sexta-feira, 7 de maio de 2010

Rosto Sitiado, 13



De novo curvamos o corpo
cingido o arrepio das casas.
De novo apertamos nos olhos
a dor monótona da chuva
árvores despenteadas
ossos
húmida negrura.

O silêncio do vento
fere
nosso rosto sitiado.

De novo nos consumimos
em outono
fogo lento
e as mãos perfumam a tarde
consentem o cansaço
como pássaros
assustados de cinzento.






Maria Graciete Besse
Rosto Sitiado
ed. Fenda, 1983
imagem de Jorge Pinheiro

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Rosa Alice Branco: O Gado do Senhor

O ÓPIO E O POVO

Em 2002, Rosa Alice Branco reuniu num único volume, “Soletrar o Dia” (ed. Quasi), a sua obra poética desde 1988 (Ficando excluído o primeiro livro, de 1981, assinado com pseudónimo.). Desde então, dois poemas foram editados em edições de verdadeiro luxo gráfico pela Gémeo R, “A Palmeira de Kairouan” (2003) e “Amor Quanto Baste” (2005), sendo que o primeiro poema vinha já integrado na secção inédita “Soletrar o Dia” na edição da Quasi. Só em 2009, “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos” (ed. Quasi, incluindo “Amor Quanto Baste”.) vem quebrar este quase-silêncio de seis anos.


Uma leitura desse livro sugere aquilo que o mais recente “O Gado do Senhor” (2009, ed. Espiral Maior.), vencedor do prémio ibérico Espiral Maior e ainda não distribuido no nosso país, vem confirmar: “Soletrar o Dia” foi o momento mais apropriado para reunir a obra da poeta desde “Animais da Terra” (ed. Limiar, 1988), porque a poesia que Rosa Alice Branco publicou no ano passado nos vem demonstrar que está completamente renovada e, nalguns aspectos, até subvertida.
Sem querer aprofundar demasiadamente um olhar sobre a obra 1988-2002 (Que compreende sete livros.), uma das características que mais ressalta na leitura da mesma é a extrema luminosidade que se faz sentir nesses versos: é uma visão que procura a luz, a beleza e a simplicidade (Que melhor prova disto que a “pesquisa” sob a forma de poesia que é “O Único Traço do Pincel” (ed. Limiar, 1997)?), e que as procura usando de uma forma muitíssimo equilibrada a sensibilidade e a inteligência, não dispensando nunca o raciocínio, as associações de ideias e a importância do pensamento e da reflexão. É também uma poesia em que nada é adquirido, tudo é continuamente questionado, codificado e descodificado, uma poesia que existe simultaneamente como elemento autónomo e elemento de ligação do individuo ao real e até às próprias palavras que constroem essa ligação, como vemos no caso de “A Mão Feliz” (ed. Limiar, 1994), onde Rosa Alice Branco explora as potencialidades do d(e)íticos.
Mas quando nos deparamos com “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos”, há características que se alteram e outras que surgem pela primeira vez. Talvez esse seja mesmo o livro mais “negro” de Rosa Alice Branco, um livro que mergulha profundamente nas problemáticas da morte, da ausência e do luto que, estando presentes nos livros anteriores, o estão agora de forma mais nítida. Também uma dimensão de algum pendor narrativo se faz sentir neste livro, logo no título completo, “O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (Pensa Ela)”. Estes parêntesis surgem ao longo da maioria dos poemas do livro, e vão-nos dando indicações precisamente de reacções, comportamentos e estados de espírito face às referidas questões que são o cerne do livro.
Redondamente diferente, no entanto, é “O Gado do Senhor”. Se no livro anterior, e mesmo no seu título, poderíamos sentir uma ponta de ironia, a ironia é precisamente uma das principais linhas de força do mais recente livro de Rosa Alice Branco. Este livro é, no seu todo, uma grande sátira com as questões religiosas, mas evita esgotar-se nelas e estende-se para toda uma dimensão social, política e humana, sempre partindo do princípio que inevitavelmente estas são afectadas por aquelas.



Os títulos de alguns poemas aludem logo para este assunto: Parábola dos Talentos, Dia dos Mortos, Arca de Noé, Crescei e Multiplicai-vos ou Via Sacra, por exemplo. Além destas expressões de cariz cristão, a poeta utiliza ainda, em alguns poemas, citações de orações ou passagens bíblicas, tendo sempre o cuidado de as inverter e relacionar com universos exteriores ao catolicismo. Por exemplo em Prova da Existência da Alma:

“O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.”
(pag.35)


ou então em Sem Livro de Reclamações:

“No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.”
(pag. 48)


