quinta-feira, 5 de maio de 2011

Masters of Horror: The Washingtonians de Peter Medak (2x12)

SLEEP DURING IT




"Zorro, The Gay Blade" (1981) e "Romeo Is Bleeding" (1993) são filmes que, goste-se ou não, deixam mais ou menos uma impressão sobre Peter Medak: essa impressão é a de que ele aprecia um certo humor negro e crítico sobre a sociedade e os seus mitos; que bem pode ser um estilo interessante em cinema.




A média-metragem com que se apresenta na segunda época de "Masters of Horror" não foge a esta regra. O argumento de "The Washingtonians", baseado num conto de Bentley Little, e assinado por Richard Chizmar e Johnathon Schaech, sendo que este último é também o protagonista, tem alguma coisa de ousado e de chamativo: Mike Franks (Schaech) muda-se com a mulher, Pam (Venus Terzo) e a filha, Amy (Julia Tortolano) para a casa da sua falecida avó. É lá que encontra um antigo retrato de George Washington, atrás do qual está escondida uma carta, assinada G.W., que sugere que o pai da América seria um canibal e um infanticida. A carta chega ao conhecimento de alguns habitantes locais, e logo Mike começa a receber visitas de homens mascarados de revolucionários que exigem que ele lhes dê a carta. Através da ajuda de um amigo, o professor Harkinson (Saul Rubinek), um historiador, Mike toma conhecimento de um clube de canibais, os Washingtonians, que vive naquela localidade e protege o segredo da verdadeira vida de George Washington, sendo, para eles, essencial que a carta não seja divulgada.

Pode haver aqui um sentido crítico bastante apurado; principalmente no que toca aos bastidores da História e da mitologia política americana e isso poderia ter resultado num filme interessante; e também num filme de terror interessante, ou pelo menos um bocadinho gore, já que o assunto do canibalismo, não sendo novo, também não tem sido dos mais explorados.

No entanto, "The Washingtonians" é tudo menos isso. Ainda que o argumento apresente algumas fragilidades, nomeadamente no que toca a clichés ligados às conspirações (Como a repetição da expressão "Sleep on it".); tinha potencial de resultar num filme bom, mas Medak parece, literalmente, dar cabo dele.

A começar pelo momento em que Mike descobre a carta, que parece seriamente mal resolvido em termos de aspecto; passando pelos gritos constantes de Amy que mais não são do que irritantes e forçados; a acabar na abordagem visual do tema do canibalismo. As cenas em que vemos os Washingtonians comer carne humana são realmente repugnantes, não no sentido em que geram um calafrio, mas no sentido em que se limitam a ser pura e simplesmente asquerosas, além de um tanto ao quanto incredíveis.

A própria concepção dos integrantes daquele clube não passa de uma teatralidade mal disfarçada, com uma maquilhagem bastante taxativa e nada realista, principalmente nos dentes, que mais parecem de um fumador compulsivo de haxixe do que de um canibal. Particularmente a cena em que pela primeira vez os Washingtonians batem à porta da família de Mike revela uma falta de jeito incrível: mais parece uma cena estranha para assustar crianças. Lembro-me que havia um episódio de CSI: Las Vegas que mostrava aqueles clubes que fazem re-encenações de guerras; esse episódio de CSI estava bastante mais conseguido do que este filme está.



A ideia de forjar algumas pinturas onde a verdade sobre George Washington fica expressa é boa, e provavelmente será das coisas que melhor corre neste filme, ainda que se trate de uma sequência de cerca de três minutos.


A própria resolução do problema, e aqui se revela outra fragilidade no argumento, peca por ser tão ambígua que se torna incompreensível. A sequência final parece realmente vir reforçar a ironia que o argumento pretende, mas a reação de Amy à troca de George Washington por George W. Bush nas notas de 1 dólar, francamente não fica bem.

É curioso ver que, na segunda época de "Masters of Horror", há uma série de filmes que parecem ter sido feitos para assustar criancinhas de 6 ou 7 anos. Eu não percebo bem como pode um realizador defender um filme destes, quanto mais mostrá-lo.

Por mais que ao longo do filme repitam "Sleep on it", para ser sincero, eu fiz um enorme esforço por não adormecer durante ele. E é tudo.


quarta-feira, 4 de maio de 2011



Sem Palavras Nem Coisas

2

entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura.
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.



António Franco Alexandre

Sem Palavras Nem Coisas

1974, Iniciativas editoriais


pintura de Ferdinand Hodler

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Me enagana, que eu gosto"

Economia - Sócrates anuncia acordo com a Troika - RTP Noticias, Vídeo

Sarah McLachlan: Laws of Illusion

LOVING HER IS EASY



Recentemente nos chega o novo álbum de originais de Sarah McLachlan. O anterior, "Afterglow", data de 2003. Nestes anos, Sarah parece ter estado a arrumar a casa, pois encontramos um álbum ao vivo, "Afterglow Live" (2004), um álbum de remixes, "Bloom" (2005), um de canções de natal, "Winter Song" (2006), "Rarities, B-Sides and Other Stuff, Volume 2" (2008) e o best-off, "Closer" (2008).

Sendo que eu sou absolutamente contra álbuns de remixes, salvo raras excepções, e que nunca ouço discos de natal, porque acho deprimentes; é de notar que os dois álbuns lançados em 2008 nos prenunciam, claramente, um ponto de viragem no percurso da cantora canadiana, que começa em 1998 com o álbum "Touch".





