quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Escada



davam grandes passeios pelos matos o coração soerguido pela prece luxuosa do feiticeiro.
davam passeios malditos, siberianos os pés nus lambidos pelos castores e pelos ratos.
espectral a luz coada trespassa-lhes a pele moça e dorida.
davam grandes passeios nos mantos vigiados pelos olhos esbugalhados da madeira.
davam-se.
nos vitrais é que as cegonhas faziam as bocas dos ninhos e os arlequins desfilavam suspirando.

o céu num esgar vomita esperma rubro.
o limiar da risada, o conteúdo do abraço.
a orla da praia resinosa desenhada em baba.
escolhemos o odor dos braços.
é o nada.
é o congresso.

esta era a continuação dos longos duas de paixão severa.
a febre gota a gota limpa a mão, pano de linho.
a mutável apenas na aparência.
sombra de éter.
deixai que a seiva corra quente.
que o ritual se cumpra.

tilintaram os guizos e soaram como solas de pulmão seco os passos dos mercenários.





Regina Guimarães
A Repetição
1979, ed. Hélastre
imagem de Max Ernst

Editors: In This Light and On This Evening

A LEAP OF FAITH

Se depois de "The Back Room" (2005), "An End Has a Start" (2007) sugeria os Editors como um dos nomes mais interessantes do indie-rock actual, "In This Light and On This Evening" (2009) vem dar a confirmação. O terceiro álbum dos Editors, lançado recentemente, é um verdadeiro acto de originalidade, bem como um salto impensável em comparação com o álbum anterior que já de si não era nada mau. O problema que existia nos primeiros dois álbuns seria talvez a facilidade com que se lhes atribuíam influências, e de certa forma, também a semelhança entre os dois.



Mas logo na primeira faixa, que dá nome ao álbum, "In This Light and On This Evening" mostra-se redondamente diferente. É certamente uma das melhores faixas do disco, mesmo sendo claramente uma introdução. Aí se nota já a assumpção do lado electrónico, perfeitamente nivelado com as guitarras eléctricas que são, já se sabe, obrigatórias. A voz de Tom Smith também parece agora encontrar o seu melhor registo. É uma voz grave e tem, daí, as suas limitações, agora perfeitamente controlada. As letras, também da autoria do vocalista, mostram-se bastante mais politizadas, mantendo um certo lirismo quase adolescente que tem sempre a sua graça, como acontece em "You Don´t Know Love", uma das faixas mais interessantes deste trabalho.
Algumas faixas ainda relembram um pouco a sonoridade anterior (Caso de "Bricks and Mortar".), e outras afastam-se completamente dele (Caso de "Papillon".).
Se se quiser procurar influências, será desta vez um tanto mais difícil falar de Joy Division, mas poder-se-á falar ainda de Blur, e há que acrescentar Goldfrapp, ou pelo menos a fase Black Cherry-Supernature dos Goldfrapp, fase que afinal veio influenciar mais do que previsto os músicos actuais, dos Muse aos Editors.
A ascensão do lado electrónico na música dos Editors não significa, claro, uma perda da melancolia que existia nos álbuns anteriores (Em "Fall" ou "Spiders", por exemplo.), sendo recuperada em momentos como "You Don´t Know Love" ou "Walk The Fleet Road", resultando, no entanto, esta melancolia mais densa agora, e o electrónico torna-se, em vez de dançável como mais imediatamente poderia acontecer, mais negro e até depressivo.
Outra característica que importa referir acerca de "In This Light and On This Evening" é a repetição, o obsessivo, numa espécie de alusão, por exemplo, à música barroca ou, se quisermos ser mais rebuscados, à música experimental. Em canções como "Eat Raw Meat= Blood Drool", funciona tanto a repetição de determinada frase (De palavras.) como a repetição da mesma frase musical. "The Big Exit", outro dos melhores momentos deste disco, é um exemplo acabado disto. Além das notas musicais, Tom Smith diz repetidamente "They took what once was ours".
Em contraponto ao que é a música dos Editors, este disco está também mais próximo do som dos Editors ao vivo e, se partirmos do princípio que essa é a ambição de todas as bandas, de facto é uma ambição atingida com "In This Light and On This Evening". Por outro lado, talvez por ser uma sonoridade bastante mais negra e obcecante, será dos discos dos Editors o menos radio-friendly, mesmo contado com "Papillon" e com o facto de nenhum dos anteriores álbuns ser propriamente muito vendável.



Não me parece que tenha sido referido em lugar algum pelos elementos da banda, mas a verdade é que "In This Light and On This Evening", intencional ou inintencionalmente se aproxima muito do conceito de ópera-rock que já foi assumido, por exemplo, pelos Muse. Neste álbum há muito pouco de avulso, pelo contrário, há uma coesão e uma sequência que será tudo menos inocente. Faz com que faça pouco sentido isolar as canções umas das outras, se realmente a melhor forma de apreciar a nova série é mesmo por completo.
Nisto, em nada "In This Light and On This Evening" se torna chato, nem tem canções inconsequentes, como acontecia pontualmente nos dois discos anteriores que eram, curiosamente, mais curtos do que este.
Resumino, "In This Light and On This Evening" é definitivamente um dos melhores álbuns que tem sido editado ultimamente.



o vídeo de "Papillon"


"You Don´t Know Love" em versão acústica

Épiphanie



Le ciel a rompu ses eaux
le soleil s´éclipse
mais sous les nuages ensanglantés
le sourire de l´ange apparaît.




Saguenail
Il N´y a Pas de Saisons en Enfer

2007, ed. Hélastre




imagem de René Magritte

agustina tem destas coisas... (11)

Não perdoava a beleza das outras mulheres, mas não era vulgar ao ponto de o deixar notar. Pior que uma mulher que não suporta a beleza e o charme de outra, só um homem. (…) Prazeres fora casada com um banqueiro e depois com um antiquário. Nunca falava dos maridos, o que os favorecia. As mulheres que falam muito dos maridos, ou os enganam ou não estão satisfeitas com eles. É uma regra de ouro.
.
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de Um Cão Que Sonha

dois poemas de Maria Gabriela Llansol



1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.




7
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.




