



Rodrigo Leão e Cinema Ensemble: Pasion (voz: Celina da Piedade)







Lembro-me das senhoras usarem meias de vidro 








Estando a falar de um livro editado em 1969 e com as características que aponto no parágrafo anterior, será talvez oportuno fazer um pequeno parêntesis para reflectir sobre se se pode ou não falar de neo-realismo a propósito de Luísa Dacosta. Se é sabido que, historicamente, o neo-realismo era “a arte ao serviço do povo”, está visto que tal ideologia várias vezes serviu de móbil a projectos que eram mais partidários do que literários- o rebentar do 25 de Abril, após alguns anos de entusiasmo, não foi parco em mostrar-nos o desaparecimento de muitos “escritores”, bem como o envelhecimento precoce de muitos livros. É interessante constatar que Luísa Dacosta publica o primeiro livro em 1955, sete anos depois da estreia de dois dos mais pertinentes percursos da literatura portuguesa, curiosamente de duas mulheres: refiro-me a Agustina Bessa-Luís e a Ilse Losa, ambas iniciadas em 1948, com “Mundo Fechado” e “O Mundo em Que Vivi”, respectivamente. Com ambas e com Luísa Dacosta passa-se algo de muito parecido (Ainda que as respectivas obras se distingam consideravelmente.): há nelas um olhar profundamente desencantado e por vezes até miserabilista que poderia aproximá-las do neo-realismo. Mas acontece que o desencanto nestas mulheres nada tem de panfletário: debruçam-se sobre problemas humanos, intemporais e imutáveis- ou quase imutáveis-, não sendo, portanto, discursos de defesa e elogio de classes desfavorecidas –podem contê-los, mas não fazem disso motivação- mas sim sinais de uma sociedade em urgência de reformulação.
Estamos, portanto, perante um olhar que é mais político do que partidário, como víamos acontecer com outro caso, também de uma mulher: o de Irene Lisboa. Para que fique registado, não estou aqui a tentar criar algum tipo de manifesto de girl-power, mas a expor um ponto de vista que é o meu –que até sou homem- e que considero, para todos os efeitos, isento que preconceitos sexistas.
Quis explicitar esse lado –o social –da obra de Luísa Dacosta, para que não pareça estranho que, neste livro (Bem como noutros da autora que não tenho agora sob o microscópio.), encontremos relatos quer de pessoas que vivem numa quase miséria, quer pessoas da alta burguesia. Não se trata, reafirmo, de querer evidenciar diferenças de vida entre classes sociais. Pelo contrário, Luísa Dacosta mostra-nos como todas estas pessoas, independentemente de tudo, partilham revoltas e frustrações, arrastando-se por uma Lisboa que sorri aos turistas mas afoga o seu habitante. Se neste aspecto quisermos encontrar antepassados próximos, refiro dois, desta vez e por acaso, homens: Cesário Verde e Fernando Pessoa.
Separações, zangas, solidão, ausência, traições, destinos tristes e, acima de tudo, a impossibilidade de controlar a vida, pautam estes contos. A resignação e o silenciar dos dramas pessoais são, por isso, a situação mais frequentes. Estas pessoas vivem na tristeza de serem capazes de comunicar totalmente consigo mesmas e de perceberem que os que lhes são mais próximos não conseguem entrar completamente nos seus sentimentos e muitas vezes nem com isso se interessam, havendo um irreversível silêncio entre as pessoas.
É neste ambiente que, na maioria das vezes, surge o retrato. Por exemplo no conto “Burguesia”:
“Pegou na moldurinha clara e sorriu ao seu retrato de adolescente. (…) Mas de repente ficou presa nos olhos mortiços do seu rosto anguloso, actual (…)”
(pags. 93-94, 2ª ed.)
Interessa este caso em particular para explicitar outra ideia que me parece essencial sobre este volume: se o título nos aponta para a ideia de retrato, quase nos parecendo legenda de um; “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” é também testemunho da passagem do tempo, através da passagem de gerações. Neste livro, e particularmente no conto “Burguesia”, o tempo fica fixo na superfície da fotografia, mas observá-la é comprovar a dolorosa passagem desse tempo. E se, nesse conto, encontramos a dor de uma personagem que verifica que envelheceu, o último conto “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” vai definitivamente mais longe, criando um jogo em que o tempo ora se anula pela observação dos retratos, ora se faz sentir evidenciando o desaparecimento de duas das retratadas, culminando o conto num pungente e inesperado final.
