domingo, 15 de agosto de 2010

Delta Goodrem: Delta

CRESCE(U) E APARECE(U)

É já de 2007 o álbum "Delta" de miss Delta Goodrem, e foram vários os motivos que me levaram a nem procurar o download do álbum (Indisponível em Portugal.) e esse o motivo por que nunca disse nada sobre ele. Os dois motivos essenciais do meu desinteresse foram, em primeiro lugar, a desilusão do anterior, e em segundo lugar, um vídeo que vi no YouTube e que não prometia nada de bom para o álbum mais recente.
Relembremos que Delta Goodrem, cantora e pianista, iniciou a carreira musical em 2003 com "Innocent Eyes", que era um álbum de uma menina de 18 anos que demonstrava uma tremeda inclinação para a beleza, a sensibilidade, construindo uma pop que não era dançável, preferindo o lado intimista e orquestral, que acentava melhor com as suas tendências algo líricas. "Innocent Eyes" tinha o problema que muito se aponta a artistas tão novos, que é por vezes cair numa excessiva fragilidade, que mais não faz que expressar uma outra forma de angústia adolescente, que não deixa de o ser.
Tinha ainda 18 anos quando lhe foi diagnosticado um cancro, que a afastou dos palcos por algum tempo. A experiência da doença naturalmente verteu-se para a música, e em 2005 chegava "Mistaken Identity". Se por um lado se notavam atmosferas mais negras nas composições, o resultado estava longe de ser o melhor. O segundo álbum tinha mais de adolescente frágil do que propriamente o primeiro. Não era, de facto, um álbum a ser recordado.





O que "Delta", em 2007 veio mostrar era uma nova Delta Goodrem. A começar pela imagem, demasiado "stronger woman", citando Jewel.
É, por isso, um descanso, começar a ouvir o álbum. Sobre "Delta" disse-se que seria um álbum de música pop/dance, e "Bring Me Home" era prenúnico desse desastre. No entanto, a canção acabou por não integrar o alinhamento final, sendo arrumanda no cd-single de "In This Life"."
Na verdade, "Delta" não é um álbum de dança, é, aliás, um muito bom álbum pop, melhor do que "Innocent Eyes". Talvez "melhor" não seja a palavra indicada: mais maduro.
Ela bem diz em "Woman" o seguinte:

I´m not a girl who don´t know
What she wants
I´m a woman (...)
Cause being your woman
Is not enough

E é bem verdade.
"Believe Again" faz a abertura. O início faz-se com um belíssimo arranjo de cordas, e, quando a canção ganha ritmo, com bateria e baixo, quase se acredita que estamos perante a canção dançável. Não é o caso. É uma balada que, não sendo triste, não deixa de ser forte.
"In This Life", que foi single de avanço, prossegue dentro do mesmo estilo, e mostra-nos uma Delta Goodrem que já nada tem da menina que cantava "Born To Try". Ela é mesmo essa cantora mais forte, com uma personalidade mais vincada.
Mesmo quando parece recuperar alguma fórmula do passado, como em "You Will Only Break My Heart", que nos faz lembrar "Throw It Away", Delta mostra-se capaz de uma reinvenção total, anulando os seus próprios fantasmas.
E se referimos fantasmas, tenho que evidenciar o meu desagrado por baladas como "The Guardian": não se trata de um fantasma do passado de Delta, mas de uma desagradável incursão pela power ballad celebrizada por Celine Dion. De facto, a menina tem voz para acompanhar, mas o resultado é demasiado lamechas para resultar. Em "Woman", que poderia cair na mesma precabilidade, isso não acontece, estranhamente: Delta foge dos excessos e até se faz acompanhar por um pequeno coro no final que, por mais que se utilize, never gets old.



Felizmente, nem tudo é assim, e canções como "Bare Hands", "One Day" (Uma espécie de mistura de pop/rock com algo de folk.) e "Good Laughs" trazem-nos a absolutamente nova Delta. O caso da primeira canção mostra como ela sempre deixou transparecer essa tendência para a pop-pastilha-elástica, com aquela linhazinha de sintetizador muito característica, mas a verdade é que ela dá-lhe a volta com o gotejar do piano, e fá-la resultar.
Consegue muito bem oscilar entre canções mais alegres, como "In This Life" ou "Brave Face" com outras mais tristes, como "I Can´t Break It To My Heart", e, mais importante do que demonstrar-se capaz de ambas as matrizes, consegue equilibrá-las. E essa é uma das características mais interessantes em "Delta": é um álbum muito equilibrado, mesmo sendo heterógeneo. Corre mais riscos do que os primeiros dois, pensa mais "ao lado", mas é bem sucedido, e é isso que interessa.
"Angels In The Room", outra das grandes canções de "Delta" e de Delta, fecha o álbum fundindo o piano e a orquestra com uma estranha electróncia que não soa intrusa, mas muito apropriada.
Vocalmente, Delta decidiu, e não mal, fugir do estilo delicodoce que por vezes nos fazia torcer o nariz em "Innocent Eyes" e "Mistaken Identity". Mesmo quando se mostra delicada, consegue estranhamente ser forte na sua vulnerabilidade. "I Can´t Break It To My Heart" é exemplo disso mesmo.
As letras, não sendo de Shakespeare, não deixam de ser interessantes, com ideias mais polidas e líricas do que acontecia no passado. "Bare Hands" parece-me ser a melhor. "Woman", que resulta como uma espécie de grito feminista/independentista, funciona também como uma espécie de cartão de visita da ideia de crescimento que "Delta" traz.
Isolando algumas canções que me parecem as melhores, escolheria "Bare Hands", "One Day", "Angels In The Room" e "Believe Again".
A verdade é que não consigo ouvir Delta Goodrem como ouço outros músicos, nem a consigo ouvir como ouvia ao tempo de "Innocent Eyes", mas isso é pessoal. Tentanto ser imparcial, parece-me que "Delta" é um álbum de decisões acertadas, que resulta muito bem. E é, ainda entre nós, um álbum pop de rara qualidade.


"In This Life", ao vivo

O Mundo a Meus Pés (1993)

O vídeo original dirigido por José F. Pinheiro. Vêem-se as três partes da formação original, Ana Deus, Regina Guimarães e Paula Sousa.

Urban Legend (Mitos Urbanos), 1998

de Jamie Blancks. Com Alicia Witt, Rebecca Gayheart, Jared Leto, Tara Reid, Michael Josenthal e Joshua Jackson.

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma Citação

deixemos para cada um o seu provisório, para nós todos a vida eterna.

Maria Gabriela Llansol

Arte de Inventar os Personagens



Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente por os seus nomes
e os personagens aparecem


Mário Cesariny de Vasconcelos
Manual de Prestidigitação
1956, ed. Contraponto
retratoplastia de Carla Gonçalves


Poema



Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há – apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
secamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado. A luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.