A visão de Rosa Alice Branco sobre a problemática aqui colocada, a do catolicismo e da sua influência sobre a vida de toda uma sociedade em que estamos incluídos, é bastante clara: não existe um deus que nos salve ou que nos origine e encaminhe. Além do mais, exclui completamente hipóteses da eternidade ou de ressurreição, o que já não é novo, visto que num dos poemas do seu primeiro livro, Rosa Alice escreve “A eternidade é só a demência do homem”. Mas esta é uma poesia altamente filosófica (Não fosse a poeta formada em Filosofia Moderna.), e portanto, não se limita a excluir a hipótese de deus. Oferece também alternativas. E se em termos de salvação, nada mais parece possível do que o amor, em termos e origem e de caminho a única resposta é a natureza. Interessa aqui relembrar o título do primeiro livro considerado da autora, “Animais da Terra”, que aliás surge agora como título de um poema. Se já nesse título poderíamos pressentir a leve ironia de nos admitir, a nós humanos, apenas como animais da terra, “O Gado do Senhor” vem colocar certezas nessa afirmação, exaltando a nossa relação com a natureza e, mais ainda, afirmar o poder da natureza sobre nós em vez do oposto, como vemos neste excerto de Água Mole em Pedra Dura

“Mastigamos o solo na erva que nos pasta”
(pag. 28)


ou no poema O Cão Que me Tinha de que transcrevo o início:

“Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber onde ia.”
(pag.15)


Em relação ao amor como salvação, Rosa Alice Branco opta por uma solução bastante interessante: transfere a adoração de um Deus para um ser humano, e para isso faz uso das expressões que usualmente manifestam a adoração pelo Deus. Serve de exemplo este excerto de A Alma na Boca dos Animais:

“(…)Vem depressa
beber o cálice sagrado. Escolhi um vinho e tanto
para a noite. Depois dispo-te a pele enquanto dizes:
toma-me, este é o meu corpo: eu sou
o meu corpo a caminho do teu. (…)”
(pag.41)


Por assim dizer, a tese que Rosa Alice Branco parece defender (Vigorosamente.) neste livro é que a ideia de Deus é fictícia, sendo que a única hipótese de sobrevivência para o animal da terra que é o Homem é aceitar a sua ligação intrínseca com a natureza, e procurar a plenitude através do amor e do desejo, que devem ser vividos através da natureza ( A “erva que nos pasta”.), funcionando isto numa espécie de círculo fechado Natureza-Homem-Amor-Natureza, um círculo fechado mas livre, porque um dos seus elos, o amor, para o ser, é necessariamente livre; o que funciona como contraponto à opressão religiosa, à falta de liberdade do catolicismo, que nos obriga à mea culpa, como lemos em Arca de Noé: “Tens que sentir a mea culpa que nos ensinaram.” (pag.42).
Como acima referi, “O Gado do Senhor”, mesmo centrando-se no assunto da religião, derrama-se também sobre outras problemáticas sociais e políticas, pois que tudo é político. Uma das que me parece abordada de forma mais pungente é a da morte. Aqui, não no sentido do luto e da ausência que encontrávamos no livro anterior, mas também ela ironizada, vista quer do seu lado burocrático, quer da visão que a religião apresenta sobre ela. Em Sem Livro de Reclamações, um dos melhores poemas desta recolha, lemos o seguinte:

“O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
(…)
A família e os demais continuam a correr aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.”
(pag.48)


Por outro lado, como disse, também a visão da religião católica sobre a morte é posta em causa neste livro. Em Receituário para as Almas lemos

“(…) Se a morte é falsa
deixa-te estar deitado. Tens um lençol de terra
e não precisas de acreditar em nada. Não é com desespero
que to peço. É mesmo por não valer a pena.”
(pag.23)


Aquilo que Rosa Alice Branco explora neste livro é um assunto explorado por já vários autores, mas creio que o faz com grande originalidade. Além das áreas acima referidas, a poeta questiona ainda a questão do sacrifício, do comportamento de fachada e do discurso ilógico que caracteriza o catolicismo. Sobre este, deixa ainda a sua máxima quanto à religião ser “o ópio do povo”:

“Como vês, a crença Nele é fervorosa e grande:
a medida exacta da nossa miséria.”
(pag.47)


“O Gado do Senhor” representa, penso, um enorme passo em frente em relação a “Soletrar o Dia”, não desprezando este, claro. E se um projecto desta natureza coloca sempre as suas dificuldades em termos de pensamento e de resolução poética, mais do que nunca, Rosa Alice Branco mostra-se muito competente no que toca a resolvê-las.

[terceiro momento musical: primeiro concerto para violoncelo de shostakovich]



de coração abismado para mim
como um dentro onde ilumine o lixo
e a sucessiva merda que há-de vir
penso na subversiva recursiva morte
e escrevo

venham de longe meus suaves assassinos
violoncelos tocados por um poema
que um pirómano de longes dedilhou

anda gustav mahler meio jesus cristo
trespassador de paisagens proibidas
aguardo os teus passos de alvorada
e a dissolvência irónica de mim

não sirvo para mim próprio
engenho fácil a fornicações
a promessas de braços esculpidos
que não sabem nunca quem eu sou

cheguem das artérias gastas
britten shostakovich e rachmaninov
bach tocado pelos mortos quando nascem
e a luz de luz onde é prisão

esvaziem-me intensa e rapidamente
minha realidade corrente e destrutiva
doença de verdade aonde moro
a espessa casa que me tem os ossos tensos
quero depressa o esquecimento consciente
o meu fim primeiro