Quando começamos a ouvir "Laws of Illusion", percebemos que essa viragem, de facto, aconteceu.

"Afterglow" era, a meu ver, um álbum perfeito: conciso, coerente, equilibrado e realmente novo no contexto da discografia de Sarah McLachlan. Talvez por ser todas essas coisas, ele fechava completamente um ciclo, e impunha a necessidade de seguir outros caminhos. Sarah percebeu isso.

"Laws of Illusion" vem, em parte, retomar algumas pontas que haviam ficado soltas aquando dos primeiros álbuns, especificamente, "Touch", "Solace" (1991) e "Fumbling Towards Ecstasy" (1993). E se este último era um álbum também bastante conseguido, a verdade é que os primeiros dois pareciam, de alguma for, ter algo por terminar. Sarah deu o salto de maturidade no seu terceiro álbum, mas isso não significa que anteriormente não tivesse encontrado algumas soluções e algumas características que convinha não perder.

E se "Surfacing" (1997) vinha continuar essa fase de maturidade e "Afterglow" era o seu culminar, talvez nesse ponto Sarah se tenha encontrado com capacidade de repensar a sua fase inicial e reinventá-la.

"Laws of Illusion" é tudo isso, em primeiro lugar. Logo em "Awakenings" reconhecemos alguns traços que encontrávamos nos primeiros anos de Sarah McLachlan, mais ligados a uma dream-pop do que ao lado intimista entre o piano-rock e a alternativa que a pianista seguiu depois.

E isso acontece depois, em praticamente todas as canções. Sarah parece ter aceite um lado mais expedito e quase alegre, sem, no entanto, perder as características essenciais da sua música, que passam pelas vocalizações etéreas (É preciso ter em conta que estamos perante uma voz em que a suavidade encontra um lado grave também.) e por linhas de piano que fazem a estrutura das canções.

É assim com "Awakenings", que é uma das melhores canções de "Laws of Illusion", e também com "Illusions of Bliss".

À terceira faixa, "Loving You is Easy", econtramos elevadas ao máximo as características das primeiras duas canções. De facto, nunca ouvíramos a Sarah McLachlan uma canção assim, tão garrida e emotiva ao mesmo tempo. É também uma das canções onde se nota maior uso dos músculos criativos no piano, que nos relembra que Sarah é, além de uma boa voz, uma exímia pianista.

"Forgiveness", sendo uma canção que se encontra mais no estilo de "Fumbing Towards Ecstasy", é uma das melhores letras que Sarah já escreveu. É claro que Sarah foi sempre uma excelente letrista, encontrando-se em "Afterglow" letras que são verdadeiros poemas; e esta canção vem acrescentar-se à lista das melhores. É de notar que este é o primeiro álbum que Sarah McLachlan edita depois do divórcio do baterista Ashwin Sood. Por norma, interessa-me pouco a vida pessoal dos músicos, mas, neste caso, é importante referi-lo, pois o tema da separação amorosa e da ilusão/desilusão vem pautar muitas das canções que encontramos aqui.

"Rivers of Love" não é uma cover da canção de Lisa Ekhdal, mas é uma canção onde encontramos uma tendência jazzy que não é de desprezar; e que nos confirma que, de facto, "Laws of Illusion" é a procura de uma sonoridade renovada. "Love Come", outra das melhores canções do álbum, mantém-se nessa busca, mas faz algo interessante, que é procurar essa renovação nos concertos ao vivo. É claro que a grande maioria dos músicos sempre procura nos álbuns em estúdio recriar o que se passa no palco, mas nem sempre esta tentativa redunda nalguma coisa de especial. Não é o caso aqui. Ouvir álbuns como "Mirrorball" (1999) ou "Afterglow Live", confirmar-nos-á que, na sua maioria, estas canções conseguem recriar o palco. "Love Come" é bom exemplo disso, bem como "Out of Time", que parece ser uma espécie de segunda parte para uma canção já antiga de Sarah, "Possession", ainda que a criatividade na composição acabe por afastar "Out of Time" da outra canção.





Escusado será dizer que "Laws of Illusion" é um álbum de baladas, mas estamos longe de encontrar aqui lamentos lamechas. Nunca foi propriamente isso que encontrámos em Sarah, mas é facto que, onde "Afterglow" era calma e limpidez, "Laws of Illusion" vem-se mostrar esperançoso e nada amargo, acrescentando também alguns travos ligados ao folk na maioria das canções. Essa tendência vinha a acontecer um pouco desde "Surfacing" mas fôra um pouco posta de lado em "Afterglow". Agora, regressa em força. A canção onde notamos mais isso será, evidentemente, "Heartbreak", onde ouvimos uma linha de dobro, magistralmente tocada por Luke Doucet (Um dos músicos da banda ao vivo de Sarah, lá está.).

"Don´t Give Up On Us" aparece-nos aqui resgatado de "Closer", o best of. Apesar de não ter tanta força como a maioria das canções novas, entende-se a inclusão desta canção neste álbum, pois aí parecem estar já algumas raízes daquilo que este novo material viria a ser.

"U Want Me 2" é um pouco a mesma coisa, uma questão de raízes, ainda que se note que, ao contrário de "Don´t Give Up On Us", esta canção parece mais próxima de uma sonoridade pop que não foi exactamente a que Sarah seguiu nas canções novas.