Hélia Correia
publicado na revista Vértice
e incluído na antologia "Poesia 71" organizada por Egito Gonçalves e Fiama Hasse Pais Brandão, ed. Inova, 1971

fotografia de Robert Mapplethorpe

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Serial Killers para todos os gostos

Leatherface, de "Massacre no Texas"


Michael Myers, de "Halloween"

Jason Vorhees, de "Sexta Feira 13"

Fred Krueger, de "Pesadelo em Elm Street"

o assassino de "Mitos Urbanos"

Cartazes para Slasher Movies















You may only see it once... But that will be enough

Foi em 1980 que apareceu nos cinemas um filme chamado "Sexta-Feira 13", dirigido por Sean S. Cunningham e escrito por Victor Miller. E se diz o povo que "a ocasião faz o ladrão", hoje que é sexta-feira 13, por que não falar desse filme?
A premissa, que partia de um drama familiar, tornar-se-ia ao longo dos anos uma das mais extensas sagas do cinema de terror.
"Sexta-Feira 13" era o segundo filho de um género na altura undergound, o slasher movie, um estilo específico e especificamente sangrento do filme de terror. Já em 1978 John Carpenter, o absoluto mestre do horror nos tinha oferecido "Halloween", e em 1984 seria a vez de Wes Craven realizar "Pesadelo em Elm Street". São aqueles filmes que causavam delírio em quem, como eu, aos treze anos ia ao clube de vídeo com a melhor amiga, no tempo das cassetes de vídeo, e passava a tarde a dar saltos no sofá e a comer caramelos... Filmes como já não se faz.
Até à data, estes três filmes tornaram-se filmes de culto, e originários de várias sequelas (Sete para "Halloween", onze para "Sexta-Feira 13", oito para "Pesadelo em Elm Street".) e um remake para cada um (O de "Halloween" tem direito a sequela própria.).
O slasher movie caracteriza-se essencialmente por episódios sangrentos que normalmente envolvem assassinos em série. E se tanto "Halloween" como "Sexta-Feira 13" se moviam ainda no terreno do possível, do verosímil, seria o filme de Wes Craven que traria o fantasioso ao género, quando cria Fred Krueger, um defunto que assassinava pessoas quando elas sonhavam com ele, confundindo assim o real com o delírio, tocando ainda questões de memória colectiva/comunitária. As armas, por norma, são brancas: Michael Myers, o galã do filme de Carpenter, usa uma faca de cozinha, Mrs. Vorhees, a mãe destroçada de "Sexta-Feira 13" uma faca de mato, e Fred Krueger usava uma luva com garras de metal. Com tudo isto, é natural concluir que "vai haver sangue".
"Sexta-Feira 13" mostra-nos um campo de férias onde vários perceptores começam a ser assassinados. O assassino, que se revela ser uma assassina, é Mrs. Vorhees, a mãe de Jason Vorhees, um rapazinho que morrera nesse mesmo campo de férias, porque os perceptores estavam mais ocupados a fumar e fazer sexo do que propriamente a tomar conta das crianças. O resto são mortes de pungente violência, numa altura em que esta violência era ainda muito invulgar em cinema.
Outra característica que une estes três filmes é a questão da vingança: é ela que move os assassinos. Michael Myers, que é uma encarnação do mal, volta à cidade onde nasceu e de onde foi levado para um hospício depois de ter morto a irmã mais velha à facada; Mrs. Vorhees vinga o filho perdido e Fred Krueger, que em vida fora um infanticida, volta para atormentar os filhos da comunidade que lhe deitou fogo.
O problema destes filmes são as sequelas. "Halloween" teve ainda direito a duas sequelas decentes ("Halloween II" e "Halloween H20".) mas os outros dois são casos de filmes completamente destruídos pelas sequelas. Em "Sexta-Feira 13, Parte 2", Mrs. Vorhees dá lugar ao próprio filho, Jason, que volta dos mortos para, ano após ano, assassinar mais perceptores de campos de férias; Fred Krueger é levado de pesadelo bizarro em pesadelo bizarro ao ponto da exaustão e nem o regresso de Wes Craven a realizar "New Nightmare" o salvou do aborrecimento e da predicabilidade para que o levaram.
"Halloween" dá uma inesperada reviravolta quando, no segundo filme, que continua a noite do primeiro, o psiquiatra e a enfermeira de Michael, que incansavelmente o perseguem, descobrem que Laura (Interpretada por Jamie Lee Curtis.) é na realidade irmã de Michael. É a mesma Laura que encontramos em "Halloween H20", 20 anos mais tarde, a ser descoberta finalmente pelo assassino, para o confronto final.
Uma coisa é certa: os filmes originais são impagáveis. Não se trata apenas de terem sido pioneiros na violência explícita e cruel, sádica por vezes, mas precisamente por, ainda hoje, nos parecerem despidos desse facilitismo que caracteriza o terror actual. Permanecem como objectos puros, de culto como acima disse, estão nos antípodas do bom e do mau que se faz no cinema de horror.
E a prova disso é que haveriam de ser esses filmes a influenciar toda uma camada jovem de realizadores que acabaram por dar um tiro no próprio pé, pois a influência foi tão grande que se tornaram pouco inventivos, elevando os três filmes originais à categoria de fórmula, que foi repetida vezes e vezes sem conta, ao ponto de já não surpreender, não causar mais que um bocejo e a sensação de que já vimos isto em algum sítio. São filmes como "Sei o que Fizeste no Verão Passado", "Dia de S. Valentim", além de quase todas as sequelas desses três filmes, que quase nos fartaram do tema. Chegou-se ao cúmulo de cruzar, em 2009, Jason Vorhees e Fred Kruger num ridículo confronto sem razões, em "Freddy vs. Jason".
É precisamente ao "moderno" que devemos a quase-destruição dos filmes originais. Além das ideias peregrinas sobre a imortalidade dos assassinos, que a cada filme morrem definitivamente, até que chega o seguinte que nos mostra que "afinal não", e como se isso não fosse suficientemente penoso, vemos os nossos heróis/homicidas a viajar pelo espaço, pela internet, pelos estúdios de cinema.
De destacar é um filme, também susceptível de ser incluido nesta categoria. Trata-se de "Massacre no Texas", de 1974, de Tobe Hooper. Foi o filme mais "deixado em paz", pois a ele dedicaram-se apenas três sequelas que nada têm de assinaláveis, e o remake de Marcus Nispel, em 2003, que é surpreendentemente bem conseguido. Considerado por alguns como um filme menor do género, parece-me não ser nada desprezível, e até invulgar neste contexto, pois em vez de se movimentar no campo da vingança (Por isso o guardei para o fim.) move-se no terreno das perversões e das psicoses, que, nevertheless, resultam no mesmo "massacre" sangrento, levado a cabo pelo temível Leatherface.
Como único digno descendente do slasher movie nascido nos anos 70/80, destaco "Mitos Urbanos" de Jamie Blanks, que ameaça já tornar-se outro clássico, contando já duas sequelas, sendo que a primeira não é um completo desperdício da original ideia de trazer para o real a mitologia urbana, sempre dentro do conceito de vingança. Além deste, existe "Scream", realizado pelo veterano Wes Craven, que é simultaneamente um slasher movie e um ensaio sobre o mesmo, sobre as regras que movem o filme de terror. Da trilogia, parece-me ser relevante apenas o primeiro. O segundo e o terceiro capítulos revelam-se de uma estranha inépcia.
Hoje, são raras as excepções à vulgaridade que o cinema de terror atravessa. Alguns filmes, como "The Blair Witch Project" de Eduardo Sanchéz e Daniel Myrick, "Jeepers Creepers" de Victor Salva ou "A Nona Sessão" de Brad Anderson dão-nos conta de alguns jovens realizadores com boas ideias, o resto são os mestres de sempre, Craven, Carpenter e pouco mais. No entanto, é sempre bom ver estes filmes e perceber que o percurso do cinema de terror nem sempre foram "as ruas da amargura".

Sexta Feira 13 (É hoje...)

Trailer do filme original

A Mosca



Deus me disse: "Tens asas."
E os homens só disseram: "É um
........................... insecto."


António Rebordão Navarro
Os Animais Humildes
1956, ed. autor

Um Poema



POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE. CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.


Pedro Oom
Actuação Escrita
1980, ed. &etc
desenho de Ana Hatherly

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.






Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
imagem de Júlio Resende

Quando Capitalismo e Livros se Juntam

A meia-dúzia de pessoas que vai lendo este blog, imagino eu, deve interessar-se por livros. Se assim é, e principalmente se tiverem uma idade que ronde a minha, já devem ter experienciado qualquer coisa como o que se passou comigo esta noite: de passagem por uma livraria de Viana do Castelo, fui perguntar se tinham um livro que quero ler- "Infância e Palavra" de Luísa Dacosta- e, quando me disseram que não tinham, pedi que verificassem se existia nos armazéns da livraria, que faz parte de uma grande cadeia (Ok, ok, era a Bertrand.), ao que me responderam que não, não senhor.


