sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Balance


glad to see you're wide awake
this is the great escape
from a life that tried to mould you
and the lie it sold you

what would you do?
what wouldn't you do?
what would you do?
what wouldn't you do?
what would you do?
what wouldn't you do?

did you try to reason why
look yourself in the eye
what you are is all you have been
what will be is all you do now

what would you do?
what wouldn't you do?
what would you do?
what wouldn't you do?
what would you do?
what wouldn't you do?

spill a tear as your sense of self slowly
melts away
melts away
melts away

until death's mirror reflects
the meaning of our lives
we wander aimless and mesmerised
as the fear starts to rise.


Vincent Cavanaugh, Danny Cavanaugh, John Douglas
(Anathema)
A Natural Disaster- 2003
gravura de Francisco Goya

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

(Mais) Duas Grandes Cenas de Um Musical

Chicago, de Rob Marshall, vencedor do Oscar de Melhor Filme do Ano

"When You´re Good To Mama", brilhantemente interpretado por Queen Latifah, no papel de guarda da prisão de mulheres assassinas.



"Cell Block Tango", onde as prisioneiras explicam como mataram os respectivos maridos, conta com a interpretação de, entre outras, Catherine Zeta-Jones, no papel principal

Guevara I


Levaremos ainda as nossas roupas
vossos idílios sobre os sulcos
vossos pães vossas sujas refeições
pelas clareiras vossas tatuagens.

Levaremos as vossas agonias.
Coisas. Vestígios ácidos da dor.
Estilhaços. Matéria.
Vossas fontes sugadas e musgosas.
Vossas hostes elementares.
O encolher dos dedos sob as mantas
nas ciladas. Vigílias. Levaremos
vosso cheiro a folhagens e a verão.

Levaremos na pele vossas cidades
em sua inexistência.
Vosso rijo manobrar dos fusis.
Recondução da história. O novo, o limpo
acumular dos corpos para o cio.

Levaremos os climas. Mais cerrados,
no lugar da memória, avançaremos
com vossos restos de calcinação.
Avançaremos todos com os ombros
quase amorosamente protegidos
por ombros paralelos.
Seguiremos e de ecos indignados
seguiremos por onde nos chamastes.

E ainda traremos certas águas
tranquilamente sobre as tardes vilas
onde o ciclo dos sangues se fundia
das raparigas nunca virgens, e outro,
o fértil, sobretudo, em vossas chagas.

Hélia Correia
da antologia "10 Poemas Para Che Guevara",
org. Egito Gonçalves, 2a ed. Campo das Letras, 1997

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Lume II


Vivo em lama
à beira do derrame.
Na cratera.

Vivo em cama
de pregos, vidros,
dentes de fera.

Vivo em chama.
Pegou-se o fogo ao fato
que morte e vida
irmana.

