sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

desenho de jorge pinheiro


na minha mesa está pousado este
retrato à pena de uma mulher sentada.
a sua face rural e melancólica
debruça-se equânime como a fitar por dentro

as figuras de sombra no côncavo das vagas,
ou, citereia de trazer por casa,
sabe de mim, medita intimamente
as coisas certas sobre o meu trabalho.

não pergunto do olhar, nem do sorriso, nem da
serenidade. sei que é tudo interior e devaneia
por artes da memória e de sibila, fixando uma ou outra
passagem dos sonhos e do indizível,

junto à janela quando escuta
as ressonâncias que chegam justamente ao
tampo da mesa e entram ou não entram
inquietas de papel.

Vasco Graça Moura
A Sombra das Figuras
1985, edição do autor
pintura de Jorge Pinheiro

Poema 7


à minha frente caminha
uma silhueta de mulher,
linha esquecida, em passo lento,
na palidez do asfalto

(compadeço-me e pergunto-lhe
as horas. respondo que é
fim de tarde. contemplo o
meu desenho terra dentro).

assim se prova que
a um corpo abandonado
nada resta além da sombra.

Renata Correia Botelho
Avulsos, Por Causa
2005, separata da revista Magma
desenho de Artur do Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Litoteana III


Essencialmente a casa é uma caixa -um continente. Uma rua duma cidade é essencialmente uma sucessão de caixas colocadas muito juntas. Isso é que é uma cidade. O arquitecto concebe mentalmente as casas isto é as caixas geralmente preocupando-se mais e adornando apenas dois lados dela (na cidade claro):
o da rua (que é formado de caixas) e o das traseiras (também formado de caixas).
Geralmente o lado da rua é aí que o arquitecto se esmera: ondas nervuras saliências golpes estátuas janelas entradas cores vidros materiais diversos.
Para as traseiras ou muitas escadarias e muitas janelas ou só algumas ou então muitos canos muitos canos. Às vezes também passa o comboio ou alguma ponte. Mas não é muito frequente. Geralmente o que temos é um cubo de seis faces das quais só uma é amada em extremo: a principal. É isso o que desequilibra a casa. Por exemplo: que espécie de superfície afeiçoada apresenta a face dos alicerces? A aspereza e até a maldade dessas caves dessas depressões desses pilares, ferros etc. feíssimos entrando
pela terra dentro com duríssimos narizes acrobáticos? O telhado enfim sempre
pode ser uma açoteia ou um porto para helicópteros ou então um bosque de chaminés ou mil bicos de torres totalmente desnecessários não é verdade enfim o telhado sempre é mais arejado mas o que dizer da imensa fragilidade das faces da casa que encostam às contíguas? Que orelhas mais rentes! Alguma vez se viu? Que surdez que coisa mais chã e atrofiada! Como quem diz eis uma faca eis outra face. Não é uma coisa alegríssima considerando a perturbação da fachada essa perfuração esse rendilhado essa complicação da caixa o retalhe da caixa a indemnização do cubo? Quando os arquitectos modernos conceberam os arranha-céus a casa paralelepídeda o paralelograma em pé
nessa altura descobriram a superfluidade da fachada a não necessidade da fachada; isto é, a necessidade total da fachada. Então a casa passou a ser uma total fachada a caixa fachada a caixa fechada a tranquilidade da coisa cúbica serena pacífica totalmente desigual em todos os seus lados.
..................................................................................
A cidade é um grande animal paciente. As casas equilibram-se-lhe na pele. Os automóveis correm-lhe pelo pêlo animados parasitas

Ana Hatherly
Eros Frenético
1968, ed. Moraes
desenhos de Frank Lloyd Wright

Hélia Correia: Adoecer

ENFERMIDADE NOS SENTIMENTOS

É para mim particularmente difícil falar do mais recente romance de Hélia Correia. Sinceramente, desde que li, no ano passado “Lillias Fraser” (2001), tinha sérias dúvidas de que fosse possível Hélia Correia escrever um romance que tão completamente me conquistasse. Mesmo apesar dos críticos, que aclamavam “Adoecer”, e garantiam ser o melhor romance da autora.

Olhando para trás, seria difícil prever que a autora de “O Separar das Águas” (1981) chegasse a um romance como este “Adoecer”. Não porque o primeiro fosse um mau romance, mas porque ele inaugura um percurso que não faria prever sequer a temática do mais recente.
Hélia Correia começa a publicar na mesma década que alguns dos nomes mais importantes da nossa prosa, como sejam Lídia Jorge ou António Lobo Antunes. Por alguma razão, no entanto, o nome de Hélia parece sempre surgir aparte. Eu diria que isso se deve, primeiro, ao facto de Hélia publicar pouco, pelo menos comparativamente, e também ao facto de, durante muitos anos, ter publicado acima de tudo novelas, sendo que podemos considerar “A Casa Eterna” (1991) como o primeiro realmente romance. Não que seja menos importante por escrever novelas, mas já desde Irene Lisboa que percebemos que o público em geral só aceita os romancistas.
Faz sentido olhar para estas questões. É justo dizer que, por ter começado justamente no domínio das novelas –textos mais curtos, por definição –Hélia tem a mão treinada para dizer o essencial, para não perder tempo nem palavras. E a publicação menos frequente também parece ser natural pois, olhando para os seus livros, percebemos que, ainda que haja um fio condutor de determinadas características que os unem, cada livro é, por si só, um universo auto-suficiente e específico; completo, o que requer determinados cuidados de construção, que levam tempo.
“Adoecer” é o primeiro romance desde “Lillias Fraser”. Pelo caminho, encontramos um pequeno livro de poemas, “Apodera-te de Mim” (2002) e a novela “Bastardia” (2004).
Anos e anos de investigação detalhada precedem a publicação do romance. No entanto, é de notar que “Adoecer” não é de forma alguma uma biografia e, bem pelo contrário, demarca-se assumidamente desse estilo. Como explica na nota final, Hélia permitiu-se em certas alturas modificar aquilo que está documentado. E, além disso, não há aqui uma vontade de apenas narrar, objectivamente, a história de Elizabeth Eleanor Siddal e Dante Gabriel Rossetti. Hélia coloca-se como quem está presente, e entrega-se a análises, interpretações; enfim: a uma grande liberdade ao olhar. Porque é de um olhar que se trata “Adoecer”, de um olhar humano, ainda que consiga ver tanto para “fora” como para “dentro” dos seus personagens.
Além da atenção dada à investigação sobre a vida de Elizabeth e Dante Gabriel, é de notar neste livro também uma análise muito séria à história e à estética dos Pré-Rafaelitas; e um pouco também de todos os que os rodeavam, em particular Christina Rossetti, poeta e irmã de Dante Gabriel Rossetti e que, percebemos, terá sido uma das pessoas que, não tendo entendido a relação entre o irmão e Elizabeth, se terá aproximado mais.
A verdade é que, em muitas das suas páginas, este romance nos revela as fontes a que foi beber: cartas, livros de memórias, poemas. Mas o interessante, e o que prova a mestria de escrita, é como nunca ficamos com a impressão de estarmos perante um relato: esses fragmentos aparecem-nos antes como formas de “precisar” as palavras daquelas pessoas, ao invés da mera especulação; o que seria um caminho muito óbvio para falar desta personagem, Elizabeth, que, podemos dizer, citando Agustina que "tinha uma enfermidade nos sentimentos."
Acerca disto, ocorre-me falar de uma questão que me parece crucial em “Adoecer”, que é o respeito pelo silêncio. De facto, dada a distância a que nos encontramos da vida destas personagens, seria de esperar um romance cheio de especulação, com recriações de diálogos frequentes e com a invenção de detalhes improváveis. Nada disso. Pelo contrário, há nestas páginas um respeito pelo silêncio a que a distância nos obriga. Ainda que esse silêncio não torne a história lacónica. Pelo contrário, esta história é detalhada; mas os detalhes nunca nos parecem inusitados.
No fundo, há toda uma construção aqui que não se fica por Elizabeth Eleanor e Dante Gabriel. Ela estende-se a todo o tempo, a todos os intervenientes e às circunstâncias sociais e políticas da época. É importante que assim seja pois, só conhecendo bem o contexto em que a história dos dois aconteceu poderemos perceber as verdadeiras razões por que a sua relação não era exactamente bem aceite, ou, em última análise, por que era tão “fora” de tudo. Porque percebemos, efectivamente, como já por temperamento, tanto Elizabeth como Dante Gabriel se situavam ao lado das convenções; mas ao entender as circunstâncias, a questão torna-se mais concreta.
Dado que tanto Dante Gabriel como Elizabeth eram artistas, e que Elizabeth começou exactamente por ser modelo de alguns pintores, é também essencial entender-se tudo o que diga respeito à arte, naquele tempo. E também aí Hélia consegue dar-nos todos os dados importantes, e entendemos muito bem a relação que existe entre a Elizabeth desenhada e a Elizabeth viva, e onde ambas coincidiam. Porque a relação que existia entre os dois dependia muito da sua relação com a arte, ou, talvez até fosse definida por ela. E não deixa de ser um olhar refrescante sobre a pintura Pré-Rafaelita, situada muito além da mera categorização académica.