Já mais tarde, lembrei-me que se trata de um dos volumes da colecção Pequeno Formato, que a Asa publicava antes de ser vendida à Leya. Não terá sido há muito tempo que li vagamente um artigo, penso que de António Guerreiro, em que se referia o destino dos livros que existiam antes da venda (Que não é da alma ao diabo, mas quase.). Bom, aparentemente, grande parte dos livros desta colecção foram guilhotinados pela gigante multi-editora.

Concluí sem estranheza que provavelmente os que não foram guilhotinados foram os que já se encontravam esgotados- caso das maravilhosas "Canções do Rio Profundo", de Yvette K. Centeno.

Se esta medida tem por si só o evidente peso de nojo e de anti-cultura que não preciso de especificar, ele torna-se mais grave ainda quando pensamos que, a todo o momento, a obra de um autor está a ser descoberta por novos leitores. É o meu caso, que só há alguns meses me cruzei com a obra de Luísa Dacosta, que me seduziu especialmente, e que gostaria de poder reunir na minha estante.

Face a isto, e à ideia em vias de extinção de que fazer um livro é ainda produzir cultura, não compreendo realmente como alguém no seu perfeito juízo manda guilhotinar milhares de livros de autores como António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Maria Velho da Costa, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Jorge de Sena, Mário Cláudio, José Viale Moutinho, Manuel António Pina, Albano Martins, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, Inês Lourenço entre muitos outros. E isto sem falar das colaborações na parte gráfica, que contam com hors-texte de artistas como Júlio Resende, Jacinta Andrade, Jorge Pinheiro, José Cutileiro, Armando Alves, Lídia Vieira, Arpad Szenes, Mário Botas, José Rodrigues, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Cruz, entre muitíssimos outros, sem contar com a sempre preciosa mestria gráfica de Armando Alves, a quem devemos o formato e a apresentação dos livrinhos.
O que a Leya não parece perceber é que desperdiça completamente o trabalho de José da Cruz Santos que, méritos e deméritos àparte, dirigiu primorosamente a colecção, como também os textos e desenhos de todos esses colaboradores, que por mais que não esgotem necessariamente edições, não deixam de ser nomes que estão na História da Literatura portuguesa. É uma das mais insultuosas maneiras de faltar ao respeito a todos: os leitores, ao director da colecção, ao director gráfico, aos autores e aos artistas.
Se estas obras foram sobrando nos armazéns da editora, não quer dizer que por aí ficassem para sempre, porque, como acima afirmei, as obras dos autores estão sendo contínuamente descobertas; não acredito que eu tenha sido o único leitor português que nos passados meses se cruzou com um dos autores que existem nesta colecção.
E se era muito caro para a editora reservar espaço para os livros, por que guilhotiná-los é a única solução? Podiam muito bem ser distribuidos pelas livrarias a um preço baixo (Lembro que cada um custa cerca de 12 euros, o que pode ser muito para um livro de "pequeno formato".), ou até fazer uma feira e vendê-los nem que fosse a 50 cêntimos, porque sempre dava mais lucro do que pura e simplesmente destruí-los.
É por estas e por outras que não consigo acreditar que o uma postura capitalista possa rimar com fazer livros, porque inevitavelmente alguma coisa se perde no caminho. Relembre-se que em Portugal, fazer livros, ou livros com a qualidade dos desta colecção, não é realmente um negócio de grandes lucros, e quando uma mega-editora compra uma pequena editora, deveria estar ciente disso.
O que se passou sempre em Portugal com o mercado do livro nunca deu boas notícias. O pior é quando no meio das más surgem estas que são muito muito más, como é o caso.
Restam aquelas pequenas livrarias onde as editoras nem se lembram de levantar o stock, pode ser que lá encontre o livrinho que procuro...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Uma Citação

Sou capaz de fechar os olhos e lembrar-me de tudo. De muita coisa que nunca repetirei. Que ao meu pai já lhe mandei uma boca. Mandei uma boca aos dois, ao meu pai e à minha mãe.

Uns pais arranjam a vidinha de uma maneira, outros arranjam-na doutra. Pensando bem, parece que aceito melhor os que se estão marimbando, os menos obcecados. Serão egoístas, chamem-lhes o que quiserem. Para mim têm uma qualidade: deixam-nos experimentar uma porção de coisas, deixam-nos saber o que é estar a rebentar de desespero e de solidão. Não acha que isto é muito importante?
Olga Gonçalves

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Canção Para o Dia de Hoje

Ana Moura- O Que Foi Que Aconteceu?

Uma Citação

de mim sobra sempre a maior parte

Maria Isabel Barreno

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Jonatha Brooke: What You Don´t Know ("Dollhouse" Main Song)

A canção de abertura dos episódios das suas séries, aqui com cenas da mesma.

Projecto de Sucessão



Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.






António Maria Lisboa
Poesia
1995, ed. Assírio e Alvim
desenho de Artur do Cruzeiro Seixas

Morte



Não encontrei – e não há solidão maior! – com quem chorar
A morte de um amigo que se não
Despediu.
Fica tu, sejas tu quem fores,
fora dela.
Não lha mereces.
Sereno, o sofrimento já não dói.
É apenas uma tristeza
bonita.
Precisei-vos tanto, tanto!
A vossa presença
teria tornado mais leve a minha mágoa: mas a vida
que anda para trás e para diante
não parou.
Ninguém, nenhum de vós
veio trazer-me o consolo de uma lágrima.
Ainda bem.
Ter-vos-ia dito: se me virem na sarjeta, pisem-me em cima;
se me querem
bem,
não se condoam.
Por agora, nem sequer preciso de um colchão
para descansar como fazem os vivos – dormirei dentro
de um contentor
e aí chorarei sozinha
o meu amigo.
O meu amigo.
Ele é hoje uma semente
na terra.
Esta
sentirá a fome de suas mãos
quando um camponês
semear nela


uma batata grelada: e, então, quando a minha apertar,
mastigarei palavras limpas: honestas
como o eram
as suas.
O meu lugar à mesa onde ele me servia o vinho
à refeição
e ouvia os desconcertos
está desolado; por isso te peço,
vazio a quem nunca menti, deixa-me albergar
no teu nada – morar
dentro de ti.






Eduarda Chiote
O Meu Lugar À Mesa
2006, ed. Quasi
pintura de Francis Bacon

Um Poema



Quando em noites de insónia acontece pensar naquilo que éramos e nos vem à memória uma ou outra imagem feliz, subitamente ficamos conscientes da vertigem do tempo. Nessas noites entro em mim própria e procuro saber qual a razão que me fez tomar certa atitude, o que me leva a escrever e ficar dependente das palavras. Penso no poema onde a sobrevivência pela escrita é possível. Escrever é como estar vivo; existe o apelo abísmico e a luz do sol.




