"Diamonds Are Forever"
terça-feira, 6 de abril de 2010
Covers do Outro Mundo: Kylie Minogue por Tori Amos
"Can´t Get You Out Of My Head"
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A (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra - é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto - o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o ventoa frágil força do corpo (aranha inerme?)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página ou terra?
Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto
Mas se o silêncio da praia - onde o mar? -o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro - e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, com se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco - em frente ao mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chamada garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areiaeu subscrevo o branco
um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
*
Que diz a forma da pedra - o corpo?
Que diz este silêncio de erva?
Este punhal de feno no meu peito,
esta sílaba trémula, esta sombra fria,
que diz a cor do muro?
A terra tem aos ombros a folhagem
o mar ainda na distância
mas o clamor destes sinais proclama o animaldo fogo
os passos caminham entre as chamas e o apelo das ondas.
A terra é alta como o corpo e baixa
As casas cintiliam mas num contacto sólido
Em todas as estradas o sol caminha com os meus passos.
A folha é escrita como um paisagem
Ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a congregação da terra.
Escolho a clareira do corpo silencioso.
É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.
Escrever é finalmente subscrever o ar das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.
António Ramos Rosa
As Marcas no Deserto
1978, ed. &etc
iamgem: Salvador Dalí
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2 poemas de Roberto Juarroz
Por vezes a morte roça-nos os cabelos,
despenteia-nos
e não entra.
É um grande pensamento que a detém?
Ou talvez nós pensemos
algo maior que o próprio pensamento?
A morte já não afronta os espelhos.
Tem medo de os apagar ou os partir.
E medo, um medo bem maior,
de se apagar ou se partir.
No entanto
resta sempre um espelho que se olha na morte
como se ela fosse simplesmente
um espelho de espelhos,
um espelho em frente de outro
sem mais nada entre eles.
Roberto Juarroz
trad. Egito Gonçalves
Limiar, nº1
ed. Limiar, 1992
imagem de Cláudia Melo
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sábado, 3 de abril de 2010
qual a melhor maneira
de fazer a neura desaparecer?
perguntei-me hoje enquanto fumava um cigarro nas traseiras da casa onde vim passar a Páscoa.
E por que será que as festas familiares/de origem católica parecem incitar aos dias frustrantes????
Certamente também não sou muito inteligente. No meio de tudo isto, que faço eu? Venho para o quarto escrever isto, enquanto ouço Bliss e Massive Attack. Certamente os melhores anti-depressivos no mercado...
Onde será que a minha irmã guarda as canções da Lady Gaga? Se bem que essa também parece ter-se envolvido num "bad romance"...
Lisboa
Cidade branca
semeada
de pedras
Cidade azul
semeada
de céu
Cidade negra
como um beco
Cidade desabitada
como um armazém
Cidade lilás
semeada
de igrejas
Cidade prateada
semeada
de Tejo
Cidade que se degrada
cidade que acaba
Adília Lopes
Ovos (Poemas Novos)
ed. &etc, 2004
quinta-feira, 1 de abril de 2010
5 anos depois
o problema da versão censurada de "American Life" de Madonna ainda é não estar distituído de sentido...
A Escada
davam grandes passeios pelos matos o coração soerguido pela prece luxuosa do feiticeiro.
davam passeios malditos, siberianos os pés nus lambidos pelos castores e pelos ratos.
espectral a luz coada trespassa-lhes a pele moça e dorida.
davam grandes passeios nos mantos vigiados pelos olhos esbugalhados da madeira.
davam-se.
nos vitrais é que as cegonhas faziam as bocas dos ninhos e os arlequins desfilavam suspirando.
o céu num esgar vomita esperma rubro.
o limiar da risada, o conteúdo do abraço.
a orla da praia resinosa desenhada em baba.
escolhemos o odor dos braços.
é o nada.
é o congresso.
esta era a continuação dos longos duas de paixão severa.
a febre gota a gota limpa a mão, pano de linho.
a mutável apenas na aparência.
sombra de éter.
deixai que a seiva corra quente.
que o ritual se cumpra.
tilintaram os guizos e soaram como solas de pulmão seco os passos dos mercenários.
davam passeios malditos, siberianos os pés nus lambidos pelos castores e pelos ratos.
espectral a luz coada trespassa-lhes a pele moça e dorida.
davam grandes passeios nos mantos vigiados pelos olhos esbugalhados da madeira.
davam-se.
nos vitrais é que as cegonhas faziam as bocas dos ninhos e os arlequins desfilavam suspirando.
o céu num esgar vomita esperma rubro.
o limiar da risada, o conteúdo do abraço.
a orla da praia resinosa desenhada em baba.
escolhemos o odor dos braços.
é o nada.
