Ouço o incêndio, as fábricas. O berço do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama onde o amor não há – apenas morre no clandestino abrir. Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce e então na noite recupera as loucas emigrações da história. Ouço crescendo secamente os filhos no rancor e na linfa. Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas. Ouço em momentos fartos o entulho, desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia, a sábia recriação do sumo. Ouço o arado. A luz. Profundamente os barcos segregados na propensão do mar. Ainda quem a medo desagregue a centenária paz: - os homens, onde os ouço, aqui recordo as origens compradas do terror. Os homens, onde os ouço, aqui confirmo suas mãos.
Hélia Correia
publicado na revista Vértice
e incluído na antologia "Poesia 71" organizada por Egito Gonçalves e Fiama Hasse Pais Brandão, ed. Inova, 1971
Foi em 1980 que apareceu nos cinemas um filme chamado "Sexta-Feira 13", dirigido por Sean S. Cunningham e escrito por Victor Miller. E se diz o povo que "a ocasião faz o ladrão", hoje que é sexta-feira 13, por que não falar desse filme?
A premissa, que partia de um drama familiar, tornar-se-ia ao longo dos anos uma das mais extensas sagas do cinema de terror.
"Sexta-Feira 13" era o segundo filho de um género na altura undergound, o slasher movie, um estilo específico e especificamente sangrento do filme de terror. Já em 1978 John Carpenter, o absoluto mestre do horror nos tinha oferecido "Halloween", e em 1984 seria a vez de Wes Craven realizar "Pesadelo em Elm Street". São aqueles filmes que causavam delírio em quem, como eu, aos treze anos ia ao clube de vídeo com a melhor amiga, no tempo das cassetes de vídeo, e passava a tarde a dar saltos no sofá e a comer caramelos... Filmes como já não se faz.
Até à data, estes três filmes tornaram-se filmes de culto, e originários de várias sequelas (Sete para "Halloween", onze para "Sexta-Feira 13", oito para "Pesadelo em Elm Street".) e um remake para cada um (O de "Halloween" tem direito a sequela própria.).
O slasher movie caracteriza-se essencialmente por episódios sangrentos que normalmente envolvem assassinos em série. E se tanto "Halloween" como "Sexta-Feira 13" se moviam ainda no terreno do possível, do verosímil, seria o filme de Wes Craven que traria o fantasioso ao género, quando cria Fred Krueger, um defunto que assassinava pessoas quando elas sonhavam com ele, confundindo assim o real com o delírio, tocando ainda questões de memória colectiva/comunitária. As armas, por norma, são brancas: Michael Myers, o galã do filme de Carpenter, usa uma faca de cozinha, Mrs. Vorhees, a mãe destroçada de "Sexta-Feira 13" uma faca de mato, e Fred Krueger usava uma luva com garras de metal. Com tudo isto, é natural concluir que "vai haver sangue".
"Sexta-Feira 13" mostra-nos um campo de férias onde vários perceptores começam a ser assassinados. O assassino, que se revela ser uma assassina, é Mrs. Vorhees, a mãe de Jason Vorhees, um rapazinho que morrera nesse mesmo campo de férias, porque os perceptores estavam mais ocupados a fumar e fazer sexo do que propriamente a tomar conta das crianças. O resto são mortes de pungente violência, numa altura em que esta violência era ainda muito invulgar em cinema.
Outra característica que une estes três filmes é a questão da vingança: é ela que move os assassinos. Michael Myers, que é uma encarnação do mal, volta à cidade onde nasceu e de onde foi levado para um hospício depois de ter morto a irmã mais velha à facada; Mrs. Vorhees vinga o filho perdido e Fred Krueger, que em vida fora um infanticida, volta para atormentar os filhos da comunidade que lhe deitou fogo.
O problema destes filmes são as sequelas. "Halloween" teve ainda direito a duas sequelas decentes ("Halloween II" e "Halloween H20".) mas os outros dois são casos de filmes completamente destruídos pelas sequelas. Em "Sexta-Feira 13, Parte 2", Mrs. Vorhees dá lugar ao próprio filho, Jason, que volta dos mortos para, ano após ano, assassinar mais perceptores de campos de férias; Fred Krueger é levado de pesadelo bizarro em pesadelo bizarro ao ponto da exaustão e nem o regresso de Wes Craven a realizar "New Nightmare" o salvou do aborrecimento e da predicabilidade para que o levaram.