Maria Gabriela Llansol
O Começo de Um Livro é Precioso
2003, ed. Assírio e Alvim


imagem de Paul Delvaux

quarta-feira, 24 de março de 2010

Egito Gonçalves: Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda Um Copo de Crepúsculo

A CIDADE ÍNTIMA


Fernando Pessoa ditou o seu último poema precisamente no dia em que morreu.
Com excepção dele, é raro o poeta português que escreveu literalmente até à morte e que, além disso, teve hipótese de se despedir.
Egito Gonçalves é um desses raros casos.
O percurso poético do autor inicia-se em 1950 com a publicação de "Poema Para os Companheiros da Ilha". Dada a sua clara inclinação para uma poesia politizada é rapidamente atirado para a prateleira dos neo-realistas. E, logo desde o início, há uma característica que é por assim dizer atirada para segundo plano: a dimensão lírica. Numa época em que como está visto, todos tinham que escolher de que lado queriam ficar (A estética dos surrealistas ou a ética dos neo-realistas.) não são raros os casos dos que não se confinam nem a um nem a outro (Por exemplo Jorge de Sena.). O caso de Egito Gonçalves envereda claramente por uma dimensão ética mas em momento algum renuncia à estética (Sem no entanto resvalar para qualquer situação surrealista ou surrealizante.) e será talvez esse o ponto forte da sua poesia.
A sua obra poética foi-se desenvolvendo e desbravando novos terrenos ligados, por exemplo, ao erotismo, muito latente em obras como "Luz Vegetal" (Limiar, 1975) ou "Falo da Vertigem" (Limiar, 1983) até à palavra que quase caíra em desuso mas que Rosa Alice Branco aponta com muita pertinência no seu prefácio a "E No Entanto Move-se" (Quetzal, 1995), a ternura. É esta que irá pontuar nos últimos livros do autor: e se em "O Mapa do Tesouro" (Campo das Letras, 1997) esta "ternura" acaba por resultar em poemas menos conseguidos, em "A Ferida Amável", publicado conjuntamente com "Lettera Amorosa" (Campo das Letras, 2000) ela acaba por resultar com a maior das eficácias, colocando Egito Gonçalves entre os raros poetas contemporâneos que cantam o "amor feliz".
Antes de falar um pouco sobre o último livro do autor, publicado postumamente em 2006 pela Campo das Letras, penso ser pertinente referir o livro "E No Entanto Move-se".
Trata-se de uma recolha de poemas desde os anos 50 até ao início dos anos 90 (Alguns dos quais publicados em antemão na antologia "O Pêndulo Afectivo".) que se caracterizam por ser "poemas de viagem", uma classificação excessivamente resumida mas que explica bem a génese do livro aliás triplamente premiado. Nele o poeta se confronta com cidades estrangeiras, com a observação vantajosa e mais completa de se vir de fora, e, uma vez mais fazendo uso do prefácio de Rosa Alice Branco a este livro, é através de certos elementos como a Mulher ou a poesia ou determinado monumento que o sujeito poético encontra a sua ponte para a cidade estranha que percorre.



É importante falar disto porque "Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo" nos mostra precisamente a mesma situação: um confronto poeta-cidade: mas desta vez sem qualquer tipo de intermediário. A dedicatória do livro é sucinta, dedica-o à cidade do Porto. E desta vez, uma poesia que se pode dizer (Ainda que me pareça rebuscado.) ter uma dimensão geográfica é escrita com a maior intimidade. De certa forma, quase como se essa ternura que acima se referiu fosse sentida também pela cidade, quer seja a cidade construída, quer seja a cidade vivida. E é também um livro onde se colocam em confronto os dois pontos essenciais da vida: a infância e a morte. Se por um lado nos poemas iniciais lemos uma espécie de "memórias" da cidade do Porto nos anos 40 ou 50, é também neste livro que sentimos a proximidade da morte como se pairasse sobre essas mesmas memórias do passado. Talvez um verso de Isabel de Sá sobre Marguerite Duras faça sentido a propósito deste livro "começou a ser velh[o] no último livro". Velho apenas no sentido em que se confronta directamente com a morte.
Não há no entanto qualquer tipo de queixume ou de lamentação. Pelo contrário. As coisas são observadas com a naturalidade e o lirismo sobre o qual Egito Gonçalves edificou toda a sua obra. É quase como se houvesse uma espécie de ternura pela própria morte, precisamente porque esta é aceite como ponto essencial e natural da vida. E a cidade existe no livro como testemunha de todo um percurso e será talvez essa a razão que me leva a colocar este livro no topo dos livros de Egito Gonçalves: a noção de como a cidade enquanto organismo vivo e de algum modo intemporal é o espelho da vida. A mesma cidade em que lemos Egito Gonçalves e os amigos a ir ao Rivoli ou a brincar no Jardim da Cordoaria é a mesma cidade em que, no último poema, inacabado, o poeta sente as árvores dançando ao vento e onde vê o "copo de crepúsculo" que se interpõe entre ele e a sua morte.
Retomando o início deste texto, foram raros os poetas que tiveram a felicidade de se despedir. Egito Gonçalves foi um desses raros poetas. E despede-se, afirmo-o, com uma beleza e uma lucidez tão implacáveis que nos deixa verdadeiramente atónitos, ficamos nós mesmos frágeis e expostos à morte. A poesia que deve, segundo muitos que eu apoio, ser um murro no estômago. E o último poema de Egito Gonçalves é sem sombra de dúvida o derradeiro murro no estômago. E é também o final avassalador que a obra poética de Egito Gonçalves merecia.








Podem (E devem.) ler o poema em questão aqui

Notícias do Bloqueio



Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se






Egito Gonçalves
A Viagem com o Teu Rosto
1958 edição Europa-América
imagem de Félix Labisse

domingo, 7 de março de 2010

e ainda sobre a Björk, estes momentos também me emocionaram, por motivos evidentemente diferentes


a entrada em palco no Sudoeste 2008 com "Earth Intruders" e outros momentos, como "Hunter"


ou "Pagan Poetry"


e por falar em Björk, lembro-me perfeitamente que chorei a primeira vez que vi esta cena

"I´ve Seen It All" do filme "Dancer In The Dark" de Lars Von Trier

morreu Lee Alexander McQueen

o realizador deste, entre outros vídeos de Björk

´
r.i.p.

