sexta-feira, 23 de julho de 2010

Agustina tem destas coisas... (15)

Num povo pessimista, não o bastante para ser neurótico, nem exasperado para ser sobre-humano, depara-se-nos às vezes certo fenómeno de combustão interior e que é pouco menos que uma nova ética.
.
.
.
.
.
de O Susto

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Filme para todos os dias


Le Temps Qui Reste de François Ozon

Canção Para o Dia de Hoje

The Legendary Tigerman feat. Asia Argento: "Life Ain´t Enough For You"

Des Pieds et Des Mains


Eu conheço as coisas de tu não estares
as voltas que o mundo não dá
assim tu estejas e pares.

Encostado a uma parede
despido e vegetal
encostado a uma parede, a cantar
cheio de ramos tenros e novos
incalculável.

Regina Guimarães
Tutta
1994, ed. Felício e Cabral
desenho de Ana Hatherly

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outubro, 1949



As ruas dormem ainda. As luzes dos candeeiros, porém, já se apagaram. A casa em frente tem o ar solene e misterioso das casas desabitadas. Talvez por isso o seu jardim de palmeiras hirtas consegue um certo encanto. Ao fundo a gravata, ainda cinzenta, do rio. Passam vendedores de jornais com a sacola vazia, acompanhados de uma tossezinha seca. E velhas, vergadas de devoção, para a primeira missa. Uma mão ensonada arredou uma cortina na casa rosa, de um rosa recente de bolo de aniversário. O movimento aumenta. O camião do gelo parou em frente da leitaria.
Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, Diário
1992, ed. Quimera
pintura de Edward Hopper

terça-feira, 20 de julho de 2010

Olga Gonçalves: Caixa Inglesa

Termino agora a leitura de "Caixa Inglesa" (1984, ed. Rolim) de Olga Gonçalves, escritora nascida em Luanda, em 1929.
Este é um livro em que a autora cruza, dentro de um certo experimentalismo, a poesia e a prosa. Relembrando "Movimento" (1972, ed. Moraes), primeira recolha de poemas de Olga Gonçalves e comparando com este livro de 1984, o que falta ao primeiro parece este ter a mais.



Segundo a nota na contracapa, Olga Gonçalves testemunhou interesse para o experimentalismo e talvez seja essa a principal fragilidade do livro de estreia: uma tendência excessiva para a estética, ligada ao minimalismo, que tornava alguns poemas apenas fôlegos rítmicos e palavrosos em que não se entendia grande conteúdo. Em "Caixa Inglesa" não existe esse minimalismo, mas muitas vezes justamente um excesso. "Caixa Inglesa" é um livro de ideias e imagens potencialmente fortes, em particular as ligadas à infância e à memória, mas de certa forma estes poemas em prosa precisavam de alguma limpidez, de menos palavras. Precisamente esse excesso torna alguns dos textos demasiado barrocos, e nalguns casos esse excesso é tão evidente que se perde o rasto à ideia para seguir as palavras.
É certo que este cruzamento entre prosa e poesia é um projecto de grande vulto, e Olga Gonçalves consegue por vezes alguns resultados mais positivos, sendo o mais interessante a questão do ritmo, conseguido pela escolha rigorosa das palavras e da pontuação. A pergunta é ainda até que ponto a perseguição do ritmo não distrai do conteúdo dos poemas.
Dos vinte e nove poemas que totalizam os dois capítulos de "Caixa Inglesa" um parece ser, de todos, o mais equilibrado: "Meia-Tarde". Neste poema são conseguidos o equilíbrio e a tensão entre a forma e a ideia, que parecem mais frágeis em grande parte dos restantes textos.
Se é verdade que esta fusão de géneros literários (Que excede a forma, claro.), já produziu em Portugal verdadeiras obras de referência- como "O Aquário" e "Movimento Perpétuo" de Fiama, "Os Passos em Volta" de Herberto Helder ou os romances de Yvette K. Centeno- no caso de Olga Gonçalves, e concretamente da sua poesia, parecem-me mais pertinentes os sonetos, onde o cânone formal ajuda a controlar a escrita, evitando que o excesso de palavras desfoque a ideia do poema. Leia-se "Só de Amor" (1975, ed. Ática), livro de referência na bibliografia da autora, totalmente constituido de sonetos, que comprovará esta ideia.

