sábado, 1 de setembro de 2007

As Minhas 20 Canções Tristes

Isto é uma selecção de 20 canções tristes, puramente pessoal, e independente de qual o genero, autor, intérprete ou proveniência da canção. Interessa ser triste, e a selecção não foi fácil, uma vez que 80% do que eu ouço é triste, deprimente, melancólico, etc, etc, etc, etc.


1. Sia: BREATHE ME
(-Sia Furler; Dan Carey-)
Momento de tristeza mórbida demarcada por um piano a desabar e um extraordinário arranjo de cordas. Sia Furler mostra que é mais do que uma das vocalistas dos Zero7, e faz uma canção tão triste que nos dá mais vontade de morrer do que o poema de Álvaro de Campos “Se te queres matar porque não te queres matar?”
"Hurt myself again today
And the worst part is there´s no one else to blame...
Be my fiend, hold me... "
(Do álbum "Colour The Small One" 2004)

2. Placebo: 20 YEARS
(Brian Molko; Stefan Olsdal; Steven Hewitt)
Delírio de pranto do trio de Brian Molko, complementado por um videoclip de estética perfeita. A premonição da morte assusta ou dá esperança? Aceitam-se opiniões. Os Placebo têm a deles. Esperança que os 20 anos que faltam sejam the best of all I hope.Molko; Stefan Olsdal; Steve "But it´s you I take cause you´re the truth not I
There are 20 years to go... the best of all I hope..."
(Do álbum "Once More With Feeling" 2004)

3. Fiona Apple: NEVER IS A PROMISE
(-Fiona Apple-)
História de um desamor agressivamente melancolico. Piano, violoncelo e voz fazem a história da canção mais triste não só de “Tidal”, como de toda a discografia de Fiona. Feliz ou infelizmente, a polémica loirinha nunca mais compôs nada tão severamente triste.
"You say you understand but you don´t understand
Yoy say you never give up looking eye to eye
But never is a promise and you can´t afford to lie..."
(Do álbum "Tidal" 1996)

4. Antony and The Johnsons: THE LAKE
(-Edgar Allan Poe/ Antony Hegarty-)
Antony e os seus Johnsons interpretam Edgar Allan Põe e não se espalham. A história é dramática e arrepiante, pois claro, e a composição não lhe fica atrás. Povoada de um som moribundo e gótico, “The Lake” é uma das melhores canções desta peculiar banda, e uma das melhores composições de Hegarty.
"But when the night had thrown her pall
Upon that spot as upon all
And the wind would pass me by
In its stilly melody
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake"
(Do EP "The Lake" 2004)

5. Aimee Mann: WISE UP
(-Aimee Mann-)
Composta para o filme “Magnólia” de Paul Thomas Anderson, “Wise Up” é uma canção conhecida de todos nós. Mann troca a guitarra pelo piano, e conta-nos histórias de quem se encontra perdido a meio da vida. E diz-nos como reverter a situação. Precisamente por nem sempre conseguirmos, é que ela diz coisas destas.
"You're sure
There's a cure
And you have finally found it"
(Da OST de "Magnólia" 2001)

6. Sarah McLachlan: FALLEN
(-Sarah McLachlan-)
O desgosto e a perda dentro de uma canção digna de génio. Sarah McLachlan abrilhanta a letra triste com a sua voz etérea, e o seu inconfundível piano. Single de avanço do mais recente álbum de originais, a confimar o talento da pianista para as sad songs.
"Heaven bent to take my hand, I´ve nowhere left to turn
I´m lost to those I thought were friends,
Everyone I know, they turn their heads emabarassed
Pretend that they don´t see
That it´s one misstep, one slips before you know it..."
(Do álbum "Afterglow" 2005)

7. Anathema: ARE YOU THERE
(-Vincent Cavanaugh, Danny Cavanaugh, Lee Smith, Jamie Cavanugh, John Douglas-)
Já dizia Fernando Ribeiro que o que interessa é o metal. A banda dos irmãos Cavanaugh, no entanto, não faz disso principio. Balada de choro e de morte, "Are You There" é um dos momentos mais interessantes da discografia da banda de gothic metal.
" but since you've been gone I've been lost inside
tried and failed as we walked by the riverside
and I wish you could see the love in her eyes
the best friend that eluded you lost in time
burned alive in the heat of a grieving mind"
(Do álbum "A Natural Disaster" 2005)

