
sexta-feira, 11 de março de 2011
Autocrítica II

Apalpa um violino
com teus dentes.
Corrige a corriqueira
soma dos acordes.
Medicamenta o mundo.Ó bruxo semanal
com teus abutres, teu mocho
dado à gula dos mistérios,
quem paga esta consulta?
quem sobe, arfando, os degraus
da febre? Teu beijo muge
a tua boca sangra
o teu pescoço azul
desponta no meu peito.A esta hora exacta
os deuses
parem
em lugares recônditos.
Seus ovos lentos
crescem
no coração dos tontos.Refreias toda a fala
sustenida
e os campos taciturnos
nem se movem.
Ó mago indolente
entre os meus dedos.Cabrito pouco astuto
em devaneios. Os animais famintos
Com seu crespo ondular
Percorrem-te os inventos,
E nós,
Os instrumentos.
A rede musicada
Das tuas mãos de merda.
Armando Silva Carvalho
Os Ovos d'Oiro
1969, ed. Dom Quixote
fotografia de Man Ray
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Armando Silva Carvalho,
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Fotografia,
Man Ray,
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Poesia
Canções Para R.C.

I
Com uma ruga
interrogaste a morte
.
sem desviar os olhos
viste-a lançar os dados
e decidir a sorte.
II
Era a casa das flores.
No corredor
choravam as mulheres.
Não sabiam porquê.
Era tarde?
Era cedo?
Era a casa do medo.
III
Já não perguntas
já sabes.
De noite a fada madrinha
vem trazer a luz da vida.
Só de noite,
não de dia.
não de dia.
De dia fica escondida
porque a luz é pequinina
IV
Ao longe na floresta
o riso dos irmãos
pequeno brilho
de ouro
não é uma clareira
é a fresta rasgada
na pupila dos olhos.
Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
2002, ed. Asa
2002, ed. Asa
pintua de Edvard Munch
sobre
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Edvard Munch,
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Poesia,
Yvette K. Centeno
Massive Attack: Heligoland
KAFKA PASSOU POR AQUI


Surgidos em 1991 com "Blue Lines", os Massive Attack acabariam por se tornar uma das bandas mais influentes da década e também uma das mais originais. O álbum de estreia mostrava-nos uma interessante fusão entre um experiementalismo electrónico com soul, gospel e hip-hop, uma mistura que parecendo quase impossível, acabou por se revelar verdadeiramente revolucionária, particularmente pelas participações de Shara Nelson, que entretanto não voltou a cantar com a banda, que não tem vocalista fixo.
"Protection" (1993) levava essa mistura a um outro nível, mais denso, com participações de Tracey Thorn e Nicolette absolutamente inesperadas. Para muitos, a maturidade chega com "Mezzanine" (1998), onde os Massive Attack decidem enveredar pela electrónica, ainda que por vezes a articulem com instrumentos acústicos. Para a história fica "Teardrop", que contava com Elizabeth Fraser na voz, além de outras canções não menos merecedoras de atenção, como "Angel" (Voz de Horace Andy) ou "Dissolved Girl" (Voz de Sara Jay).
E se "Mezzanine" foi aceite por unanimidade, já "100th Window" (2003) caiu muito mal a muita gente. A decisão da electrónica conhece aqui uma garrida plenitude. O álbum, que conta com Sinead O'Connor como vocalista em 4 das canções, é denso, atmosférico, violento e indubitavelmente bizarro. Bizarro de mais para muita gente. Para mim, "100th Window" é um dos melhores álbuns dos Massive Attack e também um dos mais nítidos.
Ao mesmo tempo, é também um álbum que vem fechar um ciclo, por ter levando os conceitos ao extremo, e que exigiria aos Massive Attack um certo tempo de reflexão sobre que caminho tomar agora.
Em 2008, "Collected" vem antologiar o percurso iniciado em 1991, acrescentando uma ou outra canção nova, das quais se destaca, evidentemente, "False Flags".
Foi pouco tempo depois do final da digressão de "100th Window" que a banda começou a trabalhar no seu quinto álbum. Já havia sido anunciado à imprensa com o título "LP5", depois como "Weather Underground", e é sabido que várias canções chegaram a ser gravadas com as vozes de, entre outros, Elizabeth Fraser, Terry Callier, Beth Orton, Mos Def, Feist, Alice Russel e Tom Waits.

