segunda-feira, 10 de março de 2008

o livro

que eu gostava de ver publicado.

Chama-se "Holy Wood" e seria a versão literária do melhor álbum de Marilyn Manson. Devido á controvérsia política e religiosa, nenhuma editora o quis publicar. Mas seria bom, a avaliar pela narrativa do álbum...

domingo, 9 de março de 2008

uma das mais cómicas

recordações do Fantas de 2008, será certamente o spot do Toyota Aygo Fantas...

http://www.youtube.com/watch?v=XlsdJhw78mc

sábado, 8 de março de 2008

hoje estou

ao lado dos professores, em Lisboa... força nisso!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Europa de Lars Von Trier

EUROPA QUERIDA EUROPA

Muito se fala, escreve, filma, canta... sobre a Europa. De facto, por muito que os EUA sejam uma grande potência, ou que África cresça, a Europa é um espaço único, rico em História e histórias, em que todos os povos têm altos e baixos que sempre são dignos de serem retratados pela arte, que nunca se coibiu de o fazer.



Encerrando a trilogia sobre a Europa que começa com "The Element Of Crime" (1984) e "Epidemic" (1988), "Europa" (1991) de Lars Von Trier é, provavelmente, um dos melhores exemplares artísticos a reflectir sobre essa Europa em que vivemos mas que por vezes não vivemos. Escrito a meias com Niels Vorsel, o filme decorre na Alemanha do pós-2ª Guerra Mundial. Esta é uma época em que muitos já se debruçaram, não fosse a história de uma carismática carga romantica/ nacionalista (No bom sentido.) de um país humilhado e destruído que se reconstroi e volta a erguer a cabeça para entrar no futuro. É neste contexto que um idealista jovem americano se muda para a Alemanha, na esperança de mostrar alguma simpatia pelo tal povo que se reconstroi.
Arranja emprego a bordo do chamado sleeping car (comboio onde há quartos para viagens de vários dias) a bordo do qual se apaixona pela filha do dono da Zentropa, a empresa que possuiu esses comboios.
Incuido, então, no círculo íntimo da casa do patriarca, vê-se frente-a-frente com a parte suja da Alemanha pós-Nazi, em que se procuram aqueles que haviam apoiado Hitler, e quando não se encontram, a corrupção resolve o assunto, encontrando os culpados através de provas forjadas. É o caso do dono da Zentropa.
Envolvido no meio da trama, o nosso protagonista acaba por se ver envolvido numa conspiração menos recomendável, e por descobrir uma Europa bem diferente daquela que fantasiava quando vivia nos Estados Unidos.
A nível técnico, Von Trier arrisca tanto como arrisca em quase todos os seus filmes. Utiliza mairoitariamente o preto e branco, e por vezes, a cor, utilizada de forma simbolista ou para representar uma qualquer alteração de ambiente (Físico ou psicológico.). Os planos em que vemos a linha férrea do "ponto de vista" da frente do comboio são belíssimos, assim como as frases que o voz-off diz nesses mesmos planos.
Há influências claras do film-noir, desde a corrupção por parte das autoridades, á conspiração, á pelicula a preto e branco, á femme fatale, á degradação cénica.
A realização em si é excelente, por vezes drástica, mas sem excessos, o que faz com que o forte dramatismo de certas imagens não caia no ridículo e não pareça inusitado e feito mais para chocar do que para contruir uma narrativa.
Seria possível inserir este filme numa espécie de realismo, no sentido do século XIX, no sentido em que retrata com exactidão a realidade de um tempo, neste caso a Europa desmoronada dos anos que se seguiram á II Guerra Mundial, com todas as rupturas e todas as implicações que esses anos trouxeram. Aliás, em certas cenas, é tão realista que é difícil acreditar que este filme foi realizado em 1991, 45 anos depois do fim da guerra.
É mais uma obra prima de Lars Von Trier, exibida no Pequeno Auditório do Rivoli, como parte do Tributo do Fantas a Max Von Sydow. De qualquer forma, para o ano, desliguem o aquecimento na sala, senão adormece-se ao fim de meia hora.


Veredicto: 20/20

quinta-feira, 6 de março de 2008

Killer Condom de Martin Walz

PROTECÇÃO PERIGOSA

É muito, muito, muito frequente em cinema que uma comédia boa seja um filme mau. Ir pelo caminho do humor intelectual de Woody Allen ou Almodovar pode originar grandes filmes (E origina.) mas origina também uma má recepção por parte do público.



Martin Walz envereda pelo caminho de um humor mais fácil e até brejeiro neste "Killer Condom". A premissa baseia-se nos comic books de Ralf Konig: uma manhã, a polícia é invadida de queixas de homens a quem foram arrancados os órgãos sexuais. O detective Luigi Mackeroni é chamado para vir resolver o caso. No decorrer das suas investigações, que começam no hotel onde trabalhavam as prostitutas acusadas do crime, envolve-se com Billy, um prostituto, mas antes que consigam fazê-lo sexualmente, um preservativo munido de dentes arranca um testículo a Mackeroni.
Agora envolvido pessoalmente no caso, Luigi acaba por chegar á origem destes seres que se revelam na realidade astutos projectos de engenharia genética.
O que estraga o filme, no entanto, não é a história, mas sim a excessiva normalidade com que esta é contada. Quando uma personagem diz qual é o voo em que Jesus Cristo chegará a New York isso é como dizer qual é o dia da semana em que estamos.
Além disso, algumas imagens surgem por via do facilitismo. Podem fazer rir o público, mas só pioram em termos técnicos o filme, que é um dos mais medíocres que tenho visto.
A realização é normal, por vezes um pouco parada, ao longo de filme, encontram-se também cenas em que é demasiado óbvio que tudo é encenado. Peca também pela apresentação esteriotipada de certos personagens como o travisti Bob/ Babette.
Sem ser um filme pertinente, vale pelo que vale, é um amontoado de risos acumulado num filme dispensável.




Veredicto: 9/20

quarta-feira, 5 de março de 2008

La Habitacion de Fermat de Luís Pedrahita e Rodrigo Sopeña

MATEMÁTICA APLICADA

Pode o filme não ser brutal, pode ter muitas arestas por polir, mas há que dar crédito a Luís Pedrahita e Rodrigo Sopeña porque o seu primeiro filme é, na realidade, um excelente início.


La Habitacion de Fermat” parte de uma premissa simples: quatro matemáticos respondem correctamente a uma carta de apuramento para irem passar o fim-de-semana a tentar resolver ao que o enigmático Fermat, autor da carta, chama “o maior mistério matemático de sempre”.
Ao chegar lá, os matemáticos vêem-se encurralados na sala que começa a encolher á medida que levam demasiado tempo a resolver os enigmas que lhes são enviados por PDA.
Lentamente, começam a aperceber-se das ligações que existem entre si.
Ainda que esta premissa nos possa remeter intuitivamente para o díptico de “Cubo” e “Hipercubo”, “La Habtacion de Fermat” não envereda por esse caminho, nem pouco mais ou menos.
Á primeira vista, no filme, há um abuso insultuoso da coincidência, mas, na realidade, a resolução do filme vai mostrar-nos que não há coincidências, pelo menos aqui. Também uma reviravolta no final, relacionada com o facto do protagonista ter resolvido o enigma de Goldbach (Sem resolução há 250 anos.) vem acrescentar alguma credibilidade á história.
O argumento está bem conduzido, a realização arrisca pouco, mas ainda arrisca, alguns planos estão francamente mal concebidos (Ver um acidente de carro de cima não é uma boa ideia, é irreal e óbvio.)
Algumas partes do filme desenrolam-se muito depressa, o que nos vem mostrar, ou pelo menos a mim, que matemática não é mesmo a minha área.
Enfim, estes cineastas prometem mais, eu acredito. Gostei do filme, não o adorei, recomendo, e fico feliz por vê-lo no Fantas.

