quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ilse Losa: Sob Céus Estranhos

O CAMINHO DE CASA

A obra de Ilse Losa, desde o inicial “O Mundo em que Vivi”, construiu-se tentando ensaiar uma noção de pátria, não no sentido de um qualquer nacionalismo, mas no sentido de uma localização íntima do indivíduo. É pois uma obra que não vale apenas o seu valor literário, mas que deve ser considerada também ao seu nível político, antropológico e sociológico.
As suas temáticas variam, mas sempre se movimentam em torno deste conceito. É um imaginário muito pessoal, e, de certa forma, único entre nós, já que, até hoje, não nos surgiu ainda um autor que possa ter reflectido tão profundamente sobre as questões de um mundo em transformação pela força de uma guerra, e, acima de tudo, no seu impacto humano. Os livros de Ilse Losa são, ainda hoje, testemunhos de uma época que em muito terá sido decisiva para uma formação do tempo que é este, o nosso. Exemplos disso são livros como “Aqui Havia Uma Casa” ou os poemas em prosa de “As Grades Brancas”.
“Sob Céus Estranhos”, no entanto, condensa todas as questões intrínsecas à temática da autora, mas destaca-se por ser uma obra de particular maturidade, como se retomasse os textos prévios de Ilse Losa, mas o recontasse de forma tão mais desenvolta e polida que se nos assomam completamente novos. É, ainda hoje, um romance de excepção, quer no contexto da vasta bibliografia de Ilse Losa, quer no contexto de uma literatura portuguesa.




O protagonista da trama, Joseph “José” Berger é um alemão refugiado no Porto. Encontramo-lo no primeiro capítulo vagueando pela cidade enquanto a mulher, Teresa, se encontra na maternidade, pronta a dar à luz. Ao longo dos capítulos seguintes, a história de José é contada, respeitando mais um tempo emocional do que um tempo cronológico. É num dos capítulos finais que encontramos uma passagem que, a meu ver, define bem o espírito deste romance, a ideia sobre que ele se questiona e reflecte: Joseph está pronto a casar com Teresa mas, no Registo Civil exigem-lhe a certidão de nascimento que não tem. Quando contacta os Serviços Administrativos da sua cidade natal, é-lhe dito que o edifício onde estes originalmente funcionavam fora incendiado e os documentos, perdidos. José é então forçado a forjar, junto do notário português, uma certidão de nascimento com base em testemunhas. De testemunhas servem-lhe dois amigos portugueses que afirmam ter sido convidados para as várias festas de aniversário de José na Alemanha, desde a infância. Esta história, que todos, incluindo o notário, sabem ser falsa serve, no entanto, para conceder a José a sua certidão de nascimento. Uma segunda certidão de nascimento, dada num país estranho com base em factos faseados. É esta a eterna questão de “Sob Céus Estranhos”: se é possível para aquele que fugiu do seu país de origem encontrar uma outra pátria num outro país. A verdade é que esta é uma pergunta que só pode ficar sem resposta, pois, mesmo casado e à espera de um filho, José continua a ser um estrangeiro, que não só é posto, de certa forma, à margem da sociedade portuguesa, como também não raras vezes ele mesmo se coloca fora dela. Acerca disto, cito uma passagem do vigésimo oitavo capítulo:

“Acontece quando a vida em público que decorre sem a presença de mulheres me simboliza atraso, enfado, falta de espírito e de graça, e apetece então romper as grades, respirar mais fundo, em qualquer parte onde haja resistência e luta, renovação e aventura ou, pelo menos, um pouco mais de exuberância”

(1ª edição, pag.187)

Também no final da história, outra problemática é colocada: José, já casado com Teresa, vai visitar a sua cidade natal à Alemanha. Ao contrário daquilo que esperava, o que encontra não é um “deserto”, mas também não é o lugar de onde saiu, aquando da guerra. É verdade que grande parte da cidade está destruida, mas ainda encontra pessoas que conhecia, que se recordam dele e o reencontram já numa nova vida, uma vida que acontece num outro país. São pungentes as ideias que passam pela cabeça do personagem:

“Onde estavam aqueles que me tinham derrubado na estrada e que se “estavam nas tintas” para comigo? Onde estavam os que escorraçaram o good old man? Os que encerraram toda essa gente num comboio selado que entrou, certa noite, na estação do Rossio? Ninguém parecia ter expulsado ninguém. (…) Ninguém parecia ter assassinado ninguém. E nenhuma dessas pessoas solícitas tinha cara de ser assassino de crianças. Lamentavam, sentiam muito, por vezes até choravam. Mas não se apresentou um único que tivesse estado presente nos dias da carnificina. Estiveram todos ausentes, todos.”

(1ª edição pág. 196-197)

Ou seja, mais do que a questão de muito provavelmente não ser possível para quem foge de um país conseguir “habitar” outro, mostra-se também impossível reencontrar o país de origem. Ele encontra-se geograficamente, mas não se encontra emocionalmente. Aqui, a cisão que a Guerra, nos seus impactos social e político, cria num indivíduo, bem como num povo inteiro.
É este, acima de tudo, o drama que “Sob Céus Estranhos” relata, na primeira pessoa: a perda de identidade. O indivíduo que foge é obrigado a ter uma espécie de “segundo nascimento” que nunca é encarado como nascimento, pelo menos de forma plena, porque não se consegue eliminar o registo do primeiro. O refugiado é arrancado à força de tudo o que conhece, e entregue à sua sorte para reconstruir algo semelhante a uma vida num outro lugar. Mas verdadeiramente nunca o consegue, por mais que a sua vida siga aquilo que é o esquema mais normal: o casamento, uma casa, filhos…
A sensação que “Sob Céus Estranhos” mais parece deixar é a de que se perdeu alguma coisa que nunca verdadeiramente se vai recuperar. Alguma coisa que é impossível nomear precisamente, tanto quanto é impossível obter respostas concretas para as muitas perguntas que essa perda levanta.
Além da questão individual, que Ilse Losa conheceu na primeira pessoa (E só isso permitiria um romance tão profundo.), há também a questão vista de um prisma de colectivo: as movimentações de imigrantes que passam pela cidade do Porto, o café Superba onde se reuniam para contar as suas histórias que, sendo todas diferentes, eram todas, na realidade, muito iguais, porque todos haviam perdido essa identidade, e todos se encontravam, para todos os efeitos, perdidos num mundo em que não podiam encaixar.
O choque cultural é também uma componente muito marcada neste romance. José depara-se, no Porto, como uma sociedade ainda atrasada, descriminatória, misógina e que se recusa terminantemente à cultura, é um “mundo fechado” como Agustina disse no seu primeiro romance. Há, neste aspecto, algo de queirosiano em “Sob Céus Estranhos”, no sentido em que a figura de José, mesmo vindo de um país destruído pela guerra, tem da vida uma noção mais evoluída do que a maioria em que se vê inserido, tal como acontece muitas vezes nas prosas de Eça, ainda que essas se centrem mais num antagonismo romantismo/realismo-naturalismo, sendo, portanto, mais direccionadas do que o que encontramos em Ilse Losa que ultrapassa em muito a literatura e se refere à política e à sociedade.
O estilo de escrita vem na linhagem seca e fluida que encontramos, por exemplo, em Irene Lisboa: Ilse Losa não perde tempo em detalhes, não se desvia da história que está a contar, é acutilante e extremamente observadora: não só em relação às pessoas que descreve, mas à visão de uma cidade, o Porto, uma visão que só é possível a quem vem de fora e se confronta com uma cidade nova.
Romance de primeira água, “Sob Céus Estranhos” é um livro que, em muitos aspectos, não perdeu a sua modernidade e que coloca questões sobre o nosso país que, ainda hoje, não têm uma resposta concreta.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Animais da Terra



Estranho fruto
o que amadurece entre as mãos
e a madrugada:
é uma ideia,
sempre a mesma ideia da terra
pressentida nos uivos dos animais
que tu aceitas

porque se move a pedra
e só o cão está atento
enquanto os marinheiros fumam
junto ao cais

parecem velhas histórias
de raparigas nuas
mas é o tempo
a vaguear na inquietude.
A eternidade é só a demência do homem
diante do império
que temivelmente repete
a continuidade

Por quem temem os animais?
pobres mensageiros sem palavra
em que primeiro a terra se ressente.
E ainda o marinheiro
passa a mão pelo pêlo húmido
do ar do cais

Com estas mesmas palavras
alguém dirá um dia
uma outra terra
a ideia
que acolheste nas mãos
e o tempo trabalhou
na tua ausência.