Em 2010, o EP "Splitting the Atom" vem já anunciar o lançamento do álbum, que por fim chega, com o título definitivo "Heligoland".
Sete anos depois do último álbum, finalmente temos em mãos o novo. Demorou-me bastante até conseguir lidar com ele e escrever este texto.
"Heligoland" é um álbum não muito fácil de compreender. Ou melhor, ainda que ele tenha um tipo de sonoridade que, por mais que se estranhe, nos consome, é preciso ter em atenção o que ele significa em contraponto com tudo o que os Massive Attack têm feito até ele.
Começa com "Pray For Rain", que nos traz na voz Tunde Adebimpe, o vocalista dos TV on the Radio. Percebemos imediatamente que "100th Window" ainda tem aqui presença. Há aqui uma densidade electrónica que é, definitivamente, a decisão dos Massive Attack, e que, ao que parece, está para ficar. No entanto, "Heligoland" aposta bastante mais do que o álbum de 2003 em instrumentos acústicos, numa percussão fortíssima e em arranjos de cordas a dar o outro lado das canções, mais sinfónico e menos agressivo.
"Pray For Rain" é desde logo uma das melhores canções de "Heligoland", e também uma excelente introdução, pois sintetiza um pouco todos os conceitos que encontraremos nas restantes canções.
A percussão volta a ser prato forte de "Babel", com a voz de Martina Topley-Bird. Percebemos como de facto estas músicas são bastante livres, vagueando em mudanças de ritmo e de esquemas de instrumentos.
Neste álbum, o ritmo torna-se mais marcado, tendo um papel quase estrutural, como vemos acontecer em quase todas as canções.
Aqui, regressam também as guitarras eléctricas que já há muito não ouvíamos aos Massive Attack. Outra questão é que este álbum retoma também uma certa experimentação a nível electrónico. Disto é exemplo particularmente evidente "Flat of the Blade" que faz uso de vozes sampladas, a fazer um pouco lembrar o "Medulla" de Björk.
Horace Andy, que tem sido o vocalista sempre presente dos Massive Attack tem aqui também as suas melhores interpretações desde "Angel", em "Splitting the Atom", onde canta ao lado de 3d e de Daddy G, e em "Girl I Love You".
"Girl I Love You", que é outra das melhores canções de "Heligoland", é também aquela onde sentimos mais a presença de "100th Window". Mas é também aqui que percebemos a volta que a banda deu aos conceitos desse álbum, pois aqui se nota que a densidade electrónica se inclina muito na direcção do rock, o que não acontecia em 2003.
Portanto, ainda que o ponto de partida possa ser o mesmo, a finalidade é outra. Em "Paradise Circus", o single de avanço, que tem Hope Sandoval na voz, mostra-nos precisamente essa finalidade. É uma canção onde, uma vez mais, a estrutura é ditada pela percussão, mas, utilizando linhas de piano repetitivas e incisivas, vai caminhando sempre no sentido de algo de pesado, terminando depois numa explosão orquestral. É uma canção difícil, apesar de tudo; e que nos mostra os novos Massive Attack, que procuram um equilíbrio entre o peso da electrónica e as potencialidades infinitas do lado acústico.
"Rush Minute", que conta com a voz arrastada e sussurrante de 3D, parece ser uma continuação de "Paradise Circus". E também a prova por A+B desta inclinação para o rock, uma vez mais conseguida através da articulação electrónica-acústica. Uma das canções mais pesadas do álbum, e também uma das mais conseguidas.

