terça-feira, 7 de setembro de 2010

Maria Gabriela Llansol: Os Pregos Na Erva

A INTROMISSÃO DA VIOLÊNCIA


À data da sua estreia, com este volume de contos, seria difícil de prever no que a posterior obra de Maria Gabriela Llansol iria resultar. Para todos os efeitos, a obra de Llansol, como a conhecemos, começa a traçar-se timidamente em "Depois de Os Pregos da Erva", editado em 1973, e mesmo assim, seria "O Livro das Comunidades", de 1977, a realmente fundar a obra que se celebrizou por títulos como "Causa Amante" (1984), "Contos do Mal Errante" (1986) ou "Um Beijo Dado Mais Tarde" (1990).



E, no entanto, seria inadequado dizer que Maria Gabriela Llansol não está nos contos de "Os Pregos na Erva". Editados em 1962 pela Portugália editora, e escritos entre 1956 e 1960, viriam a ser reeditados apenas em 1987 pelas edições Rolim, com um posfácio de Augusto Joaquim.
Mas, na década em que surgem, é de notar, como veremos no ensaio do marido da escritora, que a crítica não foi particularmente generosa com os contos de Llansol. O que é de estranhar.
Uma primeira e quase superficial leitura destes contos mostra-nos que neles há uma espécie de recusa do climax. Além disto, estes contos são pautados por aquilo que conhecemos, desde Nathalie Sarraute, como "ante-sentimentos". Ora em 1959 , já Fiama Hasse Pais Brandão, só para dar um exemplo, publicara o seu livro "O Aquário". Ainda hoje, há uma certa hesitação em definir esse livro de Fiama: há quem prefira classificá-lo como prosa poética ou poema(s) em prosa, outros ainda lhe chamam narrativa, conto. E neste livro, existe também essa ideia do ante-sentimento, como Urbano Tavares Rodrigues apontaria no seu prefácio à primeira peça de teatro publicada por Fiama, em 1961, "Os Chapéus de Chuva", além do não-acontecimento, que me parece presente tanto ou mais no livro de Fiama como no de Llansol.
No entanto, "Os Pregos na Erva" não teve a mesma benevolência quando foi lançado. Podemos reparar que estes contos foram lançados como tal, ao passo que o dia Fiama, uma vez mais por exemplo, fôra lançado sem qualquer classificação numa colecção de poesia. Podemos também relembrar Herberto Helder, que em 1963, um ano depois da estreia de Llansol, publicaria uma colectânea de contos, "Os Passos em Volta", numa colecção de contistas, e actualmente a crítica é unânime em afirmar que a separação entre prosa e poesia é, nesse livro, muito ténue.
Se a isto acrescentar-mos que em 1961 Portugal assistia ao boom do Poesia 61, que veio revolucionar os conceitos que reinavam na poesia anterior, é mais estranho ainda pensar que a escrita de Maria Gabriela Llansol não tenha causado nenhuma impressão especial. É justamente pela questão da invulgaridade ou da originalidade que refiro Fiama, o Poesia 61 ou Herberto, e menos para entrar numa análise da canga poética na obra de Llansol.
Isto não tem, na verdade, interesse absolutamente nenhum, com excepção de um pequeno pormenor: é que sobre "Os Pregos na Erva" acaba por não existir nenhum texto crítico realmente imparcial, pois aqueles que existem e que realmente se concentram em entender o difícil universo llansoliano estão já inquinados pela leitura da obra posterior; incluindo esta nota de leitura.
Mas, concrectamente sobre este volume de contos, muito se pode dizer.
Maria Gabriela Llansol coloca-nos constantemente perante situações sufocantes. Os seus contos têm frequentemente um número de pessoas fechadas num espaço que parece sempre demasiado pequeno para todos. Mas mais sufocante ainda do que esta arrumação de pessoas, que pautam a maioria mas não a totalidade dos contos, é a dificuldade de comunicação e mais ainda de reacção que os seus personagens manifestam. De certa maneira, é como se estas pessoas tivessem consciência de que precisam de reagir a alguma situação, mas fossem vencidas pela inérica ou pela impossibilidade. Explica isto melhor aquilo que acima disse, acerca do não-acontecimento, do "quase" (Que a crítica apontou religiosamente em cada texto sobre este livro.) existente em cada um destes contos.
Pergunto-me (O que prova que, realmente, nada do que se diga sobre "Os Pregos na Erva" é imparcial.) se isto não poderá, conscientemente ou não, representar a escrita verdadeira de Llansol: podemos deduzir que a escrita que lemos nos restantes livros da autora já estaria dentro dela, mas amordaçada, ou ainda em maturação, querendo sair, querendo ser escrita. Porque é um pouco isso que acontece nestes contos: há alguma acção, alguma palavra, que os personagens querem legitimar, mas por umas ou outras razões, disso se vêem impedido.
Outra característica que me parece comum a quase todos estes contos é a solidão que existe em cada um dos seus personagens, que talvez nem seja solidão, mas mesmo isolamento. Por mais que acompanhados, estes personagens parecem ter dificuldades em coadunar aquilo que sentem, aquilo que intimamente são com aquilo que os rodeia. Os indíviduos encontram-se numa permanente ruptura com o meio. E será justamente tudo isso que justifica os não-acontecimentos de cada conto. Esta ideia de isolamento, de redução àquilo que se sente e se pensa, é reforçado ainda pela ausência de elementos biográficos, de elementos que situem o personagem num trabalho, numa cidade, numa família: isso raramente existe nestes contos e, quando acontece, é um pormenor sem importância.
Num dos contos, no entanto, parecemos encontrar a escritora que Maria Gabriela Llansol se revelaria a partir de "O Livro das Comunidades". Refiro-me ao conto "O Sal". Este é um dos contos mais antigos deste livro, datando de 1957, no entanto, é aquele que mais parece aproximar-se dos conceitos que formariam a restante obra (Ou "restante vida".) llansoliana. Estamos perante uma mulher que Pensava literariamente (pag. 71). Quando o marido desta personagem entra, eis o que lemos:

Se escrevesse um livro talvez o escolhesse para uma das personagens (...) Mas não diria nada sobre ele, a não ser que tinha entrado ou saído da sala ou bebera um copo de groselha. Não encontraria melhor maneira para descrever alguém de contornos apagados. Numa folha branca defini-lo-ia com um simples segmento de recta.
(pag.72)

Ou seja, em tão poucas linhas, temos já o processo tão llansoliano de absorver a realidade como forma de escrita, e até a ideia do segmento de recta que, ao longo da maioria dos seus grandes romances haveria de ter uma presença essencial.

Além de uma espécie de formação de pensamento, literário e outro, "Os Pregos na Erva" vale ainda por certas passagens de uma pungente beleza, em que reconhecemos inevitavelmente uma presença da poesia, uma densidade metafórica que comove, e ao mesmo tempo, também uma certa violência, que os títulos dos contos evidenciam (Note-se "Os Pregos na Erva", "Os Corpos Cercados", "A Casa às Avessas", "A Manhã Morta" ou "A Terra Fora de Sítio".).
Mas esta podia ser a ideia essencial deste livro: ele apresenta-nos a violência, a agressão, o desgosto, como elementos que se intrometem numa determinada realidade a que somos apresentados. É dessa perturbação e da impotência perante ela que vivem os personagens, como se, ao deixarem-se cair, realmente sentissem "os pregos na erva".
Serão um pouco estas a lógica e a estética do livro de contos "O Estorvo" que fecha o livro "Depois de Os Pregos na Erva".

Elogio da Distância


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.


Paul Celan (trad. Yvette K. Centeno)
Papoila e Memória

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Yvette K. Centeno: Matriz

ROMANCE COM SENTIDOS

Yvette K. Centeno tem, desde a sua estreia em 1961, sido uma das autoras mais prolíferas da literatura contemporânea. Se à primeira vista se poderia dizer que se dividiu entre a poesia, o romance, o ensaio, o teatro e a tradução, eu antes diria que Centeno juntou em si todas estas categorias. Aqui há, antes de mais nada, um universo, um mundo, uma individualidade: estamos perante uma produção que tem as suas leis, definidas e concretas, com um imaginário próprio ligado não raras vezes aos símbolos alquímicos, herméticos e maçónicos, e também uma forma muito marcada, que se prende essencialmente com questões de ritmo, de escolha minuciosa de palavras. Tudo isto talvez explique por que, no fim de contas, a escrita de Yvette K. Centeno não é uma escrita fácil. Nisto não há qualquer tipo de demérito, antes uma característica como outra qualquer. Dela disse, maldosamente, João Gaspar Simões que "não é deste nem daquele país: não é deste mundo", que nos seus romances "Há algo de esperanto, um esperanto altamente trabalhado". No entanto, aquilo que serviu a Gaspar Simões para maldizer a escrita da autora tem sido notado por críticos menos reaccionários como justamente uma das características mais individuais e fascinantes desta escrita.