Isabel de Sá
Escrevo Para Desistir
1988, ed. &etc
desenho de Ângelo de Sousa

domingo, 8 de agosto de 2010

O Melhor da Poesia Portuguesa

está afinal na letra destas canções. Quem não a conhecia, tem aqui uma boa oportunidade de se inteirar do que de melhor se escreve nos tempos que correm. Foi pena não ir a tempo da antologia que Jorge Reis-Sá e Rui Lage organizaram para a Porto Editora... Mas quando se fizer segunda edição, pode sempre aumentar-se a selecção, e estou certo de que o autor destas canções será o primeiro da lista. Ora ouçam com atenção:


Cacetete (Mulher Polícia)

A Tal Viúva

sábado, 7 de agosto de 2010

Jewel: Sweet and Wild

STRONGER WOMAN



Há uns tempos, havia uma publicidade de uma marca de desporto cujo nome me escapa, mas que tinha este interessante slogan: "Onde começas não é necessariamente onde acabas".
Esta frase ocorreu-me ao ouvir "Sweet and Wild", o mais recente álbum de Jewel, lançado ainda este ano. Recordemos que Jewel, cantora, guitarrista e compositora, se estreou em 1994 com um álbum definitivamente original, "Pieces Of You". Era um álbum gravado só com voz e guitarra acústica, salvo algumas excepções como "Who Will Save Your Soul", "Foolish Games" ou "You Were Meant For Me", as canções que acabaram por ficar na memória de quem ouviu o álbum. Em 1998, "Spirit", produzido por Patrick Leonard, acrescentava outro tipo de instrumentos e outra sonoridade, mais complexa, e neste álbum encontramos "Hands", "Down So Long", "Jupiter (Swallow The Moon)" e "Life Uncommon", canções que imediatamente se acrescentaram à colecção de essenciais de Jewel. Em 2001 chegaria aquele que me parece o pico mais alto da discografia de Jewel, "This Way" decidia-se por uma sonoridade mais rock, e explorava a voz da cantora (Bastante potente, por sinal.) em registos completamente diferentes. "Standing Still", "Serve The Ego", "Till We Run Out Of Road" ou "Jesus Loves You" falam por si.





As coisas começaram a mudar de figura quando em 2003 Jewel, produzida por Lester Mendez (Que já produzira Shakira, J.Lo, etc.), lança "0304", que seguira o sucesso de "Serve The Ego", onde a orientação rock encontrava um lado dançável. Mas "0304" ia muito mais longe, era todo um álbum para dançar, virado para uma pop muito semelhante à de Christina Aguilera.
Em 2006, Jewel retornou felizmente à sua sonoridade soft-rock, e se o álbum não vinha acrescentar nada em especial aos primeiros três álbuns (No meu entender os melhores.), pelo menos sempre mostrava que Jewel voltara ao seu perfeito juízo.
"Perfeclty Clear", de 2008, vem já iniciar um novo percurso na música de Jewel, que abandonava um pouco o rock e enveredava pelo estilo country. Mas havia neste álbum algo que parecia ainda muito e perigosamente semelhante ao anterior, era excessivamente delicodoce, e, de certa forma, demasiado previsível. Salvava-se "I Do", afinal.

Apesar do título do novo álbum apontar para essa atmosfera demasiado doce, a verdade é que não é bem isso que se passa. Não posso dizer que este lado, o lado country, de Jewel seja aquele que mais me agrada, mas uma coisa é facto: este álbum não é uma mera repetição do passado. É aqui que Jewel se revela uma "stronger woman" (Ainda que fosse no álbum anterior que estivesse esta canção.), produzindo a totalidade das canções, assumindo assim o controlo total sobre todo o material.
"Sweet and Wild" abre com "No Good In Goodbye", que mostra logo um outro tipo de ritmo e um outro tipo de som, muito marcado pelo banjo e pelo violino, duas claras marcas country. "I Love You Forever" perde um pouco dessa energia, mas logo "Fading" e "What You Are" recuperam-na. A primeira surge na tradição das melhores baladas jewelianas, desde "Foolish Games" a "Deep Water" e "I Won´t Walk Away", assim como "What You Are" que, na pior das hipóteses, peca um pouco por uma talvez excessiva fragilidade, que, de qualquer forma, tem vindo a ser uma faceta constante da música de Jewel.
"Bad as It Gets" volta um pouco ao som mais expedito de "No Good in Goodbye", e, ainda que seja a única canção que não é composta por Jewel, acaba por se coadunar muito bem no conjunto das restantes. "Summer Home In Your Arms", que não é uma canção particularmente boa, tem ainda o condão de recordar um pouco todas as fragilidades musicais do álbum anterior.
"Stay Here Forever", que se segue, parece-me ser a melhor canção. Apesar da vulgaridade da mensagem romântica, a composição segue um esquema interessante, e é a canção que mais personaliza o estilo country, ao passo que, noutras canções, como a anterior, pode parecer que Jewel se limita a fazer aquilo que já foi feito.
"No More Heartaches" repete também essa particularidade da personalização do estilo, porque, apesar do som realmente novo, "No More Heartaches" segue aquela linha que já vinha um pouco de "This Way", dos lamentos que não parecem lamentos por conteram algo de extremamente luminoso: lembre-se "Till We Run Out Of Road" ou "This Way".
"One True Thing" é outra das boas canções de "Sweet and Wild", e também a que melhor explora a capacidade vocal de Jewel. Serve bem para aqueles ouvintes que a conhecem e sabem que há sempre uma música onde somos obrigados a admitir que o aparelho vocal de Jewel é realmente impressionantes. Neste álbum é "One True Thing". Quase o mesmo acontece com "Ten", que, apesar de tudo, é uma canção muito bem conseguida a nível de ritmo, e também uma canção bastante moderna: de alguma forma, parece estar muito de acordo com algumas das melhores canções pop surgidas nos últimos tempos, o que é estranho porque, por norma, a música que está na moda passa sempre ao lado de Jewel, o que, até agora, só a tem favorecido. Destaque-se nesta canção ainda o solo de banjo.
"Satisfied" fecha o álbum, e fecha muito bem: é a única canção com arranjos de cordas, onde se ouve ainda um piano (Invulgar na música de Jewel.), e, apesar do fantasmagórico tom delicodoce, a verdade é que nesta canção ele não cai completamente mal. E se estamos a falar do que está mal, nem se fala da capa, que não só a pior capa de Jewel como uma das piores que já vi em toda a vida.
Um aspecto muito negativo que realmente me surpreendeu foi a extrema predicabilidade das letras deste álbum: algumas conseguem ser piores do que as de "Perfectly Clear". Aliás, neste álbum, ser-me-ia muitíssimo difícil destacar a letra de determinada canção como "a menos má". Bem sei que para muitas pessoas a letra de uma canção não tem interesse, mas a verdade é que esse nunca pareceu ser o caso de Jewel que, recordemos, lançou em 1998 o livro de poemas "A Night Without Armour". Quem diria que doze anos depois, ela estaria a escrever versos como estes?
São, acima de tudo, boas canções de country-rock, próximas mais de uma Sheryl Crow do que das Dixie Chics, entenda-se; algumas melhores que outras, mas, no geral, todas elas, com nítida impressão digital de Jewel. E quem como eu a ouve desde o início, sabe que os álbuns dela sempre foram feitos de canções boas e de outras completamente dispensáveis, tradição que "Sweet and Wild" mantém: retenham-se "Fading", "What You Are", "Stay Here Forever" e "No More Heataches" ou "Satisfied".
Se "Sweet and Wild" pode ou não competir com os grandes álbuns de Jewel não sei. Este é um álbum diferente, distante da Jewel que conhecemos nesses primeiros três albuns. Haverá quem prefira a primeira, e quem prefira a segunda. É sempre discutível qual é a melhor, mas a boa notícia é que, afinal, Jewel é só uma, mas vale por duas.



"Stay Here Forever", da banda sonora da "Valentine´s Day".

O Poema Ensina a Cair


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

O Seu a Seu Tempo

1966, ed. Ulisseia
pintura de Victor Brauner

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Paula Morão sobre Luísa Dacosta

Paula Morão, que considero uma ensaista de grande inteligência e especial sensibilidade escreveu, a propósito de "Morrer A Ocidente" um texto, do qual transcrevo um excerto, acerca da escrita de Luísa Dacosta, com o qual concordo inteiramente:


A hiperconsciência que aqui se lê, desmontando ela mesma o mito de que se alimenta, conduz a um final elegíaco, sob o signo da despedida (como, aliás, acontecia no livro ["A-Ver-O-Mar] de 1980). Depois da confirmação do nome A-Ver-O-Mar, que "dura há séculos e continuará depois de mim. Sem mim" (p.125), encontra-se a despedida, retomando primeiro à descrição simbólica da casa-corpo, "ovo e berço" agora, "concha vazia" como há-de ficar um dia, e estendendo-se depois à luz sobre o mar, operando a fusão entre o "eu" e a paisagem marítima ("sou a gaivota [...] sou a pedra, p.218). O fim do livro coincide com o descrever da encomendação das almas tal como se pratica na região de A-Ver-O-Mar, ritual de lembrança e do entrelaçar da vida e da morte: "Ali as práticas dos vivos sobrepunham-se à encomendação das almas. Ali a vida triunfava da morte" (p.221). Assim se unem duas metades, mundo e escrita dele, através da palavra mágica [...]
Lendo este livro apuradíssimo, secreto e intenso, penso em António Nobre, em Raul Brandão, em Irene Lisboa: como (me) acontece com as deles, a escrita de Luísa Dacosta fica ecoando, no espaço mais íntimo dos dias.