Islas Lípari




La escama de una sirena puede cegarnos de tristeza
y una estrella de mar adormecernos para siempre,
bien lo dijo aquel loco de Porto Levante
cuando en la piel se traía los lentos oros de la tarde.
Isola Vulcano é un peeto addormentato, caro “itagnolo”.
Nadie como él conocía las estrategias del cangrejo
ni los valses secretos para hipnotizar al demonio.
Mordía las cenizas de un té confuso buscando puerta
a los indicios (más de una vez lo vimos auscultar
basaltos bajos las quietas acequias del cielo).
En la hora lábil de las alas y las áncoras,
cuando ya el mar ardía con el fuego de las distancias,
su carne de lapa tatuada abrió los círculos del ron
y crujió en el idioma de los naufragios, diciendo:
Peto addormentato, certo; ma peto di un dio.


Jesus Jiménez Dominguez
Diario de la Anemia/Fermentaciones
2000, ed. Olifante
imagem de Ana Hatherly

As Mães (IV)



Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.

Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.

Assim como chegou
assim partiu.

Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
ed. Asa, 2002 (esgotado)
desenho de Sadsamson

O Anjo sem Sorte



O ANJO SEM SORTE. Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.




Heiner Muller
(trad. João Barrento)
O Anjo do Desespero
edição portuguesa, Relógio d´Água, 1997
desenho de Sadsamson a partir de uma fotografia de Garrett Neff

sábado, 6 de março de 2010

já está cá fora

Heligoland dos Massive Attack. Tem esta capa



e este vídeo de lançamento: "Paradise Circus" com a voz de Hope Sandoval.

O Anjo do Desespero



Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.





Heiner Muller
(trad. João Barrento)
O Anjo do Desespero
ed. portuguesa Relógio d´Água, 1997
imagem: Graça Martins

quinta-feira, 4 de março de 2010

Joaquim Manuel Magalhães: Um Toldo Vermelho

COMO DESTRUÍR UMA GRANDE OBRA EM MENOS DE 200 PÁGINAS

Que Joaquim Manuel Magalhães ande de candeias às avessas com a própria obra poética não constitui novidade. Já em 1981 veio declarar excluída toda a sua produção desde 1970. Reescreveu os poemas, deu-lhes novas roupagens, fez inúmeros cortes, resultado “Alguns Livros Reunidos”, um livro onde apresenta as, em princípio, definitivas versões dos seus anteriores poemas. A edição, esgotada, foi depois reeditada pela Relógio d´Água em 2001. Outros livros, entretanto, iam sendo publicados, a maioria na colecção Forma da editorial Presença, e, ao que parece, iam construindo uma nova obra sobre alicerces renovados. Quando tudo parece ter corrido bem, nomeadamente com o livro “Uma Luz com Um Toldo Vermelho”, Magalhães anuncia um novo livro, “Um Toldo Vermelho” em que reunirá toda a sua obra.
Dado à estampa ainda esta semana, “Um Toldo Vermelho”, edição da Relógio d´Água, tem numa das últimas páginas esta alarmante nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.” Mas não estamos, afinal, perante uma poesia reunida. É um manual que explica, capítulo a capítulo, como destruir uma grande obra em menos de 200 páginas.
Ainda que o livro faça alusão a livros passados (Caso de “Envelope”, “Alta Noite em Alta Fraga” e “Segredos, Sebes, Aluviões”- que passa a “Segredo, Sebe, Aluvião”.), qualquer semelhança a qualquer um desses livros é pura coincidência.




“Um Toldo Vermelho” começa, logo nos primeiros poemas, por se mover contra os princípios críticos que o próprio Joaquim Manuel Magalhães há tanto tempo anda a alarviar. São pequenos poemas, quase haikus, anti-discursivos, e, em boa parte, inconsequentes (Alguns fazem lembrar levemente uma página de agenda.). Além disso, como João Luís Barreto Guimarães muito bem viu, é difícil ler estes poemas, pelo menos os iniciais, sem pensar nos tiques do Poesia61, esse happening que, a julgar pela crítica de Magalhães, terá sido do pior que aconteceu à literatura portuguesa.
Mais ainda, a poesia de Joaquim Manuel Magalhães sempre se mostrou altamente original, com ecos muito longínquos apenas. Ao ler este livro, é difícil não pensar em outros autores.
Por exemplo, num poema como este

A manzilla
adquire um toque suicida.
A goela vomita ressaca,
evaporou uma cúpula de linho,
o café um algar telegráfico,
subvertes a sucata submersa
da colecção
(pag. 87)

ou este

Fiada ficava/ hirta, imperativa
hipnótica sirga/ siena carcomido (…)
(pag.89)

é difícil não pensar nos poemas de Fátima Maldonado, primeiro pelo ritmo corrido, e depois pelo léxico que é, nessa poeta em específico, muito demarcado. Ou então num dos poemas inciais, onde lemos

O voo da ampola
na reflexão de um aro,
batalha.

Pêndulo,
tarefa laqueada.
Fossil o ardil em dualidade
(pag. 12)

facilmente nos ocorre a fase inicial de Maria Teresa Horta, profundamente simbólica e enumerativa.
Nalguns casos, também, fica-se com a sensação de se estar a ler um Herberto Helder sem fôlego, algo que relembra um pouco Jorge Melícias, por exemplo aqui

A nortada no alcantil.

Do areal ao campo lavrado
alimenta-se de larva de besouro.

Ao relento catos e o tojo
dobram
e a viseira domina.

O bálsamo,
o inóquo equilíbrio do ar.

Planta migratória,
aí o fuselo pousará.
(pag. 131)

O primeiro dos casos que referi, da página 87, é também exemplo de algo que acontece com frequência neste “Um Toldo Vermelho”: a destruição completa de poemas brutais que estavam em livros anteriores, neste caso, Maig de “Uma Luz Com Um Toldo Vermelho”.
Serve-me esse poema também para referir outro dos aspectos que mais decepciona nesta poesia reunida: o corte de toda e qualquer pulsão erótica. Se falássemos, antes deste livro, de poesia erótica em Portugal, dois nomes eram obrigatórios: o de Joaquim Manuel Magalhães (Numa perspectiva homo-erótica.) e o de Maria Teresa Horta. Depois deste livro, a grande poesia erótica portuguesa é a de Maria Teresa Hora.