E se a estreia de Centeno se deu em 1961, com a publicação de "Opus 1", em poesia, foi no ano seguinte que editou o seu primeiro romance, "Quem, Se Eu Gritar". Seguiram-se "Não Só Quem Nos Odeia" (1964), "As Palavras, Que Pena" (1972), que formavam com o primeiro uma espécie de trilogia. A novela cómica "As Muralhas", publicada em 1986 sob o pseudónimo de Barbara Escrava e a que não faltavam alguns elementos mais sérios ligados aos símbolos herméticos é uma história que, de qualquer forma, se desvia um pouco dos primeiros três romances da autora, ainda que se aproxime de alguns momentos da sua bibliografia, como poderia ser a peça de teatro "Será Deus o Dr. Freud?" (2000).

"Matriz", editado em 1988, é um romance que, sob alguns aspectos, dá continuidade ao universo de Yvette K. Centeno, mas, sob outros, não deixa de representar um certo desvio.
Explico-me: tal como acontecia nos primeiros romances, "Matriz" está cheio de símbolos facilmente associáveis à poesia, e à poesia da autora, e não só os símbolos, como a própria linguagem, mostram um conhecimento dos processos mais característicos da poesia, eles representam uma maneira de olhar para o mundo. A questão do ritmo não é alheia à da poesia, mas vale também por si só, uma vez que, em certos trechos do texto é fácil sentir como as palavras vão ganhando uma musicalidade própria, e não é difícil lembrarmo-nos que foi justamente esse ritmo que levou a autora a manter uma série de citações na sua língua original em "As Palavras, Que Pena". Portanto, como vemos, nalgumas questões formais, este continua a ser um romance em que facilmente reconhecemos a voz de Yvette K. Centeno.
Falemos agora do desvio. "Matriz" propõe-se a uma tarefa nada fácil. O que percebemos após algumas páginas, é que não estamos aqui só a ler a história de "Matriz". A construção do romance, o lugar que tem na vida da sua autora e dos que a rodeiam são igualmente parte desta arquitectura.
Imaginemos o projecto de um edifício, primeiro como desenho que sai das mãos de um arquitecto. Depois, o edifício está pronto, e é possível observar no real aquilo que estava no desenho. No entanto, todas as técnicas de construção e de engenharia são mais do que partes integrantes da realização desse desenho: elas tornam-no possível.

É exactamente isto que se passa com "Matriz". Assim sendo, a história constrói-se e nela, vemos também essa construção, passamos a ter uma noção das dúvidas, dos conceitos, dos objectivos e até da leitura que a escritora tem daquilo que escreve. Por isso, neste livro não faltam aforismos, referências culturais, e até referências biográficas, como por exemplo à publicação do primeiro romance, há 26 anos atrás. Este romance é definido pela sua autora como "Narrativa dialogada? Ficção sem descrições, sem personagens-tipo, sem fio regular, sem desenvolvimento" (pag.44). E é esta outra das questões que importa referir: é que "Matriz" vem colocar em causa o objectivo do livro, da prosa; um pouco aquilo que num estilo completamente diferente Maria Gabriela Llansol fez com os seus romances.
A verdade é que é pouco relevante se "Matriz" é um romance. É de facto uma narrativa, que cruza em si a poesia, o romance, o diário, o ensaio, a análise, a filosofia, o aforismo. Portanto, o que interessa é saber se o faz bem. E parece-me que sim. Note-se que esta junção de formas tem toda a probabilidade de resultar mal: poderia ser excessivo, confuso, aborrecido, inconsequente, pretensioso e desregrado. De tudo isto, "Matriz" será apenas um pouco confuso, nalguns dos seus fragmentos: não é o tipo de livro que se possa ler enquanto se ouve música ou se espera por um amigo no café. Requer atenção para ser plenamente entendendido. E dada a mestria, quase obcessiva com que está articulado, a verdade é que este é um romance que nos dá aquele insight sobre o processo criativo da sua autora, e levanta toda a sorte de questões relativas à escrita, ao romance, à leitura, à literatura, aos leitores e à crítica.
Com isto, podemos voltar àquilo que afirmei no início deste texto: é que Yvette K. Centeno não se divide entre géneros, reúne em si os diferentes géneros. O resultado é que os seus romances são verdadeiros momentos culturais, que questionam tudo aquilo que constitui esse mundo a que chamam "literatura", penetram no desconhecido, buscam respostas ou possibilidades.
E mais interessante ainda é que eu tenha lido este livro vinte e dois anos depois de ele ter sido publicado e mesmo assim, tanto do que ali se lê tem ainda completo sentido hoje. Porque ser-se bom é já muito bom, mas resistir-se ao tempo é melhor. E estes livros aí estão, sem envelhecer.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Último dos Homens


Não há nada e não o sei
e a ciência de tudo é impossível e a
ciência da ciência da impossibilidade de tudo
Já fiz tudo, já estive aqui, já li tudo!

Aquele que quer morrer
dança sobre os destroços de tudo.
Ó insolência da escrita! Lá vens tu, ó fa-
diga, ó lágrimas!

Difícil solidão (de cócoras) a do escriba,
atravessa o deserto às costas do melhor amigo.
Tem que se lembrar de tudo
pequenas frases, umas primeiro outras depois.


Manuel António Pina
Aquele Que Quer Morrer
1978, ed. A Rega do Jogo
fotografia de Hans Bellmer

Sexta-Feira 13 de Marcus Nispel

EXTREME MAKE-OVER

Marcus Nispel iniciou a sua carreira em 1989, a realizar videoclips. Os músicos que filmou são numerosos, e incluem nomes como os No Doubt, os Bush, Gloria Estefan, Janet Jackson, os Fugees ou Myléne Farmer. Só em 2003 estreou o seu primeiro filme. Tratava-se de um remake do "Massacre no Texas" de 1974. Apesar de aceitar alguns lugares-comuns do cinema de terror actual, a verdade é que o filme, ficando claro a dever um pouco ao de Tobe Hooper, funcionava muito bem como remake, na medida em que não traía propriamente o original, mas sabia também demarcar-se como objecto novo e diferente, que é mais ou menos aquilo que, penso, faz de um remake mais do que uma mera repetição.
Em 2004, de novo um remake de um clássico do terror, o "Frankenstein" de Dean Koontz, e contava com nomes de peso na equipa, entre os quais Martin Scorcese na produção e Angelo Badalamenti na banda sonora. O filme, que originalmente seria o episódio-piloto para uma série de televisão, acabou por se tornar efectivamente um filme.
Em 2007, novo remake, desta vez de "Pathfinder", um filme norueguês de 1987.

