sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sade: Soldier of Love

OS ELEMENTOS DO DESEJO

Sade (Pronuncia-se "sha-day".) revelou-se em 1984: o álbum chamava-se "Diamond Life" e foi difícil a partir daí não se conhecer esse maravilhoso hino que era "Smooth Operator". Sade, originária da Somália, é uma cantora de canções onde a suavidade e a sensualidade andam continuamente de mãos dadas, numa celebração do amor. Ao contrário do que acontece em muitos álbuns de estreia, "Diamond Life" não era promissor, era já a confirmação. O percurso da cantora prosseguiu com "Promise" (1985), "Stronger Than Pride" (1988), "Love Deluxe" (1992) e "Lovers Rock" (2000), além das colectâneas "Best Of" (1994) e "Lovers Live" (2002) constituido inteiramente por canções ao vivo.
Sade não é o tipo de cantora que grava muito, nem o tipo de cantora que depende tanto ou mais do que dela se diz nos jornais de música ou outros do que da própria música. Bem pelo contrário: os seus álbuns são recolhas de canções certeiras, e que falam por si só. Será uma das cantoras com um percurso mais individual e genuíno da música actual, e por isso mesmo com ela acontece algo que muitas vezes não acontece: a sua música permanece intemporal ou anacrónica, porque as suas canções fazem o mesmo sentido em 2010 que faziam em nos anos 80.



"Soldier Of Love", lançado este ano, vem pôr termo a dez anos sem originais. Perante isto, é evidente perguntar-se de Sade precisou de um tempo para assimilar o seu percurso 1984-2000, de que "Lovers Live" vem dar um perfeitíssimo testemunho. Poderá ter sido esse o caso.
O álbum abre com "To The Moon and the Sky", que será talvez a canção mais ancorada no passado. No entanto, não há motivo para alarme, porque se segue a canção "Soldier of Love", que nos vem mostrar exactamente em que consiste o som do álbum a que dá título: por um lado nota-se ainda a atmosfera que representa a identidade musical de Sade, mas algo mudou: há nestas canções algo de selvagem, de animal, porque nunca como agora a sua música soou a algo exótico, mas muito interiorizado, muito humano, muito sincero. Há na maioria das canções beats com ritmos muito demarcados, mas não o tipo de beats a que estamos habituados que chamam pela dança: estes ritmos vão mais longe, chamam pelo próprio corpo, pelo movimento, como se traduzissem essa linguagem corporal: daí que diga que estas canções têm algo de profundamente humano. São canções que parecem tornar claros os elementos do desejo. Outros exemplos perfeitos do que acabo de escrever serão canções como "Bring Me Home" ou "Long Hard Road". Nesta última, é de notar como essa "animalidade" pode inclusivamente fazer-se ouvir nas canções mais melancólicas, e "Long Hard Road" será eventualmente a mais melancólica de "Soldier of Love". E se já no passado ouvimos Sade em canções tristes, não ouvimos agora os belíssimos lamentos, como por exemplo "Jezebel": é já outra coisa, mais natural, numa postura precisamente de "guerreiro", e não esqueçamos que na canção que dá título ao disco Sade se assume como um soldado do amor. Outro exemplo de uma pungente melancolia é a canção que termina o álbum, "The Safest Place": uma história do amor que põe fim ao deserto, construida com pouco mais que uma guitarra, um contrabaixo e arranjos de cordas.
Canções como "Babyfather" ou "Be That Easy" podem, a uma primeira audição, parecer gerar uma espécie de desequilíbrio na dinâmica do disco: não por serem más canções, mas por nos soarem familiares. No entanto, desengane-se quem pensa ouvir aqui novas versões de músicas como "By Your Side": estas canções instauram uma espécie de "modernidade" da música de Sade: trata-se de pensar um pouco "outside the box": com pequenos arranjos electrónicos, de onde transpira uma espécie de alegria. Serão no entanto as canções menos interessantes do disco.


De notar são ainda os arranjos, complexos, e no entanto construidos com base em pouco mais que guitarra-bateria-baixo-saxofone-cordas. Ouçam-se "In Another Time" ou "Skin" para o confirmar: são canções em que os arranjos constituem uma parte indispensável da melodia, e no entanto, Sade não se moveu do esquema habitual das suas canções. Mas penso que é isso que acontece quando realmente se conquistou o poder de escolher o que se quer: trabalha-se da forma mais confortável sem que as canções resultem menos criativas por isso: o minimalismo não é uma limitação aqui.
"Soldier Of Love" também não contribui para que se possa fazer aquilo que até agora ainda não foi possível fazer: catalogar a música de Sade. De facto, um pouco como acontece com todos os álbuns passados, se quisermos classificar "Soldier Of Love" seremos obrigados a uma série de palavras separadas por barras. Algo assim: jazz/soul/ r&b/ sexy-hip-hop/blues/smooth jazz/classic pop/new-age (...) etc, etc, etc. No fundo, isso só favorece a cantora. É um facto: Sade está definitivamente dentro do seu estilo, daí não a podermos incluir num género ou numa tendência.
As letras mantém-se dentro das que Sade sempre escreveu, falam-nos maioritariamente do amor e da relação com o outro, com poucas palavras, só as essenciais, muitas vezes dentro do estilo story-telling que já ouvíramos em álbuns anteriores. Algum vocabulário, no entanto, ajuda a reforçar a ideia central do disco, de que o título é resumo, portanto Sade soube sintetizar bem as suas palavras numa ideia só.
Por último, penso que é importante perceber que o facto de, em 26 anos, Sade ter apenas seis álbuns de originais só a favorece: isto porque cada vez mais se percebe que o que Sade grava é apenas o essencial, de maneira que no seu percurso não há "palha". Talvez por isso mesmo "Soldier of Love" é mais um triunfo para o percurso de Sade, mais um álbum certeiro que convém ouvir repetidamente.


Le Temps Qui Reste de François Ozon

O CARÁCTER PERFEITO DA MORTE
Então, numa manhã a Morte mostrou-me o seu carácter perfeito
Isabel de Sá


Foi-me inevitável pensar em poesia ao ver, finalmente, “Le Temps Qui Reste” (2005) de François Ozon. Vejo-o anos já depois da estreia e do fecho da editora responsável pelos filmes de Ozon em Portugal: sim é isso mesmo, actualmente é impossível encontrar as versões legendadas em português dos filmes do realizador de “Sous Le Sand” e “8 Femmes”, que aliás formam com este filme uma espécie de trilogia sobre a morte, analisada de distintos pontos de vista.
Dado que não tinha nenhuma forma de ver o filme por meios legais, tive que fazê-lo através de outros menos ortodoxos. Já toda a gente percebeu que fiz, ou melhor, me fizeram o download do filme.
Mas, e era por aí que este texto ia iniciar-se com o paralelismo entre a poesia e esta brutalíssima obra de Fraçois Ozon. Ao vê-lo são inegáveis as imagens que descobrem a verdadeira poesia nas imagens desta história tão triste.





Romain (Melvil Poupaud), fotógrafo profissional aos 30 anos recebe, depois de um desmaio durante uma sessão fotográfica, o diagnóstico de um cancro, em estado avançado e com muitíssimas possibilidades do tratamento não resultar, uma vez que grande parte dos órgãos estão já afectados. Tem três meses de vida.
“Le Temps Qui Reste” é portanto o atravessar dessa condenação. Inicialmente, observamo-lo numa espécie de auto-isolamento penoso: insulta a irmã grávida, agride o namorado, sai de casa.


