domingo, 18 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Ugly Betty: Os Momentos Musicais da Amanda
quando descobre que Gene Simmons poderá ser o seu pai, visto que a mãe, Fey Sommers não deixou pista alguma sobre isso, Amanda decide chamar o pai na sua linguagem: a música...
e aqui, no casamento do Bradford Meade com a Whilelmina Slater, que é subitamente interrompido, Amanda salva o dia com esta cover de "Milkshake". O organista acompanha-a.
mais um momento daqueles
em que vou ao YouTube resgatar os vídeos que colocam em causa a formatação de que o mundo da música se tornou vítima, deixando de ser um mundo na maior parte dos casos, para ser um negócio. Abaixo, Jewel, que teve em "0304", o álbum deste "Intuition" um fraco momento musical, teve, mesmo assim, este vídeo que é, todo ele, de um sarcasmo delicioso, como diria alguém que eu conheço.
sábado, 10 de abril de 2010
"Ice" de Sarah McLachlan, ao vivo duas e diferentes vezes
em 2006, na digressão de "Afterglow"
nas "Freedom Sessions" de 1994
É Nosso, Isto é, Não Vos Pertence
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Memória Transitória
I
Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo
a água irreprimível que sobe do fundo nosso.
Era tão outro o tempo da alegria raramente
derramada como riso de espuma. Quem virá
colher-me o que de ontem já não tenho?
Guardo o silêncio porém. Em mim e na cidade
soa a hora de uma solidão que se interrompe.
II
Esqueceste-te de quanto premente era sermos.
E se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos
nem mãos. Quem veio assediar-me o último ponto
intacto da minha pele? Pressinto que inerte
se fecha em mim o desalento. Liquidadas é como
se eu a cidade paríssemos no descontentamento
um ser de névoa geográficamente situado.
III
Esqueceste-te de que nem só as multidões respiram.
Celebrava-se o 14 de Julho na rue mouffetard
e comia-se crepes. Terás então desencadeado este
presságio que me revela o espaço prematuro em branco.
Era talvez meia-noite há vários anos paris fechava-se.
Hoje decisivo será o salto que vou formando.
IV
Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.
Ter-lhe-ás recusado o fogo e também o gelo
e o meu ser intermediária nesse tão breve atalho.
Que de mitos nem longes me propus a alimentar-me
por ser de ferro a matéria que me circula.
V
Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado
por ser só artifício essa imagem que forjei
e ser certa e necessária a fadiga insustentável
quando à epopeia se recusa um só rasto de vinho.
Esqueceste-te (vais apenas vivendo) de que é difícil respirar.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Diálogo com o Melhor Amigo
as árvores piam (não têm mãe)
as sombras envelhecem
o meu amigo
(o melhor amigo)
na vala comum
do medo
apodreceu
(quando eu vier não me reconhece)
colheitas de sombra
estios de paciência
e um gato familiar
fatal
arranhou seus olhos
corpos de água e vento
sonhos convexos e côncavos
(meu amigo teu sorriso lento
quando eu nascer não me saudará)
Luiza Neto Jorge
in Antologia de Poesia Universitária
1964, Portugália editora
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Agustina tem destas coisas... (12)
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de "Um Cão que Sonha"
terça-feira, 6 de abril de 2010
Goldfrapp: Head First
o vídeo de "Rocket"
"Hunt"
abnormally attracted to video
"Curtain Call"
"Flavour"
"Maybe California"
"Welcome to England"
a razão
Covers do Outro Mundo: Rhianna por Jamie Cullum
"Please Don´t Stop The Music"
Covers do Outro Mundo: Nancy Sinatra por Legendary Tigerman e Maria de Medeiros
"These Boots Are Made For Walking"
Covers do Outro Mundo: Kate Bush por Placebo
"Running Up That Hill"
Covers do Outro Mundo: Shirley Bassey por Arctic Monkeys
"Diamonds Are Forever"
Covers do Outro Mundo: Kylie Minogue por Tori Amos
"Can´t Get You Out Of My Head"
A (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra - é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto - o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o ventoa frágil força do corpo (aranha inerme?)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página ou terra?
Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto
Mas se o silêncio da praia - onde o mar? -o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro - e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, com se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco - em frente ao mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chamada garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areiaeu subscrevo o branco
um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
*
Que diz a forma da pedra - o corpo?
Que diz este silêncio de erva?
Este punhal de feno no meu peito,
esta sílaba trémula, esta sombra fria,
que diz a cor do muro?
A terra tem aos ombros a folhagem
o mar ainda na distância
mas o clamor destes sinais proclama o animaldo fogo
os passos caminham entre as chamas e o apelo das ondas.
A terra é alta como o corpo e baixa
As casas cintiliam mas num contacto sólido
Em todas as estradas o sol caminha com os meus passos.
A folha é escrita como um paisagem
Ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a congregação da terra.
Escolho a clareira do corpo silencioso.
É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.
Escrever é finalmente subscrever o ar das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.
2 poemas de Roberto Juarroz
Por vezes a morte roça-nos os cabelos,
despenteia-nos
e não entra.
É um grande pensamento que a detém?
Ou talvez nós pensemos
algo maior que o próprio pensamento?
sábado, 3 de abril de 2010
qual a melhor maneira
Lisboa
Cidade branca
semeada
de pedras
Cidade azul
semeada
de céu
Cidade negra
como um beco
Cidade desabitada
como um armazém
Cidade lilás
semeada
de igrejas
Cidade prateada
semeada
de Tejo
Cidade que se degrada
cidade que acaba
quinta-feira, 1 de abril de 2010
5 anos depois
o problema da versão censurada de "American Life" de Madonna ainda é não estar distituído de sentido...
A Escada
davam passeios malditos, siberianos os pés nus lambidos pelos castores e pelos ratos.
espectral a luz coada trespassa-lhes a pele moça e dorida.
davam grandes passeios nos mantos vigiados pelos olhos esbugalhados da madeira.
davam-se.
nos vitrais é que as cegonhas faziam as bocas dos ninhos e os arlequins desfilavam suspirando.
o céu num esgar vomita esperma rubro.
o limiar da risada, o conteúdo do abraço.
a orla da praia resinosa desenhada em baba.
escolhemos o odor dos braços.
é o nada.
é o congresso.
esta era a continuação dos longos duas de paixão severa.
a febre gota a gota limpa a mão, pano de linho.
a mutável apenas na aparência.
sombra de éter.
deixai que a seiva corra quente.
que o ritual se cumpra.
tilintaram os guizos e soaram como solas de pulmão seco os passos dos mercenários.
Regina Guimarães
A Repetição
1979, ed. Hélastre
Editors: In This Light and On This Evening
Não me parece que tenha sido referido em lugar algum pelos elementos da banda, mas a verdade é que "In This Light and On This Evening", intencional ou inintencionalmente se aproxima muito do conceito de ópera-rock que já foi assumido, por exemplo, pelos Muse. Neste álbum há muito pouco de avulso, pelo contrário, há uma coesão e uma sequência que será tudo menos inocente. Faz com que faça pouco sentido isolar as canções umas das outras, se realmente a melhor forma de apreciar a nova série é mesmo por completo.
o vídeo de "Papillon"
"You Don´t Know Love" em versão acústica
Épiphanie
le soleil s´éclipse
mais sous les nuages ensanglantés
le sourire de l´ange apparaît.
Saguenail
Il N´y a Pas de Saisons en Enfer
agustina tem destas coisas... (11)
dois poemas de Maria Gabriela Llansol
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.
7
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.
Maria Gabriela Llansol
O Começo de Um Livro é Precioso
2003, ed. Assírio e Alvim
quarta-feira, 24 de março de 2010
Egito Gonçalves: Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda Um Copo de Crepúsculo
Podem (E devem.) ler o poema em questão aqui
Notícias do Bloqueio
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se
domingo, 7 de março de 2010
e ainda sobre a Björk, estes momentos também me emocionaram, por motivos evidentemente diferentes
a entrada em palco no Sudoeste 2008 com "Earth Intruders" e outros momentos, como "Hunter"
ou "Pagan Poetry"
e por falar em Björk, lembro-me perfeitamente que chorei a primeira vez que vi esta cena
"I´ve Seen It All" do filme "Dancer In The Dark" de Lars Von Trier
morreu Lee Alexander McQueen
´
r.i.p.
