sábado, 17 de julho de 2010

Marés Vivas: Placebo

BATTLE FOR THE SOUND

O segundo dia do Marés Vivas contribuiu consideravelmente para a atmosfera de amadorismo que me pareceu tão evidente no primeiro dia.
Eram cerca de onze e meia quando os Placebo entraram em palco, tendo saido pouco mais de uma hora depois. E quem já teve oportunidade de assistir a outros concertos só pode ter ficado desiludido. O concerto no Marés Vivas é bem capaz de ter ficado aquém do polémico concerto no Creamfields (2007) em que Brian Molko abandonou o palco ao fim de 50 minutos supostamente por ter ficado sem voz, apesar de todos terem percebido que os problemas de som foram a razão que o fez virar as costas.



A verdade é que este concerto está muito proporcional a todo o espírito do festival da Praia da Afurada, mas é muito ingrato para um álbum como "Battle For The Sun" (2009), que contém algumas das canções mais interessantes dos Placebo.
Destas canções foi possível ouvir "Ashtray Heart", "Battle For The Sun", "Breathe Underwater" ou "The Never Ending Why". Apesar de no fundo me lamentar um pouco por não ter ouvido momentos como "Come Undone" ou "Kitty Litter", o problema do concerto de ontem não foi o álbum mais recente, mas a incisão nos álbuns passados que pode ter resultado muito bem em "Nancy Boy" e até em "Bionic" (Isto falando dos mais recuados porque já se sabe que outros como "Every You and Every Me" ou "The Bitter End" nunca deixaram de ser apoteóticos.), a verdade é que noutros momentos soou frouxo, como se os Placebo estivessem a tentar reavivar um passado que, para o bem e para o mal, não faz parte do melhor que a banda tem para oferecer, pelo menos ao vivo num festival onde, já se sabe, sempre são mais convenientes as canções mais fortes e talvez imediatas.


No entanto, para um ouvido atento e conhecedor da música dos Placebo, o alinhamento foi um mal menor em comparação com os problemas de som que roçavam o insultuoso: a voz de Brian Molko apagava-se constantemente quando se ouviam os sintetizadores, as notas altas em que o vocalista é tão perito quase perfuravam os tímpanos, e em canções como "Taste In Men" ou "Meds" ou "Post Blue" as guitarras sofreram de uma incomodativa falta de nitidez.
Surpreendente foi também a simpatia de Brian Molko, de longe muitíssimo mais comunicativo do que o habitual (Good evening, Molko boys and Molko girls...), e até cómico por vezes.
Refira-se ainda o momento brutal que foi "Trigger Happy" e a cover de "All Apologies" tão surpreendente como bem inserida.
Podia ter sido pior, mas a verdade é que noutro festival facilmente seria melhor. Não deixa de ser estranho que um concerto de um álbum tão bom possa ser arruinado pela falta de profissionalismo da organização. Esperemos que "Battle For The Sun" seja tocado uma vez mais em Portugal, de preferência onde seja BEM ouvido. É que no Marés Vivas tem que se batalhar mais pelo som do que propriamente pelo sol, e isso não convém a uma boa banda.

Fotos: BLITZ



Every You and Every Me


Battle For The Sun


Trigger Happy


All Apologies

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Marés Vivas: Goldfrapp

ELECTRO-CHOQUES


Além do amadorismo da organização e do ambiente a roçar o são-joanino, o primeiro dia do festival Marés Vivas (Vila Nova de Gaia) foi marcado, em termos de música, pelo regresso de Skye Edwards aos Morcheeba e pelo concerto dos Goldfrapp, que regressam a Portugal para apresentar "Head First".
Este concerto, com dois anos de distância do anterior, no Sudoeste, vem provar duas coisas: a primeira é que os Goldfrapp são uma grande banda, a segunda é que o público português não percebe muito do assunto, e o do Marés Vivas menos ainda. A noite foi, em comparação ao SW, parada e aborrecida, o que não deixa de ser estranho porque me quer parecer que o alinhamento deste concerto era mais "festivaleiro" do que o do SW.


Mas esqueçamos o público e foquemo-nos no concerto. A verdade é que "Head First" é um disco que vem recuperar o fôlego onde o seu antecessor, "Seventh Tree" respirava calmamente. As canções, onde não deixa de ser notório um rumor de anos 80, intercalaram-se neste concerto com canções passadas que são agora transformadas, trazidas essencialmente de "Black Cherry" (2003) e "Supernature" (2006).
E talvez tenha mesmo sido "Supernature" o maior problema deste concerto: as canções são poderosas, sonantes e verdadeiramente chamativas, mas a verdade é que passaram dois discos deste esse e "Supernature" ainda é obrigatório. Se por um lado isso é um evidente sinal de que os Goldfrapp têm (pelo menos) aí um grande álbum, por outro um concerto de apresentação deixa de o ser propriamente. Claramente este era um concerto de dança, mais que outra coisa qualquer, e a melhor prova continua a ser o facto de em "Felt Mountain" (2000) e em "Seventh Tree" (2008) não se ter tocado.




Fora isso, os Goldfrapp souberam seleccionar as canções mais festivas e mais do lado electropop, tanto do álbum mais recente, como "Alive", "Dreaming", "Shiny and Warm" além do obrigatório "Rocket", quer do passado, como "Train", "Cristalline Green" que abriu o concerto em grande estilo, "Ride On a White Horse", "Number One", "U Never Know" ou o evidente "Ooh La La". Para o fim ficou a nova versão de "Strict Machine" que foi o culminar de todos os electrochoques que marcam o estilo dos Goldfrapp. Apesar do som estar demasiado alto, pareceu-me, estava assinalavelmente nítido, com a distinção perfeita entre os vários instrumentos e os vários sintetizadores, tocados pela banda vestida à anos 80.
Foi de lamentar que não houvesse encore.
Allison Goldfrapp estava fantástica como sempre, Shiny and Warm no seu poncho preto e prata e o seu estilo ébrio/perverso. Falando pouco, acabou por comunicar bem com o público através do movimento e de pequenos comentários. Escusado será dizer que apoteose foi em "Ooh La La", o único momento em que o festival se assemelhou minimamente a um festival. Não deixa de ser estranho, porque afinal a música dos Goldfrapp celebra a vida.
Como sempre, excelente.


Number One


Ooh La La


Rocket

domingo, 27 de junho de 2010

Let´s Rock

a famosa cena da sala vermelha, do terceiro episódio de "Twin Peaks", realizado por David Lynch.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Passatempo: "Descubra as Sete Diferenças"

Leona Lewis: Bleeding Love

Katy Brand: Heart Bypass Love

Katy Brand, sempre melhor que o original

neste caso, "Bad Spella", incarnando o "Umbrella" de Rhianna. Como a própria diz, "my songs don´t make much sense"




e aqui, como Lady Gaga que enquanto "just dance(s)" has "No Pants"

love without pain isn´t really romance
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Royksopp, Only This Moment

The Saddest Thing to Say

Legendary Tigerman e Lisa Kekaula, ao vivo.

sábado, 19 de junho de 2010

Provavelmente Tristeza

Há dias assim, em que vemos de certa forma desaparecer uma referência da nossa vida, cultural e outra. É um desaparecimento que não o é realmente ou completamente, mas não deixa de se perder alguma coisa.
Morreu ontem José Saramago, um dos meus romancistas preferidos, e, de certa forma, perdi uma referência que era cultural, ideológica, e por ser estas duas coisas, pessoal também. Ou principalmente.
Em 1998 foi Prémio Nobel da Literatura, também. Apesar disso, penso que só posso falar de mim, do que significa para mim.



Os livros de José Saramago existiam na casa dos meus pais antes de existir eu, mas para mim, José Saramago começou há cinco anos atrás: eu tinha quinze anos e o "Ensaio Sobre a Cegueira" fez-me ver muitas coisas, bem como o "Ensaio Sobre a Lucidez" que li quase de seguida. Percebi logo que Saramago excedia largamente o conceito do romancista. Ele era, e continua a ser, um pensador, verdadeiramente um lúcido, mesmo quando parecia lúdico. Do José Saramago que tentava ser poeta dos "Poemas Possíveis" e de "Provavelmente Alegria" ao José Saramago que na prosa conquistou a plenitude, ensaiou brilhantemente sobre a nossa cegueira política e humana, uma cegueira profunda e praticamente irresolúvel. Era um homem de uma inteligência extrema que nunca foi glacial, porque a ele devemos também histórias de amor como "Memorial do Convento" que, apesar de desde há vários anos ter vindo a ser objecto de tentativas de destruição com o ensino secundário, continua sendo uma das maiores histórias de amor alguma vez escrita, um amor que é muito mais épico do que o épico da construção do convento de Mafra, o amor entre um homem maneta e uma mulher que em jejum via os homens por dentro e que para não o ver a ele todas as manhãs de olhos fechados comia uma côdea de pão.
A José Saramago devemos também romances que pensam a uma luz diferente da habitual questões como a morte, que parece agora ter mais importância ainda, como em "As Intermitências da Morte", da História de um país e do seu povo, como em "Levantado do Chão" e mesmo de referências culturais como em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", além da igreja, que não deixa de nos parecer uma forma de fuga de um mundo sem deus, como vemos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e mais recentemente "Caím", romances de uma leitura tão complexa quanto pungente e que tão mal caíram a um país em fuga do seu estado sitiado como é Portugal.
Talvez por o ver morrer o seu autor, parece-me inevitável pensar em "As Intermitências da Morte". Lembremos que a Morte se apaixona pelo violoncelista e "no dia seguinte ninguém morreu". Não só percebemos que afinal a Morte ainda não se apaixonou, como ainda não aprendeu a falar para nós, porque ainda não aprendeu a dizer nada perante a maior dor humana. Isto já o dizia Saramago no seu romance, e ainda não mudou.
Como não mudou ainda a nossa cegueira, a nossa falta de lucidez, a nossa vassalagem ao poder instituido, a nossa falta de rebelião, a nossa inépcia. Saramago não fez mais do que lhe competia: pensou, deu-nos essa arma e a possibilidade de a usar.
Agora que morre o homem e nos ficam os livros, só me resta desejar a José Saramago que por muito tempo não descanse em paz, porque não consigo imaginar pior destino para um artista do que descansar em paz. Espero que durante muito tempo lhe dêem voltas e mais voltas e se debrucem sobre a sua obra de uma forma mais séria do que enquanto foi vivo e despertou tantas invejas e dores de cotovelo, como convém a todos aqueles que arriscam estar acima da banalidade.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