Um Poema



Esse rosto na sombra, esse olhar na memória,
o tempo do silêncio, os braços da esperança,
uma rosa indefesa - e esse vento inimigo.

Ficou somente a luz do constante deserto,
e o sobrenatural reino obscuro do vento,
com seu povo indistinto a carpir noutro idioma.

Ideias de saudade em tal paisagem morrem.
Que arroio pode haver, de contínuos espelhos,
a repetir o que é deixado? Por devota,

solidária ternura e aceitação da angústia?
- Ah, deixarei meu nome entre as antigas mortes.
Só nessas mortes pode estar meu nome escrito.

Nome: pequena lágrima atenta.



Cecília Meireles
Solombra
1963
pintura de Álvaro Lapa

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Litoral I


Cair da tarde, quanta dor encerra!
A sombra desce, não se sabe de onde,
Como alcateia tímida que ronde,
Cobrindo os montes, envolvendo a serra.

Corre, ondulando, pelos vales... E erra,
Nódoa no mar, ou nuvem que na fronde
Das gigantescas árvores se esconde
E gota a gota escorre para a terra.

Cair da tarde... Em que lugar eu fosse?
Em que terra estivesse? A mesma doce
E amarga chama verde que em mim arde!

Perto de ti... Perdido na distância...
O mesmo encanto unido à mesma ânsia...
Vida... Amor... Ilusão... Cair da tarde!

João Cabral do Nascimento
Litoral
1932, ed. autor
Cancioneiro
1963, ed. Portugália
2a ed. Inova, 1976
pintura de Mark Rothko

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Michelle Branch: Broken Bracelet

BARBITÚRICO

Penso que há um prazer um tanto sádico em ouvir um álbum renegado pelo seu autor. Até há bem pouco tempo, eu desconhecia completamente a existência de "Broken Bracelet", o EP que em 2000 estreou Michelle Branch. Para todos os efeitos, a cantora/guitarrista/compositora considera "The Spirit Room" de 2001 o seu álbum de estreia.
Só há uns dias, ao escrever o comentário sobre "Everything Comes and Goes" me lembrei de procurar o download do EP de 2000.



É de realçar que Michelle não só desconsiderou esse EP como retirou do mercado todos os exemplares que dele restavam, armazenando-os num estúdio em Nashville. Em Maio deste ano, as cheias nessa cidade inundaram o armazém e todos os exemplares foram definitivamente destruídos.
Interessa começar por realçar que a decisão de retirar "Broken Bracelet" do mercado foi a mais acertada.
O título do álbum vem de uma curiosa história: Steve Poltz, músico, ofereceu a Michelle uma pulseira feita pela própria Jewel, uma clara referência para M. Branch, dizendo-lhe que quando a pulseira rebentasse, Michelle seria uma cantora.
O EP, produzido pela própria, foi gravado em 1998, com canções compostas entre os 14 e os 15 anos.
Olhando para o alinhamento, vemos que quatro destas nove canções foram gravadas de novo para "The Spirit Room". É importante comparar as duas versões, porque ficamos a perceber uma coisa: pode parecer que aos 14/15 anos não é possível escrever boas canções, e de facto, em "Broken Bracelet" é difícil encontrar uma canção que realmente nos satisfaça. Mas ouvindo as versões de 2001 de "If Only She Knew", "I´d Reather Be In Love", "Sweet Misery" e "Goodbye to You", percebemos que de facto é possível em idade tão tenra escrever boas canções, a questão é o amadurecimento que a gravação deve conter. E é isso que falta a "Broken Bracelet": maturidade. As boas composições já estão lá, mas ficam completamente penalizadas pela imaturidade com que são gravadas. Aliás, comparando essas quatro canções com as suas versões posteriores, parece que nestas Michelle canta depois de ter ingerido uma grande quantidade de barbitúricos. Falta a este EP alguma garra, alguma energia.


A maioria das canções são cantadas com uma excessiva delicadeza, que não deixa de parecer um sinal de amadorismo.
Salva-se um pouco "Sweet Misery" que não soa totalmente mal nesta versão só com voz e guitarra acústica.
De resto, "If Only She Knew" parece um mero lamento adolescente, "I´d Reather Be In Love" deita por terra uma excelente melodia e uma excelente letra em detrimento de uma forma de cantar demsiado afectada. "Washing Machine" é aquele tipo de canção em que não consiguimos distinguir o que é que nos soa mal, mas o facto é que alguma coisa soa mal; "I´ll Always Be Right There" chega a ser penosa, porque não só é uma canção muito aquém do estilo de Michelle Branch como ainda faz um tremendo esforço por evidenciar o que já todos percebemos: que não é a voz que falha a esta cantora.
A "Goodbye to You" parece mesmo faltar alguma coisa, a linha de bateria, sintética, enfatiza a falta de um ritmo mais definido e "Second Chances" é a balada típica de qualquer menina a querer muito ser cantora.
Do conjunto, "Stewart´s Coat" e "Sweet Misery" são as que não parecendo propriamente boas pelo menos parecem menos más. A segunda foi reaproveitada para o álbum de 2001.
"Broken Bracelet" é mesmo o álbum de uma rapariga que tem o potencial mas não tem a maturidade. Não se pode dizer que seja uma leiga. Nota-se um bom conhecimento da música de Sheryl Crow ou de Jewel ou de Alanis Morissette, um conhecimento que passa por compreender certas técnicas vocais e formas de composição. Mas no geral "Broken Bracelet" não soa a mais do que um eco a que falta consistência.
Por essas e outras coisas é que realmente Michelle acabou por excluir este EP da sua discografia. E a verdade é que, ouvindo "Broken Bracelet" esquecendo os dois álbuns que se lhe seguiram, ninguém diria que esta rapariga ainda ia escrever canções como "Drop In The Ocean" ou "Find Your Way Back"...



Sweet Misery, na versão de 2000

Saved From Myself



How often i've cried out
in silent tongue
to be saved
from myself

in the middle of the night
too afraid
to move

horrified the answer
may be beyond the
capability of my
own two hands
so small



(no one should feel this alone)





Jewel
A Night Without Armour
ed. Harper Paperbacks, 1998
desenho de Francisco Goya

domingo, 1 de agosto de 2010

Norah Jones: The Fall

ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO

Se em 2002 muitos supostos engraçadinhos lhe chamavam Snorah Jones, ao quatro disco, Norah definitivamente não snorah. Nem perto disso.
"Come Away With Me" é um álbum irrepetível. Contém canções que certamente estarão entre as melhores da década que agora termina, canções como "I´ve Got To See You Again", "Seven Years", "Don´t Know Why" ou "Lonestar", que fizeram de Norah Jones uma verdadeira e estrondosa revelação, ela que era afinal cantora de uma música tão serena. Além da música em si, "Come Away With Me" representou também um verdadeiro fenómeno a nível do reconhecimento, em particular com a aquisição de oito Grammies ("Limpando" assim as mais importantes categorias: Melhor Álbum do Ano, Melhor Artista Feminina, Melhor Canção para "Don´t Know Why", Melhor Disco, Melhor Álbum Pop, Melhor Artista Revelação, além dos prémios de produção.) juntando-se assim a "The Miseducation of Lauryn Hill" e a "Songs in A Minor" de Alicia Keys.
"Feels Like Home", lançado em 2004, quando o boom do primeiro álbum ainda estava recente, no entanto, pareceu-me um disco mal sucedido neste aspecto: ele não representava nenhuma especial evolução desde o primeiro, preferindo jogar pelo seguro, mantendo-se demasiado na sombra de "Come Away With Me".
Em 2007 foi a vez de "Not Too Late". O título era significativo: de facto, não era tarde para recuperar o tempo perdido, ou a evolução pedida. "Not Too Late" continha já algumas canções a merecerem referência, afastando-se da matriz do primeiro álbum para um registo mais pop e menos jazz-infused. Neste álbum surgiam com já alguma importância linhas de electricidade, e arranjos mais elaborados. No meio de tudo isto, uma canção a ser lembrada: "Thinking About You".