Rosa Alice Branco
Animais da Terra
ed. Limiar, Maio de 1988


imagem de Carla Gonçalves

Salette Tavares: Lex Icon

O SÍMBOLO REVISITADO

Em 1971, “Lex Icon” (Moraes ed.) haveria de ser o último livro de originais publicado por Salette Tavares. Como podemos ler no texto de Rui Torres no catálogo da recente exposição “Desalinho das Linhas”, a produção de Salette Tavares não parou nem abrandou após 1971, mas a maioria dos textos posteriores permanecem, por alguma razão, inéditos, mesmo depois da morte da autora, em 1994. Salvam-se os poemas inéditos que vão de 1957, data da edição de “Espelho Cego” (ed. Ática), primeiro livro, a 1971, data da edição de “Lex Icon”, recolhidos ainda na edição da “Obra Poética 1957-1971” de 1992 (ed. Imprensa Nacional- Casa da Moeda).
No entanto, mesmo sabendo que existe produção depois de 1971, que inclui poesia, poesia visual, prosa e ensaios, “Lex Icon” não deixa de parecer, ainda agora, uma espécie de livro testamentário. Testamentário no sentido em que completa perfeitamente o projecto iniciado com “Espelho Cego” e se posiciona como quase uma base teórica para a poesia visual de Salette Tavares, provavelmente a mais interessante da poesia experimental portuguesa, ao lado da de Ana Hatherly.

O livro é formado por três capítulos: “Lex”, “Icon” e “Lex Icon”. Será interessante analisar o peso das palavras para que se compreenda este livro. “Lex” poderá ser uma abreviatura para “léxico”, que compreende um campo de palavras relativo a determinada ideia, e “Icon” é evidentemente um símbolo.
O primeiro capítulo, formado por um poema, “As Lições”, parece realmente explorar as possibilidades de criação de um campo lexical relacionado com a poesia. São assim colocadas lado a lado ou em contraponto palavras como “falar”, “escrever”, “ler” e “ver” entre outras, parecendo-me, no entanto, serem estas as mais significativas para uma leitura da obra de Salette Tavares, pois a sua poesia, gráfica ou outra, não passa sem incorporar a fala (O efeito sonoro.) através da escrita, as referências literárias e filosóficas e, claro, o lado visual. Mas este poema centra-se essencialmente no acto de inverter ou subverter estes verbos:

“Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.

Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.

Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.

(…)”

(pag.11)

Este trecho pode perfeitamente funcionar como uma arte poética, uma explicação da poesia de Salette Tavares.
“Icon”, segundo capítulo, é também formado por apenas um poema, “Os Objectos”, mas este ícon é algo abstracto, é um “produto” que se “fabrica”. Poderá este pequeno poema dar continuação ao primeiro capítulo, pois se um explora a origem remota da criação poética, o outro foca-se no acto da criação em si, ou, de outra maneira, um vai ao passado (E é escrito efectivamente no passado, na dualidade “ensinaram-me”- “aprendi”.) e o outro ao presente:

Fabricar é o mais religioso serviço do homem.
A fábrica é uma igreja de pé.
Os produtos são salmos para uso diário
dos ofícios permanentes da fé.


(pag.15)

O terceiro capítulo, “Lex Icon” faz a junção das duas possibilidades abertas pelos dois primeiros capítulos. Lança um “icon”, na maioria das vezes no título, e o poema abrange todo um léxico sobre ele, mantendo a regra de ouro de o subverter, criando muitas vezes jogos de distorção e inversão de sentidos, momentos de originalidade. Por exemplo em “A Luva”:

“Uma luva é uma escultura morta
quando jaz ou quando se transporta
dentro do bolso da carteira ou da mão.

Uma luva é uma escultura viva nova
quando se deixa penetrar pelo amor da mão.
(…)”

(pág.23)

Esta (des)multipilicação de sentidos ou léxicos ou visões de determinado símbolo- o referido “icon”- não só pauta a concepção da poesia de Salette Tavares, como também funciona como base teórica da poesia visual da autora, como acima referi: em poemas visuais como “Porta das Maravilhas” que é, além de visual, tridimensional, escultórico, existem dois elementos distintos: o poema em si, que poderia perfeitamente integrar uma recolha como “Lex Icon”, e a porta de acrílico sobre o qual está o poema serigrafado, ou seja, o novo sentido atribuido ao objecto da porta pela poeta é sobre uma porta colocado. Não é difícil, na leitura dos poemas de “Lex Icon” imaginar o mesmo processo com a maioria dos poemas. Assim como uma considerável parte da poesia gráfica da autora poderia perfeitamente estar inserida num livro, não se esgotando na possibilidade visual (Ainda que haja, claro, poemas que são exclusivamente visuais, como o caso da famigerada “Aranha” de 1963.).
Além destes poemas existem, como dificilmente poderia deixar de ser, alguns mais marcados pela atmosfera da época a que pertencem, e particularmente aos tiques da poesia experimental. Um caso flagrante disto é o famoso “O Bule”, um poema que legitima o sentido sonoro acima referido a propósito do primeiro poema do livro. Poemas como este, ou então “O Sapato”, poema dramático, são talvez aqueles que mais abrem caminho para aquilo que seria a exposição “Brincar” em 1979, na Galeria Quadrum, que afirmou em definitivo o nome de Salette Tavares como um dos mais originais da poesia experimental portuguesa.
Ainda sobre a componente visual desta poesia, interessa sempre referir a organização do texto sobre a página, uma característica que à partida se perde numa leitura em voz alta, mas que tem o seu interesse numa leitura do próprio livro, uma vez que introduz no poema momentos de pausa, enumeração ou divagação: é importante referir isto porque não faltam na poesia portuguesa poemas onde esta organização do poema na página é gratuita, mas não é o caso de Salette Tavares: como disse, á partida essa organização perde-se numa leitura oralizada, mas, dada a sua real importância na leitura, a organização funciona no sentido oposto, ela dá indicações para uma leitura do poema, quase como no teatro as indicações cénicas. Serve este comentário de plataforma para outra ideia que me parece presente em “Lex Icon”: a ideia de que precisamente estes poemas precisam “fugir” da página, ganhar uma outra dimensão que, se não é espacial ou gráfica, é pelo menos em voz alta, o que não deixa de ser uma outra dimensão para o texto escrito. Como se estes poemas não tivessem sido escritos para ser lidos silenciosamente.
Interessa, se calhar, neste momento, olhar um pouco para trás na produção poética de Salette Tavares. Para isso, foco-me no primeiro livro da autora, o “Espelho Cego”: o espírito do texto é bastante mais difuso, menos focado, mas é interessante verificar que, apesar disso, “Espelho Cego” não deixa de lançar as ideias que serão levadas à plenitude em “Lex Icon”: no primeiro livro há já uma vontade de incidir sobre ideias ou símbolos e explorar os campos mais habitualmente a eles associados, e há já também este interesse pela organização do poema na página, como se logo nos primeiros poemas já houvesse a exigência de uma leitura em voz alta, de uma vertente física no poema. Mas claro que estas ambições são mais plenamente preenchidas em “Lex Icon”, por assim dizer, Salette Tavares demonstra-se no seu último livro publicado muito mais à vontade para resolver os problemas que coloca do que no primeiro. O que é natural.
Sem um conhecimento da obra posterior a “Lex Icon” é difícil perceber se o trabalho de Salette Tavares terá ido ainda mais longe na exploração destas possibilidades. No entanto, e retomando a ideia com que iniciei esta nota de leitura, penso que será difícil ir mais além. Julgo que estamos perante uma situação de contornos semelhantes à de Luiza Neto Jorge neste sentido: “Os Sítios Sitiados” vinha fechar o ciclo aberto por “A Noite Vertebrada”, 13 anos antes. A produção seguinte de Luiza era já outra coisa, muito distinta, de que “A Lume” de 1989 é um testemunho perfeito. Até que apareçam esses textos posteriores a 1971, ficará por saber para que campo se moveu a obra de Salette Tavares, mas, de acordo com o texto de Rui Torres já referido, a produção compreende pelo menos duas narrativas, o que já demonsta uma alteração de percurso, ou pelo menos um alargamento do mesmo.
Face a um livro como “Lex Icon” penso que é clara a importância de Salette Tavares no contexto de uma poesia experimental portuguesa, bem como no contexto de uma poesia portuguesa. No entanto, penso que resta apurar até que ponto o seu envolvimento na poesia experimental não terá acabado por ter um efeito negativo. Ou seja, até que ponto Salette Tavares, ao ser rotulada como experimental, não passa a ser vista como uma poeta de época, incapaz de ser inserida num contexto mais vasto? Uma leitura da sua obra completa pode demonstrar que é perfeitamente capaz, mas é sabido que para jugar um poeta, nem sempre a sua poesia é o critério principal.