De notar é que, pela primeira vez, na maioria das faixas, Sarah tem ajuda na composição de Pierre Marchand. Se este é já produtor dos seus álbuns desde há muitos anos, a verdade é que só agora tem realmente um papel mais omnipresente na composição das canções, o que nos pode fazer concluir que talvez venha um pouco dele a tendência mais "alegre" que se nota nalgumas canções.

A fechar o álbum encontramos "Bring on the Wonder", canção escrita por Susan Enan, que canta a canção em dueto com Sarah; e, por fim, uma versão acústica de "Love Come", com arranjos orquestrais.

Estas quatro canções poderiam funcionar um pouco como faixas extra.

Sete anos de espera, afinal, não foram em vão, e estou certo que este álbum, apesar de ter algo de inesperado, agradará aos que acompanham o percurso desta senhora, que, com mais ou menos Grammies, tem sido uma das mais interessantes.


Scream 4 de Wes Craven

ACTO FALHADO






Tive ontem a infelicidade de ir ver a quarta parte da saga "Scream", assinada, como todas as outras, por Wes Craven.


Convém relembrar que, em 1996, quando se achava que a fórmula do slasher movie estava já esgotada e mais não se fazia do que repetir as receitas dos grandes clássicos como "The Texas Chainsaw Massacre" de Tobe Hooper (1974), "Halloween" de John Carpenter (1978), "Friday the 13th" de Sean S. Cunningham (1980) e "A Nightmare on Elm Street" do próprio Wes Craven (1984); Craven traz-nos um filme que, ao mesmo tempo, renova e analisa esse mesmo esquema que orienta os filmes citados. Assumida que ficava a influência doentia do cinema na vida real, o filme resultava muitíssimo bem e não deixava de nos parecer uma boa maneira de contornar o bocejo em que o cinema de terror, em particular na sua variante slasher, se havia tornado.


Já nessa altura, "Scream" era-nos apresentado como uma trilogia e, portanto, prossegue em "Scream 2" em 1997 e "Scream 3" em 2000. Enquanto que a segunda parte ainda nos soava credível e uma continuação bastante inteligente das questões apresentadas no primeiro filme, a terceira parte era já de si bastante inusitada e seriamente mal-resolvida, ainda que, num ou outro aspecto, conseguisse continuar as mesmas problemáticas da fronteira entre o cinema e o real.






Oito anos depois de encerrada a trilogia, Wes Craven vem anunciar que, afinal, haverá um "Scream 4". Tendo em conta a qualidade duvidosa do terceiro capítulo e a contradição que uma terceira sequela representaria, seria de ficar alarmado em relação a ela; mas sempre se dava o benefício da dúvida por se entender que o elenco principal integraria mais este filme: Neve Campbell como Sidney Prescott, Cortney Cox como Gale Weathers e David Arquette como Dewey Riley.


No entanto, chegados a 2011, o filme estreia finalmente, e diga-se de passagem que o facto em si é uma infelicidade.


A película abre com várias cenas dos filmes "Stab", adaptações cinematográficas dos crimes de Woodsboro (Relembre-se que "Scream 3" se passava na produção de um desses filmes.), cada uma mais ridícula do que a outra, com imensos clichés. Quando, finalmente, temos o início de "Scream 4" propriamente dito, a coisa não corre melhor. Para cena passada "no real", Wes Craven escolhe uma sequência absolutamente dejá-vu, que repete um pouco a maneira como morria Tatum Riley (Rose McGowan) no primeiro filme.


Assim, enquanto Ghostface parece estar de volta, Sidney Prescott acaba de lançar "Out of Darkness", a sua autobiografia, e vem apresentá-la a Woodsboro, a sua terra natal, precisamente no aniversário do massacre de que ela fizera parte.


No lançamento do livro, encontra os seus velhos amigos, o casal Gale Weathers e Dewey Riley, que se encontram já a par do duplo homicídio que ocorrera.


Desta vez, no centro de tudo, encontra-se a prima de Sidney, Jill, que é aluna no colégio da cidade. São as suas amigas que começam a ser assassinadas, duma forma que parece repetir o primeiro massacre.


"Scream 4" passa grande parte do seu tempo a analisar as regras de filmes de terror, quer de sequelas quer de remakes; mas o que no primeiro filme dava conta de um estilo e de um objectivo, neste filme não deixa de parecer uma auto-justificação que nunca seria necessária se o filme fosse bom.


É de notar uma enorme falta de criatividade quer nas mortes dos personagens, quer nas resoluções que o próprio filme procura, limitando-se a repetir de uma forma aborrecida não só aquilo que já vimos nesta saga, como aquilo que temos visto numa série de outros filmes: aqui temos as adolescentes mamalhudas que não trancam as portas de casa, o parque de estacionamento, a maratona de filmes de terror, os nerds, a questão estúpida da virgindade, etc.


Mais ainda, se há algo de perturbante neste "Scream 4" são os diálogos: nunca antes se viu nada de tão amador, parecendo conversinhas entre crianças, com mais de ridículo do que de aterrador.


As personagens também nos aparecem como um pouco desfiguradas: a escrita de uma auto-biografia parece-nos, inicialmente, um tanto fora de sítio em Sidney Prescott, ainda que depois isso seja suavizado. Mas a relação entre Dewey e Gale surge-nos com uma frieza completamente deslocada, Dewey praticamente não tem importância ao longo do filme; sendo que Gale ainda vai sendo aquela que, na continuidade, mais se parece consigo mesma. No entanto, o ataque que fazem à antiga jornalista no Stabathon parece completamente despropositado e também bastante vão, no sentido em que se percebe logo à partida que é um ataque mal-sucedido.