O lançamento do álbum de 2009, este "The Fall" vem finalmente esclarecer-nos: Norah mudou mesmo de trajecto. Uma coisa me parece evidente: "Not Too Late" e "The Fall" formam uma espécie de díptico: onde o primeiro avança cautelosamente, o segundo arrisca-se totalmente. E é bem sucedido.
"The Fall" abre com "Chasing Pirates", uma canção que, em termos de letra, poderá fazer lembrar um tanto o alheamento infantil que Norah já mostrava no seu segundo álbum. Esta é uma das canções mais significativas do novo álbum, porque resume um pouco aquilo em que consistirá o novo álbum: são as linhas de piano eléctrico que já encontrávamos em "Not Too Late" e que nos remetem para uma espécie de smooth-jazz-pop, mas agora acrescidas de baterias com ritmos muito marcados e de vocalizações expeditas e enérgicas, definitivamente diferentes daquilo que estamos habituados a ouvir em Norah Jones.
Há também um reparo que, a meu ver, sempre fez sentido, mas que com o novo álbum se torna realmente óbvio: é que, apesar dos Grammies na categoria pop, Norah Jones nunca foi uma cantora pop, e muito menos em "Come Away With Me". Em "The Fall", ela também não é exactamente pop, mas encontra-se bastante mais próxima do que em qualquer outro momento da sua discografia. Quando digo pop não me refiro a um universo de Britneys ou Lady Gagas, refiro-me a uma pop na tradição de Kate Bush, Allison Moyet ou Sarah McLachlan: dessa pop, que hoje é mais alternativa, é que podemos aproximar Norah Jones. "Even Though", que se segue, está ainda dentro do mesmo registo, e é também uma das melhores canções do álbum. "Light as a Feather" no entanto é que vem introduzir mais um elemento a este álbum: a capacidade que Norah tem de repescar a melancolia que se notava nalgumas das suas grandes canções, e o seu tom sussurrante e usá-los mesmo numa composição que se afasta dessas. Por assim dizer, Norah vai procurar naquilo que já fez e volta a fazer de uma maneira muito diferente, pondo de certa forma à prova o seu estilo, testando-lhe a resistência à mudança. Está visto que consegue. "Light As a Feather" parece-me ser uma das melhores canções de "The Fall".
"Young Blood", que será outra das melhores canções deste disco, é a derradeira confirmação daquilo que as primeiras canções já afirmam: que a música de Norah está perfeitamente equilibrada, porque o que perdeu em calma ganhou em energia, e a cantora é perfeitamente capaz de acompanhar.


A melhor canção, mesmo assim, parece-me ser "It´s Gonna Be" com o seu piano eléctrico e a beat piscando o olho a uma excelente composição rock, com uma letra muito política. É, de todos, o momento mais invulgar e inesperado de "The Fall".
Se há alguma canção que relembre particularmente o passado, será "You´ve Ruined Me". E mesmo assim, se formos fazer uma ponte ela irá, no máximo, até "Feels Like Home", não chegando à calmia de "Come Away With Me".
De assinalar são também canções como "Stuck", "I Wouldn´t Need You" (Uma das melhores letras do álbum.), "Back To Mannhatan", o interessante arranjo de piano de "Waiting"
Será talvez de realçar o facto de neste álbum, tal como no anterior, Norah ser autora ou co-autora de todas as canções (Ao passo que nos primeiros dois álbuns escrevia muito poucas canções.), não dispensando no entanto o contributo de músicos como Jesse Harris ou Lee Alexander, que a acompanham desde o início.
Acima de tudo, "The Fall" é uma tentativa de criar "outside the box". E se Norah Jones arrisca largamente, é também largamente que consegue um bom resultado. Por essa razão me parece que "The Fall" não deixa de ser o mais digno sucessor de "Come Away With Me", pelo menos no que toca à música. A edição de coleccionador será de aproveitar, pois contém nada menos que seis canções ao vivo.



It´s Gonna Be

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Estou Vivo e Escrevo Sol



Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde






António Ramos Rosa
Estou Vivo e Escrevo Sol
1966, ed. Ulisseia
imagem de Salvador Dalí

Michelle Branch: Everything Comes and Goes

VIAGEM NO TEMPO
Michelle Branch tem uma coisa que ninguém lhe tira: tem um punhado de muito boas canções. Destaquem-se do primeiro álbum, "The Spirit Room" (2001), algumas como "I´d Reather Be In Love", "All You Wanted", " Here With Me" e "Drop In The Ocean" (Esta será provavelmente a melhor, até agora.), e do segundo, "Hotel Paper" (2003), outras como "Find Your Way Back", "Empty Handed", "Breathe" ou "Till I Get Over You".

Após um silêncio de sete anos, Michelle Branch regressa aos discos com um EP de seis canções, "Everything Comes and Goes". E aquilo que parece mais evidente ao ouvi-lo é que efectivamente, alguma coisa partiu e alguma coisa voltou.
Relembre-se que Michelle Branch tinha dezoito anos quando lançou "The Spirit Room" (Que considera o seu primeiro álbum, tendo excluído o EP "Broken Bracelet" de 2000.) e vinte e um quando lançou "Hotel Paper". E o que se pode dizer é que um e outro eram álbuns maduros para a idade da sua autora/cantora, tinham algo de supreendentemente expedito.



Aos vinte e sete anos Michelle lança este EP e, de repente, parece não conseguir ultrapassar "Hotel Paper". Será esse o grande problema de "Everything Comes and Goes": desapareceu a pontaria que os primeiros dois álbuns representavam, e parece ter regressado um pouco da angústia adolescente, mais a de "Hotel Paper" que se manifestava de uma forma mais "agressiva" do que a de "The Spirit Room" que era mais suave.
No caso específico de Michelle Branch, o retorno do passado não a favorece.
Em "I Want Tears" ouvimo-la cantar "Nothing´s wrong but nothing´s right", e essa frase pode perfeitamente adequar-se ao novo álbum. Dentro do estilo rock-country de que Sheryl Crow será ainda a maior referência, este álbum não tem nada de errado, mas quando o comparamos com os álbuns passados, percebemos que pouco mudou.
Não quer isso dizer que não haja aqui boas canções. O EP abre com "Ready To Let You Go", que parece ser uma boa abertura, porque nela se nota algo de diferente, mas infelizmente, ao seguir para "Sooner Or Later" essa "novidade" é deitada por terra. "I Want Tears" recupera um pouco a sonoridade polida do segundo álbum, mas não consegue ultrapassá-lo, excepto talvez ao nível da letra- esta canção terá uma das melhores letras de Michelle Branch. "Crazy Ride" e "Summertime" pecam pelo seu som demasiado delicodoce, que se por um lado os torna algo radio-friendly, por outro resulta demasiado óbvio, não há aqui qualquer tipo de surpresa. Por fim, "Everything Comes and Goes" tem a particularidade de ser uma boa canção para fechar o álbum, nela se nota um tanto da melancolia que conhecíamos de canções passadas.
Estranhamente, "This Way", que foi o single de avanço do EP não foi incluído no alinhamento final. A meu ver, essa escolha foi pouco acertada: "This Way" era uma canção promissora, nela sim, notava-se algo de novo, de mais melódico e mais polido do que a maioria das canções que foram incluídas.
Como disse acima, há algumas boas canções neste EP, que seriam "Ready To Let You Go" e "I Want Tears": a questão é que mesmo sendo boas, não parecem representar nada de especial em comparação com as canções que referi no início.
Esperemos que o próximo LP, "A Different Kind Of Country", anunciado para este ano também, seja largamente diferente do seu antecessor.