domingo, 18 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010

Ugly Betty: Os Momentos Musicais da Amanda

quando descobre que Gene Simmons poderá ser o seu pai, visto que a mãe, Fey Sommers não deixou pista alguma sobre isso, Amanda decide chamar o pai na sua linguagem: a música...



e aqui, no casamento do Bradford Meade com a Whilelmina Slater, que é subitamente interrompido, Amanda salva o dia com esta cover de "Milkshake". O organista acompanha-a.

mais um momento daqueles

em que vou ao YouTube resgatar os vídeos que colocam em causa a formatação de que o mundo da música se tornou vítima, deixando de ser um mundo na maior parte dos casos, para ser um negócio. Abaixo, Jewel, que teve em "0304", o álbum deste "Intuition" um fraco momento musical, teve, mesmo assim, este vídeo que é, todo ele, de um sarcasmo delicioso, como diria alguém que eu conheço.

sábado, 10 de abril de 2010

"Ice" de Sarah McLachlan, ao vivo duas e diferentes vezes

em 2006, na digressão de "Afterglow"



nas "Freedom Sessions" de 1994

É Nosso, Isto é, Não Vos Pertence



Um quilo de chumbo não pesa mais que um quilo de penas?
Entre as penas pesadas e os levíssimos soldadinhos de chumbo se busca uma perda de eloquência do desejo. Porém cada simulacro de morte encerra a vontade de ser seu encantador e espectador. E a forma persegue a matéria. Morte em segunda mão. Face cega a esboçar um sorriso à causa que infinitamente passa e lhe pede esmola. Festim de fim para o qual se juntam os restos. Que faremos nós deste gosto e do desgosto?

Em rigor um quilo de chumbo não pesa mais que um quilo de penas. Deste lado, os olhos amadurecem e caem como certos frutos desejam ser pisados. Aqui na terra como no céu, o terror das palavras pertence ao passado. Importa saber em que terreno as palavras caíram e experimentar todos os desvios que permitem caminhar para elas, fora de tempo.



Regina Guimarães
in A Hora Sua (antologia de textos para fotografias de Renato Roque)
1999, col. livros de fotografia, Assírio e Alvim
fotogrefia de Renato Roque

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Memória Transitória



I
Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo
a água irreprimível que sobe do fundo nosso.
Era tão outro o tempo da alegria raramente
derramada como riso de espuma. Quem virá
colher-me o que de ontem já não tenho?
Guardo o silêncio porém. Em mim e na cidade
soa a hora de uma solidão que se interrompe.

II
Esqueceste-te de quanto premente era sermos.
E se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos
nem mãos. Quem veio assediar-me o último ponto
intacto da minha pele? Pressinto que inerte
se fecha em mim o desalento. Liquidadas é como
se eu a cidade paríssemos no descontentamento
um ser de névoa geográficamente situado.

III
Esqueceste-te de que nem só as multidões respiram.
Celebrava-se o 14 de Julho na rue mouffetard
e comia-se crepes. Terás então desencadeado este
presságio que me revela o espaço prematuro em branco.
Era talvez meia-noite há vários anos paris fechava-se.
Hoje decisivo será o salto que vou formando.

IV
Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.
Ter-lhe-ás recusado o fogo e também o gelo
e o meu ser intermediária nesse tão breve atalho.
Que de mitos nem longes me propus a alimentar-me
por ser de ferro a matéria que me circula.

V
Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado
por ser só artifício essa imagem que forjei
e ser certa e necessária a fadiga insustentável
quando à epopeia se recusa um só rasto de vinho.
Esqueceste-te (vais apenas vivendo) de que é difícil respirar.

Wanda Ramos
E Contudo Cantar Sempre
1979, edições O Oiro do Dia
imagem de Edward Hooper

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Diálogo com o Melhor Amigo



as árvores piam (não têm mãe)
as sombras envelhecem

o meu amigo
(o melhor amigo)
na vala comum
do medo
apodreceu

(quando eu vier não me reconhece)
colheitas de sombra
estios de paciência
e um gato familiar
fatal
arranhou seus olhos

corpos de água e vento
sonhos convexos e côncavos

(meu amigo teu sorriso lento
quando eu nascer não me saudará)





Luiza Neto Jorge
in Antologia de Poesia Universitária
1964, Portugália editora

fotografia de Slava Mogutin

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Agustina tem destas coisas... (12)

Se quer ser bem aceite, convide para jantar nove ou dez pessoas esfomeadas, não de pão ou carne, mas de baixela de prata. Não imagina o que se consegue com dez pratos de macarrão e dez colheres maciças com o seu nome gravado. Lisboa é uma cidade de efeitos cénicos.
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de "Um Cão que Sonha"

terça-feira, 6 de abril de 2010

Goldfrapp: Head First

RECORDAR E (SOBRE)VIVER

Quando em 2000 os Goldfrapp se lançaram com "Felt Mountain", por mais que o álbum roçasse a genialidade, ninguém podia prever a influência que o duo britânico ia exercer sobre tantas bandas. A sonoridade que no primeiro álbum é melódica e sinfónica, sem dispensar todo o tipo de maquinarias ao lado da voz suave de Allison Goldfrapp no segundo disco deu lugar ao quase puramente electrónico: "Black Cherry" era uma inesperadíssima reviravolta na música dos Goldfrapp, com pouquíssimo em comum com o priemiro álbum. Depois, "Supernature" haveria de começar um processo de assimilação entre as duas vertentes, que será mais completo em "Seventh Tree", que teve direito a passagem pelo Sudoeste de 2008.
E onde "Supernature" se inclinava mais para "Black Cherry", "Seventh Tree" veio pender mais para o lado de "Felt Mountain".
De qualquer forma, "Supernature" será sem dúvida um dos discos mais influentes dos últimos anos: é fácil perceber a contaminação quer em bandas que o souberam inserir numa sonoridade diferente e pessoal, caso dos Editors em "In This Light and On This Evening" ou de "The Resistance" dos Muse, quer em bandas com um som mais verde, caso dos La Roux.




