Se quisermos dividir o seu trabalho em fases, de forma a traçar uma evolução, podemos dizer que, primeiramente, havia um primado do desenho, que acabava por proporcionar uma abundância de pormenores e um perfeccionismo obsessivo (Não no sentido pejorativo.). Aqui se inserem, por exemplo, as suas características meninas em pijama, onde a cabeça é eliminada, de forma a concentrar a atenção do espectador na expressão das riscas e das curvas dos pijamas. Iriam ser precisamente estes desenhos, a grafite, que haviam de levar a Graça Martins o 1º Prémio do Bicentenário da Invenção do Lápis, concorrendo com cerca de 700 candidatos. E não ao acaso. A astúcia com que domina a técnica vem de facto mostrar que só podemos estar perante uma postura artística prodigiosa.
Numa fase mais recente, o trabalho de Graça Martins evoluiu no sentido da simplificação. Num registo ligado á influência da pop art, continua a retratar as suas tão características meninas, sempre no sentido de evidenciar alguma ideia. Como feminista que é, os seus trabalhos remetem-nos frequentemente para temáticas ligadas á condição feminina. Olhemos para “Silence”, em que uma menina de beleza extraordinária se resigna ao silêncio. Nestas séries, ainda que haja um equilíbrio entre pintura e desenho, não deixa de se notar a mesma subtileza no traçar do desenho. Também a sua formação em Design Gráfico se nota, indo, também ele, de encontro á tendência da pop art. Quer seja na inserção de fotografias nas telas (Veja-se a homenagem a Rimbaud.), quer pela utilização de palavras (“Don´t Forget Me”), quer pelo desenho de objectos do dia a dia (“As Minhas Botas”).
São raparigas de ambientes urbanos, a denunciar problemas e condições ligados ao universo feminino urbano. Não no sentido de reivindicar ou escandalizar, mas usando a observação como forma de denúncia desses problemas ou ambientes. Não só o silêncio, o resumo á beleza, os estereotipos que vitimam a mulher, como também outras mais poéticas, por exemplo, a beleza e simplicidade de um olhar em “The Look” ou a vontade de expressão em “The Key”.

“Enquanto Não Se Esquece o Passado”
Mas, há algo de comum em todos os trabalhos da colecção, seja qual for a sua temática: a sensibilidade com que são abordados. Há erotismo em cada uma das telas, há simbologias, evidentemente, mas há, principalmente, sentimentos, que o corpo, e a sua expressividade nos mostram, há sentimentos em cada cara que é tapada (“The Night Of Cinderella”, “Enquanto Não Se Esquece o Passado”.), em cada seio que se revela quase involuntariamente (“Sleeping Beauty”, “Enquanto Não Se Esquece O Passado”.), em cada abraço (“Urban Teenagers”), na solidão ou companhia de cada uma (“Lolitas”). São meninas ora resignadas, ora emancipadas, ora desorientadas, ora conscientes, ora acordadas, ora adormecidas. A isto pode-se chamar, sem perigo, poesia visual.
A utilização da cor insere também as personagens nesses estados de alma. O azul calmo e nostálgico de “Enquanto Não Se Esquece O Passado”, o laranja quente em “The Look”, o cor-de-rosa sensual de “The Night Of Cinderella”, os laranjas tropicais em “I´ve Got You Under My Skin”.
E, para finalizar, as imagens que se inserem na imagem principal culminam a ideia. As botas de “As Minhas Botas”, os sapatos da Cinderella, a Vitoria de Samotrácia de “Enquanto Não se Esquece o Passado”, as fotografias silenciosas de “Don´t Forget Me”, a apetecível romã de “The Look”.
É certo que a exposição já é de 2004, e correntemente, não está exposta em nenhum lugar, mas qualquer reposição deve ser vista, por toda a gente.




