8. Jewel: FOOLISH GAMES
(-Jewel Kilcher-)
A senhora que veio do frio conta-nos, acompanhada de piano e violoncelo como lhe despedaçaram o coração. Pois claro. "Foolish Games" deu Jewel a conhecer ao mundo, estávamos nós em 1994. E não foi injusto. Uma canção simples, sem pretenções, que resulta num dos momentos mais tristes da discografia da menina Kilcher.
"Excuse me, I think I´ve mistaken you for
Somebody else, somebody who gave a damn
Somebody more like myself...
And you took your coat off, stood in the rain
You´re always crazy like that..."
(Do álbum "Pieces Of You" 1994)

9. Bliss: SLEEP WILL COME
(-Stefan Aaskoven; Marc-George Andersen; Banzai Republic-)
Abertura do álbum "Quiet Letters", mais que triste, "Sleep Will Come" é uma canção deprimente. História improvavel de violoncelos chorando, violinos desesperados, e uma estranhamente compassada beat electrónica, a culminar num acordeão violento. Fica um vazio, depois de ouvir.
(Do álbum "Quiet Letters" 2005)

10. Royksopp: TRIUMPHANT
(-Torbjorn Brundtland; Svein Berge-)
Uma música vinda do frio, do gelo e da neve. A duo electrónico grava uma canção orgânica e visceral. "Triumphant" é a introdução de "The Understanding", e um início cheio de força. Canção rara e cheia de vida, que culmina na morte.
(Do álbum "The Understanding" 2005)

11. Marilyn Manson: IN THE SHADOW OF THE VALLEY OF DEAD
(-Marilyn Manson/ John 5-)
Coma Black guia o seu povo pelo Vale dos Mortos. Pelo caminho, fala-nos da necrofilia da televisão, e do massacre de Columbine. “In The Shadow Of The Valley Of Death” é um dos temas mais tristes, e melhores, de Marilyn Manson, e também o subtítulo do seu melhor álbum.
"We have no future
heaven wasn't made for me
we burn ourselves to hell
as fast as it can be
and I wish that I could be a king
then I'd know that I am not alone"
(Do álbum "Hollywood" 2000)

12. Blind Zero: ABSENT WITHOUT PERMISSION
(-Miguel Guedes/ Blind Zero-)
As ruas do Porto ficam todas dentro desta canção. E os dias nublados e pesados também. Miguel Guedes escreve um dos seus melhores poemas e os Blind Zero fazem uma das suas melhores canções de sempre. O sentimento de revolta pela chegada ao point of no return é o assunto, e todos ou quase todos nos podemos identificar com ele.
"On everyday break on every street light
You´re absent without permission
Everywhere is the place I find
To learn by jeart that you´re watching over me..."
(Do álbum "The Night Before and a New Day" 2005)

13. Massive Attack feat. Terry Callier: LIVE WITH ME
(-Robert DelNaja; Neil Davidge; Terry Callier-)
Voz de negro sobre acústica/electrónica inclassificavelmente boa. Uma das canções mais potentes da banda de Bristol, com grande orquestração, percussões crescentes e electronica subtil. A não esquecer.
"Nothing´s right if you ain´t here
I´d give all that I have just to keep you near
I wrote you a letter tryin to make it clear
But you just don´t believe it- I´m sincere..."
(Do álbum "Collected" 2006)

14. Cecilia Bartoli: SI PIANGETTI PUPILLE DOLENTE
(-Antonio Caldara-)
O barroco do século XVIII no seu melhor. Cecília Bartoli resgata Antonio Caldara da treva do anonimato, e interpreta-o brilhantemente.
(Do álbum "Opera Proibita" 2006)