Mesmo assim, o percurso dos Goldfrapp não cai na repetição. E se "Seventh Tree" parecia um momento de descanso e de retorno ao lado intimista de "Felt Mountain", o quinto álbum de originais, lançado há poucas semanas com o vídeo de "The Rocket" vem virar tudo ao contrário. Outra vez.
Podemos colar este disco, de entre os quatro anteriores, a "Black Cherry", mas parece-me também interessante verificar as raízes de "Head First" em relação à música que não a dos Goldfrapp.
E se "Black Cherry" vinha reverter completamente todos os sentidos da electro-pop, "Head First" parece ir buscar influências muito mais recuadas, nomeadamente na disco dos anos 80. Mas não se fica pelo revivalismo, que foi a morte de muitas experiências já feitas no passado. As beats e alguns tiques facilmente associáveis aos eighties são adaptados à personalidade musical dos Goldfrapp. Assim sendo, não é raro neste disco sermos remetidos para algumas canções do passado, principalmente do segundo e terceiro álbuns.
Mas em relação a esses trabalhos, "Head First" representa um passo em frente para um som inovado, ou, se se quiser, melhorado. É a prova derradeira de que os Goldfrapp não passam muito tempo a produzir o mesmo tipo de som.
Assim, em "Head First" tanto temos momentos de maior euforia, como "Alive" ou "Rocket", como momentos em que o electrónico e o dançável se tornam estranhamente íntimos, como "Dreaming" ou "Hunt", uma das melhores canções deste disco.




O lado acústico volta a desaparecer quase totalmente, surgindo apenas de relance em algumas faixas, como o piano em "Head First" (a canção).
A voz de Allison Goldfrapp mostra-se como sempre muito competente para acompanhar as diferentes ambiências que o disco, no seu todo, atravessa. E tanto a encontramos perto daquele frenesim que ouvimos em tempos em "Ooh La La" como a encontramos no tom melancólico dos idos "Lovely Head" ou "Deer Stop", e, uma vez mais, movimenta-se muito bem em qualquer uma delas, indo do sussurro (Brutal em "Shiny and Warm".) ao grito num ápice.
Em relação aos discos anteriores, também me parece que, contrariamente ao que pode parecer numa primeira audição, "Head First" representa também uma sonoridade mais densa, e menos radio friendly do que os anteriores. "Rocket" é, nesse sentido, uma canção de excepção: não sendo a melhor do disco, é certamente uma boa escolha para single de avanço, por ser a canção mais leve ou de mais fácil audição, não sendo, no entanto, a melhor faixa.
Nesse aspecto, a composição mais complexa e que causa maior estranheza será talvez "Hunt", canção marcada por vocalizações bizarras e vários momentos de pausa.
Se voltaremos a ter algum hit com a dimensão de "Ooh La La", ainda não se sabe. Mas certamente temos um álbum muito à altura dos Goldfrapp.



o vídeo de "Rocket"


"Hunt"

abnormally attracted to video

enquanto em Portugal não é lançado o DVD com os vídeos que cobrem todas as faixas de "Abnormally Attracted to Sin", o mais recente álbum de Tori Amos, o YouTube serve de muito. Aqui está uma terceira leva.


"Curtain Call"


"Flavour"


"Maybe California"


"Welcome to England"

e por falar em ofélia

a "Ophelia" de Natalie Merchant

Tori com novo vídeo

"Ophelia"

hoje precisava mesmo de ouvir isto

Madonna- Jump

a razão

em Portugal as pessoas não estudam, não lêem, não se informam mas dão opinião com base no "Eu acho que..."

Maria Isabel Barreno

Covers do Outro Mundo: Tom Jobim por Maria de Medeiros

"Eu Sei que Vou te Amar"

Covers do Outro Mundo: Rhianna por Jamie Cullum

"Please Don´t Stop The Music"

Covers do Outro Mundo: Nancy Sinatra por Legendary Tigerman e Maria de Medeiros

"These Boots Are Made For Walking"

Covers do Outro Mundo: Kate Bush por Placebo

"Running Up That Hill"

Covers do Outro Mundo: Shirley Bassey por Arctic Monkeys

"Diamonds Are Forever"

Covers do Outro Mundo: Kylie Minogue por Tori Amos

"Can´t Get You Out Of My Head"

A (In)Coerência do Fogo



O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?

O corpo e essa onda, essa pedra - é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto - o mar.

O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar

ou pedras

Onde o corpo onde o desejo
perante o ventoa frágil força do corpo (aranha inerme?)?

Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar

Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página ou terra?

Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?

Mas tu esperas três palavras
três pedras- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar

Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?

Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto

Mas se o silêncio da praia - onde o mar? -o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos

em torno ao centro - e a respiração do mar?

Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?

Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?

Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto

Mas isto é, isto é, com se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?

Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco - em frente ao mar?

Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?

Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?

A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.

A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.

As pedras nem são pedras mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.

Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto

eu vos invoco e vos insuflo a chamada garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?

Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areiaeu subscrevo o branco
um novo corpo.

Ainda que nada veja senão as pedras que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.

*

Que diz a forma da pedra - o corpo?

Que diz este silêncio de erva?
Este punhal de feno no meu peito,
esta sílaba trémula, esta sombra fria,
que diz a cor do muro?

A terra tem aos ombros a folhagem
o mar ainda na distância
mas o clamor destes sinais proclama o animaldo fogo

os passos caminham entre as chamas e o apelo das ondas.

A terra é alta como o corpo e baixa
As casas cintiliam mas num contacto sólido
Em todas as estradas o sol caminha com os meus passos.
A folha é escrita como um paisagem

Ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a congregação da terra.

Escolho a clareira do corpo silencioso.
É um corpo que envolve o corpo.

Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.

Escrever é finalmente subscrever o ar das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.

Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.


António Ramos Rosa
As Marcas no Deserto
1978, ed. &etc
iamgem: Salvador Dalí

2 poemas de Roberto Juarroz



Por vezes a morte roça-nos os cabelos,
despenteia-nos
e não entra.
É um grande pensamento que a detém?
Ou talvez nós pensemos
algo maior que o próprio pensamento?

A morte já não afronta os espelhos.
Tem medo de os apagar ou os partir.
E medo, um medo bem maior,
de se apagar ou se partir.

No entanto
resta sempre um espelho que se olha na morte
como se ela fosse simplesmente
um espelho de espelhos,
um espelho em frente de outro
sem mais nada entre eles.





Roberto Juarroz
trad. Egito Gonçalves
Limiar, nº1
ed. Limiar, 1992
imagem de Cláudia Melo

sábado, 3 de abril de 2010

qual a melhor maneira

de fazer a neura desaparecer?
perguntei-me hoje enquanto fumava um cigarro nas traseiras da casa onde vim passar a Páscoa.
E por que será que as festas familiares/de origem católica parecem incitar aos dias frustrantes????
Certamente também não sou muito inteligente. No meio de tudo isto, que faço eu? Venho para o quarto escrever isto, enquanto ouço Bliss e Massive Attack. Certamente os melhores anti-depressivos no mercado...
Onde será que a minha irmã guarda as canções da Lady Gaga? Se bem que essa também parece ter-se envolvido num "bad romance"...