é o congresso.
esta era a continuação dos longos duas de paixão severa.
a febre gota a gota limpa a mão, pano de linho.
a mutável apenas na aparência.
sombra de éter.
deixai que a seiva corra quente.
que o ritual se cumpra.
tilintaram os guizos e soaram como solas de pulmão seco os passos dos mercenários.
Regina Guimarães
A Repetição
1979, ed. Hélastre
imagem de Max Ernst
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Regina Guimarães
Editors: In This Light and On This Evening
A LEAP OF FAITH
Não me parece que tenha sido referido em lugar algum pelos elementos da banda, mas a verdade é que "In This Light and On This Evening", intencional ou inintencionalmente se aproxima muito do conceito de ópera-rock que já foi assumido, por exemplo, pelos Muse. Neste álbum há muito pouco de avulso, pelo contrário, há uma coesão e uma sequência que será tudo menos inocente. Faz com que faça pouco sentido isolar as canções umas das outras, se realmente a melhor forma de apreciar a nova série é mesmo por completo.
o vídeo de "Papillon"
"You Don´t Know Love" em versão acústica
Se depois de "The Back Room" (2005), "An End Has a Start" (2007) sugeria os Editors como um dos nomes mais interessantes do indie-rock actual, "In This Light and On This Evening" (2009) vem dar a confirmação. O terceiro álbum dos Editors, lançado recentemente, é um verdadeiro acto de originalidade, bem como um salto impensável em comparação com o álbum anterior que já de si não era nada mau. O problema que existia nos primeiros dois álbuns seria talvez a facilidade com que se lhes atribuíam influências, e de certa forma, também a semelhança entre os dois.
Mas logo na primeira faixa, que dá nome ao álbum, "In This Light and On This Evening" mostra-se redondamente diferente. É certamente uma das melhores faixas do disco, mesmo sendo claramente uma introdução. Aí se nota já a assumpção do lado electrónico, perfeitamente nivelado com as guitarras eléctricas que são, já se sabe, obrigatórias. A voz de Tom Smith também parece agora encontrar o seu melhor registo. É uma voz grave e tem, daí, as suas limitações, agora perfeitamente controlada. As letras, também da autoria do vocalista, mostram-se bastante mais politizadas, mantendo um certo lirismo quase adolescente que tem sempre a sua graça, como acontece em "You Don´t Know Love", uma das faixas mais interessantes deste trabalho.
Algumas faixas ainda relembram um pouco a sonoridade anterior (Caso de "Bricks and Mortar".), e outras afastam-se completamente dele (Caso de "Papillon".).
Se se quiser procurar influências, será desta vez um tanto mais difícil falar de Joy Division, mas poder-se-á falar ainda de Blur, e há que acrescentar Goldfrapp, ou pelo menos a fase Black Cherry-Supernature dos Goldfrapp, fase que afinal veio influenciar mais do que previsto os músicos actuais, dos Muse aos Editors.
A ascensão do lado electrónico na música dos Editors não significa, claro, uma perda da melancolia que existia nos álbuns anteriores (Em "Fall" ou "Spiders", por exemplo.), sendo recuperada em momentos como "You Don´t Know Love" ou "Walk The Fleet Road", resultando, no entanto, esta melancolia mais densa agora, e o electrónico torna-se, em vez de dançável como mais imediatamente poderia acontecer, mais negro e até depressivo.
Outra característica que importa referir acerca de "In This Light and On This Evening" é a repetição, o obsessivo, numa espécie de alusão, por exemplo, à música barroca ou, se quisermos ser mais rebuscados, à música experimental. Em canções como "Eat Raw Meat= Blood Drool", funciona tanto a repetição de determinada frase (De palavras.) como a repetição da mesma frase musical. "The Big Exit", outro dos melhores momentos deste disco, é um exemplo acabado disto. Além das notas musicais, Tom Smith diz repetidamente "They took what once was ours".
Em contraponto ao que é a música dos Editors, este disco está também mais próximo do som dos Editors ao vivo e, se partirmos do princípio que essa é a ambição de todas as bandas, de facto é uma ambição atingida com "In This Light and On This Evening". Por outro lado, talvez por ser uma sonoridade bastante mais negra e obcecante, será dos discos dos Editors o menos radio-friendly, mesmo contado com "Papillon" e com o facto de nenhum dos anteriores álbuns ser propriamente muito vendável.
Não me parece que tenha sido referido em lugar algum pelos elementos da banda, mas a verdade é que "In This Light and On This Evening", intencional ou inintencionalmente se aproxima muito do conceito de ópera-rock que já foi assumido, por exemplo, pelos Muse. Neste álbum há muito pouco de avulso, pelo contrário, há uma coesão e uma sequência que será tudo menos inocente. Faz com que faça pouco sentido isolar as canções umas das outras, se realmente a melhor forma de apreciar a nova série é mesmo por completo.