Luiza Neto Jorge
A Lume
1989, ed. Assírio e Alvim
Pintura de Edvard Munch

sábado, 11 de dezembro de 2010

Novas Cartas Portuguesas


Foi em 1973, num país atrasado chamado Portugal, que apareceu um livro chamado "Novas Cartas Portuguesas". Na capa, assinavam Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.
Maria Isabel Barreno, após várias participações em volumes colectivos de estudos, que não raro já incluiam análises à condição da mulher portuguesa, estreara-se no romance apenas em 1968, com "De Noite as Árvores São Negras", a que se seguira, em 1970 "Os Outros Legítimos Superiores".
Maria Teresa Horta estreara-se bastante mais cedo, em 1960, com o livro de poesia "Espelho Inicial". Passara já pela Poesia 61, pela colecção Pedras Brancas e fôra uma das autoras "efectivas" na Guimarães editores, no tempo da Colecção Poesia e Verdade. O seu primeiro romance, "Ambas as Mãos Sobre o Corpo", viera a lume em 1970, e em 1971, "Minha Senhora de Mim", um livro de poemas, levanta graves problemas à pide, por abordar de forma muito directa a sexualidade feminina.
Maria Velho da Costa, entre traduções, artigos e estudos, publica o primeiro romance em 1966, "O Lugar Comum". Mas seria "Maina Mendes", de 1969, que projectaria Maria de Fátima Bivar Velho da Costa para o reconhecimento, merecido, de uma das obras de prosa mais importantes do século.
Na consequência dos problemas de Maria Teresa Horta com o regime, surge a ideia de um livro escrito pelas três. Assim nasceriam as "Novas Cartas Portuguesas".
Para a edição, uma outra grande mulher se lhes junta. Natália Correia, poeta, romancista, ensaísta e directora do conselho de leitura da Estúdios Côr é a única que se arrisca a dar o nome pelas escritoras que passariam a ser conhecidas como As Três Marias.
O livro, cedo detectado e apreendido pela pide, daria origem a um longo processo judicial, que incluia acusações de pornografia e ofensa à moral pública. Com a sentença pronta a ser dada em Abril de 1974, as Marias acabaram por ver o assunto resolvido pela Revolução.
Mas há que referir que, ao longo do processo, as Novas Cartas juntaram os mais variados movimentos feministas internacionais, a apoiar as escritoras, com vigílias, marchas e manifestações, em que estiveram incluidas verdadeiras figuras históricas como Marguerite Duras e Simone de Bouvoir.
"Novas Cartas Portuguesas- Ou de como Maina Mendes pôs Ambas as Mãos Sobre o Corpo e deu um pontapé no cu dos Outros Legítimos Superiores" é uma obra escrita em prosa e poesia, que vai buscar a sua génese às "Cartas Portuguesas" atribuidas a Soror Marianna Alcoforado, freira que, após escrever cinco cartas ao seu amado Marquês de Chamilly, terá morrido de amor. Rainer Maria Rilke, que descobriu as cartas, descreve-as como testemunhos de um amor "grande demais para caber numa pessoa só". Ao longo do livro das três Marias, perde relevância Marianna e ganha-a Maria, enquanto nome que poderia representar o comum da mulher portuguesa, essa sim, verdadeiro objecto de análise deste livro. É hoje sabido que cada carta terá sido escrita por uma das autoras, ainda que nunca elas tenham dito quais cartas pertencem a qual Maria. Dado o mistério, ao longo dos anos, têm surgido vários estudos literários que tentam atribuir as cartas, com base em comparações com a obra individual de cada uma das escritoras mas, já por várias vezes, as próprias comentaram que ainda ninguém acertou realmente.
Em 2010, temos nova edição, da Dom Quixote, a quinta, e que vem preencher uma lacuna gravíssima, dado que a quarta edição há muitos anos se encontrava indisponível. O prefácio está a cargo da escritora e ensaísta Ana Luísa Amaral.
Li o livro no ano passado (Consegui a segunda edição num alfarrabista.), e parece-me um texto obrigatório, para uma compreensão da situação da mulher no tempo em que o livro foi escrito mas, mais dramático ainda, é que este livro pode muito bem servir para entender a posição da mulher actual na sociedade de agora. A modernidade do livro é assustadora. Obra a um tempo sensível e inteligente, "Novas Cartas Portuguesas" regressa hoje às livrarias, para de novo se declarar contra a moral pública de 2010.
Acrescento que o "grupo" das Marias sofreu posteriormente uma cisão, com a "demarcação" de Maria Velho da Costa. Ainda que as três tenham seguido por obras individuais muito específicas, as "Novas Cartas Portuguesas" continuam a ser uma referência obrigatória para analisar a obra e o pensamento de Maria Isabel Barreno, de Maria Teresa Horta e de Maria Velho da Costa.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes

NO ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO


José Saramago, como escritor e como Nobel da Literatura tem sido objecto de observação em vários documentários, como pudemos confirmar aquando da sua morte que, ao contrário da grande maioria dos escritores desaparecidos recentemente, não escapou despercebida aos media (Não se pode dizer o mesmo em relação a Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner, Fiama Hasse Pais Brandão ou Maria Gabriela Llansol.). Esta questão faz-nos pensar se Saramago recebeu tanta atenção por ser o grande escritor que é ou por ser Nobel da Literatura.
De qualquer forma, para este filme de Miguel Gonçalves Mendes, essa questão é perfeitamente indiferente e, se há qualidade que tem que se atribuir ao realizador desde logo, é a forma original que tem de se debruçar sobre a vida de Saramago. "José e Pilar", como aliás o título indica, não é um filme sobre José Saramago, mas sim um filme sobre a relação do escritor com a sua terceira e última mulher, Pilar del Rio.
O facto de Saramago ser Nobel é, no entanto, um assunto inevitavelmente central neste filme, uma vez que as grande parte dos a-fazeres com que nos deparamos neste filme, muito disso dependem.
"José e Pilar", cujas primeiras cenas remontam a 2006, acompanha também a escrita de "A Viagem do Elefante", e termina com Saramago a ter uma ideia sobre Caim, para um livro seguinte. Pelo meio, há ainda a promoção de "As Pequenas Memorias", e Miguel Gonçalves Mendes demonstra-se particularmente sensível e, ao mesmo tempo, inteligente, ao aproveitar as dedicatorias de Saramago a Pilar, momentos de inquestionável beleza, para abordar a relação entre os dois.
Tudo o resto é alucinante: este pode muito bem ser um inesperado insight sobre a vida do autor, completamente preenchida de entrevistas, intervençoes, apoios e encontros. Parecendo que Pilar ficaria para segundo plano, desenganemo-nos: é ela o cérebro gestor por trás de tudo isto, e fica bem claro que é ela quem, para todos os efeitos mantém a situação de Saramago de alguma forma praticável. De facto, este filme vem corroborar completamente a conhecida máxima que diz que "atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Não podia ser mais verdade.
E se, a propósito de outros filmes, eu já me tenho referido à autonomia de um objecto artístico, em "José e Pilar" essa questão volta a fazer sentido. É que este filme conta com dois protagonistas que são verdadeiras forças da natureza. Portanto existe o perigo de facilmente o filme se transformar em mero suporte para aforismos. Não parece ser o caso. É verdade que o filme incontornavelmente depende e aproveita a inteligência e ironia de Saramago e Pilar, mas é também verdade que na maneira de aproveitar essas características tem um ritmo particular, o que afecta, evidentemente, a maneira como tudo é percepcionado.
Não sei se seria possível, na verdade, fazer um filme que se tornasse completamente independente da força de Saramago e Pilar. É difícil a câmara não se apaixonar por eles. E nós também.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um Ritmo Perdido