Veredicto: 16/20

terça-feira, 4 de março de 2008

I´m a Cyborg But That´s Ok de Park Chan Wook

O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO



Provavelmente, por mais que faça, Park Chan Wook será sempre relembrado por “Old Boy”. Rapidamente, tal filme ganhou o estatuto de filme de culto, e o nome do seu realizador está a ele para sempre associado. O que não quer dizer que Chan Wook não tenha feito filmes tão bons ou que venha a fazer melhores do que “Old Boy”.
Melhor, “I´m a Cyborg But That´s Ok” não será, mas é, certamente, em muitos aspectos, tão bom como “Old Boy”.
Esta é a história de uma rapariga que, na sequência de um acidente que se assemelha a uma tentativa de suicídio, é internada num asilo psiquiátrico. Na sequência do acidente, a rapariga começa a acreditar que é um cyborg. Mas não se importa.
Remexendo o seu passado, descobrimos que é filha da dona de um restaurante e neta de uma senhora que acreditava ser um rato, tal como agora a neta pensa ser um cyborg.
A psicose da avó leva-a a ser também internada. A neta acredita, então, que a sua missão é ir resgatar a avó, levar-lhe os rabanetes que esta comia o tempo todo, e aproveitar para matar os médicos que haviam levado a senhora.
Mas a rapariga sente compaixão desses médicos… pensa se eles não terão avós que também sofram com a sua perda.
Assim sendo, é de todo o conveniente que encontre um rapaz que consegue roubar características ás pessoas. Então, ela pede-lhe para lhe roubar a compaixão, para poder prosseguir na sua missão. É neste contexto que se apaixonam.
Ora, Park Chan Wook tinha muitas formas de explorar esta premissa, e, consequentemente, muitas maneiras de o arruinar. Mas a verdade é que não o faz. O seu percurso que muitas vezes passa pelo violento e pelo (Não tenhamos medo da palavra.) gore, mas a abordagem que faz á história de “I´m a Cyborg But That´s Ok” é não só bastante sensível como por vezes também idílica, o que só é conveniente, uma vez que faz um uso mais pleno da situação espacial e psicológica dos personagens.
O que falha então, na mais recente película de Chan Wook? Uma coisa crucial: a montagem. Terá o realizador esquecido o significado do conceito de “eliminar cenas”, para retirar o obsoleto? Poderá até ter sido intencional, mas, a verdade é que este excesso de pormenores desnecessários não melhora em nada o filme. Dá, aliás, a sensação de que estes 105 são três horas. O melhor exemplo é o final do filme que poderia ser contado de uma forma mais rápida e eficaz com a primeira das três cenas finais.
Ainda assim, temos em “I´m a Cyborg But That´s Ok” um sério candidato ao prémio do Fantasporto 2008. E não estaria mal entregue.

Veredicto: 17/20

segunda-feira, 3 de março de 2008

Graça Martins: Sleeping Beauty (2004)

Qualquer texto com referências biográficas começaria por dizer que Graça Martins nasceu em 1952, mas o ano em que nasceu, e a consequente idade não parecem influenciar o trabalho desta artista, na medida em que não reflectem um envelhecimento enquanto pessoa. A base do trabalho desta artista plástica é a sua capacidade de olhar para o que a rodeia, e de se conseguir identificar em tudo isso. Posto isto, não é de estranhar que, ainda que as raparigas que pinta, retratando ao mesmo tempo as realidades urbanas contemporâneas, não sendo auto-retratos, não perdem a evidente carga autobiográfica.
Se quisermos dividir o seu trabalho em fases, de forma a traçar uma evolução, podemos dizer que, primeiramente, havia um primado do desenho, que acabava por proporcionar uma abundância de pormenores e um perfeccionismo obsessivo (Não no sentido pejorativo.). Aqui se inserem, por exemplo, as suas características meninas em pijama, onde a cabeça é eliminada, de forma a concentrar a atenção do espectador na expressão das riscas e das curvas dos pijamas. Iriam ser precisamente estes desenhos, a grafite, que haviam de levar a Graça Martins o 1º Prémio do Bicentenário da Invenção do Lápis, concorrendo com cerca de 700 candidatos. E não ao acaso. A astúcia com que domina a técnica vem de facto mostrar que só podemos estar perante uma postura artística prodigiosa.




Nesta tendência mais “desenhista” enquadram-se também os inúmeros retratos de escritores, quer seus amigos, como os poetas Isabel de Sá ou Eugénio de Andrade, quer outros que admira, como Florbela Espanca ou Rimbaud. As capas de livros que faz, também, desde os anos 70, marcam um registo ainda mais poético do desenho de Graça Martins. Contam-se capas para livros de Isabel de Sá, Maria Teresa Horta, entre outros.
Numa fase mais recente, o trabalho de Graça Martins evoluiu no sentido da simplificação. Num registo ligado á influência da pop art, continua a retratar as suas tão características meninas, sempre no sentido de evidenciar alguma ideia. Como feminista que é, os seus trabalhos remetem-nos frequentemente para temáticas ligadas á condição feminina. Olhemos para “Silence”, em que uma menina de beleza extraordinária se resigna ao silêncio. Nestas séries, ainda que haja um equilíbrio entre pintura e desenho, não deixa de se notar a mesma subtileza no traçar do desenho. Também a sua formação em Design Gráfico se nota, indo, também ele, de encontro á tendência da pop art. Quer seja na inserção de fotografias nas telas (Veja-se a homenagem a Rimbaud.), quer pela utilização de palavras (“Don´t Forget Me”), quer pelo desenho de objectos do dia a dia (“As Minhas Botas”).


“Silence”


“Sleeping Beauty” será, provavelmente, o expoente máximo da fase actual da obra de Graça Martins. A fase em que o desenho meticuloso se encontra com uma pintura simples pop art, com uma tendência gráfica também.
São raparigas de ambientes urbanos, a denunciar problemas e condições ligados ao universo feminino urbano. Não no sentido de reivindicar ou escandalizar, mas usando a observação como forma de denúncia desses problemas ou ambientes. Não só o silêncio, o resumo á beleza, os estereotipos que vitimam a mulher, como também outras mais poéticas, por exemplo, a beleza e simplicidade de um olhar em “The Look” ou a vontade de expressão em “The Key”.


“Enquanto Não Se Esquece o Passado”


Mas, há algo de comum em todos os trabalhos da colecção, seja qual for a sua temática: a sensibilidade com que são abordados. Há erotismo em cada uma das telas, há simbologias, evidentemente, mas há, principalmente, sentimentos, que o corpo, e a sua expressividade nos mostram, há sentimentos em cada cara que é tapada (“The Night Of Cinderella”, “Enquanto Não Se Esquece o Passado”.), em cada seio que se revela quase involuntariamente (“Sleeping Beauty”, “Enquanto Não Se Esquece O Passado”.), em cada abraço (“Urban Teenagers”), na solidão ou companhia de cada uma (“Lolitas”). São meninas ora resignadas, ora emancipadas, ora desorientadas, ora conscientes, ora acordadas, ora adormecidas. A isto pode-se chamar, sem perigo, poesia visual.



