Elas hão-de recompensá-los, não com jogos eróticos, mas tortilhas de camarão e sopas de alho francês. Que há mais luxúria num prato de lentilhas, do que nas confissões duma freira.
Finalmente, chega-nos às mãos o quarto álbum de originais dos The Gift. O último, "AM-FM" era de 2004, e neste hiato de sete anos, os The Gift lançaram ainda "Fácil de Entender", um CD-DVD ao vivo, que fazia uma espécie de apanhado de algumas das melhores canções desde "Vinyl", de 1998. Estava visto que esta colectânea expressava uma certa vontade de iniciar um novo ciclo, que se sentia já nos dois inéditos que tínhamos no álbum ao vivo, "654" e "Nice and Sweet".
O projecto Amália Hoje reuniu Nuno Gonçalves e Sónia Tavares a Paulo Praça e Fernando Ribeiro. É discutível a qualidade desse álbum, porque além do álbum em si, houve todo um aproveitamento dele que em muito condiciona a percepção que se poderá ter dele.
Ainda assim, é em tempo-record que nos chega este "Explode". E, logo a começar pela capa, vemos que definitivamente, alguma coisa mudou.
Ainda que pessoalmente eu ache a capa muito desagradável, sendo objectivo, penso que ela dá testemunho da nova fase que agora se inicia para os Gift. A sessão fotográfica, feita na Índia, dá-nos conta de um universo colorido ao ponto do fantasioso e, de certa forma, hedonista.
Quando começamos a ouvir "Let It Be By Me", percebemos a ligação entre a capa e a atmosfera que se ouve. Estes não são os Gift que tocavam "Me, Myself and I" nem "11:33", e também não são os Gift que ouvíamos em "Wake Up" ou "Real (Get Me For)".
Independentemente disso, a qualidade e a entrega que se sente nestas canções é a mesma de sempre: total.
A primeira coisa que se sente é que a música dos Gift nos surge simplificada. O álbum parece ser mais baseado no trabalho dos quatro músicos da banda e do baterista, Mário Barreiros. Desaparecem os arranjos de cordas tocados por uma orquestra, a que já nos habituáramos desde "Vinyl" mas que, de certa forma, era uma tendência já um pouco contrariada pelo lado FM de "AM-FM".
Mesmo assim, a aposta na electrónica mantém-se firme, sendo esta a estrutura de todas as canções. Paralelamente, ouvimos aqui mais guitarras e mais piano acústico do que ouvíamos habitualmente. Esse lado é particularmente claro em "RGB" ou "Mermaid Song".
Outra tendência que parece clara em "Explode" é a inclinação para o rock, se, de certa forma, mesmo sendo as canções mais alegres dos Gift, mesmo assim têm algo de realmente explosivo, de pesado, que tem mais a ver com o rock. Este lado é também claro nas canções menos frenéticas, como é o caso de "The Singles" ou de "Race is Long".
"The Singles" parece-me ser uma das canções centrais deste álbum. Será talvez a que mais perturbação nos causa. A construção é irrepreensível, com mudanças de ritmo constantes e fundindo sonoridades diferentes, além de ser o exemplo de uma excelente letra, da autoria de Sónia Tavares.
A meio do álbum, e depois dos quase treze minutos de "The Singles", encontramos o lado mais calmo de "Explode". Primeiro, com "Primavera", uma balada cantada em português, tornando-se assim a terceira canção dos Gift em português (Sendo as primeiras "Ouvir" e "Fácil de Entender".), que é particularmente eficaz no sentido em que consegue fundir uma melodia algo triste com um ritmo aparentemente dissidente, mas que, como bem vemos, acaba por não sê-lo. Depois, "Aquatica" continua esta linha, fazendo até lembrar outros tempos dos The Gift, mais barrocos e, neste caso, com um certo sabor a chanson, o que não deixa de ser surpreendente.
"My Sun", que se segue, retoma o lado de mais frenesi. Além disso, faz-nos também perceber algo: este álbum dos The Gift não vem do nada, já anteriormente houve indícios de que eles seriam capazes de um álbum assim. "My Sun" vem precisamente recordar alguns desses momentos, como fossem "An Answer" ou "Red Light", ambos de "AM-FM" ou "Clown" e "Question of Love", que encontramos em "Film". Nesta canção, é ainda de notar um certo e tímido retorno aos arranjos de cordas, ainda que aqui sejam sintéticas. Acontece um pouco por todo o álbum, o que é óptimo porque, para o bem e o mal, os Gift estarão sempre um pouco associados a um tipo de música mais complexo, mais barroco, se quisermos e o facto de aparecer aqui, significa que nada disso é impossível num álbum que se quer mais festivo.
