quinta-feira, 17 de abril de 2008

não muita vez





Não muita vez nos vemos, mas se poucos
Amigos há para falar
Dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos
É ele o que melhor vai com a minha fome.

Os dedos com que me tocou
Persistem sobre a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
A suor os traz consigo da memória, que nas tenho
Na pele poro através
Do qual eles não procurem sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória






LUIS MIGUEL NAVA, "A Inércia da Deserção", 1981
isabel lhano, "eco", 2001

quarta-feira, 16 de abril de 2008

a (minha) verdade

"se Deus existe é melhor que tenha uma boa desculpa"

Woody Allen

terça-feira, 15 de abril de 2008

Six Feet Under

Para relembrar a segunda época, e a música dos Lamb...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

O Brilho da Lama de Isabel de Sá

Chama-se "O Brilho da Lama" o mais recente livro de poemas originais da poetisa e artista plástica Isabel de Sá. E mais recente não quer dizer que é recente, até porque é de 1999, quer dizer que não há mais originais publicados desde então.
É o 12º livro de uma poetisa que há muito já mostrou que o seu universo é próprio e único. Desde "Esquizo Frenia" (1979) que as imagens expressionistas ou surrealistas e a linguagem clara marcam os textos de Isabel de Sá, assim como a tendência para a metáfora, a instrospecção, a vontade de questionar ou de criticar, características, aliás que também estão bastante claras no seu trabalho plástico.


A poesia de Isabel de Sá é povoada de crianças, de memórias de infância, de morte, de rituais e personagens bizarras, de uma paixão que deflagra, e de um amor quase impossível.
Em "O Brilho da Lama", tudo isto vem agora dividir o espaço com os hermafroditos, as crianças autistas, os bispos luxuriosos, os bichos, os monstros, ou seja, todas as figuras da pintura de Isabel de Sá.

"Conversa de Bispos" 1977

Isto porque o primeiro capítulo do livro não ao acaso tem o nome de "Das Trevas Para a Luz": este era também o nome da exposição antológica dos 20 anos de pintura de Isabel de Sá na Galeria de São Mamede. E estes poemas, sempre dentro da linguagem única da artista, reflectem e aprofundam aquilo que já está á mostra nas pinturas. São, portanto, aqui analisados esses personagens, também eles únicos: as "mulheres-bonecas, apunhaladas", os "Bispos, rostos de luxúria/ e tirania", as "Crianças aterrorizadas/ no leito de morte,", as claraboias, os unicórnios, os demónios, os pássaros, etc.

Depois, "Na Escuridão do Espelho", o segundo capítulo, surgem em força os sentimentos, a sua erosão, no fundo, as coisas menos analistas e mais introspectivas, em que a poetisa fala para outra pessoa, para a pessoa que é o seu objecto de paixão, ou o seu objecto de amor. E estes são poemas belíssimos, carregados de um conhecimento muito exacto sobre o desejo, a paixão, o amor, a luxúria, a morte, o desgaste, e tudo o que povoa a vida.

"O Brilho da Lama" é, por isso, um livro obrigatório. Destaque também para a capa, brutal, com duas imagens de 1977 da própria Isabel de Sá.

Ficam dois poemas do livro, para dar uma ideia de como ele é:

"Bispos, rostos de luxúria
e tirania
povoam o insólito mundo de homens
anónimos das cidades.

Amantes encontram-se, furtivamente.
Frisos de belos figurantes
sonham com amores pecaminosos"

(do primeiro capítulo, Das Trevas Para a Luz)


"Só o lume dos teus beijos rompe
a treva onde a solidão nos mata.
Enrolamos a vida no escuro,
na semente de um amor atribulado.

Conhecemoso ritmo e a sede,
a convulsão do desamparo.
No sentido do corpo, no acerto
desce a força pelos braços
na violenta festa do prazer.

Tudo o que disseste
no desaforo da paixão
só podia incendiar a vida inteira
e encher de esperança o universo."

(do segundo capítulo, Na Escuridão do Espelho)

na próxima quinta feira

o convidado das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre será José Luís Peixoto, com a declamação de alguns dos seus poemas.

Lembrança de Perder Tudo


o teu rosto transformou-se na noite interminável
que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde
interminável.

o rio de fumo que levava o teu nome para as
estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro
da minha tristeza.

e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu nome era
tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo. e tudo é agora
mais que tudo.


JOSÉ LUIS PEIXOTO, "A Casa, A Escuridão" 2002
Imagem: NAN GOLDIN

sábado, 12 de abril de 2008

o som

Chama-se "Smells Like Teen Spirit", e é impossivel que alguém não conheça, a não ser que viva em Marte. Este é o vídeo de uma das músicas mais marcantes da banda do falecido Kurt Cobain.

O Delírio

Delírio estético: a música, o video, etc, etc, etc. Palavras para quê? Afinal, there are (only) 20 years to go...

The Gift - 645

Eis o novo single do "Fácil de Entender" dos The Gift. Chama-se "645" e não deixa de ser uma excelente oportunidade para apreciar a qualidade da banda. Sónia Tavares, excentrica, como sempre, consegue uma das suas melhores interpretações.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

as palavras



"As vozes esganiçadas das carpideiras vibram lívidas nas agulhas que a penedia levanta. Arrepiam as cristas das vagas deste oceano de pedra. Descem de socalco em socalco. Vão lamber o gelo do rio que a geada glaciou e a teça do silêncio sepulcral da montanha enche-se do vinho da tua morte. De longe a longe deixam de se ouvir. Adivinha-se uma pausa suspirosa na qual o luto vai buscar reforços ao reservatório da dor para de novo fazer rugir as águas lúgubres da velada. Ouve-se então o uivar do teu cão como se a sua alma sumprisse o apaixonado dever de propagar a lenga-lenga fúnebre.
Piedosamente elas vieram oferecer ao teu cadaver a sua técnica ancestral de prantear od defuntos. Vieram maternalmente a não para receber a caridade, o pão, o vinho que é uso dar aos que vêm velar os moeros. Porque tu não tinhas ninguém para celebrar os ritos da tua morte. Nasceste desta paisagem como as estevas que se eriçam pelas fendas dos xistos."