Uma Citação

Eu sei que o interior e o exterior da beleza das casas não é coincidente______ e atribuo à beleza um grau elevado de pensamento.


Maria Gabriela Llansol
Um Beijo Dado Mais Tarde
1990- ed. Rolim

Canção Para o Dia de Hoje

Anathema: Harmonium

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Bem-Vindos ao Amadorismo: Um Balanço sobre o Marés Vivas

Nunca vi nada assim.
Só ando nisto de festivais há cinco anos, já estive em alguns, mas o mais próximo que estive do Marés Vivas antes destes três dias foi num famigerado São João na Ribeira.
O público era constituido maioritariamente por bois a olhar para palácios: grandes palácios como Allison Goldfrapp, como os Placebo e os Editors: três concertos que passaram completamente ao lado de um público que está habituado a ouvir pouco mais que a Romana e a Ágata.
O melhor concerto acabou por ser o dos Goldfrapp, uma vez que a (des)organização do festival arruinou o concerto dos Placebo com o som distorcido além do aceitável e o concerto dos Editors que ficou suspenso 20 minutos porque o profissionalismo era a palavra de ordem dos responsáveis pelo Marés Vivas. Talvez se estivessem menos concentrados em quais os melhores lugares para colocar a barraca da cerveja e a decidir que brindes oferecer a quem aceitar fazer palhaçadas nos stands acabassem por pensar um pouco sobre o que é organizar um concerto respeitando os músicos: foi respeito que faltou perante os colectivos de Brian Molko e Tom Smith.
Enfim, para o ano não há mais, espero eu.

domingo, 18 de julho de 2010

Marés Vivas: Editors

FOGO SUSPENSO

O último dia do festival Marés Vivas é em definitivo a cereja em cima do bolo: um bolo de São João cheio de cantigas populares e ambiente hedonista a que não faltam bailaricos, farturas e claro, cereveja. Refiro-me ao ambiente e à organização, claro. No que respeita os concertos, há que dizer que o dos dEUS foi definitivamente excelente, ainda que fosse o de Ben Harper o mais aguardado.
Por volta das onze e meia devia haver onze pessoas e meia realmente interessadas em ouvir os Editors, que regressam a Portugal ainda com "In This Light and On This Evening", o melhor de três álbum que a banda britânica já produziu. O concerto de Ben Harper também iria estar cheio, mas por motivos diferentes...
E se por cerca de vinte minutos pareceu a essas onze pessoas e meia que iriam ter um grande concerto: o som estava excelente, Tom Smith e companhia estavam a tocar um alinhamento inteligente e com toda a qualidade mas... foi caso para realmente se desenganarem.


Mas comecemos pelo princípio. Os Editors entraram em palco com a canção "In This Light and On This Evening" cantada numa escala mais aguda do que a do disco. Prosseguiram para "An End Has a Start" resgatado ao disco anterior.
É evidente que todas as bandas com mais do que um disco sempre aproveitam os concertos para fazer uma espécie de retrospectiva, mas no caso dos Editors quanto menos saudosismo melhor, porque o terceiro álbum é que representa realmente uma identidade para a banda que hoje se pode afirmar realmente original. A confirmação chega com estas canções que tocadas ao vivo soam ainda melhor como "Eat Raw Meat/ Blood Drool" que é mesmo mesmo uma grande canção. Mais ainda, momentos como "Fingers In The Factories", "Bones" ou o fantástico "Blood" continuam a fazer todo o sentido, bem como "The Racing Rats" que poderia perfeitamente fazer parte do álbum mais recente. "Smokers Outside The Hospital Doors" seria outro momento de apoteose até que... Tom Smith começa a emitir sinais furiosamente para o técnico de som. Recomeço. Tom Smith levanta-se e atira com a guitarra para o chão. Saem todos de palco.
Durante cerca de vinte minutos, aquelas onze pessoas e meia perguntam-se se o concerto prosseguirá ou ficarão por ali, enquanto as outras vaiavam e berravam insultos para um palco vazio. Eu cá só fiquei impressionado com isto: como é que se pode fazer um festival de música e tratar os músicos com tão pouca dignidade como fez a organização do Marés Vivas? Qual é o músico sério que gosta que se seja tão pouco sério com ele? No meio disto, penso que Tom Smith teve toda a razão, e estou certo de que se fosse eu nem voltaria para cima do palco.