Parte depois para visitar a avó Laura (Jeanne Moreau), a única a quem contará a verdade. Pelo caminho conhece Jany (Valeria Bruni Tedeschi), empregada de café, que será a maior reviravolta na história, quando lhe conta que o marido é estéril, perguntado a Romain se ele estaria disposto a ser pai do filho do casal. A resposta fica em suspenso.
Quando Romain regressa a casa, Sasha (Christian Sengewald), o namorado já a deixara. Cada vez mais sozinho, Romain procura espaços comuns, ligados à infância e ao passado.
Um dos elementos que mais me leva a ver este filme como um poema filmado é precisamente a força da tristeza e do desespero- e Melvil Poupaud mostra-se nisso muito competente: não precisa de falar muito nem de se movimentar-se particularmente: as suas expressões faciais, o realismo extremo dos seus choros constantes são suficientes para dar “o murro no estômago” que, a meu ver, demarca o filme da obra de arte que “Le Temps Qui Reste” sem sombra de dúvida é. Vemos um ser humano efectivamente a confrontar-se com a sua morte e com a forma como decidiu encará-la: o silêncio.
Vê-mo-lo caminhar pela cidade, chorando desesperadamente, e mais desesperadamente ainda fotografando pequenos detalhes, como se recolhesse imagens que levasse para a morte, ainda que sabendo que tal será impossível.
A questão do choro parece-me também digna de grande referência: vemos Melvil Poupaud chorar em inúmeras cenas, sem que no entanto seja excessivo. O curioso é ver como esse choro se vai alterando, e através dele, vamos recebendo sinais de que a sua relação agora tão estreita com a morte, assunto afinal fulcral neste filme, se vai alterando. Esse é um dos aspectos que considero mais importantes em “Le Temps Qui Reste”: a sua densíssima poética, o seu tom profundamente elegíaco e desesperante. E repare-se que no filme não há grandes diálogos, e dos que há, poucos têm realmente um substrato importante para o que vemos: é um filme construído a partir do poder ilimitado da imagem, de um conteúdo que dispensa palavras. Ainda que tenha falado em poesia a propósito deste filme, e mantenho que me parece um poema filmado, da poesia refiro-me ao que possa ter de pungente e marcante, e menos das palavras que a escrever. “Le Temps Qui Reste”, poema ou não, não poderia ser um livro: necessita destas imagens, só com elas pode fazer sentido. É um dos casos em que uma imagem definitivamente vale mais do que mil palavras, porque nem toda a mestria de escrita deste mundo poderia produzir um efeito tão forte como estes planos de Ozon.
Ao reencontrar o ex-namorado, Romain pede-lhe que lhe pouse a mão no peito e diz-lhe

“Tu sens mon coeur… il bat encore”

e esse será provavelmente o diálogo mais decisivo de todo o filme: é o momento em que Roman decide aceder ao pedido de Jany. Poderá parecer um cliché a ideia do moribundo que deixa um filho, mas a verdade é que a forma como acontece consegue mesmo ser surpreendente e surpreendentemente triste, quando o vemos preso entre um sorriso e uma dor atroz, sabendo que e mulher deitada entre o seu marido e ele irão ser os pais do seu filho que ele nem irá conhecer.
Não se pode dizer que não é um filme angustiante, porque o é, profundamente. Mas é também de uma naturalidade que torna quase impossível ao espectador não se contagiar daquela angústia, e é aí que Ozon é verdadeiramente genial: é na sua capacidade de nos contaminar com o drama que nos coloca à frente: só há obra de arte onde há uma íntima agressão.
Somos nós que também nos confrontamos com a nossa morte que também está pronta a acontecer.
E o mais interessante é que, se acompanharmos o filme atentamente, vamos percebendo que Romain aceitou a sua morte, por perceber-lhe o “carácter perfeito, isento de mesquinhez” de que Isabel de Sá fala no seu poema inaugural.
Depois de uma visão mais parodística da morte com “8 Femmes”, François Ozon enveredou pelo lado mais realista da morte. E o resultado nunca poderia ter sido melhor, nem mais pungente, nem mais humano.
Um filme brutal e violento nos vários sentidos das palavras. Às pessoas mais susceptíveis à angústia só recomendo que sejam um pouco fortes, porque “Le Temps Qui Reste” merece o esforço. Definitivamente.
I´m a soldier of love
All the days of my life

I´ve been torn up inside
I´ve been left behind
So I ride
I have the will to survive.

SADE ADU
Soldier Of Love, 2010

Agustina tem destas coisas... (15)

Num povo pessimista, não o bastante para ser neurótico, nem exasperado para ser sobre-humano, depara-se-nos às vezes certo fenómeno de combustão interior e que é pouco menos que uma nova ética.
.
.
.
.
.
de O Susto

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Filme para todos os dias


Le Temps Qui Reste de François Ozon

Canção Para o Dia de Hoje

The Legendary Tigerman feat. Asia Argento: "Life Ain´t Enough For You"

Des Pieds et Des Mains


Eu conheço as coisas de tu não estares
as voltas que o mundo não dá
assim tu estejas e pares.

Encostado a uma parede
despido e vegetal
encostado a uma parede, a cantar
cheio de ramos tenros e novos
incalculável.

Regina Guimarães
Tutta
1994, ed. Felício e Cabral
desenho de Ana Hatherly

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outubro, 1949



As ruas dormem ainda. As luzes dos candeeiros, porém, já se apagaram. A casa em frente tem o ar solene e misterioso das casas desabitadas. Talvez por isso o seu jardim de palmeiras hirtas consegue um certo encanto. Ao fundo a gravata, ainda cinzenta, do rio. Passam vendedores de jornais com a sacola vazia, acompanhados de uma tossezinha seca. E velhas, vergadas de devoção, para a primeira missa. Uma mão ensonada arredou uma cortina na casa rosa, de um rosa recente de bolo de aniversário. O movimento aumenta. O camião do gelo parou em frente da leitaria.
Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, Diário
1992, ed. Quimera
pintura de Edward Hopper

terça-feira, 20 de julho de 2010

Olga Gonçalves: Caixa Inglesa

Termino agora a leitura de "Caixa Inglesa" (1984, ed. Rolim) de Olga Gonçalves, escritora nascida em Luanda, em 1929.
Este é um livro em que a autora cruza, dentro de um certo experimentalismo, a poesia e a prosa. Relembrando "Movimento" (1972, ed. Moraes), primeira recolha de poemas de Olga Gonçalves e comparando com este livro de 1984, o que falta ao primeiro parece este ter a mais.



Segundo a nota na contracapa, Olga Gonçalves testemunhou interesse para o experimentalismo e talvez seja essa a principal fragilidade do livro de estreia: uma tendência excessiva para a estética, ligada ao minimalismo, que tornava alguns poemas apenas fôlegos rítmicos e palavrosos em que não se entendia grande conteúdo. Em "Caixa Inglesa" não existe esse minimalismo, mas muitas vezes justamente um excesso. "Caixa Inglesa" é um livro de ideias e imagens potencialmente fortes, em particular as ligadas à infância e à memória, mas de certa forma estes poemas em prosa precisavam de alguma limpidez, de menos palavras. Precisamente esse excesso torna alguns dos textos demasiado barrocos, e nalguns casos esse excesso é tão evidente que se perde o rasto à ideia para seguir as palavras.
É certo que este cruzamento entre prosa e poesia é um projecto de grande vulto, e Olga Gonçalves consegue por vezes alguns resultados mais positivos, sendo o mais interessante a questão do ritmo, conseguido pela escolha rigorosa das palavras e da pontuação. A pergunta é ainda até que ponto a perseguição do ritmo não distrai do conteúdo dos poemas.
Dos vinte e nove poemas que totalizam os dois capítulos de "Caixa Inglesa" um parece ser, de todos, o mais equilibrado: "Meia-Tarde". Neste poema são conseguidos o equilíbrio e a tensão entre a forma e a ideia, que parecem mais frágeis em grande parte dos restantes textos.
Se é verdade que esta fusão de géneros literários (Que excede a forma, claro.), já produziu em Portugal verdadeiras obras de referência- como "O Aquário" e "Movimento Perpétuo" de Fiama, "Os Passos em Volta" de Herberto Helder ou os romances de Yvette K. Centeno- no caso de Olga Gonçalves, e concretamente da sua poesia, parecem-me mais pertinentes os sonetos, onde o cânone formal ajuda a controlar a escrita, evitando que o excesso de palavras desfoque a ideia do poema. Leia-se "Só de Amor" (1975, ed. Ática), livro de referência na bibliografia da autora, totalmente constituido de sonetos, que comprovará esta ideia.

Uma Citação

Eu sei que o interior e o exterior da beleza das casas não é coincidente______ e atribuo à beleza um grau elevado de pensamento.