NATÁLIA CORREIA, "A Madona" (1982)
Imagem: CASPAR DAVID FRIEDRICH

quinta-feira, 10 de abril de 2008

a força



Nunca vi anjos nem aprendi orações
Como aprendi versos, mas desde cedo uma
Certa conspiração calma recolhida na parte
De trás da existência me foi dando
Conselhos, monocórdicos, pontuais;
Uma força constante que
Afastada dos dias e do seu ruído próprio
Me acompanhou. Nada religioso, nenhum Deus,
Nenhum temor, nenhuma adoração,
Chamemos à coisa: disciplina. E assim está bem.
O mundo avança e acontecem coisas,
E o meu corpo recolhe-se e faz o que tem a fazer.



GONÇALO M TAVARES, "Autobiografia"
Imagem: "OS ADORMECIDOS" de SOPHIE CALLE (1979)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sarah McLachlan - Ice

Do DVD de "Afterglow Live", a avassaladora versão ao vivo de "Ice" do longínquo álbum "Fumbling Towards Ecstasy" de 1993. Muito muito muito bom.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Das Margens de Vitor Ribeiro

Falar de margens, como falar de tantas outras coisas, pode ser falar de tantas coisas quantas pessoas falarem delas. No entanto, quando se fala de margens, a primeira imagem que nos surgirá, digo eu, será mesmo a das margens de um rio. Mas podemos encarar a margem como um comportamento que foge ao comportamento usual.
E estas duas ideias distintas, parecem ser igualmente aplicáveis á mais recente exposição de Vítor Ribeiro.






"Árvore das Margens"


O artista portuense, nascido em 1957, mostra assim 17 esculturas e alguns desenhos projectuais, em Brecha de Santo António.
São principalmente, imagens de árvores. Árvores que podem muito bem ser o que existe nas margens de um rio. E estas árvores são esculpidas aproveitando a textura do material, a rugosidade ainda não polida, e construindo os ramos de uma forma simplista, quase tosca, não fosse a delicadeza das curvas e contracurvas. Mas não há nenhuma preocupação em ser muito realista. É-nos dada a certeza de que estamos perante a escultura de uma árvore, na maioria das vezes sem serem esculpidas muitas folhas ou uma reprodução minuciosa da textura dos troncos. E é aqui que entra a outra margem, a escolha de recusar os elementos habituais para nos dar a sugestão de uma árvore. E assim, Vítor Ribeiro cria algumas dualidades muito interessantes, como o facto de alguns ramos parecerem quase antropomórficos, pessoas em poses de momento, como as estátuas do Barroco. Mas isto depende muito da imaginação de quem vê. No entanto, o facto de ser possível, faz da exposição susceptível a várias interpretações, e este é um dos princípios da arte.





"Árvore Debruçada"




Assim sendo, e fazendo lembrar a belíssima fase dos “Escravos” de Miguel Ângelo Buonarrotti, vemos estas árvores que vão emergindo do bloco (“Friso”.) ou que irrompem dele como se se levantassem (“Tronco”.), que apenas assumem os seus próprios contornos (“Tronco Velho”.), ou que vão devorando de fora para dentro (“Árvore das Folhas.”), ou que vão vertendo da pedra sobre os suportes de ferro (“Árvore Debruçada”.). Além desta possível reminiscência renascentista/ maneirista, é possível, pelo aspecto rude do todo das esculturas, encontrar algumas referências pré-históricas, assumindo o artista várias estilizações da imagem da árvore.
Além das árvores, em dois trabalhos, Vítor Ribeiro apresenta casas: “Imbordeiro” e “Da Minha Casa Á Tua”, em que usa a irregularidade da pedra e, sobre ela, que dá a sugestão de vertente de montanha, ou de aproximação a um vale onde corra um rio, esculpe as casas, também de uma forma simplória e estilizada. Em “Imbordeiro” toma ainda a opção de colocar a casa e uma pequena árvore sobre o vale, e o vale sobre um expositor cónico, como se houvesse o perigo do transbordar das margens.

"Árvore do Rio"


Ou seja, nesta exposição, são as árvores o elemento que decide onde estamos. O espectador, na sua posição de observador, observa as esculturas desde o rio, é o que passa e vislumbra as margens, vê o que fica ali, erecto, erguido ao ar. O rio, esse, passa na Galeria de São Mamede, em Lisboa, até Abril. A passar, devagarinho.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

isto são

palavras que eu acho que juntas formam frases correctas ou que simplesmente me marcaram de uma forma ou de outra...


Deveríamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento.”
Lídia Jorge, “Combateremos a Sombra” (2007)
"If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it leave
In the surface of the earth."
Tom Smith, "The Racing Rats" (2007)

“há um nítido ardil no tempo a aproximar as vozes
dos animais do pasto inabitado com que designas
o lado exterior da esperança a sagração da luz
na profundidade do quadro onde atas os fios dos afectos”
João Rios, “Na Luz dos Afectos”, 2002 (Dedicado a Isabel Lhano, e incluído no catálogo da exposição “Affection)
“Dear God if you were alive
You know we´d kill you”
Marilyn Manson, “GodEatGod” (2000)


“As pessoas viviam apenas para si próprias, para a sua própria satisfação e tudo o que diziam de Deus e do Bem não passavam de mentiras. E se, por acaso, alguém perguntasse porque é que sobre a terra tudo está organizado de tal maneira que os homens não se cansam de fazer o mal, não havia oportunidade para reflectir sobre isso. Vem o tédio: um cigarro, um copo de aguardente, ou, melhor ainda, um pouco de amor, e tudo se esvai.”Lev Tolstoi, “Ressurreição” (1899)

“I went to a concert
And I fought through the crowd
Guess I got too excited when I
Thought you were around”
Julian Casablancas, “Heart In a Cage” (2005)

“Na leve suspensão de Agosto, de que a noite não tarda a tomar conta por completo, parece criar e rodear-se de um brilho pálido semelhante a um halo. O halo está cheio de caras. As caras não estão marcadas pelo sofrimento, nem estão marcadas por nada: nem horror, nem dor, nem sequer recriminações. Estão com um ar pacífico, como se tivessem escapado a uma apoteose…”William Faulkner, “A Luz de Agosto” (1932)

“we may be
On this road but
We're just
Impostors
In this country you know
So we go along and we said
We'd fake it”Tori Amos, “A Sorta Fairytale” (2002)