(não tenho carne tenho uma espécie de palavra
que não tem a pele como incêndio
ossos de reencarnação para o tempo nunca
e a fome dissolvente de outro)






Pedro Sena-Lino
Biofagia
ed. Quasi, Abril de 2003

imagem de Hans Bellmer

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Fim da Noite



A lava deixou sulcos no céu baixo
entre as nuvens do dia perseguido
como ramos da árvore
do céu batido
pelo vento visível

Os espelhos espalharam este brilho
de cinza
Sobre a zona do
ventre alastra ainda
o labirinto líquido
numa
mancha de ramos e raízes
E as lanças da luz como serpentes
erectas passam entre
as ramificações e as radículas
imprecisas
e fias do dia cor da
noite perseguidora
perseguida

Uma rede de vermes vai roendo
a barriga ferida A noite morre
com um espasmo de esperma e abre a extinta
boca de espuma e esperma e dela solta
retido e consumido um pénis hirto


Gastão Cruz
Órgão de Luzes
ed. &etc, 1981
imagem de Henri Toulouse Lautrec

um poema



As sereias transformaram-se em gaivotas.
Repousavam
sob essa forma aérea entre a duna
e a onde, banhando-se no sol. Duas ternuras
moviam-se em charneira, faces
de concha bivave que formavam- era
ainda uma composição marítima onde
os próprios anjos
se inscreviam (é certo
serem anjos primários, sem metafísica,
um deles mesmo repetente.) Cito
esse conjunto
porque me pareceu paradigmático: chave
em plena tarde
rodando a lingueta de um nirvana;
a minha boca dizia no siêncio
as orações correspondentes. A vida
estava imóvel
como um tecido celular e dediquei
ao oceano
o último acto: voz de água
na linha exacta da praia, calma vital,
língua na bainha, olhos
postos no carregar de imagens ao relógio.
Ali o ser
e o tempo atravessavam o anel
onde se prende
a erva renascente. Escrevo
a partir daí este poema, a fidelidade
a um céu sem nuvens; também
no mesmo anel me enrolo
e o tema
é que o momento se eternize. O tema
e o seu código: as zonas
quentes do inverno.






Egito Gonçalves
As Zonas Quentes do Inverno
1977, ed. Inova
imagem de Edward Hooper

um poema



ah como se desatavia
o destino e suas anedoctas

fiandeiros do nada
os velhos deuses
já trocaram
seus corpos de oiro
por túnicas de fumo

ah como não desferem já
…..como indeferem
os inauditos excessos da plena luz







Ana Hatherly
O Cisne Intacto
ed. Limiar, fevereiro de 1983


desenho de Ana Hatherly

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sexta Canção de Amor



A minha amiga ofertou-me
uma faca de dois gumes
um para lhe abrir os olhos
outro para talhar flechas
a que ela chama ciúmes.

A minha amiga ofertou-me
um belo pau de dois bicos
e de mansinho eu lhe bato
com palavras sem recato
e silêncio a corta-mato.

A minha amiga ofertou-me
um livro onde me deitasse
e com ela amarrotasse
a brancura do papel
e o negrume da noite
pois em palavras e actos
me fez à fala fiel
onde a fala lhe faltasse.





Regina Guimarães
Cantigas de Amigo
ed. Hélastre, 2009

fotografia de Sophie Calle

Ilse Losa: Sob Céus Estranhos

O CAMINHO DE CASA

A obra de Ilse Losa, desde o inicial “O Mundo em que Vivi”, construiu-se tentando ensaiar uma noção de pátria, não no sentido de um qualquer nacionalismo, mas no sentido de uma localização íntima do indivíduo. É pois uma obra que não vale apenas o seu valor literário, mas que deve ser considerada também ao seu nível político, antropológico e sociológico.
As suas temáticas variam, mas sempre se movimentam em torno deste conceito. É um imaginário muito pessoal, e, de certa forma, único entre nós, já que, até hoje, não nos surgiu ainda um autor que possa ter reflectido tão profundamente sobre as questões de um mundo em transformação pela força de uma guerra, e, acima de tudo, no seu impacto humano. Os livros de Ilse Losa são, ainda hoje, testemunhos de uma época que em muito terá sido decisiva para uma formação do tempo que é este, o nosso. Exemplos disso são livros como “Aqui Havia Uma Casa” ou os poemas em prosa de “As Grades Brancas”.
“Sob Céus Estranhos”, no entanto, condensa todas as questões intrínsecas à temática da autora, mas destaca-se por ser uma obra de particular maturidade, como se retomasse os textos prévios de Ilse Losa, mas o recontasse de forma tão mais desenvolta e polida que se nos assomam completamente novos. É, ainda hoje, um romance de excepção, quer no contexto da vasta bibliografia de Ilse Losa, quer no contexto de uma literatura portuguesa.