Se os Massive Attack foram sempre definidos, muito a custo, como trip-hop ou mais simplesmente, alterantiva, penso que "Heligoland" nos empurra um pouco mais para uma espécie de electro-rock e é esse um dos maiores logros do álbum.
"Saturday Come Slow", com a voz de Damon Albarn é literalmente uma continuação de "Rush Minute" vem confirmar aquilo que digo.
Ouvindo estas três canções em particular, percebemos que estamos muito muito longe de "Protection" ou de "Mezzanine". É importante que isto se perceba, uma vez que os Massive Attack acabam por ser perseguidos pelo seu passado. São autores de alguns dos melhores álbuns dos anos 90 e 2000, e as pessoas acabam por esperar deles determinado tipo de coisas. E eles mostram que a qualidade do passado mais não representa que uma fasquia. Não se deixam prender nem fazer mais do mesmo. Talvez "Heligoland", na sua agressividade, não caia bem a quem ainda não esqueceu "Teardrop", mas isso é já um problema de quem ouve.
A canção que me parece mais amarrada ao passado, ainda que não no sentido de ser uma simples repetição, é "Atlas Air", mais uma cantada por 3D. Nela sentimos uma certa influência de "100th Window", mas também de "Blue Lines". Para começar é surpreendente que se consiga na mesma canção aludir a álbuns tão distintos. Mas isso só vem provar que, de facto, as raízes daquilo que é "Heligoland" existiam já, e era uma questão de tempo até que se desenvolvessem desta forma.
As letras andam dentro do estilo de sempre, vagas e com uma certa secura, mas, de alguma forma, incisivas.
Em 2008, na altura de "Collected", assisti ao concerto dos Massive Attack no Coliseu do Porto, que terminou com uma longa canção, cantada por Elizabeth Fraser, anunciada como uma das integrantes do álbum ainda inédito. Essa canção não faz parte do corte final, o que é pena, visto que me pareceu realmente muito boa. No entanto, há que admitir que a impressão com que fiquei dessa canção está muito presente em "Heligoland". Ficaremos sempre a perguntar-nos como seriam as canções excluídas.
Mesmo assim, com as poucas que tem, "Heligoland" revela-se um álbum de forte personalidade e, afinal, um dos melhores dos Massive Attack. É uma drástica e bem sucedida metamorfose ao mais alto nível kafkiano e só por isso, merece já um aplauso.
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Massive Attack
O Antes Peso da Cinza

no tempo em que os animais falavam
ficávamos ímpares de monotonia
na margem.
o barqueiro das evidências depunha-nos aos pés mais um morango cinzento
que nos dizia ainda respeito na espera e na maternidade desconhecida.
sob a sebe de damasco amarelo e dourado da orla da colina
os carteiros descreviam arcos de sub-nutrição e de paixoneta
ferindo os tímpanos da chuva com o embrião da roda da bicicleta suprema.
enquanto flatulentos flirtavam tubarões na tranquilidade.
por mais que não nos queiramos impedir
assiste-nos a dor:
a tampa do bule tem a sua circunferência,
na tampa do bule reproduz-se o lírio das tuas nádegas fumegantes.
assiste-nos anterior a ânsia.
Regina Guimarães
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Hélastre
desenho de Henry Moore
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Regina Guimarães
quinta-feira, 10 de março de 2011
Agustina tem destas coisas... (19)
A verdade é que eu sofro demais para não ter talento.
.
.´
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de "O Susto" (1958)
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.´
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de "O Susto" (1958)
Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
15/10/1929
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
15/10/1929
Fernando Pessoa
Poemas de Álvaro de Campos
fotografia de Ralph Eugene Meatyard
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Ralph Eugene Meatyard
quarta-feira, 9 de março de 2011
Um poema

Deus enrolava-nos vagarosamente
para acabarmos entre os seus dedos.
A esse seu prazer chamou tempo
e onde havia dor nasciam cigarros.
Pensou no fogo como sendo belo
de modo a morrermos maravilhados.
para acabarmos entre os seus dedos.
A esse seu prazer chamou tempo
e onde havia dor nasciam cigarros.
Pensou no fogo como sendo belo
de modo a morrermos maravilhados.
Paulo José Miranda
O Tabaco de Deus
2002, ed. Cotovia
pintura de Graham Sutherland
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Graham Sutherland,
Paulo José Miranda,
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poemas,
Poesia
30

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.
António Franco Alexandre
Duende
2002, ed. Assírio e Alvim
pintura de Frank Auerbach
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Poesia
All Faith Is Lost