"Halloween" dá uma inesperada reviravolta quando, no segundo filme, que continua a noite do primeiro, o psiquiatra e a enfermeira de Michael, que incansavelmente o perseguem, descobrem que Laura (Interpretada por Jamie Lee Curtis.) é na realidade irmã de Michael. É a mesma Laura que encontramos em "Halloween H20", 20 anos mais tarde, a ser descoberta finalmente pelo assassino, para o confronto final.
Uma coisa é certa: os filmes originais são impagáveis. Não se trata apenas de terem sido pioneiros na violência explícita e cruel, sádica por vezes, mas precisamente por, ainda hoje, nos parecerem despidos desse facilitismo que caracteriza o terror actual. Permanecem como objectos puros, de culto como acima disse, estão nos antípodas do bom e do mau que se faz no cinema de horror.
E a prova disso é que haveriam de ser esses filmes a influenciar toda uma camada jovem de realizadores que acabaram por dar um tiro no próprio pé, pois a influência foi tão grande que se tornaram pouco inventivos, elevando os três filmes originais à categoria de fórmula, que foi repetida vezes e vezes sem conta, ao ponto de já não surpreender, não causar mais que um bocejo e a sensação de que já vimos isto em algum sítio. São filmes como "Sei o que Fizeste no Verão Passado", "Dia de S. Valentim", além de quase todas as sequelas desses três filmes, que quase nos fartaram do tema. Chegou-se ao cúmulo de cruzar, em 2009, Jason Vorhees e Fred Kruger num ridículo confronto sem razões, em "Freddy vs. Jason".
É precisamente ao "moderno" que devemos a quase-destruição dos filmes originais. Além das ideias peregrinas sobre a imortalidade dos assassinos, que a cada filme morrem definitivamente, até que chega o seguinte que nos mostra que "afinal não", e como se isso não fosse suficientemente penoso, vemos os nossos heróis/homicidas a viajar pelo espaço, pela internet, pelos estúdios de cinema.
De destacar é um filme, também susceptível de ser incluido nesta categoria. Trata-se de "Massacre no Texas", de 1974, de Tobe Hooper. Foi o filme mais "deixado em paz", pois a ele dedicaram-se apenas três sequelas que nada têm de assinaláveis, e o remake de Marcus Nispel, em 2003, que é surpreendentemente bem conseguido. Considerado por alguns como um filme menor do género, parece-me não ser nada desprezível, e até invulgar neste contexto, pois em vez de se movimentar no campo da vingança (Por isso o guardei para o fim.) move-se no terreno das perversões e das psicoses, que, nevertheless, resultam no mesmo "massacre" sangrento, levado a cabo pelo temível Leatherface.
Como único digno descendente do slasher movie nascido nos anos 70/80, destaco "Mitos Urbanos" de Jamie Blanks, que ameaça já tornar-se outro clássico, contando já duas sequelas, sendo que a primeira não é um completo desperdício da original ideia de trazer para o real a mitologia urbana, sempre dentro do conceito de vingança. Além deste, existe "Scream", realizado pelo veterano Wes Craven, que é simultaneamente um slasher movie e um ensaio sobre o mesmo, sobre as regras que movem o filme de terror. Da trilogia, parece-me ser relevante apenas o primeiro. O segundo e o terceiro capítulos revelam-se de uma estranha inépcia.
Hoje, são raras as excepções à vulgaridade que o cinema de terror atravessa. Alguns filmes, como "The Blair Witch Project" de Eduardo Sanchéz e Daniel Myrick, "Jeepers Creepers" de Victor Salva ou "A Nona Sessão" de Brad Anderson dão-nos conta de alguns jovens realizadores com boas ideias, o resto são os mestres de sempre, Craven, Carpenter e pouco mais. No entanto, é sempre bom ver estes filmes e perceber que o percurso do cinema de terror nem sempre foram "as ruas da amargura".
POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE. CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.