Já noutros textos sobre Hélia Correia aqui publicados, eu manifestei o meu profundo desagrado pela decisão que a autora tomou acerca da poesia, que praticamente abandonou. Volta a ser importante falar da poesia sobre “Adoecer”. Porque há uma construção livre neste livro que é mais típica da poesia do que propriamente da prosa. E, além disso, a questão da linguagem nunca realmente se separa da poesia. Não há aqui a “frieza” objectiva do romancista puro. Bem pelo contrário.
Voltando ao início deste texto, pessoalmente não acreditava que fosse possível Hélia Correia ultrapassar um romance brutal como é “Lillias Fraser”. Mas a verdade é que “Adoecer” consegue. Poderá ser porque, como Hélia já explicou em várias entrevistas, este é um livro que há muito desejava escrever. Esse será um motivo plausível. Mas, acima de tudo, “Adoecer” é uma obra de absoluta maturidade, que seria impossível, mas impossível mesmo, a um romancista novo que não tivesse na bagagem todos os ensinamentos de uma obra firme, e de uma identidade perfeitamente definida. Venham mais como este!

Os Silêncios


Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
Maria Teresa Horta
Só de Amor
1999, ed. Quetzal
fotografia de Henri Cartier-Bresson

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Masters of Horror: Family de John Landis (2x02)

FELICIDADE CONJUGAL


Depois de, na primeira época de Masters of Horror nos ter dado "Deer Woman", um filme oscilante entre o bom e o previsível, John Landis aparece em grande na segunda época da mesma série.


A média que nos propõe chama-se "Family". Não podia começar de uma forma mais engraçada: ficamos perante uma série de planos que nos dão logo indício de estarmos perante uma comum rua dos subúrbios americanos, com árvores floridas e famílias felizes.
É neste ambiente que encontramos Harold (George Wendt) a receber, na cave da sua casa, o "pai". Na verdade, coloca o corpo do homem inconsciente numa banheira onde o cobre de ácido, ao som de música gospel. Logo por aqui, nos primeiros minutos de "Family" percebemos que estamos perante uma sátira promissora.
E, a verdade é que o filme não poderia ter corrido melhor.
A história avança quando um casal jovem que acaba de se mudar para o bairro, por acidente, embate contra a caixa de correio de Harold. Celia (Meredith Monroe) e David (Matt Keeslar) acabam por socializar um pouco com Harold.
Entretanto, vemos que, contrariamente ao que Harold diz quando conhece o casal recém-chegado, ele tem uma família. Uma família de esqueletos: uma mulher, uma filha, e o avô, que acaba de se mudar para a casa.
Quando Harold decide arranjar também uma avó, percebemos que, por norma, ele rapta as pessoas em bairros distantes, para não levantar suspeitas.


No entanto, apaixona-se imediatamente por Celia, ao ponto de considerar substituir por ela a esposa.
Ao longo do filme, somos confrontados com o comportamento psicótico de Harold, enquanto vemos também as angustias de Celia e David que haviam, há pouco tempo perdido uma filha.
Se se pode dizer que "Family" nos apresenta uma premissa que não é propriamente surpreendente, a verdade é que está tão bem resolvida que não conseguimos deixar de aderir.
Inesperada é a aptidão de Landis para a ironia a que o argumento, de Brent Hanley, obriga.
Podemos, por um lado, observar o filme do ponto de vista "psiquiátrico", e observamos os delírios de Harold, em que há algo de sádico e de desesperado ao mesmo tempo.
Ou, por outro lado, podemos também interpretar este filme como uma crítica à obsessão da América, e de todo o mundo, pela família e pela felicidade familiar em que um indíviduo parece ser mais normal tendo uma família de esqueletos do que se não tiver família.
Uma vez mais levanto a questão de se este filme é um filme de terror. Parece-me, claramente, que não. No entanto, ele utiliza a questão da sátira e da crítica, que está subjacente um pouco por todos os filmes do género, desde "The Texas Chainsaw Massacre" (1974) de Tobe Hooper a "Fantasmas de Marte" (2001) de John Carpenter. E, portanto, talvez não esteja assim tão descontextualizado. E, sem dúvida, utiliza uma técnica sem a qual o cinema de terror talvez nem pudesse existir, que é a apropriação das características das doenças psiquiátricas, de que podemos recordar tantos e tantos filmes, e de que cito, a título de exemplo, "Friday the 13th" (1980) de Sean S. Cunningham, ou "Frailty" (2002) de Bill Paxton.
Se "Deer Woman" era um filme de algumas fragilidades, "Family", pelo contrário, parece estar bem assente e é claramente um dos filmes a recordar de "Masters of Horror"


Poema 2


Contigo partilhei os vários leitos
dos amigos dispersos. Mesas, sumos,
os degraus mal ardidos do terror.
Contigo um pouco em cada aldeia, enquanto
nada de nós podia ultrapassar
as paredes dos outros que jaziam
no repouso e no largo e tu compravas
permanecendo os nomes tumulares.