Um ritmo perdido...

Se uma pausa não é o fim
E o silêncio não é ausência,
Se um ramo morto não mata uma árvore,
Um amor que é perdido, será acabado?

Um ouvido que escuta,
Uma alma que espera...
_Uma onda desfeita
É ou já não era?

Ana Hatherly
Um Ritmo Perdido
1958, edição da autora
desenho de Ana Hatherly

Os livros &etc já têm blog:

http://editoraetc.blogspot.com/

A Rede Social de David Fincher

HISTÓRIA E HISTÓRIAS


A especulação e a fofoquice, sinónimos em quase tudo, fazem parte deste mundo em que agora vivemos. Negá-lo é impossível. Se as redes sociais de internet são resultado disso ou não é já mais discutível.


Esta ideia serve, em vários aspectos, para falar de "A Rede Social", o mais recente filme de David Fincher. É necessário falar de especulação logo porque este filme é a adaptação de Aaron Sorkin ao livro "The Accidental Billionaires" de Ben Mezrich. O livro, que apresenta a história do Facebook, já foi inclusivamente refutado pelo próprio. Daí que o filme depende muito da especulação sobre os factos.
Trata-se da história de Mark Zucherberg (Jesse Eisenberg), um estudante de Harvard que, depois de terminar o seu namoro, zangado e um pouco bêbedo, cria um site, o FaceMash, em que disponibiliza uma série de fotografias de raparigas, dispostas em pares, para que os visitantes escolham a que gostam mais. Para fazer tal site, arromba uma série de sistemas informáticos fechados e aparentemente invioláveis; e o FaceMash é tão visitado que, em menos de uma hora, cria um black-out no sistema de Harvard. Dado o ultraje do site, be
m como a violação de várias regras, abrem um inquérito a Zuckerberg. E, através de uma notícia no jornal da faculdade, os gémeos Winkelvoss, Cameron e Tyler (Ambos interpretados por Armie Hammer.) e Divya Narendra (Max Minghella) concluem que Zuckerberg será a pessoa indicada para concretizar o projecto que têm em mão: a criação de um clube social on-line. Zuckerberg aceita o convite, principalmente porque é completamente obcecado com clubes sociais.
No entanto, enquanto se vai demonstrando relutante em contactar os gémeos para discutirem o desenvolvimento do projecto, começa a desenvolver ele mesmo um projecto de criação de uma rede social on-line; apenas com a ajuda de Eduardo Saverin (Andrew Garfield), que financia o projecto.
Inicialmente chamado "The Facebook", este site cedo se to
rna muitíssimo bem sucedido, e, quando os seus criadores visitam New York encontram-se com Sean Parker (Justin Timberlake), criador do famoso programa de download de música Napster, que aumenta as ambições de Mark, que não parece realmente ciente das possibilidades que a sua criação lhe abria. Mas Parker acaba por também dividir Mark e Eduardo, pelo que logo percebemos que a relação entre ambos acabará por resultar mal.