Maria Gabriela Llansol
Um Beijo Dado Mais Tarde
1990- ed. Rolim

Canção Para o Dia de Hoje

Anathema: Harmonium

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Bem-Vindos ao Amadorismo: Um Balanço sobre o Marés Vivas

Nunca vi nada assim.
Só ando nisto de festivais há cinco anos, já estive em alguns, mas o mais próximo que estive do Marés Vivas antes destes três dias foi num famigerado São João na Ribeira.
O público era constituido maioritariamente por bois a olhar para palácios: grandes palácios como Allison Goldfrapp, como os Placebo e os Editors: três concertos que passaram completamente ao lado de um público que está habituado a ouvir pouco mais que a Romana e a Ágata.
O melhor concerto acabou por ser o dos Goldfrapp, uma vez que a (des)organização do festival arruinou o concerto dos Placebo com o som distorcido além do aceitável e o concerto dos Editors que ficou suspenso 20 minutos porque o profissionalismo era a palavra de ordem dos responsáveis pelo Marés Vivas. Talvez se estivessem menos concentrados em quais os melhores lugares para colocar a barraca da cerveja e a decidir que brindes oferecer a quem aceitar fazer palhaçadas nos stands acabassem por pensar um pouco sobre o que é organizar um concerto respeitando os músicos: foi respeito que faltou perante os colectivos de Brian Molko e Tom Smith.
Enfim, para o ano não há mais, espero eu.

domingo, 18 de julho de 2010

Marés Vivas: Editors

FOGO SUSPENSO

O último dia do festival Marés Vivas é em definitivo a cereja em cima do bolo: um bolo de São João cheio de cantigas populares e ambiente hedonista a que não faltam bailaricos, farturas e claro, cereveja. Refiro-me ao ambiente e à organização, claro. No que respeita os concertos, há que dizer que o dos dEUS foi definitivamente excelente, ainda que fosse o de Ben Harper o mais aguardado.
Por volta das onze e meia devia haver onze pessoas e meia realmente interessadas em ouvir os Editors, que regressam a Portugal ainda com "In This Light and On This Evening", o melhor de três álbum que a banda britânica já produziu. O concerto de Ben Harper também iria estar cheio, mas por motivos diferentes...
E se por cerca de vinte minutos pareceu a essas onze pessoas e meia que iriam ter um grande concerto: o som estava excelente, Tom Smith e companhia estavam a tocar um alinhamento inteligente e com toda a qualidade mas... foi caso para realmente se desenganarem.


Mas comecemos pelo princípio. Os Editors entraram em palco com a canção "In This Light and On This Evening" cantada numa escala mais aguda do que a do disco. Prosseguiram para "An End Has a Start" resgatado ao disco anterior.
É evidente que todas as bandas com mais do que um disco sempre aproveitam os concertos para fazer uma espécie de retrospectiva, mas no caso dos Editors quanto menos saudosismo melhor, porque o terceiro álbum é que representa realmente uma identidade para a banda que hoje se pode afirmar realmente original. A confirmação chega com estas canções que tocadas ao vivo soam ainda melhor como "Eat Raw Meat/ Blood Drool" que é mesmo mesmo uma grande canção. Mais ainda, momentos como "Fingers In The Factories", "Bones" ou o fantástico "Blood" continuam a fazer todo o sentido, bem como "The Racing Rats" que poderia perfeitamente fazer parte do álbum mais recente. "Smokers Outside The Hospital Doors" seria outro momento de apoteose até que... Tom Smith começa a emitir sinais furiosamente para o técnico de som. Recomeço. Tom Smith levanta-se e atira com a guitarra para o chão. Saem todos de palco.
Durante cerca de vinte minutos, aquelas onze pessoas e meia perguntam-se se o concerto prosseguirá ou ficarão por ali, enquanto as outras vaiavam e berravam insultos para um palco vazio. Eu cá só fiquei impressionado com isto: como é que se pode fazer um festival de música e tratar os músicos com tão pouca dignidade como fez a organização do Marés Vivas? Qual é o músico sério que gosta que se seja tão pouco sério com ele? No meio disto, penso que Tom Smith teve toda a razão, e estou certo de que se fosse eu nem voltaria para cima do palco.

Mesmo assim, os Editors acabaram por de novo entrar em palco, atalhando para "Bricks and Mortar" e o obrigatório "Papillon". Tom Smith refere os choques eléctricos de que estaria a ser vítima, razão por que havia saído, e desculpam-se por ter que abandonar mais cedo o palco.
Foi muito bom enquanto durou, nas duas partes, mas a verdade é que foi insuficiente para o ter sido realmente. Momentos do disco mais recente como "You Don´t Know Love" ou "The Big Exit" faziam realmente falta a um concerto de que se espera tanto, ou pelo menos o muito a que "In This Light and On This Evening" obriga.

Fotos: BLITZ




In This Light and On This Evening





Blood




Papillon

sábado, 17 de julho de 2010

Marés Vivas: Placebo

BATTLE FOR THE SOUND

O segundo dia do Marés Vivas contribuiu consideravelmente para a atmosfera de amadorismo que me pareceu tão evidente no primeiro dia.
Eram cerca de onze e meia quando os Placebo entraram em palco, tendo saido pouco mais de uma hora depois. E quem já teve oportunidade de assistir a outros concertos só pode ter ficado desiludido. O concerto no Marés Vivas é bem capaz de ter ficado aquém do polémico concerto no Creamfields (2007) em que Brian Molko abandonou o palco ao fim de 50 minutos supostamente por ter ficado sem voz, apesar de todos terem percebido que os problemas de som foram a razão que o fez virar as costas.



A verdade é que este concerto está muito proporcional a todo o espírito do festival da Praia da Afurada, mas é muito ingrato para um álbum como "Battle For The Sun" (2009), que contém algumas das canções mais interessantes dos Placebo.
Destas canções foi possível ouvir "Ashtray Heart", "Battle For The Sun", "Breathe Underwater" ou "The Never Ending Why". Apesar de no fundo me lamentar um pouco por não ter ouvido momentos como "Come Undone" ou "Kitty Litter", o problema do concerto de ontem não foi o álbum mais recente, mas a incisão nos álbuns passados que pode ter resultado muito bem em "Nancy Boy" e até em "Bionic" (Isto falando dos mais recuados porque já se sabe que outros como "Every You and Every Me" ou "The Bitter End" nunca deixaram de ser apoteóticos.), a verdade é que noutros momentos soou frouxo, como se os Placebo estivessem a tentar reavivar um passado que, para o bem e para o mal, não faz parte do melhor que a banda tem para oferecer, pelo menos ao vivo num festival onde, já se sabe, sempre são mais convenientes as canções mais fortes e talvez imediatas.


No entanto, para um ouvido atento e conhecedor da música dos Placebo, o alinhamento foi um mal menor em comparação com os problemas de som que roçavam o insultuoso: a voz de Brian Molko apagava-se constantemente quando se ouviam os sintetizadores, as notas altas em que o vocalista é tão perito quase perfuravam os tímpanos, e em canções como "Taste In Men" ou "Meds" ou "Post Blue" as guitarras sofreram de uma incomodativa falta de nitidez.
Surpreendente foi também a simpatia de Brian Molko, de longe muitíssimo mais comunicativo do que o habitual (Good evening, Molko boys and Molko girls...), e até cómico por vezes.
Refira-se ainda o momento brutal que foi "Trigger Happy" e a cover de "All Apologies" tão surpreendente como bem inserida.
Podia ter sido pior, mas a verdade é que noutro festival facilmente seria melhor. Não deixa de ser estranho que um concerto de um álbum tão bom possa ser arruinado pela falta de profissionalismo da organização. Esperemos que "Battle For The Sun" seja tocado uma vez mais em Portugal, de preferência onde seja BEM ouvido. É que no Marés Vivas tem que se batalhar mais pelo som do que propriamente pelo sol, e isso não convém a uma boa banda.

Fotos: BLITZ



Every You and Every Me


Battle For The Sun


Trigger Happy


All Apologies

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Marés Vivas: Goldfrapp

ELECTRO-CHOQUES


Além do amadorismo da organização e do ambiente a roçar o são-joanino, o primeiro dia do festival Marés Vivas (Vila Nova de Gaia) foi marcado, em termos de música, pelo regresso de Skye Edwards aos Morcheeba e pelo concerto dos Goldfrapp, que regressam a Portugal para apresentar "Head First".
Este concerto, com dois anos de distância do anterior, no Sudoeste, vem provar duas coisas: a primeira é que os Goldfrapp são uma grande banda, a segunda é que o público português não percebe muito do assunto, e o do Marés Vivas menos ainda. A noite foi, em comparação ao SW, parada e aborrecida, o que não deixa de ser estranho porque me quer parecer que o alinhamento deste concerto era mais "festivaleiro" do que o do SW.


Mas esqueçamos o público e foquemo-nos no concerto. A verdade é que "Head First" é um disco que vem recuperar o fôlego onde o seu antecessor, "Seventh Tree" respirava calmamente. As canções, onde não deixa de ser notório um rumor de anos 80, intercalaram-se neste concerto com canções passadas que são agora transformadas, trazidas essencialmente de "Black Cherry" (2003) e "Supernature" (2006).
E talvez tenha mesmo sido "Supernature" o maior problema deste concerto: as canções são poderosas, sonantes e verdadeiramente chamativas, mas a verdade é que passaram dois discos deste esse e "Supernature" ainda é obrigatório. Se por um lado isso é um evidente sinal de que os Goldfrapp têm (pelo menos) aí um grande álbum, por outro um concerto de apresentação deixa de o ser propriamente. Claramente este era um concerto de dança, mais que outra coisa qualquer, e a melhor prova continua a ser o facto de em "Felt Mountain" (2000) e em "Seventh Tree" (2008) não se ter tocado.