O final também não se nos afigura particularmente surpreendente. Nota-se um certo esforço para que assim seja, e até poderia, em parte, ter sido. Mas depois a quantidade de justificações estúpidas e irrealistas estragam tudo, bem como a repetição descarada do desenlace de "Scream 2". A personagem que se revela ser o assassino também não chega a merecer qualquer tipo de sentimento da nossa parte, senão o de uma profunda irritação, não nos parecendo mais do que um excesso de mimo, como uma criança que faz uma birra.


Neve Campbell e Cortney Cox continuam perfeitamente capazes de incarnar os seus personagens. Já David Arquette parece completamente apagado ao longo do filme, o que faz com que, nas suas poucas e ridículas aparições, não nos pareça mais que um atrasado mental.


Hayden Penattiere e Nico Tortorella estão bem nos seus papéis, que aqui surgem pela primeira vez, bem como Rory Culkin e Eric Knudsen também, sendo que estes dois têm papéis ligeiramente mais exigentes. Quanto a Emma Roberts, que tem afinal um papel central, a única coisa que há a dizer é que é pura e simplesmente má, parecendo sempre que está a tentar exageradamente, perdendo qualquer credibilidade.


Deste filme, creio eu, não se salva quase nada, senão algumas boas interpretações. Wes Craven realiza este filme com uma falta de jeito que é o que mais surpreende.


Fui vê-lo em nome dos meus anos de iniciação ao cinema de terror, mas acabei por me rir como se estivesse a assistir a uma comédia. É raro ver-se um filme tão ridículo.


O nome a fixar é o que Kevin Williamson, o argumentista. É esse o nome do homem a abater.


sábado, 30 de abril de 2011



Escassez (2)

Neste chão não dormimos e a
noite acelera-nos a vida tu
encostas ao incêndio
um fogo diferente

E nesta noite tanto como
na madrugada negra e clara fonte
no incêndio do chão desamparada
da amargura faz

o que diz quem
neste chão desta aridez dormiu de
dor e amparada esperança

um fogo tão diverso que dormimos
ao incêndio encostados
e vivos


Gastão Cruz

Escassez

1967, ed. autor

desenho de Rogério Ribeiro



Com Unhas e Dentes

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
e sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.




Luís Filipe Parrado

in "Criatura", nº5

Outubro de 2010


pintura de Frank Auerbach

Agustina Bessa-Luís: O Concerto dos Flamengos

OUVIR VOZES



Editado em 1994, "O Concerto dos Flamengos" é, a meu ver, um dos romances mais modernos e mais excepcionais de Agustina Bessa-Luís. As leituras que pode ter são inúmeras, desdobrando-se no plano romanesco, no plano histórico e, como sempre, no plano analítico e político, ainda que a escrita, subtil e nítida, nos possa enganar a pensar que se trata de um romance mais simples do que, na verdade, é.




Na linha da frente, encontramos três mulheres residentes em Lisboa, deslocadas aos Açores para assistir ao Concerto dos Flamengos, um evento anual que dura vários dias. Estas três mulheres são Luísa Baena, a sua prima Maria Vicente e a criada, Serpa.

Delas todas, a mais destacada será Luísa Baena e será através dela também que a história do Concerto dos Flamengos se cruza com a História de algumas figuras como Carlos o Temerário, Maximiliano e Isabel de Borgonha. O que cada um destes personagens representa são aspectos relacionados com o poder e com a ocupação geográfica, que, evidente, afectará também toda uma área cultural que aqui está também em análise.

Luísa parece mais interessada em ouvir, em "dialogar" com as suas figuras históricas do que propriamente em ouvir o Concerto. No entanto, a sua presença no evento é, também ela, sintomática de alguma coisa: porque, acima de tudo, o Concerto dos Flamengos parece ser símbolo de uma Europa culturalmente fracturada, incapaz de compreender a importância das mudanças do tempo que, em último caso, dependem directamente das mudanças de poder. A presença dos flamengos no século XVI nos Açores deixou muitas marcas, a maioria das quais nunca verdadeiramente chegou a ser apagada, convivendo confusamente com o tempo real do romance, que é a transição dos anos 80 para os anos 90.

Assim sendo, Luísa apresenta as suas reações ao espectáculo, sendo particularmente rígida para com o ragtime, em que o músico japonês toca Gershwin de uma maneira personalizada. É de notar que essa interpretação que, para Luísa, é também uma deturpação é tocada por um músico cujo nome nem sequer sabemos, sendo apenas referido como "o japonês do ragtime".

Luísa tem, mesmo assim, vários motivos para tentar entender as relações entre cultura e poder, motivos acima de tudo pessoais, que remontam à sua infância em Nevogilde Park, no Porto, onde ela já apresentava dificuldades em lidar com o poder, neste caso exercido pela mãe e pelo avô Baena. É assim que, aos 18 anos, Luísa tem uma tentativa falhada de fugir do país com um marinheiro, acabando por, depois, ir para Itália estudar canto lírico, carreira que, também ela, é falhada. Assim, ela acaba por se casar com Xavier, descendente da família dos Jornada Branca, que tem várias ligações com a resistência ao regime, acabando por arrastar para essa luta Luísa, apesar do casamento conturbado que têm e que acaba em divórcio. No fundo, toda a vida de Luísa é baseada em confrontar-se com questões básicas como a sociedade, o poder, os códigos de comportamento, as éticas e as relações humanas. Será por isso que ela dá mais atenção aos fantasmas históricos dos Açores, que lhe permitem prosseguir nas mesmas questões, do que ao espectáculo pobre do Concerto.