Islas Lípari
La escama de una sirena puede cegarnos de tristeza
y una estrella de mar adormecernos para siempre,
bien lo dijo aquel loco de Porto Levante
cuando en la piel se traía los lentos oros de la tarde.
Isola Vulcano é un peeto addormentato, caro “itagnolo”.
Nadie como él conocía las estrategias del cangrejo
ni los valses secretos para hipnotizar al demonio.
Mordía las cenizas de un té confuso buscando puerta
a los indicios (más de una vez lo vimos auscultar
basaltos bajos las quietas acequias del cielo).
En la hora lábil de las alas y las áncoras,
cuando ya el mar ardía con el fuego de las distancias,
su carne de lapa tatuada abrió los círculos del ron
y crujió en el idioma de los naufragios, diciendo:
Peto addormentato, certo; ma peto di un dio.
As Mães (IV)
Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.
Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.
Assim como chegou
assim partiu.
O Anjo sem Sorte
sábado, 6 de março de 2010
já está cá fora
e este vídeo de lançamento: "Paradise Circus" com a voz de Hope Sandoval.
O Anjo do Desespero
quinta-feira, 4 de março de 2010
Joaquim Manuel Magalhães: Um Toldo Vermelho
Dado à estampa ainda esta semana, “Um Toldo Vermelho”, edição da Relógio d´Água, tem numa das últimas páginas esta alarmante nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.” Mas não estamos, afinal, perante uma poesia reunida. É um manual que explica, capítulo a capítulo, como destruir uma grande obra em menos de 200 páginas.
Ainda que o livro faça alusão a livros passados (Caso de “Envelope”, “Alta Noite em Alta Fraga” e “Segredos, Sebes, Aluviões”- que passa a “Segredo, Sebe, Aluvião”.), qualquer semelhança a qualquer um desses livros é pura coincidência.
Mais ainda, a poesia de Joaquim Manuel Magalhães sempre se mostrou altamente original, com ecos muito longínquos apenas. Ao ler este livro, é difícil não pensar em outros autores.
Por exemplo, num poema como este
A manzilla
adquire um toque suicida.
A goela vomita ressaca,
evaporou uma cúpula de linho,
o café um algar telegráfico,
subvertes a sucata submersa
da colecção (pag. 87)
ou este
Fiada ficava/ hirta, imperativa
hipnótica sirga/ siena carcomido (…) (pag.89)
é difícil não pensar nos poemas de Fátima Maldonado, primeiro pelo ritmo corrido, e depois pelo léxico que é, nessa poeta em específico, muito demarcado. Ou então num dos poemas inciais, onde lemos
O voo da ampola
na reflexão de um aro,
batalha.
Pêndulo,
tarefa laqueada.
Fossil o ardil em dualidade (pag. 12)
facilmente nos ocorre a fase inicial de Maria Teresa Horta, profundamente simbólica e enumerativa.
Nalguns casos, também, fica-se com a sensação de se estar a ler um Herberto Helder sem fôlego, algo que relembra um pouco Jorge Melícias, por exemplo aqui
A nortada no alcantil.
Do areal ao campo lavrado
alimenta-se de larva de besouro.
Ao relento catos e o tojo
dobram
e a viseira domina.
O bálsamo,
o inóquo equilíbrio do ar.
Planta migratória,
aí o fuselo pousará. (pag. 131)
O primeiro dos casos que referi, da página 87, é também exemplo de algo que acontece com frequência neste “Um Toldo Vermelho”: a destruição completa de poemas brutais que estavam em livros anteriores, neste caso, Maig de “Uma Luz Com Um Toldo Vermelho”.
Serve-me esse poema também para referir outro dos aspectos que mais decepciona nesta poesia reunida: o corte de toda e qualquer pulsão erótica. Se falássemos, antes deste livro, de poesia erótica em Portugal, dois nomes eram obrigatórios: o de Joaquim Manuel Magalhães (Numa perspectiva homo-erótica.) e o de Maria Teresa Horta. Depois deste livro, a grande poesia erótica portuguesa é a de Maria Teresa Hora.