As the dawn emerges I cry in grief
Sorrows flow,
the sadness of another day tortures my heart
Life fades. Echoes, voices calling
Within my mind. Shadows. I cry
My senses deteriorated
I break down devoid of hope
All faith is lost. Why live?
I beg for mercy, I plead, tell me
Why? Why me?
Why must I be one of the chosen?
Forgive me for my inquisition
Please answer, I offer my condition
My eyes are closed, I call to the darkness
allowing the gloom to swallow me
I relax
Gripping my soul as I'm extracted from reality
The umbra chills me
I levitate, staring at my inanimate corpse
Drifting towards the eternal bliss
Beckoned by beings superior
Colossal roar of silence deafens me
I disburden myself
Where am I bound?
My trappist ways are forgotten
as peralsized souls cry out for me
Impassive, I atrive for the light
My true self finally manifests
I am found.
Darren White, Jamie Cavanagh
(Anathema)
1991, All Faith Is Lost
pintura de Paul Nash
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terça-feira, 8 de março de 2011
Um poema

Quando passam sonâmbulos ímpetos que me afloram a vontade é uma ânsia infinita das palavras que não solto.
E não tenho sons tangíveis, nem certezas a predicar: só a consequência firme do muito que tenho para dar; loucura imperceptível, até nos sons remendados com palavras do quotidiano, insatisfeito da aprendizagem que urge reter, para acelerar a hora do meu tempo.
E não tenho sons tangíveis, nem certezas a predicar: só a consequência firme do muito que tenho para dar; loucura imperceptível, até nos sons remendados com palavras do quotidiano, insatisfeito da aprendizagem que urge reter, para acelerar a hora do meu tempo.
Helga Moreira
Cantos de Silêncio
1978, ed. autora
pintura de Walter Richard Sickert
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Walter Richard Sickert
Cinco

Vais cada vez mais cedo para a rua
dantes só o outro dia te levava.
Não tem mal, deixa-me falar
das pessoas encontradas num jardim
escondo-me no verde dos seus olhos
se fossem os meus, esses acordavam
com a folha de fogo na videira
na latada ao dia mais brilhante
de maio quando as aves voltam
e a glicínia começa a cair.
É assim, eu sei. Depois de se querer tudo
queremos só o corpo e depois nem isso,
apenas que te lembres
de certo canto de rua, da garrafa
num café de bairro, do papel
que tanto recado te levou,
do jardim ao anoitecer
enrolávamos cigarros
na folha de papel "conquistador".
Virás ainda a amar, como por mim,
quem mais amei e se foi embora.
A cabeça curva-se ao desígnio.
A mão de cada um entende essa desordem.
A primeira palavra diz-nos tudo,
a segunda já quase nada diz
dizemos depois dela "até outra altura".
Na tenaz noite quem ganhou
ganhei-te eu ganhaste-me tu, a mim?
Se um dia a oliveira selvagem
souber tão bem a ti como sabe à cabra
cala-te, vai com a criança jogar ao pião.
Leva o teu jogo para tão longe
que não o siga a história.
O combate da razão e da melodia
reanima o coração ameaçado.
Pareces livre na vaia dos relâmpagos.
Um jardim de goivos e de cardos
e rícinos num nódulo de chorões
abre um refúgio junto da falésia.
O mar encapelado finda numa lâmina
sobre o promontório.
E vês alguém sentado numa rua
refaz um charro a muito custo
assobia baixinho uma canção antiga.
Joaquim Manuel Magalhães
António Palolo (1978)
in Consequência do Lugar
2001, ed. Relógio d´Água
pintura de Edward Hopper
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Arte,
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Joaquim Manuel Magalhães,
pintura,
poesia poemas
sexta-feira, 4 de março de 2011
Regina Guimarães: Caderno do Regresso
A CASA ETERNA