Se houve “grupo” mais defendido por Luísa Dacosta foram as mulheres. São elas as personagens centrais da maioria dos contos, e aqui as encontramos como figuras brutalizadas física e/ou psicologicamente, mas também como seres de uma outra capacidade de expressão de sentimentos, possivelmente mais sincera. “Maria Vai, Maria Vem, Romance de Mulher-a-Dias” é um excelente exemplo disso, bem como um conto perturbador- que algo tem de crónica- e que é um dos mais pungentes textos da obra de Luísa Dacosta.
Que nestes contos há frequentes incursões da poesia e da crónica, parece-me evidente. Mas acima de tudo parece-me evidente que a leitura de “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” confirma a capacidade singular de Luísa Dacosta de nos contar histórias que sempre parecem tão cruelmente reais, mas de as contar de uma forma bela e arrebatadora, muito capaz de nos marcar e de nos maravilhar.
Ao abrir este volume encontramos, na página de rosto a indicação dos três “livros” que o constituem e respectivas datas:
Lovaina, 1968- Lovaina, 1971
E QUE NÃO ESCREVIA
Lisboa, 1964- Lovaina, 1968
UM TEXTO DECADENTE
Lisboa, 1961- Lisboa, 1963
O ESTORVO
São portanto três textos ordenados do mais recente para o mais antigo; escritos em 2, 4 e 3 anos, cobrindo realmente dez anos de escrita. Portanto não pode deixar de nos parecer estranho o subtítulo que é também título do primeiro livro.
“E Que Não Escrevia” parece ser um livro auto-biográfico (As datas, os nomes, os factos, coincidem com o que conhecemos da vida de Llansol.), mas não se trata propriamente de uma narrativa, de uma auto-biografia no sentido vulgar do termo. Este texto passa pela reconstrução obsessiva e não linear da vida da narradora, através de memórias, diários, cartas, postais, protestos e de uma relação intrínseca com o poder da imagem.
A figura central é antes de mais uma figura em constante mutação, sendo o aspecto mais evidente o do sexo, ao ponto de chegarmos a ler
“Sinto-me mal. O meu sexo acaba de ser determinado.”
(pag.51)
após várias referências a uma “irmã uterina” (Vejamos que o útero é um lugar de decisão do sexo e, em última análise, de morte e vida.) que será parte integrante dessa indefinição sexual.
As questões da sexualidade, que abrangem a figura central e a do pai, são das mais relevantes, mas a questão da morte tem também um peso decisivo, que passa do pai para a/o filho/a, já que o pai é “centro dos fantasmas da família e dos seus fantasmas” (pag.54), uma ideia que não é de todo estranha à obra posterior de Llansol, com particular incidência em “Um Beijo Dado Mais Tarde” (1991, ed. Rolim).
Entre a sexualidade indefinida ou ambivalente e a morte, esta criança, pois é de uma criança que se trata, escreve, embora admitindo que “sei escrever, amanhã não sei escrever” (pag.70). E, nesta difícil relação com a escrita, a criança concentra-se na pintura: na imagem, portanto. A escrita é, para todos os efeitos, algo de estranho a esta criança, é uma pertença, uma vez mais, do pai, que lhe dedicara contos, que lhe escrevia postais pedindo-lhe que respondesse- e que ouvia os seus protestos escritos. E eis aqui um dos mais interessantes aspectos de “E Que Não Escrevia”: é que a presença contínua do pai não parece expressar qualquer tipo de Complexo de Electra, mas sim uma relação que se prende essencialmente com os livros e, daí, a escrita. E isto é relevante porque, apesar desta criança assumir a pintura como vocação, ambiciona a escrita.