vídeos novos (ou nem por isso) de dois velhos presentes nos meus headphones

a sensualidade serena e exótica de Sade Adu em "Soldier Of Love", titletrack do álbum de 2010. Um regresso aguardado que não desilude



não menos sensuais, os Editors com "You Don´t Know Love", segundo single do mais recente "In This Light and On This Evening"

Alberto Pimenta- Ana Hatherly

Lisboa, 10 de Janeiro de 1996

Ana

desculpe
estou em pânico, a minha mulher há dias desapareceu, perdão, veja lá, já nem escrever sei: a minha mulher a dias desapareceu.
Já comprei montes de tachos e de louça, e também roupa. Mas os montes de coisas sujas acumulam-se, fora, mas acho que também dentro de mim. A única vantagem dos tachos é defender das pistolas. Elles agora trazem pistolas. Piss-tolas… ih ih! Esguicham tudo. Os tachos é para aparar, percebe?
abraço
Alberto



18 de Janeiro de 1996
p. 125 do meu [Ana Hatherly] Diário Infrequente:

Recebi uma carta do Alberto. Acho que endoideceu. Elles devem tê-lo esvaziado completamente. O que vai ser agora da nossa causa?



Alberto Pimenta e Ana Hatherly
Elles- Um Epistolado
1999, editorial Escritor

Amália- Grito

e aqui cantado

Grito

Silêncio
Do silêncio faço um grito
Que o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ao céu

Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais quando se vive atrás dela
E eu
A quem o sol esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora

Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai, solidão
Quem fôra escorpião
Ai, solidão
E se morder à cabeça, adeus

Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada à parede,
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura



Amália Rodrigues
Versos
2004, ed. Cotovia

domingo, 13 de junho de 2010

uma prosa poética



Elles montent la guarde. Elles se relaient. Si leur vigilance jamais ne se relâche, elles savant pourtant se montrer discrètes, voire plaisantes, comme por atténuer la rigueur d’un châtiment à l´execution duquel elles veillent mais qu´elles n´ont pas pronocé. Elles ne jugent pas, se contentent de vérifier que l´ordre règne et ne manifestant aucune animosité à l´égard des condamnés. Il ne faut pas toutefois songer à echapper à leur surveillance: sous leur mine indifférente ou avenante, elles sont implacables, ne connaissent que le service et chacune tient à laisser tout en ordre à celle que vient la remplacer. Simplement elles n´éprouvent pas le besoin de forcer la note patibulaire, de s´harnecher d´un cuirasse ou de porter une arme. Elles sont restées féminines en dépit de leur métier. Elles se ressemblent par l’uniforme, mais chacune s’efforce, par la coiffure, le port d’un bijou ou quelque maquillage, de se distinguer de ses collègues. Elles ne cherche pas à séduire et pourtant rivalisent de subtiles coquetteries. Elles font un sale boulot, le savent; aussi se réjouissent-elles de sentir parfois, à son accueil, au moment de le relève, qu´un prisonnier les attendait, qu´elles peuvent représenter une lumière symbolique, uns présence réconfortante à défaut d´une rédemption, même pour un coeur endurci. Elles ne remercient jamais, ne distribuent aucune faveur. Les rapports entre gardes et prisonniers se maintiennent cordiaux tant que les distances sont respectées. Toute intimité entre eux est proscrite. De toute manière, elles restent muettes pendant la durée de leur garde. Elles peuvent sourire mais ne se laissent pas attendrir. Satisfaites qu´on les admire, heureuses qu´on les attende, dédaigneuses qu´on les craigne, elles sont incorruptibles et semblent na jamais être touchées de la souffrance réelle ou feinte des reclus qu´elles ont à charge de surveiller. Au moins sont-elles impartiales. Pourtant on les amerait plus faibles, plus humaines. Leur silencieuse présence suffit à faire pescer plus lourd le joug de la punition. Car l´homme, dans son inconscience, a pu croire lors de l´expulsion de l´Éden qu´il gagnait au change, qu´il troquait un jardin pour le vaste monde, alors qu´en fait il quittait l´éternité pour le bagne du temps.

Saguenail
Exils
2009, ed. Hélastre

desenho de Sadsamson (2008)
***

Elas montam guarda. Cansam-se. Mesmo que a sua vigilância nunca baixe, elas sabem portanto mostrar-se discretas, até prazenteiras, como se atenuassem o rigor de um castigo daquele que elas velam sem o pronunciarem. Elas não julgam, contentam-se em verificar que a ordem reina e não manifestam nenhuma simpatia pelos condenados. Nem sempre é preciso pensar em escapar à sua vigilância: no seu rosto indiferente ou afável elas são implacáveis, não conhecem senão o seu serviço e cada uma tem que deixar tudo em ordem para a que a vem substituir. Simplesmente elas não aprovam a necessidade de forçar a nota patibular ou de exibir um látego ou de portar uma arma. São ainda femininas, apesar do seu título. Elas assemelham-se pelo uniforme, mas cada uma se esforça, pelo penteado, pela graça de um batom ou qualquer maquilhagem para se distinguir das colegas. Elas não procuram seduzir, apenas rivalizam em pequenas vaidades. Elas enchem uma sala e sabem-no, também rejubilam de por vezes sentir que, no momento da rendição, um prisioneiro as procura, que elas podem representar uma luz simbólica, uma presença reconfortante quase como uma redenção, mesmo num coração endurecido. Elas não sentem misericórdia alguma, não distribuem quaisquer favores. Os contactos entre guardas e prisioneiros mantêm-se cordiais, as distâncias são respeitadas. Toda a intimidade entre eles é proscrita. De qualquer forma, elas ficam atentas durante os seus turnos. Podem sorrir mas não o dar a entender. Satisfeitas por serem admiradas, felizes por as procurarmos, desdenhosas por as temermos, são incorruptíveis, conseguem não se comover perante o sofrimento verdadeiro ou fingido dos reclusos que estão encarregues de encarcerar. Ao menos são imparciais. Portanto amamo-las mais frágeis, mais humanas. A sua presença silenciosa chega para fazer menos pesado o jugo da punição. Porque o homem, na sua inconsciência pôde chorar a expulsão do Éden, o que ganhou na troca, trocou um jardim por um vasto mundo, por isso o fizemos desistir da eternidade pelos trabalhos forçados do tempo.


Esboço de tradução de Sadsamson

sábado, 12 de junho de 2010

Blind Zero: Luna Park

DO INESGOTÁVEL
Em 1994 “Trigger”, disco de estreia de uma banda praticamente desconhecida era um disco invulgar entre nós. À luz dos anos que passaram, percebemos agora que “Trigger” era quase meramente um alicerce para uma obra que se tornaria bem maior do que aí se anunciava. Naquela pujança havia algo que soava a Pearl Jam, e seria essa talvez a maior fragilidade de “Trigger”. E se “Redcoast” (1997) vinha já atenuar bastante essa influência, a verdade é que, em termos críticos, o eco dos Pearl Jam se tornou um estigma para os Blind Zero, que mesmo hoje, quando já é totalmente injustificado, lhes é apontado. “Redcoast” tinha algo de experimentação, de apalpar terreno, mas continha também um punhado de grandes canções, como “The Big Truth”, “Skull” ou “Criminal Grace”. Mas terminava, definitivamente, com um acto de verdadeira rebelião: “Subtitle”: esta era a canção em que os Blind Zero conquistavam, sem retorno, uma identidade, ela é o primeiro objecto totalmente nítido que a banda produziu.
A partir daí, o trabalho foi sempre o de construir mais e mais dentro dessa identidade que já ficava lançada. “One Silent Accident” publicado em 2000 é um álbum de espantosa maturidade, impregnado de atmosferas que oscilam entre a melancolia violenta e a violência melancólica: é também neste álbum que estão algumas das que, para mim, serão das melhores canções dos Blind Zero, canções como “Lowstreetsidewaksequence”, “Daily Matters”, “Another One”, “Wish Tonight” e, principalmente, “Lately”.