O percurso poético de Regina Guimarães tem sido intensivo, e proporcionalmente monosprezado. Apesar de me parecer que se trata de um dos casos de maior originalidade na nossa poesia, por várias razões, a sua obra tem passado um tanto despercebida. O motivo maior, diria eu, será a natureza das suas edições. Além de ocasionais passagens por editoras comerciais mas de culto -caso da &etc e da Felício & Cabral- a maioria dos livros de Regina encontram-se editados pela Hélastre, produtora cultural que a própria dirige, juntamente com o marido, o realizador e escritor Saguenail. E o que o trabalho da poeta ganha em liberdade perde depois em visibilidade. Isto não será uma questão de grande importância, pois sabemos que a visibilidade depende de factores acima de tudo arbitrários. No entanto, parece-me que falta, definitivamente, um trabalho crítico sério sobre a poesia de Regina Guimarães, existindo apenas alguns ensaios mais extensos sobre ela, como é o caso de "Uma Poética do Devir", de Maria de Lurdes Sampaio (vd. "Vozes e Olhares no Feminino" ed. Afrontamento/Porto2001, ou então aqui.).
Olhando para trás, esta poesia evoluiu de uma inicial obscuridade, que se fazia sentir nos primeiros dois livros, "A Repetição" (1979) e "Abaixo da Banalidade, Abastança" (1980); para um estilo mais depurado, a partir de "Anelar, Mínimo" (1985). Quando falo destas alterações, refiro-me exclusivamente a questões de escrita, porque, naquilo que a poesia de Regina Guimarães tinha de ideias não se alterou. No seu livro de estreia, o poema "O Sátiro" (Que podem ler aqui.) parece-me particularmente esclarecedor destas ideias, funcionando como uma espécie de arte poética. Tendo esse poema por contraponto, parece-me claro como, de facto, uma leitura de todos os livros publicados de Regina denotam efectivamente um universo próprio e também uma grande fidelidade aos princípios da autora relativamente à escrita.
Em 1994, chega-nos um livro de absoluta maturidade: "Tutta" será, a meu ver, um dos melhores livros de Regina, de uma firmeza e invulgaridade assinaláveis. Os livros de 2009, "Orbe" e "Cantigas de Amigo/Lady Boom, As Raínhas", ainda que funcionando como conjuntos específicos e auto-suficientes, confirmam o ponto de maturidade inaugurado por "Tutta".