Mesmo assim, os Editors acabaram por de novo entrar em palco, atalhando para "Bricks and Mortar" e o obrigatório "Papillon". Tom Smith refere os choques eléctricos de que estaria a ser vítima, razão por que havia saído, e desculpam-se por ter que abandonar mais cedo o palco.
Foi muito bom enquanto durou, nas duas partes, mas a verdade é que foi insuficiente para o ter sido realmente. Momentos do disco mais recente como "You Don´t Know Love" ou "The Big Exit" faziam realmente falta a um concerto de que se espera tanto, ou pelo menos o muito a que "In This Light and On This Evening" obriga.

Fotos: BLITZ




In This Light and On This Evening





Blood




Papillon

sábado, 17 de julho de 2010

Marés Vivas: Placebo

BATTLE FOR THE SOUND

O segundo dia do Marés Vivas contribuiu consideravelmente para a atmosfera de amadorismo que me pareceu tão evidente no primeiro dia.
Eram cerca de onze e meia quando os Placebo entraram em palco, tendo saido pouco mais de uma hora depois. E quem já teve oportunidade de assistir a outros concertos só pode ter ficado desiludido. O concerto no Marés Vivas é bem capaz de ter ficado aquém do polémico concerto no Creamfields (2007) em que Brian Molko abandonou o palco ao fim de 50 minutos supostamente por ter ficado sem voz, apesar de todos terem percebido que os problemas de som foram a razão que o fez virar as costas.



A verdade é que este concerto está muito proporcional a todo o espírito do festival da Praia da Afurada, mas é muito ingrato para um álbum como "Battle For The Sun" (2009), que contém algumas das canções mais interessantes dos Placebo.
Destas canções foi possível ouvir "Ashtray Heart", "Battle For The Sun", "Breathe Underwater" ou "The Never Ending Why". Apesar de no fundo me lamentar um pouco por não ter ouvido momentos como "Come Undone" ou "Kitty Litter", o problema do concerto de ontem não foi o álbum mais recente, mas a incisão nos álbuns passados que pode ter resultado muito bem em "Nancy Boy" e até em "Bionic" (Isto falando dos mais recuados porque já se sabe que outros como "Every You and Every Me" ou "The Bitter End" nunca deixaram de ser apoteóticos.), a verdade é que noutros momentos soou frouxo, como se os Placebo estivessem a tentar reavivar um passado que, para o bem e para o mal, não faz parte do melhor que a banda tem para oferecer, pelo menos ao vivo num festival onde, já se sabe, sempre são mais convenientes as canções mais fortes e talvez imediatas.


No entanto, para um ouvido atento e conhecedor da música dos Placebo, o alinhamento foi um mal menor em comparação com os problemas de som que roçavam o insultuoso: a voz de Brian Molko apagava-se constantemente quando se ouviam os sintetizadores, as notas altas em que o vocalista é tão perito quase perfuravam os tímpanos, e em canções como "Taste In Men" ou "Meds" ou "Post Blue" as guitarras sofreram de uma incomodativa falta de nitidez.
Surpreendente foi também a simpatia de Brian Molko, de longe muitíssimo mais comunicativo do que o habitual (Good evening, Molko boys and Molko girls...), e até cómico por vezes.
Refira-se ainda o momento brutal que foi "Trigger Happy" e a cover de "All Apologies" tão surpreendente como bem inserida.
Podia ter sido pior, mas a verdade é que noutro festival facilmente seria melhor. Não deixa de ser estranho que um concerto de um álbum tão bom possa ser arruinado pela falta de profissionalismo da organização. Esperemos que "Battle For The Sun" seja tocado uma vez mais em Portugal, de preferência onde seja BEM ouvido. É que no Marés Vivas tem que se batalhar mais pelo som do que propriamente pelo sol, e isso não convém a uma boa banda.