Mesmo assim, seria “A Way To Bleed Your Lover” de 2003, que haveria de acrescentar mais alguma “reputação” ao colectivo portuense, em particular por ter sido o primeiro álbum vencedor do prémio Best Portuguese Act da MTV. Totalmente merecido, claro, se momentos como “Nothing Else Goes”, “Toxic”, “You In Your Arms” ou “You Owe Us Blood” ainda não perderam, de todo, o sentido.
Ponto de maior maturidade ainda (É sempre neste sentido que a música dos Blind Zero caminha- o de um amadurecimento.), é “The Night Before and a New Day” (2005). Podemos entender este álbum como uma espécie de segundo tomo de “A Way To Bleed Your Lover”: a própria banda assume que quis dar um lado mais suave da sua música depois do negrume do álbum anterior: a esta certeira decisão devemos canções belíssimas como “Absent Without Permission”, “Day 1”, “Turn it On” ou “Black Roses”.
O sort-of-best-of “Time Machine: Memories Undone” de 2007 faz mais do que recolher alguns dos pontos altos dos primeiro 13 anos dos Blind Zero. A decisão de apresentar os temas ao vivo tem o excelente condão de corrigir completamente as fragilidades das canções mais antigas: pois que “Big Brother” ou “Recognize” soam tão melhor nestas versões, em que se nota realmente o “rosto” de quem as toca.
Luna Park”, acabadíssimo de lançar, mostra-nos que “Time Machine: Memories Undone” é também um disco de charneira. Há algo de definitivamente muito novo depois dele.
“Luna Park” é incatalogável. Ele pertence aos Blind Zero, mas não é possível inseri-lo em nenhuma fase da sua música: pelo que podemos apenas concluir que uma nova fase se está a iniciar. Talvez não seja ao acaso que, em “Fun House”, Miguel Guedes repita “take another look at me now”. “Luna Park” tem mesmo que ser olhado, ou melhor, ouvido, com atenção, porque não é um álbum fácil, ou óbvio, pelo menos.
O contraponto entre a luminosidade e a obscuridade que foi feito separadamente nos álbuns de 2003 e 2005 é agora completamente condensado. Estas músicas têm algo de depressivo, mas também algo de muito esperançoso.
Não raras vezes as letras de Miguel Guedes nos confrontam com situações-limite, dolorosas, incisivas. Mas a sonoridade das canções consegue, estranhamente acompanhar essa espécie de desespero mas apontar-lhe também uma luz. Aproprio-me de dois versos do poeta Egito Gonçalves que me parecem fazer sentido aqui: “aumenta a raiva/ e a esperança reproduz-se”.
Prendo-me, a propósito disto, um pouco acerca do título: “Luna Park” é uma referência literária, mas também nos remete para uma espécie de parque de diversões: claro que este não é um disco divertido, longe disso aliás, mas é, de certa forma, uma sequência da ideia das caixas de bonecas que encontrávamos em “Black Roses” de “The Night Before and a New Day”: é olhar o dramatismo da vida com um olhar quase infantil, metaforicamente, ou seja, é o abandono da ideia do “sem-esperança” que parece ter-se tornado distintivo de tantas bandas ditas rock em Portugal e não só, e é antes um olhar que desdramatiza ou que para isso caminha, como se a vida se resumisse a esse parque de diversões onde se atravessam situações vertiginosas, mas das quais sabemos que sairemos ilesos. Ou quase, no que toca especificamente a este álbum.
É um pouco isto que nos oferece “Luna Park”. Os casos mais evidentes parecem-me ser “Fun House” ou “Loose Ends”, “How The Wind Blows” e de certa forma, também “Two Days”: é perante um sofrimento que as palavras nos colocam, mas a música faz o percurso “das trevas para a luz” (É de Isabel de Sá que agora me aproprio.).
A música perde um pouco da “crueza” que encontrávamos em “One Silent Accident”, por exemplo, dando mais atenção a arranjos de voz e outros. O que perde em “peso de som” ganha em sofisticação.


Em termos gerais, “Luna Park” não representa mais que um acto de profundíssima liberdade. E é minha crença pessoal que sem liberdade, não pode existir arte alguma. “Luna Park” é uma recusa de qualquer fórmula, não há uma sequer música que nos remeta para qualquer música passada; e é o disco em os Blind Zero correm mais riscos. São cinco discos de originais antes deste, e agora surge-nos um inesperado desvio. E um desvio que prova a flexibilidade da sonoridade dos Blind Zero. Porque pode perfeitamente moldar-se a um som mais suave sem deixar a sua atmosfera “urbano-decadente” dita grunge, sem qualquer tipo de depreciação. São aliás as canções onde se sente mais esta dualidade as mais fortes do álbum. Refiro-me a “Back to the Fire”, “Fun House” (Que me parece ser o ponto mais alto do álbum.) ou “All Alone We Dance”: além de canções de uma sonoridade distinta e conscientemente entristecedoras, são também dos melhores momentos líricos de Miguel Guedes, que à qualidade lírica nos tem já vindo a habituar. Arrisco, aliás dizer que Miguel Guedes é o melhor letrista português: em nenhuma outra banda as letras estão tão próximas da poesia. Excluo disto, como não podia deixar de ser, os Clã, mas o caso deles é diferente, pois que as letras são muitas vezes da autoria quer de letristas mais “conceituados” como Carlos Tê ou Sérgio Godinho, quer mesmo de poetas como é o caso de Regina Guimarães.
“Luna Park” segue também o esquema normal de todos os discos dos Blind Zero: uma dúzia de canções, todas elas incisivas, sem palha, e cada uma construída com minúcia e extremo perfeccionismo. Não estamos perante uma música de características barrocas, mas estamos perante uma música onde não se dispensa o pormenor. Daí a complexidade do som, que é mais audível aqui do que em qualquer momento passado. E isso acontece mesmo em “Slow Time Love” que se poderia considerar, de todo o conjunto, a canção mais radio-friendly.
Não esqueçamos também, porque é essencial, que “Luna Park” é uma edição de autor (O que, depois da quantidade/qualidade de produtores com quem já trabalharam é um acto de coragem.), onde o material é totalmente produzido pela própria banda. Se calhar, só esse tipo de “isolamento” poderia permitir a criação de um objecto com a qualidade de “Luna Park”. É já antiga a máxima de que a criação artística é primeiramente um acto de egoísmo, e isso é claro neste disco: não foi feito para agradar a ninguém. Mas o facto é que agrada e muito. Pelo menos a quem estiver interessado em ouvir Blind Zero. Aqueles que estão à procura dos Pearl Jam portugueses não os vão encontrar aqui, mas também duvido que procurem, porque há já muito tempo que não os têm encontrado.
Se é ou não o melhor álbum dos Blind Zero, não consegui decidir ainda. Mas que fica acima de qualquer expectativa, isso é sem dúvida.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Agustina tem destas Coisas (14)

Há raros momentos de clarividência, mesmo nas criaturas mais triviais, e é sempre o sofrimento que os provoca.
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De “A Sibila”

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No Sol



Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria

eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos
os momentos

caídos;
foi um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,

porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos


Gastão Cruz
A Moeda do Tempo
2006, ed. Assírio e Alvim


desenho de Graça Martins

quarta-feira, 9 de junho de 2010

The Forge



All I know is a door into the dark.
Outside, old axles and iron hoops rusting;
Inside, the hammered anvil´s short-pitched ring,
The unpredictable fantail of sparks
Or hiss when a new shoe toughens in water.
The anvil must be somewhere in the centre,
Horned as a unicorn, at one end square,
Set there immovable: an altar
Where he expends himself in shape and music.
Sometimes, leather-aproned, hairs in his nose,
He leans out on the jamb, recalls a clatter
Of hoofs where traffic is flashing in rows;
Then grunts and goes in, with a slam and flick
To beat real iron out, to work the bellows.






Seamus Heaney
Door Into The Dark
1969, ed. Faber and Faber
imagem de Henri Cartier Bresson

terça-feira, 8 de junho de 2010

Hipóteses Individuais



Habituo-me, self-service, a fazer da visão
um modo de não ver. Guardo o tédio
como algumas jóias velhas. Talvez um dia,
quem sabe. Às vezes creio que também
sou um filho de Deus, embora nada no
bilhete de identidade ou no ritmo diário
o faça prever. Pressinto, desastrado coração,
que há talvez e que o tédio, afinal,
é tão só um mode de ter e ser dono,
de poder abrir e fechar janelas
como quem fica à espera de que
a insónia dê lugar ao sono. Com essas
manchas de inteligência, com os relâmpagos
dessa lucidez, levanto-me e procuro
um horóscopo diferente, em que ninguém
crê, nem eu. Curiosamente, habituo-me
a morrer como se fosse um café na hora
de fechar: periscas no chão, mesas e cadeiras
-vazias, empilhadas-, uma luz verde
que chega a ser bela quando alguém
acende um cigarro.