A leitura destas quase duzentas páginas não pode senão deixar um travo muito azedo na boca.
É evidente que todos, incluindo Joaquim Manuel Magalhães, sabemos que por ele ter renegado toda a sua anterior obra não signifique que ela deixe de existir. Há livros ainda disponíveis na Presença e na Relógio d´Água e, quanto mais não seja, na BNP ou na Gulbenkian. E claro que o poeta, qualquer poeta, é livre de fazer da sua obra o que quiser, mesmo que seja reduzi-la a lixo, como é o caso. Valham-nos esses livros antigos de Joaquim Manuel Magalhães para o ter como referência, porque, se nos basearmos somente neste, está ao nível de qualquer candidato medíocre a poeta.
Na minha opinião o realmente grave, mesmo assim, é que Joaquim Manuel Magalhães tenha vindo retirar a sua obra poética que era, inegavelmente, uma das mais assinaláveis entre nós, em vez de retirar, por exemplo, todos os disparates críticos que tem vindo a vomitar ao longo dos anos. E à luz deste “Toldo Vermelho”, a primeira coisa a fazer seria enaltecer nomes como o de Fiama, Gastão Cruz, Teresa Horta, entre outros, que realmente agora surgem nas entrelinhas de um poeta que já uma vez foi grande.
Por outro lado, quem sabe se Joaquim Manuel Magalhães não estará a tentar ser um novo Herberto Helder ao, renegando todas as obras, inflaccionar os preços dos seus anteriores livros. Como diz uma sábia amiga minha, "sabe-se lá o que vai na cabeça de uma pessoa...."

José Saramago: Caim

A REDENÇÃO DO ASSASSINO

“Caim”, o mais recente romance de José Saramago não podia ter sido mais aproveitado pelos media, tendo, por muitos, sido inclusivamente recebido com uma estranha surpresa. O que acho estranho. Para ser mais imediato, poderia referir o romance publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” como romance de heresia, mas ao longo da bibliografia de Saramago, livro a livro, é frequente que este se manifeste claramente contra o catolicismo e, em última análise, contra a própria figura de deus.
É-me então difícil perceber o escândalo gerado por “Caim”. Escândalo maior foi, para mim, que no dia seguinte ao seu lançamento, o livro estivesse já a ser alvo de todos os ataques e todas as considerações, dado que, penso, um dia não será suficiente para ler, ou ler plenamente, este ou outro romance.

Outra questão que importa referir ao falar de “Caim” é a de todo o jogo de ataques e contra-ataques que o romance gerou.
Em entrevistas e depoimentos, o Nobel refere a bíblia como “um manual de maus costumes e um catálogo da crueldade”. Ora e isto, que poderia surgir como uma pequena observação da parte de José Saramago é, na verdade, uma das maiores matrizes de “Caim”.
Caim, assassino de seu irmão, e condenado por deus (Ou o senhor.) à errância durante toda a sua vida é, claramente, personagem central deste romance, mas não é a sua errância, o seu percurso, o verdadeiro tema deste romance.
A errância que José Saramago atribui a Caim é mais uma passagem pelos momentos bíblicos que, de facto, sustentam a ideia do “manual de maus costumes e catálogo da crueldade”. Por assim dizer, este é um romance principalmente argumentativo, onde Saramago prova, por A+B, e com toda a eficácia, essa sua opinião (Que, acrescento a título pessoal, corroboro por inteiro.).
Caim inicia o seu percurso nas terras de Nod, onde se envolve com Lilith, mas passa pela Torre de Babel depois desta ter ruído, presencia o quase sacrifício de Isaac por seu pai Abraão, a destruição de Sodoma e Gomorra, a desgraça de Job, etc.
Neste último caso, Job, homem próspero e fidelíssimo a deus, é vítima de todas as possíveis desgraças, impingidas por Satã na consequência de uma aposta com deus. A Torre de Babel foi destruída por deus para que os homens não pudessem atingir o céu. Abraão sacrificaria o seu filho para provar a sua fé em deus.
No particular caso de Job, intervém a figura de Satanás. E aí, Saramago não o coloca como antítese de deus, antes como um servo insubordinado.
Porque, ao longo de “Caim”, o verdadeiro antagonista de deus não é outro senão Caim. É Caim quem, na verdade, vê o suficiente para poder duvidar de deus, ou do conceito normalizado de deus. É Caim quem, em último caso, confronta deus com a sua crueldade, a sua frieza e a sua natureza megalómana e totalitária. Ou seja, uma natureza de ditador.
Mais ainda, Caim é confrontado com a duplicidade da sua relação com deus: que pacto foi este entre os dois, em que deus lhe diz que estará condenado a errar enquanto viver, mas que ninguém lhe fará mal, pois estará protegido pela marca negra na testa?
O deus que Saramago nos apresenta não é, pois, uma concepção gratuitamente análoga daquela que a sociedade em geral tem dele. Essa analogia é, efectivamente, muito bem sustentada: deus é um ser confuso (Por exemplo no seu pacto com Caim.), sedento de poder (Por exemplo, a conquista de Jericó) e de provas dele (O sacrifício de Isaac.), pouco inteligente por vezes (Ordenando a Noé que construísse a sua arca num vale, longe de água, onde, logo que viesse o dilúvio, a arca de afundaria.), e, acima de tudo, não é todo poderoso. Neste último aspecto, Saramago utiliza a história de que, na batalha contra os amorreus, deus fez o sol (Ou a Terra.) parar para perpetuar o dia e manter a batalha. Vale a pena reproduzir um excerto da conversa do senhor com Josué:
“Não posso fazer parar o sol porque parado já está ele (…) Algo se move realmente, mas não é o sol, é a terra. A terra está parada, senhor, disse Josué (…) se assim é, manda parar a terra, que seja o sol a parar ou que pare a terra, a mim é-me indiferente desde que possa acabar com os amorreus. Se eu fizesse parar a terra, não acabariam só os amorreus, acabava-se o mundo (…) Pensei que o funcionamento da máquina do mundo dependesse apenas da tua vontade, senhor, Já demasiado eu a venho excedendo (…) é que a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direito aos fins, há que rodear (…)" [pág.124-125]
Na última das suas sequências, a que corresponde à arca de Noé, é que definitivamente “Caim” retira de Satã o peso do anti-cristo e a coloca sobre Caim, sendo este que, verdadeiramente, faz frente a deus e aos seus desígnios. No fundo, Caim, o assassino de seu irmão, acaba por perceber a insignificância do seu acto, face aos actos daquele que o castigou pelo seu crime.
Em última análise, mostra que deus não tem sequer poder sobre os actos dos homens, e muito menos conhecimento do futuro ou do destino, caso contrário, a condenação natural do Caim de Saramago teria sido a sua morte, e não a errância pelo tempo.