Assim sendo, o filme parte logo do princípio que o Facebook deu mau resultado: Mark Zuckerberg enfrenta simultaneamente dois processos legais: um levantado pelos gémeos Winkelvoss e outro por Eduardo Saverin. É um método interessante de contar a história em questão, porque nos mantém concentrados essencialmente nos factos e não simplesmente num desenlace, uma vez que já conhecemos o desenlace à partida. Para isto talvez interesse referir "Zodiac", o filme anterior de Fincher, que também questionava também a questão do desenlace através de um poderoso anti-climax.
"A Rede Social" tem algo de realmente invulgar, quando pensamos que se trata de um filme deste tipo. Fincher consegue desmarcar-se dos clichés que mais facilmente associaríamos a um filme que conta algo que já foi refutado e que, de qualquer forma, é altamente susceptível de gerar polémicas. Mas o filme consegue comportar-se enquanto enredo credível, e enquanto filme em si, ou seja, não dependente daquilo que conta. Consegue, inclusivamente, enredar-nos na personalidade que cria para Zuckerberg, que tem algo de zombie.
De facto, "A Rede Social" tem até algo de analítico, de olhar sobre a sociedade de hoje, em particular na sua relação de dependência com as modas aqui expressas através das redes sociais e da necessidade de pertença conseguida muitas vezes através dos meios mais idiotas.
Para aqueles que, com razão, pensariam se num filme com estes pressupostos não faltaria o ambiente de loucura e até non-sense que caracteriza o cinema de Fincher, a verdade é que o realizador encontrou várias maneiras de criar essa ambiência, maioritariamente através do humor, que oscila entre o negro e o non-sense assumido, e que sem dúvida acrescente um toque muitíssimo fincheriano numa trama tão terrivelmente mundana...


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Conceito de Arranha-Céus e "Metropolis" de Fritz Lang: Algumas Aproximações

1.
A ideia do arranha-céus, apesar de, em Arquitectura, ter sido concretizada apenas a partir do século XIX, tem uma origem bem mais recuada.
A título de exemplo, penso que não será despropositado referir a mitologia egípcia, e especificamente, o caso de Geb e Nut, filhos de Rá e pais de Ísis e Osíris. Ao enfurecerem o pai com o seu romance, foram por ele castigados, e condenados à separação. Assim sendo, é frequente que a representação destes dois deuses se faça desenhando Geb deitado no chão, com as costas curvadas e o pénis erecto, tentando, sem sucesso, penetrar Nut, representada no lugar do céu, em posição de cúpula, apoiada pelos braços e as pernas.




Dado que a cultura do Egipto Antigo era extremamente religiosa, tendo dado um sentido sacro até às mais ínfimas parcelas do pensamento e do quotidiano, é fácil concluir que também a ambição de, da terra, tocar o céu faria parte das suas aspirações enquanto povo; ainda mais quando sabemos que, segundo o Livro dos Mortos, o céu era o lugar onde permaneceriam aqueles que, depois da morte, atravessassem com sucesso a Passagem das Almas.
Ainda relativamente ao Egipto Antigo, é de referir que aí se construiu aquele que se pode considerar o edifício dos antípodas do Arranha-Céus: as Grandes Pirâmides de Gizé, com 146 metros de altura, cerca de 2560 a.C., altura que até ao séc. XIV d.C. não foi ultrapassada.
Esta ideia parece-me ganhar alguma relevância mais quando lembramos que, ainda actualmente, não há uma altura mínima que distinga o arranha-céus. Se o critério é que o edifício, habitável, claramente se destaque do skyline da cidade em que está implantado, então certamente as Pirâmides de Gizé poderiam ser arranha-céus, não fosse o facto de serem túmulos, e não habitações.
Nas cidades medievais, o skyline era bastante irregular, e não era raro encontrarem-se casas altas, ou mesmo torres, como as duas Torres de Bolonha (séc. XII), normalmente edificadas por famílias abastadas, uma vez que uma habitação que se destacasse, neste caso pela altura, das restantes, não deixava de ser um sinal de Poder e de abastança.




Mas será no século XIX que começarão a surgir os primeiros arranha-céus aceites como tal. O Oriel Chambers de Liverpool -do arquitecto Peter Elis, com apenas cinco andares, era invulgarmente alto para a sua época, mas não o suficiente para ser totalmente aceite enquanto arranha-céus.
Assim sendo, é o edifício Wainwright, em St. Louis (Missouri), dos arquitectos Louis Sullivan e Dankmar Adlen aquele que se considera o primeiro verdadeiro arranha-céus, concluído em 1891, a nove anos do final do século XIX.
Ainda antes do final do século XIX, assistimos a uma certa quantidade de edifícios de altura invulgar ser edificada nas cidades de Chicago, New York e Londres. Nesta última, a construção de vários arranha-céus desagradou à Rainha Victória, que lançou vários regulamentos sobre a altura-limite das construções, que, na sua maioria, vigoraram até aos anos 50.
Então, desde a última década do século XIX e um pouco por todo o século XX, veremos o arranha-céus tornar-se uma tipologia comum e recorrente, ao ponto de, a certa altura, podermos ficar com a impressão de que a sua construção chega a constituir uma verdadeira competição. Essa competição, evidentemente, é pela construção do edifício mais alto do mundo.




