneto 14, Christina diz


Perdida a beleza e a juventude_

Se é que algum dia o meu rosto foi belo_

Tudo perdido, foi-se a beatitude.

(p.153)



ela está, talvez discretamente, a lançar a mais dura crítica à sociedade patrircal, pois a mulher, quando perde a beleza e a juventude tem "Tudo perdido", ou seja, torna-se inútil e inexistente, pois o que na verdade lhe resta, os sentimentos e a inteligência, não são ouvidos por ninguém, anulando-a assim.

Esta distância entre o que a pessoa, neste caso a mulher, é, e o que dela é visto ou admitido é um assunto retomado em "In an Artist's Studio/ No Estúdio de um Artista", poema escrito em 1856 e só publicado postumamente


De dia e de noite o seu rosto venera,

E ela lhe devolve o olhar risonho

Brilhante como a lua e a claridade,


Sem que nunca a ensombre a saudade:

Não como é, mas como p'ra ele era;

Não como é, mas como surge em sonho

(p.191)


é possível que este poema se refira a Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, mas isso é irrelevante para o caso. O essencial deste poema é que o homem que venera o rosto da mulher não é capaz de o representar de acordo com aquilo que essa mulher é, mas apenas de acordo com aquilo que ele sonha (Pensa.) que ela seja. Mais uma vez, a verdadeira personalidade da mulher é anulada por uma falocracia de efeitos realmente assassinos para as mulheres.

Outro tema que é importante referir sobre esta antologia de Christina Rossetti é a do amor místico. Porque aqui, uma vez mais, se entende a modernidade desta poesia, que, recusando uma postura de pura adoração e admiração cristã, se situa muito mais na linha de uma Santa Teresa de Ávila, de uma Hadewijch de Antuérpia ou de um São João da Cruz. Longe de se transformar numa consolação para a vida, o amor espiritual escrito por Christina Rossetti ganha um lado físico, erótico e nem sempre de celebração, servindo muitas vezes como salvação. Assim vemos em "A Better Ressurrection/ Uma Melhor Ressurreição":



Minha vida é uma taça quebrada,

Taça que verte e não pode suster

De minh'alma uma só gota orvalhada

Ou doce néctar, neste frio de tolher;

Deitai ao fogo a coisa sem valor,

Fundi-a e refundi-a até enfim

Ser cálice para o meu Salvador:

Jesus, bebe de mim!

(p.109)


Ainda que a questão do amor místico seja de capital importância nalguma da poesia de Christina Rossetti, para este livro foram seleccionados poucos poemas desta temática.

Voltando às versões de Margarida Vale de Gato, penso que lhes cabe o mérito de nunca adulterarem a mensagem destes poemas, mas a opção de valorizar a forma, que não é errada, custa muitas vezes a perda de algumas subtilezas da poesia de Christina Rossetti, pelo que o ideal seria, como em todas as traduções, de resto, ser-se capaz de ler o original.

A poesia de Christina Rossetti mostra-se, acima de tudo, muito inventiva, particularmente no que toca à criação constante de imagens, trabalhadas a partir do real para uma dimensão mais lírica; que consegue sempre conciliar com estruturas regulares de rimas e de métricas, salvo nalgumas excepções. É de assinalar ainda a capacidade de Christina para o poema narrativo longo, onde, com excepção de "O Mercado dos Duendes", a poeta trabalha sobre situações do real quotidiano, como vemos acontecer um pouco em "The Convent Thresold/ No Limiar do Convento" ou, mais ainda, em "Songs in a Cornfield/ Desfolhada", onde quase se aproxima de uma poesia realista; um pouco por todo o livro "The Prince's Progress and Other Poems" de 1866, livro que parece, realmente, ser todo ele uma espécie de narrativa. É também uma poesia realmente dolorosa e atroz por vezes, que, acima de tudo, nos mostra um ser humano de rara capacidade de observação, que depois se transforma num lirismo cuidado e equilibrado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti

pormenor de "Ecce Ancilla Domini! A anunciação"

Algumas notas sobre Christina Rossetti

Quando Christina começava a amá-lo e a delicada intimidade criativa diminuía a ansiedade sexual, Collinson retirou-se bruscamente. O seu catolicismo renascia, como que levantando do abismo em que o lançava a estética do grupo. De algum modo, ele roçara as paredes do inferno e recuava à pressa, apavorado, calcando aos pés a roupa enegrecida. Enviou a Christina um soneto em que dava como inconciliáveis o impulso amoroso e a devoção. Ela rasgou-o de imediato, prevendo o golpe que, de facto, não tardou. Muitos anos mais tarde, refê-lo, verso a verso. Ficara-lhe gravado na memória.