Como romance, “Caim” não desilude, mantendo-se dentro do ciclo restrito das melhores obras de José Saramago. Por um lado, alude à fase histórica dos romances iniciais (Como sejam “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.), mas, pelo tratamento que dá à história, mostra-se também muito próximo dos romances pós-modernos (Em que poderíamos incluir “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Ensaio Sobre a Lucidez” ou “As Intermitências da Morte”.), dado o desenrolar praticamente livre de historicismos do romance, acrescido ainda de uma vertente altamente filosófica (Que poderemos reconhecer em “Todos Os Nomes” ou “O Homem Duplicado”.) que é toda a relação directa ou indirecta entre Caim e o senhor nos vários episódios do romance.
A única falha possível neste livro, será a diferença entre a premissa prometida pelo título, que nos relatasse a errância verdadeira de Caim, e “descambar” para uma errância conduzida por José Saramago. O que não tem que ser defeito, e, neste caso, resulta até bastante melhor.
De qualquer forma, a visão fria e crua de José Saramago sobre a bíblia, vem confirmar uma frase que Woody Allen escreveu há uns anos “Se deus existe, é melhor que tenha uma boa desculpa”.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

um poema de Regina Guimarães que aqui deixo para o Diogo



Fui expulsa da casa do mundo
por um irmão desconhecido.
Vendou-me os olhos e levou-me
à saída de todas as saídas.
Nunca mais achei o caminho
do meu claro quarto crescente
onde se nascia todo o dia.
Só me lembro de nascer, nascer, nascer
como uma labareda a pão e água.




Regina Guimarães
Tutta
1994, ed. Felício e Cabral

imagem: Inês d´Orey

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Sótão do Nómada (um fragmento)

Uns quantos caixotes. De cartão. Alguns cobertos por lençóis. Alguns lençóis já afastados dos caixotes que tapavam. Já estive aqui. Já, antes, abri algum deles, procurei alguma coisa. Das casas.
As coisas das casas têm vindo parar ao sótão desta casa que já não habito. E enquanto for assim quase nómada, terão que aqui ficar. Dentro dos caixotes. Sob os lençóis mais puídos que fui encontrando.
Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas. Sorriso irónico. Não podia ter escolhido melhor altura para rever as coisas das casas do que esta, em que as coisas que das casas não podem ser empacotadas começam a partir, a partir-se. As que estão empacotadas desenterram ao serem desenterradas muitas das outras coisas e tenho saudades de cada uma das casas.

um poema



Nos apegamos demasiado a los hombres
esas criaturas bidimensionales e inocentes
a su piel
adherente como una tela de araña.

Me quedaria allí hasta que no dejase nada de mí
Nada.

hasta que empezamos a pesarles
como si de pronto engordásemos.
Entonces nos preguntamos
qué pasó y
cuándo.
Inevitablemente nos ponemos
éticas patétias pelenpéticas
pesadas peludas pelenpudas
nos salen canas arrugas
caries estrias verrugas
la sangre no circula.
Nos explotan por dentro.
Se llevan nuestra piel pegada a tiras
y en sus manos algún órgano fácil de vender.

En realidad no saben lo que hacen
solo quieren liberarse de la carga.







Miriam Reyes
Espejo Negro
2001- dvd ediciones
imagem de Francis Bacon

Questões de Idade

à Xana


Para quem acha que chegar aos cinquenta é estar velho, a música parece ser contraditória. Segue-se uma selecção de algumas das "tias" que já dobraram os cinquenta e ainda aí estão bem vivas. Para constituir uma família feliz, pelo menos em termos musicais.

Tia Madonna

Aos cinquenta ainda canta, ainda dança e ainda é assim. Para quê pedir mais?

Tia Glória

Depois das primeiras latinadas muito desagradáveis, a tia Gloria Estefan fez este disco chamado "Unwrapped" que tem este "Wrapped", onde vai mais a fundo nas suas raízes para uma sonoridade mais madura. Melhor aos cinquentas do que aos trintas.

Tia Joni

Desde os tempos em que recusava ir ao Woodstock para ir à televisão, até ao mais recente "Shine", a tia Joni Mitchell não parou de fazer músicas como este "If I Had a Heart".

Tia Stevie

Dos Fleetwood Mac até às Divas Las Vegas, com as sobrinhas, Dixie Chics, que não seriam a minha primeira escolha... a tia Stevie canta ainda, e as pessoas ainda aplaudem de pé quando ela entra.

Tia Marianne

Já depois de Mick Jagger e dos problemas com as drogas, a tia Marianne junta-se à prima PJ Harvey, e faz o seu melhor álbum, "Before The Poison", de onde vem este "The Mystery of Love".

Tia Annie

De cantar e compor músicas excelentes como este "Sing" até à ajuda humanitária, desde os idos tempos dos Eurythmics até uma sólida carreira a solo, a tia Annie Lennox cá está para mostrar que a sua voz é ainda ouvida.

Tia Ute

Alemã de nascença, a tia Ute é uma veterana do cabaret. Desde os clássicos de Kurt Weill e Bertolt Brecht, que nunca abandona, até ao mais recente "Punishing Kiss" onde canta originais compostos para ela por Nick Cave, Phillip Glass, Tom Waits e os Divine Comedy, esta tia é a prova de que chegar aos cinquenta não é parar de se divertir. Acima, "The Case Continues".

uma canção para quem como eu

Annie Lennox, A Thousand Beautiful Things

searching for water in this desert

último poema de Egito Gonçalves, incompleto e sem título




Entre mim e a minha morte
há ainda um copo de crepúsculo.
Talvez pequenas coisas
ainda respirem, não as distingo,
há uma névoa que me mantém na sombra.
Sei que lá fora as árvores
dançam ao vento, o que perdem
no outono ganham na primavera.
Nós vamos deixando pelo caminho
os farrapos da pele


Egito Gonçalves
Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda Um Copo de Crepúsculo
2006, edição Campo das Letras
aguarela de António Cruz

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Agustina tem destas coisas 10

O princípio do prazer buscava ancorar em novos símbolos o que era, por si só, um caminho de histeria.







de A Alma dos Ricos

Agustina tem destas coisas 9

Os bons rapazes são muito difíceis de corrigir, senão impossíveis. Quando fazem uma asneira não escondem como os outros e tiram qualquer proveito, nem que seja só a protecção de uma tia.