O American Surety Building, do arquitecto Bruce Price, em New York, concluído em 1896, foi, durante vários anos, o edifício mais alto do mundo.




Em 1930, também em New York, o Chrysler Building, do arquitecto William Van Hallen, ultrapassaria, em altura, o de Price, e tornava-se “o mais alto”. Não por muito tempo pois, em 1931 o Empire State Building, de William F. Lamb, substitui-lo-ia, e, até 1971, com a conclusão das Torres Gémeas do World Trade Center, deteria o tão invejado título.
Além da corrida pelo recorde de altura, a construção de todos estes edifícios permite-nos também traçar já algumas características comuns do arranha-céus. Exemplo disso são a utilização de estruturas de ferro, mais capazes de aguentar a sobreposição de andares, a predominância do vidro nas fachadas, e, no caso dos edifícios de 1930 e 31 acima referidos, é de notar que ambos terminam com espigões, reforçando a ideia de que se trata de um “arranhão” ao céu.



2.
“Metropolis” foi um dos filmes mais aclamados de Fritz Lang. Ele é resultado directo de uma viagem de Lang aos Estados Unidos, mas recusa qualquer um dos resultados mais taxativos, preferindo metamorfosear o que viu da América no seu estilo expressivo e meticuloso,a que não é estranha a influência do expressionismo alemão, e também a influência das artes plásticas. Nestas, se a Arquitectura é a mais evidente, não pode deixar de se ver a influência da pintura abstracta e da pintura futurista, através das morfologias visuais e das noções de movimento.
Sobre a influência do Futurismo, as referências são incontáveis. O fascínio pela máquina, pela tecnologia e pelo frenesi são características incontornáveis para este tempo (O próprio Fernando Pessoa, em Portugal, a elas cedeu.), mas específicas para este movimento artístico específico, como demonstram as pinturas de Marinetti e algumas das pinturas de Marcel Duchamp.
Mas, apesar de tudo isto ter peso no filme de Lang, é justo dizer que foi através da Arquitectura que ele conseguiu expressar as suas impressões da América. De facto, quando nos apresenta a sua metrópole moderna e evoluída, o elemento que primeiramente nos dá indícios de estarmos perante uma cidade futura é a imagem dessa cidade, da sua construção.
O que vemos são edifícios de grande escala, construidos essencialmente em altura. Ao vermos as pessoas que passam, temos ainda maior consciência da escala quase megalómana desta metrópole.
Numa primeira observação, poderíamos entender que é através da grandiosidade ou da escala que Lang nos dá uma noção de modernidade. Mas à medida que o filme avança, avançamos nós também na nossa percepção desta cidade. É assim que entendemos que toda aquela imensidão não é só indício de avanços tecnológicos. Esta metrópole é também habitáculo de um sem-número de pessoas, que ali vivem extremamente concentradas. A relação com a experiência da viagem à América parece-me aqui realmente nítida. Porque, entre toda a euforia daquela cidade (construida e vivida), Lang consegue dar também uma impressão de como ela pode ser irrelevante e de como é possível nela estar-se absolutamente só. Esta dicotomia tem sido tema dos mais variados projectos artísticos, de que refiro a título de exemplo o díptico “66 Scenes From America” (1982) e “New Scenes From America” (2003) de Jorgen Leth.
Efectivamente, os cenários são uma parte crucial de “Metropolis”, pois todo o enredo teria uma resistência menor sem eles. E não só estes cenários constituem uma base para o enredo como, isolados, eles são capazes de transmitir também uma mensagem.
Na primeira parte deste texto, defendi que a ideia de, da terra, conseguir tocar o céu, não era cueva às possibilidades técnicas que permitiram a construção dos primeiros arranha-céus.
Portanto, vendo “Metropolis”, concluo que a grande modernidade que Lang filma não tem tanto a ver com o Homem ser capaz de construir edifícios altos ou “os mais altos”, mas sim em ser capaz de construir para satisfazer os seus desejos mais antigos e aparentemente irrealizáveis.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Harry Potter and The Deadly Hallows (Part 1) de David Yates

BEST FOR LAST

O entusiasmo excessivo de quando Harry Potter surgiu, primeiro em livro, depois em filme, perdeu-se bastante para mim de há uns anos a esta parte. De facto, deixei-me um pouco disso, o que não significa que tenha deixado totalmente de me interessar. Prova disso é que hoje, um pouco por acaso e graças à velocidade de pensamento da minha amiga Chris, dei por mim na sessão das três e meia do Cinema Londres, ainda por cima no dia da estreia, algo que há seguramente anos não me acontecia.