William conta como a saúda de irmã, já tão deteriorada, se agravou. Talvez o sentimento dominante fosse a humilhação, mais dolorosa do que um puro desgosto de abandono. Dir-se-á que os poemas recolheram parte da agonia. Eles aspiravam, como ventosas, os seus poros infectados. E, quando ela escrevia sobre a perda, sobre aquilo que morrera e aquilo que jazia no seu também já morto coração, a beleza da febre triunfava.


Hélia Correia

in "Adoecer"
2010, ed. Relógio d´Água

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



pormenor de "A Infância da Virgem Maria"

Canção

Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha campa
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
E se quiseres esquece.

Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
Cantando como viúva.
E, sonhando p'lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.


Christina Rossetti

Versão de Margarida Vale de Gato

in "O Mercado dos Duendes e outros poemas"

2001, ed. Relógio d' Água

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Song (1848)

When I am dead, my dearest,
..........Sing no sad songs for me;
Plant thou no roses at my head,
..........Nor shady cypress tree:
Be the green grass above me
.........With showers and dewdrops wet;
And if thou wilt, remember,
..........And if thou wilt, forget.

I shall not see the shadows,
..........I shall not feel the rain;
I shall not hear the nightingale
..........Sing on, as if in pain:
And dreaming through the twilight
...........That doth not rise nor set,
Haply I may remember,
............And haply may forget.



Christina Rossetti


Goblin Market and other poems


1862

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Algumas notas sobre Christina Rossetti

Christina não aceita os modelos de comportamento social, cultural e estético do século XIX, procura antes transformá-los de acordo com os seus desejos e expectativas. Aquela, para quem a poesia surge da angústia de querer sempre mais, possuía a arte de fazer seu tudo quanto existia e que o véu do silenciamento, tecido por uma ancestral cultura masculina , encobrira: "Este coração condenado/ Por um homem, em triste hora, / Leva-o p'ra ser estudado/ Por dentro como por fora./ Como fogo há-de brilhar,/ Expurga-o de sua escória." ("Duas Vezes").

No tempo em que a escritora viveu, as mulheres não eram encorajadas a ser artistas. Muito pelo contrário. Ainda que surgissem frequentemente como objecto de representação dos textos do Vitorianismo, e embora esses textos, de autoria masculina, configurassem um modelo de feminino, poucos são os nomes de mulheres que pertencem ao cânone literário da época. Mais ainda, não lhes era reconhecida legitimidade para escreverem sobre assuntos que pusessem em causa os valores da cultura patriarcal ou, até mesmo, as convenções literárias masculinas. Christina está consciente deste facto (...).


Ana Rosa Nobre

prefácio a "O Mercado dos Duendes e outros poemas"

2001, ed. Relógio d' Água

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



Eco

Vem até mim no silêncio da noite,
.............Vem no silêncio sussurrante de um sonho,
Vem com faces cheias e doces e olhos brilhantes
..............Como a luz do sol num regato,
..................Vem de volta em lágrimas
Oh! memória, esperança, amor de anos findos.

Oh! sonho deco, tão doce, demasiado amargo e doce,
..................Cujo acordar deveria ter lugar no Paraíso,
Onde as almas transbordantes de amor vivem e se encontram
...................Onde os olhos sedentos anelantes
.........................Observam a lenta porta
Que abrindo-se, deixando entrar, não mais deixa sair.

Mas vem até mim em sonhos, para que possa de novo viver
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,A minha vida verdadeira, embora fria na morte
Vem de volta para mim em sonhos, para que possa dar
...................Pulsar por pulsar, alento por alento:
..........................Fala baixinho, inclina-te mais
Como há tanto tempo, meu amor, há quanto tempo.



Christina Rossetti

tradução de Helena Barbas

in "Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética"

2005, ed. Assírio e Alvim

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Echo (1854)

Come to me in the silence of the night;
............Come in the speaking silence of a dream;
Come with soft rounded cheeks and eyes as bright
.............As sunlight on a stream;
.............Come back in tears,
O memory, hope and love of finished years.

O dream how sweet, too sweet, too bitter-sweet,
.............Whose wakening should have been in Paradise,
Where souls brim-full of love abide and meet;
..............Where thirsting longing eyes
..........................Watch the slow door
That opening, letting in, lets out no more.


Yet come to me in dreams, that I may live
...............My very life again though cold in death;
Come back to me in dreams, that I may give
...............Pulse for pulse, breath for breath:
..........................Speak low, lean low,
As long ago, my love, how long ago.







Christina Rossetti



Goblin Market and Other Poems



1962

Christina Rossetti fotografada por Lewis Carroll



A primeira representação de Elizabeth Siddal

foi este "Twelfth Night", de Walter Deverell, que adapta uma cena de Shakespeare. Elizabeth é a primeira figura à esquerda, uma mulher vestida de homem. No mesmo quadro, ainda antes de se envolver amorosamente com Elizabeth, Dante Gabriel Rossetti posa como o palhaço.