“porque sem beleza não se aguenta estar vivo.”Isabel de Sá, “Esquizo Frenia” (1977-8)

“Não sei como é possível falar desse
Rapaz pelo interior
De cuja pele o sol surge antes de o fazer no céu.”
Luís Miguel Nava, “Como Alguém Disse”


“eu te amo porque te amo
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.”
Carlos Drummond de Andrade


“No, not baby anymore
If I need you I´ll just use your simple name
Only kisses on the cheek from now on
And in a little while I´ll only have to wait…”
Fiona Apple, “Love Ridden” (1997)
“Evidentemente, havia a música. Na minha vida há sempre música. Tudo começa com uma canção, e quando não começa, começa mal. Ás vezes começa com uma canção e também começa mal. Talvez porque não seja a canção adequada.”José Eduardo Agualusa, “Não Deve Dormir Quem Ama” (Egoísta, Setembro de 2007)

“I'm unclean a libertine
And every time you vent your spleen
I seem to lose the power of speech
You're slipping slowly from my reach
You grow me like an evergreen
You've never seen the lonely me at all”Brian Molko, “Without You I´m Nothing” (1998)

“I don´t even care if it works out fair in the end. I´m sure it doesn´t.”Kathy Bates, como Bettina, em Sete Palmos de Terra (ep. 3 da 3ª época, escrito por Kate Robin, 2003)
“and I have the sense to recognize
That I don´t know how to let you go
The glowing amber, burning hot
And burning slow…”
Sarah McLachlan, “Surfacing” (1996)

domingo, 6 de abril de 2008

sábado, 5 de abril de 2008

24 hours

Helena Almeida, "Saída com Raiva", 1982


So this is permanence, love's shattered pride.
What once was innocence, turned on its side.
A cloud hangs over me, marks every move,
Deep in the memory, of what once was love.

Oh how I realised how I wanted time,
Put into perspective, tried so hard to find,
Just for one moment, thought I'd found my way.
Destiny unfolded, I watched it slip away.

Excessive flashpoints, beyond all reach,
Solitary demands for all I'd like to keep.
Let's take a ride out, see what we can find,
A valueless collection of hopes and past desires.

I never realised the lengths I'd have to go,
All the darkest corners of a sense I didn't know.
Just for one moment, I heard somebody call,
Looked beyond the day in hand, there's nothing there at all.

Now that I've realised how it's all gone wrong,
Gotta find some therapy, this treatment takes too long.
Deep in the heart of where sympathy held sway,
Gotta find my destiny, before it gets too late.



IAN CURTIS para o álbum CLOSER dos JOY DIVISION, 1980

sexta-feira, 4 de abril de 2008

The Editors no Coliseu do Porto

SE DEUS EXISTISSE TERIA INVEJA

Ainda que o concerto dos Editors no Coliseu do Porto estivesse marcado para as nove, só ás dez é que os quatro elementos da banda entraram no palco, não sem uma banda a fazer a primeira parte, e sem os habituais atrasos abusivos no que toca a montar o palco. Mas a espera valeu mesmo a pena, e isso fica claro logo que entram, a começar com "Camera". Depois desta, e quase sem pausa, o pano preto cai, revelando um pano com uma enorme estrutura circular, imagem do novo álbum, que começa agora com "An End Has a Start".



Pelo resto da noite, alternando entre os temas dos dois álbuns, os Editors acabaram por tocar não só nos seus momentos mais marcantes, como também pelos melhores: os mais agitados e frenéticos "Blood", "Escape The Nest", "Lights", "Munich", "All Sparks", "Bones", "Fingers In The Factory", "Bullets", "Bones" sempre com uma energia que o vocalista impingia com sucesso, e outras mais intimistas como "When Anger Shows", "The Weight Of The World" (Em que Tom Smith brilha também no piano.),"Push Your Head Towards The Air", além da cover de "Lullaby" dos Queen, onde se criava uma espécie de atmosfera mais tensa, mas também mais densa. De qualquer forma, as coisas foram correndo sempre na perfeição sobre o palco, ainda que não compreenda aquela tentativa (Felizmente frustrada.) de mosh algures no final do concerto...
Para os encores ficaram os singles "The Racing Rats" e "Smokers Outside The Hospital Doors".
Devo confessar que o concerto dos Editors me surpreendeu. Gosto muito da banda, mas de facto, em palco são muito mais poderosos do que se possa pensar. Pecam apenas por serem pouco comunicativos. Tom Smith agradecia, em português e em inglês, ia dizendo aqueles "good evening"... mas não ia mais adiante. Fora isso, tentava chamar pelo público, pedia palmas, punha-se de pé sobre o piano, saltava pelo palco, etc. Devo dizer que este concerto é também uma raridade, pois o público nem parecia português: conheciam as canções, cantavam-nas, enfim, nao se estavam ali a estrear, não eram do tipo que achou que "Smokers Outside the Hospital Doors" até é gira e vão para ouvir essa. Não é coisa que eu veja muito nos concertos onde vou.
No final, fica aquela sensação muito agradável de que queríamos mais, o que quer dizer que acabámos de assistir a um grande concerto.


Veredicto: 20/20

Editors- An End Has a Start

Segundo momento do concerto, primeira música tocada do novo álbum, "An End Has a Start".

quinta-feira, 3 de abril de 2008

quarta-feira, 2 de abril de 2008

com que voz

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.
LUIS DE CAMÕES

terça-feira, 1 de abril de 2008

o dia das mentiras

é uma verdadeira seca. Por mim acaba-se já com ele.

joy division

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ice

Helena Almeida: "Pintura Habitada" 1976

The ice is thin come on dive in
underneath my lucid skin
the cold is lost, forgotten
Hours pass days pass time stands still
light gets dark and darkness fills
my secret heart forbidden...


I think you worried for me then
the subtle ways that I'd give in but I know
you liked the show
tied down to this bed of shame
you tried to move around the pain but oh
your soul is anchored


The only comfort is the moving of the river
You enter into me, a lie upon your lips
offer what you can, I'll take all that I can get
only a fool's here...