O padrão de Nispel recriar filmes de terror não é pois quebrado em 2009, e eis que estreia "Sexta-Feira 13", baseado no original de Sean S. Cunningham.
A questão é que o remaker que Nispel é no seu "Massacre no Texas" não é o mesmo remaker que ele se revela em "Friday the 13th".
A verdade é que se nota que Nispel quis criar um filme diverso do original, e pelo menos isso conseguiu. O resultado é que não é bom: é na verdade um verdadeiro fiasco.
Comecemos por assinalar que o argumento é da autoria de Damian Shannon e Mark Swift, os mesmos dois que escreveram "Freddy vs. Jason", que, cruzando dois clássicos do slasher movie, conseguem a sequela mais desastrosa de qualquer das duas sagas.
E o primeiro problema é precisamente o próprio argumento do filme que nem um bom realizador poderia salvar (A questão é se um bom realizador o aceitaria...). Porque este "Sexta-Feira 13" não é um refazer do filme de Cunningham: é uma mera re-utilização dos seus personagens, ou talvez nem isso, porque a película original de 1980 apresenta-nos Mrs. Vorhees, uma mãe despeitada, que assassina para vingar o seu filho defunto, Jason. Mas neste filme, que se propõe como o filme inicial, faz uma pequena referência a Mrs. Vorhees no princípio, mas tem em Jason o principal assassino, o que, na sequência original, só aconteceu no segundo filme, dirigido por Victor Miller.
Por isso, é com isto que partimos: este filme é um corte-e-costura dos filmes de Cunningham e de Miller. O que nem por isso resulta bem.
Os argumentistas deste remake utilizaram algumas das ideias de Miller, nomeadamente na primeira parte do filme, mas alterando-as. O que aqui vemos são cinco adolescentes que viajam até perto do campo de Crystall Lake, sobre o qual se conta ainda a história de Mrs. Vorhess e Jason, para procurarem uma enorme plantação de erva. E assim são assassinados um por um. É mais ou menos o que acontece no filme de Miller. Mas Nispel deita por terra toda a ideia ao aproveitar-se dela para despejar todo o tipo de clichés que são agora muito comuns, e que incluem cenas de sexo, o casal ajuízado, etc.
É precisamente esse casal ajuízado que vai ter à casa de Mrs. Vorhees, e descobre a sua cabeça guardada numa espécie de altar. Além disso, encontram uma fotografia da defunta, que é fisicamente muito parecida com a rapariga, Whitney (Amanda Righetti).
Rapidamente todos são assassinados e, semanas mais tarde, encontramos Clay (Jared Padalecki) que procura a irmã desaparecida, Whitney. Pelo caminho, cruza-se com um grupo de amigos que se encaminham para a casa do mais rico, Trent (Travis Van Winkle), para passar o fim-de-semana. Casa essa que fica também próxima de Crystal Lake.
Assim sendo, temos o irmão que procura a irmã incessantemente, ajudado por uma das raparigas do grupo, Jenna (Danielle Panabaker), enquanto na casa decorrem as cenas que já só podem causar um bocejo, e que incluem sexo, drogas, alcóol, jogos estúpidos, conversas idiotas de adolescentes, etc, etc, etc, nada de novo. Pelo meio, lá anda Jason, matando um a um e cada vez mais violentamente cada pessoa que encontra pelo caminho.
No fundo, aqui não há nada de novo. Quando o filme original surgiu, num espaço de tempo em que surgiram também "The Texas Chainsaw Massacre" de Tobe Hooper, "Halloween" de John Carpenter e "A Nightmare on Elm Street" de Wes Craven, talvez tudo isto fosse original e insólito, mas, no ano de 2009 fazer um filme nestes parâmetros é pura e simplesmente aborrecido.
E aqui está o problema principal deste "Friday the 13th": é que podemos argumentar que está no direito do realizador e dos argumentistas quererem fazer um filme que se demarque do original, e usar os personagens numa sinopse diferente. Mas não há, de facto, argumento contra a predicabilidade destes novos moldes que se dão a Jason Vorhees. Já não há nada de interessante em ver dois amigos a fazer sexo enquanto o assassino lá fora ergue a faca-de-mato, nem nada de especial na menina a fazer kite-surf em top-less. Nem sequer as mortes têm algo de surpreendente, limitam-se a fazer uma espécie de assimilação daquilo que já temos visto quer em filmes desta saga, quer noutros. Há que referir que Nispel tem algumas qualidades como realizador: alguns dos planos que aqui vemos são realmente de uma estranha subtileza, na escolha dos cenários, na luz: o que talvez seja uma herança dos seus tempos como realizador de videoclips.
No fundo, o único ponto realmente interessante neste filme é, no final, quando vemos que Whitney foi poupada à morte precisamente por ser tão parecida com a mãe de Jason: mas essa ideia já vinha do filme de Miller.
Que Marcus Nispel tenha feito bons remakes, isso é um mérito que lhe cabe. Mas que definitivamente não há nenhum ponto de vista a partir do qual este filme seja bom, isso parece-me também muito evidente.


sábado, 28 de agosto de 2010

O Princípio da Incerteza de Manoel de Oliveira

O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO

Não constitui novidade que Manoel de Oliveira adapte ao cinema um romance de Agustina Bessa-Luís. Neste caso específico, trata-se de "A Jóia de Família" que, na sua versão cinematográfica leva o título da trilogia que inicia, "O Princípio da Incerteza".
Os exemplos de "Fanny Owen" ou "O Convento" ou "Inquietude" são bem representativos de como Oliveira tem sabido encontrar-se com o universo de Agustina, aliando a sua identidade à da escritora.
Em 2002, "O Princípio da Incerteza" é a adaptação de um dos romances mais interessantes mas também mais complexos de Agustina, tanto que, para compreendermos verdadeiramente os sentidos de "A Jóia de Família", convém ler as suas duas sequências, "A Alma dos Ricos" e "Os Espaços em Branco". O próprio Oliveira acabou por transformar "A Alma dos Ricos" em "O Espelho Mágico".


"A Jóia de Família" é um romance atípico, até para Agustina. De certa maneira, é como se este livro necessitasse de alguma acção, algum movimento, uma energia narrativa que acompanhe a energia daquilo que é narrado. É esse o maior problema de "O Princípio da Incerteza". É um filme que respeita o tempo a que Manoel de Oliveira nos habituou. E esse tempo, se tem resultado muito bem na maioria dos filmes do realizador, não me parece o mais apropriado para esta história. É que não se trata de querer tecer uma comparação, inútil, entre o romance e o filme: é a própria história que precisa de mais "alguma coisa". "Alguma coisa" que pode ser um pouco de acção, um pouco de frenesi, já que é em frenesi que interiormente vivem as suas personagens.
Esta é a história de António Clara (Ivo Canelas), herdeiro da Casa do Salto da Senhora, que vive excessivamente influenciado pelo seu amigo José Luciano, mais conhecido por Touro Azul (Ricardo Trepa), filho da criada da Casa, Celsa (Isabel Ruth). Esta má influência passa a preocupar Celsa principalmente a partir do momento em que o filho apresenta a António a sua amiga Vanessa (Leonor Silveira), dona de uma discoteca e de uma série de negócios ilícitos que incluem prostituição. Celsa acaba por recorrer à ajuda de Daniel Roper (Luís Miguel Cintra), um velho amigo da família, que acabará por conseguir que António case com Camila (Leonor Baldaque), filha de uma família falida da Régua.
Se facilmente se percebe que o casamento não interessa muito a António, que está mais envolvido com Vanessa numa espécie de contrato amoroso, facilmente se percebe que Vanessa passa a fascinar-se incrivelmente por Camila, ao ponto de descurar todos os negócios e todas as relações, pensando em Camila obcessivamente.
Há que destacar que Leonor Silveira é quem mais surpreende, pela excelente caracterização, parecendo verdadeiramente uma dessas mulheres da noite, que, na descrição de Agustina "não tinha modos nem cultura, só tinha expedientes".
A relação quase autista que existe entre Camila e Vanessa é o aspecto que mais fica a ganhar com esse estilo habitual de Manoel de Oliveira, teatral e pausado, pois é aí que somos confrontados com a estranheza do amor que as une. No entanto, não é difícil perceber que faz alguma falta António Clara, pois é ele quem na prática as une, sendo marido de uma e amante da outra. E no filme, contrariamente ao que acontece no romance, António é um personagem apagado, quase não tem existência. E de certa maneira, o Touro Azul, por quem Camila no fundo sempre esteve apaixonada, e que foi sócio e talvez amante de Vanessa é também um pouco demitido nalgumas situações em que seria crucial.


Outro aspecto que a teatralidade de Oliveira também favorece é o lado analítico da história, que em Agustina é essencial, e que encaixa bem no estilo do realizador, parecendo aquilo que são complexas análises e aforismos no romance, parecer simples diálogos no filme. Mesmo assim, isto torna-se excessivo no que toca à natureza do casamento de António com Camila. Aquilo que nos parece pelas imagens é que é simplesmente um casamento entre pessoas que são distantes uma da outra, e é necessário ouvirmos Camila relatar as sevícias que lhe inflingiram para percebermos a violência em que vive. E penso que essa violência, que não é necessariamente física, ser mais evidente só favoreceria o filme.
É possível que este seja um bom filme de Manoel de Oliveira, mesmo que não seja uma boa adaptação de Agustina. Mas a esse talvez precisamente se chama "O Princípio da Incerteza".

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Canção Para o Dia de Hoje

Morcheeba (com Skye Edwards): Rome Wasn´t Built In a Day

Agustina tem destas coisas... (18)

Léon não gostava de nada que se partisse, motivo por que não tinha o coração em seu poder.
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de "Um Cão Que Sonha"

Agustina tem destas coisas... (17)

Acreditar nos homens é um esforço horrível, não conheço outro tão desgastante. A dúvida é um espinho envenenado que entra na carne e nunca sai completamente.
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de "A Alma dos Ricos"

Uma Citação

E é quando o sol começa a sua lição, tentando ensinar-me a morrer a ocidente.

Luísa Dacosta

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Canção Para o Dia de Hoje

Sheryl Crow: You´re An Original

O Tema

Sou poeta. Esse é o fulcro dos meus interesses. É disso que escrevo. Posso amar, posso ser jogador e também apreciar as belezas do Cáucaso- mas apenas quando isso deixa um sedimento de palavras.
Vladimir Maiakowsi
Autobiografia e Poemas
ed. Presença, s.d.