Fora isso, os Goldfrapp souberam seleccionar as canções mais festivas e mais do lado electropop, tanto do álbum mais recente, como "Alive", "Dreaming", "Shiny and Warm" além do obrigatório "Rocket", quer do passado, como "Train", "Cristalline Green" que abriu o concerto em grande estilo, "Ride On a White Horse", "Number One", "U Never Know" ou o evidente "Ooh La La". Para o fim ficou a nova versão de "Strict Machine" que foi o culminar de todos os electrochoques que marcam o estilo dos Goldfrapp. Apesar do som estar demasiado alto, pareceu-me, estava assinalavelmente nítido, com a distinção perfeita entre os vários instrumentos e os vários sintetizadores, tocados pela banda vestida à anos 80.
Foi de lamentar que não houvesse encore.
Allison Goldfrapp estava fantástica como sempre, Shiny and Warm no seu poncho preto e prata e o seu estilo ébrio/perverso. Falando pouco, acabou por comunicar bem com o público através do movimento e de pequenos comentários. Escusado será dizer que apoteose foi em "Ooh La La", o único momento em que o festival se assemelhou minimamente a um festival. Não deixa de ser estranho, porque afinal a música dos Goldfrapp celebra a vida.
Como sempre, excelente.


Number One


Ooh La La


Rocket

domingo, 27 de junho de 2010

Let´s Rock

a famosa cena da sala vermelha, do terceiro episódio de "Twin Peaks", realizado por David Lynch.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Passatempo: "Descubra as Sete Diferenças"

Leona Lewis: Bleeding Love

Katy Brand: Heart Bypass Love

Katy Brand, sempre melhor que o original

neste caso, "Bad Spella", incarnando o "Umbrella" de Rhianna. Como a própria diz, "my songs don´t make much sense"




e aqui, como Lady Gaga que enquanto "just dance(s)" has "No Pants"

love without pain isn´t really romance
.
.
.
.
.
.
Royksopp, Only This Moment

The Saddest Thing to Say

Legendary Tigerman e Lisa Kekaula, ao vivo.

sábado, 19 de junho de 2010

Provavelmente Tristeza

Há dias assim, em que vemos de certa forma desaparecer uma referência da nossa vida, cultural e outra. É um desaparecimento que não o é realmente ou completamente, mas não deixa de se perder alguma coisa.
Morreu ontem José Saramago, um dos meus romancistas preferidos, e, de certa forma, perdi uma referência que era cultural, ideológica, e por ser estas duas coisas, pessoal também. Ou principalmente.
Em 1998 foi Prémio Nobel da Literatura, também. Apesar disso, penso que só posso falar de mim, do que significa para mim.



Os livros de José Saramago existiam na casa dos meus pais antes de existir eu, mas para mim, José Saramago começou há cinco anos atrás: eu tinha quinze anos e o "Ensaio Sobre a Cegueira" fez-me ver muitas coisas, bem como o "Ensaio Sobre a Lucidez" que li quase de seguida. Percebi logo que Saramago excedia largamente o conceito do romancista. Ele era, e continua a ser, um pensador, verdadeiramente um lúcido, mesmo quando parecia lúdico. Do José Saramago que tentava ser poeta dos "Poemas Possíveis" e de "Provavelmente Alegria" ao José Saramago que na prosa conquistou a plenitude, ensaiou brilhantemente sobre a nossa cegueira política e humana, uma cegueira profunda e praticamente irresolúvel. Era um homem de uma inteligência extrema que nunca foi glacial, porque a ele devemos também histórias de amor como "Memorial do Convento" que, apesar de desde há vários anos ter vindo a ser objecto de tentativas de destruição com o ensino secundário, continua sendo uma das maiores histórias de amor alguma vez escrita, um amor que é muito mais épico do que o épico da construção do convento de Mafra, o amor entre um homem maneta e uma mulher que em jejum via os homens por dentro e que para não o ver a ele todas as manhãs de olhos fechados comia uma côdea de pão.
A José Saramago devemos também romances que pensam a uma luz diferente da habitual questões como a morte, que parece agora ter mais importância ainda, como em "As Intermitências da Morte", da História de um país e do seu povo, como em "Levantado do Chão" e mesmo de referências culturais como em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", além da igreja, que não deixa de nos parecer uma forma de fuga de um mundo sem deus, como vemos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e mais recentemente "Caím", romances de uma leitura tão complexa quanto pungente e que tão mal caíram a um país em fuga do seu estado sitiado como é Portugal.
Talvez por o ver morrer o seu autor, parece-me inevitável pensar em "As Intermitências da Morte". Lembremos que a Morte se apaixona pelo violoncelista e "no dia seguinte ninguém morreu". Não só percebemos que afinal a Morte ainda não se apaixonou, como ainda não aprendeu a falar para nós, porque ainda não aprendeu a dizer nada perante a maior dor humana. Isto já o dizia Saramago no seu romance, e ainda não mudou.
Como não mudou ainda a nossa cegueira, a nossa falta de lucidez, a nossa vassalagem ao poder instituido, a nossa falta de rebelião, a nossa inépcia. Saramago não fez mais do que lhe competia: pensou, deu-nos essa arma e a possibilidade de a usar.
Agora que morre o homem e nos ficam os livros, só me resta desejar a José Saramago que por muito tempo não descanse em paz, porque não consigo imaginar pior destino para um artista do que descansar em paz. Espero que durante muito tempo lhe dêem voltas e mais voltas e se debrucem sobre a sua obra de uma forma mais séria do que enquanto foi vivo e despertou tantas invejas e dores de cotovelo, como convém a todos aqueles que arriscam estar acima da banalidade.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

vídeos novos (ou nem por isso) de dois velhos presentes nos meus headphones

a sensualidade serena e exótica de Sade Adu em "Soldier Of Love", titletrack do álbum de 2010. Um regresso aguardado que não desilude



não menos sensuais, os Editors com "You Don´t Know Love", segundo single do mais recente "In This Light and On This Evening"

Alberto Pimenta- Ana Hatherly

Lisboa, 10 de Janeiro de 1996

Ana

desculpe
estou em pânico, a minha mulher há dias desapareceu, perdão, veja lá, já nem escrever sei: a minha mulher a dias desapareceu.
Já comprei montes de tachos e de louça, e também roupa. Mas os montes de coisas sujas acumulam-se, fora, mas acho que também dentro de mim. A única vantagem dos tachos é defender das pistolas. Elles agora trazem pistolas. Piss-tolas… ih ih! Esguicham tudo. Os tachos é para aparar, percebe?
abraço
Alberto



18 de Janeiro de 1996
p. 125 do meu [Ana Hatherly] Diário Infrequente:

Recebi uma carta do Alberto. Acho que endoideceu. Elles devem tê-lo esvaziado completamente. O que vai ser agora da nossa causa?



Alberto Pimenta e Ana Hatherly
Elles- Um Epistolado
1999, editorial Escritor

Amália- Grito

e aqui cantado

Grito

Silêncio
Do silêncio faço um grito
Que o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ao céu

Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais quando se vive atrás dela
E eu
A quem o sol esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora

Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai, solidão
Quem fôra escorpião
Ai, solidão
E se morder à cabeça, adeus

Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada à parede,
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura



Amália Rodrigues
Versos
2004, ed. Cotovia

domingo, 13 de junho de 2010

uma prosa poética



Elles montent la guarde. Elles se relaient. Si leur vigilance jamais ne se relâche, elles savant pourtant se montrer discrètes, voire plaisantes, comme por atténuer la rigueur d’un châtiment à l´execution duquel elles veillent mais qu´elles n´ont pas pronocé. Elles ne jugent pas, se contentent de vérifier que l´ordre règne et ne manifestant aucune animosité à l´égard des condamnés. Il ne faut pas toutefois songer à echapper à leur surveillance: sous leur mine indifférente ou avenante, elles sont implacables, ne connaissent que le service et chacune tient à laisser tout en ordre à celle que vient la remplacer. Simplement elles n´éprouvent pas le besoin de forcer la note patibulaire, de s´harnecher d´un cuirasse ou de porter une arme. Elles sont restées féminines en dépit de leur métier. Elles se ressemblent par l’uniforme, mais chacune s’efforce, par la coiffure, le port d’un bijou ou quelque maquillage, de se distinguer de ses collègues. Elles ne cherche pas à séduire et pourtant rivalisent de subtiles coquetteries. Elles font un sale boulot, le savent; aussi se réjouissent-elles de sentir parfois, à son accueil, au moment de le relève, qu´un prisonnier les attendait, qu´elles peuvent représenter une lumière symbolique, uns présence réconfortante à défaut d´une rédemption, même pour un coeur endurci. Elles ne remercient jamais, ne distribuent aucune faveur. Les rapports entre gardes et prisonniers se maintiennent cordiaux tant que les distances sont respectées. Toute intimité entre eux est proscrite. De toute manière, elles restent muettes pendant la durée de leur garde. Elles peuvent sourire mais ne se laissent pas attendrir. Satisfaites qu´on les admire, heureuses qu´on les attende, dédaigneuses qu´on les craigne, elles sont incorruptibles et semblent na jamais être touchées de la souffrance réelle ou feinte des reclus qu´elles ont à charge de surveiller. Au moins sont-elles impartiales. Pourtant on les amerait plus faibles, plus humaines. Leur silencieuse présence suffit à faire pescer plus lourd le joug de la punition. Car l´homme, dans son inconscience, a pu croire lors de l´expulsion de l´Éden qu´il gagnait au change, qu´il troquait un jardin pour le vaste monde, alors qu´en fait il quittait l´éternité pour le bagne du temps.