de A Alma dos Ricos

Agustina tem destas coisas 8

Se a lei fosse testemunho da verdade, Cristo não teria que fazer na Terra.





de O Mistério da Légua da Póvoa

Agustina tem destas coisas 7

Porque é que as mulheres gostam dos criados? Naturalmente, porque os homens não preferem as loiras, exactamente, mas as criadas. Perceptores, professores de música, cavalariços, caíram nas boas graças de aristocratas com quem partilhavam não só os prazeres mas essa felicidade de palheiro que só é dada por um completo desprendimento, essa formosura da paz que está na reciprocidade de vontades. Enquanto o homem emprenhava a criada e fazia uma espécie de contrato matrimonial com a secretária, sempre sem perder de vista a sociedade e as suas barreiras, com a mulher é diferente. Ela ama o criado, como Rebeca amou Jacob, pelo que vale como estrangeiro, alguém de fora que jamais será um vínculo de família, que combaterá o incesto que o sangue reclama.




de O Mistério da Légua da Póvoa

Agustina tem destas coisas 6

_Escuta, minha filha: está na moda andar despenteada mas não carregar com a culpa.




de A Jóia de Família

Agustina tem destas coisas 5

_Pode perguntar- disse Vanessa, servindo-se simbolicamente de um pouco de doce.- Mas previno-a que eu minto a respeito da idade. Não sou tão emancipada que diga toda a verdade.
António riu-se totalmente. Ria-se sempre totalmente quando Vanessa falava com aquela segurança. Rutinha pensou que, provavelmente, António tinha medo dela. O que mais a assustou foi que Vanessa lhe chamasse Tony. Afinal, não tinha modos, nem cultura, só tinha expedientes. Mas isso estava a alastrar pela vinha do Senhor, que era a sociedade inteira.



de A Jóia de Família

mudanças imprevisíveis 4: Avril Lavigne

como é que se vai do pseudo-rock pseudo-deprimido muito adolescente que soa mais ou menos sempre assim



para esta piroseira adolescente cheia de ancas a abanar, assim



em termos sonoros foi sempre mau, mas a atitude muda muito estranhamente. não consegui, até à data decidir qual das duas poses é mais irritante.

mudanças imprevisíveis 3: Delta Goodrem

como se passa de coisas até bonitas destas



a vómitos destes



outra mudança para pior. para bastante pior

mudanças imprevisíveis 2: Christina Aguilera

como é que se passa de coisas pirosas destas



a coisas mais interessantes como estas



claramente, o crescimento é positivo

mudanças imprevisíveis 1: Nelly Furtado

como é que se chega de coisas boas assim



a coisas absolutamente estúpidas assim



a mudança aqui é para pior. definitivamente

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sansão e Dalila

(17) Sansão acabou por lhe descobrir o seu segredo: "Sobre a minha cabeça, disse ele, nunca passou a navalha, porque sou nazarita de Deus desde o ventre de minha mãe. Se me fôr rapada a cabeça, perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem."
(19) Dalila, fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos, chamou um homem, que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. Ela começou a dominá-lo, pois a sua força deixou-o.
(21) Os filisteus, domando-o, tiraram-lhe os olhos (...)
(22) Entretanto, os seus cabelos recomeçaram a crescer.
(25) E estando eles de coração alegre, exclamaram: "Mandai vir Sansão para nos divertir!" Tiraram-no da prisão, e Sansão foi para eles objecto de divertimento. E obrigaram-no a ficar de pé entre as colunas.
(28) Sansão porém invocando o Senhor disse: "Senhor Deus! Lembra-te de mim e restitui-me agora, ó meu Deus, a minha antiga força para vingar-me (...)"
(29) E agarrando então as duas colunas centrais sobre as quais repousava todo o edifício, pegou numa com a mão direita e noutra com a mão esquerda e gritou:
(30) "Morra eu com todos os filisteus"! Dizendo isto, sacudiu fortemente o edifício, que ruíu sobre os prínicipes e sobre todo o povo reunido. Desse modo, Sansão matou na sua morte muitos mais homens do que antes matara em toda a sua vida.
Livro dos Juízes, cap. 16

Sansão e Dalila

gravura do século XV


por Lucas Cranach, o Velho


por Rembrandt




por Peter Paul Rubens

um fragmento sobre a imortalidade



Era preciso prevenir as pessoas destas coisas. Ensinar-lhes que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que ainda acontece. Que não se anuncia como tal, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que existe no pormenor, mas apenas no princípio.
(...)
Que a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, que não é uma questão de imortalidade, que é questão de outra coisa que permanece ignorada.


Marguerite Duras
"O Amante"
imagem: Carla Gonçalves

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

There Is a Ghost

a beleza destas palavras da "tia" Marianne impressiona-me. A música, composta com Hall Willner também.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Perante os Tribunais



somos novatos
como os faunos de granito na pia baptismal
parto ilumindo em que as trincheiras da neblina apertam a fivela prateada
in memoriam.
a disparar tiros do continente esperamos desespero detonações,
galgos negros hirtos
delineandio a serena silhueta orelhas vrdes foliformes e verbosas.
à-beira mar imperturbáveis báculos abandonados na areia
paisagem, pai singular.
o zoom da cinza é uma nódoa de gordura sob um pálio de cetim rosa saloio.
no painel a aromática careta do bagaço
no painel de seda pôr a mão à transparência
pôr a mão na boca de todas as feras.

gótica braguilha da noite
as mulas ácidas no sorriso da lua.
vírus que eu acalento transportada.

como pelo esquecimento.