This Way

You Are Welcome to Elsinore



Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar






Mário Cesariny de Vasconcelos
Pena Capital
1957, ed. Contraponto
pintura do autor

Lou Rhodes: One Good Thing

VÁRIAS COISAS (MUITO) BOAS

Em 2004, os Lamb lançavam "Best Kept Secrets (1996-2002)", uma colectânea que reunia algumas das canções mais marcantes dos quatro álbuns da banda. Dois anos depois, Lou Rhodes apresenta-se em nome próprio com "Beloved One".
A primeira sensação natural seria a estranheza. O que nos Lamb era complexidade e quase excesso, dava lugar a uma simplicidade intimista nas canções de Lou. O seu primeiro álbum a solo era uma colecção de canções melódicas e depuradas, numa sonoridade folk, que contavam com pouco mais que uma guitarra acústica, uma bateria e um baixo, praticamente o inverso do som fervilhante dos Lamb.
O que "Beloved One" afirmava, "Bloom", em 2007, confirmava. Lou apresentava-se agora com uma banda onde ocasionalmente ouviamos alguma electricidade. Mas era um facto: os conceitos do primeiro álbum continuavam ali, ainda que numa roupagem distinta.




Em 2010, Lou presenteia-nos com "One Good Thing". Este terceiro trabalho deveria ser o suficiente para começarmos a ouvir Lou Rhodes e deixarmos de ouvir a ex-vocalista dos Lamb.
"One Good Thing" representa mais um passo na maturidade musical de Lou. Ouvimo-la agora num registo que está um pouco ancorado no meio-termo entre os seus primeiros dois álbuns. Não é o quase minimalismo do primeiro mas também não é o som mais polido do segundo.
Estas canções são tocadas pela habitual guitarra de Lou, com acrescentos de percussão e cordas. A luminosidade que ouvíamos frequentemente nos primeiros álbuns dá agora lugar a uma densidade que tem algo de mais "negro". Não raro encontramos neste álbum letras que nos colocam frente-a-frente com o mundo, o nosso mundo. Não são já as canções simples de amor, há nestas algo de mais semelhante ao percurso do indivíduo que procura o seu lugar no mundo: o amor é só mais um dos caminhos que se pode tomar para isso.
O álbum abre com "One Good Thing", que reflecte um pouco a situação política actual. É talvez a canção mais próxima de "Bloom", assim como "Magic Day" estará mais ancorado em "Beloved One". Outras como "It All" ou "Circles" parecem-me mais representativas da fase actual de Lou: são canções pesadas, de melodias violentas, que contrariam a tendência para se pensar que o que é simples é suave. Muito pelo contrário, Lou não vacila no esquema de construção das suas canções o que não a impede de criar canções tristes.
Outros dos pontos que interessa sempre assinalar quando se fala de Lou Rhodes é a questão da voz; talvez porque esse será ainda o interesse maior da sua música. Estamos perante uma das vozes mais invulgares e belas da música actual, e "One Good Thing" é, até agora, o álbum que melhor explora a potencialidade da voz: ouvimos Lou perfeitamente desenvolta nos vários registos que compõe (Lembremos que o material que canta é exclusivamente da sua responsabilidade.), e notamos ao longo do álbum várias nuances. Ainda que pareça contraditório com o que afirmei no início deste comentário, a verdade é que este é o álbum vocalmente mais se aproxima dos Lamb. Note-se que não pretendo insinuar qualquer demérito à banda de Lou e de Andy Barlow, que mesmo depois do seu fim continua a ser uma das minhas favoritas: o caso é que, apesar de notarmos um registo diferente com Lou a solo, aos Lamb deve ela um género de música que sempre lhe permitiu movimentar-se nas mais variadas tonalidades, desde o choro lento que é "Goreki" à agressividade de "Little Things" ou à brutal explosão de "Till The Clouds Clear". E se em "Beloved One" ou "Bloom" aquilo que mais ouvíamos era a suavidade e a melancolia, neste álbum ouvimos já sentimentos mais violentos, como acima referi, e que não se limitam às composições: são transpostos para a voz, e é essa a novidade, em termos vocais, de "One Good Thing". Neste álbum, ouvindo por exemplo "It All", quase não parece a mesma voz que depois ouvimos em "Melancholy Me".



Também importa fazer um contraponto entre o registo em álbum e o som ao vivo. Não ao acaso, "One Good Thing" parece-me ser o que mais aproxima os dois; e este é um álbum justamente gravado em directo, em live takes, o que me parece uma decisão muito acertada: note-se que no tempo de "Beloved One" Lou tocava em estúdio com poucos músicos e essa sonoridade tornava-se diferente ao vivo, onde tocava com uma banda inteira; já em "Bloom" Lou tocava com uma banda inteira e várias vezes se apresentou em palco sozinha com a sua guitarra. Se por um lado se notava uma diferença abissal entre os álbuns e os concertos, por outros não deixava de ser inteligente essa forma de pôr as canções à prova mudando-lhes o esquema instrumental. Mesmo assim, "One Good Thing" parece distanciar-se dessa ideia e dar em estúdio um som muito aproximado ao que se ouviria em palco.
Este é, acima de tudo, um álbum de grandes canções. A destacar algumas, eu destacaria "It All", "Circles", "There For The Taking" ou "Melancholy Me": parecem-me as canções mais desenvoltas, mais realmente novas, ainda que seja difícil encontrar neste álbum canções que não tenham algo de insólito a merecer referência, pelo que o que recomendaria mesmo seria que se ouvisse o álbum na íntegra.



One Good Thing

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um Poema



Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas"





Cecília Meireles
Solombra
1963
pintura de René Magritte

Morrer de Amor



Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso.


Maria Teresa Horta
Destino
1997, ed. Quetzal
pintura de Dante Gabriel Rossetti

Irene Lisboa: Começa Uma Vida

UMA HISTÓRIA SIMPLES


"Começa Uma Vida" (ed. Seara Nova, 1940, reed. Presença, 1991) é, de certa forma, uma espécie de primeiro romance de Irene Lisboa. Fora os "13 Contarelos" (ed. autora, 1936), Irene publicara antes "Um Dia e Outro Dia- Diário de Uma Mulher" (ed Seara Nova, 1937) e "Outono Havias de Vir- Latente e Triste" (ed Seara Nova, 1938)- ambos reeditados em 1990 pela Presença no volume "Poesia I"- livros de poemas em verso e ainda a famosa "Solidão" (ed. Seara Nova, 1939, reed. Presença, 1991) que, ainda que leve de subtítulo "Notas do Punho de Uma Mulher" e tendo várias vezes em bibliografias elaboradas pela autora sido descrito como "notas e críticas", me parece ainda dentro de um registo muito poético. É discutível se "Solidão" pode ou não ser considerado um conjunto de poemas em prosa, e se o argumento contra pudesse ser o facto de nele encontrarmos frequentemente um registo diarístico, relembre-se o subtítulo do primeiro livro de poemas para percebermos que, dentro do estilo de Irene Lisboa, esse argumento se torna um tanto inválido.