Fotos: BLITZ



Every You and Every Me


Battle For The Sun


Trigger Happy


All Apologies

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Marés Vivas: Goldfrapp

ELECTRO-CHOQUES


Além do amadorismo da organização e do ambiente a roçar o são-joanino, o primeiro dia do festival Marés Vivas (Vila Nova de Gaia) foi marcado, em termos de música, pelo regresso de Skye Edwards aos Morcheeba e pelo concerto dos Goldfrapp, que regressam a Portugal para apresentar "Head First".
Este concerto, com dois anos de distância do anterior, no Sudoeste, vem provar duas coisas: a primeira é que os Goldfrapp são uma grande banda, a segunda é que o público português não percebe muito do assunto, e o do Marés Vivas menos ainda. A noite foi, em comparação ao SW, parada e aborrecida, o que não deixa de ser estranho porque me quer parecer que o alinhamento deste concerto era mais "festivaleiro" do que o do SW.


Mas esqueçamos o público e foquemo-nos no concerto. A verdade é que "Head First" é um disco que vem recuperar o fôlego onde o seu antecessor, "Seventh Tree" respirava calmamente. As canções, onde não deixa de ser notório um rumor de anos 80, intercalaram-se neste concerto com canções passadas que são agora transformadas, trazidas essencialmente de "Black Cherry" (2003) e "Supernature" (2006).
E talvez tenha mesmo sido "Supernature" o maior problema deste concerto: as canções são poderosas, sonantes e verdadeiramente chamativas, mas a verdade é que passaram dois discos deste esse e "Supernature" ainda é obrigatório. Se por um lado isso é um evidente sinal de que os Goldfrapp têm (pelo menos) aí um grande álbum, por outro um concerto de apresentação deixa de o ser propriamente. Claramente este era um concerto de dança, mais que outra coisa qualquer, e a melhor prova continua a ser o facto de em "Felt Mountain" (2000) e em "Seventh Tree" (2008) não se ter tocado.




Fora isso, os Goldfrapp souberam seleccionar as canções mais festivas e mais do lado electropop, tanto do álbum mais recente, como "Alive", "Dreaming", "Shiny and Warm" além do obrigatório "Rocket", quer do passado, como "Train", "Cristalline Green" que abriu o concerto em grande estilo, "Ride On a White Horse", "Number One", "U Never Know" ou o evidente "Ooh La La". Para o fim ficou a nova versão de "Strict Machine" que foi o culminar de todos os electrochoques que marcam o estilo dos Goldfrapp. Apesar do som estar demasiado alto, pareceu-me, estava assinalavelmente nítido, com a distinção perfeita entre os vários instrumentos e os vários sintetizadores, tocados pela banda vestida à anos 80.
Foi de lamentar que não houvesse encore.
Allison Goldfrapp estava fantástica como sempre, Shiny and Warm no seu poncho preto e prata e o seu estilo ébrio/perverso. Falando pouco, acabou por comunicar bem com o público através do movimento e de pequenos comentários. Escusado será dizer que apoteose foi em "Ooh La La", o único momento em que o festival se assemelhou minimamente a um festival. Não deixa de ser estranho, porque afinal a música dos Goldfrapp celebra a vida.
Como sempre, excelente.


Number One


Ooh La La


Rocket

domingo, 27 de junho de 2010

Let´s Rock

a famosa cena da sala vermelha, do terceiro episódio de "Twin Peaks", realizado por David Lynch.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Passatempo: "Descubra as Sete Diferenças"

Leona Lewis: Bleeding Love

Katy Brand: Heart Bypass Love

Katy Brand, sempre melhor que o original

neste caso, "Bad Spella", incarnando o "Umbrella" de Rhianna. Como a própria diz, "my songs don´t make much sense"




e aqui, como Lady Gaga que enquanto "just dance(s)" has "No Pants"

love without pain isn´t really romance
.
.
.
.
.
.
Royksopp, Only This Moment

The Saddest Thing to Say

Legendary Tigerman e Lisa Kekaula, ao vivo.