O protagonista da trama, Joseph “José” Berger é um alemão refugiado no Porto. Encontramo-lo no primeiro capítulo vagueando pela cidade enquanto a mulher, Teresa, se encontra na maternidade, pronta a dar à luz. Ao longo dos capítulos seguintes, a história de José é contada, respeitando mais um tempo emocional do que um tempo cronológico. É num dos capítulos finais que encontramos uma passagem que, a meu ver, define bem o espírito deste romance, a ideia sobre que ele se questiona e reflecte: Joseph está pronto a casar com Teresa mas, no Registo Civil exigem-lhe a certidão de nascimento que não tem. Quando contacta os Serviços Administrativos da sua cidade natal, é-lhe dito que o edifício onde estes originalmente funcionavam fora incendiado e os documentos, perdidos. José é então forçado a forjar, junto do notário português, uma certidão de nascimento com base em testemunhas. De testemunhas servem-lhe dois amigos portugueses que afirmam ter sido convidados para as várias festas de aniversário de José na Alemanha, desde a infância. Esta história, que todos, incluindo o notário, sabem ser falsa serve, no entanto, para conceder a José a sua certidão de nascimento. Uma segunda certidão de nascimento, dada num país estranho com base em factos faseados. É esta a eterna questão de “Sob Céus Estranhos”: se é possível para aquele que fugiu do seu país de origem encontrar uma outra pátria num outro país. A verdade é que esta é uma pergunta que só pode ficar sem resposta, pois, mesmo casado e à espera de um filho, José continua a ser um estrangeiro, que não só é posto, de certa forma, à margem da sociedade portuguesa, como também não raras vezes ele mesmo se coloca fora dela. Acerca disto, cito uma passagem do vigésimo oitavo capítulo:

“Acontece quando a vida em público que decorre sem a presença de mulheres me simboliza atraso, enfado, falta de espírito e de graça, e apetece então romper as grades, respirar mais fundo, em qualquer parte onde haja resistência e luta, renovação e aventura ou, pelo menos, um pouco mais de exuberância”

(1ª edição, pag.187)

Também no final da história, outra problemática é colocada: José, já casado com Teresa, vai visitar a sua cidade natal à Alemanha. Ao contrário daquilo que esperava, o que encontra não é um “deserto”, mas também não é o lugar de onde saiu, aquando da guerra. É verdade que grande parte da cidade está destruida, mas ainda encontra pessoas que conhecia, que se recordam dele e o reencontram já numa nova vida, uma vida que acontece num outro país. São pungentes as ideias que passam pela cabeça do personagem:

“Onde estavam aqueles que me tinham derrubado na estrada e que se “estavam nas tintas” para comigo? Onde estavam os que escorraçaram o good old man? Os que encerraram toda essa gente num comboio selado que entrou, certa noite, na estação do Rossio? Ninguém parecia ter expulsado ninguém. (…) Ninguém parecia ter assassinado ninguém. E nenhuma dessas pessoas solícitas tinha cara de ser assassino de crianças. Lamentavam, sentiam muito, por vezes até choravam. Mas não se apresentou um único que tivesse estado presente nos dias da carnificina. Estiveram todos ausentes, todos.”

(1ª edição pág. 196-197)

Ou seja, mais do que a questão de muito provavelmente não ser possível para quem foge de um país conseguir “habitar” outro, mostra-se também impossível reencontrar o país de origem. Ele encontra-se geograficamente, mas não se encontra emocionalmente. Aqui, a cisão que a Guerra, nos seus impactos social e político, cria num indivíduo, bem como num povo inteiro.
É este, acima de tudo, o drama que “Sob Céus Estranhos” relata, na primeira pessoa: a perda de identidade. O indivíduo que foge é obrigado a ter uma espécie de “segundo nascimento” que nunca é encarado como nascimento, pelo menos de forma plena, porque não se consegue eliminar o registo do primeiro. O refugiado é arrancado à força de tudo o que conhece, e entregue à sua sorte para reconstruir algo semelhante a uma vida num outro lugar. Mas verdadeiramente nunca o consegue, por mais que a sua vida siga aquilo que é o esquema mais normal: o casamento, uma casa, filhos…
A sensação que “Sob Céus Estranhos” mais parece deixar é a de que se perdeu alguma coisa que nunca verdadeiramente se vai recuperar. Alguma coisa que é impossível nomear precisamente, tanto quanto é impossível obter respostas concretas para as muitas perguntas que essa perda levanta.
Além da questão individual, que Ilse Losa conheceu na primeira pessoa (E só isso permitiria um romance tão profundo.), há também a questão vista de um prisma de colectivo: as movimentações de imigrantes que passam pela cidade do Porto, o café Superba onde se reuniam para contar as suas histórias que, sendo todas diferentes, eram todas, na realidade, muito iguais, porque todos haviam perdido essa identidade, e todos se encontravam, para todos os efeitos, perdidos num mundo em que não podiam encaixar.
O choque cultural é também uma componente muito marcada neste romance. José depara-se, no Porto, como uma sociedade ainda atrasada, descriminatória, misógina e que se recusa terminantemente à cultura, é um “mundo fechado” como Agustina disse no seu primeiro romance. Há, neste aspecto, algo de queirosiano em “Sob Céus Estranhos”, no sentido em que a figura de José, mesmo vindo de um país destruído pela guerra, tem da vida uma noção mais evoluída do que a maioria em que se vê inserido, tal como acontece muitas vezes nas prosas de Eça, ainda que essas se centrem mais num antagonismo romantismo/realismo-naturalismo, sendo, portanto, mais direccionadas do que o que encontramos em Ilse Losa que ultrapassa em muito a literatura e se refere à política e à sociedade.
O estilo de escrita vem na linhagem seca e fluida que encontramos, por exemplo, em Irene Lisboa: Ilse Losa não perde tempo em detalhes, não se desvia da história que está a contar, é acutilante e extremamente observadora: não só em relação às pessoas que descreve, mas à visão de uma cidade, o Porto, uma visão que só é possível a quem vem de fora e se confronta com uma cidade nova.
Romance de primeira água, “Sob Céus Estranhos” é um livro que, em muitos aspectos, não perdeu a sua modernidade e que coloca questões sobre o nosso país que, ainda hoje, não têm uma resposta concreta.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Animais da Terra