"Começa Uma Vida" inicia com uma pequena introdução com a definição de "novela" em epígrafe. É de concluir que em definitivo Irene Lisboa pretendia que este livro fosse uma novela. Se com o tempo a distinção entre romance e novela foi desaparecendo, a verdade é que, considerando este livro à luz do ano em que foi lançado, ele representa mesmo uma novela, uma narrativa.
"Solidão" seguia mais o sabor do pensamento, da recordação, ao passo que "Começa Uma Vida" segue uma estrutura definida em termos cronológicos. E repare-se ainda que, reforçando a ideia de estrutura, "Começa Uma Vida" inicia com um texto sobre a madrinha da narradora, que será a própria Irene Lisboa, e termina com um texto sobre a morte da madrinha, ou seja, de certa forma, em termos estruturais, a madrinha é a personagem que mais define este livro.
Esta comparação entre "Solidão" e "Começa Uma Vida" poderá, de certa forma, ser inútil, mas faço-a com o propósito de justificar a minha ideia de que o segundo constituirá uma "novela" no sentido específico do termo, ao passo que o primeiro tem mais a ver com o registo do poema em prosa, evidentemente diferente do poema em verso por questões outras que a forma.




Centrando-me agora em "Começa Uma Vida", nele não encontramos a novela que é habitual encontrarmos (Salvo em questões de estrutura que acima expus.). Sem qualquer tipo de demérito, "Começa Uma Vida" não é uma história, no sentido em que não estamos perante um enredo que contém uma intriga e a sua resolução como "clímax" final. De facto, é raro encontrarmos em Irene Lisboa uma escrita que esteja dentro das convenções. Como já noutros textos advoguei, será esse o motivo por que a escrita de Irene se mantém tão extremamente actual. Este livro compreende a evocação de uma série de memórias, organizadas cronologicamente, que nos dão uma visão privilegiada da biografia da autora. É de notar a vontade explícita desta escrita obedecer à realidade, sem acrescentar nada.
Seria injusto, no entanto, dizer que "Começa Uma Vida" se esgota na descrição de memórias: note-se que existe a designação do livro de memórias, mas essa designação não se aplica, de todo, a este livro. Irene assume a distância que a separa das pessoas e dos acontecimentos que narra, e aí reside a sua inteligência: na capacidade de analisar, de chegar a uma interpretação de tudo. E essa interpretação começa no lado pessoal, mas passa também para o lado social. No fundo, aquilo que Irene Lisboa tem de interessante, e ainda mais para a sua época em que tanta prosa hoje nos soa frouxa ou pelo menos desactualizada, é a sua capacidade de cruamente falar do real. Não encontramos aqui artifícios nem dissimulação, mas precisamente um olhar livre sobre as pessoas e os acontecimentos: livre, no sentido em que não há qualquer tipo de preconceito ou de pré-categorização: Irene observa primeiro e analisa depois, ao passo que frequentemente encontramos na literatura a atitude contrária, que é a vontade de fazer coincidir determinada pessoa a uma categoria. Por isso em "Começa Uma Vida" não existem personagens-tipo, mas personagens que, justificadamente, têm determinado lugar.
Outra característica que gostava de apontar é a dualidade de visão que se nota no discurso da narradora: ele divide-se entre a visão cueva, a visão que a narradora teria de tudo na sua infância, e depois a visão presente, da idade adulta, que se umas vezes confirma a primeira, outras naturalmente a desmente ou, pelo menos, reformula.
Não sou também um apologista da separação ente literatura feminina e masculina, porque penso que tal distinção é obsoleta- senão completamente irreal- no entanto, penso ser de referir o facto de Irene Lisboa ser uma mulher. Não por querer fazer comparações, mas para apontar uma série de limitações que autora sofreria à altura: "Começa Uma Vida" é assinado como João Falco, pseudónimo que a autora manteve até este livro, um pseudónimo masculino. De certa maneira, seria impossível no início dos anos 40 uma mulher assinar textos desta natureza, porque não raras vezes se movimenta no sentido dos "assuntos dos homens": a análise muitas vezes se prende com a parte social, como acima referi, e essa leitura das coisas é essencialmente política; além disso a autora expõe de forma clara o universo do comportamento sexual masculino, na pessoa do pai, referindo os vários casos paralelos ao matrimónio e todos os problemas aí originados- questões de paternidade ilegítima, de heranças, etc. Num tempo em que o que se queria de uma mulher escritora era o louvor do macho- sina a que tão poucas escaparam- falar disto não era, de todo, conveniente. Não esqueçamos também que os motivos por que Irene Lisboa foi reformada pelo Estado do ensino não são, ainda hoje, claros.
E por estas e outras razões é absolutamente correcto afirmar que Irene Lisboa estava a anos-luz do seu tempo. A força essencial deste romance é realmente a verdade com que ele é escrito, a sua profundíssima humanidade; mas não se pode deixar de parte o facto de ele poder ter sido escrito nos nossos dias.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Os Anéis do Meu Cabelo

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.

Já nem digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto.

Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

António Botto

1959, Janeiro, Porto



No salão de cima (era todo envidraçado e a rua penetrava-o) havia sempre muita gente. Mas na cave, que os espelhos tornavam de uma solidão maior, as mais das vezes um dos criados encostava-se ao balcão, enquanto o outro servia, sem pressa, os poucos frequentadores. Só ali vinham alguns estudantes decorar, entre fumaças, estafada sebenta, bichanando teoremas e fórmulas, sorvendo golpes, curtos, de líquido fumegante, os que tinham encontros, mais ou menos clandestinos, e dali partiam para uma aventura de amor à hora, em quarto alugado, ou pequenos burgueses sem requintes que discutiam a bola e o avançado centro- "bestial!"- para provarem que estavam vivos e neste mundo. A gerência podia permitir-se aquela tolerância de o deixar dormitar diante da mesa vazia, naquele ambiente aquecido a bafo humano e vapores de café, ao abrigo do nevoeiro que lá fora engolia tudo ou da geada que embaciava as montras e arrefecia os relfexos nos paralelepípedos da rua. Cosido com um canto do café "reservado a senhoras e suas famílias", segundo rezava o letreiro suspenso, parecia um trapo enrodilhado. A gabardina de uma cor indecisa e asfiapada pingava-lhe sobre os sapatos, demasiado grandes, acharlotados. O chapéu cobria-lhe o rosto até ao bigode, murcho, caído, quase a tapar a ranhura dos lábios, fechados, sem desejos. De perto viam-se-lhe à volta dos olhos trémulos, vivos, das veias, vermes saindo do ninho das órbitas e passeando-lhe a cor funérea, onde a barba grisalha, de véspera, punha uma poeira de cinza, que parecia alastrar naquele meio silêncio, raro, cortado.

_Um carioca de limão.
_Café e bagaço.
_Um maço de Porto.
E era tudo. As ondas de sossego, escorraçado, voltavam e espraiavam-se pelas cadeiras vazias. Recomeçavam a conversa entre o criado e o homem do bar, sobre aquele atraso de vida da doença da mulher que tinha de ser operada, do desarranjo do filho mais novo ter de ir para a casa dos avós e ser preciso ir levá-lo, pois não se podia meter uma criança daquela idade sozinha num comboio. O outro ouvia-o distraído, já sonolento, a pensar na vida dele, nos problemas dele, nos pés dele, enganando o cansaço, despertando-se com aquele passeio enjaulado e maquinal, que o gesto da limpeza do balcão acompanhava. Os ruídos do andar de cima chegavam distantes, amortecidos, e era já menor o ruído, tinido, de louça e talheres. O relógio marcava onze e vinte. O homem cosido com o canto do sofá tinha adormecido e o cachecol de lã preta e ensebada guilhotinava-lhe a cabeça que as cordas dos tendões quase não sustinham. Os espelhos multiplicavam a satisfação, estomacal, dos poucos que tomavam café. O colorido dos painéis, o brilho, o mel e o conforto, das luzes. O dourado, sereno, da estatueta. O homem. O homem. O homem. O homem. Como eco. Ou nódoa que tivesse alastrado.

Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, diário
1992, ed. Quimera
imagem de Toulouse-Lautrec