Agustina tem destas coisas... (16)

Como Touro Azul não voltava (ele não tinha a certeza de ter deixado em casa de Vanessa as alianças e correu para lá com grande espalhafato do seu carro de desporto), Camila tirou da bolsa duas argolas de cortinas e a cerimónima pôde continuar. Era a mulher mais precavida que podia haver e nunca, mas nunca mesmo, era "apanhada descalça" como dizia Celsa Adelaide.
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de "A Jóia de Família"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dido: Safe Trip Home

QUIET TIMES

Dido é daquelas cantoras cuja voz parece, por si só, ser uma boa razão para que se ouça a música. Estreada em 1999 com "No Angel", foi com toda a facilidade de Dido afirmou o seu projecto como um dos mais interessantes no panorama da música da década que agora termina. A boa aceitação por parte da crítica chegou com o álbum, o reconhecimento do público chegou mais com a escolha de "Here With Me" no genérico de Roswell High, e, no caso de Portugal, a inclusão de "My Lover´s Gone" na banda sonora de uma novela brasileira. O resto chegou daí para a frente, e é justo que canções como "Hunter", "Thank You", "Slide" ou "Isobel" (Que fazia parte da b.s.o. de "Sete Palmos de Terra".) ainda nos estejam na memória.
"Life For Rent", de 2003, vinha re-afirmar a qualidade da música de Dido, desde "White Flag" a "Sand In My Shoes" ou "Life For Rent" ou "Don´t Leave Home".
Dido era a autora de uma música dreamy, suave quer na melancolia quer na alegria, uma música sóbria, elegante. E, mesmo quando as canções soavam um pouco vagas, o que acontecia por vezes, a voz melodiosa e quente compensava.
Terá sido isso que fez com que Dido seja daquelas cantoras que, se não se gosta dela, pelo menos se diz "não gosto de tudo, mas gosto de muita coisa".
A "Life For Rent" seguiu-se um silêncio de cinco anos, em que Dido editou apenas um álbum ao vivo, em 2005.




"Safe Trip Home" chega aos escaparates em 2008. A lista de colaboradores incluiu agora o famoso Brian Eno, e Matt Chamberlain, cuja lista de colaborações incluiu os Pearl Jam, Fiona Apple, Natalie Merchant e Tori Amos, que acompanha desde "From The Choirgirl Hotel", entre muitos outros.
É caso para dizer que o título do álbum está muito bem escolhido. O grande problema de "Safe Trip Home" é justamente que joga demasiadamente pelo seguro. De certa maneira, este álbum teria feito mais sentido um ano após "Life For Rent" ou um ano antes, mas a verdade é que não parece reflectir cinco anos de composição e produção e, principalmente, de evolução.
Porque "Safe Trip Home" não é um mau disco, bem pelo contrário. Cá está de novo a fenomenal voz de Dido, cá está o estilo que lhe conhecemos, cá estão as grandes canções, como "Grafton Street", "Us 2 Little Gods", "The Day Before The Day", um dos momentos de mais quietude do álbum e talvez o momento mais insólito, ou "Quiet Times" ou "Let´s Do The Things We Normally Do". "Northern Skies" parece ser a única canção em que somos surpreendidos, com um ritmo electrónico discreto, e uma composição que quase nos faz pensar em jazz. O senão é que estas canções poderiam perfeitamente fazer parte dos álbuns anteriores, não se nota uma muito grande diferença senão em pequenos detalhes.
Para começar, a música de Dido parece agora atravessar uma fase em que encorpora um certo gosto pela improvisação, como se nota principalmente em "It Comes and It Goes", por outro lado, os arranjos são mais subtis, mais invulgares, como se vê em "Don´t Believe In Love", que mesmo assim me parece um dos momentos mais frouxos de "Safe Trip Home". Poderá parecer sem sentido que diga isto, mas é como se Dido tivesse "acalmado". Parece sem sentido dada a serenidade que sempre caracterizou a sua música, mas parece-me que ao terceiro disco, Dido se torna menos imediata, preferindo um caminho menos evidente, o que resulta bem.
E aí é que bate o ponto: é que, fora essa mudança subtil, pouco se pode dizer de "Safe Trip Home" que não se possa dizer também de "No Angel" ou "Life For Rent".
Porque mesmo as referências, que neste caso sempre soam longínquas, mas que poderíamos atribuir-lhe parecem ser ainda as mesmas, Sarah McLachlan, Suzanne Vega, talvez até alguma Sade Adu.
O álbum de 2008 rebusca as composições suaves e luminosas de sempre, aceita o ritmo que surgira quase como uma novidade no de 2003, em termos de letras mantém a simplicidade que não é predicabilidade que sempre foi o estilo de Dido.



Salientam-se algumas canções, as que acima enumerei, mas a verdade é que este álbum, no bom e no mau, não representa nenhum especial avanço.

Há que entender que "Safe Trip Home" é uma colecção de boas canções, apenas não o é de novas canções. É uma prova de que Dido não consegue fazer nada de mau, porque neste disco não há nada que piore, que represente uma queda. O que fica por saber é se é capaz de fazer mais do que já fez.



o vídeo de "It Comes and It Goes"

Maria Gabriela Llansol: Uma Data em Cada Mão (Livro de Horas 1)

"NO CORAÇÃO PASSA UMA IMAGEM"

A questão do diário está longe de ser trivial num país como o nosso, acima de tudo porque ainda é uma prática um tanto estranha publicar-se o diário de um escritor. Não porque não se faça- temos acesso a vários, neste momento- mas porque se faz de uma forma acima de tudo ocasional, e parece-me que o próprio universo de leitores não tem ainda, por várias razões, uma sistematização de leitura de diários da mesma forma que tem de romances ou de livros de poesia. Além destas questões que são acima de tudo paralelas aos livros, há ainda a questão interna: no fundo, perceber-se qual a pertinência da publicação de um diário no contexto da obra do autor. Se realmente o diário acrescenta alguma coisa à própria obra, ou se, não acrescentando, ajuda à sua compreensão, ou então se pelo menos dá uma visão sobre o contexto das obras na vida do autor; parece-me que tem todo o interesse a leitura do diário. Se, por outro lado, o diário se limita a levantar o véu sobre a vida privada do autor, parece-me que a leitura se justifica apenas no caso do autor ter tido uma vida invulgaríssima, partindo do princípio que isso existe.
Já tivemos exemplos de bons diários, no sentido em que eles aumentam a obra e a esclarecem: recordo os diários de Fernando Pessoa (“Páginas Íntimas e de Auto-Análise”), de Luísa Dacosta (“Na Água do Tempo” e “Um Olhar Naufragado”), de Luiz Pacheco (“Diário Remendado”), só por exemplo. Por outro lado, a série dos “Cadernos de Lanzarote” de José Saramago, além de extensíssimos, nem sempre existem nessa lógica de surgirem para esclarecer ou acrescentar a obra, sendo muitas vezes relatos da vida do autor. É uma opção, apenas não me parece a mais interessante.
No caso de Maria Gabriela Llansol, a publicação de um diário não constitui novidade. Recuemos até 1985, e encontramos a publicação de “Um Falcão no Punho” (ed. Rolim, reed. Relógio d´Água), que levava como subtítulo “Diário 1”, depois em 1987, “Finita- Diário 2” (ed. Rolim, reed. Assírio e Alvim), em 1996, “Inquérito às Quatro Confidências- Diário 3” (ed. Relógio d´Água). Percebemos que os seus diários cumprem a um tempo todos os aspectos que acima enumerei e que considero fundações para um diário, a meu ver, pertinente.

No final de 2009, pouco mais de um ano após a morte de Maria Gabriela Llansol, a Assírio e Alvim lança “Uma Data em Cada Mão: Livro de Horas 1”, que sucede o último original publicado da autora, "Os Cantores de Leitura" (2007). Antes de partir especificamente para o texto, julgo ser importante falar da edição. Trata-se de uma edição póstuma e, já se sabe, sempre essas edições oferecem toda a sorte de dúvidas e escolhas discutíveis, nas quais não me vou lançar agora. Há no entanto alguns detalhes que não deixaram de me chamar a atenção:
João Barrento e Maria Etelvina Santos estão desde já de parabéns, pois tiveram a seu cargo uma tarefa nada fácil, e na qual só inicialmente tiveram a ajuda de Maria Gabriela Llansol: trata-se da transcrição dos cadernos, das várias anotações que muitas vezes se revelam quase essenciais para uma boa compreensão do texto e das suas múltiplas referências, quer à obra da própria Llansol quer a outras obras, além das folhas soltas que foram anexadas aos cadernos. Além disso, tiveram também o cuidado de inserir algumas páginas fac-similadas dos manuscritos, que nos permitem formar uma ideia relativamente a essas questões aparentemente menores como são a caligrafia, os doodles, os desenhos e outras coisas afins que Llansol inseria nos seus cadernos. Mais ainda, há que felicitá-los pela escolha do título deste volume: se a designação de serie “Livros de Horas” foi escolhida pela autora ainda em vida, o título de cada volume é escolhido por Barrento e Etelvina Santos e “Uma Data em Cada Mão” parece-me, além de muito adequado, muito bem localizado entre os títulos que habitualmente Llansol escolhia para os seus livros- a expressão é colhida do documento.
No entanto, algumas coisas deveriam acontecer: para começar, dever-se-ia explicitar a relação deste livro com os três diários previamente publicados: podemos comparar as datas, e vemos que este livro contém textos escritos de 1972 a 1977, e "Finita" incluia textos de 1974 a 1977 (E ainda um único texto escrito em 1939.).  Assinala-se, a 8 de Dezembro de 1976, a passagem do segundo para o terceiro caderno, mas, por alguma razão, a 19 de Julho de 1976 não há qualquer indicação de se passar do primeiro para o segundo caderno, o que conviria. Uma última falha na edição dos cadernos, e se calhar a menos importante: lemos nas notas que foram excluídas todas as passagens que já tivessem sido incluídas noutros livros de Llansol; no entanto, parece-me que seria interessante, pelo menos em nota de rodapé, dar uma indicação de que, em determinado lugar existia uma passagem que foi retirada, mesmo que se não especificasse qual (Poderia tornar as notas demasiado longas e/ou confusas.). Não são propriamente falhas graves, mas são o que falta para a edição ser mesmo irrepreensível.