Estranho fruto
o que amadurece entre as mãos
e a madrugada:
é uma ideia,
sempre a mesma ideia da terra
pressentida nos uivos dos animais
que tu aceitas

porque se move a pedra
e só o cão está atento
enquanto os marinheiros fumam
junto ao cais

parecem velhas histórias
de raparigas nuas
mas é o tempo
a vaguear na inquietude.
A eternidade é só a demência do homem
diante do império
que temivelmente repete
a continuidade

Por quem temem os animais?
pobres mensageiros sem palavra
em que primeiro a terra se ressente.
E ainda o marinheiro
passa a mão pelo pêlo húmido
do ar do cais

Com estas mesmas palavras
alguém dirá um dia
uma outra terra
a ideia
que acolheste nas mãos
e o tempo trabalhou
na tua ausência.






Rosa Alice Branco
Animais da Terra
ed. Limiar, Maio de 1988


imagem de Carla Gonçalves

Salette Tavares: Lex Icon

O SÍMBOLO REVISITADO

Em 1971, “Lex Icon” (Moraes ed.) haveria de ser o último livro de originais publicado por Salette Tavares. Como podemos ler no texto de Rui Torres no catálogo da recente exposição “Desalinho das Linhas”, a produção de Salette Tavares não parou nem abrandou após 1971, mas a maioria dos textos posteriores permanecem, por alguma razão, inéditos, mesmo depois da morte da autora, em 1994. Salvam-se os poemas inéditos que vão de 1957, data da edição de “Espelho Cego” (ed. Ática), primeiro livro, a 1971, data da edição de “Lex Icon”, recolhidos ainda na edição da “Obra Poética 1957-1971” de 1992 (ed. Imprensa Nacional- Casa da Moeda).
No entanto, mesmo sabendo que existe produção depois de 1971, que inclui poesia, poesia visual, prosa e ensaios, “Lex Icon” não deixa de parecer, ainda agora, uma espécie de livro testamentário. Testamentário no sentido em que completa perfeitamente o projecto iniciado com “Espelho Cego” e se posiciona como quase uma base teórica para a poesia visual de Salette Tavares, provavelmente a mais interessante da poesia experimental portuguesa, ao lado da de Ana Hatherly.

O livro é formado por três capítulos: “Lex”, “Icon” e “Lex Icon”. Será interessante analisar o peso das palavras para que se compreenda este livro. “Lex” poderá ser uma abreviatura para “léxico”, que compreende um campo de palavras relativo a determinada ideia, e “Icon” é evidentemente um símbolo.
O primeiro capítulo, formado por um poema, “As Lições”, parece realmente explorar as possibilidades de criação de um campo lexical relacionado com a poesia. São assim colocadas lado a lado ou em contraponto palavras como “falar”, “escrever”, “ler” e “ver” entre outras, parecendo-me, no entanto, serem estas as mais significativas para uma leitura da obra de Salette Tavares, pois a sua poesia, gráfica ou outra, não passa sem incorporar a fala (O efeito sonoro.) através da escrita, as referências literárias e filosóficas e, claro, o lado visual. Mas este poema centra-se essencialmente no acto de inverter ou subverter estes verbos:

“Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.

Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.

Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.

(…)”

(pag.11)

Este trecho pode perfeitamente funcionar como uma arte poética, uma explicação da poesia de Salette Tavares.
“Icon”, segundo capítulo, é também formado por apenas um poema, “Os Objectos”, mas este ícon é algo abstracto, é um “produto” que se “fabrica”. Poderá este pequeno poema dar continuação ao primeiro capítulo, pois se um explora a origem remota da criação poética, o outro foca-se no acto da criação em si, ou, de outra maneira, um vai ao passado (E é escrito efectivamente no passado, na dualidade “ensinaram-me”- “aprendi”.) e o outro ao presente:

Fabricar é o mais religioso serviço do homem.
A fábrica é uma igreja de pé.
Os produtos são salmos para uso diário
dos ofícios permanentes da fé.