"Suit Full of Colours" é outra das canções serenas de "Explode" e, eventualmente, a mais simples de todas. A canção em tudo se aproxima daquilo que são os The Gift em palco, e "Fácil de Entender" é disto particularmente um bom exemplo. E uma vez mais aqui vemos que os Gift não precisam de abdicar do lado grandioso da sua música, esse sim, verdadeiramente explosivo desde sempre.
A fechar, encontramos "Always Better If You Wait For The Sunrise", que, além de uma das melhores canções deste álbum, parece ser uma das melhores dos The Gift. Representa realmente um trabalho de uma banda de cinco músicos por si só, e capazes de criar uma canção assim tão hipnotizante e verdadeiramente perfeita. E, uma vez mais, palmas para a letra de Sónia Tavares.
À primeira vista, em "Explode" parece mais fácil apontar influências aos Gift do que nos anteriores. Parece-nos ouvir aqui qualquer coisa de Arcade Fire, de Clap Your Hands Say Yeah ou até de alguma coisa dos Kings of Convenience (É de assinalar que o produtor deste álbum, Ken Nelson, trabalhou com estes últimos.). No entanto, ouvindo o álbum segunda vez, percebemos que essas influências, podendo ocorrer-nos quase intuitivamente, na verdade não são tão garridas como poderia parecer. É facto que este é, até à data, o álbum mais trendy dos The Gift. Mas, se bem ouvido, percebemos que não é tão fácil como possa parecer. Por um lado, ele tem algo daquilo que se passa na música alternativa em geral, mas, por outro lado, não deixa de soar também como uma espécie de reacção, ou seja, como uma prova de que determinados conceitos podem ser utilizados sem significarem propriamente uma cedência ou uma perda de identidade. De facto, não há nem cedências nem perdas de identidade aqui.
Uma das coisas mais importantes para um músico é, a meu ver, a capacidade de não se repetir. É facto que "Explode" não vem repetir nada daquilo que os Gift têm feito, ainda que em algumas canções encontramos já alguns indicadores do que viria a ser este álbum. Por um lado, é sempre boa esta capacidade de reinvenção. Os novos Gift são, de facto, mais coloridos e mais "explosivos", mas há algumas reservas que, àparte tudo isso, tenho que colocar. A maior será, penso, esta: os The Gift têm como vocalista uma das melhores cantoras portuguesas. A voz de Sónia Tavares, goste-se ou não, é sempre um prato-forte da banda, quer pela força portentosa, quer pela invulgaridade. Pergunto-me se em algumas (Mas mesmo só em algumas.) canções de "Explode" a voz de Sónia não estará demasiado discreta. Talvez não seja bem assim, mas é facto que, de alguma forma, por vezes se sente falta daqueles delírios que ouvíamos em "Nowadays" ou "Cube".
Aparte isso, penso que "Explode" vem mesmo trazer algo de novo para os Gift, e algumas das suas melhores canções estão precisamente neste álbum. Fico curioso em relação à transposição para o palco. No Teatro Tivoli temos concertos hoje e amanhã e depois nos dias 25 e 26 de Março. A base é boa e eu confio que os Gift não vão desiludir em palco. Como sempre.
Textos de "Um Beijo Dado Mais Tarde" (1990) de Maria Gabriela Llansol, ditos por Regina Guimarães e cantados por Ana Deus. Guitarra de Alexandre Soares.
Hoje, 16 de Março de 2011, completam-se 18 anos desde a morte de Natália Correia, aos 69 anos. Sendo que o volume da poesia completa de Natália marca a minha primeira incursão pela poesia, não podia deixar de assinalar este dia.
Aqui ficam as capas do primeiro romance de Natália, de 1946, "Anoiteceu no Bairro", e o primeiro livro de poemas, uma edição de autor datada de 1947, "Rio de Nuvens".
Mais não será preciso de dizer, a obra de Natália fala por si mesma.