Agora o texto.
O que encontramos em “Uma Data em Cada Mão” é, acima de tudo, um livro de Maria Gabriela Llansol, com todas as características que nos habituámos a encontrar nos restantes, ainda que, estranhamente, aqui a escrita pareça, de alguma forma, menos encriptada.
Este é um diário em que entendemos o quotidiano de Maria Gabriela Llansol: completamente consumido pela escrita, pela leitura, e acima de tudo, por um profundo pensamento que a ligava, enquanto ser humano, a elas.
A obsessão pela escrita é de facto pungente. E se na entrada de 30 de Abril de 1972, Llansol escreve
“Alheamento da vida de trabalho de todos os dias: actividade da Escola, compras, preparação da comida. Esqueço-me de tudo isso, e só vivo conduzida pelas vozes destas páginas (…)”
em 21 de Abril de 1976, ela escreve já
“(…) mal passava a ferro, mal lavava os pés (qualquer trabalho) tinha que pegar com a mão livre na caneta, deixar sempre a outra mão livre para escrever.”
É muito claro por que o diário de Maria Gabriela Llansol não tem, de longe, tantos detalhes sobre outras coisas como tem sobre leitura e escrita. Porque Maria Gabriela Llansol era verdadeiramente dependente dos livros, dos que lia e principalmente dos que escrevia. E é isso que mais encontramos neste livro: como se, ao remover as “paredes” dos restantes livros fôssemos encontrar este livro: é ele a estrutura que sustenta os livros que Llansol foi publicando ao longo da sua vida, em particular, neste volume, “O Livro Das Comunidades” (1977) e “A Restante Vida” (1983). Se poderia parecer estranha a quase completa ausência de referências a “Os Pregos na Erva” (1962) e “Depois de Os Pregos na Erva: E Que Não Escrevia” (1973), isso poderá talvez ser explicado com a diferença que, neste espaço de 11 anos se operou na escrita llansoliana. E mesmo assim, ainda lhe lemos sobre esses dois livros, em 13 de Julho de 1976 “Aqui, quase não se fala do que escrevo, publica-se e fala-se de outras coisas, coisas úteis, compreensíveis, exigidas ao momento presente.” (pag.170) E, ainda sobre os livros que aqui parecem ter a sua raiz, (Se é que não têm todos, directa ou indirectamente, uma vez que toda a obra de Llansol tem uma continuidade, uma comunicação entre todos os livros.), aqui estão muitas “figuras”, muitos “pensamentos” que afinal vamos reencontrar em “Contos do Mal Errante” (1986), “Da Sebe ao Ser” (1988) ou “Um Beijo Dado Mais Tarde” (1990). E até ao lermos “Vida e morte de Augusto e Gabriela, desejo de, quando esta forma humana nos deixar, a mim e ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro” (pag.157) é fácil pensar em “Amigo e Amiga: Curso de Silêncio em 2004” (2006).
A esta tendência devemos a grande quantidade de imagens que Llansol convoca, que parecem construir um texto sobre os dias, descartando-se de lhe narrar os pormenores, e preferindo a imagética a que podemos atribuir uma tremenda vida interior. A que originou os livros.
Esta comunicação entre livros está longe de ser gratuita e imponderada. Pelo contrário, é em 1976 (Quando Llansol publicara apenas os primeiros dois livros.) que ela escreve “Todos estes textos integram o texto do meu livro. Livro único, que aparece publicado em lugares, datas, textos ou volumes diferentes.” (pag.115). É esta ideia que melhor sintetiza os livros de Maria Gabriela Llansol: ela escreveu um livro apenas, todos os seus textos formam um longo longo livro, que a todos os momentos se evoca a si mesmo e a outros, que é a sua história e a forma como essa história foi escrita, é o resultado e o acto de escrever. E se é verdade que são os diários que mais contêm a parte respeitante ao acto de escrever, a verdade é que também o resultado passa por aqui, da mesma maneira que nos ditos romances o acto de escrever não está ausente, sendo por muitas vezes ele próprio um tema. Como se Llansol decidisse expor quais os seus processos, as suas ferramentas, para construir um livro, incluindo-os no próprio livro.
Além dos livros, outra questão que me parece relevante referir é a do “exílio” em que Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim viviam, ao tempo na Bélgica, entre Lovaina e Jodoigne. Essa questão do exílio, que Llansol aborda vezes sem conta, mas com particular interesse no texto escrito em folhas avulsas inseridas neste diário “A Vocação do Exílio” (pag.158). Além do problema do exílio propriamente dito, há ainda outro, que a escritora aborda de uma forma a um tempo analítica e emotiva: Portugal. A sua relação com Portugal é, além de duma perspectiva biográfica, vista também da perspectiva da escrita. É assim que encontramos Gabriela Llansol visitando Lisboa ao fim de dez anos de exílio, meditando “As expressões usadas são imutáveis, as de há dez anos. (…) Como poderá opor-se à linguagem dos detentores do poder (esses sismos do poder), pessoas para quem a linguagem e os gestos não mudam? Como poderá inventar formas de comunicação de um grupo sem espaço?” (pag.89)
De certa forma, Llansol sabia que Portugal não estaria pronto para a sua “estranha forma de escrita”, que o foi de vida também. Talvez por isso, em 28 de Março de 1976 ela escreve “Foi uma desolação, em Portugal. Talvez nem sequer houvesse um país, era um estado, um lugar insignificante.” (pag.133). Não só a escrita, mas também a perda do quotidiano e dos locais e talvez dos afectos, nos vão dando conta do desfasamento que, pelo menos nesta fase da sua vida, Llansol sentia em relação ao país.
Sobre a questão do diário propriamente dita, Llansol escreve a 12 de Novembro de 1974, “Os bons escritores fazem os maus diários. Aceito fazer um mau diário.” (pag.61). Pensei em Henry Miller que dizia no seu “Sexus" que “mais vale um livro medonho que uma vida medonha.” Mas a única razão que encontro para que entre os livros e a vida haja esse jogo de contrários é se a escrita for oposta à vida, a renegar para se construir sobre outras bases. O caso de Maria Gabriela Llansol não é um desses casos. Este diário é o sintoma de uma vida que respirava pela escrita e pela leitura, onde tudo pode passar do mundo empírico para o mundo da escrita, onde ambos se confundem e, na verdade, formam um só. Por isso me parece que Llansol acertou na mosca quando escreveu em “A Raiz de Qualquer Livro”, que serve de prefácio a estes diários:
“___________a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.”
E está mesmo.



(As imagens correspondem à capa do terceiro caderno e ao armário dos diários da autora, e foram retiradas do blog do Espaço Llansol.)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sia: We Are Born

RENASCER, OUTRA VEZ
Sia Furler, ou só Sia, começou por ser conhecida como uma das vocalistas dos Zero7: era ela que dava voz a canções belíssimas como "Distractions" e ao lado de Sophie Barker em "Destiny", ambas de "Simple Things", o álbum de estreia em 2001 do duo de electrónica. O álbum "Healing Is Difficult", que saíra uns meses antes do álbum dos Zero7, é hoje pouco lembrado, mesmo pela própria Sia. Era um álbum de pop-pastilha-elástica com muito pouco de memorável, além da realmente boa voz e de escassas canções de qualidade, que seriam talvez "Blow It All Away" e "Fear". O problema de Sia é que estava a fazer um álbum que não parecia nada convicto. Faltava ali um conhecimento dos mecanismos que por norma gerem música desse estilo, nomeadamente a imagem de Sia, que não correspondia à entertainer que conhecemos noutras cantoras ou "cantoras" do género.
Demorou três anos até que Sia voltasse a aparecer em nome próprio. O álbum, "Colour The Small One" apresentava-nos uma nova Sia, focada na sua voz e nas canções harmoniosas e requintadas, com arranjos grandiosos e de grande intimismo, que parecia mais de acordo com a personalidade musical dela. Mesmo assim, foi a inclusão de "Breathe Me" no encerramento da série "Sete Palmos de Terra" que trouxe alguma atenção ao álbum. Nele encontrávamos outras canções de igual qualidade, como "Numb", "Don´t Bring Me Down", "Rewrite", "Where I Belong" ou "Sunday".
Em 2004 voltava a colaborar com os Zero7 em "When It Falls", e em 2006 grava a voz de seis canções de "The Garden". Em 2007 lança um pequeno EP ao vivo, "Lady Croissant" (Falei dele aqui.).
2008 marca o regresso em nome próprio para "Some People Have Real Problems" (Aqui), que continuava a partir de "Colour The Small One" um percurso singular e de muita qualidade, num registo rock-semi-acústico. Era, na verdade, um muito bom álbum, onde se assumiam todas as decisões.