Regina Guimarães
(Corbe)
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Helastre
imagem: Paula Rego

Um poema



La vue est le sens de l´illusion
on ne voit jamais si bien que paupières baissées
en rêve
Les yeux sont les organes du chagrin
un oeil ouvert ne sert qu´à pleurer
Vivre les yeux bandés





Saguenail
Le Peu de Chose
ed. Helastre, 2009
imagem: Edvard Munch

domingo, 7 de fevereiro de 2010

12 de Fevereiro, às 22 horas

na Cooperativa Gesto, Porto, será lançado um novo livro de Saguenail, "Déchanter/Abyme", com a chancela da Hélastre, que, este ano já nos presenteou com várias obras do mesmo autor, e ainda três novos livros de Regina Guimarães.
Além do lançamento do livro, será exibido o filme de ambos, "Nus Dans La Cage d´Escaliers", de onde foi retirada a seguinte imagem:

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

morreu ontem

Rosa Lobato de Faria


actriz que se dividiu entre o teatro, a televisão e o cinema, escreveu ainda um punhado de romances que merecem definitivamente uma leitura, em particular "O Pranto de Lúcifer", editado pela Asa em 1995.
Na escrita de canções, foi inúmeras vezes autora de canções do Festival da Canção, bem como de muitas das melhores letras já cantadas por Mísia.
A sua poesia, compendiada no volume "Poemas Escolhidos e Dispersos" recentemente reeditado pela Roma Editores, conta pelo menos dois livros de grande interesse- "Os Deuses de Pedra" (1983) e "As Pequenas Palavras" (1987), ambos editados originalmente na colecção Poesia e Verdade da Guimarães editores- ainda que outros, como "Memória do Corpo" (1991) se revelem mais mediocres.
De "As Pequenas Palavras" relembro este poema:




Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão
do teu nascimento tranquilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

videos que me fazem rir (terceira leva): Justin Timberlake, Cry me a River

Mais um vídeo cheio de sentido. O Justin descobre que a namorada o anda a traír e o que faz? Sai do carro debaixo de uma chuva torrencial, parte um vidro com uma pedra e demora uma eternidade a entrar, enquanto se molha mas não muito, anda pela casa num atletismo surrealista, a saltar em cima dos móveis, como se as solas dos ténis não escorregassem por causa da chuva, chama uma prostituta e grava um vídeo de vingança, algo que, parece-me, já está um bocado demodé e depois, anda a correr, em espírito, atrás da namorada, não se percebe se para a impedir de ver o vídeo por arrependimento, ou se pelo puro prazer de a perseguir. Seja como fôr, não faz muito sentido, nem parece minimamente natural.

A sorte dele é que se veste bem.

videos que me fazem rir (terceira leva): Christina Aguilera, Genie In a Bottle

Numa de vídeos coerentes, este clássico de Christina Aguilera veio-me à memória como as hormonas dela nesta música, "at the speed of light". Essa descrição está na música, não inventei.

Aparentemente, a Christina arrepende-se mais desta música do que o Joaquim Manuel Magalhães dos seus primeiros dez anos de produção. Com razão, pelo menos no caso dela. Tanta conversa sobre as reservas em perder a virgindade, ainda por cima, é um tanto contrariada pelas imagens do videoclip.

Por um lado ela diz "that don´t mean I´m gonna give it away", enquanto está deitada numa pose bastante lânguida, e os seios dela parecem querer fugir ao controlo da dona. Depois, para quem quer manter o himen no seu lugar, dar uma grande festa com moços excitados numa casa onde se está apenas com as amigas também não deve ser grande ideia. E é-o menos ainda quando se está naquela exibição de dança a sussurrar coisas como "I´m a genie in a bottle, you gotta rub me the right way".

Quem diria que uns anos depois, ela estava no "Stripped", a fazer coisas com interesse? Eu não diria, de certeza.

videos que me fazem rir (terceira leva): Jennifer Love Hewitt, Can I Go Now

Jennifer Love Hewitt era conhecida por ser actriz, em filmes como "Sei o Que Fizeste no Verão Passado", mistura de filme de terror com o Capitão Gancho do Peter Pan. Neste vídeo, que marca a sua incursão falhada no mundo da música, é estranho pensar que a rapariga canta melhor do que representa, e que mesmo assim não canta nada de especial.

A coerência também não é um ponto forte deste videoclip. A rapariga está decidida a sair de casa, mas depois salta para a banheira enquanto o namorado toma banho. O chá fumega mais que as florestas portuguesas no verão... Algo aqui não bate muito certo.

Por estas e por outras é que esta Jennifer está melhor a atravessar almas para a luz, naquela série da FoxLife, Ghost Whisperer.

videos que me fazem rir (terceira leva): J.Lo, If You Had My Love

quem vê a Jenny a queixar-se dos paparazzi e dos voyeurs no vídeo de "Jenny from The Block", nem acredita que, uns anos antes, ela tinha este verdadeiro elogio do voyeurismo. Que foi aliás, o vídeo que a deu a conhecer ao mundo. Numa observação atenta, reparei que o sujeito que a espreita pelo PC é, na realidade, o Adam Rodriguez, que é o Eric Delko em CSI-Miami. Portanto, há duas explicações lógicas:

a) a Jenny não gosta de ser espiada por jornalistas, mas se forem investigadores forenses já não se importa.

b) a Jenny está indiciada nalgum crime, e o Adam Rodriguez está a espiá-la sob as ordens do Horacio Caine...

videos que me fazem rir (terceira leva): Nelly Furtado, Say It Right

juro que não tenho nada contra "a nossa querida Nellinha". Até sou simpatizante do "Folklore". Mas a verdade é que em "Loose" não só predominam canções demasiado fáceis, como os vídeos estúpidos parecem ser também uma regra incontornável. As cenas com os bailarinos, por previsíveis que sejam, sempre poderiam resultar. Mas esta experimentação de aspectos visuais, nem o Melo e Castro conseguia, e aquela cena de estar a dançar numa ponte prestes a ser atropelada também resulta algo parvinha. Como se isto não chegasse, ainda há uma pista de helicóptero com o nome da menina, escrito naquele grafismo habitual que realmente não resulta particularmente bem... enfim... say it right, make it wrong

O Beijo de Antikonie (II)



De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
1979- edições Dom Quixote


imagem: Helena Almeida, Pintura Habitada

domingo, 24 de janeiro de 2010

já faltou mais...

zombie

salvation

linger (o clássico)

zombie (versão unplugged)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Rosa Alice Branco

venceu há alguns meses com "O Gado do Senhor" o Prémio de Poesia Espiral Maior, em Espanha. O livro, a ser editado no país vizinho na colecção Espiral Maior será brevemente comercializado em Portugal. Em todo o caso, no vídeo acima, a poeta lê o primeiro poema do conjunto ainda inédito entre nós.

António Lobo Antunes

sobre "O Arquipélago da Insónia"

"Sinais de Fogo" de Jorge de Sena






documentário exibido na RTP2.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

numa de revivalismos

Sete Palmos de Terra

segunda época- "Heaven", Lamb

terceira época- "A Rush Of Blood To The Head", Coldplay

quarta época- "Feelin Good", Nina Simone

quinta época: "Breathe Me", Sia Furler

algumas cenas, com "Don´t Bring Me Down" de Sia

série de Allan Ball

com Peter Krause, Michael C. Hall, Frances Conroy, Lauren Ambrose, Rachel Griffiths, Matthew St. Patrick, Jeremy Sisto, Joana Cassidy, James Cromwell, Tina Holmes... etc

e por falar no assunto...