Esta transição dá-se quando a criança descobre na casa uma figura de braço decepado. Se se podia dizer que o braço pode representar a sexualidade, é certo que também pode representar o acto de escrever. É esta figura, na sua simultaneidade entre sexo e escrita que incita a criança a escrever. Porque se antes ela pensava “livro, os frutos que tu dás estão maduros, mas tu não estás maduro para os teus frutos” (pag.71) será a seguir que a própria criança percebe
“sou uma figura”
(pag.72)
A “figura” é então uma forma de manter presentes os vários elementos: masculino, feminino, vida, morte. Unindo o sexo e a morte, Eros e Thanatos, a figura representa a escrita, a escrita llansoliana como a conhecemos de “Causa Amante” (1984, A Regra do Jogo) ou “Contos do Mal Errante” (1986, Rolim). É numa cena pungente, abarrotante de sexo, que o texto termina com o nascimento da escrita.
E assim se pode explicar, tendo a figura como charneira, essa contradição entre “E Que Não Escrevia” e “Dez anos de escrita”: segundo a ideia da diferença entre tentar escrever e começar a escrever que Marguerite Duras definiu.
O que há, entre “Os Pregos na Erva” e “E Que Não Escrevia” é esses textos de “tentar escrever”. “O Livro das Comunidades” (1978, ed. Afrontamento) é então o verdadeiro “começar a escrever”.
Mas o assunto do nascimento não está, de todo, ausente em “Um Texto Decadente”. O texto inicia com uma citação de S. João da Cruz, “a ascese da memória/ leva à esperança”. Segundo a pequena nota de Llansol, “esta recitação decadente de um texto inspira-se no episódio bíblico de Tobias que foi levado a Gabelo em Reges por um homem que não sabia que era um anjo." (pag77). A esta história sobre um grupo de prisioneiros a ser levado para uma prisão não será também alheia à história do próprio S. João da Cruz, que como sabemos, será uma das futuras figuras de ”Geografia de Rebeldes”- a segunda em, mais particularmente, “O Livro das Comunidades”.
De certa forma, mesmo intuindo que os personagens se preparam para a morte é também certo que vemos que aqui algo se prepara para nascer. E apesar de já perto do final, uma criança nascer de Maria, sem ter sido concebida (O que volta a remeter-nos para a questão do texto bíblico.), parece-me que este nascimento é outro, significando a escrita, provavelmente.
Quando uma personagem, Ávila, sofre uma morte fictícia, é esta a descrição:
“Ela, fossem quais fossem as máscaras de que se servia para esconder como era, no íntimo tinha um desinteresse profundo por tudo o que apaixonava os outros, ou o que deveria apaixoná-la segundo as numas sociais; recusou comunicar autenticamente com alguém; estava na posse das suas ideias e da sua verdade. Havia construído uma solidão defensiva e gostava de deixar vagabundear o seu espírito sem freio ou leis (…)
(pags.154,150)
Não poderá, penso eu, estar mais de acordo com a escrita de Maria Gabriela Llansol, ou com a escrita que neste tempo se desenvolvia, se a própria Llansol, colocando-se num mundo de linguagens diz que “não posso, não podemos, ir mais além do que a linguagem que vou descobrindo, vamos descobrindo.” (pag.106)
O texto, dividido em Tempos de extensão irregular, aborda vários textos bíblicos, transformando-os de acordo com o que é narrado, dando-lhes novas leituras, pautadas de uma pormenorização obsessiva, que consegue atinge o grotesco. No fundo trata-se de conceber um mundo onde a fealdade reina (Repare-se que no Tempo 3 o desenho do arcanjo é apagado da parede da prisão mas deixam-se ficar desenhos de pénis.), um mundo onde a escrita possa nascer porque tem um sentido, uma razão de ser.
Finalmente, “Um Texto Decadente” parece-me sofrer de múltiplas fragilidades, tornando-se em muitos dos seus fragmentos, confuso e excessivo, nomeadamente por questões de pontuação (Que chega a não existir.), o que pode contribuir para tornar o texto mais denso; mas também mais confuso.
Os textos bíblicos serão também uma presença muitíssimo relevante em “O Estorvo”, conjunto de contos que encerra o volume.
E, se em termos formais, “O Estorvo” se encontra mais próximo de “Os Pregos Na Erva”, a verdade é que em relação ao livro de 1962, estes textos marcam uma considerável evolução, ao mesmo tempo que também contribuem para, em muitos aspectos, podermos ver, nestes, mais definido o punho de Maria Gabriela Llansol.