Em 2o1o surge-nos este "Caderno do Regresso", que não pode deixar de surpreender os leitores de Regina. Surpreender por ser uma recolha tão longa de poesia, maior do que qualquer outra editada no passado, contando com 433 poemas. Trata-se de uma recolha de todos os poemas escritos ao longo de um ano, que afinal até nos lança uma ideia aflitiva, porque nos perguntamos quanta poesia de Regina não continua, até hoje, inédita.
Se até hoje, por razões que não me ocorrem, nunca tentei falar um pouco sobre a poesia de Regina Guimarães, não só a edição de "Caderno do Regresso" é uma boa oportunidade para fazê-lo, como o próprio livro é também um excelente caso para ser analisado. Isto porque ele continua uma fase a meu ver iniciada com "Tutta", mas tem como vantagem sobre as recolhas de 2009 o facto de nos apresentar poemas mais autónomos entre si, não funcionando necessariamente enquanto "unidade específica".
Apetece então apontar alguns aspectos desta poesia.
Em primeiro lugar, a relação da poesia consigo mesma. Desde há muito tempo que encontramos aquilo que podemos designar por "artes poéticas", quase todos os autores a têm. Nos anos 90, assistimos a um estranho fenómeno em que muitos poetas dedicam grande parte dos seus poemas à fascinação da e pela escrita poética, "secando" mais ou menos todos os outros assuntos. Regina Guimarães sempre teve nos seus livros muitos poemas que analisam a relação da poesia consigo mesma. No entanto, não estamos aqui perante essa pose de fascinação. Pelo contrário, a presença dessa "arte poética" tem uma muito válide justificação: a de que o sujeito poético, o "eu" ou os vários "eus" desta poesia se relacionam com o mundo através da poesia. Isolo aqui dois fragmentos que me parecem particularmente elucidativos quanto a isto:
"(...) falo sozinha
numa linguagem de jamais
e já não minha"
(pag.25)
"Combato com a língua
para não sufocar disto e disso."
(pag.48)
estes dois fragmentos mostram-nos, em primeiro lugar, essa relação umbilical com a linguagem. Reparemos que ela é uma relação do indivíduo consigo mesmo, no primeiro, e é uma forma de luta pela sobrevivência, no segundo. São questões importantes para entender a poesia de Regina Guimarães. Em primeiro lugar porque não podemos esquecer que, como aliás lemos no prefácio de Saguenail, a escrita é para Regina um acto quotidiano, de todos os dias, e, portanto, uma espécie de respiração. Ainda, no primeiro fragmento, é de notar que Regina assume a linguagem como algo de individual, mas ao mesmo tempo aberto, ou seja, essa "linguagem de jamais", que nasce, que se reinventa ao ser escrita, torna-se depois "já não minha", ou seja, escapa dos sentidos com que foi escrita para ser lida por outros, que lhe encontrarão outros sentidos. Esse jogo de liberdade poética é, afinal, uma das bases essenciais da poesia.
Avançando para a questão do "combate", proposta pelo segundo fragmento, ele aponta-nos para uma das mais importantes componentes desta poesia, que é a dimensão política. Política, entenda-se não como panfletária ou sequer partidária, mas como discurso que continuamente questiona o sistema vigente, a sociedade, a organização de tudo. A poesia de Regina insurge-se não raras vezes contra essa aceitação ao imposto, revelando-se então interventiva e até subversiva, se quisermos aceitar que esta palavra ainda "exista". A poesia aparece-nos então como uma forma de apresentar novas visões do mundo, como alternativa. Isso fica bem explícito quando lemos
"Ao mundo acrescentas mundo
entre palavras e pausas"
(pag.39)
Poderíamos perguntar-nos se a poesia de Regina Guimarães não se trata de uma busca da utopia. Eu penso que não. O que encontramos, politicamente, nestes textos não é a criação de uma realidade idealista e impossível. É, isso sim, uma incitação a que não aceitemos as coisas apenas porque elas nos são propostas, mas que procuremos ter o nosso olhar sobre elas, um olhar próprio e bem definido.
A inquietação que Regina sente em relação ao estado das coisas é que a leva a "ao mundo acrescenta[r] mundo", um outro mundo.
Como defendi na introdução deste texto, a poesia de Regina Guimarães vem de uma espécie de obscuridade a evoluir para uma maior clareza. Repito no entanto que não estamos perante uma poesia fácil de ler, principalmente dada a sua estranheza, estranheza que me parece neste caso ser sinónimo de originalidade. Além disto, já acima expliquei a questão da leitura aberta. Conjugando estes dois pontos, encontramos então a aceitação dessa incerteza que nesta poesia é essencial. Atentemos neste fragmento:
"As palavras desfazem-se em promessas
que se cumprem e se traem a um tempo
abrindo porta a porta o pensamento
(...) e gozamos o prazer de violar
segredos que nos foram confiados.
usamos, sem pudor, até ao fio
o denso véu de mistério
que morava em cada nome."
(pag.286)
aqui se entende, penso, o que significa essa incerteza: é a propriedade que a palavra tem de, a um tempo, se cumprir e se trair. Assim sendo, o poema pode ser lido e entendido por outros, mas a ideia que o gerou fica apenas no seu autor, não sendo certo se será a mesma ideia a do leitor. E é por isso então que encontramos também esta ideia:
"o que se escreve então
faz-me o imenso favor
de não haver quem o leia
ou de não se poder ler"
(pag.284)
A possibilidade de ler é um dos princípios da poesia. E se esta nos soa tão invulgar, é necessário entender porquê. Não me parecem muito claras as influências desta escrita. Poderíamos aqui e ali encontrar algumas influências do Surrealismo, mas não é possível afirmar que esta é uma poesia surrealista, ou sequer tardo-surrealista. Nos seus momentos mais bizarros, será quando muito surrealizante. Algum simbolismo também não deixa de aqui marcar presença, mas também não é suficiente para definir nada. Penso que o que é necessário é entender que o sistema de referências que aqui existem têm muito mais a ver com elementos que, sendo talvez mais frequentes em todos nós, acabam por se tornar mais inesperadas quando aqui as encontramos. Acima de tudo, é a questão da infância e dos seus fantasmas que me parece a matriz de tudo isto. E esses fantasmas passam frequentemente pelo texto bíblico, pela tradição oral e pelas histórias mitológicas e também a descoberta das possibilidades das palavra, marcadas pela fala, pela oralidade. É difícil encontrar um poema em que não encontramos pelo menos um destes elementos. Mas o que vem tornar a poesia de Regina muito mais do que uma mera sistematização de conceitos é o tratamento que eles recebem, pois nunca existe aqui uma perspectiva historicista mas precisamente uma espécie de anacronismo, em que todos esses elementos são transportados para uma realidade contemporânea que são capazes de explicar.