Apesar de Luísa nos surgir como uma mulher "extraordinária demais para ser sincera" (p.130), também a vemos como uma espécie de heroína falhada, um tanto incompetente e incapaz de conseguir alguma coisa na vida. Acima de tudo, ela parece ter um sistema de referências culturais e políticas bastante abrangente, e é uma boa ouvinte: ouvinte da História e dos sistemas sociais.

É por isso que, nas suas divagações, ela tem visões do Cortejo de Maximiliano, que parece ser o foco da sua atenção, muito mais que o Concerto dos Flamengos. Talvez porque ela tem consciência de que esse espectáculo confirma uma cultura que não soube relacionar-se com o poder e com a História de maneira a sobreviver plenamente. Os músicos são ora difíceis de entender, ora verdadeiramente decadentes e de qualidade questionável.

Com o público passa-se a mesma coisa. A música é-nos descrita por Agustina como uma catarse de problemas de violência e de erotismo; e o público parece completamente inconsciente de questões artísticas, estando as pessoas presentes mais por pretensão do que por interesse cultural.

Outro elemento que nos evidencia este desfasamento é o comportamento da criada Serpa, cuja lealdade se prova através da maldade e de uma série de códigos de comportamento que, aparentemente, já ninguém segue.






Por fim, temos ainda a surpresa da chegada de dois personagens: Herberto, amigo de Luísa; e Clara Bulcão, uma velha rival da protagonista, que inclusivamente estivera envolvida com Xavier, depois do divórcio dele e de Luísa.

A Bulcão é-nos mostrada como "uma proxeneta com talento" (p.146). Esse talento é, acima de tudo, um talento de comunicação: ela tem o dom da palavra, é encantatória quando fala e até temível; mas, no fundo, percebemos que ela entende muito pouco do assunto de que mais fala, que é o da cultura.

É particularmente nas passagens sobre a Bulcão que Agustina mais revela a sua pena aguçada, descrevendo-a com uma deliciosa ironia que toca as raias da maldade.

A presença da Bulcão vem trazer ainda outra componente à fractura cultural com que "O Concerto dos Flamengos" nos vem confrontar. Ela parece representar uma precipitação, uma alteração demasiado acelerada nos valores e nas ideias, conquistando os seus ouvintes pela forma desabrida como se expressa, ainda que, tanto ela como eles, estejam longe de entender aqueles assuntos, que não raro se relacionam com a escrita, a poesia e o sexo; assunto este último que está mais ou menos implícito por todo o romance, como um problema que afecta directamente tanto o poder como a cultura (Os dois assuntos, afinal, centrais, neste livro.).

Herberto, por seu lado, representa um homem sábio mas apagado, bastante analítico e também bastante céptico, razão pela qual Luísa, ainda que lhe conte grande parte dos seus pensamentos relativos à História, se abstém inicialmente de lhe contar das suas visões do Cortejo de Maximiliano.

Também Herberto terá a sua palavra sobre a ocupação dos Açores pelos Flamengos e as suas repercursões no tempo actual, quatrocentos anos depois.

Quando deixam os Açores, depois do Concerto dos Flamengos, Luísa e Herberto acabam por planear um regresso, com o propósito de conseguirem ver de novo o Cortejo. O facto de irem, no fundo, em busca de uma alucinação, dá-nos conta de uma dimensão algo utópica (Que nos é referida na badana do livro, inclusivé.) que se faz sentir neste romance de Agustina. Ensaiando sobre um tempo que recebe uma cultura desfeita e incapaz de entender a sua relação com o poder, Agustina parece deixar-nos o caminho livre para repensarmos esta relação. Os dois personagens deste livro que melhor a percebem são também os únicos capazes de aceder a essa alucinação, descrita de uma forma magnífica, fazendo lembrar bastante o trabalho de Albrecht Dürer (É de lembrar que Agustina já trabalhara sobre este pintor em "O Apocalipse de Albrech Dürer", 1986.).

E será esta visão a ser realmente marcanta para Luísa, a mais definitiva; porque ela representa um todo, ao contrário do Concerto dos Flamengos, a que Luísa assiste fragmentariamente.

É, de facto, um romance com uma inclinação ensaística e politizada; paralelamente à apaixonante construção de pessoas a que Agustina sempre nos habituou. Porque se há coisa que "O Concerto dos Flamengos" consegue em todas as suas páginas, é ser apaixonante.


O Que é o Espaço?

O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível



Ana Hatherly

O Pavão Negro

2003, ed. Assírio e Alvim

desenho de Paul Noble

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Rosa Alice Branco: O Gado do Senhor

O texto que se segue foi escrito e publicado neste blog a 7 de Maio do ano passado, aquando da primeira edição de "O Gado do Senhor" (Espiral Maior), o mais recente livro de Rosa Alice Branco, que é agora, finalmente, disponibilizado para Portugal, numa edição &etc.