Assim, “O Estorvo” volta a colocar-nos perante personagens anónimas, ou quase. E é na sua forma de viver absolutamente comum que acontecem os mais surpreendente casos. O texto bíblico é não raras vezes suporte deste imaginário (Sendo “Os Imitadores” o caso mais flagrante.), não no sentido em que Llansol os recria, mas que os questiona. Questões de sexualidade, de posse, de perda e de morte incluídas. Destes 11 contos, aquele que me parece mais relevante será “Cordeiro Negro”, que possivelmente nos aponta a questão do sacrifício, mas vai mais longe: não o trata como oferenda propriamente dita, mas como serviço aos desejos do Homem, aniquilando o sentido do homem que mata para se provar a deus.
E é curioso, porque mesmo em “O Estorvo”, há um conto que volta a abordar a questão do nascimento. E aqui justamente este conjunto de demarca de “Os Pregos na Erva”: ao passo que no primeiro estávamos perante um acontecimento prestes a acontecer e nos deixava a angustia de não chegarmos a vê-lo, em “O Estorvo” assistimos mesmo a essa contínua transformação, a esse acontecimento. A questão da violência, tão patente- a meu ver- em “Os Pregos na Erva”, mantém-se aqui, portanto, mas de forma mais acentuada.
Neste “livro” estamos perante um mundo em que os pequenos presságios se concretizam, onde pequenos acontecimentos se vão dando, principalmente nessa trama a que chamamos “as relações humanas”. Mas a sensação que “O Estorvo” nos deixa é a de que alguma coisa maior se aproxima. E é essa urgência que em nós causa maior eco.
No geral, “Depois de Os Pregos na Erva” é efectivamente a sobreposição de “três momentos de uma escrita a braços com uma história que, em português, é a da expropriação inexorável de um presente que não pode ser gerido pelo indicativo” (hors-texte) - é portanto um presente que se constrói pela convocação dos tempos passado e futuro-não só pessoais, mas também colectivos. Ainda que entre os três textos possamos encontrar várias diferenças as de uma escrita em rápida construção -podemos encontrar-lhe essa principal unidade, que não é nada estranha à escrita de Maria Gabriela Llansol.

Não será por acaso que os primeiros dois contos deste livro se referem à relação entre duas pessoas: se em “Antecipação de Outono” sentimos uma certa tensão entre os personagens, “Exercícios de Imaginação”, escrito inteiramente em diálogo, termina com a seguinte ideia
_Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
_Tu?
_Tu.
(pag.33)
Após este final premonitório e desencantado, em “Reflexos na Água” encontramos a solidão, para no conto que dá título à recolha encontrarmos já um frio abandono. “Corpo Recusado”, o conto, será dos textos mais desoladores e pungentes da prosa portuguesa. O que lemos nele é um retrato implacável da solidão de uma mulher, recolhida às suas memórias, único e ténue fio que ainda a une à vida e ao mundo, um mundo onde não há "Nem mais ninguém nem mais nada" (pag.45).
Os restantes contos, oscilando entre relatos mais íntimos, onde um pendor profundamente estético serve, no fundo, a descrição dos sentimentos, e registos do real e do quotidiano onde percebemos esse olhar atento e incisivo que é o de Luísa Dacosta, há algo de comum: a ideia da solidão. E esta ideia surge-nos não da forma mais imediatista, que seria a de nos apresentar personagens isoladas: pelo contrário, Luísa Dacosta prefere mostrar-nos pessoas que frequentemente estão rodeadas de outras: é nessas pessoas que a escritora opera uma espécie de arqueologia íntima, mostrando-nos como é na intimidade que uma pessoa realmente tem uma dimensão do quão sozinha está na vida.
É a esta arqueologia que devemos contos com o sarcasmo impiedoso de “Infidelidades, Pulseiras e Agências de Viagens” ou “O Bom Nome das Famílias”; bem como outros, cuja sinceridade, tão drástica e tão bela, nos fere, como “Na Biblioteca, Com Rosto Desconhecido”, “Notícia no Jornal de Amanhã” ou “_Até Segunda! Bom Fim-de-Semana”.
Mais ainda, em termos de organização, penso ser de referir uma característica que me parece presente em todos os livros de Luísa Dacosta: a questão da linguagem. Ela é um dos elementos que mais decisivo se torna na respiração dos livros da autora: note-se que encontramos aqui tanto contos de registo mais ligado ao real quotidiano e outras de um maior relevo para a exploração do mundo interior das personagens. Isso define muito a estrutura deste livro. Ele nunca se torna aborrecido porque sabe intercalar esses dois tipos de linguagens.