Carlos Luís Bessa
Em Partes Iguais
2004, ed. Assírio e Alvim
imagem de Daniel Blaufuks

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Twin Peas: Firewalk With Me de David Lynch

PORQUE A POESIA É MAL AMADA



Twin Peaks: Firewalk With Me” terá sido dos filmes mais mal recebidos de David Lynch. Aquando da sua estreia, em 1992, foi um fiasco em termos críticos e de audências, se bem que esta última parte não surpreenda, porque os filmes de Lynch nunca foram para o grande público.
Parte do problema, parece-me, terá a ver com o facto de o filme ter surgido demasiado em cima da série. A própria série, depois da descoberta do assassino de Laura Palmer, entrou numa espécie de declínio em termos de opinião dos fãs. Mas o filme foi, de longe, bem mais injustiçado.
É evidente que seria quase impossível produzir um filme que é, para todos os efeitos, uma prequela, para uma peça tão fora de série como a série. E é precisamente no confronto com a série que o filme pode, numa primeira observação, parecer cheio de falhas e resultar mal. Relembremos que o filme é escrito por Lynch e Robert Engels que, mesmo tendo sido argumentista de vários episódios da série, não foi dela um dos criadores: o não-envolvimento de Mark Frost no filme talvez tenha tido também o seu peso.
Ao contrapor a série com o filme vemos de imediato bastantes incongruências: repare-se que no filme, Donna Hayworth assiste a Laura a prostituir-se, chegando a quase fazê-lo ela mesmo, sob o efeito de drogas: ao passo que, na série, esse lado da vida de Laura era totalmente desconhecido de Donna.
A cena do jantar em que Leland Palmer quase agride a filha também não está de acordo com a série pois, como vemos, Sarah Palmer nunca aponta nenhum comportamento estranho de Leland para a filha quando é interrogada pela polícia.
Outro exemplo é o facto de, no segundo dos seus últimos sete dias, Laura Palmer ir deixar o seu diário secreto a casa de Harold Smith. Não a vemos regressar a casa dele (Ela diz, inclusivamente, que poderá não voltar a visitá-lo.), e, na série, Harold deixa, antes de se suicidar, um envelope para Donna onde estão as últimas duas páginas escritas por Laura nesse diário secreto: na véspera da sua morte e no dia da sua morte.
Mais ainda, quando Leland Palmer leva Laura e Ronette Pulaski para o comboio abandonado, Ronette consegue sair antes de Laura morrer e na série, vemo-la ter flashbacks de Laura a ser assassinada.


Repare-se que todas estas falhas são apontadas quando confrontadas com a série.
E por um lado, não pode ser de outra maneira: o flme começa com o caso de Teresa Banks, assassinada em Deer Meadow nas mesmas circunstâncias que Laura. A investigação leva ao desaparecimento de Chet Desmond, agende do FBI, que é substituido por Dale Cooper. É público que David Lynch pretendia uma presença mais contínua de Kyle McLachlan no filme, mas este terá recusado, por estar já altamente associado ao personagem de Cooper e, diga-se de passagem, foi o papel da vida dele.
Um ano depois, um detective interpretado por David Bowie aparece no escritório onde trabalham Cooper e Gordon, o cómico e mouco David Lynch, dizendo que esteve “numa das reuniões deles”: “eles” são as figuras do Mal, ou a ele associados, que se reunem numa mesa de fórmica: o liliputiano que se apresentará como “o braço”, deduzimos que o braço amputado de Mike, o braço que matava, Bob e os Chalfut, avó e neto, neto este que estuda magia e usa uma máscara sem orifícios, apenas com um nariz afiado.
A questão de “Twin Peaks: Firewalk With Me” é que talvez não deva ser levado tão à letra numa comparação com a série, ainda que se sirva de todo o imaginário, fortíssimo, criado pela série. Para tal talvez não seja gratuito referir que o filme começa com uma televisão a ser destruída por uma bala. Penso que qualquer interpretação disto dispensa ser escrita, de tão óbvia.
Porque, verdade se diga, se se esquecer estas incongruências com a série, como podemos dizer que este é um mau filme?
Pelo contrário, é um dos melhores e mais bizarros filmes de Lynch, ainda que siga uma estrutura de narrativa linear, cheio de imagens absolutamente poéticas e momentos de uma pungente tristeza a que é impossível ser-se indiferente.
É uma faca de dois gumes este filme: ele tem uma relação inevitável com a série, e isso torna graves as já referidas incongruências, mas, por outro lado, como peça isolada, só pode ser um grande filme.
Encontramos Laura Palmer como a rapariga do coração divdido: ela é a estudante do liceu, raínha do baile que namora com o capitão da equipa de futebol, tem um amante. Por outro lado, é também uma prostituta ocasional, chuta cocaína constantemente, é uma verdadeira viciada, mantém relações com inúmeros homens, e é violada desde os 12 anos por um homem, Bob, um espírito cuja identidade ela não consegue deslindar.
Mas em “Firewalk With Me”, mesmo a questão da possessão de Bob a Leland Palmer quase passa para segundo plano: vemos, angustiadamente, a obcessão de Leland pela filha, a relação incestuosa que existe entre eles.
Há um profundo lirismo neste filme. Mais do que nunca, somos incapazes de sentir que Laura é cruel ou uma perdida. Como poderíamos pensar isso quando a vemos chorar enquanto ouve Julee Cruise no Roadhouse, antes de um cliente vir ter com ela?
É um filme cheio de momentos de um onirismo comovente, profundamente estéticos, como o quadro que os Chalfut oferecem a Laura, e as alucinações que ela tem com ele; ou como o sonho onde Cooper, ao lado do “braço” pede a Laura que não aceite o anel de Teresa, pois que este significará a sua morte.
É aqui, mais do que na sére, que vemos Laura a afundar-se na loucura em que a sua vida se tornou: uma vida errática e destrutiva, de que ela está consciente. E David Lynch filma essa destruição de uma forma tão crua, tão realista, que nos sentimos a cair com Laura Palmer, e lamentamos profundamente o seu final amargo.
Sentimos essa tristeza, como sentimos a confusão de Laura Elena Harring em “Mulholland Drive” ou o desespero de Laura Dern em “INLAND EMPIRE”.

E, mais do que isso, vemos como a destruição de Laura arrasta consigo a destruição de tantos que estavam à sua volta.
Mais do que nunca, a imagem que temos de Laura é de força. Não propriamente a mulher forte que consegue todos os homens que quer e tem prazer nisso. Mas a que se recusa terminantemente a entregar-se ao mal. É aí que ela coloca o anel de Teresa e Bob é obrigado a matá-la. E mesmo aí, é desesperante quando, entre Bob nos surge Leland, que lhe diz que sempre pensou que ela soubesse que era ele que a violava: a questão do incesto é aqui levada a um extremo penoso: Leland, pai, fica triste por ver que a filha não percebia que era ele quem a violava.
Quando por fim ouvimos os gritos finais de Laura e a vemos a ser embrulhada em plástico, temos a maior sensação de estranheza que este filme dá: é que, quando começa, nós já sabemos como irá terminar, com Laura a ser encontrada morta na praia, mas na cena em que está com Bob no comboio abandonado, ficamos de certa forma surpreendidos por ela ser assassinada, como se não estivéssemos à espera que tal acontecesse.
Por fim, há que referir que “Twin Peaks: Firewalk With Me” não é sempre uma má prequela. Temos cenas que de explicam com toda a perfeição a vida de Laura, a vida que é, lentamente, descoberta por Dale Cooper e Harry Truman ao longo da série. Particularmente pungente é a cena em que Donna pergunta a Laura se ela acha que, numa queda eterna caíria sempre cada vez mais depressa ou se eventualmente abrandaria. Laura responde, num tom sereno mas que resulta angustiante:

“Faster and faster. And there would be no angels to hold you, cause they´re all gone. And for a long time, you wouldn´t feel anything. But then you would burst into flames.”

Com isto percebemos aquilo que, a meio da série, o psiquiatra, Lawrence Jacoby aponta: que Laura já decidira morrer. E estava consciente disso.
É por momentos destes que “Twin Peaks: Firewalk With Me” não poderia ser um mau filme, apenas incongruente. Mas não está cheio disso o cinema de David Lynch?




sábado, 5 de junho de 2010

Chazada



Solta-se da boca a gravata gangrenada,
no finca-pé se trabalha a infância
mártir por despeito; preferias viajar
como um móvel que sai de casa desmontado.

A mó que vive encostada
numa claridade de muros que só prometida pelos mortos
assim me é o fundo secreto dos teus olhos; e o aperto
de mãos que lá ficou.

Passeamos nos planos duma fortificação
um lanço de escadas devolve-nos à ideia de lar
às dívidas alegres; solta-se a ponta
da língua porque o futuro não dirá.