Concretamente, o presente "Harry Potter e os Talismãs da Morte" é a primeira de duas partes do derradeiro capítulo desta saga (A segunda parte tem estreia prevista para o verão de 2011.).
Quando sabemos que se trata de uma série de filmes cujo inicial estreou em 2001, é inevitável pensar naqueles que o precedem, desde o longínquo "Harry Potter e a Pedra Filosofal" de Chris Columbus.
A falha que me parece mais evidente em todos os filmes prende-se com a autonomia dos filmes, ou seja, do seu valor enquanto objecto em si. J.K. Rowling criou um universo original cheio de especificidades, de pequenos e determinantes detalhes, que lhe conferem uma força espantosa. E os filmes, ao adaptar tal universo, correm o risco de não
serem capazes de avançar o "deslumbramento" pelos livros. Tem acontecido isso um pouco com todos os filmes, que atravessam uma aguda paixão pelo que mostram, mas não se assumem como entidades propriamente ditas.
O caso deste "Os Talismãs da Morte", no entanto, apresenta-se-nos diferente. David Yates, que realiza assim o seu terceiro filme para a saga Harry Potter consegue aqui realmente um filme, em vez de uma mera adaptação.
Trata-se de uma fase complicada do enredo, com situações-limite para feiticeiros e para muggles, uma vez que Lord Voldemort (Ralph Fiennes) se apoderou de Hogwar
ts e do Ministério da Magia, assistindo-se a uma selecção de raças de clara inspiração hitleriana e a resistência, liderada por Harry (Daniel Radcliffe), Hermione Granger (Emma Watson) e Ron Weasley (Rupert Grint) depara-se com toda a sorte de dificuldades quer relativas ao momento presente, de lutas, perseguições e complicados esquemas; quer relativas às descobertas sobre as histórias que construirão a sua batalha, nomeadamente as de Albus Dumbledore, falecido em "The Half-Blood Prince".



Um enredo desta natureza é sempre perigoso. E, sendo que todos os filmes de Harry Potter- incluindo este- são dotados de uma teatralidade quase excessiva, mais perigoso se torna. Perigoso porque facilmente o filme resultante poderia tornar-se inusitado e de carácter realmente falso. Se J.K. Rowling tem mestria de escrita suficiente para fazer com que os seus enredos alucinantes pareçam bem assentes na terra, a verdade é que ainda está por aparecer o filme em que tamanha naturalidade é atingida. Ora, se assim foi em momentos mais pacíficos desta história, mais o é nesta fase limite dela.
Mas a verdade é que David Yates consegue, além da já referida autonomia, uma considerável verosimilhança neste filme.
Cheio de planos interessantes e invulgares, fazendo uma exploração muito criativa das possibilidades abertas pela escritora e através de cenários que sabem converter essa estética do excesso para um estilo barroco, a verdade é que este filme tem pernas para andar.
E anda. Anda, ao ponto de, no final, ficarmos realmente expectantes quanto à continuação.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Luísa Dacosta: Morrer a Ocidente

NO TEMPO DA ÁGUA

"Cerrai-vos olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo
começam as saudades hoje"

é com esta citação da "Cantata Vesperal" de Cecília Meireles que abre o segundo livro de crónicas, publicado em 1990, de Luísa Dacosta. A citação é realmente apropriada pois, de certa maneira, sintetiza o espírito deste livro.


Relembremos que o primeiro livro de crónicas, editado dez anos antes, tinha por título "A-Ver-o-Mar", o nome da localidade, em Vila do Conde, sobre que estas crónicas se debruçam. "Morrer a Ocidente" (ed. Figueirinhas, 2a ed. Asa 2002), vem recuperar esse lugar e essas pessoas, mas num registo diferente.
Penso que seria pertinente referir a questão da tipologia destes textos para melhor definir a sua organização. Porque, se esquecermos a noção "estrita" de romance, não seria difícil vermos neste livro um. Para começar, há uma personagem que atravessa 30 destes 31 textos- que será a narradora, personagem que não interfere no desenrolar dos acontecimentos senão para ouvir e contar o que ouve, e que podemos deduzir tratar-se da própria Luísa Dacosta- bem como vários personagens que vão passando de crónica em crónica, e há ainda uma sinopse geral, ainda que cada texto seja uma entidade individual, autónoma.
É um facto que cada uma destas crónicas é auto-suficiente: se as lêssemos isoladas não perderiam o seu sentido. Mas é também facto que, na sequência, elas contribuem para a construção de uma ideia. Essa ideia é a de uma realidade a morrer. O título poderia apontar para isso: trata-se de uma referência ao pôr-do-sol- "E é quando o sol começa a sua lição, tentando ensinar-me a morrer a ocidente" (pag.18)- mas não deixa de ser uma morte. E neste livro há várias.
Na dedicatória que Luísa escreveu no meu exemplar de "Morrer a Ocidente", refere-se a este livro como "um morrer da praia e um morrer interior", e parece-me que esta será a definição mais sintética e adequada das mortes deste livro.
A citação de Cecília Meireles para outra coisa não aponta, senão para esse terminar, a que se seguem as saudades. De facto, se em "A-Ver-o-Mar" econtrávamos a descrição de um modo de vida especial, complexo nas suas estruturas social e laboral; este segundo livro recolhe crónicas em que vemos o lento desaparecer de muitos dos elementos que sustentavam essas estruturas. A leitura dos dois livros, em díptico, é, parece-me, não só um valioso testemunho literário, como poderia muito bem ser analisado como uma espécie de estudo sociológico.
Voltando, então, ás linhas-de-força descritas na dedicatória que acima citei, comecemos pelo morrer da praia. A praia, em Luísa Dacosta, tem duas frentes: a da introspecção que provoca e a da vida que nela se desenrola- constituida em grande parte pela pesca e pelo empaledar do sargaço. É esta vida da praia que vemos morrer neste livro.