Nisto, em nada "In This Light and On This Evening" se torna chato, nem tem canções inconsequentes, como acontecia pontualmente nos dois discos anteriores que eram, curiosamente, mais curtos do que este.
Resumino, "In This Light and On This Evening" é definitivamente um dos melhores álbuns que tem sido editado ultimamente.
o vídeo de "Papillon"
"You Don´t Know Love" em versão acústica
Épiphanie
Le ciel a rompu ses eaux
le soleil s´éclipse
mais sous les nuages ensanglantés
le sourire de l´ange apparaît.
le soleil s´éclipse
mais sous les nuages ensanglantés
le sourire de l´ange apparaît.
Saguenail
Il N´y a Pas de Saisons en Enfer
2007, ed. Hélastre
imagem de René Magritte
agustina tem destas coisas... (11)
Não perdoava a beleza das outras mulheres, mas não era vulgar ao ponto de o deixar notar. Pior que uma mulher que não suporta a beleza e o charme de outra, só um homem. (…) Prazeres fora casada com um banqueiro e depois com um antiquário. Nunca falava dos maridos, o que os favorecia. As mulheres que falam muito dos maridos, ou os enganam ou não estão satisfeitas com eles. É uma regra de ouro.
.
.
.
.
de Um Cão Que Sonha
dois poemas de Maria Gabriela Llansol
1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.
7
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.
Maria Gabriela Llansol
O Começo de Um Livro é Precioso
2003, ed. Assírio e Alvim
imagem de Paul Delvaux
sobre
delvaux,
Maria Gabriela Llasol,
poemas
quarta-feira, 24 de março de 2010
Egito Gonçalves: Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda Um Copo de Crepúsculo
A CIDADE ÍNTIMA
Fernando Pessoa ditou o seu último poema precisamente no dia em que morreu.
Com excepção dele, é raro o poeta português que escreveu literalmente até à morte e que, além disso, teve hipótese de se despedir.
Egito Gonçalves é um desses raros casos.
O percurso poético do autor inicia-se em 1950 com a publicação de "Poema Para os Companheiros da Ilha". Dada a sua clara inclinação para uma poesia politizada é rapidamente atirado para a prateleira dos neo-realistas. E, logo desde o início, há uma característica que é por assim dizer atirada para segundo plano: a dimensão lírica. Numa época em que como está visto, todos tinham que escolher de que lado queriam ficar (A estética dos surrealistas ou a ética dos neo-realistas.) não são raros os casos dos que não se confinam nem a um nem a outro (Por exemplo Jorge de Sena.). O caso de Egito Gonçalves envereda claramente por uma dimensão ética mas em momento algum renuncia à estética (Sem no entanto resvalar para qualquer situação surrealista ou surrealizante.) e será talvez esse o ponto forte da sua poesia.
A sua obra poética foi-se desenvolvendo e desbravando novos terrenos ligados, por exemplo, ao erotismo, muito latente em obras como "Luz Vegetal" (Limiar, 1975) ou "Falo da Vertigem" (Limiar, 1983) até à palavra que quase caíra em desuso mas que Rosa Alice Branco aponta com muita pertinência no seu prefácio a "E No Entanto Move-se" (Quetzal, 1995), a ternura. É esta que irá pontuar nos últimos livros do autor: e se em "O Mapa do Tesouro" (Campo das Letras, 1997) esta "ternura" acaba por resultar em poemas menos conseguidos, em "A Ferida Amável", publicado conjuntamente com "Lettera Amorosa" (Campo das Letras, 2000) ela acaba por resultar com a maior das eficácias, colocando Egito Gonçalves entre os raros poetas contemporâneos que cantam o "amor feliz".
Antes de falar um pouco sobre o último livro do autor, publicado postumamente em 2006 pela Campo das Letras, penso ser pertinente referir o livro "E No Entanto Move-se".
Trata-se de uma recolha de poemas desde os anos 50 até ao início dos anos 90 (Alguns dos quais publicados em antemão na antologia "O Pêndulo Afectivo".) que se caracterizam por ser "poemas de viagem", uma classificação excessivamente resumida mas que explica bem a génese do livro aliás triplamente premiado. Nele o poeta se confronta com cidades estrangeiras, com a observação vantajosa e mais completa de se vir de fora, e, uma vez mais fazendo uso do prefácio de Rosa Alice Branco a este livro, é através de certos elementos como a Mulher ou a poesia ou determinado monumento que o sujeito poético encontra a sua ponte para a cidade estranha que percorre.