15. Lou Rhodes: WHY?
(-Lou Rhodes, Andrew Barlow, John Thorne, Oddur Mar Runnarson, Nikolaj Bjerre-)
A última canção composta pelos Lamb, interpretada por Lou Rhodes, no seu primeiro álbum a solo. Toada de quem está de partida, e vê a sua vida desabar. A terminar "Beloved One" e a antecipar "Bloom".
"So much of what I´d want for
I couldn´t let it be
So I made me a world where
You had to leave
Tell me why
Why can´t we let the good things in?"
(Do álbum "Beloved One" 2oo6)

16. Katia Guerreiro: VALSA
(-António Lobo Antunes/ Miguel Ramos-)
O lado escondido de António Lobo Antunes. Simplicidade metafórica, e simplicidade de linguagem. Katia Guerreiro canta, e, logicamente encanta. Uma canção de noite de insónia, de medo, e de amor.
"Se chamo som das ondas ao rumor
Dos passos dos vizinhos pela escada
É porque á noite acordo de terror
De me encontrar sem ti de madrugada..."
(Do álbum "Nas Mãos do Fado" 2003)

17. The Devlins: WAITING
(-Colin Devlin-)
Final do episódio piloto de Sete Palmos de Terra, "Wainting", canção de quietude, de espera, de slow motion, e de falta. Um masterpiece dos irmãos Devlin.
"Waiting with the orphans
Waiting for the bee stings,
they tell me that success brings
Waiting in the half-light
Waiting through your whole life."
(Do álbum "Waiting" 2000)

18. Amália Rodrigues: COM QUE VOZ?
(-Luís de Camões/ Alain Oulman-)
A canção que conduziu a grande diva do Fado ao tribunal, no tempo do Antigo Regime, pela interpretação de Luís de Camões. Por sinal, valeu a pena. Alain Oulman, pianista que dedicou toda a sua vida profissional a Amália, tem neste soneto de Camões uma das suas melhores composições. Amália brilha como de costume.
"Com que voz chorarei meu triste fado?
Que em tão dura paixão me sepultou
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo de meu bem, desenganado..."
(Do álbum "Com Que Voz" 1970)


19. Arcade Fire: OCEAN OF NOISE
(-Win Butler; Regine Chassagne; Tim Kingsbury; Richard Roux Perry; William Butler; Sarah Neufeld; Howard Billerman-)
Numa espécie indie de valsa, os canadianos Árcade Fire têm uma das melhores faixas de “Néon Bible” que nos narra a história do oceano de barulho entre duas pessoas. Não ao acaso, Saramago disse há uns anos que “é mais fácil chegar a Marte do que ao outro.” O septeto de Win Butler parece estar de acordo.
"No way of knowing
What any man will do
An ocean of violence
Between me and you
You've got your reasons
And me I've got mine
But all the reasons I gave
Were just lies to buy myself some time"
(Do álbum "Neon Bible" 2007)


20. Rufus Waiwright: THIS LOVE AFFAIR
(-Rufus Wainwright-)

Tema dos mais simples em “Want Two”, voz, piano e orquestra. O rock barroco presenteia-nos por vezes com canções assim. Wainwright perde-se numa narrativa sufocante, que é, á semelhança de um trabalho de Isabel Lhano, “Como se te afastasse e agarrasse ao mesmo tempo”.

"I can't say that I'm waltzin'
Not that I don't like waltzing
Would rather be waltzin' with you
So I guess that I'm going
I guess that I am walking
Where?
I don't know
Just away from this love affair"
(Do álbum "Want Two" 2005)

Dito isto, choremos e soframos todos. Peace.