Saguenail
Exils
2009, ed. Hélastre

desenho de Sadsamson (2008)
***

Elas montam guarda. Cansam-se. Mesmo que a sua vigilância nunca baixe, elas sabem portanto mostrar-se discretas, até prazenteiras, como se atenuassem o rigor de um castigo daquele que elas velam sem o pronunciarem. Elas não julgam, contentam-se em verificar que a ordem reina e não manifestam nenhuma simpatia pelos condenados. Nem sempre é preciso pensar em escapar à sua vigilância: no seu rosto indiferente ou afável elas são implacáveis, não conhecem senão o seu serviço e cada uma tem que deixar tudo em ordem para a que a vem substituir. Simplesmente elas não aprovam a necessidade de forçar a nota patibular ou de exibir um látego ou de portar uma arma. São ainda femininas, apesar do seu título. Elas assemelham-se pelo uniforme, mas cada uma se esforça, pelo penteado, pela graça de um batom ou qualquer maquilhagem para se distinguir das colegas. Elas não procuram seduzir, apenas rivalizam em pequenas vaidades. Elas enchem uma sala e sabem-no, também rejubilam de por vezes sentir que, no momento da rendição, um prisioneiro as procura, que elas podem representar uma luz simbólica, uma presença reconfortante quase como uma redenção, mesmo num coração endurecido. Elas não sentem misericórdia alguma, não distribuem quaisquer favores. Os contactos entre guardas e prisioneiros mantêm-se cordiais, as distâncias são respeitadas. Toda a intimidade entre eles é proscrita. De qualquer forma, elas ficam atentas durante os seus turnos. Podem sorrir mas não o dar a entender. Satisfeitas por serem admiradas, felizes por as procurarmos, desdenhosas por as temermos, são incorruptíveis, conseguem não se comover perante o sofrimento verdadeiro ou fingido dos reclusos que estão encarregues de encarcerar. Ao menos são imparciais. Portanto amamo-las mais frágeis, mais humanas. A sua presença silenciosa chega para fazer menos pesado o jugo da punição. Porque o homem, na sua inconsciência pôde chorar a expulsão do Éden, o que ganhou na troca, trocou um jardim por um vasto mundo, por isso o fizemos desistir da eternidade pelos trabalhos forçados do tempo.


Esboço de tradução de Sadsamson

sábado, 12 de junho de 2010

Blind Zero: Luna Park

DO INESGOTÁVEL
Em 1994 “Trigger”, disco de estreia de uma banda praticamente desconhecida era um disco invulgar entre nós. À luz dos anos que passaram, percebemos agora que “Trigger” era quase meramente um alicerce para uma obra que se tornaria bem maior do que aí se anunciava. Naquela pujança havia algo que soava a Pearl Jam, e seria essa talvez a maior fragilidade de “Trigger”. E se “Redcoast” (1997) vinha já atenuar bastante essa influência, a verdade é que, em termos críticos, o eco dos Pearl Jam se tornou um estigma para os Blind Zero, que mesmo hoje, quando já é totalmente injustificado, lhes é apontado. “Redcoast” tinha algo de experimentação, de apalpar terreno, mas continha também um punhado de grandes canções, como “The Big Truth”, “Skull” ou “Criminal Grace”. Mas terminava, definitivamente, com um acto de verdadeira rebelião: “Subtitle”: esta era a canção em que os Blind Zero conquistavam, sem retorno, uma identidade, ela é o primeiro objecto totalmente nítido que a banda produziu.
A partir daí, o trabalho foi sempre o de construir mais e mais dentro dessa identidade que já ficava lançada. “One Silent Accident” publicado em 2000 é um álbum de espantosa maturidade, impregnado de atmosferas que oscilam entre a melancolia violenta e a violência melancólica: é também neste álbum que estão algumas das que, para mim, serão das melhores canções dos Blind Zero, canções como “Lowstreetsidewaksequence”, “Daily Matters”, “Another One”, “Wish Tonight” e, principalmente, “Lately”.


Mesmo assim, seria “A Way To Bleed Your Lover” de 2003, que haveria de acrescentar mais alguma “reputação” ao colectivo portuense, em particular por ter sido o primeiro álbum vencedor do prémio Best Portuguese Act da MTV. Totalmente merecido, claro, se momentos como “Nothing Else Goes”, “Toxic”, “You In Your Arms” ou “You Owe Us Blood” ainda não perderam, de todo, o sentido.
Ponto de maior maturidade ainda (É sempre neste sentido que a música dos Blind Zero caminha- o de um amadurecimento.), é “The Night Before and a New Day” (2005). Podemos entender este álbum como uma espécie de segundo tomo de “A Way To Bleed Your Lover”: a própria banda assume que quis dar um lado mais suave da sua música depois do negrume do álbum anterior: a esta certeira decisão devemos canções belíssimas como “Absent Without Permission”, “Day 1”, “Turn it On” ou “Black Roses”.
O sort-of-best-of “Time Machine: Memories Undone” de 2007 faz mais do que recolher alguns dos pontos altos dos primeiro 13 anos dos Blind Zero. A decisão de apresentar os temas ao vivo tem o excelente condão de corrigir completamente as fragilidades das canções mais antigas: pois que “Big Brother” ou “Recognize” soam tão melhor nestas versões, em que se nota realmente o “rosto” de quem as toca.
Luna Park”, acabadíssimo de lançar, mostra-nos que “Time Machine: Memories Undone” é também um disco de charneira. Há algo de definitivamente muito novo depois dele.
“Luna Park” é incatalogável. Ele pertence aos Blind Zero, mas não é possível inseri-lo em nenhuma fase da sua música: pelo que podemos apenas concluir que uma nova fase se está a iniciar. Talvez não seja ao acaso que, em “Fun House”, Miguel Guedes repita “take another look at me now”. “Luna Park” tem mesmo que ser olhado, ou melhor, ouvido, com atenção, porque não é um álbum fácil, ou óbvio, pelo menos.
O contraponto entre a luminosidade e a obscuridade que foi feito separadamente nos álbuns de 2003 e 2005 é agora completamente condensado. Estas músicas têm algo de depressivo, mas também algo de muito esperançoso.
Não raras vezes as letras de Miguel Guedes nos confrontam com situações-limite, dolorosas, incisivas. Mas a sonoridade das canções consegue, estranhamente acompanhar essa espécie de desespero mas apontar-lhe também uma luz. Aproprio-me de dois versos do poeta Egito Gonçalves que me parecem fazer sentido aqui: “aumenta a raiva/ e a esperança reproduz-se”.
Prendo-me, a propósito disto, um pouco acerca do título: “Luna Park” é uma referência literária, mas também nos remete para uma espécie de parque de diversões: claro que este não é um disco divertido, longe disso aliás, mas é, de certa forma, uma sequência da ideia das caixas de bonecas que encontrávamos em “Black Roses” de “The Night Before and a New Day”: é olhar o dramatismo da vida com um olhar quase infantil, metaforicamente, ou seja, é o abandono da ideia do “sem-esperança” que parece ter-se tornado distintivo de tantas bandas ditas rock em Portugal e não só, e é antes um olhar que desdramatiza ou que para isso caminha, como se a vida se resumisse a esse parque de diversões onde se atravessam situações vertiginosas, mas das quais sabemos que sairemos ilesos. Ou quase, no que toca especificamente a este álbum.
É um pouco isto que nos oferece “Luna Park”. Os casos mais evidentes parecem-me ser “Fun House” ou “Loose Ends”, “How The Wind Blows” e de certa forma, também “Two Days”: é perante um sofrimento que as palavras nos colocam, mas a música faz o percurso “das trevas para a luz” (É de Isabel de Sá que agora me aproprio.).
A música perde um pouco da “crueza” que encontrávamos em “One Silent Accident”, por exemplo, dando mais atenção a arranjos de voz e outros. O que perde em “peso de som” ganha em sofisticação.