“The Look”



A utilização da cor insere também as personagens nesses estados de alma. O azul calmo e nostálgico de “Enquanto Não Se Esquece O Passado”, o laranja quente em “The Look”, o cor-de-rosa sensual de “The Night Of Cinderella”, os laranjas tropicais em “I´ve Got You Under My Skin”.
E, para finalizar, as imagens que se inserem na imagem principal culminam a ideia. As botas de “As Minhas Botas”, os sapatos da Cinderella, a Vitoria de Samotrácia de “Enquanto Não se Esquece o Passado”, as fotografias silenciosas de “Don´t Forget Me”, a apetecível romã de “The Look”.
É certo que a exposição já é de 2004, e correntemente, não está exposta em nenhum lugar, mas qualquer reposição deve ser vista, por toda a gente.

domingo, 2 de março de 2008

Lou Rhodes na Casa da Música

BETWEEN WONDER AND WONDER

As onze horas Oddur Mar Runarsson subiu ao palco para cantar algumas das suas canções, carregando assim o peso de uma plateia que não estava ali para o ver. Ainda assim, não se pode dizer que tenha corrido mal.

Pouco depois, acompanhada das suas duas guitarras, a cantora que todos esperavam entra em palco: Lou Rhodes é uma mulher bonita, cheia de ambiguidades, há nela algo de sereno e algo de selvagem, algo de angelical e algo de humano, tem um aspecto jovem, mas a sua voz parece velha, as suas músicas parecem existir há muito tempo, e no entanto, parece que cada momento da música nasce ali mesmo pela primeira vez.
De facto, é estranho que, ao promover “Beloved One”, mais simples a nível instrumental, Lou tenha feito digressão com uma banda, e, agora, em “Bloom” onde a diversidade e complexidade instrumental são bem maiores se apresente em palco sozinha. Mas, logo em “The Rain”, uma coisa fica muito evidente: as músicas não perdem força nem energia ao serem despidas de tudo o que não seja guitarra acústica e voz.
Lou tem uma postura tímida, por vezes até demais, mas a entrega ás canções é total, e canta-as como quem de facto as sente.
Assim, quando a sua voz de faz ouvir cantando
“I know a man with the world on his shoulders
And angel´s wings on his back…”
não há muitas probabilidades de sentirmos a falta dos restantes instrumentos. Prossegue por “This Love”, que, estranhamente soa melhor assim, na versão de solo de guitarra.
No Re-Run” marca o primeiro ingresso pelo primeiro álbum, “Beloved One”, numa versão que o que perde em fluidez ganha em ritmo. Em “Tremble” pede a ajuda do público para marcar o ritmo (De que a canção muito vive.) batendo palmas.
Uma das melhores músicas de “Bloom”, “Bloom”, ainda que muito bem interpretada, é uma das poucas que de facto, perde pela redução instrumental. Sem as notas de xilofone, apenas com a guitarra e a voz, fica a parecer uma música demasiado repetitiva e simples. O som nocturno não se perde, ainda assim. “Each Moment New” pontua também, sendo não só um dos mais comoventes momentos ao vivo como uma das melhores canções que Rhodes já escreveu (Lamb incluídos.) e nesta nova roupagem ganha um intimismo que muito bem lhe fica. Depois de uma pequena conversa sobre como uma música assume diferentes significados de acordo com a fase que uma pessoa atravessa, Lou lança-se na interpretação de “Beloved One” que, como “No Re-Run”, o que perde em fluidez, ganha em ritmo. A versão de “Tin Angel” de Joni Michell é lindíssima, sem dúvida. Antevisão de um terceiro álbum, “Some Magic Day”, resulta numa canção que, ainda que musicalmente muito interessante, peca pela predicabilidade da letra. “Icarus”, momento nada transcendente no álbum, soa ao vivo a uma espécie de feixe de luz sobre a figura introspectiva de Lou Rhodes: muito bonito. Segue-se um dos picos de beleza de “Bloom”, “All We Are”, do qual é melhor nem falar por ausência de palavras. Como que apalpar terreno, segue-se a versão á capella de “Gabriel”, resgatada ao “What Sound” dos Lamb. Momento de uma estética muito diferente do que Rhodes faz agora, resulta bem. “Never Loved (A Man Like You)” é também um belíssimo momento, onde, mais uma vez, os instrumentos fazem alguma falta, ainda que não retirem de todo a carga emotiva á canção. Fazendo-me sofrer até ao último momento, Lou guardou a minha preferida para o final, “They Say”, absolutamente perfeita. Os encores foram feitos com “Save Me” (Onde Lou se engana na letra, o que não devia ter deixado perceber…) e com “Sister Moon”, uma das canções que me parece menos pertinente no contexto do álbum.
Relatado o concerto que amei, ficam as minhas palavras de ódio:
Primeiro ao público: estava a sala cheia de pessoas que claramente desconheciam as canções de Lou Rhodes, limitando-se a conhecer, provavelmente, “What Sound”, álbum de mais projecção dos Lamb. Não se esforçavam por aderir ás canções, limitando-se a aplaudir sem grande convicção no final. Devem ter sido meia dúzia de pessoas a bater palmas quando Lou o pediu em “Tremble”. No final, os comentários que ouvi eram de uma grande ignorância do contexto desta carreira a solo: queixavam-se da falta de banda (Quando Rhodes alega, desde “Beloved One” que quer que a sua música se faça apenas do que lhe é essencial, o que muitas vezes pode ser só uma guitarra e voz.) e da timidez da cantora (Que sempre assim foi.). Sinceramente, acho que quem não conhece a música nem devia poder ir ver. Se estivesse no lugar de Lou Rhodes estaria muito mal impressionado com o público. Desrespeitaram-na totalmente, atirando-lhe uma indiferença que é nojenta, como se ela só tivesse o direito de cantar as músicas do Lamb. O PÚBLICO PORTUGUÊS É UMA VERGONHA!
Segundo, á Casa da Música: é suposto ser um espaço onde se abriguem vários tipos de música, mas, na realidade, há por norma orquestras de música erudita e bandas de jazz. O resto das duas uma: ou não vai, ou vai á sala pequena, que é o caso. O programa da Casa da Música é elitista e fechado, ignora muitos tipos de música. Fica a minha deixa. Recomendo que vejam estas canções ao vivo, vivamente. Blessings Lou…

Veredicto: 19/20

sábado, 1 de março de 2008

o poema

tragam-mo ainda que ao
longe, esse amor meu, dou
alvíssaras de fantasma, subirei
à tona dos sorrisos como flecha
do vosso cupido, tragam-mo
por favor ainda que ao
longe, a ver-me o vazio dos
olhos onde só ele pode caber

perguntem-lhe por mim e
se pode vir
para recolher o
meu corpo no fim
só bulido pelo vento

e se o vento é conjunto
de pássaros invisíveis ou seres
tão claros, escondam que sou
cruel, que fico a debulhar
anjos como flores para saber
se bem ou mal me quer


valter hugo mãe
"o resto da minha alegria"
isabel lhano, "volúpia" 2001

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

The Tatooist de Peter Burger

ONDE É QUE EU JÁ VI ISTO?