Em Junho deste ano, Sia lança "We Are Born", quarto álbum. Desta vez, não podemos ignorar "Healing Is Difficult". E se anteriormente o usássemos como ponto de comparação para os dois seguintes, e percebíamos que eram redondamente diferentes, desta vez há que reconhecer que os tempos de "Healing Is Difficult" têm aqui presença. E não é leve.
Mal ouvimos "The Fight", a primeira canção, percebemos que esta Sia não é a mesma cantora serena de "Don´t Bring Me Down", que por vezes sussurrava mais do que cantava. Nada disso. Se há avanço que logo pela primeira faixa se percebe, é que Sia agora é menos tímida. Esse tom sussurrante desapareceu por completo, Sia agora canta, muitas vezes em plenos pulmões.
Se por um lado essa atitude mais desenvolta se manifesta numa sonoridade mais polida, mais forte, não podemos negar que essa inclinação empurra Sia não raras vezes para um registo mais pop (Agora que penso nisso, tem acontecido a vários álbuns que tenho ouvido ultimamente...), uma pop que nos faz pensar em Cyndi Lauper, Suzanne Vega ou até nalgumas canções de Kate Bush, afastando-se consideravelmente das influências que me pareciam mais evidentes no segundo e terceiro álbum, que seriam Aimee Mann, Dido, alguma Tori Amos, alguma Alanis Morissette, e o primeiro álbum de Jewel.
Participam neste álbum Dan Carey (Conhecido pelas suas colaborações com Kylie Minogue, Lilly Allen ou os La Roux.), Samuel Dixon (Christina Aguilera, Corinne Bailey-Ray ou Duffy.), Greg Kurstin (Gabriela Climi, Sophie Ellis-Bextor ou Britney Spears.), entre outros; mas destaco estes por serem já colaborações antigas. No entanto, se antes se notava que, maioritariamente, eles haviam aderido a Sia, parece que em "We Are Born" é Sia quem se molda mais às tendências pop com que os seus co-autores/produtores habitualmente trabalham.
Uma vez mais, a grande questão sobre este álbum é perceber que o registo pop acenta bem a Sia. Acenta. Este não é o registo pop cheio de pretensões que era "Healing Is Difficult". É um álbum completo, em que não se fica com a sensação de que falta alguma coisa. E a verdade é que, como em tudo, há boa pop e má pop. E Sia consegue filtrar o que a pop possa ter de melhor.
Canções como "Be Good To Me", "Cloud", "You´ve Changed" ou "Stop Trying" aí estão para o provar.




Não encontramos aqui o registo íntimo a que nos habituámos, e talvez se possa sentir falta dele. Mas isso não significa que esta versão de Sia não resulte bem. Nalguns aspectos, até parece funcionar perfeitamente. Ela consegue manter o seu registo de voz, onde é importante o prolongamento das palavras (De que por vezes abusa ao ponto de se tornar incompreensível o que diz.), mostra ter grande capacidade vocal e flexibilidade, e isso, de certa forma, equilibra as canções, porque não parece que haja aqui um excesso de rigidez. As antigas canções "calmas" estão ainda aí, mas parecem diferentes, mais firmes, como acontece em "I´m In Here" que se destaca do conjunto por ser a única "balada".
Por isso, a conclusão mais evidente é mesmo que Sia encontrou a sua identidade, e agora procura as várias maneiras de se mover nela. Não me parece, como acima disse, que recue aos tempos do primeiro álbum, antes toma toda a experiência dos outros dois e a assimila num trabalho mais "leve". Por isso mesmo, "We Are Born" é um (re)nascimento, uma espécie de "começar de novo", sempre partindo do princípio que já se esteve aqui antes, mas que se precisa de mudar.
Essa ideia de "leveza" é o que mais me ocorre sobre "We Are Born". É, talvez, o que mais mudou em Sia, há nela algo de alegria, de luminosidade, ouçam-se "The Co-Dependent" ou "Clap Your Hands" (Lembro "Little Black Sandals" ou "The Girl You Lost To Cocain".). E mesmo assim, há aqui algo que se reconhece, principalmente do álbum anterior: como Sia por vezes fala de situações desagradáveis, mas consegue cantá-las de uma forma liberta, quase alegre e nada depressiva. Sia deslocou-se das canções tão tristes como eram "Breathe Me"
De referir é também a coerência tão evidente de "We Are Born". As canções conseguem gerar uma certa homogeneidade, sem por isso se tornarem meras repetições umas das outras. Há, por isso mesmo, algumas canções que se destacam. "The Co-Dependent" parece-me a mais conseguida, mas pode-se falar também de "The Fight", "I´m In Here", "Stop Trynig" ou "You´ve Changed".
Com tudo isto, parece-me que, no seu renascimento, "We Are Born" está a milhas de ser um mau álbum. Pelo contrário, é um corajoso passo em frente na discografia de Sia.



o vídeo de "You´ve Changed"

Petite Apocalypse



Elle est morte l´eternité. Elle a été conquise, evahie par la mort.
Elle s´est vidée.
Le soleil a fait fondre le bouclier du ciel, a beurré l´azur, s´est
lui-meme fondu dans le jaune.
Le dernier nuage est parti en fumée.
Les rivières ont seché. Les sirènes sont mortes de soif sur des
plages de sel.
Le dernier homme a bu sa dernière larme.
Les animaux, portant leur peau lâche et flottante sur le squellette,
étaient tous, du lièvre à la biche, devenus chasseurs.
Les poissons râlaient tandis que les cygnes chantaient.
Les fleurs fanaient avant d´éclore.
Le vent tomba.

Les arbres bandèrent leurs rameaux et, ensemble, décochèrent
tous leurs oiseaux contre le ciel d´or.

Auncun n´est jamais retombé.

Saguenail
Il N´y A Pas Des Saisons En Enfer
2007, ed. Hélastre
pintura de Yves Tanguy
*****
PEQUENO APOCALIPSE
Está morta a eternidade. Foi conquistada, invadida pela morte.
Esvaziou-se.
O sol derreteu o escudo do céu, amanteigou o azul, que se
fundiu ele mesmo no amarelo.
A última nuvem esfumou-se.
Os rios secaram. As sereias estão mortas de sede nas
praias de sal.
O último homem derramou a sua última lágrima.
Os animais, levando a sua pele fouxa a flutuar sobre o esqueleto,
tornaram-se todos, da lebre à corça, caçadores.
Os peixes forçam enquanto os cisnes cantam.
As flores morreram antes de florirem.
O vento cai.
.
As árvores abanarão e, juntas, instigarão
todos os pássaros contra o céu de ouro.
.
Nada jamais voltará a cair.
Esboço de tradução de Sadsamson

domingo, 15 de agosto de 2010

Delta Goodrem: Delta

CRESCE(U) E APARECE(U)

É já de 2007 o álbum "Delta" de miss Delta Goodrem, e foram vários os motivos que me levaram a nem procurar o download do álbum (Indisponível em Portugal.) e esse o motivo por que nunca disse nada sobre ele. Os dois motivos essenciais do meu desinteresse foram, em primeiro lugar, a desilusão do anterior, e em segundo lugar, um vídeo que vi no YouTube e que não prometia nada de bom para o álbum mais recente.
Relembremos que Delta Goodrem, cantora e pianista, iniciou a carreira musical em 2003 com "Innocent Eyes", que era um álbum de uma menina de 18 anos que demonstrava uma tremeda inclinação para a beleza, a sensibilidade, construindo uma pop que não era dançável, preferindo o lado intimista e orquestral, que acentava melhor com as suas tendências algo líricas. "Innocent Eyes" tinha o problema que muito se aponta a artistas tão novos, que é por vezes cair numa excessiva fragilidade, que mais não faz que expressar uma outra forma de angústia adolescente, que não deixa de o ser.
Tinha ainda 18 anos quando lhe foi diagnosticado um cancro, que a afastou dos palcos por algum tempo. A experiência da doença naturalmente verteu-se para a música, e em 2005 chegava "Mistaken Identity". Se por um lado se notavam atmosferas mais negras nas composições, o resultado estava longe de ser o melhor. O segundo álbum tinha mais de adolescente frágil do que propriamente o primeiro. Não era, de facto, um álbum a ser recordado.