É evidente que todos, incluindo Joaquim Manuel Magalhães, sabemos que por ele ter renegado toda a sua anterior obra não signifique que ela deixe de existir. Há livros ainda disponíveis na Presença e na Relógio d´Água e, quanto mais não seja, na BNP ou na Gulbenkian. E claro que o poeta, qualquer poeta, é livre de fazer da sua obra o que quiser, mesmo que seja reduzi-la a lixo, como é o caso. Valham-nos esses livros antigos de Joaquim Manuel Magalhães para o ter como referência, porque, se nos basearmos somente neste, está ao nível de qualquer candidato medíocre a poeta.
Na minha opinião o realmente grave, mesmo assim, é que Joaquim Manuel Magalhães tenha vindo retirar a sua obra poética que era, inegavelmente, uma das mais assinaláveis entre nós, em vez de retirar, por exemplo, todos os disparates críticos que tem vindo a vomitar ao longo dos anos. E à luz deste “Toldo Vermelho”, a primeira coisa a fazer seria enaltecer nomes como o de Fiama, Gastão Cruz, Teresa Horta, entre outros, que realmente agora surgem nas entrelinhas de um poeta que já uma vez foi grande.
José Saramago: Caim
“Caim”, o mais recente romance de José Saramago não podia ter sido mais aproveitado pelos media, tendo, por muitos, sido inclusivamente recebido com uma estranha surpresa. O que acho estranho. Para ser mais imediato, poderia referir o romance publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” como romance de heresia, mas ao longo da bibliografia de Saramago, livro a livro, é frequente que este se manifeste claramente contra o catolicismo e, em última análise, contra a própria figura de deus.
É-me então difícil perceber o escândalo gerado por “Caim”. Escândalo maior foi, para mim, que no dia seguinte ao seu lançamento, o livro estivesse já a ser alvo de todos os ataques e todas as considerações, dado que, penso, um dia não será suficiente para ler, ou ler plenamente, este ou outro romance.
Em entrevistas e depoimentos, o Nobel refere a bíblia como “um manual de maus costumes e um catálogo da crueldade”. Ora e isto, que poderia surgir como uma pequena observação da parte de José Saramago é, na verdade, uma das maiores matrizes de “Caim”.
Caim, assassino de seu irmão, e condenado por deus (Ou o senhor.) à errância durante toda a sua vida é, claramente, personagem central deste romance, mas não é a sua errância, o seu percurso, o verdadeiro tema deste romance.
A errância que José Saramago atribui a Caim é mais uma passagem pelos momentos bíblicos que, de facto, sustentam a ideia do “manual de maus costumes e catálogo da crueldade”. Por assim dizer, este é um romance principalmente argumentativo, onde Saramago prova, por A+B, e com toda a eficácia, essa sua opinião (Que, acrescento a título pessoal, corroboro por inteiro.).
Caim inicia o seu percurso nas terras de Nod, onde se envolve com Lilith, mas passa pela Torre de Babel depois desta ter ruído, presencia o quase sacrifício de Isaac por seu pai Abraão, a destruição de Sodoma e Gomorra, a desgraça de Job, etc.
Neste último caso, Job, homem próspero e fidelíssimo a deus, é vítima de todas as possíveis desgraças, impingidas por Satã na consequência de uma aposta com deus. A Torre de Babel foi destruída por deus para que os homens não pudessem atingir o céu. Abraão sacrificaria o seu filho para provar a sua fé em deus.
No particular caso de Job, intervém a figura de Satanás. E aí, Saramago não o coloca como antítese de deus, antes como um servo insubordinado.
Porque, ao longo de “Caim”, o verdadeiro antagonista de deus não é outro senão Caim. É Caim quem, na verdade, vê o suficiente para poder duvidar de deus, ou do conceito normalizado de deus. É Caim quem, em último caso, confronta deus com a sua crueldade, a sua frieza e a sua natureza megalómana e totalitária. Ou seja, uma natureza de ditador.
Mais ainda, Caim é confrontado com a duplicidade da sua relação com deus: que pacto foi este entre os dois, em que deus lhe diz que estará condenado a errar enquanto viver, mas que ninguém lhe fará mal, pois estará protegido pela marca negra na testa?