Muitas vezes acontece, em cinema, em literatura, em pintura…, ou seja, na arte, que algo resulte bem enquanto peça individual, mas que resulte nalgo fraco por vir repetir ideias que já muitos outros exploraram.
Quem se lembra de “The Ring” em que uma cassete de vídeo fazia proliferar uma maldição, por exemplo?
The Tatooist” tem a mesma sinopse, mas em vez de se tratar de uma cassete, trata-se de uma tatuagem.
Jake é um tatuador que numa das suas viagens rouba uma ferramenta de um grupo de tatuadores de Samoa. Mais tarde, acidentalmente, corta-se com ela. No momento em que roubara a ferramenta, também se apaixonara por uma rapariga dessa tribo. Portanto, decide procurá-la para lhe devolver o objecto roubado. Para a encontrar volta a trabalhar numa loja de tatuagens onde trabalhara há um ano atrás.
A certa altura, as tatuagens que fazia começavam a crescer, até que a pessoa morria. É quando se apercebe que o corte que tem na mão, feito pelo instrumento roubado, amaldiçoa as tatuagens que faz.
O filme é salvo pelas referências culturais (A Samoa e á tradição das tatuagens.) que sempre ajudam a retirar alguma predicabilidade, que se faz sentir nos cenários e nos personagens. Jason Behr, o protagonista, foge um pouco á regra, pelo ar lacónico e pelo aspecto entre o bem intencionado e o bad boy. As tatuagens que o filme mostra são também de muito mau gosto, do mais esteriotipado possível.
A realização de Peter Burger não arrisca um único milímetro além do previsível, fazendo uso de planos muito utilizados (O plano contrapicado que mostra o carro a chegar, e desce mostrando a placa da loja e por fim o carro a parar e Jason Behr a sair do carro.), e sem nenhuma preocupação em surpreender.
Alguns diálogos são irrealistas, sem dúvida, parecendo ser canalizados não para tornar o filme credível, mas para o tornar mais rápido.
O desfecho do filme é interessante, com algumas cenas potencialmente comoventes, filmadas da forma apropriada.
Ponto positivo para as aparições do espírito, que, ainda que á primeira vista possam parecer literalmente estúpidas, acabam por ser fortes e brutas.

Veredicto: 14/20

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

My Dream de Wang Honghai

A NIGHTMARE ON FANTASPORTO

O título do filme é “My Dream”, mas sobre ele, na maioria das cenas, só se pode falar de pesadelo.
“My Dream” não tem premissa. É uma sequência de performances musicais, vocais ou de dança levadas a cabo por deficientes (Cegos, surdos, paralíticos…).
A primeira sequência, em que, numa coreografia, um grupo de surdos interpreta a história de Buda deixa-nos maravilhados. É um delírio estético, uma explosão visual, e, definitivamente, um momento que todos gostaríamos de relembrar até ao mais ínfimo detalhe.
O problema chega logo a seguir. Durante as filmagens do ensaio para aquela peça, vemos legendas que nos dizem que todo o ser humano tem direito a uma vida digna, a ser feliz, a amar… todos esses moralismos feitos que aprendemos e repetimos, por vezes mais por hábito do que por convicção.
Vai acontecendo isto em todas as cenas do filme. As performances são belíssimas, dotadas de uma concepção visual brutal, mas as legendas vão arruinando o filme.
Momentos de referência pela positiva são, claro, a história de Buda, e “A Alma do Pavão” coreografia espectacularmente assumida por uma surda.
Pela negativa, há também que realçar os momentos de canto. Sendo o filme chinês, garanto que o mais inteligente seria não o legendarem. As letras vão buscar as frases aos referidos moralismos, e, como se tal afronta não fosse suficiente, o realizador filma-as como se se tratasse de uma versão chinesa do Festival da Eurovisão da Canção. Em relação precisamente á realização devo dizer que não é nada de especial. Nas performances não vai para além do esperado, nos making of atingem um ou outro plano mais interessante, mas é raro.
Não quero que se leia aqui que descrimino os deficientes ou algo do género. O que eu quero dizer é que nos primeiros momentos, é-nos dada a impressão de que se tratará de um filme disposto a mostrar-nos o que eles conseguem fazer e de, através das suas performances nos mostrar que, efectivamente, as deficiências de que sofrem não influenciam tanto assim o potencial que tenham para a arte. Em vez deste caminho, Wang Honghai escolhe ir pelo moralismo repetido, que só torna o filme mais previsível e enfadonho, e que acaba por transmitir de uma forma vulgaríssima aquilo que as imagens expressariam de uma forma mais insólita, eficaz, e certamente o filme seria melhor.

Veredicto: 10/20

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Undead Or Alive: A Zombedie de Glasgow Phillips

ZOMBAR DOS ZOMBIES


Aqui começam as minhas incursões no Fantas!!!!
Undead Or Alive” é um filme que assume o seu objectivo no título: criar uma comédia de zombies. Este é um conceito já visto noutros filmes, como “Scary Movie” faz com os filmes de terror, ou “Not Another Teenage Movie” com os filmes de adolescentes. Fasquias de qualidade aparte, querer zombar do trabalho de outras pessoas é um acto que requer cuidado. Primeiro porque há que fazê-lo sem insultar as pessoas com quem se goza, e segundo porque a vontade de satirizar pode conduzir a uma diminuição da qualidade da peça a conceber. Assim sendo, neste tipo de trabalhos há que ter um apuradíssimo know-how.
Glasgow Phillips consegue criar um filme em que não desrespeita os cineastas que se dedicam ou dedicaram aos filmes de zombies. Nestas duas condições básicas, falha, essencialmente, em deixar-se levar por certos clichés que, logicamente, em nada abonam a seu favor: Na sequência de abertura, um zombie recém-convertido, tentando entrar em casa, enfia um pé num balde. Isto é só um exemplo.
Em relação á sinopse, ela não traz nada de novo: dois presos na sequência de uma briga, fogem e prendem o guarda na cela ao lado da de um homem (Um zombie.) que havia assassinado a mulher e a filha á dentada. Este homem acaba por morder o guarda, que depois morderá o xerife, e, no decorrer do filme, a doença zombia vai assim proliferando.
Os dois foragidos vão fugindo pelo meio do deserto, perdidos, e cruzam-se com uma rapariga índia que veio para assassinar os assassinos do seu tio, o homem que lançara a maldição do zombie naquelas pessoas.
Nisto mistura-se a temática do zombie com reminiscências do western, reforçadas pelas letras do genérico, e pela banda sonora que usa várias músicas country.
No geral, tem uma realização boa, sem ser ousada e sem arriscar muito. Por vezes, a obsessão de gerar gargalhadas no público “empata” a história, que fica por momentos em segundo plano. Ainda assim, consegue bons picos de humor, usando algumas cenas picarescas que recusam o previsível (Por exemplo, a discussão entre o cowboy branco e a índia, em que, num momento de desespero, para discutirem qual das raças é melhor usam argumentos como a invenção da roda e as maldições, ou numa outra cena, o padre desesperado por água que se vê encurralado pela própria distracção.). Também a componente inevitável do amor se faz sentir de uma forma inesperada.
A propósito de efeitos especiais, há uma coisa a dizer: são do pior que há. Rudimentares, parecem ter saído das mãos de um aluno do 5º ano de escolaridade, sem formação em cinema ou multimédia.
Indubitavelmente um filme que opta por jogar pelo seguro, “Undead Or Alive” é bom para arrancar risos mesmo as mais sisudos mas enquanto peça cinematográfica é um filem longe de assinalável.

Veredicto: 13/20

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

untitled project

A Ana Sofia Guimarães (Do blog CineSystem.) e eu estamos a iniciar um projecto que culminará num filme (Correntemente com nome não decidido.), e estamos, para escrever o argumento, a levar a cabo entrevistas com alguns artistas plásticos e escritores portugueses. Já que não figurarão no resultado final, os vídeos das oito entrevistas poderão ser visionados nos nossos blogs.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

domingo, 24 de fevereiro de 2008

The Editors - Blood (live)

Dias 2 de Abril no Campo Pequeno, em Lisboa, e 3 de Abril no Coliseu do Porto...