Lisboa



Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba


Adília Lopes
Ovos (Poemas Novos)
ed. &etc, 2004

quinta-feira, 1 de abril de 2010

5 anos depois

o problema da versão censurada de "American Life" de Madonna ainda é não estar distituído de sentido...

A Escada



davam grandes passeios pelos matos o coração soerguido pela prece luxuosa do feiticeiro.
davam passeios malditos, siberianos os pés nus lambidos pelos castores e pelos ratos.
espectral a luz coada trespassa-lhes a pele moça e dorida.
davam grandes passeios nos mantos vigiados pelos olhos esbugalhados da madeira.
davam-se.
nos vitrais é que as cegonhas faziam as bocas dos ninhos e os arlequins desfilavam suspirando.

o céu num esgar vomita esperma rubro.
o limiar da risada, o conteúdo do abraço.
a orla da praia resinosa desenhada em baba.
escolhemos o odor dos braços.
é o nada.
é o congresso.

esta era a continuação dos longos duas de paixão severa.
a febre gota a gota limpa a mão, pano de linho.
a mutável apenas na aparência.
sombra de éter.
deixai que a seiva corra quente.
que o ritual se cumpra.

tilintaram os guizos e soaram como solas de pulmão seco os passos dos mercenários.





Regina Guimarães
A Repetição
1979, ed. Hélastre
imagem de Max Ernst

Editors: In This Light and On This Evening

A LEAP OF FAITH

Se depois de "The Back Room" (2005), "An End Has a Start" (2007) sugeria os Editors como um dos nomes mais interessantes do indie-rock actual, "In This Light and On This Evening" (2009) vem dar a confirmação. O terceiro álbum dos Editors, lançado recentemente, é um verdadeiro acto de originalidade, bem como um salto impensável em comparação com o álbum anterior que já de si não era nada mau. O problema que existia nos primeiros dois álbuns seria talvez a facilidade com que se lhes atribuíam influências, e de certa forma, também a semelhança entre os dois.



Mas logo na primeira faixa, que dá nome ao álbum, "In This Light and On This Evening" mostra-se redondamente diferente. É certamente uma das melhores faixas do disco, mesmo sendo claramente uma introdução. Aí se nota já a assumpção do lado electrónico, perfeitamente nivelado com as guitarras eléctricas que são, já se sabe, obrigatórias. A voz de Tom Smith também parece agora encontrar o seu melhor registo. É uma voz grave e tem, daí, as suas limitações, agora perfeitamente controlada. As letras, também da autoria do vocalista, mostram-se bastante mais politizadas, mantendo um certo lirismo quase adolescente que tem sempre a sua graça, como acontece em "You Don´t Know Love", uma das faixas mais interessantes deste trabalho.
Algumas faixas ainda relembram um pouco a sonoridade anterior (Caso de "Bricks and Mortar".), e outras afastam-se completamente dele (Caso de "Papillon".).
Se se quiser procurar influências, será desta vez um tanto mais difícil falar de Joy Division, mas poder-se-á falar ainda de Blur, e há que acrescentar Goldfrapp, ou pelo menos a fase Black Cherry-Supernature dos Goldfrapp, fase que afinal veio influenciar mais do que previsto os músicos actuais, dos Muse aos Editors.
A ascensão do lado electrónico na música dos Editors não significa, claro, uma perda da melancolia que existia nos álbuns anteriores (Em "Fall" ou "Spiders", por exemplo.), sendo recuperada em momentos como "You Don´t Know Love" ou "Walk The Fleet Road", resultando, no entanto, esta melancolia mais densa agora, e o electrónico torna-se, em vez de dançável como mais imediatamente poderia acontecer, mais negro e até depressivo.
Outra característica que importa referir acerca de "In This Light and On This Evening" é a repetição, o obsessivo, numa espécie de alusão, por exemplo, à música barroca ou, se quisermos ser mais rebuscados, à música experimental. Em canções como "Eat Raw Meat= Blood Drool", funciona tanto a repetição de determinada frase (De palavras.) como a repetição da mesma frase musical. "The Big Exit", outro dos melhores momentos deste disco, é um exemplo acabado disto. Além das notas musicais, Tom Smith diz repetidamente "They took what once was ours".
Em contraponto ao que é a música dos Editors, este disco está também mais próximo do som dos Editors ao vivo e, se partirmos do princípio que essa é a ambição de todas as bandas, de facto é uma ambição atingida com "In This Light and On This Evening". Por outro lado, talvez por ser uma sonoridade bastante mais negra e obcecante, será dos discos dos Editors o menos radio-friendly, mesmo contado com "Papillon" e com o facto de nenhum dos anteriores álbuns ser propriamente muito vendável.



Não me parece que tenha sido referido em lugar algum pelos elementos da banda, mas a verdade é que "In This Light and On This Evening", intencional ou inintencionalmente se aproxima muito do conceito de ópera-rock que já foi assumido, por exemplo, pelos Muse. Neste álbum há muito pouco de avulso, pelo contrário, há uma coesão e uma sequência que será tudo menos inocente. Faz com que faça pouco sentido isolar as canções umas das outras, se realmente a melhor forma de apreciar a nova série é mesmo por completo.
Nisto, em nada "In This Light and On This Evening" se torna chato, nem tem canções inconsequentes, como acontecia pontualmente nos dois discos anteriores que eram, curiosamente, mais curtos do que este.
Resumino, "In This Light and On This Evening" é definitivamente um dos melhores álbuns que tem sido editado ultimamente.



o vídeo de "Papillon"


"You Don´t Know Love" em versão acústica

Épiphanie



Le ciel a rompu ses eaux
le soleil s´éclipse
mais sous les nuages ensanglantés
le sourire de l´ange apparaît.




Saguenail
Il N´y a Pas de Saisons en Enfer

2007, ed. Hélastre




imagem de René Magritte

agustina tem destas coisas... (11)

Não perdoava a beleza das outras mulheres, mas não era vulgar ao ponto de o deixar notar. Pior que uma mulher que não suporta a beleza e o charme de outra, só um homem. (…) Prazeres fora casada com um banqueiro e depois com um antiquário. Nunca falava dos maridos, o que os favorecia. As mulheres que falam muito dos maridos, ou os enganam ou não estão satisfeitas com eles. É uma regra de ouro.
.
.
.
.
de Um Cão Que Sonha

dois poemas de Maria Gabriela Llansol



1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.




7
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.