O que "Delta", em 2007 veio mostrar era uma nova Delta Goodrem. A começar pela imagem, demasiado "stronger woman", citando Jewel.
É, por isso, um descanso, começar a ouvir o álbum. Sobre "Delta" disse-se que seria um álbum de música pop/dance, e "Bring Me Home" era prenúnico desse desastre. No entanto, a canção acabou por não integrar o alinhamento final, sendo arrumanda no cd-single de "In This Life"."
Na verdade, "Delta" não é um álbum de dança, é, aliás, um muito bom álbum pop, melhor do que "Innocent Eyes". Talvez "melhor" não seja a palavra indicada: mais maduro.
Ela bem diz em "Woman" o seguinte:

I´m not a girl who don´t know
What she wants
I´m a woman (...)
Cause being your woman
Is not enough

E é bem verdade.
"Believe Again" faz a abertura. O início faz-se com um belíssimo arranjo de cordas, e, quando a canção ganha ritmo, com bateria e baixo, quase se acredita que estamos perante a canção dançável. Não é o caso. É uma balada que, não sendo triste, não deixa de ser forte.
"In This Life", que foi single de avanço, prossegue dentro do mesmo estilo, e mostra-nos uma Delta Goodrem que já nada tem da menina que cantava "Born To Try". Ela é mesmo essa cantora mais forte, com uma personalidade mais vincada.
Mesmo quando parece recuperar alguma fórmula do passado, como em "You Will Only Break My Heart", que nos faz lembrar "Throw It Away", Delta mostra-se capaz de uma reinvenção total, anulando os seus próprios fantasmas.
E se referimos fantasmas, tenho que evidenciar o meu desagrado por baladas como "The Guardian": não se trata de um fantasma do passado de Delta, mas de uma desagradável incursão pela power ballad celebrizada por Celine Dion. De facto, a menina tem voz para acompanhar, mas o resultado é demasiado lamechas para resultar. Em "Woman", que poderia cair na mesma precabilidade, isso não acontece, estranhamente: Delta foge dos excessos e até se faz acompanhar por um pequeno coro no final que, por mais que se utilize, never gets old.



Felizmente, nem tudo é assim, e canções como "Bare Hands", "One Day" (Uma espécie de mistura de pop/rock com algo de folk.) e "Good Laughs" trazem-nos a absolutamente nova Delta. O caso da primeira canção mostra como ela sempre deixou transparecer essa tendência para a pop-pastilha-elástica, com aquela linhazinha de sintetizador muito característica, mas a verdade é que ela dá-lhe a volta com o gotejar do piano, e fá-la resultar.
Consegue muito bem oscilar entre canções mais alegres, como "In This Life" ou "Brave Face" com outras mais tristes, como "I Can´t Break It To My Heart", e, mais importante do que demonstrar-se capaz de ambas as matrizes, consegue equilibrá-las. E essa é uma das características mais interessantes em "Delta": é um álbum muito equilibrado, mesmo sendo heterógeneo. Corre mais riscos do que os primeiros dois, pensa mais "ao lado", mas é bem sucedido, e é isso que interessa.
"Angels In The Room", outra das grandes canções de "Delta" e de Delta, fecha o álbum fundindo o piano e a orquestra com uma estranha electróncia que não soa intrusa, mas muito apropriada.
Vocalmente, Delta decidiu, e não mal, fugir do estilo delicodoce que por vezes nos fazia torcer o nariz em "Innocent Eyes" e "Mistaken Identity". Mesmo quando se mostra delicada, consegue estranhamente ser forte na sua vulnerabilidade. "I Can´t Break It To My Heart" é exemplo disso mesmo.
As letras, não sendo de Shakespeare, não deixam de ser interessantes, com ideias mais polidas e líricas do que acontecia no passado. "Bare Hands" parece-me ser a melhor. "Woman", que resulta como uma espécie de grito feminista/independentista, funciona também como uma espécie de cartão de visita da ideia de crescimento que "Delta" traz.
Isolando algumas canções que me parecem as melhores, escolheria "Bare Hands", "One Day", "Angels In The Room" e "Believe Again".
A verdade é que não consigo ouvir Delta Goodrem como ouço outros músicos, nem a consigo ouvir como ouvia ao tempo de "Innocent Eyes", mas isso é pessoal. Tentanto ser imparcial, parece-me que "Delta" é um álbum de decisões acertadas, que resulta muito bem. E é, ainda entre nós, um álbum pop de rara qualidade.


"In This Life", ao vivo

O Mundo a Meus Pés (1993)

O vídeo original dirigido por José F. Pinheiro. Vêem-se as três partes da formação original, Ana Deus, Regina Guimarães e Paula Sousa.

Urban Legend (Mitos Urbanos), 1998

de Jamie Blancks. Com Alicia Witt, Rebecca Gayheart, Jared Leto, Tara Reid, Michael Josenthal e Joshua Jackson.

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma Citação

deixemos para cada um o seu provisório, para nós todos a vida eterna.

Maria Gabriela Llansol

Arte de Inventar os Personagens



Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente por os seus nomes
e os personagens aparecem


Mário Cesariny de Vasconcelos
Manual de Prestidigitação
1956, ed. Contraponto
retratoplastia de Carla Gonçalves


Poema



Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há – apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
secamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado. A luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.



Hélia Correia
publicado na revista Vértice
e incluído na antologia "Poesia 71" organizada por Egito Gonçalves e Fiama Hasse Pais Brandão, ed. Inova, 1971

fotografia de Robert Mapplethorpe

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Serial Killers para todos os gostos

Leatherface, de "Massacre no Texas"


Michael Myers, de "Halloween"

Jason Vorhees, de "Sexta Feira 13"

Fred Krueger, de "Pesadelo em Elm Street"

o assassino de "Mitos Urbanos"