domingo, 26 de agosto de 2007

Cecilia Bartoli: Opera Proibita

TRÊS HOMENS E UMA MULHER






O que percebo eu de ópera? Sinceramente, não percebo nada. Mas sinto-me obrigado por mim mesmo a falar do mais recente álbum de Cecília Bartoli, "Opera Proibita", uma vez que é um dos álbuns que mais me tocou, de sempre. Canta composições de George Frideric Handel (1685- 1759) enquanto jovem, António Caldara (1670-1736) e Alessandro Scarlatti (1660-1725), todos eles compositores Barrocos italianos.
Esta época particular, o Barroco é, como se sabe, uma época de dualidades. No século XVII, após a "crise das consciências"do Renascimento, em que, em vez de Deus, era o Homem o centro do universo, a Igreja decide contra-atacar, também para se defender do Protestantismo. Assim nasce a génese do Barroco, a estética do exagero, com o intuito de seduzir quem vê, de atraír e sensibilizar as pessoas sobre Deus. Com base nesta manipulação se construíram algumas das mais belas igrejas de sempre, e se produziram as mais prodigiosas peças de arte. Bernini, Caravaggio, Georges de la Tour, Maderno, Borromini ou Nicolas Nasoni são alguns dos artistas que mais se destacam nesta época. No campo da música, no entanto, as coisas eram diferentes. A igreja decide proibir a ópera, dizendo que agora é tempo de rezar e não de nos divertirmos, e proíbe as mulheres de interpretar música, o que acaba por originar a existência dos castrati, homens com vozes efiminadas que interpretavam mulheres. Mas os compositores da época não desistem de compor ópera, e fazem-no, mas garantem que o que compõem é música religiosa. Destacam-se nomes como Antonio Vivaldi, Bach ou o português Carlos Seixas.
É este tipo de árias que Cecilia Bartoli interpreta aqui, e é a sua carga histórica que dá título ao álbum, gravado com a orquestra dos Musiciens du Louvre, sob a direcção de Mark Mikowski.
Abre com "All´Arme Si Accesi Guerrieri" de Scarlatti, uma ária alegre e glamorosa, ideal para a abertura do álbum. Roma cabe lá dentro, sem dúvida. A voz de Cecília é bonita (Ela também.), digo eu que será potente, parece bastante á-vontade com a ginástica vocal que faz, ou seja, uma boa intérprete.
De todas as árias que interpreta, as que mais me tocaram foram "Notte Funesta... Ferma L´Ali" de Handel, "Caldo Sangue" de Scarlatti e, principalmente "Si Piangete Pupille Dolente" de Antonio Caldara. Uma das mais belas coisas que já ouvi na vida.
Não posso dizer muito mais, porque corro o risco de dizer disparates, isto se já não o fiz. O que eu queria mesmo dizer é que gostei muito deste álbum, independentemente do que disserem os especialistas na área.