Maria Gabriela Llansol
O Começo de Um Livro é Precioso
2003, ed. Assírio e Alvim


imagem de Paul Delvaux

quarta-feira, 24 de março de 2010

Egito Gonçalves: Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda Um Copo de Crepúsculo

A CIDADE ÍNTIMA


Fernando Pessoa ditou o seu último poema precisamente no dia em que morreu.
Com excepção dele, é raro o poeta português que escreveu literalmente até à morte e que, além disso, teve hipótese de se despedir.
Egito Gonçalves é um desses raros casos.
O percurso poético do autor inicia-se em 1950 com a publicação de "Poema Para os Companheiros da Ilha". Dada a sua clara inclinação para uma poesia politizada é rapidamente atirado para a prateleira dos neo-realistas. E, logo desde o início, há uma característica que é por assim dizer atirada para segundo plano: a dimensão lírica. Numa época em que como está visto, todos tinham que escolher de que lado queriam ficar (A estética dos surrealistas ou a ética dos neo-realistas.) não são raros os casos dos que não se confinam nem a um nem a outro (Por exemplo Jorge de Sena.). O caso de Egito Gonçalves envereda claramente por uma dimensão ética mas em momento algum renuncia à estética (Sem no entanto resvalar para qualquer situação surrealista ou surrealizante.) e será talvez esse o ponto forte da sua poesia.
A sua obra poética foi-se desenvolvendo e desbravando novos terrenos ligados, por exemplo, ao erotismo, muito latente em obras como "Luz Vegetal" (Limiar, 1975) ou "Falo da Vertigem" (Limiar, 1983) até à palavra que quase caíra em desuso mas que Rosa Alice Branco aponta com muita pertinência no seu prefácio a "E No Entanto Move-se" (Quetzal, 1995), a ternura. É esta que irá pontuar nos últimos livros do autor: e se em "O Mapa do Tesouro" (Campo das Letras, 1997) esta "ternura" acaba por resultar em poemas menos conseguidos, em "A Ferida Amável", publicado conjuntamente com "Lettera Amorosa" (Campo das Letras, 2000) ela acaba por resultar com a maior das eficácias, colocando Egito Gonçalves entre os raros poetas contemporâneos que cantam o "amor feliz".
Antes de falar um pouco sobre o último livro do autor, publicado postumamente em 2006 pela Campo das Letras, penso ser pertinente referir o livro "E No Entanto Move-se".
Trata-se de uma recolha de poemas desde os anos 50 até ao início dos anos 90 (Alguns dos quais publicados em antemão na antologia "O Pêndulo Afectivo".) que se caracterizam por ser "poemas de viagem", uma classificação excessivamente resumida mas que explica bem a génese do livro aliás triplamente premiado. Nele o poeta se confronta com cidades estrangeiras, com a observação vantajosa e mais completa de se vir de fora, e, uma vez mais fazendo uso do prefácio de Rosa Alice Branco a este livro, é através de certos elementos como a Mulher ou a poesia ou determinado monumento que o sujeito poético encontra a sua ponte para a cidade estranha que percorre.



É importante falar disto porque "Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo" nos mostra precisamente a mesma situação: um confronto poeta-cidade: mas desta vez sem qualquer tipo de intermediário. A dedicatória do livro é sucinta, dedica-o à cidade do Porto. E desta vez, uma poesia que se pode dizer (Ainda que me pareça rebuscado.) ter uma dimensão geográfica é escrita com a maior intimidade. De certa forma, quase como se essa ternura que acima se referiu fosse sentida também pela cidade, quer seja a cidade construída, quer seja a cidade vivida. E é também um livro onde se colocam em confronto os dois pontos essenciais da vida: a infância e a morte. Se por um lado nos poemas iniciais lemos uma espécie de "memórias" da cidade do Porto nos anos 40 ou 50, é também neste livro que sentimos a proximidade da morte como se pairasse sobre essas mesmas memórias do passado. Talvez um verso de Isabel de Sá sobre Marguerite Duras faça sentido a propósito deste livro "começou a ser velh[o] no último livro". Velho apenas no sentido em que se confronta directamente com a morte.
Não há no entanto qualquer tipo de queixume ou de lamentação. Pelo contrário. As coisas são observadas com a naturalidade e o lirismo sobre o qual Egito Gonçalves edificou toda a sua obra. É quase como se houvesse uma espécie de ternura pela própria morte, precisamente porque esta é aceite como ponto essencial e natural da vida. E a cidade existe no livro como testemunha de todo um percurso e será talvez essa a razão que me leva a colocar este livro no topo dos livros de Egito Gonçalves: a noção de como a cidade enquanto organismo vivo e de algum modo intemporal é o espelho da vida. A mesma cidade em que lemos Egito Gonçalves e os amigos a ir ao Rivoli ou a brincar no Jardim da Cordoaria é a mesma cidade em que, no último poema, inacabado, o poeta sente as árvores dançando ao vento e onde vê o "copo de crepúsculo" que se interpõe entre ele e a sua morte.
Retomando o início deste texto, foram raros os poetas que tiveram a felicidade de se despedir. Egito Gonçalves foi um desses raros poetas. E despede-se, afirmo-o, com uma beleza e uma lucidez tão implacáveis que nos deixa verdadeiramente atónitos, ficamos nós mesmos frágeis e expostos à morte. A poesia que deve, segundo muitos que eu apoio, ser um murro no estômago. E o último poema de Egito Gonçalves é sem sombra de dúvida o derradeiro murro no estômago. E é também o final avassalador que a obra poética de Egito Gonçalves merecia.








Podem (E devem.) ler o poema em questão aqui

Notícias do Bloqueio



Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se






Egito Gonçalves
A Viagem com o Teu Rosto
1958 edição Europa-América
imagem de Félix Labisse

domingo, 7 de março de 2010

e ainda sobre a Björk, estes momentos também me emocionaram, por motivos evidentemente diferentes


a entrada em palco no Sudoeste 2008 com "Earth Intruders" e outros momentos, como "Hunter"


ou "Pagan Poetry"


e por falar em Björk, lembro-me perfeitamente que chorei a primeira vez que vi esta cena

"I´ve Seen It All" do filme "Dancer In The Dark" de Lars Von Trier

morreu Lee Alexander McQueen

o realizador deste, entre outros vídeos de Björk

´
r.i.p.

Islas Lípari




La escama de una sirena puede cegarnos de tristeza
y una estrella de mar adormecernos para siempre,
bien lo dijo aquel loco de Porto Levante
cuando en la piel se traía los lentos oros de la tarde.
Isola Vulcano é un peeto addormentato, caro “itagnolo”.
Nadie como él conocía las estrategias del cangrejo
ni los valses secretos para hipnotizar al demonio.
Mordía las cenizas de un té confuso buscando puerta
a los indicios (más de una vez lo vimos auscultar
basaltos bajos las quietas acequias del cielo).
En la hora lábil de las alas y las áncoras,
cuando ya el mar ardía con el fuego de las distancias,
su carne de lapa tatuada abrió los círculos del ron
y crujió en el idioma de los naufragios, diciendo:
Peto addormentato, certo; ma peto di un dio.


Jesus Jiménez Dominguez
Diario de la Anemia/Fermentaciones
2000, ed. Olifante
imagem de Ana Hatherly

As Mães (IV)



Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.

Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.

Assim como chegou
assim partiu.

Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
ed. Asa, 2002 (esgotado)
desenho de Sadsamson

O Anjo sem Sorte



O ANJO SEM SORTE. Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.




Heiner Muller
(trad. João Barrento)
O Anjo do Desespero
edição portuguesa, Relógio d´Água, 1997
desenho de Sadsamson a partir de uma fotografia de Garrett Neff

sábado, 6 de março de 2010

já está cá fora

Heligoland dos Massive Attack. Tem esta capa



e este vídeo de lançamento: "Paradise Circus" com a voz de Hope Sandoval.

O Anjo do Desespero



Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.