Já então começávamos a longa
inelutável morte dos estios
e eu colhia os agoiros nas fornalhas
de inratigável pão. E cada noite
um maior julgamento nos calava.

Já então nos vestíamos nos cantos
de antigamente sós. Contigo, aos poucos,
recomeçava o frio e as grandes vagens.

De terra em terra, humilde, e raramente
antecedendo a desamor final. Sem transição. Sem dor.
E hoje penso que sobreviverei sem ti
ainda quando a névoa sobreposta nos deixar
tão nús como se de hábitos nascêssemos.


Hélia Correia
na antologia "Poesia 71",
selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves
1971, ed. Inova
pintura de Edward Hopper

A influência de Salvador Dalí em dois vídeos de Marilyn Manson







"This is The New Shit", realizado por Marilyn Manson



"Disposable Teens", realizado por Samuel Bayer

Hoje, na Reitoria da Universidade de Lisboa (Campo Grande) às 18 horas



Lídia Jorge

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Sátiro


Notei que por ali passava
carnal
uterina
rósea.
e perguntas-me sobre a palidez dos leitos de urze
e beliscas a camisa de algodão
e tremes
e tens o trejeito
dos operários que bufam com escárnio.
nesta cidade
o frio entranha-se nos filamentos corpóreos
galeria de monstros e de clowns.
as cores diluem-se nas fachadas dos cafés
num enorme plasma que transcende o espaço habitado
intensamente percorrido como mais uma arena.

o corpo é-me estrangeiro, às vezes
os resíduos condensam-se
e nauseabundamente
por entre outros gargarejos
apercebem-se do intervalo da nova distância.

o corpo é-me estrangeiro, às vezes.
a pele que o tempo curte
e os incidentes.

apercebo-me de cada pose
de cada um
de cada vários
e reencontro-me.

falavas-me ontem,
e eu senti o teu passo nocturno e cauteloso
como acalentando um lume secreto.
renasces em mim cruel
e remexes no nada.
peço-te que me oiças,
...........o abismo, já o tinha adivinhado!
.............................já o tinha adivinhado!

o teu olhar é argênteo, queres mais?

sempre a partida-regresso a atordoar o ritual da chegada
sempre.
renovo a minha atenção silenciosa sobre as coisas,
como o pouso de uma ave.

sei que vou mais uma vez repelir o pouso
e mitificar o voo
como uma crença toda esvaziada.

as azinheiras erguem os ramos esguios,
como mãos de fada
e debruçam-se sobre os beirais dos muros
acenando ao vento como as mulheres de dantes
e de agora.

os canaviais sugerem-se e isolam-se
numa entoação de cantos metahumanos.
que volatizam os beijos na cara dos astros.

de vibração, o gume e a senda.
da trilogia com quem manuseio mais uma história.
sugerem-se

tudo me parece assim
auto-suficiente
delicado
diluído
cada rio determina a função vegetativa como determina os meandros
e tudo está latente a meus pés.

prometo-me lutar pela clareza
mas não vou compreender a aparência
que se planifica fugaz no irrepreensível no seu trono.

recuso-me e mitifico o voo.

eu sei que as ervas são híbridas
que os trigos irrompem do jóio
e tudo
e não se preocupam.

aqui as casas plantam-se perenes nos laranjais
os homens percorrem-se na orla dos corpos
e partem para viagens esfumadas como eu.

quantas coisas
não se escrevem
nem se escreverão nos taipais brancos.
só a necessidade do branco
e o estilhaço.
...................................................................

procurar abrir uma gaveta
com a chave dentro dela
eis a felicidade intrínseca.

Regina Guimarães
A Repetição
1979, ed. Hélastre
imagem de Floria Sigismondi

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Masters of Horror: The Damned Thing de Tobe Hooper (2x01)

O MAL ETERNO

A abrir a segunda e última rodada de “Masters of Horror”, temos, repetente, Tobe Hooper, com este “The Damned Thing” que, diga-se de passagem, ainda que fique aquém de “Dance of the Dead” em termos estéticos e em originalidade, é realmente mais adequado a uma série de médias-metragens de terror, muito mais conseguido enquanto filme do género do que o primeiro, que, de certa forma, ainda que fosse uma história arrepiante e mórbida, não era propriamente um filme de terror. Se fosse numa qualquer outra situação, duvido que esta questão tivesse o mínimo de relevância mas, sendo “Masters of Horror” uma espécie de colecção do género, é de todo pertinente.

Concretamente, “The Damned Thing”, baseado num conto de Ambrose Bierce, é uma história sobre uma força maligna que possui as pessoas conduzindo-as a brutais homicídios e suicídios. É o que acontece com a família de Kevin Reddle, quando, na noite do aniversário, o pai assassina a mulher e, prestes a matar também o filho, é repentinamente estripado por um ser invisível. Vinte e quatro anos depois, Reddle (Sean Partrick Flanery) é xerife da localidade de Cloverdale, Texas. A sua obsessão pela criatura que terá conduzido o seu pai à loucura levara a mulher, Dina (Marisa Coughland), a separar-se dele, levando o filho que tinham em comum.
Com o aniversário de Kevin a aproximar-se, começam a surgir pela localidade vários suicídios violentos e ataques, sem que a sua origem possa ser determinada.
Tentando entender a origem de tudo, Kevin acaba por abrir uma caixa que pertencia ao pai, para nela encontrar uma série de recortes de jornais, acerca de uma perfuração no solo, feito numa comunidade vizinha, com vista à implantação de uma fábrica. Essa perfuração teria estado na origem de um grande massacre que devastara a população da vila; e nela, teria estado envolvido o avô de Kevin.
Com a força maligna a tornar-se cada vez mais activa e mortífera, Kevin acaba por confrontar-se com os seus fantasmas, ao mesmo tempo que tenta salvar a família e a população da “coisa maldita”. E talvez seja esta a tónica mais interessante do filme.
Falando propriamente, este filme segue, tal como “Dance of the Dead”, o caminho do drama familiar, enquanto palco de problemas e traumas, que originarão mais tarde as situações que o filme em si permite explorar.
Não é raro encontrar-mos em filmes de terror indivíduos como Kevin, incapazes de vencerem os seus medos e a perder, por isso, a sua vida. Mais interessante do que o que nos é contado, no entanto, é, neste filme, o que não nos é contado.
Tobe Hooper parece querer guardar a resolução mesmo mesmo para o fim, e a verdade é que só temos acesso à imagem da “coisa maldita” no final, e sem grande tempo para a fixarmos. O filme evolui com lentidão, e parecemos acompanhar Kevin na sua inércia e no seu vazio, enquanto procuramos as respostas sobre a noite em que ele perdera a sua família.