O ÓPIO E O POVO





Em 2002, Rosa Alice Branco reuniu num único volume, “Soletrar o Dia” (ed. Quasi), a sua obra poética desde 1988 (Ficando excluído o primeiro livro, de 1981, assinado com pseudónimo.). Desde então, dois poemas foram editados em edições de verdadeiro luxo gráfico pela Gémeo R, “A Palmeira de Kairouan” (2003) e “Amor Quanto Baste” (2005), sendo que o primeiro poema vinha já integrado na secção inédita “Soletrar o Dia” na edição da Quasi. Só em 2009, “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos” (ed. Quasi, incluindo “Amor Quanto Baste”.) vem quebrar este quase-silêncio de seis anos.





Uma leitura desse livro sugere aquilo que o mais recente “O Gado do Senhor” (2009, ed. Espiral Maior.), vencedor do prémio ibérico Espiral Maior e ainda não distribuido no nosso país, vem confirmar: “Soletrar o Dia” foi o momento mais apropriado para reunir a obra da poeta desde “Animais da Terra” (ed. Limiar, 1988), porque a poesia que Rosa Alice Branco publicou no ano passado nos vem demonstrar que está completamente renovada e, nalguns aspectos, até subvertida.
Sem querer aprofundar demasiadamente um olhar sobre a obra 1988-2002 (Que compreende sete livros.), uma das características que mais ressalta na leitura da mesma é a extrema luminosidade que se faz sentir nesses versos: é uma visão que procura a luz, a beleza e a simplicidade (Que melhor prova disto que a “pesquisa” sob a forma de poesia que é “O Único Traço do Pincel” (ed. Limiar, 1997)?), e que as procura usando de uma forma muitíssimo equilibrada a sensibilidade e a inteligência, não dispensando nunca o raciocínio, as associações de ideias e a importância do pensamento e da reflexão. É também uma poesia em que nada é adquirido, tudo é continuamente questionado, codificado e descodificado, uma poesia que existe simultaneamente como elemento autónomo e elemento de ligação do individuo ao real e até às próprias palavras que constroem essa ligação, como vemos no caso de “A Mão Feliz” (ed. Limiar, 1994), onde Rosa Alice Branco explora as potencialidades do d(e)íticos.
Mas quando nos deparamos com “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos”, há características que se alteram e outras que surgem pela primeira vez. Talvez esse seja mesmo o livro mais “negro” de Rosa Alice Branco, um livro que mergulha profundamente nas problemáticas da morte, da ausência e do luto que, estando presentes nos livros anteriores, o estão agora de forma mais nítida. Também uma dimensão de algum pendor narrativo se faz sentir neste livro, logo no título completo, “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (Pensa Ela)”. Estes parêntesis surgem ao longo da maioria dos poemas do livro, e vão-nos dando indicações precisamente de reacções, comportamentos e estados de espírito face às referidas questões que são o cerne do livro.
Redondamente diferente, no entanto, é “O Gado do Senhor”. Se no livro anterior, e mesmo no seu título, poderíamos sentir uma ponta de ironia, a ironia é precisamente uma das principais linhas de força do mais recente livro de Rosa Alice Branco. Este livro é, no seu todo, uma grande sátira com as questões religiosas, mas evita esgotar-se nelas e estende-se para toda uma dimensão social, política e humana, sempre partindo do princípio que inevitavelmente estas são afectadas por aquelas.
Os títulos de alguns poemas aludem logo para este assunto: Parábola dos Talentos, Dia dos Mortos, Arca de Noé, Crescei e Multiplicai-vos ou Via Sacra, por exemplo. Além destas expressões de cariz cristão, a poeta utiliza ainda, em alguns poemas, citações de orações ou passagens bíblicas, tendo sempre o cuidado de as inverter e relacionar com universos exteriores ao catolicismo. Por exemplo em Prova da Existência da Alma:

“O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.”
(pag.35)

ou então em Sem Livro de Reclamações:

“No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.”
(pag. 48)

A visão de Rosa Alice Branco sobre a problemática aqui colocada, a do catolicismo e da sua influência sobre a vida de toda uma sociedade em que estamos incluídos, é bastante clara: não existe um deus que nos salve ou que nos origine e encaminhe. Além do mais, exclui completamente hipóteses da eternidade ou de ressurreição, o que já não é novo, visto que num dos poemas do seu primeiro livro, Rosa Alice escreve “A eternidade é só a demência do homem”. Mas esta é uma poesia altamente filosófica (Não fosse a poeta formada em Filosofia Moderna.), e portanto, não se limita a excluir a hipótese de deus. Oferece também alternativas. E se em termos de salvação, nada mais parece possível do que o amor, em termos e origem e de caminho a única resposta é a natureza. Interessa aqui relembrar o título do primeiro livro considerado da autora, “Animais da Terra”, que aliás surge agora como título de um poema. Se já nesse título poderíamos pressentir a leve ironia de nos admitir, a nós humanos, apenas como animais da terra, “O Gado do Senhor” vem colocar certezas nessa afirmação, exaltando a nossa relação com a natureza e, mais ainda, afirmar o poder da natureza sobre nós em vez do oposto, como vemos neste excerto de Água Mole em Pedra Dura

Mastigamos o solo na erva que nos pasta
(pag. 28)

ou no poema O Cão Que me Tinha de que transcrevo o início:

“Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber onde ia.”
(pag.15)