Veredicto Final (E De Um Ponto de Vista Puramente Pessoal)_ 19/20

Alergias Legítimas

A Rolling Stone levou a cabo uma sondagem em que o resultado seria uma lista das dez canções mais irritantes de sempre. Um comentário pessoal para cada um, uma vez que adorei a lista:
1. "My Humps" BLACK EYED PEAS: Um primeiro lugar muito justo, sim. De facto, Fergie e os seus comparsas poderiam fazer tantas coisas, porquê música? Não é justo que tanta gente ande a cantar em bares na noite da guitarra e que os Black Eyed Peas que não estão a fazer nada andem a gravar álbuns. Essa senhora, ainda por cima tem o descaramento de nos dizer que gravou um álbum a solo, quando a verdade é que o que muda é o nome que aparece na capa. Will.I.Am e o resto desses atrasados mentais está por lá, e nos videoclips também. "My Humps" é uma canção irritante, mas não mais que outras como "Shut Up", "Where Is The Love" ou "Don´t Phunk With My Heart". Uma tristeza.
2. "Macarena" LOS DEL RIO: Eu já nem me lembrava que esta música existia. Do pior. A música latina sempre nos mostrou que por vezes não gosta de legitimar Glória Estefan, e é uma pena, porque isso dá origem a coisas como esta. Coisas como estas nem merecem que se lhes chame música. Sem comentários.
3. "Who Let The Dogs Out" BAHA MEN: Esta música só tinha piada quando passava no genérico de "100 Deeds For Eddie". Fora daí, deviam proíbi-la. Umas vozes que fazem lembrar um personagem dos Batanetes sobre umas percussões de quinta categoria e resultado: nunca soubémos quem deixou os cães saír.
4. "My Heart Will Go On" CELINE DION: Bom exemplo de uma música arruínada pelo abuso. Tudo bem, foi muito gira no Titanic, aparte de ser uma sentimental do pior, Celine merece crédito pela voz potente, mas toda a gente abusou de My Heart Will Go On. Resumo da ópera: já ninguém suporta ouvir esta canção que há não tão poucos anos atrás venceu o óscar de Melhor Canção.
5. "Photograph" NICKELBACK: Todos sabemos que a banda de Chad Kroeger teve momentos mais felizes que este. "Photograph" é de facto álgo de irritante, uma mistura de letra do Bazar Oriental com uma melodia composta sobre os joelhos a meias com uma guitarra. O produto final é para esquecer. Lembremo-nos de "How You Remind Me".
6. "Mambo nº5" LOU BEGA: Esta não conheço. Acho eu.
7. "You´re Beautiful" JAMES BLUNT: Dêem-lhe um tiro! Por favor. A voz é irritante ao fim de escassos segundos, a música é exasperante, as guitarras hispânicas já estão mais usadas que as Vans nestes dias, e ainda falta falar da letra. Diz-nos este génio: "Eu vi um anjo disso estou certo, ela sorriu para mim no metro, estava com outro homem, mas não vou perder o sono por causa disso porque tenho um plano: tu és linda, é verdade." Belo plano. Não admira que no fim ele diga que nunca vai estar com ela.
8. "Wannabe" SPICE GIRLS: Como devem achar que ainda não nos torturaram o suficiente com coisas como esta, parece que estas meninas ainda se vão juntar de novo, devido á falta de algo para fazer de Victoria Beckham. "Wannabe", o cúmulo do previsível. Ficará na história, decerto, como uma das piores músicas de sempre. Alguém tem de ficar.
9. "The Thong Song" SISQO: Também não me parece que conheça.
10. "Believe" CHER: Realmente, já não há paciência para ouvir este hino de libertação feminina fora de tempo. E também não há paciência para aquelas piruetas que ela faz para escamotear a falta de boa voz. Podia sempre voltar ao cinema, mas pronto, ela prefere fingir que acredita que nos acreditamos que ela sabe cantar. Ou preferia, uma vez que já fez a sua "Farewell Tour". Boa ideia.
QUEM EU ACHO QUE FALTA:
"Umbrella" RHIANNA: se traduzirmos, dá para perceber que ela diz "fica debaixo do meu guarda-chuva, uva, uva, uva, yeah, yeah, yeah." Muito giro.
"Sexyback" JUSTIN TIMBERLAKE: Shoot him!
"Candyshop" 50 CENT: Torture him!
Peace guys!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Zero7: The Garden