Lou Rhodes - Gabriel

No NorteShopping. Dia 1 de Marçp momentos como este esperam-me a mim e a quem mais for assistir ao concerto de Lou Rhodes na Casa da Música. Indispensável...

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Natália Correia: Anoiteceu No Bairro

Terminei a leitura do primeiro romance de Natália Correia. Publicado em 1946, "Anoiteceu No Bairro" é um livro que surpreende ao tratar-se do primeiro romance de uma escritora. E surpreende primeiro pela ousadia na composição e na própria concepção da história, depois pela prodigiosa análise social que parece tocar em todos os tipos de pessoas que nos rodeiam, e por fim pela linguagem poética e acessível de que a escritora açoreana faz uso.
De facto, "Anoiteceu no Bairro" centra-se na personagem de Luísa, mas não se limita a esta, bem pelo contrário. É a gente do Bairro do Quebra-Potes que faz a história. Desde o avarento merceeiro á mãe de família que estupidamente se subordina ao marido, ao vendedor de castanhas assadas á menina de boas famílias que engravida e aborta.
É também, quando visto de uma forma mais atenta, um manifesto feminista e social: se, por um lado, vemos a completa estupidificação de algumas mulheres, por outro vemos a vontade de luta e de independência por parte de outras. E, numa fase mais avançada, e numa dimensão mais profunda, a luta de um povo, o português, que vive de costas para o futuro e virado para as histórias do passado que já se contam sem convicção.
É preciso ter em conta que este romance foi publicado ainda em plena ditadura salazarista, o que certamente tem o seu peso. Mas, há uma enorme ousadia, um atrevimento revolucionário nestas linhas. Há o retrato realista dos podres de pessoas que vivem de aparências, há tudo o que normalmente se quer escamotear.
Natália Correia tem aqui um texto que já demonstra muitas das características que haviam de se fazer notar ao longo de toda a sua carreira: na poesia, que incia no ano seguinte com "Rio de Nuvens", no romance, que retoma nos anos oitenta, e no teatro.
Este é um romance sem poder suficente para competir com "A Madona" ou sem carisma suficiente para competir com "As Núpcias", mas é, certamente, o mais realista de todos, seguindo tanto uma linha ideológica mais queiroziana, mas tambem um pensamento ligado a Nietsze, e uma estrutura narrativa que remete a Dostoyevski ou Tolstoi.
Veredicto: 18/20

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Recorto a Minha Sombra

Recorto a minha sombra da parede,
Dou-lhe corda, calor e movimento,
Duas demãos de cor e sofrimento,
Quanto baste de fome, o som, a sede.

Fico de parte a vê-la repetir
Os gestos e palavras que me são,
Figura desdobrada e confusão
De verdade vestida de mentir.

Sobre a vida dos outros se projecta
Este jogo das duas dimensões
Em que nada se prova com razões
Tal um arco puxado sem a seta.

Outra vida virá que me absolva
Da meia humanidade que perdura
Nesta sombra privada de espessura
Na espessura sem forma que a resolva.

JOSÉ SARAMAGO, "Os Poemas Possíveis", 1966

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Isabel de Sá: The Love Box



A poucos dias do final da exposição, falo de “The Love Box” de Isabel de Sá que, além de artista plástica é também poetisa, já referida recentemente nos posts do Camel & Coca-Cola.
Mas quem pensa na poesia de Isabel de Sá leva algum tempo a acreditar que é também ela a autora de peças de pintura como “Folhas” ou, uma vez que são frutos de uma pintura aparentemente espontânea e explosiva mais do que racional e perfeccionista, como é a poesia.
É obvio que nada daquilo que a artista terá feito até á data é feito ao acaso. Em termos de pensamento, portanto, será errado dizer que a poesia e as artes plásticas em Isabel de Sá, nascem de formas opostas. Do que se fala é do resultado final. E ao passo que na escrita tudo é pormenorizado, pensado, calculado, a maior parte dos seus trabalhos como artista plástica resultam em imagens explosivas, de carácter impulsivo e de uma beleza que mistura a agressividade com a inocência.
Mas “O Rosto do Mundo” de 2005, já parecia dar sinais de fuga a toda essa explosão aparentemente irracional. Assim, estas pinturas/colagens, fundiam o estilo habitual de Isabel de Sá com uma composição mais pensada.
“The Love Box”, um muitos dos seus componentes, já se aproxima mais de um perfeccionismo calculado, e revela-se, então, um trabalho insólito no percurso da artista de Esmoriz.
E esta aproximação ao resultado final que observamos no seu trabalho como escritora é na realidade muito coerente com a génese do trabalho.
Este é o abrir da gaveta do artista/escritor, a revelação dos seus instrumentos de trabalho, ou seja, o que temos, nestas 39 peças, é uma junção do universo da pintura com o universo da escrita. Isabel de Sá insere em caixas, telas ou placas de madeira objectos do seu quotidiano, essencialmente do(s) seu(s) trabalhos. Desde livros a lápis de cor, pincéis, CDs, a outros mais intimistas como isqueiros, berlindes, bonecos, espelhos, e até desenhos em que formas humanas se inserem em formas de fechaduras. Estes elementos surgem dispostos de uma forma organizada, mas com alterações (Como pinceladas rápidas, ou presos por pregos.) que além de reforçarem a presença da artista como pintora, criam uma segunda linguagem plástica que transveste os objectos, criando quase uma representação dele sobre ele próprio, resultando assim nalgo mais caótico do que á primeira vista poderia parecer-nos.



Um outro elemento assume-se como crucial: a cor. Numa das caixas surge um coração vermelho atado por fios torcidos pretos. Ao lado, um coração preto é atado por fios torcidos vermelhos. Esta dualidade emotiva marca possivelmente o elemento autobiográfico e pessoal de Isabel de Sá aquando do desenvolvimento destas peças. De resto, os corações marcam presença em muitas das peças, assim como outros elementos em que as cores caóticas e cada cor nos remetem para o amor que o título da exposição nos promete.
E amor será, digo eu, um dos sentimentos que quem quer que veja esta exposição sentirá pelas suas peças. Falo por mim, que o senti, digo sem exagero.
A não perder, na Galeria Artes Solar Sto. António, na Rua do Rosário, até meados de Fevereiro.

Isabel de Sá (Video)

Video com as peças em exposição e imagens da inauguração onde podem ser vistos artistas já aqui referidos, como Graça Martins ou Isabel Lhano. Com uma belíssima música dos Sigur Ros!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Garlands

The Winged Painter is on uptown,
I said,
Will you meet me to go, to go, to go?
Washington Square I'm racing there to get you at Noon.
Oh the Nocturne noon.
Isabella on the way there stops me.
I can't stay today.
I'm off in flight towards another light. Rest. Youth.
Washington Square, I meet you there and we go.
And he's on the run. He's on the run
From this walking
Greeting Card and Chloe's kiss,
The Wolf Pit, the Wine Harvest, and Phileda's Lesson
We're not his possession
In winter, trampled flowers in winter,
Lovers. Circus, these Garlands, the Blue Pirouette,
The Marriage, the Mimosas,
Black Sun Over Paris These Garlands,
the Little Swallow,
St. Paul from the window
The half open window.
Eve incurs God's displeasure, displeasure.
Passion. Odysseus and Penelope.
Ulysses and Penelope, the Festival in Hell.
He's on the run. He's on the run
From this walking Greeting Card and Chloe's kiss,
The Wolf Pit, the Wine Harvest, and Phileda's Lesson
We're not your possession
In winter Lovers.
In winter, flowers, trampled flowers.
Lovers. Be of Angels. We lovers.
Circus, these Garlands, the Blue Pirouette,
The Marriage, the Mimosas,
Black Sun Over Paris These Garlands,
the Little Swallow,
St. Paul from the window
The half open window
In winter, the Winged Painter,
The Winged Painter The Winged Painter
Washington Square, let's go see a
Day in May from
The Winged Painter.