(pag.15)

O terceiro capítulo, “Lex Icon” faz a junção das duas possibilidades abertas pelos dois primeiros capítulos. Lança um “icon”, na maioria das vezes no título, e o poema abrange todo um léxico sobre ele, mantendo a regra de ouro de o subverter, criando muitas vezes jogos de distorção e inversão de sentidos, momentos de originalidade. Por exemplo em “A Luva”:

“Uma luva é uma escultura morta
quando jaz ou quando se transporta
dentro do bolso da carteira ou da mão.

Uma luva é uma escultura viva nova
quando se deixa penetrar pelo amor da mão.
(…)”

(pág.23)

Esta (des)multipilicação de sentidos ou léxicos ou visões de determinado símbolo- o referido “icon”- não só pauta a concepção da poesia de Salette Tavares, como também funciona como base teórica da poesia visual da autora, como acima referi: em poemas visuais como “Porta das Maravilhas” que é, além de visual, tridimensional, escultórico, existem dois elementos distintos: o poema em si, que poderia perfeitamente integrar uma recolha como “Lex Icon”, e a porta de acrílico sobre o qual está o poema serigrafado, ou seja, o novo sentido atribuido ao objecto da porta pela poeta é sobre uma porta colocado. Não é difícil, na leitura dos poemas de “Lex Icon” imaginar o mesmo processo com a maioria dos poemas. Assim como uma considerável parte da poesia gráfica da autora poderia perfeitamente estar inserida num livro, não se esgotando na possibilidade visual (Ainda que haja, claro, poemas que são exclusivamente visuais, como o caso da famigerada “Aranha” de 1963.).
Além destes poemas existem, como dificilmente poderia deixar de ser, alguns mais marcados pela atmosfera da época a que pertencem, e particularmente aos tiques da poesia experimental. Um caso flagrante disto é o famoso “O Bule”, um poema que legitima o sentido sonoro acima referido a propósito do primeiro poema do livro. Poemas como este, ou então “O Sapato”, poema dramático, são talvez aqueles que mais abrem caminho para aquilo que seria a exposição “Brincar” em 1979, na Galeria Quadrum, que afirmou em definitivo o nome de Salette Tavares como um dos mais originais da poesia experimental portuguesa.
Ainda sobre a componente visual desta poesia, interessa sempre referir a organização do texto sobre a página, uma característica que à partida se perde numa leitura em voz alta, mas que tem o seu interesse numa leitura do próprio livro, uma vez que introduz no poema momentos de pausa, enumeração ou divagação: é importante referir isto porque não faltam na poesia portuguesa poemas onde esta organização do poema na página é gratuita, mas não é o caso de Salette Tavares: como disse, á partida essa organização perde-se numa leitura oralizada, mas, dada a sua real importância na leitura, a organização funciona no sentido oposto, ela dá indicações para uma leitura do poema, quase como no teatro as indicações cénicas. Serve este comentário de plataforma para outra ideia que me parece presente em “Lex Icon”: a ideia de que precisamente estes poemas precisam “fugir” da página, ganhar uma outra dimensão que, se não é espacial ou gráfica, é pelo menos em voz alta, o que não deixa de ser uma outra dimensão para o texto escrito. Como se estes poemas não tivessem sido escritos para ser lidos silenciosamente.
Interessa, se calhar, neste momento, olhar um pouco para trás na produção poética de Salette Tavares. Para isso, foco-me no primeiro livro da autora, o “Espelho Cego”: o espírito do texto é bastante mais difuso, menos focado, mas é interessante verificar que, apesar disso, “Espelho Cego” não deixa de lançar as ideias que serão levadas à plenitude em “Lex Icon”: no primeiro livro há já uma vontade de incidir sobre ideias ou símbolos e explorar os campos mais habitualmente a eles associados, e há já também este interesse pela organização do poema na página, como se logo nos primeiros poemas já houvesse a exigência de uma leitura em voz alta, de uma vertente física no poema. Mas claro que estas ambições são mais plenamente preenchidas em “Lex Icon”, por assim dizer, Salette Tavares demonstra-se no seu último livro publicado muito mais à vontade para resolver os problemas que coloca do que no primeiro. O que é natural.
Sem um conhecimento da obra posterior a “Lex Icon” é difícil perceber se o trabalho de Salette Tavares terá ido ainda mais longe na exploração destas possibilidades. No entanto, e retomando a ideia com que iniciei esta nota de leitura, penso que será difícil ir mais além. Julgo que estamos perante uma situação de contornos semelhantes à de Luiza Neto Jorge neste sentido: “Os Sítios Sitiados” vinha fechar o ciclo aberto por “A Noite Vertebrada”, 13 anos antes. A produção seguinte de Luiza era já outra coisa, muito distinta, de que “A Lume” de 1989 é um testemunho perfeito. Até que apareçam esses textos posteriores a 1971, ficará por saber para que campo se moveu a obra de Salette Tavares, mas, de acordo com o texto de Rui Torres já referido, a produção compreende pelo menos duas narrativas, o que já demonsta uma alteração de percurso, ou pelo menos um alargamento do mesmo.
Face a um livro como “Lex Icon” penso que é clara a importância de Salette Tavares no contexto de uma poesia experimental portuguesa, bem como no contexto de uma poesia portuguesa. No entanto, penso que resta apurar até que ponto o seu envolvimento na poesia experimental não terá acabado por ter um efeito negativo. Ou seja, até que ponto Salette Tavares, ao ser rotulada como experimental, não passa a ser vista como uma poeta de época, incapaz de ser inserida num contexto mais vasto? Uma leitura da sua obra completa pode demonstrar que é perfeitamente capaz, mas é sabido que para jugar um poeta, nem sempre a sua poesia é o critério principal.