A questão das forças malignas que tomam as pessoas, como parasitas, não é nova. A título de exemplos, cito “Ghosts of Mars” ou “Prince of Darkness” de John Carpenter; ou “Session 9” de Brad Anderson. Tratando-se de uma premissa por assim dizer “vulgar”, a única hipótese de salvação para o filme de Hooper seria a explicação da origem dessa força, e parece-me que, nesse aspecto, Hooper é bem sucedido.
Se há alguns aspectos negativos a comentar, eles parecem-me quase cosméticos. Por exemplo, no início, são muito realistas os efeitos especiais quando o pai de Kevin é esventrado; mas, no final, a figura da “coisa maldita” é tão nitidamente digital que é quase como se os operadores nem tentassem disfarça-lo. Isto, além do voz-off que, defendo, só deve existir se fôr mesmo estritamente necessário, o que não é o caso.
No entanto, estas pequenas falhas são compensadas com pequenas subtilezas, que vêm confirmar o olho certeiro e treinado para a estética do grotesco que é o de Tobe Hooper. Como exemplo, deixo a cena que mais me impressionou, a do suicídio de um homem que desfigura o próprio rosto com um martelo. Os planos utilizados para filmar essa cena em particular merecem, por si só, que se veja “The Damned Thing”.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Prova da Existência da Alma


Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
A morte chega a ser desejada tal o sofrimento.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto devia consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que sou eu o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.

Rosa Alice Branco
O Gado do Senhor
2010, ed. Espiral Maior
imagem de Júlio Resende

Berlusconi com telhados de vidro

Silvio Berlusconi, que já devo ter referido aqui, está no primeiro lugar dos meus assuntos risíveis da semana, ainda que essa lista nunca seja particularmente extensa.
O homem recto, sério, católico, defensor dos bons-costumes e das belas tradições está agora no centro de mais um escândalo sexual.
Sinceramente, desde o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky- Hillary Clinton, nunca mais encontrei um escândalo sexual que me parecesse particularmente interessante. Esse, sim, esteve na vanguarda, com mentiras, reconciliações e o envio da letra de "Do What You Have to Do" de Sarah McLachlan de Lewinsky ao presidente Clinton.
A partir daí, cada escândalo sexual é apenas mais um.
No entanto, o caso de Berlusconi, acusado de ter sexo com prostitutas menores, veio lançar dentro de mim uma felicidade extrema.
Berlusconi, o homem sério que proibiu a publicação de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago, para proteger a moral, é afinal agora acusado de crimes sexuais. Claro que eu duvido que haja repercursões fortes na carreira de Berlusconi. Mas a imagem é outra coisa. E, em muitos dos casos, é mesmo a imagem que interessa.
Bem-vindo aos pecadores, Silvio!!!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lacrimatória 2


Aqui começa a impossível ressurreição do corpo.
Um ácido tapa os dedos do homem como se fosse
uma luva de pedra. Cabe à mulher explicar o desenho
dos ombros, como é feita a curva das ancas no instante
da queda. O silêncio arrepia, não a morte. É preciso
descobrir de onde vem a lua cega, quem a carrega,
quem a anuncia nos dias em que os monstros das
lagoas invadem a terra. O homem arrepende-se,
não suporta a picada das aves que nascem do lodo
abraçadas aos crustáceos. Transforma o ferro em aço,
envolve-o em grandes anéis de pólvora, afugenta as
limalhas com o próprio sopro. O seu destino não
pertence ao chão que pisa, mas a ela, à luz que
transparece dos seus ossos.

Jaime Rocha
Lacrimatória
2005, ed. Relógio d´Água
desenho de Elizabeth Eleanor Siddal

A não perder, no Porto


39.


Corujas nos geraram numa noite imensa.
Baionetas consagraram túmulos degredos.
Morcegos presidiram rituais secretos,
como se f'ossem únicos senhores do tempo.

Mas num momento simples limiar tangente
nasceu outra manhã encantatória e branca :

a cidade era nova vigorosa e tanta,
que extravasou seus muros e chegou aos campos
onde acordou os homens duros que na sesta
retemperavam forças para seus fazeres.

E aí foi que se ouviu um restolhar de gente
pois do frescor da cal chegaram as crianças
que atrelaram carroças a muares em espanto,
levando os homens dentro e as mulheres à frente.