Cartazes para Slasher Movies















You may only see it once... But that will be enough

Foi em 1980 que apareceu nos cinemas um filme chamado "Sexta-Feira 13", dirigido por Sean S. Cunningham e escrito por Victor Miller. E se diz o povo que "a ocasião faz o ladrão", hoje que é sexta-feira 13, por que não falar desse filme?
A premissa, que partia de um drama familiar, tornar-se-ia ao longo dos anos uma das mais extensas sagas do cinema de terror.
"Sexta-Feira 13" era o segundo filho de um género na altura undergound, o slasher movie, um estilo específico e especificamente sangrento do filme de terror. Já em 1978 John Carpenter, o absoluto mestre do horror nos tinha oferecido "Halloween", e em 1984 seria a vez de Wes Craven realizar "Pesadelo em Elm Street". São aqueles filmes que causavam delírio em quem, como eu, aos treze anos ia ao clube de vídeo com a melhor amiga, no tempo das cassetes de vídeo, e passava a tarde a dar saltos no sofá e a comer caramelos... Filmes como já não se faz.
Até à data, estes três filmes tornaram-se filmes de culto, e originários de várias sequelas (Sete para "Halloween", onze para "Sexta-Feira 13", oito para "Pesadelo em Elm Street".) e um remake para cada um (O de "Halloween" tem direito a sequela própria.).
O slasher movie caracteriza-se essencialmente por episódios sangrentos que normalmente envolvem assassinos em série. E se tanto "Halloween" como "Sexta-Feira 13" se moviam ainda no terreno do possível, do verosímil, seria o filme de Wes Craven que traria o fantasioso ao género, quando cria Fred Krueger, um defunto que assassinava pessoas quando elas sonhavam com ele, confundindo assim o real com o delírio, tocando ainda questões de memória colectiva/comunitária. As armas, por norma, são brancas: Michael Myers, o galã do filme de Carpenter, usa uma faca de cozinha, Mrs. Vorhees, a mãe destroçada de "Sexta-Feira 13" uma faca de mato, e Fred Krueger usava uma luva com garras de metal. Com tudo isto, é natural concluir que "vai haver sangue".
"Sexta-Feira 13" mostra-nos um campo de férias onde vários perceptores começam a ser assassinados. O assassino, que se revela ser uma assassina, é Mrs. Vorhees, a mãe de Jason Vorhees, um rapazinho que morrera nesse mesmo campo de férias, porque os perceptores estavam mais ocupados a fumar e fazer sexo do que propriamente a tomar conta das crianças. O resto são mortes de pungente violência, numa altura em que esta violência era ainda muito invulgar em cinema.
Outra característica que une estes três filmes é a questão da vingança: é ela que move os assassinos. Michael Myers, que é uma encarnação do mal, volta à cidade onde nasceu e de onde foi levado para um hospício depois de ter morto a irmã mais velha à facada; Mrs. Vorhees vinga o filho perdido e Fred Krueger, que em vida fora um infanticida, volta para atormentar os filhos da comunidade que lhe deitou fogo.
O problema destes filmes são as sequelas. "Halloween" teve ainda direito a duas sequelas decentes ("Halloween II" e "Halloween H20".) mas os outros dois são casos de filmes completamente destruídos pelas sequelas. Em "Sexta-Feira 13, Parte 2", Mrs. Vorhees dá lugar ao próprio filho, Jason, que volta dos mortos para, ano após ano, assassinar mais perceptores de campos de férias; Fred Krueger é levado de pesadelo bizarro em pesadelo bizarro ao ponto da exaustão e nem o regresso de Wes Craven a realizar "New Nightmare" o salvou do aborrecimento e da predicabilidade para que o levaram.
"Halloween" dá uma inesperada reviravolta quando, no segundo filme, que continua a noite do primeiro, o psiquiatra e a enfermeira de Michael, que incansavelmente o perseguem, descobrem que Laura (Interpretada por Jamie Lee Curtis.) é na realidade irmã de Michael. É a mesma Laura que encontramos em "Halloween H20", 20 anos mais tarde, a ser descoberta finalmente pelo assassino, para o confronto final.
Uma coisa é certa: os filmes originais são impagáveis. Não se trata apenas de terem sido pioneiros na violência explícita e cruel, sádica por vezes, mas precisamente por, ainda hoje, nos parecerem despidos desse facilitismo que caracteriza o terror actual. Permanecem como objectos puros, de culto como acima disse, estão nos antípodas do bom e do mau que se faz no cinema de horror.
E a prova disso é que haveriam de ser esses filmes a influenciar toda uma camada jovem de realizadores que acabaram por dar um tiro no próprio pé, pois a influência foi tão grande que se tornaram pouco inventivos, elevando os três filmes originais à categoria de fórmula, que foi repetida vezes e vezes sem conta, ao ponto de já não surpreender, não causar mais que um bocejo e a sensação de que já vimos isto em algum sítio. São filmes como "Sei o que Fizeste no Verão Passado", "Dia de S. Valentim", além de quase todas as sequelas desses três filmes, que quase nos fartaram do tema. Chegou-se ao cúmulo de cruzar, em 2009, Jason Vorhees e Fred Kruger num ridículo confronto sem razões, em "Freddy vs. Jason".
É precisamente ao "moderno" que devemos a quase-destruição dos filmes originais. Além das ideias peregrinas sobre a imortalidade dos assassinos, que a cada filme morrem definitivamente, até que chega o seguinte que nos mostra que "afinal não", e como se isso não fosse suficientemente penoso, vemos os nossos heróis/homicidas a viajar pelo espaço, pela internet, pelos estúdios de cinema.
De destacar é um filme, também susceptível de ser incluido nesta categoria. Trata-se de "Massacre no Texas", de 1974, de Tobe Hooper. Foi o filme mais "deixado em paz", pois a ele dedicaram-se apenas três sequelas que nada têm de assinaláveis, e o remake de Marcus Nispel, em 2003, que é surpreendentemente bem conseguido. Considerado por alguns como um filme menor do género, parece-me não ser nada desprezível, e até invulgar neste contexto, pois em vez de se movimentar no campo da vingança (Por isso o guardei para o fim.) move-se no terreno das perversões e das psicoses, que, nevertheless, resultam no mesmo "massacre" sangrento, levado a cabo pelo temível Leatherface.
Como único digno descendente do slasher movie nascido nos anos 70/80, destaco "Mitos Urbanos" de Jamie Blanks, que ameaça já tornar-se outro clássico, contando já duas sequelas, sendo que a primeira não é um completo desperdício da original ideia de trazer para o real a mitologia urbana, sempre dentro do conceito de vingança. Além deste, existe "Scream", realizado pelo veterano Wes Craven, que é simultaneamente um slasher movie e um ensaio sobre o mesmo, sobre as regras que movem o filme de terror. Da trilogia, parece-me ser relevante apenas o primeiro. O segundo e o terceiro capítulos revelam-se de uma estranha inépcia.
Hoje, são raras as excepções à vulgaridade que o cinema de terror atravessa. Alguns filmes, como "The Blair Witch Project" de Eduardo Sanchéz e Daniel Myrick, "Jeepers Creepers" de Victor Salva ou "A Nona Sessão" de Brad Anderson dão-nos conta de alguns jovens realizadores com boas ideias, o resto são os mestres de sempre, Craven, Carpenter e pouco mais. No entanto, é sempre bom ver estes filmes e perceber que o percurso do cinema de terror nem sempre foram "as ruas da amargura".

Sexta Feira 13 (É hoje...)

Trailer do filme original

A Mosca



Deus me disse: "Tens asas."
E os homens só disseram: "É um
........................... insecto."


António Rebordão Navarro
Os Animais Humildes
1956, ed. autor

Um Poema



POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE. CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.


Pedro Oom
Actuação Escrita
1980, ed. &etc
desenho de Ana Hatherly

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.






Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
imagem de Júlio Resende

Quando Capitalismo e Livros se Juntam

A meia-dúzia de pessoas que vai lendo este blog, imagino eu, deve interessar-se por livros. Se assim é, e principalmente se tiverem uma idade que ronde a minha, já devem ter experienciado qualquer coisa como o que se passou comigo esta noite: de passagem por uma livraria de Viana do Castelo, fui perguntar se tinham um livro que quero ler- "Infância e Palavra" de Luísa Dacosta- e, quando me disseram que não tinham, pedi que verificassem se existia nos armazéns da livraria, que faz parte de uma grande cadeia (Ok, ok, era a Bertrand.), ao que me responderam que não, não senhor.


Já mais tarde, lembrei-me que se trata de um dos volumes da colecção Pequeno Formato, que a Asa publicava antes de ser vendida à Leya. Não terá sido há muito tempo que li vagamente um artigo, penso que de António Guerreiro, em que se referia o destino dos livros que existiam antes da venda (Que não é da alma ao diabo, mas quase.). Bom, aparentemente, grande parte dos livros desta colecção foram guilhotinados pela gigante multi-editora.

Concluí sem estranheza que provavelmente os que não foram guilhotinados foram os que já se encontravam esgotados- caso das maravilhosas "Canções do Rio Profundo", de Yvette K. Centeno.

Se esta medida tem por si só o evidente peso de nojo e de anti-cultura que não preciso de especificar, ele torna-se mais grave ainda quando pensamos que, a todo o momento, a obra de um autor está a ser descoberta por novos leitores. É o meu caso, que só há alguns meses me cruzei com a obra de Luísa Dacosta, que me seduziu especialmente, e que gostaria de poder reunir na minha estante.

Face a isto, e à ideia em vias de extinção de que fazer um livro é ainda produzir cultura, não compreendo realmente como alguém no seu perfeito juízo manda guilhotinar milhares de livros de autores como António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Maria Velho da Costa, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Jorge de Sena, Mário Cláudio, José Viale Moutinho, Manuel António Pina, Albano Martins, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, Inês Lourenço entre muitos outros. E isto sem falar das colaborações na parte gráfica, que contam com hors-texte de artistas como Júlio Resende, Jacinta Andrade, Jorge Pinheiro, José Cutileiro, Armando Alves, Lídia Vieira, Arpad Szenes, Mário Botas, José Rodrigues, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Cruz, entre muitíssimos outros, sem contar com a sempre preciosa mestria gráfica de Armando Alves, a quem devemos o formato e a apresentação dos livrinhos.
O que a Leya não parece perceber é que desperdiça completamente o trabalho de José da Cruz Santos que, méritos e deméritos àparte, dirigiu primorosamente a colecção, como também os textos e desenhos de todos esses colaboradores, que por mais que não esgotem necessariamente edições, não deixam de ser nomes que estão na História da Literatura portuguesa. É uma das mais insultuosas maneiras de faltar ao respeito a todos: os leitores, ao director da colecção, ao director gráfico, aos autores e aos artistas.
Se estas obras foram sobrando nos armazéns da editora, não quer dizer que por aí ficassem para sempre, porque, como acima afirmei, as obras dos autores estão sendo contínuamente descobertas; não acredito que eu tenha sido o único leitor português que nos passados meses se cruzou com um dos autores que existem nesta colecção.
E se era muito caro para a editora reservar espaço para os livros, por que guilhotiná-los é a única solução? Podiam muito bem ser distribuidos pelas livrarias a um preço baixo (Lembro que cada um custa cerca de 12 euros, o que pode ser muito para um livro de "pequeno formato".), ou até fazer uma feira e vendê-los nem que fosse a 50 cêntimos, porque sempre dava mais lucro do que pura e simplesmente destruí-los.
É por estas e por outras que não consigo acreditar que o uma postura capitalista possa rimar com fazer livros, porque inevitavelmente alguma coisa se perde no caminho. Relembre-se que em Portugal, fazer livros, ou livros com a qualidade dos desta colecção, não é realmente um negócio de grandes lucros, e quando uma mega-editora compra uma pequena editora, deveria estar ciente disso.
O que se passou sempre em Portugal com o mercado do livro nunca deu boas notícias. O pior é quando no meio das más surgem estas que são muito muito más, como é o caso.
Restam aquelas pequenas livrarias onde as editoras nem se lembram de levantar o stock, pode ser que lá encontre o livrinho que procuro...