A meia-dúzia de pessoas que vai lendo este blog, imagino eu, deve interessar-se por livros. Se assim é, e principalmente se tiverem uma idade que ronde a minha, já devem ter experienciado qualquer coisa como o que se passou comigo esta noite: de passagem por uma livraria de Viana do Castelo, fui perguntar se tinham um livro que quero ler- "Infância e Palavra" de Luísa Dacosta- e, quando me disseram que não tinham, pedi que verificassem se existia nos armazéns da livraria, que faz parte de uma grande cadeia (Ok, ok, era a Bertrand.), ao que me responderam que não, não senhor.
Já mais tarde, lembrei-me que se trata de um dos volumes da colecção Pequeno Formato, que a Asa publicava antes de ser vendida à Leya. Não terá sido há muito tempo que li vagamente um artigo, penso que de António Guerreiro, em que se referia o destino dos livros que existiam antes da venda (Que não é da alma ao diabo, mas quase.). Bom, aparentemente, grande parte dos livros desta colecção foram guilhotinados pela gigante multi-editora.
Concluí sem estranheza que provavelmente os que não foram guilhotinados foram os que já se encontravam esgotados- caso das maravilhosas "Canções do Rio Profundo", de Yvette K. Centeno.
Se esta medida tem por si só o evidente peso de nojo e de anti-cultura que não preciso de especificar, ele torna-se mais grave ainda quando pensamos que, a todo o momento, a obra de um autor está a ser descoberta por novos leitores. É o meu caso, que só há alguns meses me cruzei com a obra de Luísa Dacosta, que me seduziu especialmente, e que gostaria de poder reunir na minha estante.
Face a isto, e à ideia em vias de extinção de que fazer um livro é ainda produzir cultura, não compreendo realmente como alguém no seu perfeito juízo manda guilhotinar milhares de livros de autores como António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Maria Velho da Costa, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Jorge de Sena, Mário Cláudio, José Viale Moutinho, Manuel António Pina, Albano Martins, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, Inês Lourenço entre muitos outros. E isto sem falar das colaborações na parte gráfica, que contam com hors-texte de artistas como Júlio Resende, Jacinta Andrade, Jorge Pinheiro, José Cutileiro, Armando Alves, Lídia Vieira, Arpad Szenes, Mário Botas, José Rodrigues, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Cruz, entre muitíssimos outros, sem contar com a sempre preciosa mestria gráfica de Armando Alves, a quem devemos o formato e a apresentação dos livrinhos.
O que a Leya não parece perceber é que desperdiça completamente o trabalho de José da Cruz Santos que, méritos e deméritos àparte, dirigiu primorosamente a colecção, como também os textos e desenhos de todos esses colaboradores, que por mais que não esgotem necessariamente edições, não deixam de ser nomes que estão na História da Literatura portuguesa. É uma das mais insultuosas maneiras de faltar ao respeito a todos: os leitores, ao director da colecção, ao director gráfico, aos autores e aos artistas.
Se estas obras foram sobrando nos armazéns da editora, não quer dizer que por aí ficassem para sempre, porque, como acima afirmei, as obras dos autores estão sendo contínuamente descobertas; não acredito que eu tenha sido o único leitor português que nos passados meses se cruzou com um dos autores que existem nesta colecção.
E se era muito caro para a editora reservar espaço para os livros, por que guilhotiná-los é a única solução? Podiam muito bem ser distribuidos pelas livrarias a um preço baixo (Lembro que cada um custa cerca de 12 euros, o que pode ser muito para um livro de "pequeno formato".), ou até fazer uma feira e vendê-los nem que fosse a 50 cêntimos, porque sempre dava mais lucro do que pura e simplesmente destruí-los.
É por estas e por outras que não consigo acreditar que o uma postura capitalista possa rimar com fazer livros, porque inevitavelmente alguma coisa se perde no caminho. Relembre-se que em Portugal, fazer livros, ou livros com a qualidade dos desta colecção, não é realmente um negócio de grandes lucros, e quando uma mega-editora compra uma pequena editora, deveria estar ciente disso.
O que se passou sempre em Portugal com o mercado do livro nunca deu boas notícias. O pior é quando no meio das más surgem estas que são muito muito más, como é o caso.