Maria da Graça Varella Cid
Pefeito do Indicativo
1982, ed. &etc

pintura de Gustav Klimt

Anathema: We're Here Because We're Here

PAISAGENS ESTRANHAS

Dos Anathema, não havíamos álbum desde "A Natural Disaster", de 2003.
Pelo caminho, tivémos uma compilação, "Hindsight" (2008), que antologiava pela primeira vez a fase que vai desde "Eternity" (1996) ao álbum de 2003, já que os dois volumes de "Resonace" (2001 e 2002) se ocupavam da fase inicial da banda, mais marcada pela tonalidade doom-metal, que a banda abandonou quando Darren White deixou a banda.
E se "Eternity", ao colocar como vocalista o guitarrista Vincent Cavanaugh, começava uma nova sonoridade para os Anathema, seriam os álbuns "A Fine Day to Exit" (2005) e, principalmente, "A Natural Disaster" a revelar-nos a profunda maturidade dos novos Anathema: uma sonoridade sempre angustiante e tensa, mas marcada pela fusão entre o lado orquestral e sinfónico e o rock pesadote. Tornava-se cada vez mais difícil catalogar a música da banda, e, a partir de 2003, começamos a ouvir com frequência o termo progressive-rock.
"We're Here Because We're Here", lançado em 2010, vem demonstrar que essa definição de progressive-rock estava, afinal, certa.
A capa do álbum mostra-nos uma imagem luminosa, que nos aponta para uma certa libertação. Seria talvez estranho ver esta imagem nos Anathema, principalmente depois da "contemplação carinhosa da angústia" (Empresta a Agustina.) que era "A Natural Disaster".
Mas, logo que começamos a ouvir "Thin Air", percebemos que, realmente, há aqui uma espécie de libertação. Não diria propriamente uma felicidade, mas, definitivamente, uma vontade de criar canções mais luminosas. Outras canções como "Dream Light" ou "Everything" vêm ainda neste sentido. Percebe-se, definitivamente, que sete anos de silêncio tiveram a sua importância, porque talvez "We're Here Because We're Here" não fosse possível antes.
O tipo de construção destas canções também o confirma. A articulação entre o lado orquestral e o lado eléctrico é realmente bizarra, mas muito bem conseguida, contribuindo, de facto, para criar uma grande tensão dentro das composições que, por si só, já são dramáticas. A voz é ainda a mesma, Vincent Cavanaugh canta com uma certa fragilidade, mas com grande segurança e a sua "personalidade" parece inserir-se muito bem neste tipo de atmosferas mais luminosas, tanto quanto nas mais tensas a que já estamos habituados, como acontece com "Universal", que vive de um crescendo, tornando-se cada vez mais densa e cada vez mais tensa, culminando numa espécie de violência libertadora que, de resto, é muito o espírito deste álbum.
Outros exemplos disto: a canção "Summernight Horizon", que me parece uma das melhores do álbum, ainda que uma das mais tristes, a fazer lembrar um pouco os tempos de "Pulled Under at 20000 Metres a Second", mas mais arriscada e, também, mais conseguida; ou ainda "Get Off Get Out", que, sendo uma das canções mais negras, parece ser também a mais inesperada de todo o álbum, não contendo reminiscências a qualquer outro álbum a qualquer outra canção; talvez por ser uma das duas escritas por John Douglas, o baterista, que, ainda assim, revela aqui maior originalidade do que em "A Fine Day To Exit", onde compunha metade do álbum.
"We're Here Because We're Here" está também cheio de pequenas subtilezas, o que já não é estranho nos Anathema, particularmente tendo em conta os álbuns de 2001 e 2003. Exemplo disso é "Everything", onde encontramos uma certa ambiência folk, assim como em "Angels Walk Among Us", que conta com a participação de Ville Valo, o vocalista dos HIM. A letra desta última canção tem ainda uma questão curiosa, que a de fazer lembrar um pouco o estilo lírico de "Serenades" (1993) ou de "The Silent Enigma" (1995), que já não ouvíamos nos Anathema há algum tempo ainda que, como sempre, as canções sejam da autoria de Danny Cavanaugh.
Outra coisa que me parece notória neste álbum, e que vem talvez continuar um pouco o que acontecia em "A Natural Disaster" é que estas canções parecem deliberadamente afastar-se do conceito típico de "canção" com estrofe-ponte-refrão-estrofe-ponte-refrão-coda-refrão. Estas canções parecem vaguear, mais interessadas em desenvolver as possibilidades instrumentais e de letra, tornando-se assim mais fortes e surpreendentes. Se "Thin Air", "Angels Walk Among Us", "Get Off Get Out", "Universal" ou "Hindsight" são bons exemplos disto, "Presence", cuja voz está entregue a Lee Douglas, é exemplo máximo disso, parecendo uma espécie de monólogo de lamento, com cerca de três minutos apenas.
Acima de tudo, "We're Here Because We're Here" é construído por atmosferas e paisagens estranhas, de um orgânico e intrincado, e os Anathema parecem aqui sintetizar todos os sentimentos humanos. Em termos de letras, estas poderão estar ao nível das melhores da banda, lado-a-lado com "A Fine Day to Exit" e "A Natural Disaster".
Em suma, valeu a pena esperar sete anos por este álbum. Intuo nele um novo começo para os Anathema, eles que têm realmente o vício do recomeço. É de notar que ninguém, ao ouvir "Serenades" poderia prever um álbum como "We're Here Because We're Here", mas isso é o menos importante. O mais importante foi ele ter acontecido. E ter acontecido com toda esta grandeza.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Poe-Mas-Com-Sentidos 13


como é fácil esquecer as coisas
ou ignorá-las após terem passado
o dia de ontem por exemplo ou de amanhã
emaranhada na memória o primeiro
se atolados no hoje não chegamos a dar por nós
feito de um nadinha de ansiedade o segundo
de que só saberemos depois de amanhã
ainda que hoje se vislumbre como será

tarde embora a clarividência do acaso.

Wanda Ramos
Poe-Mas-Com-Sentidos
1986, ed. Ulmeiro
pintura de Salvador Dalí

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mola da Roupa


Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.

Jorge Gomes Miranda
O Acidente
2007, ed. Assírio e Alvim
imagem de Adriana Molder

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Na Insónia Vivem

Dormia nos séculos, na obra (o azulejo),
e hoje vivo a vigília, reparto
os detritos do ouvido (nesses pátios chamam), a poeira urbana.
Se no sono mortal, entre frutos, pensava
na ciência, se os fenos, no exterior,
murmuram; que não recebi dos cereais o
seu dom; nada senti (as úlceras) entre arbustos velhos, portas de sombra
de um só solar; dançam, no peristilo, em pedra, e no entanto
assim dormem (o seu estado: a cerâmica). Só agora me exaltam;
arte, memória, as páginas, na insónia vivem,
lembro, como adormecem os mortos (silêncio vital) no seu tempo.


Fiama Hasse Pais Brandão
(Este) Rosto (1970)
in "Obra Breve"
2007, ed. Assírio e Alvim
imagem de Eduardo Luiz

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lost Days


The lost days of my life until to-day,
What were they, could I see them on the street
Lie as they fell? Would they be ears of wheat
Sown once for food but trodden into clay?

Or golden coins squandered and still to pay?
Or drops of blood dabbling the guilty feet?
Or such spilt water as in dreams must cheat
The throats of men in Hell, who thirst alway?

I do not see them here; but after death
God knows I know the faces I shall see,
Each one a murdered self, with low last breath.

‘I am thyself, — what hast thou done to me?’
‘And I—and I—thyself,’ (lo! each one saith,)
‘And thou thyself to all eternity!’


Dante Gabriel Rosetti
The House Of Life
1881



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pinturas de Elizabeth Eleanor Siddal

Uma vez mais, incitado pela leitura do romance "Adoecer" de Hélia Correia, que concluí há uns dias, lembrei-me de assinalar aqui uma questão que me parece interessante na história de Elizabeth Eleanor Siddal e de Dante Gabriel Rossetti.
Elizabeth é mais conhecida por ter sido obsessivamente desenhada por Rossetti e, eventualmente, mais ainda por ter sido ela a modelo da "Ophelia" de Millais.
Aquilo que é menos conhecido é que Elizabeth era, ela mesma, pintora e poeta. Os seus trabalhos plásticos chegaram, inclusivamente, a ser incluidos em exposições dos Pré-Rafaelitas, sendo ela a única mulher do grupo.
Mais ainda, o romance de Hélia Correia vem suscitar uma dúvida interessante: a de que Elizabeth terá alguma presença autoral na pintura do próprio Rossetti. Fez-me pensar num muitíssimo interessante texto de Rosa Montero sobre a relação de Camille Claudel com Rodin, em que nos explica que a influência de Rodin na obra de Camille é muitíssimo analisada, ao passo que a influência de Camille na obra de Rodin é descurada.
Para o bem e para o mal, aqui ficam, entre desenhos e pinturas, dez trabalhos de Elizabeth Eleanor.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Hanging Wall


Maybe because she's invited
The host waits in line to see
Leaving the room for the exile
A sleeping land mine

And no replys to the hanging wall
If we colide
We miss the guide-lines we speak of

Call me thief after a bargain
Or give me something more to see
Point blank at a riot
And hide your loved one

And no replys to the hanging wall
If we colide we miss the guide-lines

That's how you work on black stars
I travel through fireworks
Twilight's lonely crowned, suddenly down
Mr. Right is so upside down, he drowns
Missing his minor role in a nervous breakdown
Suddenly down

And no replys to the hanging wall
If we colide
We miss the guide-lines we speak of