Regina Guimarães
Anelar, Mínimo
&etc, 1985
imagem de Matthew Barney

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Agustina tem destas Coisas (13)

Um homem de trinta anos que chora, ou é um imbecil ou é um poeta; a menos que uma dessas razões que desabam como uma avalanche sobre os temperamentos mas imutáveis venha convulsionar-lhe a alma, arrancando dela as emoções mais terríveis.
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De “A Sibila”

terça-feira, 1 de junho de 2010

um poema




Não conhecia a noite povoada

Não conhecia a noite
cheia por dentro de espaços
e de tempos

Não conhecia a noite
andando primeiro pela estrada
e andando depois por um caminho

Não conhecia a noite
dos corpos sem amor
em êxtase de pé
devagarinho



Yvette K. Centeno
Poemas Fracturados
1967, Guimarães editores, colecção Poesia e Verdade
desenho de Sadsamson

sábado, 29 de maio de 2010

Showcase dos Blind Zero na Fnac do Chiado

O caso dos Blind Zero parece-me um muito raro no panorama da música portuguesa. Estamos cheios de bandas que não conseguem ter uma identidade própria, e que muitas vezes se ancoram em sonoridades vindas do exterior e essas origens, mesmo que boas, perdem a qualidade ao serem imitadas. Pode isto não se aplicar a algumas bandas como os Mesa ou os Wray Gunn, e não se aplica certamente a outras como os The Gift ou os Clã e, para retomar o início do texto aos Blind Zero.
E se os primeiros dois álbuns desta banda portuense poderiam oferecer algumas dúvidas, elas dissipavam-se justamente na última faixa do segundo disco “Redcoast”: “Subtitle” foi o primeiro acto de rebelião dos Blind Zero, rebelião no sentido da conquista de um som próprio e nítido.
Vários anos volvidos, passaram discos em que esta rebelião se consumou, uma espécie de best-of ao vivo que, nalguns aspectos, vinha “limpar” as fragilidades dos primeiros álbuns e anuncia-se agora o lançamento de mais um álbum de originais: “Luna Park”.
O showcase na Fnac, hoje à tarde, foi uma espécie de ante-estreia do disco. Curta, sete canções apenas, mas suficiente para se ter a certeza absoluta de que os Blind Zero compuseram mais uma “pedra” firme para a construção do seu “edifício” musical.
Um showcase nestas condições, em que o álbum ainda não foi lançado, oferece, à partida, sempre uma certa estranheza ao ser ouvido, o próprio Miguel Guedes para isso adverteu. Neste caso, essa estranheza existiu mas, contrariamente ao que possa parecer, o facto de existir essa estranheza é um excelente sinal: só se estranha aquilo que é novo.
E em nenhuma destas sete canções me pareceu que os Blind Zero estivessem a repetir alguma canção anterior, sequer a repetir qualquer fórmula. São, no sentido mais pleno da palavra, canções novas.
Abriram com “Two Days”, canção de um pendor algo romântico, seguiu-se “Snow Girl”, segundo single já lançado de “Luna Park”. A terceira canção pareceu-me, em tempo-real, a mais forte das sete apresentadas, “Back To The Fire”, que recupera, em termos de som, uma violência que soava noutros álbuns, e em termos de letra, reflecte muito bem a excelente capacidade de escrita de Miguel Guedes, altamente metafórica. “Loose Ends” terá sido eventualmente a canção mais melancólica das apresentadas, mas mesmo essa melancolia soa diferente de outras canções anteriores, exemplifico de memória “Super 8” ou “Lately”.
“How The Wind Blows” e “Fun House” criaram uma espécie de ponto-de-rebuçado entre a tal violência de “Back To The Fire” e a melancolia de “Losse Ends”, e, por fim, “Slow Time Love”, primeiro single já há muito lançado, fechou o espectáculo com uma espécie de “alegria”: é, parece-me, das sete canções apresentadas, aquela que mais reflecte uma espécie de “esperança”, é uma das canções mais luminosas dos Blind Zero até agora, e esse é um lado que, para todos os efeitos, faz falta também.
“Luna Park” é editado na segunda feira, em edição de autor, o que me parece mais uma prova da total conquista de liberdade por parte dos Blind Zero que, agora, compõe e produzem o próprio material. Quanto a concertos, eis um pequeno calendário:
2 de Junho à meia-noite no Music Box em Lisboa, 3 de Junho da Fnac do Colombo às 17 horas, no mesmo dia às 21 e 30 na Fnac de Leiria, dia 9 às 22 horas na Fnac de Coimbra, dia 10 na Fnac de Braga às 22 horas, dia 13 no Fnac do GaiaShopping às 17 horas e, por fim, dia 23 na Casa da Música do Porto à meia-noite. Vale a pena ir.


à falta de imagens do showcase, fica aqui o vídeo de "Snow Girl"

High Windows



When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives-
-Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.


Philip Larkin
High Windows, 1974


Quando vejo um par de miúdos
E calculo que ele anda a fodê-la e ela
A tomar pilúlas ou a usar um diafragma,
Sei que é este o paraíso

Com que todos os velhos sonharam a vida inteira-
Preconceitos e cadeias postos de lado
Como uma ceifeira mecânica antiquada,
E os jovens deslizam sem mais parar

Pelo longo escorrega da felicidade. Pergunto
Se alguém, olhando para mim há quarenta anos,
Terá pensado,
Aquilo é que é vida;
Nem Deus, nem suores no escuro

Com medo do inferno, sem ter que disfarçar
O que pensa do padre. Com os outros irá
Sem parar pelo escorrega até ao fim,
De asas ao vento tal qual as aves.
E logo surgem

Não palavras, mas imagens de janelas altas:
O vidro abrangendo o sol
E para lá dele, o fundo ar azul, que mostra
Nada, está em lado nenhum e não tem fim.



Trad. Maria Teresa Guerreiro
In “Uma Antologia”
Ed. Fora de Texto, 1989
imagem de Edward Hopper

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Muse no Rock In Rio

Evidentemente, não fui a todos os dias do Rock In Rio, não me interesso particularmente pela Leona Lewis nem pelo Elton John, eles que me desculpem.
Fui, isso sim, ao dia dos Muse. Diga-se de passagem que o dia em si foi uma seca: o concerto dos Fonzie a roçar uma fragilidade quase penosa, o concerto dos Xutos a decadência que sempre me parece. Irritante também é aquela mentalidade de negócio no recinto: da comida às bebidas, tudo caríssimo e cheio de filas, booms de publicidade por todo o lado, enfim, mais do que um festival de música, o Rock in Rio é um negócio que nem se esforça muito por se disfarçar de evento musical.
Antes de passar à parte boa do dia, ou melhor, da noite, o concerto dos Muse, uma pequena nota para os Snow Patrol de quem esperava um concerto vulgaríssimo e que, afinal, até nem foi mau de todo, pelo menos na parte que eu ouvi enquanto furava pela multidão.

Agora sim, o concerto dos Muse. Foi do outro mundo. Matt Bellamy, ao entrar no palco, fez essa expressão ser literal: completamente vestido de brilhantes prateados e com um óculos engraçadíssimos.
Além do visual de Bellamy, referência ao palco, onde os ecrãs em forma de favos transmitiam imagens que facilmente se podem tomar por video-art, e a iluminação, também profusa e delirante.
Delirante será talvez a palavra de ordem para falar do espectáculo dos Muse. Um espectáculo que excede largamente o conceito de “concerto” e se transforma em algo mais, que tem algo de teatro, de performance, de manifesto, enfim, algo que revela uma personalidade profundamente artística.
A abertura foi feita com “MK Ultra”, que, não sendo definitivamente um dos momentos mais fortes do concerto, teve um enormíssimo impacto por ser a entrada em palco. Mas mais assinaláveis foram os momentos seguintes: “Map Of The Problematique”, resgatado do álbum anterior, e “Uprising” que lançou este “The Resistance”.
Aliás, o impacto brutal que “Uprising” teve no público lembrou-me uma outra canção de uma outra banda. Refiro-me ao “Zombie” dos The Cranberries, uma música que marcou em definitivo uma geração, e que foi um hino a um tempo musical e político que falou por essa geração. “Uprising” pode muito bem ser um sucessor de “Zombie”, porque fala também musical e politicamente pelo seu tempo, pela sua geração. Porque se muitas vezes Matt Bellamy é subtil ao escrever sobre política, em “Uprising” é inquestionável a tónica política e mesmo revolucionária. Mas sobre isto, já falei quando o disco foi lançado (“
Política Lírica”.) e não me parece oportuno repetir tudo o que já disse.
Um aspecto interessante neste concerto, e que não é de todo mau, foi o carácter antológico do alinhamento. Não se tratava de um concerto da digressão de “The Resistance”, mas uma espécie de “best of”, que é sempre o mais conveniente para os festivais, dado que costuma haver tanto de fãs como de apenas-festivaleiros; se bem que no caso deste concerto dos Muse não parecia ser o caso, pois as letras eram acompanhadas pelo público em geral, e não só os singles.
Outros momentos de referência foram sem dúvida “Supermassive Black-Hole”, completamente alucinado, “Time Is Running Out”, “Starlight” (De longe o tema mais radio-friendly dos Muse.) ou “Citizen Erased”. Em relação a canções do disco mais recente, além de “Uprising”, tocaram “Undisclosed Desires” e “Resistance”, os singles, "United States of Eurasia" e "MK Ultra".
O encore marcou-se com “Plug-In Baby” e a fechar uma versão re-arranjada de “Knights Of Cydonia”, outra letra inquestionavelmente política.
Não se pode dizer que tenham sido muito comunicativos, Matt Bellamy e Chris Wolstenholme dirigiram-se ao público raramente, mas, verdade se diga, não foi necessário haver muitas falas para o público porque a força da música criou toda a adesão necessária, e interacção não faltou, mesmo em momentos mais “calmos” como foi o caso de “United States of Eurasia”. E, se há alguma coisa a questionar em relação às opções dos Muse para este concerto, é até que ponto o “tronco” do alinhamento não era constituido por canções desse álbum. É verdade que foi marcante, e que fixou definitivamente o nome dos Muse como uma banda incontornável, mas é também verdade que ainda que só com ele tenha vindo a aceitação crítica, em termos de público, os álbuns anteriores criaram a “fama” dos Muse. Refiro-me a canções que poderiam ter sido tocadas de “Origin of Symmetry” ou “Absolution” principalmente.
O concerto terminou ao fim de quase duas horas com muito muito fumo, mas certamente não se “esfumará” tão facilmente da memória de quem assistiu.