Em termos gerais, “Luna Park” não representa mais que um acto de profundíssima liberdade. E é minha crença pessoal que sem liberdade, não pode existir arte alguma. “Luna Park” é uma recusa de qualquer fórmula, não há uma sequer música que nos remeta para qualquer música passada; e é o disco em os Blind Zero correm mais riscos. São cinco discos de originais antes deste, e agora surge-nos um inesperado desvio. E um desvio que prova a flexibilidade da sonoridade dos Blind Zero. Porque pode perfeitamente moldar-se a um som mais suave sem deixar a sua atmosfera “urbano-decadente” dita grunge, sem qualquer tipo de depreciação. São aliás as canções onde se sente mais esta dualidade as mais fortes do álbum. Refiro-me a “Back to the Fire”, “Fun House” (Que me parece ser o ponto mais alto do álbum.) ou “All Alone We Dance”: além de canções de uma sonoridade distinta e conscientemente entristecedoras, são também dos melhores momentos líricos de Miguel Guedes, que à qualidade lírica nos tem já vindo a habituar. Arrisco, aliás dizer que Miguel Guedes é o melhor letrista português: em nenhuma outra banda as letras estão tão próximas da poesia. Excluo disto, como não podia deixar de ser, os Clã, mas o caso deles é diferente, pois que as letras são muitas vezes da autoria quer de letristas mais “conceituados” como Carlos Tê ou Sérgio Godinho, quer mesmo de poetas como é o caso de Regina Guimarães.
“Luna Park” segue também o esquema normal de todos os discos dos Blind Zero: uma dúzia de canções, todas elas incisivas, sem palha, e cada uma construída com minúcia e extremo perfeccionismo. Não estamos perante uma música de características barrocas, mas estamos perante uma música onde não se dispensa o pormenor. Daí a complexidade do som, que é mais audível aqui do que em qualquer momento passado. E isso acontece mesmo em “Slow Time Love” que se poderia considerar, de todo o conjunto, a canção mais radio-friendly.
Não esqueçamos também, porque é essencial, que “Luna Park” é uma edição de autor (O que, depois da quantidade/qualidade de produtores com quem já trabalharam é um acto de coragem.), onde o material é totalmente produzido pela própria banda. Se calhar, só esse tipo de “isolamento” poderia permitir a criação de um objecto com a qualidade de “Luna Park”. É já antiga a máxima de que a criação artística é primeiramente um acto de egoísmo, e isso é claro neste disco: não foi feito para agradar a ninguém. Mas o facto é que agrada e muito. Pelo menos a quem estiver interessado em ouvir Blind Zero. Aqueles que estão à procura dos Pearl Jam portugueses não os vão encontrar aqui, mas também duvido que procurem, porque há já muito tempo que não os têm encontrado.
Se é ou não o melhor álbum dos Blind Zero, não consegui decidir ainda. Mas que fica acima de qualquer expectativa, isso é sem dúvida.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Agustina tem destas Coisas (14)

Há raros momentos de clarividência, mesmo nas criaturas mais triviais, e é sempre o sofrimento que os provoca.
.
.
.
.
.
De “A Sibila”

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No Sol



Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria

eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos
os momentos

caídos;
foi um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,

porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos


Gastão Cruz
A Moeda do Tempo
2006, ed. Assírio e Alvim


desenho de Graça Martins

quarta-feira, 9 de junho de 2010

The Forge



All I know is a door into the dark.
Outside, old axles and iron hoops rusting;
Inside, the hammered anvil´s short-pitched ring,
The unpredictable fantail of sparks
Or hiss when a new shoe toughens in water.
The anvil must be somewhere in the centre,
Horned as a unicorn, at one end square,
Set there immovable: an altar
Where he expends himself in shape and music.
Sometimes, leather-aproned, hairs in his nose,
He leans out on the jamb, recalls a clatter
Of hoofs where traffic is flashing in rows;
Then grunts and goes in, with a slam and flick
To beat real iron out, to work the bellows.






Seamus Heaney
Door Into The Dark
1969, ed. Faber and Faber
imagem de Henri Cartier Bresson

terça-feira, 8 de junho de 2010

Hipóteses Individuais



Habituo-me, self-service, a fazer da visão
um modo de não ver. Guardo o tédio
como algumas jóias velhas. Talvez um dia,
quem sabe. Às vezes creio que também
sou um filho de Deus, embora nada no
bilhete de identidade ou no ritmo diário
o faça prever. Pressinto, desastrado coração,
que há talvez e que o tédio, afinal,
é tão só um mode de ter e ser dono,
de poder abrir e fechar janelas
como quem fica à espera de que
a insónia dê lugar ao sono. Com essas
manchas de inteligência, com os relâmpagos
dessa lucidez, levanto-me e procuro
um horóscopo diferente, em que ninguém
crê, nem eu. Curiosamente, habituo-me
a morrer como se fosse um café na hora
de fechar: periscas no chão, mesas e cadeiras
-vazias, empilhadas-, uma luz verde
que chega a ser bela quando alguém
acende um cigarro.





Carlos Luís Bessa
Em Partes Iguais
2004, ed. Assírio e Alvim
imagem de Daniel Blaufuks

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Twin Peas: Firewalk With Me de David Lynch

PORQUE A POESIA É MAL AMADA



Twin Peaks: Firewalk With Me” terá sido dos filmes mais mal recebidos de David Lynch. Aquando da sua estreia, em 1992, foi um fiasco em termos críticos e de audências, se bem que esta última parte não surpreenda, porque os filmes de Lynch nunca foram para o grande público.
Parte do problema, parece-me, terá a ver com o facto de o filme ter surgido demasiado em cima da série. A própria série, depois da descoberta do assassino de Laura Palmer, entrou numa espécie de declínio em termos de opinião dos fãs. Mas o filme foi, de longe, bem mais injustiçado.
É evidente que seria quase impossível produzir um filme que é, para todos os efeitos, uma prequela, para uma peça tão fora de série como a série. E é precisamente no confronto com a série que o filme pode, numa primeira observação, parecer cheio de falhas e resultar mal. Relembremos que o filme é escrito por Lynch e Robert Engels que, mesmo tendo sido argumentista de vários episódios da série, não foi dela um dos criadores: o não-envolvimento de Mark Frost no filme talvez tenha tido também o seu peso.
Ao contrapor a série com o filme vemos de imediato bastantes incongruências: repare-se que no filme, Donna Hayworth assiste a Laura a prostituir-se, chegando a quase fazê-lo ela mesmo, sob o efeito de drogas: ao passo que, na série, esse lado da vida de Laura era totalmente desconhecido de Donna.
A cena do jantar em que Leland Palmer quase agride a filha também não está de acordo com a série pois, como vemos, Sarah Palmer nunca aponta nenhum comportamento estranho de Leland para a filha quando é interrogada pela polícia.
Outro exemplo é o facto de, no segundo dos seus últimos sete dias, Laura Palmer ir deixar o seu diário secreto a casa de Harold Smith. Não a vemos regressar a casa dele (Ela diz, inclusivamente, que poderá não voltar a visitá-lo.), e, na série, Harold deixa, antes de se suicidar, um envelope para Donna onde estão as últimas duas páginas escritas por Laura nesse diário secreto: na véspera da sua morte e no dia da sua morte.
Mais ainda, quando Leland Palmer leva Laura e Ronette Pulaski para o comboio abandonado, Ronette consegue sair antes de Laura morrer e na série, vemo-la ter flashbacks de Laura a ser assassinada.