de TORI AMOS para o álbum "The Beekeeper" de 2005

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

poema inaugural, 1978

Fui à rua buscar a morte que andava desaustinada pelas paredes como cão raivoso. Ofereci-lhe o braço, trouxe-a comigo, fi-la minha amante. Num leito de linho nos deitámos e em segredo me falou dias seguidos sobre a sua infância, a solidão debaixo da terra, o amor pela natureza. Explicou-me como acariciava os bichos comedores de cadáveres e dessa alegria maliciosa. A morte passou a ter para mim muita importância. Comecei a vesti-la de alvas roupas, coser-lhe flores ao crânio, amando-lhe a face lívida, iniciando-a numa sensualidade sem fim. Então, numa manhã a Morte sorriu mostrando nos lábios o seu carácter perfeito, isento de mesquinhez; beijou-me a boca, as pernas, o coração. Perturbou-me. No meu interior países fervilhavam, milhões de rostos se viraram à luz: tudo era claro como nunca sucedera. Começara outra vida: dera-se a iluminação.
ISABEL DE SÁ, "Esquizo Frenia"

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

acho assustador pensar que

o dia só tem 24 horas! A sério! É terrível. Organizando tudo, reparo que tenho muito pouco tempo.
Normalmente, devido a insónias e a coisas que me exigem muito tempo extra, durmo oito horas. Dessas 24 sobram, portanto 16. Dessas 16, passo 9 e meia nas aulas, por norma (Entre as 8 e 30 e as 6 e 30 com uma hora e meia para almoçar.). Sobram 5 horas. Assumindo que não há muitos testes em breve, só preciso de uma hora para orientar trabalhos, trabalhos de casa e tudo isso. Mesmo assim, já fico com 4. Dessas 4, preciso de uma para jantar. 3 horas.
Era aqui que queria chegar, o dia da minha pessoa tem 3 horas.
Só durante três horas posso dedicar o meu tempo a mim mesmo. Se quiser ir ao cinema, se quiser ir á Fnac ouvir algum álbum, se quiser ir a um concerto, se quiser ir a uma exposição, se quiser parar no café para escrever um pouco, se quiser ir saír com os amigos... tenho 3 horas para o fazer, o que implica, desde já que não possa fazer tudo isto.
É lamentável.
Queria um dia com mais tempo...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Annie Lennox: Songs Of Mass Destruction

ELEVEN BEAUTIFUL THINGS
Imagine-se Annie Lennox num belíssimo e simples vestido preto de pé sobre uma barra cronológica, com um pé pousado nos anos oitenta e o outro pousado em 2007. Pronto: Isso chama-se "Songs Of Mass Destruction".
Se "Diva", "Medusa" e "Bare" se faziam de canções simples focadas na brutal voz da ex-vocalista dos Eurythmics, "Songs Of Mass Destruction" é mais marcado pelo conceito das canções grandiosas, ficando a voz a dividir o protagonismo com os talentos de Lennox como compositora.
Interessante, para começar, é ver como, de facto, "Songs Of Mass Destruction" parece ser o passo mais apropriado depois de "Bare". Assim, ainda há a multiplicidade sonora que já se fazia notar no predecessor, mas agora, é a génese de "A Thousand Beautiful Things" que prevalece em que o minimalismo instrumental se encontra com a força dos arranjos de cordas. É aqui que reside o maior traço de modernidade do álbum. De facto, a partir do final dos anos oitenta, e Kate Bush e Bjork tiveram a sua importância nisto, os arranjos de cordas, quase como aceitação ao clássico, fazem-se sentir em quase toda a música alternativa. Annie Lennox decide não ser excepção naquele que é o seu quarto álbum.


Mas, de facto, em tudo o resto, este é um álbum muito ligado á sonoridade de que Annie provem. Assim, estão recolhidos os elementos para que possam nascer grandes canções e canções grandiosas também. Como "Dark Road", "Smithereens", "Throught The Glass Darkly" ou "Sing".
Ainda que por vezes pareça escorregar para determinados clichés, principalmente no que diz respeito á composição das baladas do álbum, a verdade é que, em grande parte das faixas consegue sempre manter um certo nível de qualidade a que nos tem vindo a habituar.
O próprio título do álbum remete-nos para uma vontade de criar algo avassalador, objectivo, aliás, que por vezes consegue atingir facilmente, não só pela já referida grandiosidade de arranjos, mas também pela beleza das composições. "Dark Road" ou "Lost" marcam, definitivamente uma primeira vertente do álbum, ligada precisamente á beleza; "Ghost In My Machine" ou "Sing" marca outra, ligada ao ritmo e a composições mais assumidamente (Ou destemidamente.) pop. "Sing", incluida na campanha contra a SIDA de Nelson Mandela, conta com a participação de nada mais nada menos do que Anastacia, Isobel Campbell, Dido, Céline Dion, Melissa Etheridge, Fergie, Beth Gibbons, Faith Hill, Angélique Kidjo, Beverley Knight, Gladys Knight, k.d. lang, Madonna, Sarah McLachlan, Beth Orton, Pink, Bonnie Raitt, Shakira, Shingai Shoniwa, Joss Stone, Sugababes, KT Tunstall, e Martha Wainwright.
Impõe-se então falar de "Songs Of Mass Destruction" como se impõe falar de Annie Lennox, que, apesar de passar despercebida pelos escaparates se mantém firme na sua identidade musical que cresce sem ser adulterada.




Veredicto Final: 18/20

Annie Lennox: Dark Road

Primeiro single e introdução do álbum "Songs Of Mass Destruction". Annie Lennox no seu melhor, ou seja, ao vivo...

antes de morrer

"Devils and Gods they are you and I"
de "Devils and Gods" de Tori Amos


"We all need a light to help us going throught the night"
de "Donas de Casa Desesperadas"- segunda época


"Won´t you memorize me,
Take me,
Emphatize and
Be there
To avoid spinning round
Until you found
Won´t you recognize me...?"
Miguel Guedes, "Recognize" para "Trigger" dos Blind Zero


"I´ve been afraid of changing
cause I´ve built my life over you
but time is bolder
children get older
I´m getting older too"
Stevie Nicks, "Landslide" para os Fleetwood Mac


"You start out with whatever your fucked up parents and genes give you. Then, if you see enough shrinks for long enough and get your cocktail right, you can get over yourself - and have a life."
Jeremy Sisto, como Billy Chenowith em "Sete Palmos de Terra"- quarta época


"o quereres e estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim..."
Caetano Veloso, "O Quereres"


"Socializemos a morte..."
Natália Correia, "Não Percas a Rosa"

"porque os outros se mascaram e tu não"
Sophia de Mello Breyner Andersen, "Porque"


"and under here my dreams are made of water..."
Nick Cave, "Little Water Song" para "Punishing Kiss" de Ute Lemper


"It´s all hard... We just made different choices"
Patricia Clarkson, como Sarah O´Connor em "Sete Palmos de Terra"- segunda época

"we are all so much more complicated than our names..."
Gerard Butler como Drácula em "Dracula 2001" de Patrick Lussier

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

expressões proibidas

não é...?

dado que...

está ligado a...

está relacionado com...