Heiner Muller
(trad. João Barrento)
O Anjo do Desespero
ed. portuguesa Relógio d´Água, 1997
imagem: Graça Martins

quinta-feira, 4 de março de 2010

Joaquim Manuel Magalhães: Um Toldo Vermelho

COMO DESTRUÍR UMA GRANDE OBRA EM MENOS DE 200 PÁGINAS

Que Joaquim Manuel Magalhães ande de candeias às avessas com a própria obra poética não constitui novidade. Já em 1981 veio declarar excluída toda a sua produção desde 1970. Reescreveu os poemas, deu-lhes novas roupagens, fez inúmeros cortes, resultado “Alguns Livros Reunidos”, um livro onde apresenta as, em princípio, definitivas versões dos seus anteriores poemas. A edição, esgotada, foi depois reeditada pela Relógio d´Água em 2001. Outros livros, entretanto, iam sendo publicados, a maioria na colecção Forma da editorial Presença, e, ao que parece, iam construindo uma nova obra sobre alicerces renovados. Quando tudo parece ter corrido bem, nomeadamente com o livro “Uma Luz com Um Toldo Vermelho”, Magalhães anuncia um novo livro, “Um Toldo Vermelho” em que reunirá toda a sua obra.
Dado à estampa ainda esta semana, “Um Toldo Vermelho”, edição da Relógio d´Água, tem numa das últimas páginas esta alarmante nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.” Mas não estamos, afinal, perante uma poesia reunida. É um manual que explica, capítulo a capítulo, como destruir uma grande obra em menos de 200 páginas.
Ainda que o livro faça alusão a livros passados (Caso de “Envelope”, “Alta Noite em Alta Fraga” e “Segredos, Sebes, Aluviões”- que passa a “Segredo, Sebe, Aluvião”.), qualquer semelhança a qualquer um desses livros é pura coincidência.




“Um Toldo Vermelho” começa, logo nos primeiros poemas, por se mover contra os princípios críticos que o próprio Joaquim Manuel Magalhães há tanto tempo anda a alarviar. São pequenos poemas, quase haikus, anti-discursivos, e, em boa parte, inconsequentes (Alguns fazem lembrar levemente uma página de agenda.). Além disso, como João Luís Barreto Guimarães muito bem viu, é difícil ler estes poemas, pelo menos os iniciais, sem pensar nos tiques do Poesia61, esse happening que, a julgar pela crítica de Magalhães, terá sido do pior que aconteceu à literatura portuguesa.
Mais ainda, a poesia de Joaquim Manuel Magalhães sempre se mostrou altamente original, com ecos muito longínquos apenas. Ao ler este livro, é difícil não pensar em outros autores.
Por exemplo, num poema como este

A manzilla
adquire um toque suicida.
A goela vomita ressaca,
evaporou uma cúpula de linho,
o café um algar telegráfico,
subvertes a sucata submersa
da colecção
(pag. 87)

ou este

Fiada ficava/ hirta, imperativa
hipnótica sirga/ siena carcomido (…)
(pag.89)

é difícil não pensar nos poemas de Fátima Maldonado, primeiro pelo ritmo corrido, e depois pelo léxico que é, nessa poeta em específico, muito demarcado. Ou então num dos poemas inciais, onde lemos

O voo da ampola
na reflexão de um aro,
batalha.

Pêndulo,
tarefa laqueada.
Fossil o ardil em dualidade
(pag. 12)

facilmente nos ocorre a fase inicial de Maria Teresa Horta, profundamente simbólica e enumerativa.
Nalguns casos, também, fica-se com a sensação de se estar a ler um Herberto Helder sem fôlego, algo que relembra um pouco Jorge Melícias, por exemplo aqui

A nortada no alcantil.

Do areal ao campo lavrado
alimenta-se de larva de besouro.

Ao relento catos e o tojo
dobram
e a viseira domina.

O bálsamo,
o inóquo equilíbrio do ar.

Planta migratória,
aí o fuselo pousará.
(pag. 131)

O primeiro dos casos que referi, da página 87, é também exemplo de algo que acontece com frequência neste “Um Toldo Vermelho”: a destruição completa de poemas brutais que estavam em livros anteriores, neste caso, Maig de “Uma Luz Com Um Toldo Vermelho”.
Serve-me esse poema também para referir outro dos aspectos que mais decepciona nesta poesia reunida: o corte de toda e qualquer pulsão erótica. Se falássemos, antes deste livro, de poesia erótica em Portugal, dois nomes eram obrigatórios: o de Joaquim Manuel Magalhães (Numa perspectiva homo-erótica.) e o de Maria Teresa Horta. Depois deste livro, a grande poesia erótica portuguesa é a de Maria Teresa Hora.




A leitura destas quase duzentas páginas não pode senão deixar um travo muito azedo na boca.
É evidente que todos, incluindo Joaquim Manuel Magalhães, sabemos que por ele ter renegado toda a sua anterior obra não signifique que ela deixe de existir. Há livros ainda disponíveis na Presença e na Relógio d´Água e, quanto mais não seja, na BNP ou na Gulbenkian. E claro que o poeta, qualquer poeta, é livre de fazer da sua obra o que quiser, mesmo que seja reduzi-la a lixo, como é o caso. Valham-nos esses livros antigos de Joaquim Manuel Magalhães para o ter como referência, porque, se nos basearmos somente neste, está ao nível de qualquer candidato medíocre a poeta.
Na minha opinião o realmente grave, mesmo assim, é que Joaquim Manuel Magalhães tenha vindo retirar a sua obra poética que era, inegavelmente, uma das mais assinaláveis entre nós, em vez de retirar, por exemplo, todos os disparates críticos que tem vindo a vomitar ao longo dos anos. E à luz deste “Toldo Vermelho”, a primeira coisa a fazer seria enaltecer nomes como o de Fiama, Gastão Cruz, Teresa Horta, entre outros, que realmente agora surgem nas entrelinhas de um poeta que já uma vez foi grande.
Por outro lado, quem sabe se Joaquim Manuel Magalhães não estará a tentar ser um novo Herberto Helder ao, renegando todas as obras, inflaccionar os preços dos seus anteriores livros. Como diz uma sábia amiga minha, "sabe-se lá o que vai na cabeça de uma pessoa...."

José Saramago: Caim

A REDENÇÃO DO ASSASSINO

“Caim”, o mais recente romance de José Saramago não podia ter sido mais aproveitado pelos media, tendo, por muitos, sido inclusivamente recebido com uma estranha surpresa. O que acho estranho. Para ser mais imediato, poderia referir o romance publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” como romance de heresia, mas ao longo da bibliografia de Saramago, livro a livro, é frequente que este se manifeste claramente contra o catolicismo e, em última análise, contra a própria figura de deus.
É-me então difícil perceber o escândalo gerado por “Caim”. Escândalo maior foi, para mim, que no dia seguinte ao seu lançamento, o livro estivesse já a ser alvo de todos os ataques e todas as considerações, dado que, penso, um dia não será suficiente para ler, ou ler plenamente, este ou outro romance.