I don't like your tragic sighs
as if your god has passed you by well hey fool
that's your deception
your angels speak with jilted tongues
the serpent's tale has come undone you have no
strength to squander


The only comfort is the moving of the river
You enter into me, a lie upon your lips
offer what you can, I'll take all that I can get
only a fool's here to stay
only a fool's here to stay
only a fool's here

SARAH MCLACHLAN para o álbum FUMBLING TOWARDS ECSTASY (1993)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Shivaree - John 2/14

Resgatado dos confins do YouTube: John 2/14 dos Shivaree, do álbum Rough Dreams. Excelente...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Histórias Improvaveis de Benedita Kendall

"Histórias Improvaveis" é o nome da mais recente exposição de Benedita Kendall, artista nascida no Porto em 1971. Tendo formação em várias áreas, do Desenho de Arquitectura á Pintura, nestes trabalhos essas várias áreas cruzam-se. Era importante, não só para a diversidade de referências artísticas como pela diversidade de referências culturais o sentido gráfico que a artista apresenta, tela a tela.


"Conectividades II"

A primeira característica que se nota é a agressividade dos fundos. Neles, a pintora assume a pincelada, furiosa, frenética, entrecruzada e entrecortada. Noutros ainda, ela simula através da pincelada essa mesma agressividade, mas já remetendo a alguns padrões como os círculos interiores de uma árvore, a casca da árvore, caracóis de cabelo ou rendilhados. Sobre estes fundos, a artista aplica imagens que nos levam ao universo da fábula, com animais personificados (Vestidos, a fumar, a discutir, etc.), outras vezes para personagens mais introspectivas ("A Máquina do Tempo".), ou para imagens de reminiscência social. Em tudo isto, a artista não se coibe de utilizar métodos de representação muito variados e com incontáveis referências. Se nuns, as figuras simplificadas e deslocadas do espaço nos levam imediatamente ao universo da ilustração ("Fábula Sobre a Solidão."), noutros os edifícios surgem desenhados, o que nos leva á aquitectura ("Histórias Improvaveis".), noutros a ilustração é feita como se faria num prato ou numa jarra ("Margem de Segurança".), nalguns surge a pintura, com os modelados, noutros apenas a linha, desenhada. As figuras em si são ora plácidas e concentradas na sua própria forma ou nos seus próprios gestos ("Histórias Improvaveis".), ora dotadas de uma apresentação mais barroca ("Rivalidades".), ora um desenho mais ligado á banda desenhada ("Fábula sobre a Fragilidade".).



"Histórias Improvaveis"



Algumas referências á representação tradicional oriental também se fazem sentir, bem como figuras ligadas a esta mitologia, como o dragão com a cauda na boca ("Timidez".).
Assim não é só no cruzamento de tantas personagens e temáticas diferentes que as histórias de Benedita Kendall se tornam improvaveis. É também na multiplicidade de referências artísticas tão distantes, que também parecem originar um ecótono de tempos.
É nisto que o novo trabalho de Kendall é interessante: pela capacidade que a artista tem de, utilizando as suas capacidades gráficas, fundir referências tão variadas, vindas de áreas distintas (Ilustração, pintura, literatura, arquitectura.), que resultam, no final, em telas muito coerentes, e capazes de suscitar ideias multiplas.


"Rivalidades"

Para ver até Abril na Galeria de Sao Mamede, em Lisboa.

cowboys

a minha música preferida dos Portishead. Não há bilhetes para mim! Damn you!!!!
Na imagem, uma fotografia da instalação "ANTROPOFAGIA" de Rute Rosas



Did you sweep us far from your feet,
Reset in stone this stark belief,
Salted eyes and a sordid dye,
Too many years.

But don't despair,
This day will be their damnedest day,
Oh, if you take these things from me.

Did you feed us tales of deceit,
Conceal the tongues who need to speak?
Subtle lies and a soiled coin,
The truth is sold, the deal is done.

But don't despair,
This day will be their damnedest day,
Oh, if you take these things from me.

Undefined, no signs of regret,
Your swollen pride assumes respect,
Talons fly as a last disguise,
But no return, the time has come.

So don't despair,
And this day will be their damnedest day,
Oh, if you take these things from me.
Oh, if you take these things from me

de BETH GIBBONS para "PORTISHEAD" dos Portishead, 1997

terça-feira, 25 de março de 2008

sad empire



Sad Empire is shaking from the inside
Picks all the faces of last soldiers in battle
Says goodnight and sleeps, restless
Kill switch-mode, communicator presets
Quite obscure, the purpose is grateful
No one will keep silence apart from what I see coming in
I see the storm, it´s rushing by
Reporting damage



Rainy hearts
And the sky is suffering from natural diseases
I hear sounds
And they clap their hands like if they wish to be seen



Take all the blame
My world apart
And the worst nightmare on earth
Take all the rest
My world apart
I will spin it backwards

And the worst nightmare on earth...

MIGUEL GUEDES para "A Way To Bleed Your Lover" Blind Zero

Imagem: "ELE" de JOAO PEDRO RODRIGUES

segunda-feira, 24 de março de 2008

Portishead- Machine Gun

Vídeo do primeiro single do novo álbum, "Third" a ser lançado em Abril. Onze anos depois de "Portishead", é o regresso aguardadíssimo de Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley.

Caravelas



Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
De um estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
FLORBELA ESPANCA

domingo, 23 de março de 2008

Final Examination de Fred Olen Ray

O REPROVADO

Quando John Carpenter realizou "Halloween" em 1978, digo eu que não imaginaria o que, alguns anos depois comeariam a fazer com essa ideia dos filmes sobre "serial killers". Arrastado pela lama, esse subgénero de filme de terror teve alguns picos de qualidade: "Scream" de Wes Craven que funcionava como uma crítica tambem á repetição da fórmula e "Mitos Urbanos" de Jamie Blanks que primava pela história mais do que por outra coisa qualquer. Isto exluindo "Sexta Feira 13" e "Texas Chainsaw Massacre", filmes arruinados pelas sequelas e pela exploração ridicula dos seus assassinos. Jason Vorhees é agora motivo de gargalhadas em vez de arrepios de medo...
"Final Examination" de Fred Olen Ray é um desses filmes que mergulha na vergonha o conceito do serial killer.