Restam aquelas pequenas livrarias onde as editoras nem se lembram de levantar o stock, pode ser que lá encontre o livrinho que procuro...
Sou capaz de fechar os olhos e lembrar-me de tudo. De muita coisa que nunca repetirei. Que ao meu pai já lhe mandei uma boca. Mandei uma boca aos dois, ao meu pai e à minha mãe.
Uns pais arranjam a vidinha de uma maneira, outros arranjam-na doutra. Pensando bem, parece que aceito melhor os que se estão marimbando, os menos obcecados. Serão egoístas, chamem-lhes o que quiserem. Para mim têm uma qualidade: deixam-nos experimentar uma porção de coisas, deixam-nos saber o que é estar a rebentar de desespero e de solidão. Não acha que isto é muito importante?
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua continuar deitado até se destruir a cama permanecer de pé até a polícia vir permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária amar continuamente a posição vertical e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo fazer gestos no café até espantar a clientela pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia contar histórias obscenas uma noite em família narrar um crime perfeito a um adolescente loiro beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina deixar fumar um cigarro só até meio Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
Não encontrei – e não há solidão maior! – com quem chorar A morte de um amigo que se não Despediu. Fica tu, sejas tu quem fores, fora dela. Não lha mereces. Sereno, o sofrimento já não dói. É apenas uma tristeza bonita. Precisei-vos tanto, tanto! A vossa presença teria tornado mais leve a minha mágoa: mas a vida que anda para trás e para diante não parou. Ninguém, nenhum de vós veio trazer-me o consolo de uma lágrima. Ainda bem. Ter-vos-ia dito: se me virem na sarjeta, pisem-me em cima; se me querem bem, não se condoam. Por agora, nem sequer preciso de um colchão para descansar como fazem os vivos – dormirei dentro de um contentor e aí chorarei sozinha o meu amigo. O meu amigo. Ele é hoje uma semente na terra. Esta sentirá a fome de suas mãos quando um camponês semear nela
uma batata grelada: e, então, quando a minha apertar, mastigarei palavras limpas: honestas como o eram as suas. O meu lugar à mesa onde ele me servia o vinho à refeição e ouvia os desconcertos está desolado; por isso te peço, vazio a quem nunca menti, deixa-me albergar no teu nada – morar dentro de ti.
Quando em noites de insónia acontece pensar naquilo que éramos e nos vem à memória uma ou outra imagem feliz, subitamente ficamos conscientes da vertigem do tempo. Nessas noites entro em mim própria e procuro saber qual a razão que me fez tomar certa atitude, o que me leva a escrever e ficar dependente das palavras. Penso no poema onde a sobrevivência pela escrita é possível. Escrever é como estar vivo; existe o apelo abísmico e a luz do sol.
está afinal na letra destas canções. Quem não a conhecia, tem aqui uma boa oportunidade de se inteirar do que de melhor se escreve nos tempos que correm. Foi pena não ir a tempo da antologia que Jorge Reis-Sá e Rui Lage organizaram para a Porto Editora... Mas quando se fizer segunda edição, pode sempre aumentar-se a selecção, e estou certo de que o autor destas canções será o primeiro da lista. Ora ouçam com atenção:
Há uns tempos, havia uma publicidade de uma marca de desporto cujo nome me escapa, mas que tinha este interessante slogan: "Onde começas não é necessariamente onde acabas".
Esta frase ocorreu-me ao ouvir "Sweet and Wild", o mais recente álbum de Jewel, lançado ainda este ano. Recordemos que Jewel, cantora, guitarrista e compositora, se estreou em 1994 com um álbum definitivamente original, "Pieces Of You". Era um álbum gravado só com voz e guitarra acústica, salvo algumas excepções como "Who Will Save Your Soul", "Foolish Games" ou "You Were Meant For Me", as canções que acabaram por ficar na memória de quem ouviu o álbum. Em 1998, "Spirit", produzido por Patrick Leonard, acrescentava outro tipo de instrumentos e outra sonoridade, mais complexa, e neste álbum encontramos "Hands", "Down So Long", "Jupiter (Swallow The Moon)" e "Life Uncommon", canções que imediatamente se acrescentaram à colecção de essenciais de Jewel. Em 2001 chegaria aquele que me parece o pico mais alto da discografia de Jewel, "This Way" decidia-se por uma sonoridade mais rock, e explorava a voz da cantora (Bastante potente, por sinal.) em registos completamente diferentes. "Standing Still", "Serve The Ego", "Till We Run Out Of Road" ou "Jesus Loves You" falam por si.