"Ninguém quer ir, já se sabe, quem troca chão conhecido e luz do sol por cova e escuridão?!"
(pag.107)

"_Ai, o tempo do pilado, foi chão que deu uvas."
(pag.151)

vamos lendo. Há um sem-número de fragmentos que poderia citar para evidenciar esta ideia. O mar representa, para a comunidade piscatória, uma força perigosa e incerta, mas ao mesmo tempo necessária: necessária enquanto "local de trabalho". Mas ao passo que os mais velhos mantêm ainda os mesmos métodos, frequentemente nos demonstram que os mais novos se interessam cada vez menos pelos trabalhos do mar, preferindo uma vida mais segura e confortável. Seria interessante -mas é acima de tudo impossível para mim fazê-lo completamente- somatizar todas as "visões" possíveis do mar que colhemos nestes livros de Luísa Dacosta. Ele pode ser utilizado dos mais variados pontos de vista: pode definir diferenças entre gerações; mas também de sexo, uma vez que, mesmo sendo o mesmo mar, há nele os trabalhos dos homens e os das mulheres. E aqui, de novo, poderíamos retirar uma leitura sociológica, como, no fundo, acontece com toda a grande literatura: vale por si só, mas não perde validade quando a tentamos analisar de outros prismas.



O outro "morrer" deste livro é, então, o "morrer interior". A leitura dos livros de Luísa Dacosta vai-nos sempre denotando uma postura onde sempre há um travo de angústia. É essa a força que incita as passagens mais poéticas e belas ao longo de todos os livros, desde o longínqiuo "Província" (ed. Minerva, 1955, 2a ed. Figueirinhas, 1984) até aos diários publicados recentemente. Estas crónicas não abdicam da paleta que a angústia permite.
Este é, portanto, um lado mais pessoal e intimista da escrita de Luísa Dacosta, e também o lado em que esse personagem comum -a narradora- intervém de uma forma mais activa.
Como todos os livros, "Morrer a Ocidente" abre com um prefácio, momento de pungência extrema, mais semelhante a um poema em prosa do que propriamente a um conto ou uma crónica. Nestes fragmentos denotamos um certo sentimento de solidão, que se resolve pela contemplação: essa contemplação se é, inicialmente, uma espécie de "fuga", de "distração", cedo se transforma numa forma de encontro do eu, uma vez que, olhando para o exterior, e através da descrição das imagens, o eu se torna mais nítido.
Para tudo isto, contribui em muito a mestria no uso da palavra que foi sempre uma das principais características de Luísa Dacosta. Esse cuidado minucioso com a escolha das palavras, com a criação de ritmos, não só torna as crónicas bem mais densas e fortes, como introduz como que pausas no discurso que, mormente, se debruça sobre as pessoas de A-Ver-o-Mar.
E se, por um lado, esta situação resulta numa espécie de cisão entre a narradora e os narrados, por outro, cria também uma aproximação pois, observando o lento falecer do quotidiano de A-Ver-o-Mar, a narradora encontra esse falecer interior, pessoal.
Caso a referir àparte neste livro é a primeira crónica. Hesito um pouco se devo referir-me a ela como crónica ou como conto. Este texto havia sido editado nove anos antes, numa plaquette especial, com ilustrações originais de Jorge Pinheiro, com o título "Nos Jardins do Mar" (ed. Figueirinhas). Trata-se num conto que parte da imagem da sereia da Igreja de Rates, na Póvoa de Varzim. Significativamente, este texto abre o volume. Há nele algo de muito lírico, de fantástico, o que talvez nos remeta um pouco para a escrita para crianças de Luísa Dacosta. Mas mesmos esse texto termina com uma ideia de morte, uma morte que não é simples, mas que nos deixa uma interessante mensagem: a de que, mesmo depois da morte, há forma de perpetuar a vida, nomeadamente através da memória (Que pode, de certa forma, ser uma outra forma de olhar este livro.).
A fechar o volume, o tema da morte volta a ser central: a última crónica centra-se no Ritual da Passagem das Almas. Além de uma crónica belíssima, carregada de sentidos e de uma escrita densa, acaba por retomar a ideia de uma "vida depois da morte" não no sentido da reencarnação, mas num sentido bem mais complexo, que é, se quisermos, algo semelhante à ideia da morte da sereia no primeiro texto.
Obra em que a capacidade de observação e a capacidade de escrita estão perfeitamente fundidas, "Morrer a Ocidente" é, sem dúvida, um dos melhores livros de Luísa Dacosta. Ao longo da nota que agora termino, fui observando este trabalho da autora de vários pontos de vista, e penso que também isso corrobora a ideia de estarmos perante uma obra importantíssima, já que, seja qual fôr o nosso ponto de vista, é sempre capaz de nos responder, de nos levar a pensar e, talvez, a chegar a conclusões.