Uprising





Resistance

[o jardim cortado]



quando eu tinha muitos sonhos vivos que me faziam ter uma idade superior à que a palavra idade me daria, fugia muitas vezes para o quintal de minha casa, doente de toda a gente, e abraçava as árvores mortas. elas encostavam a seiva ao meu coração, e eu aspirava uma vida omnipotente de ventre e de força. ouvia-as naufragar dentro do meu coração com a sua voz de rio morto. aí nasciam as metáforas, os longos jardins cortados, a minha forma afásica de dizer ao mundo que me desejava apenas a mim o próprio fim, cortado por todas as espécies de perversão amorosa; aí eu aprendia que tinha que correr uma distância por dentro até chegar aos vários degraus que implicavam a minha morte.
a árvore que dava nêsperas na minha infância morreu quando eu tinha doze anos. havia uma cobra encostada á raíz. disse-me que era em tudo igual ao instrumento mais potente do meu corpo, o mais elástico de vontade, o mais atento ao cérebro, à memória, ao inesperado. deu-me depois um livro. eu comi o livro, como o apocalipse mandava.
perguntei-lhe o nome. disse-me apenas que se chamava crevel. eu disse-lhe que já tinha lido um livro de apelido parecido, mas ela fugiu para dentro do livro e nunca mais a vi a ela, nem à árvore. mas um destes dias, fazendo amor violentamente, uma cabeça da cobra deitou dentro de ti uma seiva de livro, e os meus galhos de asas cortadas abriram os teus ombros.


Pedro Sena-Lino
As Flores do Sono: Prelúdios e Fugas
2002, ed. Litera Pura

imagem de Magritte

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Salvados

Um chapéu de coral atado a uma medalha de cobre
Uma cómoda estilo primas Lagarto
Um piano de cauda com uma cabeleira de índio
Um garfo sem sombra
Uma imitação do olho esquerdo de Napoleão III tirada no momento em que Ele assinava a lei dos meios das primas Lagarto
Um carneiro de purpurina
O ferro forjado que serviu para Lord Nelson
Uma fotografia a sépia que as primas Lagarto no campo tamanho natural
Um grilo em papel manteiga
O triciclo que pertenceu a Kropotkine
A gravata hidrométrica Inhásse Paderevsky
Um exemplar original de "Vida e Obras de Gânglia Vermouth" com lindas águas-fortes de mestre Inácia Coreto assinadas Pépita Lamartine
Uma perna de carneiro assado
Um lençol com sinais de vómito italiano
Uma cadeira de rodas ainda com o corpo
Uma lágrima de Staline

e de diversos de: primas Lagarto Lao-Tsé Goethe, Hedy Lamarr Nicolau II etc. etc. etc.

cadavre-esquis de Mário Cesariny de Vasconcelos e
Alexandre O´Neill
"Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito"
selecção de Mário Cesariny de Vasconcelos
Guimarães editores 1961

The Legendary Tigerman em showcase na Fnac do Chiado



Uma pequena, mas muito positiva nota ao showcase de hoje, na Fnac do Chiado, do Legendary Tigerman.
Trata-se da apresentação de Femina, que faz agora nova edição e é editado simultaneamente em vinil.
Paulo Furtado apresentou-se em palco sozinho, mas com muita muita genica, e, apesar do pergido que á partida poderá representar levar para o palco um disco como "Femina" onde cada faixa tem uma vocalista convidada, mostrou-se bastante competente para fazer a "transacção", usando por vezes as vozes em playback, caso de Asia Argento em "Life Ain´t Enough For You" ou de Lisa Kekaula em "The Saddest Thing To Say", outras vezes assumindo a voz, como em "These Boots Are Made For Walking", originalmente interpretado por Maria de Medeiros ou em "& Then Came The Pain" onde substitui Phoebe Killdeer e "Light Me Up Twice" onde substitui Claudia Effe.
Destaque ainda para as curtas metragens que acompanham algumas das canções, que reforçam o lado cénico que é evidente em "Femina".
A repetir, se possível.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Duas Novelas de Hélia Correia

O atraso com que, de certa forma, começo a ler Hélia Correia nada tem a ver com a promessa de qualidade ou com os seus conteúdos. Já uma vez a citei neste bog, em tempos idos, num seu momento que me pareceu pouco feliz. Sinceramente que um autor diga que deixou de escrever poesia porque acha que não tem nada de novo a dizer acho normal, saudável até; que um autor diga que deixou de escrever poesia porque leu Herberto Helder acho, além de uma diminuição para quem o diz, uma ideia seriamente mortificante. Como sou extremamente sensível a cultos e semi-deuses, fiquei apreensivo quando, descontextualizadamente, me falaram de uma entrevista em que Hélia falava de Maria Gabriela Llansol como "inatingível": entretanto fui ler a entrevista, e, afinal, não há motivo para alarme.
Mas à medida que o tempo passa e a memória destas questões extra-literárias de entrevistas e outras intervenções começa a desfocar-se, decido finalmente procurar os livros da autora.
Não começo exactamente pelo princípio (Que seria a novela de 1981, “O Separar das Águas”), mas quase.
E devo dizer, porque não sou casmurro e sou livre de me contradizer, que é revigorante ver como a escrita de Hélia Correia é mutíssimo superior a essas intervenções públicas. Do pouco que li, ainda, parece-me já tratar-se de um caso de séria originalidade na nossa prosa, uma originalidade bem sustentada, segura.