Repare-se que todas estas falhas são apontadas quando confrontadas com a série.
E por um lado, não pode ser de outra maneira: o flme começa com o caso de Teresa Banks, assassinada em Deer Meadow nas mesmas circunstâncias que Laura. A investigação leva ao desaparecimento de Chet Desmond, agende do FBI, que é substituido por Dale Cooper. É público que David Lynch pretendia uma presença mais contínua de Kyle McLachlan no filme, mas este terá recusado, por estar já altamente associado ao personagem de Cooper e, diga-se de passagem, foi o papel da vida dele.
Um ano depois, um detective interpretado por David Bowie aparece no escritório onde trabalham Cooper e Gordon, o cómico e mouco David Lynch, dizendo que esteve “numa das reuniões deles”: “eles” são as figuras do Mal, ou a ele associados, que se reunem numa mesa de fórmica: o liliputiano que se apresentará como “o braço”, deduzimos que o braço amputado de Mike, o braço que matava, Bob e os Chalfut, avó e neto, neto este que estuda magia e usa uma máscara sem orifícios, apenas com um nariz afiado.
A questão de “Twin Peaks: Firewalk With Me” é que talvez não deva ser levado tão à letra numa comparação com a série, ainda que se sirva de todo o imaginário, fortíssimo, criado pela série. Para tal talvez não seja gratuito referir que o filme começa com uma televisão a ser destruída por uma bala. Penso que qualquer interpretação disto dispensa ser escrita, de tão óbvia.
Porque, verdade se diga, se se esquecer estas incongruências com a série, como podemos dizer que este é um mau filme?
Pelo contrário, é um dos melhores e mais bizarros filmes de Lynch, ainda que siga uma estrutura de narrativa linear, cheio de imagens absolutamente poéticas e momentos de uma pungente tristeza a que é impossível ser-se indiferente.
É uma faca de dois gumes este filme: ele tem uma relação inevitável com a série, e isso torna graves as já referidas incongruências, mas, por outro lado, como peça isolada, só pode ser um grande filme.
Encontramos Laura Palmer como a rapariga do coração divdido: ela é a estudante do liceu, raínha do baile que namora com o capitão da equipa de futebol, tem um amante. Por outro lado, é também uma prostituta ocasional, chuta cocaína constantemente, é uma verdadeira viciada, mantém relações com inúmeros homens, e é violada desde os 12 anos por um homem, Bob, um espírito cuja identidade ela não consegue deslindar.
Mas em “Firewalk With Me”, mesmo a questão da possessão de Bob a Leland Palmer quase passa para segundo plano: vemos, angustiadamente, a obcessão de Leland pela filha, a relação incestuosa que existe entre eles.
Há um profundo lirismo neste filme. Mais do que nunca, somos incapazes de sentir que Laura é cruel ou uma perdida. Como poderíamos pensar isso quando a vemos chorar enquanto ouve Julee Cruise no Roadhouse, antes de um cliente vir ter com ela?
É um filme cheio de momentos de um onirismo comovente, profundamente estéticos, como o quadro que os Chalfut oferecem a Laura, e as alucinações que ela tem com ele; ou como o sonho onde Cooper, ao lado do “braço” pede a Laura que não aceite o anel de Teresa, pois que este significará a sua morte.
É aqui, mais do que na sére, que vemos Laura a afundar-se na loucura em que a sua vida se tornou: uma vida errática e destrutiva, de que ela está consciente. E David Lynch filma essa destruição de uma forma tão crua, tão realista, que nos sentimos a cair com Laura Palmer, e lamentamos profundamente o seu final amargo.
Sentimos essa tristeza, como sentimos a confusão de Laura Elena Harring em “Mulholland Drive” ou o desespero de Laura Dern em “INLAND EMPIRE”.

E, mais do que isso, vemos como a destruição de Laura arrasta consigo a destruição de tantos que estavam à sua volta.
Mais do que nunca, a imagem que temos de Laura é de força. Não propriamente a mulher forte que consegue todos os homens que quer e tem prazer nisso. Mas a que se recusa terminantemente a entregar-se ao mal. É aí que ela coloca o anel de Teresa e Bob é obrigado a matá-la. E mesmo aí, é desesperante quando, entre Bob nos surge Leland, que lhe diz que sempre pensou que ela soubesse que era ele que a violava: a questão do incesto é aqui levada a um extremo penoso: Leland, pai, fica triste por ver que a filha não percebia que era ele quem a violava.
Quando por fim ouvimos os gritos finais de Laura e a vemos a ser embrulhada em plástico, temos a maior sensação de estranheza que este filme dá: é que, quando começa, nós já sabemos como irá terminar, com Laura a ser encontrada morta na praia, mas na cena em que está com Bob no comboio abandonado, ficamos de certa forma surpreendidos por ela ser assassinada, como se não estivéssemos à espera que tal acontecesse.
Por fim, há que referir que “Twin Peaks: Firewalk With Me” não é sempre uma má prequela. Temos cenas que de explicam com toda a perfeição a vida de Laura, a vida que é, lentamente, descoberta por Dale Cooper e Harry Truman ao longo da série. Particularmente pungente é a cena em que Donna pergunta a Laura se ela acha que, numa queda eterna caíria sempre cada vez mais depressa ou se eventualmente abrandaria. Laura responde, num tom sereno mas que resulta angustiante:

“Faster and faster. And there would be no angels to hold you, cause they´re all gone. And for a long time, you wouldn´t feel anything. But then you would burst into flames.”

Com isto percebemos aquilo que, a meio da série, o psiquiatra, Lawrence Jacoby aponta: que Laura já decidira morrer. E estava consciente disso.
É por momentos destes que “Twin Peaks: Firewalk With Me” não poderia ser um mau filme, apenas incongruente. Mas não está cheio disso o cinema de David Lynch?




sábado, 5 de junho de 2010

Chazada



Solta-se da boca a gravata gangrenada,
no finca-pé se trabalha a infância
mártir por despeito; preferias viajar
como um móvel que sai de casa desmontado.

A mó que vive encostada
numa claridade de muros que só prometida pelos mortos
assim me é o fundo secreto dos teus olhos; e o aperto
de mãos que lá ficou.

Passeamos nos planos duma fortificação
um lanço de escadas devolve-nos à ideia de lar
às dívidas alegres; solta-se a ponta
da língua porque o futuro não dirá.





Regina Guimarães
Anelar, Mínimo
&etc, 1985
imagem de Matthew Barney

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Agustina tem destas Coisas (13)

Um homem de trinta anos que chora, ou é um imbecil ou é um poeta; a menos que uma dessas razões que desabam como uma avalanche sobre os temperamentos mas imutáveis venha convulsionar-lhe a alma, arrancando dela as emoções mais terríveis.
.

.
.
.
De “A Sibila”

terça-feira, 1 de junho de 2010

um poema




Não conhecia a noite povoada

Não conhecia a noite
cheia por dentro de espaços
e de tempos

Não conhecia a noite
andando primeiro pela estrada
e andando depois por um caminho

Não conhecia a noite
dos corpos sem amor
em êxtase de pé
devagarinho



Yvette K. Centeno
Poemas Fracturados
1967, Guimarães editores, colecção Poesia e Verdade
desenho de Sadsamson

sábado, 29 de maio de 2010

Showcase dos Blind Zero na Fnac do Chiado

O caso dos Blind Zero parece-me um muito raro no panorama da música portuguesa. Estamos cheios de bandas que não conseguem ter uma identidade própria, e que muitas vezes se ancoram em sonoridades vindas do exterior e essas origens, mesmo que boas, perdem a qualidade ao serem imitadas. Pode isto não se aplicar a algumas bandas como os Mesa ou os Wray Gunn, e não se aplica certamente a outras como os The Gift ou os Clã e, para retomar o início do texto aos Blind Zero.
E se os primeiros dois álbuns desta banda portuense poderiam oferecer algumas dúvidas, elas dissipavam-se justamente na última faixa do segundo disco “Redcoast”: “Subtitle” foi o primeiro acto de rebelião dos Blind Zero, rebelião no sentido da conquista de um som próprio e nítido.
Vários anos volvidos, passaram discos em que esta rebelião se consumou, uma espécie de best-of ao vivo que, nalguns aspectos, vinha “limpar” as fragilidades dos primeiros álbuns e anuncia-se agora o lançamento de mais um álbum de originais: “Luna Park”.
O showcase na Fnac, hoje à tarde, foi uma espécie de ante-estreia do disco. Curta, sete canções apenas, mas suficiente para se ter a certeza absoluta de que os Blind Zero compuseram mais uma “pedra” firme para a construção do seu “edifício” musical.
Um showcase nestas condições, em que o álbum ainda não foi lançado, oferece, à partida, sempre uma certa estranheza ao ser ouvido, o próprio Miguel Guedes para isso adverteu. Neste caso, essa estranheza existiu mas, contrariamente ao que possa parecer, o facto de existir essa estranheza é um excelente sinal: só se estranha aquilo que é novo.
E em nenhuma destas sete canções me pareceu que os Blind Zero estivessem a repetir alguma canção anterior, sequer a repetir qualquer fórmula. São, no sentido mais pleno da palavra, canções novas.
Abriram com “Two Days”, canção de um pendor algo romântico, seguiu-se “Snow Girl”, segundo single já lançado de “Luna Park”. A terceira canção pareceu-me, em tempo-real, a mais forte das sete apresentadas, “Back To The Fire”, que recupera, em termos de som, uma violência que soava noutros álbuns, e em termos de letra, reflecte muito bem a excelente capacidade de escrita de Miguel Guedes, altamente metafórica. “Loose Ends” terá sido eventualmente a canção mais melancólica das apresentadas, mas mesmo essa melancolia soa diferente de outras canções anteriores, exemplifico de memória “Super 8” ou “Lately”.
“How The Wind Blows” e “Fun House” criaram uma espécie de ponto-de-rebuçado entre a tal violência de “Back To The Fire” e a melancolia de “Losse Ends”, e, por fim, “Slow Time Love”, primeiro single já há muito lançado, fechou o espectáculo com uma espécie de “alegria”: é, parece-me, das sete canções apresentadas, aquela que mais reflecte uma espécie de “esperança”, é uma das canções mais luminosas dos Blind Zero até agora, e esse é um lado que, para todos os efeitos, faz falta também.
“Luna Park” é editado na segunda feira, em edição de autor, o que me parece mais uma prova da total conquista de liberdade por parte dos Blind Zero que, agora, compõe e produzem o próprio material. Quanto a concertos, eis um pequeno calendário:
2 de Junho à meia-noite no Music Box em Lisboa, 3 de Junho da Fnac do Colombo às 17 horas, no mesmo dia às 21 e 30 na Fnac de Leiria, dia 9 às 22 horas na Fnac de Coimbra, dia 10 na Fnac de Braga às 22 horas, dia 13 no Fnac do GaiaShopping às 17 horas e, por fim, dia 23 na Casa da Música do Porto à meia-noite. Vale a pena ir.