Lamb- Gorecki

Joni Mitchell- Tin Angel

Varnished weeds in window jars
Tarnished beads on tapestries
Kept in satin boxes are
Reflections of love's memories
Letters from across the seas
Roses dipped in sealing wax
Valentines and maple leaves
Tucked into a paperback
Guess I'll throw them all away
I found someone to love today

Dark with darker moods is he
Not a golden Prince who's come
Through columbines and wizardry
To talk of castles in the sun
Still I'll take a chance and say
I found someone to love today

There's a sorrow in his eyes
Like the angel made of tin
What will happen if I try
To place another heart in him
In a Bleeker Street cafe
I found someone to love today
I found someone to love today

covers destas... valem mesmo a pena

Lou Rhodes canta "Tin Angel", de Joni Mitchell

no barroco, as freiras a escrever até pontuavam... (4)


Tenho amor, sem ter amores
Tenho amor, sem ter amores.

Este mal que não tem cura,
Este bem que me arrebata,
Este rigor que me mata,
Esta entendida loucura
É mal e é bem que me apura;
Se equivocando os rigores
Da fortuna aos desfavores,
É remédio em caso tal
Dar por resposta ao meu mal:
Tenho amor, sem ter amores.

É fogo, é incêndio, é raio,
Este, que em penosa calma,
Sendo do meu peito alma,
De minha vida é desmaio:
É pois em moral ensaio
Da dor padeço os rigores,
Pergunta em tristes clamores
A causa minha aflição,
Respondeu o coração:
Tenho amor, sem ter amores.

Soror Madalena da Glória
Brados do Desengano Contra o Profundo Sono do Esquecimento
imagem: Paul Gauguin, "Nevermore"

Meditação sobre livros em segunda mão

Há poucos dias consegui um livro daqueles que sempre achei que morreria sem encontrar. O facto é que encontrei, aos 19 anos de idade. E claro que me custou os olhos da cara (Para não usar outras expressões mais cómicas mas também mais "ordinárias".), mas tive uma epifania como há muito não tinha.
Gostava de esclarecer, já que estou numa de desabafos, que não me considero coleccionador. Neste sentido: não persigo edições, ou a edição pela edição. Quando muito, a edição pelo autor, se o apreciar muito. Mesmo que quisesse perseguir a edição pela edição, não tenho dinheiro para isso, e, num raio mínimo de seis anos (Quando terminar o curso.) não estou a ver-me tê-lo, já que nem jogo no Euromilhões e só uma vez, aos seis anos, encontrei dinheiro na rua (E mesmo assim, eram quinhentos escudos, apenas.). Além disso, mesmo passado o curso, nada me diz que tenha dinheiro para ser coleccionador. Por isso, mais vale não acalentar expectativas nesse sentido.
De qualquer forma, passado algum tempo, comecei a pensar qual o motivo que tinha levado uma pessoa qualquer a vender um livro assim. E só me visitaram duas opções: morte ou bancarrota.
E as duas opções significam, acima de tudo, desgraça.
De facto, e era essa a minha meditação essencial, o negócio dos livros (Em segunda mão, evidentemente, não me refiro a livros normais.) vive da desgraça de muita gente. Será a ordem natural das coisas? Possivelmente. Um indivíduo passa a vida inteira a arrecadar livros, até que um dia, ou morre ou fica sem dinheiro, e os livros aparecem a preços entre o moderado e o astronómico, num alfarrabista, até que alguém os compra, para mais tarde regressarem a alguma banca de alfarrabista, porque o segundo comprador também morreu ou também faliu.
Assim, a morte e a bancarrota de uns é a alegria de outros (E por vezes também a bancarrota de outros, como quase era o meu caso, agora.).
Hoje, por exemplo, estava com esse livro na mão, e dei por mim a pensar em quem teria sido o dono dele, antes de mim. A única indicação era uma etiqueta cor-de-laranja de uma livraria em Braga, com número de telefone, número esse que tem quatro dígitos. Interessante.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

hoje isto está muito à vista

Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.

Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas
2002, edições quasi

agustina tem destas coisas 4

Comporta-se como um príncipe, o que está fora de moda.



(de Um Cão que Sonha)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

ano novo vida nova

mas a vida nova continua a velha

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

No barroco as freiras a escrever até pontuavam... (3)



É ciúmes a Cidra.
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que picos e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Sidrach foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos!

Soror Maria do Céu
Enganos do Bosque, Desenganos do Rio em Que a Alma Entra Perdida e Sai Desenganada
Lisboa, 1736
imagem: Robert Mapplethorpe

Depois da letra, o vídeo. Com música e tudo

Maria Rita: Conta Outra

Um Fado



Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras.




Fátima Maldonado
A Urna no Deserto
1989- frenesi
imaegem: Nan Goldin

porque a música é um luxo



Sade: "Lovers Live"- Cherish The Day, Smooth Operator e Like Paradise

os vídeos de abnormally attracted to sin

give


strong black vine


that guy

mary jane


police me


starling


fast horse

perante uma música assim, quase se admite a hipótese de deus

"I´ve Got To See You Again" da adorável Norah Jones. E do longínquo "Come Away With Me". Ao genial Jesse Harris devemos a letra e a música, ambas impressionantes.

When Gone Is The Glory



When gone is the glory
When gone is the fame
When gone is the name
And your left with yourself

U look in the mirror
To search your face
To remember who you are
Who you ever were

When gone is the glory
When gone is the shine
Is gone the whole
Of your future and pride?

U look all around
In search for a friend
That no longer stands
Till the bitter end

When gone is the glory
When gone is the sun
When gone is the name
Then what have you won?

Heartache and pain
Of what could have been
Only you know the truth
Of what is within

When gone is the praise
When gone is the fun
Is gone the worth
Of what you´ve become?

When I am alone
At the end of this story
How does it feel
When gone is the glory?

Alicia Keys
letra s/ música, publicada no booklet de
"The Diary Of Alicia Keys" 2003

imagem: Rute Rosas- Faço de Conta Que És Tu