Last night I dreamed of a long-run ride
Through skins of suede
Where we lay down above water mark
I broke the mirror
Don´t mind if you take the stage
Last night I dreamed of our love

With no replys to the hanging wall
Please no replys, runners lose control
If we colide
We miss the guide-lines we speak of

Miguel Guedes
(Blind Zero)
Luna Park, 2010
pintura de Edvard Munch

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Canção para o dia de hoje

Amália: Não sei por que te foste embora

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Mês de Dezembro 1


continuamente, escuta, me destruo
e as longas águas sem sossego fogem
e os ossos de dezembro coincidem
e são do inverno estas metamorfoses

não falarei da vida porque a vida
perdidamente triste se sustenta
de surdos pensamentos e desastres
e devagar a luz se lhe estrangula

sempre assim foi esta periferia
da escrita a desfazer-se e é no inverno
que nos olhamos com ferocidade
antes que o tempo devore outros discursos


Vasco Graça Moura
O Mês de Dezembro e outros poemas

1972, ed. Inova
pintura de Caspar David Friedrich

Tom Jobim vezes duas

Elis Regina: Águas de Março



Jane Monheit: Waters of March

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um Soneto


Apenas do amor quero tão alto preço
do mais pouco ou quase nada peço
dias há em que o verso pede rima
como este a querer o que estima

e que não direi; pois que a vida
se se sente desordenada
ou em ardor que começa e finda
imprevisível em cada coisa e nada

ninguém assim o determina.
Apenas de quando em quando vestígios
por entre duas cidades, dois rios

um a norte, outro a sul que te imagina
ou balouça ou adormenta se o penso
querer dizer aqui o que não posso

Helga Moreira
Tumulto
2003, ed. &etc
imagem de Eduardo Nery

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Poesia


Era um encontro impossível. Deitados à noite
sobre uma colcha apenas conseguiram tocar-se
com o choro, mas o cavaleiro não conhecia esse
segredo, nem via que o seu beijo se assemelhava a
uma morte definitiva. Porque tudo nele era matéria
flutuante, não suportava a felicidade. Uma luz
que não morria saía dela, como um barco que
demora séculos a desfazer-se abandonado num
porto, já devorado pelas algas. Por isso, o homem
vestia de novo a armadura e esperava até que,
desaparecido o anjo, solta para a caça, ela voltasse
a ser a presa sem covil, à mercê da sua lança, onde
por suas próprias mãos havia colocado uma insígnia.


Jaime Rocha
Zona de Caça
2002, ed. Relógio d´Água
pintura de Ford Madox Brown

A beleza de Elizabeth Eleanor Siddall, pintada por Dante Gabriel Rossetti

Estou, de momento, a meio da leitura do mais recente romance de Hélia Correia. "Adoecer" é uma belíssima história de amor, entre dois seres excepcionais, o pintor Pré-Rafaelita Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, sua companheira e modelo para as mais variadas pinturas.
Se já o poeta Jaime Rocha, companheiro de longa data de Hélia, dedicara vários livros aos Pré-Rafaelitas, entre os quais "Lacrimatória" e "Necrophilya", "Adoecer" é mais uma oportunidade de atravessarmos algumas visões apaixonantes quer dos Pré-Rafaelitas, quer da relação entre Siddall e Rossetti.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Travelling III


Limpei os óculos a uma mulher a quem esqueci o nome.
Nunca lho perguntei. Foi um acto de amor. Falámos e de tudo o que dissémos
nada foi importante.
Jamais senti desejo de revê-la.
Despedi-me de seu corpo
rasguei-o sem perder-me.

Tudo isso e o ladrar de um cão
ficará na memória.
Talvez renasça um dia numa saga. Comigo
passa-se com os animais o mesmo que se passa com as pessoas.
gosto deles mas temo aproximar-me. Sinto-me tão exterior às coisas.
Uso-as com o máximo de desonestidade
mas isso não me preocupa,
tenho a vida inteira à minha frente para sentir remorso.


Eduarda Chiote
Travelling
1983, ed. O Oiro do Dia (com "Quem Não Vier do Sul" de Helga Moreira)
pintura de Vanessa Chrystie

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Anges Chus/ Anjos Caídos (fragmentos)



La hauteur du ciel se mesure par la chute de anges.


*
Les anges peuvent s´approcher du soleil sans que leurs ailes fondent.
*
Les anges sont transparents. Sont-ils pour autant invisibles?
*
Les anges ont assité à l'expulsion de l'éden, ont vu les empires naître et crouler, les hommes se faire périodiquement faucher tels des blés, les charniers remplacer le fumier, pousser des moissons de soldats du stylo transgéniques, ont été témoins de la mort des dieux et de la décadence des hommes. Mais leur longévité ne leur sert de rien: les anges sont dépourvus de mémoire.
*
Personne ne sait où vont les anges quand ils meurent. L'homme n'explore l'espace, sous les plus divers pretextes, que dans l'espoir de découvrir le cimetière des anges.
*
Les anges ne font que passer. Comme le temps. Seul le silence s´installe.
*
Qui veut faire l'ange se condamne à la chute.
*
Qui reçoit une feinte d'ange sur la tête doit la prendre comme une bénédiction.
*
On sait qu'un ange peut choir. On ignore si un diable peut s'élever.
*
Les chutes d'anges, comme le pluies d'étoiles, annoncent l'extinction prochaine du ciel.
*
Les anges ne peuvent pas pénétrer en enfer. Ils visitent la terre comme l'antichambre de la damnation.
*
Les démons sont légion. L'armée des anges au ciel a été créée commo mesure de dissuasion. On ne rencontre sur terre que des anges déserteurs. Ils ne peuvent postuler que des postes de gardiens: ils n'ont appris qu'à obéir.
*
Les anges ne craignent pas l'orage. Ils se rient du tonnerre des éclairs. Mais quand dieu se fâche et envoie, au lieu de pluie, des plaies, les anges volent bas.


Saguenail
Il n'y a Pas De Saisons en Enfer
2007, ed. Hélastre

desenho de Alberto Giacometti


***************************



A altura do céu mede-se pela queda dos anjos.
*
Os anjos podem-se aproximar do sol sem que as suas asas derretam.
*
Os anjos são transparentes. Serão para todos então invisíveis?
*
Os anjos assistiram à expulsão do éden, viram impérios nascer e sumir, os homens a serem periodicamente ceifados como milho, as sepulturas a substituir o estrume, plantações de soldados de chumbo transgénicos, foram testemunhas da morte dos deuses e da decadência dos homens. Mas a sua longevidade não lhes serve de nada: os anjos são desprovidos de memória.
*
Ninguém sabe para onde vão os anjos quando morrem. O homem não explora o espaço, sob os mais diversos pretextos, senão na esperança de descobrir o cemitério dos anjos.