O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
Ela entra e diz-me
_Sim -diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: _Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
Na primeira época de "Masters of Horror", Stuart Gordon realizou um dos piores filmes que já vi. Falo de "Dreams In The Witch House", uma mistura muito duvidosa de Edgar Allan Poe com "The Amytiville Horror" que pura e simplesmente não conseguia evitar assemelhar-se a uma história para crianças e nem particularmente bem feita.
Na segunda época, Gordon traz-nos este "The Black Cat", onde a influência de Poe é assumida, visto que Poe é o personagem central do filme, que, não tendo nada de biopic, não deixa de se centrar na vida pessoal do escritor, em vez de num dos seus contos. Terreno pantanoso, portanto, principalmente se tivermos em conta que o mais provável é uma personalidade complexa e, em muitos aspectos, inexplicável como parece ter sido a de Poe, não caber numa média-metragem.
Infelizmente, essa suspeita com que podemos ficar ainda antes de vermos o filme, confirma-se nele.
Encontramos aqui Poe (Jeffrey Combs) em pleno bloqueio criativo, mas com necessidade de produzir, uma vez que se encontra praticamente falido, situação particularmente desesperante dado que a esposa Virginia (Elise Levesque) se encontra gravemente doente. Na mesma casa, vive ainda um gato preto que se demonstra bastante hostil para Edgar.
Este gato será, por um lado, razão de grande desequilíbrio para o escritor, ao mesmo tempo que acabará por lhe dar inspiração para aquele que viria a ser um dos seus contos mais conhecidos.
A tarefa que Stuart Gordon se auto-propõe é difícil, e a verdade é que o senhor não se mostra muito competente em resolvê-la da melhor maneira.
Em "The Black Cat", o que mais encontramos são cenas que surpreendem pela puerilidade, inaceitável num realizador com a experiência de Gordon. Serve de exemplo a cena em que Poe, tentando matar o gato preto, acaba por acidentalmente assassinar a mulher. Raramente em cinema vi uma cena tão mal aproveitada, tão desastrosamente filmada. Isto torna-se particularmente bizarro quando sabemos que Stuart Gordon já tem vindo a inspirar-se em Poe vezes e vezes sem conta ao longo do seu percurso, quer no cinema quer no teatro.
O mais difícil neste filme seria construir a personagem de Edgar Allan Poe. O Poe que aqui encontramos é excêntrico, de facto, mas parece sê-lo acima de tudo por incompetência, mostrando-se pouco mais que um bêbado ridículo e cheio de delírios estúpidos e ficamos com a sensação de que qualquer semelhança entre este Poe e o génio que o verdadeiro Poe foi, é pura coincidência. E qualquer caracterização da época não fica atrás da superficialidade com que o personagem central é tratado.
Uma vez mais, tenho que reconhecer que há realizadores que não distinguem o cinema de terror das histórias assustadoras que se contam às criancinhas para adormecer. Porque tudo aqui tem um lado muito infantil, mas que não soa a frescor, antes a falta de jeito.
Jeffrey Combs é parecido fisicamente com Poe, é um facto, mas a sua interpretação não vai muito além do óbvio e só contribui para desacreditar o filme.
Como se nada disto fosse suficiente, um final à conto de fadas e também muito mal resolvido coroa um filme que nada de interessante parece ter para dar.
Entre este "The Black Cat" e "Dreams in the Witch House", não me parece possível eleger um como o pior.
Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior para debaixo da cama. Guardas o coração ainda adormecido bem dentro do teu corpo e esqueces essa canção que já não passa na rádio mas que vive secretamente dentro de ti. Fechas a porta à chave com duas voltas e sais.
Os teus passos na escada fria soam ligeiros e apagam-se, perde-se o rasto, easy listening, guardas tudo para ti como um ex-DJ. .. Assim partes, quase a correr.
Parada junto à passadeira, protegida num gesto ledo fixas o olhar na sombra dos carros que passam. Esperas pelo Sábado, pelo Feriado e as suas pontes, pelas Férias para ouvires as tuas canções. Sentes-te longe, silenciosa de luz.
Agora que chegamos a 2011 e que a década entre 2000 e 2010 terminou, penso que é uma boa altura para falar daquele que me parece ter sido o melhor filme de terror produzido nesse período. Refiro-me a "Session 9" de Brad Anderson.
O único filme capaz de ombrear com este será "Jeepers Creepers" de Victor Salva. Ainda que este seja, como disse, um grande filme, parece-me que, pela sua subtileza, "Session 9" consegue ser melhor.