Um detective de Los Angeles é enviado para o Hawai por ser demasiado "louco" a resolver os seus casos com dealers de cocaína. Supostamente num local com menos agitação, depara-se com um serial killer a assassinar um grupo de turistas recém-chegados.
Quem fizer tenções de ver o filme, coisa que não recomendo, a não ser que se queiram rir, não deve ler o resto da crítica, uma vez que me vejo obrigado a fazer referência ao final.
A primeira sequência do filme é o suicidio de uma teenager típicamente americana.
Depois vemos um grupo de mais teenagers com um aspecto ainda mais insultuoso (Do genero cilicone por todos os centimetros, cabelos loiros pintados, riso histérico e de uma conversa a deixar o fútil a perder de vista...), e o namorado de uma delas, com o aspecto típico de um surfista (Eu diria que é surfista da banheira, mas isto é uma opinião pessoal.). A namorada deste sujeito é a primeira a morrer, numa cena que prima pela falta de jeito.
A estas coisas, juntam-se outros elementos típicos do filme fácil: sexo com particular atenção aos corpos esculturais, uma terrível cena no chuveiro que deixaria Hitchcock insultado, mortes em cenários improvaveis, com contornos improvaveis e exibicionismo qb, para que não haja dúvidas de que se trata de um slasher movie americano recente. O amor que começa a despontar entre o nosso detective e a sua colega, igualmente típico, também marca pontos.
De facto, típico é a primeira palavra que se associa a "Final Examination". Tudo é típico, tudo é vulgar.
Depois, ha outra palavra que também se aplica, mas só depois de se ver o final: insultuoso:
Não há um assassino, há três, e são todos irmãos da rapariga que s suicidava, e por um motivo, diga-se, muito estúpido.
É uma abundância de Kinkades (O aplido da família da rapariga e dos irmãos assassinos.) que não se vê em qualquer sítio. Nem num filme tão palerma como "Sei o Que Fizeste no Verão Passado" nos mostravam uma resolução tão estúpida, que nos deixa a sentir um nervosismo que provavelmente advém do facto de estarem a atentar contra a nossa inteligência.
Resultado: um filme muito, muito mau. Razões para vê-lo:
a) se estiverem a precisar de umas boas gargalhadas
b) se não acreditarem que é tão mau como estou a dizer
c) se quiserem um pseudo-erotismo desinteressante tipo "Marés Vivas"
d) se gostarem de filmes rascas sobre assassinos que nunca poderiam ser reais.
Caso contrário, a sério, não vejam.




Veredicto: 5/20

sexta-feira, 21 de março de 2008

Goldfrapp: Seventh Tree

SOB ÁRVORES ESTRANHAS

Um passo tão repentino como a mudança de som de "Felt Mountain" para "Black Cherry" podia ter custado muito caro aos Goldfrapp. O som acústico e melodioso do primeiro álbum transformava-se em ritmo electrónico e desconcertante no segundo. Felizmente, ou devido ao manter da qualidade, tal não aconteceu. Allison Goldfrapp e Will Gregory mantiveram os seus seguidores, que aceitaram a nova sonoridade. "Supernature", o terceiro álbum era mais equilibrado. Ainda estavam lá os sons electrónicos e dançantes do segundo, mas já havia uma presença forte dos grandes arranjos do primeiro.


No entato, "Seventh Tree" vem agora mostrar que "Supernature" não era plenamente uma síntese conceptual dos dois primeiros álbuns. Isto porque este quarto álbum vem equilibrar as coisas. As músicas continuam a poder dançar-se e são, como não podiam deixar de ser, muito electrónicas, mas agora a tónica é posta na inserção de elementos acústicos e nos grandes arranjos de cordas a la "Felt Mountain". Ouça-se "Eat Yourself", "Clowns" ou "Road To Somewhere". Uma outra faceta do álbum prende-se na exploração dos potenciais da bateria e de instrumentos acústicos como forma de traçar um ritmo forte. "Happiness" e "Cologne Cerrone Houdini" são exemplo.
O resultado é uma sonoridade menos sexual, mas mais elaborada, mais barroca. A voz de Allison Goldfrapp adapta-se tão bem a este tipo de som como se adaptada ao "alternative dancefloor", mas isso já estava há muito provado. As composições, como sempre a meias com Will Gregory, a outra metade da banda, prendem-se num som mais fluido e numa procura de uma beleza melodiosa, suave e quente. Nos arranjos, nota-se um misto de agressividade (Os violoncelos em "Some People".) e de relaxamento (As cordas de "Eat Yourself".).
Como sempre, no final, fica a sensação de que soube a pouco. São dez faixas. Claro que é melhor ter dez faxias muito boas do que vinte medíocres, mas mesmo assim, os Goldfrapp já provaram que fazer má música não é muito o seu estilo.


Ninguém pense que aqui se perde a bizarria e a individualidade da música dos Goldfrapp. Nada disso. O regresso ao acústico não é marca de um retroceder, antes uma reciclagem de um conceito utilizado no passado, mas que não é utilizado como no passado.
A versão com DVD é uma opção a considerar, vale a pena: inclui um documentário de produção do álbum, bem como o video de "A&E".

Veredicto: 18/20

quinta-feira, 20 de março de 2008

dissolved girl

uma das grandes canções dos Massive Attack, retrato de uma dor anestesiante. Sara Jay, uma então desconhecida, assume a voz e a letra. Na imagem, outro retrato de sofrimento: "Borderline Case" de Graça Martins.











Shame, such a shame
I think I kind of lost myself again
Day, yesterday
Really should be leaving but I stay

Say, say my name
I need a little love to ease the pain
I need a little love to ease the pain
It's easy to remember when it came

'Cause it feels like I've been
I've been here before
You are not my savior
But I still don't go
Feels like something
That I've done before
I could fake it
But I still want more

Fade, made to fade
Passion's overrated anyway
Say, say my name
I need a little love to ease the pain
I need a little love to ease the pain
It's easy to remember when it came

'Cause it feels like I've been
I've been here before
You are not my savior
But I still don't go,
I feel live something
That I've done before
I could fake itBut I still want more, oh.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Susana Bravo: Circo Aberto


É essencial ao estar-se perante uma obra de arte saber quais são as armas de se devem usar para a ver e apreciar devidamente. A arte como lente que abre as portas para uma observação de uma realidade é importante e, felizmente, cada vez mais comum. A intervenção, ou seja, a capacidade de expressar alguma ideia relativa a essa realidade é um segundo passo, igual ao primeiro em termos de importância. Assim sendo, a observação é levada a um segundo estatuto, o da análise.
Em Susana Bravo, a observação é óbvia. A análise não é perceptível á primeira vista. O que se denota é, primeiro, uma tentativa de ver o mundo através dos olhos destes personagens, e só daí podemos retirar uma análise. Essa análise não existe no sentido em que critica alguma coisa, no sentido em que choca; mas no sentido em que coloca á vista do espectador algo que não estava explicito antes.