*
Os anjos estão só de passagem. Como o tempo. Apenas o silêncio se instala.
*
Quem quer fazer o anjo condenar-se à queda.
*
Recebendo um anjo falso na cabeça deve tomá-lo como uma bênção.
*
Sabemos que um anjo pode cair. Não está claro se um demônio pode ascender.
*
As quedas dos anjos, como as chuvas de estrelas, anunciam o aproximar da extinção do céu.
*
Os anjos não podem entrar no inferno. Eles visitam a terra como antecâmara da condenação.
*
Os demónios são legião. O exército de anjos no céu foi criado como medida de dissuasão. Não reencontramos em terra senão anjos desertores. Eles não podem ter mais que postos de guardiães: não aprenderam senão a obedecer.
*
Os anjos não têm medo da tempestade. Eles riem do trovão do relâmpago. Mas quando Deus fica irado e manda em vez de chuva, pragas, os anjos voam baixo.





Tradução livre de Sadsamson

sábado, 25 de dezembro de 2010

Hélia Correia: Insânia

UMA ESPIA NA CASA DO AMOR

Há já algum tempo que leio os livros e todos os dispersos que encontro de Hélia Correia, e, para ser sincero, quanto mais leio, mais chateado fico. Seriamente chateado. Penso na enormíssima quantidade de "poetas" que andam por aí a editar livros e mais livros; e depois comparo com o que tenho encontrado em revistas e antologias de poesia de Hélia Correia, e percebo que, se a autora tivesse seguido esse lado, poderia hoje ser uma excelentíssima poeta. Não foi o caso. Em 1981, com "O Separar das Águas" (ed. Regra do Jogo), Hélia escolhe a prosa, em detrimento de quase dez anos a publicar poesia dispersamente e, salvo duas pequeniníssississimas edições, "A Pequena Morte" (com "Esse Eterno Canto" de Jaime Rocha, 1988, ed. Black Sun) e "Apodera-te de Mim" (2002, ed. Black Sun), tem sido na ficção que Hélia Correia se tem demonstado um dos casos de mais séria originalidade na nossa literatura. Para o provar, cá estão romances como "Lillias Fraser" (2002, ed. Relógio d´Água) ou o mais recente e aclamadíssimo "Adoecer" (2010, ed. Relógio d´Água) ou novelas como "Montedemo" (1983, ed. Ulmeiro) ou "Bastardia" (2004, ed. Relógio d´Água).


"Insânia" (ed. Relógio d´Água), editado em 1996, parece-me ser um caso que não pode ser comentado sem se aludir ao passado de Hélia na poesia. Isto porque, antes sequer de falar da história do romance, há que referir toda uma construção de linguagem, toda ela absolutamente poética, que é a estrutura que sustenta todo o romance, mais, se calhar, do que os restantes. Dessa linguagem, podemos dizer, antes de mais, que é sempre surpreendente, por mais que leiamos Hélia Correia. A força é uma força telúrica. A escrita de Hélia Correia vive duma espécie de misticismo, de encantamento, que a palavra expressa perfeitamente, criando uma espécie de presságio. Poderíamos ligar esta ambiência à tradição oral, o que me parece adequado, mas também aos arqui-textos bíblicos, o que se torna praticamente inegável quando relembramos que os primeiros dois títulos de Hélia para a bíblia nos remetem, "O Separar das Águas" e "O Número dos Vivos" (1982, ed. Relógio d´Água). Assim sendo, a questão de uma linguagem com algo de arcaico e de grotesco não é também alheia à construção dos romances de Hélia Correia.
Precisamente essa espécie de estética do grotesco será muito importante para, na minha opinião, entender "Insânia". Esta história tem algo de grotesco, de "pura negligência" (pag.8). É a história de uma pequena povoação a quem, um dia, do nada, surge uma pequena rapariga, muda e provavelmente atrasada mental a quem dão o nome de Natalina, que fica alojada na casa da família de Francisco Amor.
A desculpa de que se trata de uma neta, filha dos filhos emigrados no Canadá cedo se torna impossível de sustentar, porque essa família emigrada regressa para férias. E assim, toda a aldeia se diverte passando Natalina de casa em casa, para a esconder dos "Amores do Canadá".
À medida que a família emigrada começa a dar sinais de não voltar a partir, a povoção começa a dar sinais de loucura, não só as pessoas, mas o próprio ambiente, a própria natureza, culminando na debandada em massa das mulheres, que começam a vaguear pelas redondezas, atrás de uma luz divina.
São de notar dois aspectos simbólicos que me parecem evidentes:
o primeiro é a da incomunicabilidade. Mais tarde, em "Lillias Fraser" voltaríamos a encontrar esta ideia. Neste caso, Natalina, que não fala, limitando-se a grunhir, o que vai de encontro a todo um comportamento animalesco. A incapacidade de se expressar pelas palavras, bem como a sua natureza quase desumana, contribuem para que se entenda Natalina como um ser que quase não é deste mundo. É verdade que, no fundo, Natalina não chega a ser uma personagem. Ela é meramente um pretexto.
Um pretexto para aquilo que me parece ser o outro aspecto simbólico interessante: Natalina está infiltrada naquela população, principalmente na família Amor (O nome será também ele simbólico.), onde se anunciam os sinais de mudança dos tempos. Se há naquela população uma espécie de amor, esse amor não é propriamente pela criança. É um amor à interacção: apesar de ela-mesma não falar, Natalina está na origem da comunicação entre as várias famílias da aldeia, que há algum tempo se haviam tornado mais fechadas sobre si mesmas e sobre a televisão e as notícias de que o mundo estava a transformar-se. Será Natalina que colocará de novo todas as pessoas a funcionar como um colectivo e não como vários elementos isolados. Assim sendo, esse amor, que o nome da primeira família de acolhimento expressa, não me parece ser pela criança, mas antes pela vida propriamente dita, pelo viver dos afectos e das intrigas.

Um romance que é, todo ele, uma "insânia", é importante a capacidade de escrita da autora, mais do que nunca. Hélia Correia tem, como disse acima, uma grande facilidade em explorar esoterismos e misticismos. E não só a sua linguagem é generosa a sustentar com verosimilhança o ambiente de loucura, como também as análises de Hélia, que à primeira vista poderiam soar até excessivas, revelam-se como a única forma de realmente dar sentido a uma narrativa sobre a perda de sentido das coisas. É, portanto, justo dizer que Hélia Correia se colocou perante uma proposta muitíssimo exigente, mas que conseguiu vencê-la, domá-la. Em nenhuma das suas partes este romance cede a facilitismos. Pelo contrário, arrisca. E não só desafia a escrita a perseguir a loucura humana, como nos desafia a nós, leitores, a acreditar nela, a tentar entendê-la, recusando acreditar que não haja para ela uma explicação.
A resolução do final do livro é também ela surpreendente. Na verdade, muitíssimo analítico, este desenlace -que me impeço de aqui revelar- coloca uma série de questões de psicologia social, e, no fundo desarma-nos: ninguém pode dizer que não acredita que a loucura tenha sentido. As mais das vezes, assumimos que não sabemos que sentido é esse. Mas a nossa necessidade de encontrar um sentido, leva-nos por vezes às situações mais inusitadas, que resultam sempre na escolha de um bode expiatório. É o que acontece depois da insânia de "Insânia".
Constituido por dois "livros", este romance vai caminhando da luz para as trevas, tornando-se cada vez mais intrincado e complexo, mais obscuro. Momento, este, ideal, para reforçar a força poética da palavra de Hélia Correia: onde o que é narrado se revela tão negro e tão inesperado, é a força da palavra, o seu ritmo, a sua luz, que nos deslumbra e nos agarra. Hélia Correia escreve com tudo aquilo que não pode ser dito, com coisas quase abstractas e inomináveis. É essa a verdadeira poesia da sua prosa.
Por todas estas razões, parece-me que "Insânia" é sem dúvida um grande romance. E sem dúvida mais uma razão para eu ficar chateado.