O JARDIM E O QUINTAL


"Simple Things", o primeiro álbum dos Zero7 é um álbum digno de ficar na memória de todos nós. Electronica bem-construída, e discreta, canções compostas com mestria, e as vozes de Sia Furler, Sophie Barker e Mozez, era,m razões inequívocas que faziam da banda de Henry Binns e Sean Hardaker uma promessa. O que em tal peça era original, interessante e bom, no entanto, perdeu muita originalidade em "When It Falls", onde se juntava a voz de Tina Dico, e onde se jutava também um aumento de predictabilidade. As canções eram ainda boas, e ainda eram interessantes. O problema de "When It Falls" era soar a uma versão melhorada de "Simple Things". Mas acabava por não ser um tiro falhado, devido ao brilhantismo de canções como "Somersault", entregue a Sia, ou "Warm Sound", com Mozez, "Passing By" com Sophie Barker, ou "The Space Between" com Tina.
Em "The Garden", é impossível evitar o sentimento de confusão: as canções continuam a não ser originais, mas agora, algumas tornaram-se também desinteressantes. São boas composições, complementadas com boas letras e boas vozes, a electrónica tão bem construída como sempre, mas as canções, por vários motivos, não despertam interesse, porque se simplificaram no sentido da pop.
"Futures" e "Throw It All Away" fazem bom começo, envolvente, o problema é que que o que se segue contém raríssimos momentos que consigam, pelo menos, igualar estes dois. O primeiro tem a voz de José Gonzales, e essa voz tem um timbre suave, adapta-se bem, mas não é brilhante. No entanto, a instrumentação, principalmente no final, faz da canção consistente. "Throw It All Away" tem Sia na voz, e é uma boa música alicerçada pela fusão surpeendente do lado acústico com o electrónico, rematada por uma bateria acelerada.
E é precisamente Sia quem engrandece uma boa parte das canções, com a sua excelente performance (Que, de resto, não é surpresa alguma.) sensual e suave, além de grande perfeccionismo. "You´re My Flame" é um exemplo. O instrumental é seguro, mas tem uma beat parecida com alguma que já ouvimos até aqui, e isso torna-se preocupante quando esta é só a quinta faixa. A letra é excelente, ainda que nos relembre demasiado "Somersault".
Ainda sobre Sia, enquanto que "This Pageant Of Bizarre" e "If I Can´t Have You" não são particularmente interessantes, "This Fine Social Scene" acaba por pontuar tanto como "Throw It All Away" (É o tal momento raríssimo que iguala os primeiros.) e "Waiting To Die" vai ganhando consistência quanto mais se ouve, e revela-se uma boa música, interessante no contraste criado pela tonalidade muito alegre com que Sia canta "La, la, la, la, la, we´re waiting to die."
Gonzalez não deixa de despertar interesse por ser uma novidade, mas acaba por não ser uma mais-valia para a dupla ("Futures" só se torna brilhante pelos instrumentos.), e não deixa de parecer um pouco deslocado daqui, por ter uma performance bastante "aluada", e, consequentemente, distante da personalidade musical dos Zero7, e das performances de Sia, Barker, Mozez ou Dico, que se apropriavam mais.
Outro foco de atenção em "The Garden" é este: não só se deixa Tina Dico, como também se deixam colaborações de há muito, Sophie Barker (O seu timbre não era assim tão diferente do de Sia, mas tinham posturas completamente diferentes.) e Mozez (Uma postura oscilante, mas mais rica em emoção do que a voz masculina de agora.), o que faz com que este álbum se apoie imenso em Sia: primeiro porque as músicas de Gonzalez não se destacam assim tanto, como já se disse, e segundo porque as de Sia sim.
Em relação aos temas instrumentais, eles não diferem particularmente do que já se fez nessa área. São boas composições, mas que acrescentam menos do que seria desejável.
Longe de estarem no pico da criatividade e da qualidade, os Zero7 não fizeram um álbum mau, apenas um tanto desinteressante, e caminhando no pouco seguro caminho da pop. Sia ajuda a salvar o trabalho, mas esperemos que no próximo não seja preciso a loirinha estar a salvar os dois senhores...

Veredicto Final: 15/20

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Matthew Dear: Asa Breed

ALTOS VOOS






Afastado dos escaparates desde "Backstroke", em 2004, Matthew Dear regressa com "Asa Breed", finalmente. Classificado com indecisão como música electrónica, house minimalista, downtempo, etc, etc, etc (A história do costume.), Matthew consegue, agora, o seu melhor álbum, qualquer que seja o ponto de vista de que olhamos o seu trabalho, no conjunto.
"Asa Breed" começa com "Fleece On Brain", a um ritmo viciante, adornado com os barroquismos habituais em Dear, a repetição, a polifonia, e um certo ambiente caótico, tudo existindo á volta da sua voz, gutural e cavernosa. E é nestes conceitos que este trabalho se movimenta, mas sem que cada faixa se torne simplesmente mais do mesmo.