Em termos técnicos, as telas estão muito bem conseguidas. Povoadas maioritáriamente por mulheres, o sentido caótico não se perde: as figuras sobrepõem-se, criam uma espécie de revolução sobre a superfície. O sentido cénico é aguçado, pondo em evidência este espaço que é o circo, e que a exposição coloca em aberto. Para isto, acaba por fundir pintura e desenho na mesma tela: algumas das figuras estão, de facto, pintadas outras são sugeridas apenas pela linha desenhada. No entanto, este caos que reina, acaba por ser inserido em cores suaves, que funcionam como um elemento que embeleza ou confere algum brilho ás imagens, tornando-as menos agressivas e mais idílicas.


Susana Bravo explora também o acto de ver. Em vários componentes de "O Circo Aberto" existe um personagem de costas, que olha para a sua frente, ou até um personagem fixo noutro ponto da tela. Esta inserção de um observador acaba por nos guiar, por nos fazer ver o que a pintora quer que vejamos.


Há, no entanto, um defeito nestes trabalhos: por vezes, parece demasiado óbvia a influência de Paula Rego no que toca á representação do corpo feminino. Ainda que a pintora use uma forma suave e tranquila no desenho das figuras, por vezes remete demasiado para Paula Rego, quer pela distorção das proporções, quer por pequenos detalhes como as figuras que surgem em escalas diferentes.
No entanto, eu sou apologista de que devemos ter uma noção tão larga quanto possível do que está á nossa volta, e esta colecção explora um tema quase insólito. Portanto, a ver, até dia 29 de Março, na Galeria Artes do Solar de Santo António.

Susana Bravo (Video)

Video com as obras de "O Circo Aberto" a da pintora no seu atlier, durante a execução dos trabalhos.

terça-feira, 18 de março de 2008

Editors - The Racing Rats

O vídeo mais recente de "An End Has a Start", muito bom, para uma música muito boa. A contagem decrescente para os concertos em Portugal já começou.

caspar david friedrich

é um dos maiores pintores românticos.

Retrato de Friedrich por Gerhard Von Kuglegen

Idealistas e carregadas de simbolismo, as suas obras demonstram uma extrema veneração pela Natureza. Conheceu o poeta Novalis, e o próprio Goethe que lhe facultou uma exposição em Weimar. Começou com aguarelas e desenhos, depois passou para a água forte e para a gravura em metal, e, por último, encontra a plenitude na pintura a óleo. Já com uma obra bem divulgada, tornou-se membro da Academia de Dresden. Tinha na altura em atlier conjunto com Dahl. A crescente implementação da pintura realista e naturalista começou a dificultar-lhe as vendas, pelo que acabou por morrer na miséria. O seu legado incluiu belíssimos e melancólicos quadros em que a presença humana surge com a força de um intruso involuntário, mas também numa posição de contemplação.




Friedrich é um dos meus pintores preferidos, e aqui deixo algumas imagens.

História de Uma Desculturização

ou Porque é Que La Féria Nunca Devia ter Ficado com o Rivoli




É um espaço arquitectonicamente bom, muito agradável, bem situado, e melhor que tudo, pertence aos moradores do Porto. Era isto o Rivoli, até há cerca de um ano.

Depois, surge a notícia: o Rivoli será privatizado. Lá se vai o Auditório Municipal. De facto, privatizar o Rivoli tornaria a história de que pertencia aos moradores do Porto uma ficção. Mas, entregue á pessoa certa, nao havia razões para deixar de ser um espaço cultural e um dos locais obrigatórios de passagem no Porto.

No entanto, Rui Rio não deu atenção a esta última parte, e fala-se de entregar o Rivoli a Filipe La Féria. Contra tudo e contra todos, La Feria conseguiu mesmo ficar com a sala.
Depois deste tempo todo, necessário para avaliar o comportamento de La Féria, digo-vos o que acho.

Acho que Filipe La Feria, se não é a pessoa mais anti-cultural em Portugal, tem que estar no Top 3.

A cultura tem um príncipio básico, e julgo que isto é conhecimento comum: diversidade. A cultura constroi-se com a música, o teatro, o cinema, o bailado, as artes plásticas, a literatura, etc. Mas, para La Feria, ficar com o Rivoli não foi ficar com um espaço cultural, foi alugar uma casa. E, desde então, tudo o que passa pelo Rivoli são as peças de La Feria, desde Jesus Cristo Superstar até á Música no Coração e ao Principezinho.

Acabaram-se os concertos, as exposições, enfim, acabou-se tudo o que não seja de La Feria. Pode ser teatro, mas não é cultura, é auto-promoção.Eu próprio não cosigo descrever o nó na garganta com que fico quando passo junto ao Rivoli e vejo tanta gente amontoada para ir assistir a uma peça desse sujeito. Da mesma forma, também não sei descrever a sensação de vitória que tive quando, no Fatasporto via muito mais gente do que para assistir a qualquer peça de La Feria, mas não iam ver a peça de La Feria.

Mas mesmo no Fantas, esse sujeito teve que fazer das suas: recusou-se a tirar as garrafais letras, a estúpida foto gigante da actriz de Musica no Coração com os braços abertos e uma expressão completamente palerma, assim como as estúpidas estelas com as cabeças das crianças do musical na entrada. Tudo isto, para ser sincero, deu-me uma enorme vontade de trepar as paredes e arrancar aquelas promoções megalómanas e despropositadas a uma pessoa muito inchada e pouco dotada.
No sentido oposto, ou seja, exemplo de um excelente trabalho, foi Paulo Brandão, a quem foi entregue o Theatro Circo de Braga. Devo dizer que considero o cartaz do Theatro Circo senão o melhor, um dos melhores do país. Prima pela diversidade, e pela selectividade cultural.