As coisas começaram a mudar de figura quando em 2003 Jewel, produzida por Lester Mendez (Que já produzira Shakira, J.Lo, etc.), lança "0304", que seguira o sucesso de "Serve The Ego", onde a orientação rock encontrava um lado dançável. Mas "0304" ia muito mais longe, era todo um álbum para dançar, virado para uma pop muito semelhante à de Christina Aguilera.
Em 2006, Jewel retornou felizmente à sua sonoridade soft-rock, e se o álbum não vinha acrescentar nada em especial aos primeiros três álbuns (No meu entender os melhores.), pelo menos sempre mostrava que Jewel voltara ao seu perfeito juízo. "Perfeclty Clear", de 2008, vem já iniciar um novo percurso na música de Jewel, que abandonava um pouco o rock e enveredava pelo estilo country. Mas havia neste álbum algo que parecia ainda muito e perigosamente semelhante ao anterior, era excessivamente delicodoce, e, de certa forma, demasiado previsível. Salvava-se "I Do", afinal.
Apesar do título do novo álbum apontar para essa atmosfera demasiado doce, a verdade é que não é bem isso que se passa. Não posso dizer que este lado, o lado country, de Jewel seja aquele que mais me agrada, mas uma coisa é facto: este álbum não é uma mera repetição do passado. É aqui que Jewel se revela uma "stronger woman" (Ainda que fosse no álbum anterior que estivesse esta canção.), produzindo a totalidade das canções, assumindo assim o controlo total sobre todo o material.
"Sweet and Wild" abre com "No Good In Goodbye", que mostra logo um outro tipo de ritmo e um outro tipo de som, muito marcado pelo banjo e pelo violino, duas claras marcas country. "I Love You Forever" perde um pouco dessa energia, mas logo "Fading" e "What You Are" recuperam-na. A primeira surge na tradição das melhores baladas jewelianas, desde "Foolish Games" a "Deep Water" e "I Won´t Walk Away", assim como "What You Are" que, na pior das hipóteses, peca um pouco por uma talvez excessiva fragilidade, que, de qualquer forma, tem vindo a ser uma faceta constante da música de Jewel.
"Bad as It Gets" volta um pouco ao som mais expedito de "No Good in Goodbye", e, ainda que seja a única canção que não é composta por Jewel, acaba por se coadunar muito bem no conjunto das restantes. "Summer Home In Your Arms", que não é uma canção particularmente boa, tem ainda o condão de recordar um pouco todas as fragilidades musicais do álbum anterior.
"Stay Here Forever", que se segue, parece-me ser a melhor canção. Apesar da vulgaridade da mensagem romântica, a composição segue um esquema interessante, e é a canção que mais personaliza o estilo country, ao passo que, noutras canções, como a anterior, pode parecer que Jewel se limita a fazer aquilo que já foi feito.
"No More Heartaches" repete também essa particularidade da personalização do estilo, porque, apesar do som realmente novo, "No More Heartaches" segue aquela linha que já vinha um pouco de "This Way", dos lamentos que não parecem lamentos por conteram algo de extremamente luminoso: lembre-se "Till We Run Out Of Road" ou "This Way".
"One True Thing" é outra das boas canções de "Sweet and Wild", e também a que melhor explora a capacidade vocal de Jewel. Serve bem para aqueles ouvintes que a conhecem e sabem que há sempre uma música onde somos obrigados a admitir que o aparelho vocal de Jewel é realmente impressionantes. Neste álbum é "One True Thing". Quase o mesmo acontece com "Ten", que, apesar de tudo, é uma canção muito bem conseguida a nível de ritmo, e também uma canção bastante moderna: de alguma forma, parece estar muito de acordo com algumas das melhores canções pop surgidas nos últimos tempos, o que é estranho porque, por norma, a música que está na moda passa sempre ao lado de Jewel, o que, até agora, só a tem favorecido. Destaque-se nesta canção ainda o solo de banjo.