Mas esses momentos, como “Angústia” ou “Oceanos Interiores”, bem como o prefácio, “Palavras e Mito”, fazem mais do que alterar o ritmo do livro. Eles relembram-nos que Luísa Dacosta não abdica de uma linguagem poética e densa e que esta linguagem é precisamente aquilo que a demarca da prosa vulgarizada.
Falta-me ainda referir a questão da mulher. “Corpo Recusado” vem confirmar que as preocupações feministas não passaram ao lado de Luísa Dacosta. Não lemos nestas crónicas qualquer tipo de benevolência, mas sim uma incisiva denúncia das diferenças que ainda existem entre homens e mulheres.
O maior defeito de “Corpo Recusado” será provavelmente nunca ter sido reeditado, desde há 25 anos. Mas isso diz mais do mercado livreiro português do que da escrita de Luísa Dacosta.

Simbolicamente, António passa a habitar a Loucura: “uma ‘Folie’ de inspiração francesa, um desses intrincados pavilhões cheios de falsas saídas e efeitos ilusórios com que a velha nobreza espicaçava os sentidos…” (pag.75). Ao longo dos seus dias, António apercebe-se que se sente continuamente torpe e dormente. A certa altura, Carma mostra-lhe uma plantação onde crescem Nepentes, “essa bebida mágica a que os antigos gregos recorriam, se queriam afastar a tristeza” (pag.95). Na mesma plantação cresce ainda o Soma. Sobre o Soma, Aldous Huxley, citado no pórtico desta novela, afirma que aos bebedores “os seus corações enchiam-se de coragem, de alegria e de entusiasmo, os seus espíritos enchiam-se de lucidez” (pag.7), apesar de ser uma droga “tão perigosa que até o grande deus dos céus, Indra, adoecia às vezes, por tê-la bebido.” (pag.7).
A narrativa culmina com a experiência de António com o Soma.
O que me parece ficar claro com os acontecimentos do Pontão é o quotidiano de António que se vai tornando gradualmente mais arcaico, ao ponto da total selvajaria. Os perigos dessa vida, no entanto, só se tornam claros para António depois do Soma. E é aí que Hélia nos coloca perante uma surpreendente situação: a da impossibilidade de recuar.
Nesta história há um certo timbre de fatalidade, quase de predestinação, o que nos faz sentir que António é uma espécie de homem encurralado num total desespero cuja resolução lhe escapa. Se tentarmos analisar a facilidade com que ele se torna dependente dessas vidas mais arcaicas, mais desorganizadas, poderemos deparar-nos com esta interessante questão: a de que António atravessava um vazio na sua vida vulgar, talvez por causa dos resíduos deixados pelos seus valores antigos. Só isso o tornou dependente de situações precárias e quase desumanas, mas que estão de acordo com os seus ideais. E se trouxermos de novo o texto de Platão, notemos que, nele, a vida realmente precária é a da Caverna, pelo menos à luz da nossa sociedade. Se partir do princípio que, ao criar um paralelismo entre os dois textos, a Caverna corresponde à vida de António antes de conhecer Teresa-Bárbara, então essa é a vida verdadeiramente precária: a que não coincide com os valores pessoais.
E também não consigo evitar perguntar-me até que ponto, apesar do Soma surgir só no final da narrativa, não há neste livro uma profunda dependência, como se determinado tipo de vida não fosse, de certa maneira, uma droga.
A escrita propriamente dita está de acordo com o imaginário fantasista de Hélia Correia. Ainda que aqui tudo pareça mais ligado a um universo urbano ou a assuntos mais facilmente associados a um espaço urbano, a força telúrica que brota nos personagens e nas suas relações e as descrições quase grotescas traçam facilmente a ponte para as restantes histórias de Hélia. É também uma escrita com algo de viciante, que nos dá a vontade de ler mais e mais e que talvez seja impulsionada pela estrutura de capítulos curtos e sem desperdícios de tempo com detalhes irrelevantes.
Mais ainda, a escrita de Hélia Correia tem esse poder de repercutir dentro de nós, perpetuando a história, mesmo depois de terminada.