Por assim dizer, a poesia de Regina coloca-nos perante um mundo doentio e decadente, que é o nosso, e coloca a poesia como reverso desse mundo, analisando-o por meio das referências que nos são comuns e mostrando-nos que a nossa ideia de evolução não é a mais correcta, pois mais não fazemos que repetir o nosso passado e os nossos arquétipos. Mas, ao invés de se tornar uma poesia amargurada na sua acusação, Regina prefere o lado subtilmente irónico. Reparemos, aliás, que, como acima disse, o poema de "A Repetição" que podia ser a primeira arte poética de Regina Guimarães se chama "O Sátiro". Penso que este esquema é precisamente o que aqui há de mais original. Ela mesma assume essa postura quando nos diz
"De mim não esperes espírito
nem frases finas como ponteiros"
(pag.27)
Interessa-me ainda reflectir um pouco sobre o título deste livro. "Caderno do Regresso" parece-me conter realmente duas ideias essenciais, duas linhas de força para entender a atitude poética de Regina Guimarães: a primeira é a do "caderno", como se este livro se tratasse de um caderno de apontamentos, onde os poemas vão sendo apontados, um quase-diário (Para usar a expressão de Yvette Centeno.). A outra ideia é a do "regresso" que quase intuitivamente diríamos que contraria essa ideia do "caderno", uma vez que o regresso pressupõe um abandono prévio, e o caderno pressupõe uma constância. Mas não há aqui essa contradição. Como acima disse, a poesia é para Regina Guimarães um gesto quotidiano. Por isso a poesia é essa "casa" a que se regressa ao longo dos dias, uma espécie de lugar secreto onde o indivíduo se fecha para reflectir sobre o que viveu. Essa é, no fundo, a ideia que encontramos no Eclesiastes, do homem que sempre regressa à sua casa eterna. E a casa eterna de Regina Guimarães parece mesmo ser a poesia.
Resta então entender por que publica tão pouco, por que passam as suas poucas publicações tão despercebidas. Além da explicação que Saguenail nos dá no Prefácio, encontramos esta possível explicação da própria Regina:
"o texto
crucificado na página,
pronto a ser despregado,
envolto em branca mortalha,
colocado no sepulcro,
ressuscitado."
(pag.284)
assim vemos como, de certa forma, o livro mata a poesia. Aproveito aqui para referir um último aspecto que me parece crucial na poesia de Regina: a sua natureza irremediavelmente fragmentária. Os poemas, de certa forma, são estâncias que formarão uma ideia maior, mais completa, mas que está condenada a necessitar sempre de ser continuada e nunca poder ser terminada. É uma escrita viva, que necessita de ser recriada, de ser completada, de sempre crescer. E editá-la na página não deixa de ser assumi-la concluida, "crucificada".
Aparte este senão no problema de editar, só temos que ficar contentes por finalmente termos acesso a uma recolha tão extensa da poesia de Regina Guimarães, uma recolha que bem nos fazia falta para entendermos melhor a sua poesia, e resta-nos apenas esperar que este esquema de publicação, de recolher um ano inteiro de poesia se repita mais algumas vezes.
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quarta-feira, 2 de março de 2011
Madonna e David Cronenberg
"Frozen" do álbum "Ray of Light", 1998
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A Arte de Ser Amada

Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária
aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.
Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.
Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.
Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária
aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.
Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.
Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.
Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966, ed. Afrodite
pintura de Leon Kossoff
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Poesia
China Doll

Eu ia na passadeira com um propósito mas
a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador
da vertigem. Aquilo que o vento levantava
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto
e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto como se fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía
nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo
para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.
a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador
da vertigem. Aquilo que o vento levantava
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto
e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto como se fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía
nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo
para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.
Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
1997, ed. Presença
desenho de Tony Bevan
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Rui Pires Cabral,
Tony Bevan
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