Olga Gonçalves: Rudolfo

QUANDO O TELEFONE TOCA

Falecida a autora em 2004, a obra de Olga Gonçalves tem caído recentemente num silêncio bastante desagradável. Não sou, de facto, um grande defensor da sua obra em poesia, que não me parece tão relevante quanto, eventualmente, a sua obra de ficção. É facto que foi com a poesia que se iniciou, em 1972, com "Movimento" (ed. Moraes), mas logo em 1973, daria à estampa "Mandei-lhe Uma Boca" (ed. Seara Nova, 3a ed. Caminho, 1997), e, até 1987, ano em que edita o último livro de poesia, "A Caixa Inglesa" (ed. Rolim), intercalará sempre a publicação de poesia com a de ficção.
No entanto, é justo dizer que Olga Gonçalves optou mesmo pela ficção. Recentemente, Maria Graciete Besse editou "Os Limites da Alteridade na Ficção de Olga Gonçalves" (ed. Campo das Letras), onde analisa muito seriamente a obra da escritora. Ao ler o livro, parecem-me evidentes as qualidades de ficcionista de Olga G., e pergunto-me o motivo por que a sua escrita, de facto, parece estar a desaparecer.
A razão que me parece mais normal será o facto da temática de fundo, comum a quase todos os livros da autora. A emigração e as questões com ela relacionada, acabam por estar sempre presentes nesta obra, quer em papel principal- caso de "Este Verão, o Emigrante La-Bas" (1978, ed. Moraes)- quer como assunto secundário mas no entanto presente.

"Rudolfo"(1985, ed. Rolim) não escapa a essa temática. Ela é secundária, mas nem por isso se sente mesmo.
Destaco "Rudolfo" não só porque foi o livro de Olga Gonçalves que li mais recentemente, mas também porque me parece ser um caso de verdadeira originalidade.
Refira-se, para começar, que este livro surge na Colecção Fantástico das edições Rolim, uma colecção de contos e novelas de tema "fantástico", onde editaram alguns dos nossos mais importantes escritores, como Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, Nuno Júdice, Maria Regina Louro ou Natália Correia.
No caso de Olga Gonçalves, o assunto não é "fantástico" no sentido mais imediato do termo, mas trata-se de uma história que, apesar de verosímil, tem algo de "improvável" que faz adequar-se ao contexto da edição, ainda que não ceda totalmente a ela.
Concretamente, "Rudolfo" é a história de uma escritora de romances policiais que, numa época particularmente solitária e depressiva da sua vida começa a receber telefonemas a meio da noite, de um homem que sempre lhe pede que não desligue, ainda que por vezes se apresente como "o ladrão". Apesar de relutante, a mulher vai trocando algumas palavras com o homem, que lhe dá todos os indícios de conhecer os seus hábitos. A certa altura, o homem arromba a porta da mulher, só para depois poder contar-lhe que ficara durante a noite de vigia, para ter a certeza que nenhum ladrão ou assassino verdadeiro a incomodava.
E, aquilo que inicialmente parece ser uma espécie de luta pelo poder, o poder de falar ou de desligar, etc, acaba por lentamente se tornar numa troca biográfica, senão mesmo afectiva.
Aqui precisamente, entra o tal pano de fundo da emigração, já que Rudolfo seria angolano de origem, e, em determinada altura desta novela, assume ele o papel de narrador, para nos contar a trágica partida de Angola para Portugal e todos os problemas que sofreria no nosso país.
Entende-se que esta foi a forma que Olga Gonçalves encontrou de solidificar essa figura de Rudolfo que, no início do livro se nos apresenta ainda como uma voz ao telefone, uma voz que é para nós tão misteriosa como para a protagonista.
Depois, Rudolfo torna-se realmente pessoa, conhecemos o seu historial. Essa é, portanto, a relevância da presença da emigração em "Rudolfo". No entanto, a minha dúvida é se essa presença não se torna relevante demais. Ou seja: inicialmente, "Rudolfo" apresenta-se-nos como uma narrativa realmente surpreendente e empolgante, uma vez que nos coloca perante uma situação improvável e que vai contra tudo aquilo que os pais nos ensinam desde pequenos: efectivamente, este "ladrão" quer apenas conversar com a escritora, e, mesmo quando tem hipótese de lhe fazer mal, escolhe não fazer. Além disso, há nas conversas entre ambos uma espécie de incomunicabilidade consciente, como se houvesse naquela troca algo que, na verdade não poderia ser dito por palavras, é uma ideia que se sente logo no princípio do livro. O problema começa quando o passado de Rudolfo começa a ser objecto de análise: uma análise minuciosa, excessiva por vezes, que retira essa carga mística de cima do personagem. E por isso quando, no final do livro, a escritora fica tão entusiasmada com a ideia de conhecer Rudolfo, nós não partilhamos desse entusiasmo, porque o conhecemos o suficiente para não precisar de o "encontrar".
Os escritores todos têm uma obsessão. É por isso que escrevem. Ou, pelo menos, é isto que eu defendo. Olga Gonçalves teria a dela, possivelmente com a problemática da emigração.
Não sei, portanto, se será justo repreender em "Rudolfo" a relevância dada à emigração. Mas a verdade é que ela ensombra uma história criativa e inesperada, tornando-a mundana e quase explicável...
É certo que Olga Gonçalves resolve muitíssimo bem o final do livro. O desenlace, que também pode ser uma espécie de quase-anti-climax, resulta muitíssimo bem, é capaz de nos emocionar, de nos fazer coincidir com a personagem da escritora. E de referir, ainda, os capítulos finais, em que Olga desmonta uma série de processos literários de transformação de uma história, quase nos explicando passo-a-passo como transformou uma situação auto-biográfica numa sequência romancesca.
Por assim dizer, a minha opinião é que, se fossem amputados a esta novela alguns dos seus capítulos centrais sobre a origem de Rudolfo, estaríamos perante uma das histórias mais fantásticas dos últimos anos. Nos vários sentidos da palavra.
Destaco ainda a capa do livro, com um desenho de João Carlos Albernaz que, não sendo definitivamente aquilo com que, esteticamente, me identifico, me parece captar muitíssimo bem a atmosfera desta história.