Canção Para o Dia de Hoje

Rodrigo Leão e Cinema Ensemble: Pasion (voz: Celina da Piedade)

Guevara III


Olho por onde tudo se habitua
aos vossos corpos infundados, secos
de esperma e devastadamente
insepultos no lastro das florestas.

Nos matagais, nos frutos maturados
sobre o nascente.
Neste repouso agora acostumado
aos pormenores do solo, aos bichos mornos
que noticiam a putrefacção.

Vou por onde morrestes. Vou por onde
vossos pés instigaram aos caminhos.
Vou pelos meses em que abandonastes
por sol muito ardido e muito denso
os vossos sítios de nascer e amar.
Tempo em que a este exílio vos voltastes.

Desunidos os mares, adormentadas as monções,
ouvidos os prenúncios das velhas sobre a ordem,
eis as colinas, o que demandáveis.
Sítios de barro. Fécula. Resíduos.
Fermentação. Torpor.

Aqui chegaram vossas palavras únicas, as vossas
alcantiladas noites de instrução.
Aqui, sobre os rochedos, sobre o casco
de árvores principais,
a vossa pele segregou a marca
quente e dulcificada do suor.

Reconheço o lugar. Vossos perfis
magramente envolvidos para o estrume
das plantas invernais.

....................................Vossas severas,
vossas meigas mãos.


Hélia Correia
in "Poemas a Guevara"
selecção de Egito Gonçalves
2a ed, Limiar, 1975
imagem: Che Guevara, depois de executado

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

2 Poemas Visuais de E.M. de Melo e Castro




Ostra Magnética e Vocações


caminhamos por entre batalhas
elucidados
somos do tamanho de tudo.

no cadeirão nocturno dorme o carneiro astracã
uma estrela de anis mergulha no seu copo.
desviado.

é à minha perseguição que me prendo
ao morangueiro fresco da minha boca
no cerimonial agora sem palavras
no exagero
céu doente de borbulhas como o corpo dos bebés vermelhos.

oculta canção da cama
cortejo na rua
cadela carmim bamboleante como cerejas nas árvores do frio.

falas através do triângulo dourado da barba (rafalas)
difamando prudentemente a existência despistamos as vocações.
diferença diferença
todo o desenho e dose das dunas.
ponho as mãos no fogo como os pastores do progresso.
dos frutos e da diferença.

Regina Guimarães
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Hélastre
desenho de Ângelo de Sousa

Mumiadormecer


Por detrás dos olhos
uma tapeçaria de sangue e ouro.
Repetem-se os motivos. Fechar os olhos e
morrer do efeito fácil e
do riso aos cachos.


Tudo o que caçavam no além se transformava em história. No bosque ambulante passamos pelos bichos desfigurados, chegamos aos pontapés na porta.
Sob as falanges temas das árvores, o suór da floresta agarra-se ao teu corpo e empurra-te para fora de mim.
Tudo o que tocavam transformavam em terra.
Mandamos no baile de bichos treinados e na grande puta que pariu a areia. O bosque conquista a zona de rebentação.


Morrer de amores
no marfim das torres
e ressonar beijos encharcados
e repicar o cristal finíssimo dos suspiros
e rugir para não se ouvir
e só se ouvirem
parasitas, gotas.
Morrer a catar piolhos dum pirata
os picos dos cactos.
Morrer pendurada de mim, gaiteira
como um mundo
fora de uso.

Regina Guimarães
Múmia
1991, ed. Hélastre
imagem de Raoul Hausmann