Relativamente à história, ela é, em parte, baseada em factos verídicos. Trata-se do Asilo Psiquiátrico de Denvers, Massachussets, aberto em 1878 e fechado em 1984. Na realidade, muitos afirmam que foi neste hospital que se desenvolveram as lobotomias pré-frontais, bem como uma série de outros métodos utilizados para o tratamento de doenças mentais. No filme, acrescenta-se a história particularmente tétrica de Patricia Willard, que iniciou um escândalo cujo desenvolvimento custou ao hospital o encerramento.
O edifício propriamente dito, projecto da autoria do arquitecto Nathaniel Jeremiah Bradlee, existe efectivamente, e o filme foi rodado aí mesmo. Acrescento que o filme, feito em 2002, é uma boa oportunidade de apreciar o edifício, que em 2006 foi demolido parcialmente, encontrando-se agora em reabilitação.
Tudo isto aponta-nos já uma interessante característica deste filme. Ele é feito com meios muito parcos: uma equipa muito pequena, com poucos actores, e, maioritariamente, sem utilização de cenários feitos especificamente, utilizando-se nas mais das vezes cenários reais.
A história propriamente dita começa quando a câmara de Denvers se mostra interessada em reabilitar o asilo. Gordon Fleming (Peter Mullan) é o dono de uma pequena empresa de remoção de amiantos, que se encontra perto da falência. O seu desespero é em muito enfatizado pelo facto da sua filha bebé sofrer de meningite e precisar de tratamentos. Assim sendo, consegue o trabalho, a partir da promessa de um trabalho eficaz e executado em apenas uma semana (Incrível para um edifício de tão grandes dimensões.).
Da sua equipa fazem parte Phil (David Caruso), Hank (Josh Lucas) e Mike (Stephen Gevedon), aos quais se junta ainda Jeff (Brendan Sexton III), o sobrinho de Gordon, contratado pela necessidade de trabalho rápido.
Desde a primeira vez que entra no asilo, Gordon ouve uma estranha voz, que o cumprimenta e lhe pergunta se o consegue ouvir.
À medida que o trabalho se inicia, cada um dos elementos da equipa vai encontrando pequenas distrações: Hank descobre acidentalmente um compartimento secreto onde estão guardadas grandes quantidades de moedas de ouro e prata, bem como outros pequenos objectos de valor. Por seu turno, Mike, que deixou a meio o curso de Direito mas se mostra um intelectual, foca o seu interesse numa pequena dependência de um consultório, onde encontra uma caixa com 9 sessões gravadas em fita sonora de uma paciente chamada Mary Hobbins. Utilizando o gravador que está ainda no consultório, Mike vê-se perante um caso de esquizofrenia, em que a paciente estaria possuida por três espíritos: Billy, a Princesa e Simon. Ao longo das sessões, intervêm Billy, que diz viver nos olhos porque vê tudo; e a Princesa, que diz viver na boca, por ser ela quem fala. Simon mantém-se silencioso. O objectivo do psiquiatra parece ser que um deles conte em voz alta o que se terá passado numa noite de Natal em Lowell, algo que terá sido suficiente para que Mary fosse internada e de que a própria não tem consciência.
A tensão vai crescendo entre os personagens pois todos, de uma forma ou outra, se sentem pressionados pelas condições em que estão a trabalhar e um certo ambiente de loucura se cria, principalmente a partir do momento em que Hank desaparece sem explicações, depois de durante a noite ter invadido o asilo para recolher os valores que havia encontrado, sem que se perceba sem se foi ou não atacado ao sair.
Com todas as situações estranhas que vão acontecendo, Mike parece ganhar a convicção de que o que se passa presentemente está de alguma forma relacionado com o caso de Mary Hobbins.
Esta tensão vai crescendo, até ao ponto em que finalmente ouvimos a nona sessão, em que Simon conta o que sucedera na tal noite de Natal em Lowell.
O esquema da história é na verdade bastante simples, apostando sempre que possível numa descoberta progressiva dos factos, que nunca parece inusitada e que é bastante eficaz em enredar-nos na tensão criada entre os personagens.