Em relação ao amor como salvação, Rosa Alice Branco opta por uma solução bastante interessante: transfere a adoração de um Deus para um ser humano, e para isso faz uso das expressões que usualmente manifestam a adoração pelo Deus. Serve de exemplo este excerto de A Alma na Boca dos Animais:

“(…)Vem depressa
beber o cálice sagrado. Escolhi um vinho e tanto
para a noite. Depois dispo-te a pele enquanto dizes:
toma-me, este é o meu corpo: eu sou
o meu corpo a caminho do teu. (…)”
(pag.41)

Por assim dizer, a tese que Rosa Alice Branco parece defender (Vigorosamente.) neste livro é que a ideia de Deus é fictícia, sendo que a única hipótese de sobrevivência para o animal da terra que é o Homem é aceitar a sua ligação intrínseca com a natureza, e procurar a plenitude através do amor e do desejo, que devem ser vividos através da natureza ( A “erva que nos pasta”.), funcionando isto numa espécie de círculo fechado Natureza-Homem-Amor-Natureza, um círculo fechado mas livre, porque um dos seus elos, o amor, para o ser, é necessariamente livre; o que funciona como contraponto à opressão religiosa, à falta de liberdade do catolicismo, que nos obriga à mea culpa, como lemos em Arca de Noé: “Tens que sentir a mea culpa que nos ensinaram.” (pag.42).






Como acima referi, “O Gado do Senhor”, mesmo centrando-se no assunto da religião, derrama-se também sobre outras problemáticas sociais e políticas, pois que tudo é político. Uma das que me parece abordada de forma mais pungente é a da morte. Aqui, não no sentido do luto e da ausência que encontrávamos no livro anterior, mas também ela ironizada, vista quer do seu lado burocrático, quer da visão que a religião apresenta sobre ela. Em Sem Livro de Reclamações, um dos melhores poemas desta recolha, lemos o seguinte:

“O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
(…)
A família e os demais continuam a correr aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.”
(pag.48)

Por outro lado, como disse, também a visão da religião católica sobre a morte é posta em causa neste livro. Em Receituário para as Almas lemos

“(…) Se a morte é falsa
deixa-te estar deitado. Tens um lençol de terra
e não precisas de acreditar em nada. Não é com desespero
que to peço. É mesmo por não valer a pena.”
(pag.23)

Aquilo que Rosa Alice Branco explora neste livro é um assunto explorado por já vários autores, mas creio que o faz com grande originalidade. Além das áreas acima referidas, a poeta questiona ainda a questão do sacrifício, do comportamento de fachada e do discurso ilógico que caracteriza o catolicismo. Sobre este, deixa ainda a sua máxima quanto à religião ser “o ópio do povo”:

“Como vês, a crença Nele é fervorosa e grande:
a medida exacta da nossa miséria.”
(pag.47)

“O Gado do Senhor” representa, penso, um enorme passo em frente em relação a “Soletrar o Dia”, não desprezando este, claro. E se um projecto desta natureza coloca sempre as suas dificuldades em termos de pensamento e de resolução poética, mais do que nunca, Rosa Alice Branco mostra-se muito competente no que toca a resolvê-las.

Poemas com Cinema

É sempre bastante complicado falar de antologias. Pessoalmente, são um tipo de livro que não me seduz. Por norma, são formas de os antologiadores reunirem em livro os amigos, ou os epígonos. Nada contra, se este fosse um critério assumido mas, por norma, as escolhas maioritariamente pessoais são dissimuladas com teorias e explicações que mais não são que uma fachada. Evidentemente, há excepções; tanto em antologias que, efectivamente, parecem ser feitas à revelia de questões pessoais (Ainda que seja impossível não haver alguma pessoalidade num trabalho desta natureza.) e são eficazes nos seus objectivos; quer em selecções que são assumidamente pessoais.




O primeiro caso parece-me ser o de "Poemas com Cinema", antologia lançada pela Assírio e Alvim em Novembro de 2010. Os antologiadores são Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo.


A ideia de uma antologia sobre a relação da poesia com o cinema não é propriamente inédita. Já em 1988 a Gota d´Água deu à estampa "O Bosque Sagrado- A Poesia no Cinema", organizada por Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães, que incluia poemas de autores portugueses e estrangeiros; como aliás é explicado no prefácio deste volume, "Antes do Filme".


No entanto, a edição de "Poemas com Cinema" parece-me, de alguma forma, mais rica no sentido em que, incluindo apenas autores portugueses, faz uma recolha mais intensiva da presença do cinema na nossa poesia, evitando assim ficar-se pelos casos mais evidentes, como acontecia um pouco com o livro da Gota d´Água.


Recolhem-se assim 92 poemas de 53 autores, que vão desde António Botto (n.1897) a Miguel-Manso (n.1979). Pelo caminho, ficam aqui poemas de grande parte dos autores mais relevantes nascidos entre estas datas (Excluindo alguns que, à partida, não terão escrito nada relcionado com cinema.); independendentemente de orientações ideológicas ou de questões geracionais, resultando, parece-me, numa selecção bastante abrangente, sem, no entanto, se tornar pouco selectiva.



De estranhar, para mim, é apenas o número escasso de poemas escolhidos de Ana Hatherly, de Al Berto e de Luís Miguel Nava.