A terceira novela de Hélia Correia abre com uma citação do “Hamlet” de William Shakespeare”: “Há mais coisas no céu e na terra,/ Horácio, do que a tua filosofia/ pode conceber”.
Esta ideia ocorrer-nos-á, certamente, numa leitura de “Montedemo” (1ª edição, 1983, ed. Ulmeiro). “Montedemo” é, por assim dizer, uma novela estranha, etérea, diria mesmo, em que todos os acontecimentos nos são narrados de uma forma que exalta, definitivamente, essa estranheza. Hélia Correia não recorre nem a processos surrealistas, sequer a contaminações llansolianas (Creio que não será necessário explicar porque refiro este, e não outro, nome.). Nada disso. Esta é uma história, bizarra logo desde o início, e cuja bizarria é acentuada pela forma como, na terceira pessoa, ela nos é narrada. Logo por aqui, esta novela poderia descarrilar e deitar por terra as potencialidades que a história denota logo nas primeiras páginas. No entanto, Hélia Correia demonstra-se extremamente competente para se esquivar dessa armadilha que ela própria coloca. Pelo contrário, escreve perfeitamente consciente da trama complexa que escreve, e acompanha-a de todas as formas possíveis, desde a linguagem utilizada, até à nitidez com que cada personagem assume o seu papel.
A história parte das celebrações da Festa de S. Jorge, uma festa de excessos de álcool e divertimento, que roçam também a orgia. No entanto, este ano, a festa e os excessos foram absolutamente mais longe do que o esperado, e do que o aceitável para uma sociedade fechada. Alguns fenómenos quase sobrenaturais parecem, até, acontecer no céu, que subitamente fica roxo, mas a origem desse fenómeno, ou da sua percepção, fica sempre um tanto por averiguar.
O que é certo é que, nesta festa de S. Jorge em particular, foi definitivamente um excesso, algo que mudaria a vida das pessoas nela envolvidas para sempre, apesar de, ao mesmo tempo, se ter tornado assunto tabu, de que absolutamente ninguém falava, com excepção de Irene, a louca. Neste aspecto, Hélia Correia lança imediatamente a premissa essencial do assunto deste livrinho: que não é uma festa que correu mal, mas sim as reacções de quem esteve presente. É, por assim dizer, um ponto de vista social, como é que esta massa social reagirá face à vergonha em que estiveram envolvidos.
Neste aspecto, ganham particular relevância as figuras de Ercília e da sua sobrinha Milena. Elas representam, como muitas vezes encontramos nos livros desta temática, dois polos de um tempo: de um lado a velhice, os valores da velha guarda, e do outro a juventude que se rege pela renegação desses valores, por uma leveza de espírito que em muito potencia as reações negativas por parte dos “mais velhos”. Ercília ultrapassou largamente aquilo que são os seus valores, as suas condutas habituais, tendo beijado o cauteleiro; tanto que decide fechar-se em casa até que ele morra. “O que até hoje não aconteceu” (pag.22). Milena, a sobrinha, no entanto, voltou grávida da festa de S. Jorge. Quando Ercília descobre, planeia expulsá-la de casa, mas a sobrinha antecipa-se e, quando Ercília vai ao seu quarto para lhe comunicar que a quer expulsar de casa, já esta saíra.
É precisamente esta uma das melhores formas de tornar nítido o contraponto que acima referi, e de desfazer sobre ele alguns equívocos mais fáceis. É que a liberdade dos mais jovens não os faz levianos nem desligados da sua realidade social. Pelo contrário, eles sabem o lugar que ocupam e quando devem mudar esse lugar, por força das circunstâncias. E assim desfaz Hélia Correia o lugar comum da leviana escurraçada e, consequentemente, “coitadinha”. Pelo contrário, Milena sai de casa quando sente que disso é tempo, e sabe exactamente onde ir e como se comportar. Por outro lado, quem se vê completamente sem saber o que fazer face às suas próprias “vergonhas” é precisamente a personagem aparentemente correcta, respeitadora dos seus valores e dos valores sociais, infuenciados obviamente pelo catolicismo, em que está inserida.
Por um beijo, Ercíia enclausura-se em casa, o que não representa solução de género algum. Grávida, Milena sai de casa, mostra-se à luz, assume-se, como assume a sua gravidez e arca com as consequências sociais de um mundo que está de acordo com os valores de Ercília.
Irene, a louca, a única que se atrevia a falar da festa de S. Jorge, mesmo velha, é precisamente quem dá abrigo a Milena, na sua pequena casa junto ao mar.
E aqui entra outra das linhas de força de “Montedemo”: o facto dessa sociedade que está mais de acordo com as ideias retrógradas de Ercília, não se limita a estar de acordo com ela, faz questão de perseguir qualquer um que tenha escolhas diferentes. E assim, Milena, passa de marginal a perseguida, e com ela, Irene, que a isso estava já há muito habituada. Nestes capítulos, Hélia Correia demonstra um conhecimento muito profundo e pragmático da dita “psicologia das massas”: o outsider não é apenas um renegado da sociedade: ele é também um elemento continuamente sob um microscópio, fonte de toda a variedade de rumores, análises distorcidas, teorias mirabolantes, até ao ponto de criar na “massa” que o rejeita uma espécie de mitomania.
Entre todas as complicações que Milena e Irene atravessam para levar avante a gravidez da jovem, têm ainda ajuda de uma mulher solteira e de um farmacêutico que tomam como missão pessoal garantir de Milena tem uma gravidez saudável, e lhe preparam todo o tipo de detalhes para depois de Milena parir a criança. Mais uma vez, podemos daqui traçar uma espécie de perfil psicológico: o dos que estão inseridos na sociedade formatada, mas que face a um valor mais alto, a humanidade, são capazes de mover os seus princípios, evidentemente os formatados, e, efectivamente mudar.
É a partir destas duas premissas essenciais, a diferença de ética, e a não aceitação dessa diferença, que “Montedemo” encontra a sua linha de acção: a perseguição a Milena por parte da massa social em que, anteriormente ela estava incluída. É essa massa, que participou também nos excessos desta Festa de S. Jorge, que vai perseguir Milena, perseguição que culmina num final aparentemente triste mas que é, de certa forma, um final aberto. Outro, útimo, perfil psicológico podemos traçar aqui: a expressão “pecado comum” acaba por perder a sua primeira palavra, o “pecado”. Passa a ser apenas “comum”: por mais que todos tenham participado dos excessos da Festa de S. Jorge, há uma benevolência entre todos, porque, afinal, todos cometeram os mesmos pecados e, a haver castigo, todos haveriam de ser castigados. No entanto, procura-se aquela que trouxe vestígios desse pecado, aquela que há-de fazer persistir a memória dos pecados de cada um, do pecado colectivo.
Hélia Correia tem, em “Montedemo” uma novela original e contada com mestria. Publicado em 1983, não deixa, nos dias de hoje, de fazer todo o sentido.





Villa Celeste” (1ª ed, Ulmeiro, 1985) leva o subtítulo de “novela ingénua”, e foi publicado após “Montedemo”. O subtítulo poderá ou não ser apropriado.
A leitura dos dois romances é uma prova evidente do estilo, bem demarcado, de Hélia Correia, que parece algo dividido. Por um lado, as descrições, feitas de forma absolutamente secas, sem perdas de tempo, mas, ao mesmo tempo, num contínuo trabalho de linguagem, uma construção de vocabulário que é, definitivamente, uma excelentíssima forma de situar o romance no seu contexto temporal. Neste caso, vemos que se trata dos últimos tempos da ditadura e do rebentar da revolução dos cravos. E, apesar da novela “Villa Celeste” só ter vindo a público em 1985, onze anos depois da Revolução, lemos nesta novela uma reconstituição muito precisa quer das situações narradas, quer na construção da linguagem, um trabalho notório.

É a história de uma empregada de família, Teresinha Rosa, uma daquelas empregadas que já são “parte da mobília”. Com a morte de cada um dos membros da famíia, quando resta já o único filho, um pós-adolescente mimado e órfão, que tem aversão a sentir-se dominado nem que seja pelos cuidados de uma criada quando está doente, alivia a sua obcessão por não depender de ninguém para nada, enviando Teresinha Rosa, o elemento na realidade mais parecido com uma mãe que conheceu, para uma casa, longe do lugar rural onde viviam, para tomar conta dela. A “Villa Celeste”, assim se chamava a casa, às portas de Lisboa, estava abandonada mas, sendo de uma absoluta mestria no que toca a assuntos práticos, Teresinha não se demora não só a reconstruir a casa, como a dar-lhe vida.
Inicialmente, essa “vida” começa com a reconstrução e restauro da casa, há muito abandonada, desde nova pintura nas paredes a estofos renovados nas cadeiras e um jardim beíssimo: tudo pelas próprias mãos da velha Teresinha Rosa. Depois, essa “vida” da casa evolui para deixar pernoitar na ‘Celeste’ vagabundos, prostitutas a tentar sair “da vida”, doentes, etc. Sem que isso nos seja dito, a casa funciona como uma espécie de hotel para os desavidos, cujo único pagamento é precisamente insuflar a ‘Celeste’ com vida.E não demora até que a antiga e decadente casa ganhe uma imprevisível vida. Com o tempo, os próprios vizinhos, pessoas “de estatuto”, casais de reformados, antigos juízes, etc, passam a frequentar a ‘Celeste’ que, cada vez mais viva, era uma espécie de imprescindível lugar de passagem para quaquer um que andasse nas redondezas, fosse de que classe fosse. No entanto, o afecto de Teresinha Rosa pela ‘Villa Celeste” é extremo, e, sob aquele tecto, ninguém se atreveria a desobedecer à organização firmemente imposta pela dona da casa.
Mas a dado momento, muitos dos vizinhos começam a mudar-se e, nos lugares das casas deles começam a crescer grandes prédios de vinte apartamentos. A ‘Celeste’ vai perdendo, lentamente, a sua vida. Na altura das obras ao lado, ainda voltou a haver alguma vida na ‘Celeste”, porque os trolhas muitas vezes a visitavam e a Teresinha Rosa. Porque ela e a casa eram já só uma, “a ‘Celeste” e a Teresinha eram a mesma coisa, duas faces de uma vida, como um filho ainda dentro da mãe” (pag.36). Daí o escândalo, quando recebeu Teresinha uma proposta de compra da ‘Celeste’ que recusou, evidentemente, apesar das já várias querelas com os novos vizinhos.
Apesar de todas estas confusões, a ‘Celeste’ prossegue, como um organismo vivo que condiciona a vida de quem quer que lá esteja.
Este poderia ser um conto vulgar de antagonismo entre tradição e progresso, criando-se, assim, uma espécie de batalha, “para ver quem ganha” e depois, se fosse um conto de fadas, a tradição falaria mais alto, se fosse um conto didáctico para jovens prontos a entrar no mercado de trabalho, o progresso acabaria por convencer Teresinha Rosa. Hélia Correia nem passa sequer por um rumor destes clichés. “Villa Celeste” coloca o antagonismo, mas evade-se de lhe dar uma resposta, nem progressista nem moralista, optando por um final inesperado que, evidentemente, não irei aqui revelar.
Com a idade, Teresinha Rosa encontra-se cada vez mais solitária sem que, no entanto, ceda nem que um pouco, às tentações monetárias e luxuosas que lhe propõe pela venda da ‘Villa Celeste’.
O 25 de Abril passa por esta novela, brevemente: no primeiro capítulo a este respeito, encontramos as celebrações, a fraternidade proliferada, a euforia, a quase-histeria (Que encontramos também noutros romances, e em documentos históricos, de que escolho, de memória, “Não Percas a Rosa (Diário e Algo Mais) de Natália Correia, 1ª. Ed, 1978, Dom Quixote.). No segundo capítulo após a Revolução, é Teresinha Rosa quem pensa “Descera sobre a terra a bem-aventurança” (pag.39). Dois capítulos depois é pela voz da narradora que lemos agumas considerações: “Tudo o que é bom se acaba, ora aí está. Era coisa tão viva, tão parecida aos trigais- como flores e alimento- esta revolução que, vejam lá, murchou, fez o seu tempo.” (pag.43). Mas sendo esta uma novela, que, por definição é um texto curto e, portanto, sem dispersões, o impacto do 25 de Abril que verdadeiramente se sente é o impacto que ele tem na ‘Celeste’, que acaba por ser uma espécie de tertúlia, não necessariamente cultural, mas no sentido em que nela acabam por se reunir vários tipos de indivíduos, cada um deles numa situação transitória mas que, invariavelmente, ao sair dela, mais do que prometem, sabem que nunca esquecerão a ‘Celeste’. E isto é possível, precisamente porque a ‘Celeste’, mesmo sendo tratada como uma casa, é um ser vivo, uma irmã de Teresinha Rosa. Até porque, repare-se, raramente ao longo do texto de Hélia Correia a casa é referida como ‘Villa Celeste’, sendo na maioria das vezes chamada ‘Celeste’, numa espécie de personificação.
Por fim, quando Teresinha sente que a ‘Celeste’ está ameaçada, foca todas as suas atenções em encontrar uma forma para garantir que a ‘Celeste’ viva para sempre, um processo afinal masterminded por uma camponesa.
Retomando a segunda frase deste segundo texto, resta tentar entender se o subtítulo de “novela ingénua” é ou não apropriado, e como. De certa forma, penso, é, de facto, uma novela ingénua, no sentido em que muitas das situações descritas por Hélia Correia seriam dificilmente transponíveis para o real. Será, talvez, ingénuo, assumir tanta bondade por parte de uma pessoa. No entanto, há que ter em conta a relação visceral que Teresinha Rosa criara com a casa. Uma relação de afecto, porque ela sente quando a casa tem frio, quando a casa está amuada, quando a casa teve saudades dela. E, nesse aspecto, talvez não seja tão ingénua esta novela, uma vez que Teresinha Rosa apenas tentou preservar aquele ser vivo, garantir que nada lhe aconteceria após a morte da própria Teresinha Rosa. E talvez não haja nada de ingénuo nisso.
“Villa Celeste” é, por isso, um romance a ler. E, para os mais coleccionistas, sempre se pode ler na graficamente maravilhosa edição do Contraponto, que Luiz Pacheco editou muitos anos mais tarde, em 1998.