Outra questão que importa referir ao falar de “Caim” é a de todo o jogo de ataques e contra-ataques que o romance gerou.
Em entrevistas e depoimentos, o Nobel refere a bíblia como “um manual de maus costumes e um catálogo da crueldade”. Ora e isto, que poderia surgir como uma pequena observação da parte de José Saramago é, na verdade, uma das maiores matrizes de “Caim”.
Caim, assassino de seu irmão, e condenado por deus (Ou o senhor.) à errância durante toda a sua vida é, claramente, personagem central deste romance, mas não é a sua errância, o seu percurso, o verdadeiro tema deste romance.
A errância que José Saramago atribui a Caim é mais uma passagem pelos momentos bíblicos que, de facto, sustentam a ideia do “manual de maus costumes e catálogo da crueldade”. Por assim dizer, este é um romance principalmente argumentativo, onde Saramago prova, por A+B, e com toda a eficácia, essa sua opinião (Que, acrescento a título pessoal, corroboro por inteiro.).
Caim inicia o seu percurso nas terras de Nod, onde se envolve com Lilith, mas passa pela Torre de Babel depois desta ter ruído, presencia o quase sacrifício de Isaac por seu pai Abraão, a destruição de Sodoma e Gomorra, a desgraça de Job, etc.
Neste último caso, Job, homem próspero e fidelíssimo a deus, é vítima de todas as possíveis desgraças, impingidas por Satã na consequência de uma aposta com deus. A Torre de Babel foi destruída por deus para que os homens não pudessem atingir o céu. Abraão sacrificaria o seu filho para provar a sua fé em deus.
No particular caso de Job, intervém a figura de Satanás. E aí, Saramago não o coloca como antítese de deus, antes como um servo insubordinado.
Porque, ao longo de “Caim”, o verdadeiro antagonista de deus não é outro senão Caim. É Caim quem, na verdade, vê o suficiente para poder duvidar de deus, ou do conceito normalizado de deus. É Caim quem, em último caso, confronta deus com a sua crueldade, a sua frieza e a sua natureza megalómana e totalitária. Ou seja, uma natureza de ditador.
Mais ainda, Caim é confrontado com a duplicidade da sua relação com deus: que pacto foi este entre os dois, em que deus lhe diz que estará condenado a errar enquanto viver, mas que ninguém lhe fará mal, pois estará protegido pela marca negra na testa?
O deus que Saramago nos apresenta não é, pois, uma concepção gratuitamente análoga daquela que a sociedade em geral tem dele. Essa analogia é, efectivamente, muito bem sustentada: deus é um ser confuso (Por exemplo no seu pacto com Caim.), sedento de poder (Por exemplo, a conquista de Jericó) e de provas dele (O sacrifício de Isaac.), pouco inteligente por vezes (Ordenando a Noé que construísse a sua arca num vale, longe de água, onde, logo que viesse o dilúvio, a arca de afundaria.), e, acima de tudo, não é todo poderoso. Neste último aspecto, Saramago utiliza a história de que, na batalha contra os amorreus, deus fez o sol (Ou a Terra.) parar para perpetuar o dia e manter a batalha. Vale a pena reproduzir um excerto da conversa do senhor com Josué:
“Não posso fazer parar o sol porque parado já está ele (…) Algo se move realmente, mas não é o sol, é a terra. A terra está parada, senhor, disse Josué (…) se assim é, manda parar a terra, que seja o sol a parar ou que pare a terra, a mim é-me indiferente desde que possa acabar com os amorreus. Se eu fizesse parar a terra, não acabariam só os amorreus, acabava-se o mundo (…) Pensei que o funcionamento da máquina do mundo dependesse apenas da tua vontade, senhor, Já demasiado eu a venho excedendo (…) é que a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direito aos fins, há que rodear (…)" [pág.124-125]
Na última das suas sequências, a que corresponde à arca de Noé, é que definitivamente “Caim” retira de Satã o peso do anti-cristo e a coloca sobre Caim, sendo este que, verdadeiramente, faz frente a deus e aos seus desígnios. No fundo, Caim, o assassino de seu irmão, acaba por perceber a insignificância do seu acto, face aos actos daquele que o castigou pelo seu crime.
Em última análise, mostra que deus não tem sequer poder sobre os actos dos homens, e muito menos conhecimento do futuro ou do destino, caso contrário, a condenação natural do Caim de Saramago teria sido a sua morte, e não a errância pelo tempo.


Como romance, “Caim” não desilude, mantendo-se dentro do ciclo restrito das melhores obras de José Saramago. Por um lado, alude à fase histórica dos romances iniciais (Como sejam “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.), mas, pelo tratamento que dá à história, mostra-se também muito próximo dos romances pós-modernos (Em que poderíamos incluir “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Ensaio Sobre a Lucidez” ou “As Intermitências da Morte”.), dado o desenrolar praticamente livre de historicismos do romance, acrescido ainda de uma vertente altamente filosófica (Que poderemos reconhecer em “Todos Os Nomes” ou “O Homem Duplicado”.) que é toda a relação directa ou indirecta entre Caim e o senhor nos vários episódios do romance.
A única falha possível neste livro, será a diferença entre a premissa prometida pelo título, que nos relatasse a errância verdadeira de Caim, e “descambar” para uma errância conduzida por José Saramago. O que não tem que ser defeito, e, neste caso, resulta até bastante melhor.
De qualquer forma, a visão fria e crua de José Saramago sobre a bíblia, vem confirmar uma frase que Woody Allen escreveu há uns anos “Se deus existe, é melhor que tenha uma boa desculpa”.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

um poema de Regina Guimarães que aqui deixo para o Diogo



Fui expulsa da casa do mundo
por um irmão desconhecido.
Vendou-me os olhos e levou-me
à saída de todas as saídas.
Nunca mais achei o caminho
do meu claro quarto crescente
onde se nascia todo o dia.
Só me lembro de nascer, nascer, nascer
como uma labareda a pão e água.




Regina Guimarães
Tutta
1994, ed. Felício e Cabral

imagem: Inês d´Orey

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Sótão do Nómada (um fragmento)

Uns quantos caixotes. De cartão. Alguns cobertos por lençóis. Alguns lençóis já afastados dos caixotes que tapavam. Já estive aqui. Já, antes, abri algum deles, procurei alguma coisa. Das casas.
As coisas das casas têm vindo parar ao sótão desta casa que já não habito. E enquanto for assim quase nómada, terão que aqui ficar. Dentro dos caixotes. Sob os lençóis mais puídos que fui encontrando.
Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas. Sorriso irónico. Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas do que esta, em que as coisas que das casas não podem ser empacotadas começam a partir, a partir-se. As que estão empacotadas desenterram ao serem desenterradas muitas das outras coisas e tenho saudades de cada uma das casas.

um poema



Nos apegamos demasiado a los hombres
esas criaturas bidimensionales e inocentes
a su piel
adherente como una tela de araña.

Me quedaria allí hasta que no dejase nada de mí
Nada.

hasta que empezamos a pesarles
como si de pronto engordásemos.
Entonces nos preguntamos
qué pasó y
cuándo.
Inevitablemente nos ponemos
éticas patétias pelenpéticas
pesadas peludas pelenpudas
nos salen canas arrugas
caries estrias verrugas
la sangre no circula.
Nos explotan por dentro.
Se llevan nuestra piel pegada a tiras
y en sus manos algún órgano fácil de vender.

En realidad no saben lo que hacen
solo quieren liberarse de la carga.







Miriam Reyes
Espejo Negro
2001- dvd ediciones
imagem de Francis Bacon

Questões de Idade

à Xana


Para quem acha que chegar aos cinquenta é estar velho, a música parece ser contraditória. Segue-se uma selecção de algumas das "tias" que já dobraram os cinquenta e ainda aí estão bem vivas. Para constituir uma família feliz, pelo menos em termos musicais.

Tia Madonna

Aos cinquenta ainda canta, ainda dança e ainda é assim. Para quê pedir mais?

Tia Glória

Depois das primeiras latinadas muito desagradáveis, a tia Gloria Estefan fez este disco chamado "Unwrapped" que tem este "Wrapped", onde vai mais a fundo nas suas raízes para uma sonoridade mais madura. Melhor aos cinquentas do que aos trintas.

Tia Joni

Desde os tempos em que recusava ir ao Woodstock para ir à televisão, até ao mais recente "Shine", a tia Joni Mitchell não parou de fazer músicas como este "If I Had a Heart".