não explica

não responde

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

o novo estatuto do aluno

Eu não queria mesmo nada manifestar-me sobre política. Pensei que a nova lei da proibição do tabaco seria a excepção que confirmaria a regra, mas Sócrates parece não me querer dar descanso, e, o novo estatuto do aluno, obra em colaboração com a também fenomenal Maria de Lurdes Rodrigues, força-me a evidenciar de novo uma opinião que tenho sobre o circense diário político português. De facto, a avaliar pela pertinência das mais recentes leis deste executivo, é fácil acreditar que Sócrates e os seus aprenderam política no Chapitô, daí que o Diário da República pareça aproximar-se perigosamente do guião de um espectáculo de circo.
Isto porque, seguindo a estética da referida lei do tabaco, o novo estatuto do aluno é um escândalo. E, se não fosse uma anedota de tão mau gosto, proporcionaria certamente muitas e boas gargalhadas.
Mas, falemos concretamente. Segundo o novo estatuto do aluno, que vem substituir o anterior, de 2002, o aluno deve justificar as suas faltas num prazo de três dias úteis. Começamos já por aqui a ver as feições da estupidez: no secundário, há alunos, de resto com eu, que por estudarem longe de casa, só podem recolher a assinatura do encarregado de educação na justificação aos fins-de-semana. Assim sendo, eu, e todos na minha situação, só podemos faltar na Quinta e na Sexta. Teremos que arranjar algures o número de telemóvel ou o e-mail da constipação e da gripe para lhes dizer que só nos poderão atacar nestes dias.
Também é importante realçar que são aceites justificações por doença (Atestados médicos.), prestação de provas em associações, deveres militares. Quanto aos motivos pessoais, não constam. E, por muito que por vezes os motivos pessoais sejam terminar a conversa que se estava a ter no café, a verdade é que por vezes eles existem efectivamente, mas o Governo acha que os alunos são só isso: alunos, despidos da sua condição de humanos, de problemas pessoais, e da EXISTENTE não capacidade de estar fechado numa sala de aula a deprimir mais com os problemas próprios enquanto alguém debita algo sobre alguma coisa. E as justificações, em grande parte dos casos, revelar-se-ão obsoletas.
Depois, há os conceitos de “excesso grave de faltas” e de “limite de faltas”. O primeiro corresponde a duas vezes o número de aulas semanais. O segundo a três. Falemos de punições: no caso de um aluno atingir o excesso grave de faltas, o Director de Turma contactará o encarregado de educação para o informar. No décimo segundo, o encarregado de educação é o próprio aluno (Quando com 18 anos ou mais.), o que torna ainda mais caricata esta ideia. No caso de atingir o limite de faltas, o aluno será submetido a uma “prova de recuperação” onde constará a matéria leccionada nas aulas que o aluno perdeu. No caso de o aluno passar nesta prova (Obtendo uma classificação superior a 10 valores.) fica o assunto resolvido, no caso do aluno não passar, o Conselho de Turma reúne e decide o que fazer com o aluno: aspectos a ter em conta: a justificação ou não da falta, e a situação do aluno nas outras disciplinas. Das sanções figuram planos de acompanhamento ou a reprovação á disciplina.
As falhas no pavimento: um bom aluno, se achar que consegue, falta ás aulas, estuda a matéria em casa, e vai de vez em quando á escola fazer provas de recuperação, e é avaliado como os outros.
Também lesados, os professores passam agora a trabalhar para os alunos que faltam, quer construindo e corrigindo provas de recuperação com conteúdos muito específicos, quer a, eventualmente, preparar e levar a cabo planos de acompanhamento.
Portanto, Sócrates, esse homem de direita, está mais uma vez a espalhar-se ao comprido. No outro dia, para meu próprio desgosto, tive que dar razão a Vasco Pulido Valente, “se o PS está farto de Sócrates, não é difícil deduzir que o país também está”. De facto. Qualquer pessoa que seja realmente socialista, ou de esquerda, só pode estar farta de José Sócrates e dos seus comparsas. Este é um governo mentiroso no sentido mais literal da palavra, pois, ao ser eleito pelo PS, é um governo de direita, volto a afirmar. Esta nova lei é um ESCÂNDALO, mais uma das tentativas de Sócrates de acreditar que, postumamente, o seu governo será lembrado como um governo que de facto mudou alguma coisa. O que não vai acontecer, creio. Se for lembrado por alguma coisa que não a sua incompetência, será lembrado por ter mudado coisas que na realidade não interessavam a ninguém, e por não ter feito nada pelas causas que realmente interessavam.
Já agora, sobre a demissão de Isabel Pires de Lima, sim, todos percebemos que foi só para Correia de Campos não abandonar o executivo sozinho, mas esperemos que o novo Ministro da Cultura faça algo pela Cultura, em vez de ficar a olhar para o tecto; se bem que a minha crença neste governo está, de momento, nos números negativos, abaixo de zero.

PS: Em 2009 eu já voto, não me vou limitar a escrever umas coisas no meu blog…

O Livro das Trevas de Joe Berlinger

ASSIM-ASSIM

Encontro-me recentemente numa vaga nostálgica no que toca a cinema. E isto passa, essencialmente, por rever filmes que fazem parte dos meus 11, 12, 13 anos, por aí, onde qualquer coisa me parecia brutal. E, no meio dos meus DVD antigos, lá estavam alguns que ainda agora me parecem brutais, e há também aqueles que me parecem menos brutais. Dentro destes, há os que me parecem nada brutais e os que me parecem mais-ou-menos-quase brutais… Enfim, categorizações aparte, o que este post é mesmo, é um comentário ao filme “O Livro das Trevas: Blair Witch 2”. E se, como disse, tenho andando a rever muitos filmes e mesmo assim não os comento a todos, decidi comentar este porque me parece que tem sido vítima de críticas excessivamente duras. Quer isto dizer não que eu acho este filme uma obra-prima, nem o acho muito bom, mas também não acho que tenha sido resgatado do esgoto, como pode parecer a avaliar pelas críticas. Acho um filme escassamente bom, para sintetizar o que se segue.
Basicamente, esta é a sequela do bem-sucedido “Projecto Blair Witch”: três estudantes de cinema ingressam em Black Hills, Burkittsville, Maryland, para realizarem um documentário sobre a lendária bruxa de Blair. Desaparecem e, um ano depois as suas filmagens são encontradas. É nessas filmagens que consiste o primeiro filme.




“Book Of Shadows” começa precisamente por admitir que o filme original é ficção, e centra-se na personagem de Jeff Peterson (Jeffrey Donovan), que inicia na Internet a sua viagem “The Blair Witch Hunt” para a qual conta com a inscrição de Stephen (Stephen Barker Turner) e Tristen (Tristen Skyler), um par de escritores a fazerem uma pesquisa para o seu livro sobre histeria colectiva, Ericah (Ericah Leershen) uma aprendiz de bruxa na esperança de comunicar com Elly Kedward (A bruxa de Blair.), e da misteriosa Kim (Kim Director) que, ainda que primeiro diga que veio porque achou “que o filme foi fixe”, acaba por perceber que ali estava porque uma das suas visões a colocava aí.
Ainda que na primeira noite nas ruínas da casa de Rustin Parr as coisas corram bem, quando acordam na manhã, todo o seu equipamento (Câmaras e tripés.), bem como todos os documentos da pesquisa de Tristen e Stephen estão destruídos, tendo sido deixadas apenas as cassetes das tais câmaras, a acrescentar ao facto de cinco horas da noite anterior terem sido apagadas por completo da memória de todos.
Na sequência do aborto de uma das personagens, acabam por se refugiar na casa de Jeff, para, com a ajuda das cassetes perceberem o que havia acontecido.
Nisto não há nada de extraordinário. Uma história normalíssima, dentro do género. Mas o filme não vive muito da sua história: vive primeiramente da revelação gradual das personalidades das pessoas. Nisso está muito bom. Vive também de uma série de imagens fugazes com a sua força psicológica muito bem conseguida (A menina afogada que “aparece” a Tristen no hospital, por exemplo.). E, principalmente, vive da distorção (Nada de Lynchiana, mas nada má.) das fitas das filmagens. Quando Jeff diz
“_Video never lies…”
está a dizer a frase mais genérica de todo o filme. É precisamente por sabermos disso que o filme nos assustará. Por termos visto que as coisas se passaram de uma forma, mas que não é isso que as gravações mostram que ficamos a pensar no que terá acontecido.