É importante falar disto porque "Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo" nos mostra precisamente a mesma situação: um confronto poeta-cidade: mas desta vez sem qualquer tipo de intermediário. A dedicatória do livro é sucinta, dedica-o à cidade do Porto. E desta vez, uma poesia que se pode dizer (Ainda que me pareça rebuscado.) ter uma dimensão geográfica é escrita com a maior intimidade. De certa forma, quase como se essa ternura que acima se referiu fosse sentida também pela cidade, quer seja a cidade construída, quer seja a cidade vivida. E é também um livro onde se colocam em confronto os dois pontos essenciais da vida: a infância e a morte. Se por um lado nos poemas iniciais lemos uma espécie de "memórias" da cidade do Porto nos anos 40 ou 50, é também neste livro que sentimos a proximidade da morte como se pairasse sobre essas mesmas memórias do passado. Talvez um verso de Isabel de Sá sobre Marguerite Duras faça sentido a propósito deste livro "começou a ser velh[o] no último livro". Velho apenas no sentido em que se confronta directamente com a morte.
Não há no entanto qualquer tipo de queixume ou de lamentação. Pelo contrário. As coisas são observadas com a naturalidade e o lirismo sobre o qual Egito Gonçalves edificou toda a sua obra. É quase como se houvesse uma espécie de ternura pela própria morte, precisamente porque esta é aceite como ponto essencial e natural da vida. E a cidade existe no livro como testemunha de todo um percurso e será talvez essa a razão que me leva a colocar este livro no topo dos livros de Egito Gonçalves: a noção de como a cidade enquanto organismo vivo e de algum modo intemporal é o espelho da vida. A mesma cidade em que lemos Egito Gonçalves e os amigos a ir ao Rivoli ou a brincar no Jardim da Cordoaria é a mesma cidade em que, no último poema, inacabado, o poeta sente as árvores dançando ao vento e onde vê o "copo de crepúsculo" que se interpõe entre ele e a sua morte.
Retomando o início deste texto, foram raros os poetas que tiveram a felicidade de se despedir. Egito Gonçalves foi um desses raros poetas. E despede-se, afirmo-o, com uma beleza e uma lucidez tão implacáveis que nos deixa verdadeiramente atónitos, ficamos nós mesmos frágeis e expostos à morte. A poesia que deve, segundo muitos que eu apoio, ser um murro no estômago. E o último poema de Egito Gonçalves é sem sombra de dúvida o derradeiro murro no estômago. E é também o final avassalador que a obra poética de Egito Gonçalves merecia.
Podem (E devem.) ler o poema em questão aqui
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Egito Gonçalves,
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Notícias do Bloqueio
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se
Egito Gonçalves
A Viagem com o Teu Rosto
1958 edição Europa-América
imagem de Félix Labisse
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domingo, 7 de março de 2010
e ainda sobre a Björk, estes momentos também me emocionaram, por motivos evidentemente diferentes
a entrada em palco no Sudoeste 2008 com "Earth Intruders" e outros momentos, como "Hunter"
ou "Pagan Poetry"
e por falar em Björk, lembro-me perfeitamente que chorei a primeira vez que vi esta cena
"I´ve Seen It All" do filme "Dancer In The Dark" de Lars Von Trier
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morreu Lee Alexander McQueen
o realizador deste, entre outros vídeos de Björk
´
r.i.p.
´
r.i.p.
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Islas Lípari
La escama de una sirena puede cegarnos de tristeza
y una estrella de mar adormecernos para siempre,
bien lo dijo aquel loco de Porto Levante
cuando en la piel se traía los lentos oros de la tarde.
Isola Vulcano é un peeto addormentato, caro “itagnolo”.
Nadie como él conocía las estrategias del cangrejo
ni los valses secretos para hipnotizar al demonio.
Mordía las cenizas de un té confuso buscando puerta
a los indicios (más de una vez lo vimos auscultar
basaltos bajos las quietas acequias del cielo).
En la hora lábil de las alas y las áncoras,
cuando ya el mar ardía con el fuego de las distancias,
su carne de lapa tatuada abrió los círculos del ron
y crujió en el idioma de los naufragios, diciendo:
Peto addormentato, certo; ma peto di un dio.
Jesus Jiménez Dominguez
Diario de la Anemia/Fermentaciones
2000, ed. Olifante
imagem de Ana Hatherly
As Mães (IV)
Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.
Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.
Assim como chegou
assim partiu.
Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
ed. Asa, 2002 (esgotado)
desenho de Sadsamson
O Anjo sem Sorte
O ANJO SEM SORTE. Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.
Heiner Muller
(trad. João Barrento)
O Anjo do Desespero
edição portuguesa, Relógio d´Água, 1997
desenho de Sadsamson a partir de uma fotografia de Garrett Neff
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