Em compensação, de La Feria, só tenho a dizer que espero que saia o mais rapidamente possível da direcção do Rivoli. A sala pertence aos habitantes do Porto, mas, mais importante ainda, pertence á cultura, e está a ser privado disso por uma pessoa com um ego enorme e infundado. Quem viu o musical de Amália só pode ter ficado escandalizado...

segunda-feira, 17 de março de 2008

My Sweet Prince

Versos de Brian Molko, esse senhor...

Never thought you'd make me perspire. Never thought I'd do you the same. Never thought I'd fill with desire. Never thought I'd feel so ashamed. Me and the dragon can chase all the pain away. So before I end my day, remember.. My sweet prince, you are the one, My sweet princeyou are the one. Never thought I'd have to retire. Never thought I'd have to abstain. Never thought all this could back fire. Close up the hole in my vein. Me and my valuable friend can fix all the pain away, so before I end my day, remember: My sweet princeyou are the one. My sweet prince you are the one. You are the one, you are the one, you are the one, you are the one. Never thought I'd get any higher. Never thought you'd fuck with my brain. Never thought all this could expire. Never thought you'd go break the chain. Me and you baby, still flush all the pain away, so before I end my day, remember: My sweet prince, you are the one. My sweet prince, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one, you are the one. My sweet prince...My sweet prince...

Coco de Colbie Caillat

TEMPESTADE NUM COPO DE ÁGUA

De facto, muitas vezes, a promoção que se faz de uma pessoa só a leva a ser prejudicada. O mito que se cria á volta de tanta gente acaba por lhes ser fatal, quando não conseguem corresponder.
Isto acontece com Colbie Caillat.
Dela, contam aquela história tão típica como desinteressante: a da menina que chegou ao mundo da música por acaso. Especificamente, Colbie fez upload de uns videos seus no YouTube, e alguém descobriu a sua fenomenal voz e convidou para gravar um álbum onde figuram muitas das grandes canções do ano.



Eis o erro. Dizerem que ela é autora de grandes canções deixa-nos um travo amargo na boca quando ouvimos "Coco", o álbum de estreia. "Coco" tem quatro ou cinco boas canções e outras tantas medíocres, não tem nenhuma grande canção, e a sua voz não é nada de fenomenal, é uma boa voz, suave, quente, meiga, mas sem nada de especial.
Assim, se a tivessem apresentado como uma debutante do rock acústico e melódico, dela dir-se-ia ser merecedora de todos os elogios que lhe apontassem. Mas Caillat é destruída pela sua campanha.
Falemos objectivamente de "Coco". É construído de canções rock acústicas e simplificadas, entre a Jewel de "Pieces Of You" e a Natalie Imbruglia de "Left Of The Middle", só não é tão surpreendente como era Jewel, nem tão expedita como era Natalie. Mas é aqui que se situa.
"Bubbly" é uma escolha inteligente para primeiro single, pois é uma das melhores faixas de "Coco". Além desta, contam-se "Battle", "Feelings Show" (Ainda que por vezes seja demasiado lamechas.), "Capri", "The Little Things" e talvez também "Oxygen".
A parte mais apagada e escusada do álbum passa por "Midnight Bottle" e "Realize" onde a menina se excede e a doçura torna-se pegajosa. Má ideia.
As restantes canções são médias: interessantes enquanto composições, um pouco previsíveis na letra, sempre bem interpretadas, simplorias e na mesma tonalidade fresca.
Assim sendo, não se pode dizer que o álbum de estreia de Colbie Caillat seja mau, porque não é. Mas ninguém diga que é um grande álbum e que é uma das melhores coisas que a música já ouviu, porque isso está longe de ser verdade. A César o que é de César, e a Colbie o que é de Colbie. Não a Colbie o que é de César. Nem o contrário...


Veredicto: 14/20

Colbie Caillat - Bubbly

Video de avanço de "Coco". Pode ser previsível, mas é coerente. E a canção é boa...

domingo, 16 de março de 2008

Goldfrapp- Utopia

Talvez já tenha fugido á memória de muitos o álbum "Felt Mountain" dos Goldfrapp, a sua estreia em 2000, e com ele "Utopia", primeiro single. Se assim é, a injustiça fica evidente no videoclip oficial, um delírio estético que reforça a carga onírica e etérea da canção.

FamaShow

Portugal é um daqueles países que não dá realce á cultura, mas adora ter supostas vedetas. Na realidade, aqueles que de facto merecem reconhecimento, como são os nossos grandes poetas, os nossos excelentes artistas, os nossos brutais escritores, os nossos óptimos músicos; não saem muito de um quase anonimato que é uma condenação prévia da decisão de serem pessoas ligadas á cultura. No entanto, existem aquelas vergonhosas coisas a que se dá o nome de colunas sociais. E as colunas sociais são fenomenais, porque nada é exigido a quem é falado. As palavras chave são "estar", "aparecer". E são essas as pessoas a quem se dá realce em Portugal. Cinha Jardim, Lili Caneças, Paula Bobone, Vicky Fernandes, Florbela Queiroz, Elsa Raposo... enfim, pessoas que não têm contributos para a cultura, que não têm dinheiro, mas que "aparecem" constantemente na casa uns dos outros, e que "estão" invariavelmente nas mais variadas feiras de vaidades.
"FamaShow", programa da Sic no qual tropecei acidentalmente, é um programa sobre este tipo de pessoas. Aliás, a Sic, no que toca a realçar nulidades não tem concorrência. Desde o "Extase" á "Tertulia Cor de Rosa"... Mas realmente não percebo qual é o interesse de passar um quarto de hora a ouvir o Herman José falar dos cintos que coleciona, enquanto os mostra; ou ouvir falar Tony Carreira da sua biografia...?
Quanto á "Tertúlia Cor-de-Rosa", não resisto em falar do assunto. Costuma estar a passar no restaurante onde almoço com os meus amigos, e só continuo a perguntar-me que prazer masoquista é este que tenho, porque acabo sempre por olhar. Juntam a Maya, o Nuno Eiró, o Cláudio Ramos, a Ana Maria Lucas, a Florbela Queiroz e o Daniel Nascimento á volta da Fátima Lopes (Que não percebo porque se sujeita a espéctaculos deste calibre.) a discutir se o José Castelo Branco tem ou na razão quando diz na capa da Lux (?) que aos 45 anos já atingiu a perfeição (Como se fosse sequer possível duvidar de que não.), a discutir o vestido da Lili Caneças, o rompimento entre o Cristiano Ronaldo e a Merche... enfim, a não falar de nada.
Tudo isto existe, e tudo isto é triste, já diria Amália, mas aqui o sentido é mesmo muito pejorativo. Portugal atrasou-se culturalmente durante a ditadura, e agora, em vez de se preocupar em recuperar o tempo e a sabedoria perdidos, está preocupado em saber quem acabou com quem se foi Merche ou Cristiano. Se eu fosse milionário, eu comprava a Sic e a TVI e fecháva-as... É que eu acho que há limites no que toca a entertenimento. A Sic acha que o "FamaShow" e a Tertulia Cor-de-Rosa são formas de entertenimento, mas são formas de estupidificação de massas, e isso devia ser crime...