domingo, 18 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010

Ugly Betty: Os Momentos Musicais da Amanda

quando descobre que Gene Simmons poderá ser o seu pai, visto que a mãe, Fey Sommers não deixou pista alguma sobre isso, Amanda decide chamar o pai na sua linguagem: a música...



e aqui, no casamento do Bradford Meade com a Whilelmina Slater, que é subitamente interrompido, Amanda salva o dia com esta cover de "Milkshake". O organista acompanha-a.

mais um momento daqueles

em que vou ao YouTube resgatar os vídeos que colocam em causa a formatação de que o mundo da música se tornou vítima, deixando de ser um mundo na maior parte dos casos, para ser um negócio. Abaixo, Jewel, que teve em "0304", o álbum deste "Intuition" um fraco momento musical, teve, mesmo assim, este vídeo que é, todo ele, de um sarcasmo delicioso, como diria alguém que eu conheço.

sábado, 10 de abril de 2010

"Ice" de Sarah McLachlan, ao vivo duas e diferentes vezes

em 2006, na digressão de "Afterglow"



nas "Freedom Sessions" de 1994

É Nosso, Isto é, Não Vos Pertence



Um quilo de chumbo não pesa mais que um quilo de penas?
Entre as penas pesadas e os levíssimos soldadinhos de chumbo se busca uma perda de eloquência do desejo. Porém cada simulacro de morte encerra a vontade de ser seu encantador e espectador. E a forma persegue a matéria. Morte em segunda mão. Face cega a esboçar um sorriso à causa que infinitamente passa e lhe pede esmola. Festim de fim para o qual se juntam os restos. Que faremos nós deste gosto e do desgosto?

Em rigor um quilo de chumbo não pesa mais que um quilo de penas. Deste lado, os olhos amadurecem e caem como certos frutos desejam ser pisados. Aqui na terra como no céu, o terror das palavras pertence ao passado. Importa saber em que terreno as palavras caíram e experimentar todos os desvios que permitem caminhar para elas, fora de tempo.



Regina Guimarães
in A Hora Sua (antologia de textos para fotografias de Renato Roque)
1999, col. livros de fotografia, Assírio e Alvim
fotogrefia de Renato Roque

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Memória Transitória



I
Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo
a água irreprimível que sobe do fundo nosso.
Era tão outro o tempo da alegria raramente
derramada como riso de espuma. Quem virá
colher-me o que de ontem já não tenho?
Guardo o silêncio porém. Em mim e na cidade
soa a hora de uma solidão que se interrompe.

II
Esqueceste-te de quanto premente era sermos.
E se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos
nem mãos. Quem veio assediar-me o último ponto
intacto da minha pele? Pressinto que inerte
se fecha em mim o desalento. Liquidadas é como
se eu a cidade paríssemos no descontentamento
um ser de névoa geográficamente situado.

III
Esqueceste-te de que nem só as multidões respiram.
Celebrava-se o 14 de Julho na rue mouffetard
e comia-se crepes. Terás então desencadeado este
presságio que me revela o espaço prematuro em branco.
Era talvez meia-noite há vários anos paris fechava-se.
Hoje decisivo será o salto que vou formando.

IV
Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.
Ter-lhe-ás recusado o fogo e também o gelo
e o meu ser intermediária nesse tão breve atalho.
Que de mitos nem longes me propus a alimentar-me
por ser de ferro a matéria que me circula.

V
Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado
por ser só artifício essa imagem que forjei
e ser certa e necessária a fadiga insustentável
quando à epopeia se recusa um só rasto de vinho.
Esqueceste-te (vais apenas vivendo) de que é difícil respirar.