sábado, 19 de junho de 2010

Provavelmente Tristeza

Há dias assim, em que vemos de certa forma desaparecer uma referência da nossa vida, cultural e outra. É um desaparecimento que não o é realmente ou completamente, mas não deixa de se perder alguma coisa.
Morreu ontem José Saramago, um dos meus romancistas preferidos, e, de certa forma, perdi uma referência que era cultural, ideológica, e por ser estas duas coisas, pessoal também. Ou principalmente.
Em 1998 foi Prémio Nobel da Literatura, também. Apesar disso, penso que só posso falar de mim, do que significa para mim.



Os livros de José Saramago existiam na casa dos meus pais antes de existir eu, mas para mim, José Saramago começou há cinco anos atrás: eu tinha quinze anos e o "Ensaio Sobre a Cegueira" fez-me ver muitas coisas, bem como o "Ensaio Sobre a Lucidez" que li quase de seguida. Percebi logo que Saramago excedia largamente o conceito do romancista. Ele era, e continua a ser, um pensador, verdadeiramente um lúcido, mesmo quando parecia lúdico. Do José Saramago que tentava ser poeta dos "Poemas Possíveis" e de "Provavelmente Alegria" ao José Saramago que na prosa conquistou a plenitude, ensaiou brilhantemente sobre a nossa cegueira política e humana, uma cegueira profunda e praticamente irresolúvel. Era um homem de uma inteligência extrema que nunca foi glacial, porque a ele devemos também histórias de amor como "Memorial do Convento" que, apesar de desde há vários anos ter vindo a ser objecto de tentativas de destruição com o ensino secundário, continua sendo uma das maiores histórias de amor alguma vez escrita, um amor que é muito mais épico do que o épico da construção do convento de Mafra, o amor entre um homem maneta e uma mulher que em jejum via os homens por dentro e que para não o ver a ele todas as manhãs de olhos fechados comia uma côdea de pão.
A José Saramago devemos também romances que pensam a uma luz diferente da habitual questões como a morte, que parece agora ter mais importância ainda, como em "As Intermitências da Morte", da História de um país e do seu povo, como em "Levantado do Chão" e mesmo de referências culturais como em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", além da igreja, que não deixa de nos parecer uma forma de fuga de um mundo sem deus, como vemos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e mais recentemente "Caím", romances de uma leitura tão complexa quanto pungente e que tão mal caíram a um país em fuga do seu estado sitiado como é Portugal.
Talvez por o ver morrer o seu autor, parece-me inevitável pensar em "As Intermitências da Morte". Lembremos que a Morte se apaixona pelo violoncelista e "no dia seguinte ninguém morreu". Não só percebemos que afinal a Morte ainda não se apaixonou, como ainda não aprendeu a falar para nós, porque ainda não aprendeu a dizer nada perante a maior dor humana. Isto já o dizia Saramago no seu romance, e ainda não mudou.
Como não mudou ainda a nossa cegueira, a nossa falta de lucidez, a nossa vassalagem ao poder instituido, a nossa falta de rebelião, a nossa inépcia. Saramago não fez mais do que lhe competia: pensou, deu-nos essa arma e a possibilidade de a usar.
Agora que morre o homem e nos ficam os livros, só me resta desejar a José Saramago que por muito tempo não descanse em paz, porque não consigo imaginar pior destino para um artista do que descansar em paz. Espero que durante muito tempo lhe dêem voltas e mais voltas e se debrucem sobre a sua obra de uma forma mais séria do que enquanto foi vivo e despertou tantas invejas e dores de cotovelo, como convém a todos aqueles que arriscam estar acima da banalidade.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

vídeos novos (ou nem por isso) de dois velhos presentes nos meus headphones

a sensualidade serena e exótica de Sade Adu em "Soldier Of Love", titletrack do álbum de 2010. Um regresso aguardado que não desilude



não menos sensuais, os Editors com "You Don´t Know Love", segundo single do mais recente "In This Light and On This Evening"