sábado, 15 de março de 2008

Tori Amos - A Sorta Fairytale

Eu sei que tenho postado muitas coisas sobre a Tori Amos, mas estava hoje em viagem quando me lembrei deste excelente videoclip, e não resisti em fazer alusão a ele. Tem a participação do vencedor do óscar de Melhor Actor, Adrien Brody, além de ser uma das melhores músicas, tanto do álbum "Scarlet´s Walk" como de toda a discografia da minha querida Myra Ellen Amos. Cheers Tori!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Lovely de Frank Ronan

O ALUCINOGÉNIO

Confesso a minha ignorância, nunca tinha ouvido falar de Frank Ronan, e, se acabo agora de ler “Lovely” é só porque mo emprestaram.
E, não conhecendo a restante obra do autor, é para mim como caminhar em areias movediças estar a falar deste romance. Mas, arriscando-me a dizer asneiras, aventuro-me a comentar uma história que tanto me tocou, precisamente por isso.
“Lovely” é a alucinante história de amor entre Nick e Aaron, dois homens que se conhecem em Goa, no seu ciclo de festas que incluem mulheres chai, álcool, música até de madrugada e vários tipos de droga. Não se trata de um amor á primeira vista, mas de algo que ambos reconhecem como o encontrar de algo que há muito se procurava. Assim sendo, na primeira parte, “O Amor”, é-nos descrita forma como a sua relação germina, numa espécie de mundo onírico em que nada poderá correr mal, pois tudo é apanhar sol na varanda ou na praia, passear com os amigos, viajar de barco e fumar charros até ás tantas da madrugada. Assim, Nick e Aaron dão-se a conhecer um ao outro, o primeiro proveniente de um passado problemático que inclui prostituição e um sem-número de relações mal sucedidas; ao passo que o segundo tem apenas histórias bonitas e quase surrealmente boas, que passam por uma vida em que atingiu tudo o que quis atingir. Estas insignificantes realidades opostas virão a ganhar relevância na segunda parte, “A Vida” em que os vícios de Nick com a droga e o álcool se revelam diários, e não esporádicos, ao passo que o círculo de classe média-alta de Aaron considera o seu novo namorado indigno do amor dele. E, enquanto Aaron se esforça por ajudar Nick, este parece empenhado em dar razão aos descrentes amigos e familiares de Aaron.
Assim, a relação de ambos vai-se destruindo, enquanto fica cada vez mais ténue até para o próprio Aaron se ama Nick ou o que Nick poderia ser, e este último fica demasiado afogado em álcool para permitir que as coisas corram bem, e para permitir a si próprio honrar o amor extremo que tem por Aaron.
Inserido no Dirty Realism de David Leavitt, Jay McInnerney e Raymond Carver, Frank Ronan consegue atingir aquele que é um dos objectivos máximos desta corrente: retratar um tipo de realidade que, mesmo nos dias de hoje (Não devemos considerar um livro de 1996 antigo.) é abordada com muito pudor, ou então não é abordada de todo. É o caso deste romance sobre uma relação amorosa entre dois homens, mas Ronan consegue, ao mesmo tempo, relatá-la sem cair nos lugares-comuns de mostrar como é que uma relação vítima de preconceitos sociais consegue triunfar. Não há rumores de preconceito social aqui. A questão é assumida da forma como (Afirmo.) deve ser assumida: como uma coisa normal. É essa a qualidade principal da narrativa deste escritor: foca-se na realidade íntima destas pessoas, aproxima-se da esfera do inconsciente, e não se deixa distrair por questões paralelas que pouco acrescentariam. Por outro lado, em relação á escrita, é a normal dentro desta tendência essencialmente americana: descrições rápidas (Que deixam um espaço para a imaginação do leitor.), ambientes mais ligados ao underground e uma brutal fluidez de texto que faz dele pouco maçudo e muito empolgante.
Portanto, recomendo.

Veredicto: 18/20

quinta-feira, 13 de março de 2008

o poema

Poderia gastar muita tinta a escrever sobre um corpo ou vários. Porém apenas o instante do encontro é precioso. Viver a cena sem palavras, o ritual.
Na penumbra os corpos tocam-se antes da sílaba inaugural. Começar é sempre um escândalo, é desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência.


ISABEL DE SÁ
"Em Nome do Corpo", 1985






ISABEL DE SÁ, "O Caminho do Paraíso", 1981

quarta-feira, 12 de março de 2008

Tori Amos - Me and A Gun

Ao vivo, uma das melhores canções de Mayra Ellen Amos. Um daqueles intemporais...

Marilyn Manson - The Beautiful People

Lembram-se???

terça-feira, 11 de março de 2008

downhearted blues


Gee, but it's hard to love someone
when that someone don't love you!
I'm so disgusted,
heart-broken, too;
I've got those down-hearted blues;
Once I was crazy
'bout a man;
he mistreated me all the time,
The next man I get has got to promise me
to be mine, all mine!

Trouble, trouble,
I've had it all my days,
Trouble, trouble,
I've had it all my days;
It seems like trouble going to follow me to my grave.

I ain't never loved but three mens in my life;
I ain't never loved but three men in my life:
My father, my brother, the man that wrecked my life.

It may be a week,
it may be a month or two,
It may be a week,
it may be a month or two,
But the day you quit me, honey,
it's comin' home to you.

I got the world in a jug,
the stopper's in my hand,
I got the world in a jug,
the stopper's in my hand,
I'm gonna hold it until you meet some of my demands.

BESSIE SMITH