Agustina Bessa-Luis: Um Cão Que Sonha

A NAUSICA DE MONTE-FARO


Nas badanas de “Um Cão Que Sonha” (3ª edição, 1998, Guimarães editores) fala-se da influência que a escrita de John Cowper Powys poderá ter neste romance de Agustina Bessa-Luís. No entanto, ao terminar a sua leitura, ocorreram-me mais imediatamente alguns textos de “Un Certain Plume” de Henri Michaux (vd. “Antologia” trad. Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, 1998). Nestes textos de Michaux encontramos uma espécie de anti-herói, Plume, que se vê apanhado nas mais complicadas situações sem que, no entanto, tenha feito alguma coisa por isso. É então um herói acidental, é um protagonista mas não é um carácter especial, como requer o cânone do herói. Nas palavras da tradutora de Michaux, “Plume [é] o “homem pacífico” que “não esteve a par do assunto”; um herói passivo, sim, mas que por isso mesmo resiste(…)”.
Passa-se o mesmo com Léon Geta Fernandes, que apesar de protagonista, parece ser absolutamente exterior a (mais) esta história que Agustina nos traz. “Um Cão Que Sonha” vive, isso sim, da figura de Maria Pascoal, que está morta na maioria dos capítulos. É a reconstituição da vida dela que realmente faz a trama deste romance. Léon Geta, o viúvo, tem apenas a “ingenuidade de um cão que sonha”, atravessa o seu tempo sem nada de interessante, não tem particulares afectos por ninguém, não tem profissão, não tem ocupação, não tem amantes (Parece ser, de certa forma, assexual.). O seu casamento com Maria Pascoal foi, na verdade, uma decisão da avó, a La Roque, mais do que dele, e mesmo assim, “o que houve entre ambos foi uma boa inteligência e não amor” (pag.175). Depois da morte de Maria Pascoal, Léon nem sente propriamente a falta dela, muda-se para Lisboa completamente indiferente à fortuna que lhe caberia como herdeiro do longínquo Comendador Faustino, relegando esta responsabilidade para José Stuart.



A sua vida, verdadeiramente, só dá alguma volta quando, anos depois da morte de Maria Pascoal, é descoberto o manuscrito de um romance que esta teria escrito na sua casa de férias em Monte-Faro, para onde se evadia constantemente, tendo até morrido num acidente de viação quando viajava de regresso dela. O documento de Monte-Faro, do qual não temos praticamente excerto nenhum, e nem sequer um título preciso, é-nos descrito como um romance extraordinário. Amálio Correia de Sá, um escritor falhado que está próximo de Léon (Ainda que este não o considere propriamente um amigo.), acaba por publicar o documento, com o nome de Léon Geta como autor. No entanto, dado que Léon não passa de “um cão que sonha”, expressão aliás citada do documento de Monte-Faro, naturalmente não publica mais nenhum livro e, quer nas suas relações pessoais quer nas raras intervenções públicas que faz acerca do livro, mostra-se definitivamente muito pouco à altura da grandiosidade do livro que, suposto, terá escrito. Daí que, citando, “O documento de Monte-Faro, que seguramente não podia ser atribuído a um homem ou a uma mulher, teria, com o tempo, de ser alvo de toda a sorte de dúvidas e complicadas análises.” (pag. 232).
A presença das “três mulheres más” é particularmente importante neste ponto. Elas são mulheres que odeiam profundamente Léon, ainda que estejam perdidamente apaixonadas por eles, pois lemos inclusivamente que “não se pode odiar muito sem amar um bocadinho” (pag. 193). E, portanto, ao mesmo tempo que tentam encontrar todas as possíveis maneiras de seduzir o “inseduzível”, congeminam também a melhor forma de o destruir, ou, no mínimo, de destruir a fama que ele granjeou com a publicação do romance. Com o humor do costume, Agustina descreve assim as três mulheres más: “As mulheres más não são propriamente más. Uma fazia versos, outra fazia figura e a terceira consagrava-se a um marido fanático dos romances que escrevia(…)” (pag. 200). É precisamente esta terceira quem, mais afincadamente, tentará retirar Léon do pedestal em que o colocaram, precisamente porque teme que ele possa fazer frente ao marido. É também ela quem percebe que Léon não tem o mínimo interesse pelo estrelato, e, mais tarde, mais convicta fica de que Léon não é, na verdade, o autor do romance de Monte-Faro. Léon nem sequer leu o livro, apenas colheu dele algumas ideias mais vagas.
Entre as “dúvidas e complicadas análises” feitas ao livro, conta-se inicialmente a ideia de ele ter sido escrito pela defunta mulher de Léon, mas esta teoria “foi arrefecendo, enquanto que ganhava terreno a ideia seguinte: ele pertencia antes a um jovem seminarista adiantado no curso ou jovem noviço que, na casa de férias da Companhia, conhecendo a família dos Arcos, privasse com Maria durante alguns dias, tendo deixado á sua guarda o manuscrito que ela provavelmente copiara. Não estava assinado e a letra era regular e bem desenhada, como a de um copista.” (pag. 232). Entre as alucinadas análises ao livro, Agustina traça um interessante paralelismo com a teoria de que também a “Odisseia” não será na realidade obra de Homero, mas sim de uma mulher, a “princesa siciliana”, como Amálio, o único que sabe inequivocamente a verdade sobre o livro de Monte-Faro começa a referir Maria Pascoal. No meio de tudo isto, Léon permanece invariavelmente indiferente.
O seu interesse, no entanto, prende-se com um grande mistério da vida de Maria Pascoal: antes de casaram, no tempo em que a vida de Léon era entre os amigos do Bando, um bando de cães que sonham afinal, certa noite em que ele pernoitara na casa semi-abandonada do avô Osvaldo, tocaram-lhe à porta a meio da noite. Era uma rapariga, fugida da sede do MUD que havia sido descoberta pela PIDE e que ali vinha procurar esconderijo. Desapareceu na manhã seguinte e só depois da morte de Maria Pascoal, Léon fica com a impressão de que se tratava, na verdade, da sua futura mulher. Facto impossível de averiguar ao certo, dado que a mulher está morta e dela, pouco mais resta do que o referido documento de Monte-Faro.
E é esta, essencialmente, a grande particularidade de “Um Cão Que Sonha” face à restante obra de Agustina: a impossibilidade de averiguar a verdade dos factos. É certo que o romance acaba, como não podia deixar de ser, exactamente como termina. Com o seu herói acidental que pouco mais faz do que comer e dormir a toda a hora, e a verdade sobre a estudante do MUD e a autoria do documento de Monte-Faro por saber.
É também neste romance que Agustina afirma “Nasci adulta, morrerei criança”, através da personagem de Maria Pascoal. E nada mais apropriado, se estamos perante uma personagem que escreve um romance avassalador mas que morre, deixando atrás de si um acumular de mistérios, como uma criança que deles vive rodeada.

sábado, 15 de maio de 2010

a poesia visual de Henri Michaux















Pastelaria


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita genteque come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra



Mário Cesariny de Vasconcelos
Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano
1952, ed. Contraponto