Ao mesmo tempo, há que louvar a inteligência visual de Brad Anderson. Grande parte do medo gerado pelo filme prende-se com a escolha de planos arrepiantes do edifício, do seu abandono e da sua degradação. Parecemos ser continuamente levados para espaços inóspitos e glaciais, de uma solidão impressionante como se todos tivessem dali fugido de uma só vez, deixando tudo para trás. Aqui, tudo parece ser pensado ao pormenor, desde a luz ao tempo de cada plano. A criação de momentos aflitivos, como a cena em que Jeff, que sofria de uma nictofobia severa, corre por um estreito corredor enquanto as luzes se apagam rapidamente, é também significativa, capaz de nos suspender a respiração. Mais ainda, o prato-forte deste filme é o plano que vemos repetidamente da cadeira de forças ao meio de um corredor. É um excelente exemplo da sensibilidade de Brad Anderson, pois aquela cadeira evidentemente deslocada, causa em nós a dúvida de como ela terá ido ali parar, porque ali ficou, acrescido ao facto de a cadeira em si representar já uma situação aflitiva, pois seria utilizada para controlar pacientes violentos. Brad Anderson, como poucos realizadores, sabe tirar partido do espaço e, neste caso, como o espaço era real, Anderson tem uma perspectiva quase arquitectural sobre ele, sem abdicar de uma grande sensibilidade, sabendo o que cada espaço pode suscitar no espectador que a ele assiste filmado. Quando lemos no cartaz do filme a epígrafe "Fear is a place", isso não é gratuito. E, penso, uma das preocupações de Anderson neste filme foi filmar esse sítio que é o medo.
Outra coisa que tenho que louvar a "Session 9" é a total recusa de todos os recursos para agarrar o espectador: não temos cenas de sexo gratuitas e, mais impressionante ainda, não há no filme uma única cena realmente gore. Brad Anderson e Stephen Gevedon, autores do argumento, conseguiram definitivamente tornar o filme encantatório pelo que fica subentendido, pelo que não é mostrado, pelo que fica claro sem se mostrar. Esse é um difícil logro. Quase não há sangue neste filme.
A música, composta pelos Climax Golden Twins é também um elemento essencial para este filme. Ela é minimal e arrepiante, altiva mas não fria.
Por fim, tenho que evidenciar determinadas subtilezas que o argumento suscita. Em primeiro lugar, relativamente à audição da nona sessão. Se repararmos bem, nenhum dos personagens chega a ouvi-la, apenas nós chegamos a ela: ou seja, de facto, nunca nenhum dos personagens chega a entender concretamente o que se passa naquele lugar. E, quanto ao conteúdo, ele aposta também muito na ambiguidade: quem acreditar em possessão, encontrará aqui um caso particularmente cruel da mesma. Quem não acreditar, tem ainda a opção de que tudo é resultado de uma doença mental. Seja qual fôr a crença do espectador, este filme não depende dela, ou seja: ao contrário do que costuma acontecer neste tipo de filmes, se não acreditarmos em demónios e espíritos, o filme continua a fazer sentido; e nem sequer perde a capacidade de nos assustar pois, seja qual fôr a causa dos acontecimentos, o resultado é arrepiante e violento.
O final do filme é pura e simplesmente desconcertante e, uma vez mais, ambíguo. Ficamos a sentir uma espécie de angústia, que nos dá uma dimensão da solidão humana e do desespero. Mais ainda, a frase final de Simon, dita enquanto vemos o edifício em planta, é digna de ficar marcada dentro de nós, pois tem no fundo tantos e tão horríveis sentidos.
Interessa ainda referir isto: na verdade, o corte original do filme tinha mais 40 minutos, que acabaram por ser cortados. Ao que pude averiguar, existiam duas histórias secundárias neste filme: a de uma velhinha que estivera internada no asilo e que, tendo conhecido Mary Hobbins, reconhece o espírito de Simon num dos personagens e o persegue, com o intuito de o matar; e uma outra, relativa a um espírito maligno que habitaria ainda as paredes do edifício. No trailer que abaixo deixo, existe uma cena que, por descuido ou de propósito, não faz parte do corte final do filme: uma sala com ossadas dispostas em hemicírculos. A versão americana do DVD, ao contrário da portuguesa, tem como extra esses quarenta minutos e, certamente, será uma das minhas compras futuras. Claro que um filme assim passou despercebido, até porque esteve sempre fora dos circuitos comerciais habituais. No entanto, penso que a passagem do tempo mostrará que "Session 9" é realmente um filme único e raro. Isto para quem tiver estômago para o ver mais vezes, que não parece ser o meu caso.