"Satisfied" fecha o álbum, e fecha muito bem: é a única canção com arranjos de cordas, onde se ouve ainda um piano (Invulgar na música de Jewel.), e, apesar do fantasmagórico tom delicodoce, a verdade é que nesta canção ele não cai completamente mal. E se estamos a falar do que está mal, nem se fala da capa, que não só a pior capa de Jewel como uma das piores que já vi em toda a vida.
Um aspecto muito negativo que realmente me surpreendeu foi a extrema predicabilidade das letras deste álbum: algumas conseguem ser piores do que as de "Perfectly Clear". Aliás, neste álbum, ser-me-ia muitíssimo difícil destacar a letra de determinada canção como "a menos má". Bem sei que para muitas pessoas a letra de uma canção não tem interesse, mas a verdade é que esse nunca pareceu ser o caso de Jewel que, recordemos, lançou em 1998 o livro de poemas "A Night Without Armour". Quem diria que doze anos depois, ela estaria a escrever versos como estes?
São, acima de tudo, boas canções de country-rock, próximas mais de uma Sheryl Crow do que das Dixie Chics, entenda-se; algumas melhores que outras, mas, no geral, todas elas, com nítida impressão digital de Jewel. E quem como eu a ouve desde o início, sabe que os álbuns dela sempre foram feitos de canções boas e de outras completamente dispensáveis, tradição que "Sweet and Wild" mantém: retenham-se "Fading", "What You Are", "Stay Here Forever" e "No More Heataches" ou "Satisfied".
Se "Sweet and Wild" pode ou não competir com os grandes álbuns de Jewel não sei. Este é um álbum diferente, distante da Jewel que conhecemos nesses primeiros três albuns. Haverá quem prefira a primeira, e quem prefira a segunda. É sempre discutível qual é a melhor, mas a boa notícia é que, afinal, Jewel é só uma, mas vale por duas.
"Stay Here Forever", da banda sonora da "Valentine´s Day".
O poema ensina a cair sobre os vários solos desde perder o chão repentino sob os pés como se perde os sentidos numa queda de amor, ao encontro do cabo onde a terra abate e a fecunda ausência excede
até à queda vinda da lenta volúptia de cair, quando a face atinge o solo numa curva delgada subtil uma vénia a ninguém de especial ou especialmente a nós uma homenagem póstuma.
Paula Morão, que considero uma ensaista de grande inteligência e especial sensibilidade escreveu, a propósito de "Morrer A Ocidente" um texto, do qual transcrevo um excerto, acerca da escrita de Luísa Dacosta, com o qual concordo inteiramente:
A hiperconsciência que aqui se lê, desmontando ela mesma o mito de que se alimenta, conduz a um final elegíaco, sob o signo da despedida (como, aliás, acontecia no livro ["A-Ver-O-Mar] de 1980). Depois da confirmação do nome A-Ver-O-Mar, que "dura há séculos e continuará depois de mim. Sem mim" (p.125), encontra-se a despedida, retomando primeiro à descrição simbólica da casa-corpo, "ovo e berço" agora, "concha vazia" como há-de ficar um dia, e estendendo-se depois à luz sobre o mar, operando a fusão entre o "eu" e a paisagem marítima ("sou a gaivota [...] sou a pedra, p.218). O fim do livro coincide com o descrever da encomendação das almas tal como se pratica na região de A-Ver-O-Mar, ritual de lembrança e do entrelaçar da vida e da morte: "Ali as práticas dos vivos sobrepunham-se à encomendação das almas. Ali a vida triunfava da morte" (p.221). Assim se unem duas metades, mundo e escrita dele, através da palavra mágica [...]
Lendo este livro apuradíssimo, secreto e intenso, penso em António Nobre, em Raul Brandão, em Irene Lisboa: como (me) acontece com as deles, a escrita de Luísa Dacosta fica ecoando, no espaço mais íntimo dos dias.