à falta de imagens do showcase, fica aqui o vídeo de "Snow Girl"

High Windows



When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives-
-Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.


Philip Larkin
High Windows, 1974


Quando vejo um par de miúdos
E calculo que ele anda a fodê-la e ela
A tomar pilúlas ou a usar um diafragma,
Sei que é este o paraíso

Com que todos os velhos sonharam a vida inteira-
Preconceitos e cadeias postos de lado
Como uma ceifeira mecânica antiquada,
E os jovens deslizam sem mais parar

Pelo longo escorrega da felicidade. Pergunto
Se alguém, olhando para mim há quarenta anos,
Terá pensado,
Aquilo é que é vida;
Nem Deus, nem suores no escuro

Com medo do inferno, sem ter que disfarçar
O que pensa do padre. Com os outros irá
Sem parar pelo escorrega até ao fim,
De asas ao vento tal qual as aves.
E logo surgem

Não palavras, mas imagens de janelas altas:
O vidro abrangendo o sol
E para lá dele, o fundo ar azul, que mostra
Nada, está em lado nenhum e não tem fim.



Trad. Maria Teresa Guerreiro
In “Uma Antologia”
Ed. Fora de Texto, 1989
imagem de Edward Hopper

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Muse no Rock In Rio

Evidentemente, não fui a todos os dias do Rock In Rio, não me interesso particularmente pela Leona Lewis nem pelo Elton John, eles que me desculpem.
Fui, isso sim, ao dia dos Muse. Diga-se de passagem que o dia em si foi uma seca: o concerto dos Fonzie a roçar uma fragilidade quase penosa, o concerto dos Xutos a decadência que sempre me parece. Irritante também é aquela mentalidade de negócio no recinto: da comida às bebidas, tudo caríssimo e cheio de filas, booms de publicidade por todo o lado, enfim, mais do que um festival de música, o Rock in Rio é um negócio que nem se esforça muito por se disfarçar de evento musical.
Antes de passar à parte boa do dia, ou melhor, da noite, o concerto dos Muse, uma pequena nota para os Snow Patrol de quem esperava um concerto vulgaríssimo e que, afinal, até nem foi mau de todo, pelo menos na parte que eu ouvi enquanto furava pela multidão.

Agora sim, o concerto dos Muse. Foi do outro mundo. Matt Bellamy, ao entrar no palco, fez essa expressão ser literal: completamente vestido de brilhantes prateados e com um óculos engraçadíssimos.
Além do visual de Bellamy, referência ao palco, onde os ecrãs em forma de favos transmitiam imagens que facilmente se podem tomar por video-art, e a iluminação, também profusa e delirante.
Delirante será talvez a palavra de ordem para falar do espectáculo dos Muse. Um espectáculo que excede largamente o conceito de “concerto” e se transforma em algo mais, que tem algo de teatro, de performance, de manifesto, enfim, algo que revela uma personalidade profundamente artística.
A abertura foi feita com “MK Ultra”, que, não sendo definitivamente um dos momentos mais fortes do concerto, teve um enormíssimo impacto por ser a entrada em palco. Mas mais assinaláveis foram os momentos seguintes: “Map Of The Problematique”, resgatado do álbum anterior, e “Uprising” que lançou este “The Resistance”.
Aliás, o impacto brutal que “Uprising” teve no público lembrou-me uma outra canção de uma outra banda. Refiro-me ao “Zombie” dos The Cranberries, uma música que marcou em definitivo uma geração, e que foi um hino a um tempo musical e político que falou por essa geração. “Uprising” pode muito bem ser um sucessor de “Zombie”, porque fala também musical e politicamente pelo seu tempo, pela sua geração. Porque se muitas vezes Matt Bellamy é subtil ao escrever sobre política, em “Uprising” é inquestionável a tónica política e mesmo revolucionária. Mas sobre isto, já falei quando o disco foi lançado (“
Política Lírica”.) e não me parece oportuno repetir tudo o que já disse.
Um aspecto interessante neste concerto, e que não é de todo mau, foi o carácter antológico do alinhamento. Não se tratava de um concerto da digressão de “The Resistance”, mas uma espécie de “best of”, que é sempre o mais conveniente para os festivais, dado que costuma haver tanto de fãs como de apenas-festivaleiros; se bem que no caso deste concerto dos Muse não parecia ser o caso, pois as letras eram acompanhadas pelo público em geral, e não só os singles.
Outros momentos de referência foram sem dúvida “Supermassive Black-Hole”, completamente alucinado, “Time Is Running Out”, “Starlight” (De longe o tema mais radio-friendly dos Muse.) ou “Citizen Erased”. Em relação a canções do disco mais recente, além de “Uprising”, tocaram “Undisclosed Desires” e “Resistance”, os singles, "United States of Eurasia" e "MK Ultra".
O encore marcou-se com “Plug-In Baby” e a fechar uma versão re-arranjada de “Knights Of Cydonia”, outra letra inquestionavelmente política.
Não se pode dizer que tenham sido muito comunicativos, Matt Bellamy e Chris Wolstenholme dirigiram-se ao público raramente, mas, verdade se diga, não foi necessário haver muitas falas para o público porque a força da música criou toda a adesão necessária, e interacção não faltou, mesmo em momentos mais “calmos” como foi o caso de “United States of Eurasia”. E, se há alguma coisa a questionar em relação às opções dos Muse para este concerto, é até que ponto o “tronco” do alinhamento não era constituido por canções desse álbum. É verdade que foi marcante, e que fixou definitivamente o nome dos Muse como uma banda incontornável, mas é também verdade que ainda que só com ele tenha vindo a aceitação crítica, em termos de público, os álbuns anteriores criaram a “fama” dos Muse. Refiro-me a canções que poderiam ter sido tocadas de “Origin of Symmetry” ou “Absolution” principalmente.
O concerto terminou ao fim de quase duas horas com muito muito fumo, mas certamente não se “esfumará” tão facilmente da memória de quem assistiu.





Uprising





Resistance

[o jardim cortado]



quando eu tinha muitos sonhos vivos que me faziam ter uma idade superior à que a palavra idade me daria, fugia muitas vezes para o quintal de minha casa, doente de toda a gente, e abraçava as árvores mortas. elas encostavam a seiva ao meu coração, e eu aspirava uma vida omnipotente de ventre e de força. ouvia-as naufragar dentro do meu coração com a sua voz de rio morto. aí nasciam as metáforas, os longos jardins cortados, a minha forma afásica de dizer ao mundo que me desejava apenas a mim o próprio fim, cortado por todas as espécies de perversão amorosa; aí eu aprendia que tinha que correr uma distância por dentro até chegar aos vários degraus que implicavam a minha morte.
a árvore que dava nêsperas na minha infância morreu quando eu tinha doze anos. havia uma cobra encostada á raíz. disse-me que era em tudo igual ao instrumento mais potente do meu corpo, o mais elástico de vontade, o mais atento ao cérebro, à memória, ao inesperado. deu-me depois um livro. eu comi o livro, como o apocalipse mandava.
perguntei-lhe o nome. disse-me apenas que se chamava crevel. eu disse-lhe que já tinha lido um livro de apelido parecido, mas ela fugiu para dentro do livro e nunca mais a vi a ela, nem à árvore. mas um destes dias, fazendo amor violentamente, uma cabeça da cobra deitou dentro de ti uma seiva de livro, e os meus galhos de asas cortadas abriram os teus ombros.


Pedro Sena-Lino
As Flores do Sono: Prelúdios e Fugas
2002, ed. Litera Pura

imagem de Magritte