Tecnicamente, há que referir a realização muito inteligente de Joe Berlinger, realizador aclamado de documentários, aqui a estrear-se na ficção, e também a performance dos actores, em especial Kim Director, em quem a história se apoia bastante, com uma interpretação absolutamente naturalista.
A banda sonora é execelente: desde o (Literalmente brutal.) genérico, com música de Marilyn Manson, a Diamanda Gallas, passando por System of a Down ou Queens Of The Stoneage, há de tudo, e muito bom.
Agora as partes más (Que existem): o filme peca por ter a pretensão de criar um certo extremismo da histeria e do fanatismo que começam por narrar nas primeiras sequências. Depois, por ter pós-adolescentes recentes como protagonistas mas não recusar certos clichés dos filmes pós-Screm como “Sei o que Fizeste no Verão Passado” ou “Horror on Valentine´s”. Disto advêm cenas absolutamente dispensáveis e principalmente diálogos muito infelizes que não se poupam a um nervosismo que, por mais bem interpretado que seja, não deixa de parecer irrealista. Falando de clichés, no início, supostas emissões de televisão mostram um grupo de fanáticos do primeiro filme, e são todos góticos: ou seja, os fanáticos obsessivos calçavam todos botas de biqueira de aço, (Tom irónico:) grande ideia! Também o clímax do enredo não deixa de parecer absolutamente despropositado e insuficiente.
Parecendo á priori, poucos defeitos, eles influenciam muito o filme, e por isso, não pode ser tratado como um filme assinalável. Mas há que ter em conta as coisas boas, e portanto, perceber que este é um filme tolerável, que, na minha humilde opinião, ultrapassa o primeiro, do qual não gostei assim tanto, na medida em que é cinema, e não três actores a passearem no bosque assustados com truques rudimentares.

Nota Final: 14/20

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

não é...?

Mestre são plácidas

ISABEL DE SÁ, "Os Adoradores do Sol", 1980

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Ricardo Reis
12 de Junho de 1914

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

o video

Em 1984, os This Mortal Coil convidam Liz Fraser para integrar a lista de convidados de "It´ll End In Tears". Ela grava "Song To The Siren", de Tim Buckley. É o drem pop no seu melhor, e este é o vídeo.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

o poema

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.
repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes
os olhares sem fim das coisas paradas, repetes o meu olhar.
espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,
és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.
repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes
a desgraça, a miséria e o desespero.
espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.



de José Luís Peixoto
in "A CRIANÇA EM RUÍNAS"

Caspar David Friedrich, "O Caçador na Floresta"

Vanessa Carlton: Heroes and Thieves

A TERCEIRA PARTE DO TRÍPTICO



O videoclip de "Nolita Fairytale", single de avanço do terceiro álbum de originais de Vanessa Carlton, começa com ela a destapar um piano e a começar a viajar, nele sentada, como acontecia no seu primeiro video, "A Thousand Miles". Depois levanta-se e um taxi destroi o piano. Isto, e o facto de Linda Perry ser produtora de "Heroes and Thieves", são só sinais de uma tremenda vontade de ruptura com o passado musical desta cantora/pianista/ compositora, imortalizada ao primeiro álbum pelas tais "Thousand Miles" que a canção percorreu, dos tops aos Grammies, passando (Estranhamente.) pela MTV.




Mas, se "Be Not Nobody" esse primeiro álbum, era quase perfeito, "Harmonium", o seu sucessor era uma evolução muito insatisfatória, apesar de constituir, se por si só, uma excelente e exemplar peça pop afastada de preocupações com vendas e tudo isso.
"Heroes and Thieves" é uma tentativa de fazer algo novo que não é nem mal nem bem sucedida. Se, por um lado, encontramos aqui canções fluidas e leves (Contrariando as tendências mais complexas dos primeiros dois álbuns.), por outro lado, a sonoridade ainda nos remete para a Vanessa dos dois primeiros álbuns- a simplicidade compositiva não altera a utilização dos instrumentos, que se mantêm dentro do que Vanessa costuma fazer.
Outra das curiosidades maiores neste álbum é a mesma de "Harmonium". Nesse segundo álbum, Calrton compunha algumas canções com Stephen Jenkins (Além de produtor do álbum, era o seu namorado na altura.), mas era estranho ficar-se com a sensação de que Vanessa conseguiria isso sozinha. Em "Heroes and Thieves", Carlton assina as canções sozinha ou na companhia de Jenkins ou Linda Perry, mas estas colaborações parecem inúteis. E isso é estranho, porque Perry já fez Christina Aguilera cantar algo belo em "Beautiful".

As canções são boas, não são assim tão inovadoras, mas são boas. "Hands On Me" é um bom exemplo da génese do álbum, tem uma boa construção instrumental sobre uma composição fluida, com a voz a pontuar numa utilização entre a agressividade do primeiro álbum e a excessiva inocência no segundo. O que resulta bem, tendo em conta a voz muito ameninada que Vanessa tem.
"Nolita Fairytale" é uma canção interessante, mas uma escolha errada para primeiro single (Isto é provavelmente uma imagem de marca em Carlton.), uma vez que, apesar de até nem ser má, não apresenta diferenças tão consideráveis para poder evidenciar um dos objectivos do álbum, precisamente a diferença.
"Spring Street" teria sido uma melhor opção, uma canção idílica e etérea, como poucas de Carlton.
"The One" é uma canção razoável, mas um dueto péssimo: mal se dá pela presença de Stevie Nicks. Muito má ideia.
É um pouco assim o terceiro álbum de Vanessa Carlton. Do quarto, há a esperar que seja abissalmente diferente. Mais um álbum com diferenças tão pequenas será fatal a Carlton e a nós. Uma sugestão: que tal ser produzida pelo Patrick Leonard? O melhor álbum da Madonna foi produzido por ele...





Veredicto Final: 16/20

Vanessa Carlton - Nolita Fairytale

Videoclip de avanço de "Heroes and Thieves", "Nolita Fairytale", que começa como "A Thousand Miles". A primeira manifestação do desejo de ruptura.

A Frase

"não me importo de ser igual aos outros, logo que os outros não se julguem iguais a mim."


AGUSTINA BESSA LUÍS
in "A Alma dos Ricos" da trilogia"O Princípio da Incerteza"
2002
GRAÇA MARTINS, "Enquanto Não Se Esquece o Passado"

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Kate Walsh - Tonight

Canção do novo álbum de Kate Walsh, aqui em versão simplificada ao vivo. "Tonight", uma balada, pois claro. E muito boa...

Realidade

Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o enconctro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.
Atingido o espírito, o tempo

da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer não mata.
Quero a beleza dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.

.
ISABEL DE SÁ,
"Erosão de Sentimentos"