Wanda Ramos
E Contudo Cantar Sempre
1979, edições O Oiro do Dia
imagem de Edward Hooper

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Diálogo com o Melhor Amigo



as árvores piam (não têm mãe)
as sombras envelhecem

o meu amigo
(o melhor amigo)
na vala comum
do medo
apodreceu

(quando eu vier não me reconhece)
colheitas de sombra
estios de paciência
e um gato familiar
fatal
arranhou seus olhos

corpos de água e vento
sonhos convexos e côncavos

(meu amigo teu sorriso lento
quando eu nascer não me saudará)





Luiza Neto Jorge
in Antologia de Poesia Universitária
1964, Portugália editora

fotografia de Slava Mogutin

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Agustina tem destas coisas... (12)

Se quer ser bem aceite, convide para jantar nove ou dez pessoas esfomeadas, não de pão ou carne, mas de baixela de prata. Não imagina o que se consegue com dez pratos de macarrão e dez colheres maciças com o seu nome gravado. Lisboa é uma cidade de efeitos cénicos.
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de "Um Cão que Sonha"

terça-feira, 6 de abril de 2010

Goldfrapp: Head First

RECORDAR E (SOBRE)VIVER

Quando em 2000 os Goldfrapp se lançaram com "Felt Mountain", por mais que o álbum roçasse a genialidade, ninguém podia prever a influência que o duo britânico ia exercer sobre tantas bandas. A sonoridade que no primeiro álbum é melódica e sinfónica, sem dispensar todo o tipo de maquinarias ao lado da voz suave de Allison Goldfrapp no segundo disco deu lugar ao quase puramente electrónico: "Black Cherry" era uma inesperadíssima reviravolta na música dos Goldfrapp, com pouquíssimo em comum com o priemiro álbum. Depois, "Supernature" haveria de começar um processo de assimilação entre as duas vertentes, que será mais completo em "Seventh Tree", que teve direito a passagem pelo Sudoeste de 2008.
E onde "Supernature" se inclinava mais para "Black Cherry", "Seventh Tree" veio pender mais para o lado de "Felt Mountain".
De qualquer forma, "Supernature" será sem dúvida um dos discos mais influentes dos últimos anos: é fácil perceber a contaminação quer em bandas que o souberam inserir numa sonoridade diferente e pessoal, caso dos Editors em "In This Light and On This Evening" ou de "The Resistance" dos Muse, quer em bandas com um som mais verde, caso dos La Roux.




Mesmo assim, o percurso dos Goldfrapp não cai na repetição. E se "Seventh Tree" parecia um momento de descanso e de retorno ao lado intimista de "Felt Mountain", o quinto álbum de originais, lançado há poucas semanas com o vídeo de "The Rocket" vem virar tudo ao contrário. Outra vez.
Podemos colar este disco, de entre os quatro anteriores, a "Black Cherry", mas parece-me também interessante verificar as raízes de "Head First" em relação à música que não a dos Goldfrapp.
E se "Black Cherry" vinha reverter completamente todos os sentidos da electro-pop, "Head First" parece ir buscar influências muito mais recuadas, nomeadamente na disco dos anos 80. Mas não se fica pelo revivalismo, que foi a morte de muitas experiências já feitas no passado. As beats e alguns tiques facilmente associáveis aos eighties são adaptados à personalidade musical dos Goldfrapp. Assim sendo, não é raro neste disco sermos remetidos para algumas canções do passado, principalmente do segundo e terceiro álbuns.
Mas em relação a esses trabalhos, "Head First" representa um passo em frente para um som inovado, ou, se se quiser, melhorado. É a prova derradeira de que os Goldfrapp não passam muito tempo a produzir o mesmo tipo de som.
Assim, em "Head First" tanto temos momentos de maior euforia, como "Alive" ou "Rocket", como momentos em que o electrónico e o dançável se tornam estranhamente íntimos, como "Dreaming" ou "Hunt", uma das melhores canções deste disco.




O lado acústico volta a desaparecer quase totalmente, surgindo apenas de relance em algumas faixas, como o piano em "Head First" (a canção).
A voz de Allison Goldfrapp mostra-se como sempre muito competente para acompanhar as diferentes ambiências que o disco, no seu todo, atravessa. E tanto a encontramos perto daquele frenesim que ouvimos em tempos em "Ooh La La" como a encontramos no tom melancólico dos idos "Lovely Head" ou "Deer Stop", e, uma vez mais, movimenta-se muito bem em qualquer uma delas, indo do sussurro (Brutal em "Shiny and Warm".) ao grito num ápice.
Em relação aos discos anteriores, também me parece que, contrariamente ao que pode parecer numa primeira audição, "Head First" representa também uma sonoridade mais densa, e menos radio friendly do que os anteriores. "Rocket" é, nesse sentido, uma canção de excepção: não sendo a melhor do disco, é certamente uma boa escolha para single de avanço, por ser a canção mais leve ou de mais fácil audição, não sendo, no entanto, a melhor faixa.
Nesse aspecto, a composição mais complexa e que causa maior estranheza será talvez "Hunt", canção marcada por vocalizações bizarras e vários momentos de pausa.
Se voltaremos a ter algum hit com a dimensão de "Ooh La La", ainda não se sabe. Mas certamente temos um álbum muito à altura dos Goldfrapp.



o vídeo de "Rocket"


"Hunt"

abnormally attracted to video

enquanto em Portugal não é lançado o DVD com os vídeos que cobrem todas as faixas de "Abnormally Attracted to Sin", o mais recente álbum de Tori Amos, o YouTube serve de muito. Aqui está uma terceira leva.


"Curtain Call"


"Flavour"


"Maybe California"


"Welcome to England"