O deus que Saramago nos apresenta não é, pois, uma concepção gratuitamente análoga daquela que a sociedade em geral tem dele. Essa analogia é, efectivamente, muito bem sustentada: deus é um ser confuso (Por exemplo no seu pacto com Caim.), sedento de poder (Por exemplo, a conquista de Jericó) e de provas dele (O sacrifício de Isaac.), pouco inteligente por vezes (Ordenando a Noé que construísse a sua arca num vale, longe de água, onde, logo que viesse o dilúvio, a arca de afundaria.), e, acima de tudo, não é todo poderoso. Neste último aspecto, Saramago utiliza a história de que, na batalha contra os amorreus, deus fez o sol (Ou a Terra.) parar para perpetuar o dia e manter a batalha. Vale a pena reproduzir um excerto da conversa do senhor com Josué:
“Não posso fazer parar o sol porque parado já está ele (…) Algo se move realmente, mas não é o sol, é a terra. A terra está parada, senhor, disse Josué (…) se assim é, manda parar a terra, que seja o sol a parar ou que pare a terra, a mim é-me indiferente desde que possa acabar com os amorreus. Se eu fizesse parar a terra, não acabariam só os amorreus, acabava-se o mundo (…) Pensei que o funcionamento da máquina do mundo dependesse apenas da tua vontade, senhor, Já demasiado eu a venho excedendo (…) é que a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direito aos fins, há que rodear (…)" [pág.124-125]
Na última das suas sequências, a que corresponde à arca de Noé, é que definitivamente “Caim” retira de Satã o peso do anti-cristo e a coloca sobre Caim, sendo este que, verdadeiramente, faz frente a deus e aos seus desígnios. No fundo, Caim, o assassino de seu irmão, acaba por perceber a insignificância do seu acto, face aos actos daquele que o castigou pelo seu crime.
Em última análise, mostra que deus não tem sequer poder sobre os actos dos homens, e muito menos conhecimento do futuro ou do destino, caso contrário, a condenação natural do Caim de Saramago teria sido a sua morte, e não a errância pelo tempo.
Como romance, “Caim” não desilude, mantendo-se dentro do ciclo restrito das melhores obras de José Saramago. Por um lado, alude à fase histórica dos romances iniciais (Como sejam “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.), mas, pelo tratamento que dá à história, mostra-se também muito próximo dos romances pós-modernos (Em que poderíamos incluir “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Ensaio Sobre a Lucidez” ou “As Intermitências da Morte”.), dado o desenrolar praticamente livre de historicismos do romance, acrescido ainda de uma vertente altamente filosófica (Que poderemos reconhecer em “Todos Os Nomes” ou “O Homem Duplicado”.) que é toda a relação directa ou indirecta entre Caim e o senhor nos vários episódios do romance.
A única falha possível neste livro, será a diferença entre a premissa prometida pelo título, que nos relatasse a errância verdadeira de Caim, e “descambar” para uma errância conduzida por José Saramago. O que não tem que ser defeito, e, neste caso, resulta até bastante melhor.
De qualquer forma, a visão fria e crua de José Saramago sobre a bíblia, vem confirmar uma frase que Woody Allen escreveu há uns anos “Se deus existe, é melhor que tenha uma boa desculpa”.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
um poema de Regina Guimarães que aqui deixo para o Diogo
Fui expulsa da casa do mundo
por um irmão desconhecido.
Vendou-me os olhos e levou-me
à saída de todas as saídas.
Nunca mais achei o caminho
do meu claro quarto crescente
onde se nascia todo o dia.
Só me lembro de nascer, nascer, nascer
como uma labareda a pão e água.
imagem: Inês d´Orey
domingo, 21 de fevereiro de 2010
O Sótão do Nómada (um fragmento)
As coisas das casas têm vindo parar ao sótão desta casa que já não habito. E enquanto for assim quase nómada, terão que aqui ficar. Dentro dos caixotes. Sob os lençóis mais puídos que fui encontrando.
Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas. Sorriso irónico. Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas do que esta, em que as coisas que das casas não podem ser empacotadas começam a partir, a partir-se. As que estão empacotadas desenterram ao serem desenterradas muitas das outras coisas e tenho saudades de cada uma das casas.
um poema
Nos apegamos demasiado a los hombres
esas criaturas bidimensionales e inocentes
a su piel
adherente como una tela de araña.
Me quedaria allí hasta que no dejase nada de mí
Nada.
hasta que empezamos a pesarles
como si de pronto engordásemos.
Entonces nos preguntamos
qué pasó y
cuándo.
Inevitablemente nos ponemos
éticas patétias pelenpéticas
pesadas peludas pelenpudas
nos salen canas arrugas
caries estrias verrugas
la sangre no circula.
Nos explotan por dentro.
Se llevan nuestra piel pegada a tiras
y en sus manos algún órgano fácil de vender.
En realidad no saben lo que hacen
solo quieren liberarse de la carga.
Questões de Idade
Tia Glória
Depois das primeiras latinadas muito desagradáveis, a tia Gloria Estefan fez este disco chamado "Unwrapped" que tem este "Wrapped", onde vai mais a fundo nas suas raízes para uma sonoridade mais madura. Melhor aos cinquentas do que aos trintas.
Tia Joni
Desde os tempos em que recusava ir ao Woodstock para ir à televisão, até ao mais recente "Shine", a tia Joni Mitchell não parou de fazer músicas como este "If I Had a Heart".
Tia Stevie
Dos Fleetwood Mac até às Divas Las Vegas, com as sobrinhas, Dixie Chics, que não seriam a minha primeira escolha... a tia Stevie canta ainda, e as pessoas ainda aplaudem de pé quando ela entra.
Tia Marianne
Já depois de Mick Jagger e dos problemas com as drogas, a tia Marianne junta-se à prima PJ Harvey, e faz o seu melhor álbum, "Before The Poison", de onde vem este "The Mystery of Love".
Tia Annie
De cantar e compor músicas excelentes como este "Sing" até à ajuda humanitária, desde os idos tempos dos Eurythmics até uma sólida carreira a solo, a tia Annie Lennox cá está para mostrar que a sua voz é ainda ouvida.
Tia Ute
Alemã de nascença, a tia Ute é uma veterana do cabaret. Desde os clássicos de Kurt Weill e Bertolt Brecht, que nunca abandona, até ao mais recente "Punishing Kiss" onde canta originais compostos para ela por Nick Cave, Phillip Glass, Tom Waits e os Divine Comedy, esta tia é a prova de que chegar aos cinquenta não é parar de se divertir. Acima, "The Case Continues".
uma canção para quem como eu
Annie Lennox, A Thousand Beautiful Things
último poema de Egito Gonçalves, incompleto e sem título

Entre mim e a minha morte
há ainda um copo de crepúsculo.
Talvez pequenas coisas
ainda respirem, não as distingo,
há uma névoa que me mantém na sombra.
Sei que lá fora as árvores
dançam ao vento, o que perdem
no outono ganham na primavera.
Nós vamos deixando pelo caminho
os farrapos da pele
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Agustina tem destas coisas 10
Agustina tem destas coisas 9
Agustina tem destas coisas 8
Agustina tem destas coisas 7
Agustina tem destas coisas 6
Agustina tem destas coisas 5
mudanças imprevisíveis 4: Avril Lavigne
para esta piroseira adolescente cheia de ancas a abanar, assim
em termos sonoros foi sempre mau, mas a atitude muda muito estranhamente. não consegui, até à data decidir qual das duas poses é mais irritante.
mudanças imprevisíveis 3: Delta Goodrem
a vómitos destes
outra mudança para pior. para bastante pior
mudanças imprevisíveis 2: Christina Aguilera
a coisas mais interessantes como estas
claramente, o crescimento é positivo
mudanças imprevisíveis 1: Nelly Furtado
a coisas absolutamente estúpidas assim
a mudança aqui é para pior. definitivamente
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Sansão e Dalila
um fragmento sobre a imortalidade
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
There Is a Ghost
a beleza destas palavras da "tia" Marianne impressiona-me. A música, composta com Hall Willner também.



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