No caso de Ana Hatherly, é-nos aqui mostrada a "Tisana 45" que é tudo menos uma má escolha mas, lembrando o livro da autora "Um Calculador de Improbabilidades" (2002, ed. Quimera), é estranha a não inclusão de um texto como "O Pastor em Imagens- Um Poema em Cinema", senão de outros em que a presença do cinema, não sendo tão declarada, é evidente também.


O caso de Al Berto, que conta com dois poemas, parece-me um caso de selecção excessiva, pois merceria mais alguns poemas, particularmente no capítulo entitulado "Filmagens" (Onde, mesmo assim, conta com um.).


Quanto a Luís Miguel Nava, encontramos aqui dois poemas de "Películas" a parece-me um pouco estranho que não encontremos nenhum fragmento de "A Inércia da Deserção", poema em prosa onde o cinema parece ser a linha orientadora. Entendo que esse poema apresentava algumas dificuldades de reprodução gráfica, mas isso seria contornável, penso eu.


No prefácio, os antologiadores explicam que "em lugar de privilegiar a quantidade (...) preferimos dar legibilidade às linhas que nos parecem mais estruturantes no diálogo da poesia portuguesa com o cinema." (pag.11). Esta é, sem dúvida, um boa opção mas, nos casos acima citados, parece-me que a inclusão de mais alguns textos teria sido uma boa aposta para precisamente explorar esse diálogo, particularmente no caso de Ana Hatherly.


O cinema português aparece-nos aqui abordado por Manuel de Freitas e Ana Paula Inácio (E, com muita boa vontade, Adília Lopes.) e, nesse aspecto, havia maneiras de incluir mais textos sobre cinema português, nomeadamente numa recolha tanto de livros da Cinemateca, onde encontramos dispersamente alguns poemas; como também através de outras antologias. À falta de outras que tenha mais à mão, a Asa editou em 2004 "Eunice", uma antologia de textos dedicados à actriz Eunice Muñoz. Teria sido uma boa ideia.


Além disso, é de sentir a falta de alguns outros poetas, dos quais me ocorrem, de momento, Isabel de Sá, especificamente o conjunto de poemas "Algumas Cenas" do livro "A Erosão de Sentimentos" (1997, ed. Caminho), poemas inspirados declaradamente em filmes; ou então de Eduarda Chiote, que utiliza o cinema como forma de escrita no livro "Travelling" (1983, ed. Oiro do Dia) e que é uma das autoras da antologia dedicada a Eunice Muñoz.


Um outro caso, este perturbante, é o de Regina Guimarães que, além das inúmeras referências ao cinema ao longo dos onze livros que publicou desde 1979, tem extensíssimo trabalho na área do cinema, quer na realização quer no argumento; estando assim colocada numa posição privilegiada neste "diálogo"; representando, portanto, uma falha imperdoável.


Outros exemplos poderiam ser os de Fernando Guimarães, algumas prosas poéticas de Maria Teresa Horta ou a proposta de Nuno Félix da Costa em "Cinematografias" (1998, ed. &etc).



Acima ficam os contras. O que esta antologia, mesmo assim, tem de muito bom, além da abrangência que assume; é também a atenção que dá aos textos dos poetas. Quero com isto dizer que esta antologia vai bastante além das referências declaradas; e tem a subtileza de encontrar textos "Onde o cima se insinua" (Título de uma das secções.), que se trata acima de tudo de encontrar uma "sensibilidade" em que a poesia se aproxima do cinema. Aqui encontramos alguns surpreendentes poemas de Carlos de Oliveira, de António Osório e de Rui Lage, onde se percebe bem como as características da sétima arte podem ser transpostas para a poesia.


Como consequência natural deste capítulo, surge-nos ainda o das "Filmagens", outra secção onde encontramos alguns textos inesperados.


Por assim dizer, as primeiras três secções, àparte as faltas acima indicadas e eventualmente outras, são realmente uma boa recolha de poemas que se referem especificamente a cinema; mas são as duas últimas secções que me parecem as mais interessantes da antologia e, consequentemente, as mais meritórias para os antologiadores.

terça-feira, 26 de abril de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um poema

Para mim o teu corpo está sepultado
debaixo desta cidade. É a dor
que me faz sentir assim
por saber-te incapaz de amar.

O corpo deambula sem prender
a si o coração. Há o choro
submerso no olhar, a tristeza
que surpreende. Exilada de ti própria
hás-de acabar sob a medonha luz
e 0 rosto é já esse cadáver ou flor
apodrecida. Os lábios perfeitos
desenhados a pincel
são minúsculas fatias de carne
amortalhada.

Agora sou eu e não sou
enleada nas cinzas do passado,
no amor inútil que te dei.


Isabel de Sá

O Brilho da Lama

1999, ed. &etc

fotografia de Izima Kaoru


O Minuto e o Tempo

Este pequeno durar oculta numa lâmina
este tempo.

Pela carícia da pele,
nos interstícios
dos poros, a matéria
chora: a vida, essa irrecuperável doença
apunhala-a.

Quem se apercebe
de um tal crime? O Universo?
Mas que outra coisa ele não representa
a não ser um campo de funestas
delícias
onde os sinais da escassez
marcam
em cada minuto de expansão
um pensamento de morte?

A respiração,
esse imperdoável descuido
do nosso coração
desatento?



Eduarda Chiote

A Celebração do Pó

2002, ed. Asa

fotografia de Ralph Eugene Meatyard

Uma canção para o dia de hoje



Tori Amos: Father Lucifer