Em relação á estética da repetição quase psicadélica das notas, ela resulta bem, porque, sem dúvida, envolve-nos na canção, e leva-nos a conhecê-la rapidamente, e, logo, a aderir a ela. Acontece, por exemplo em "Shy" onde a construção, perfeita, cresce á volta da repetição não só de determinadas notas como dos sons electrónicos que as produzem, e também na letra. A questão das letras aqui também deve ser referida, porque, em comparação a "Leave Luck To Heaven" e a "Backstroke", "Asa Breed" apresenta as letras mais cuidadas, e, consequentemente, mais bem escritas, até porque, de qualquer forma, se adptam perfeitamente aos conceitos musicais do álbum.
A ultilização que Matthew faz dos diferentes samplers neste álbum pode, por vzes, deitar por terra as opiniões que lhe atribuem a house minimalista. Não é que seja tão maximalista como Bjork, mas certamente utiliza mais sons do que habitualmente, o que, por sinal, foi uma boa opção, uma vez que ajuda a diversificar a sonoridade, no total, e também individualiza um pouco o álbum, em relação aos anteriores.
Tudo isto resulta, realmente, numa sonoridade mais temperametal, que prima por saír dos canones da música house como ela é feita normalmente. Aproxima-se, por vezes, mais da electropop do que daquilo que tinha feito até agora. Em certas canções, o ritmo á maioritariamente dançável ("Neighbourhoods" ou o primeiro single "Deserter".), noutros, é principalmente um agradável caos, ou uma deliciosa psicose ("Elementary Lover", "Will Gravity Win Tonight".).
A voz, por fim, é também abordada como uma voz que realmente canta, no sentido literal da palavra, muitas vezes, afastando-se ligeiramente do hábito de Matthew de, principalmente arrastar e sussurrar.
Um álbum digno de ouvir, pois claro, por mais que não seja, para celebrar o Verão e as noites típicas... não que uma coisa implique a outra, claro.



Veredicto: 17/20

Matthew Dear @ Field Day - Neighbourhoods

Neighbourhoods, uma das faixas de "Asa Breed".

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sia - Breathe Me (live)

"Breathe Me", captado por um retardado mental que se esqueceu de gravar o arranjo de cordas do final. Mas uma boa canção, ainda assim.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sia: Lady Croissant

CROISSANT MISTO








O terceiro registo a solo de Sia Furler, aka Sia, é um álbum ao vivo. Após colaborações nos três álbuns dos Zero7 (Para o bem e para o mal.), após o despercebido "Healing Is Difficult", após a descoberta de "Breathe Me" no final de "Sete Palmos de Terra", que acabou por dar uma injecção de popularidade ao álbum "Colour The Small One", Sia decide mostrar-nos o que faz ao vivo. Numa lista muito curta, devo dizer. "Lady Croissant" é constituido por oito faixas ao vivo, e uma faixa bónus de estúdio.
Numa coisa é indiferente se os álbuns de Sia são em palco ou em estúdio: são sempre mistos de coisas muito boas e coisas muito más. Sia Furler não é daquelas artistas que subindo ao palco nos faz esquecer os defeitos de estúdio.
O alinhamento começa com "Don´t Bring Me Down", de "Colour The Small One" (Também da BSO de "Sete Palmos de Terra".), uma das suas canções mais melancólicas e bem construídas. A coisa não corre mal, a única coisa que aqui não vem mesmo nada a calhar é a pronúncia arrastada de que Sia abusa por vezes, deixando-nos indecisos em relação ás palavras que está a dizer. Segue-se a primeira bomba dos Zero7, "Destiny", aqui sem Sophie Barker. Um momento interessante, instrumentalmente diminuído, como era de esperar, mas nada mau. "Blow It All Away", a única testemunha neste álbum de que "Healing Is Difficult", o primeiro, existiu, é um momento quase irrepreensível, por ser um dos poucos que ultrapassa mesmo a versão de estúdio.
"Lentil" é um original daqui, e uma boa canção, em que a voz aparece particularmente bem colocada. Sem nenhum defeito em especial, é um dos melhores momentos.



"Numb" é que já não corre tão bem. Sia deixa-se arrastar para vocalizações mais arrastadas e sentimentais, e em "I Go To Sleep", uma cover dos The Pretenders, cai no mesmo erro.
Em "Breathe Me", peca por querer saír demasiado da versão de estúdio. Ainda que ao longo da canção não se vá saíndo mal, acaba por, em certas partes, soar demasiado fria ou inexpressiva. Os ad libs que acrescenta no final são bons, contrpõe esta frieza. É uma pena que não se possa dizer que este é o melhor momento do álbum, porque é, certamente, a melhor canção que Sia já fez.
Em "Distractions", faz uma boa reconstituição, soando por vezes a uma espécie de smooth-jazz, só estraga tudo em, arrastar por vezes mais do que nunca a pronúncia, tornando algumas palavras literlamente incompreensíveis. Ainda assim, não deixa de ser um bom final.
A canção de estúdio chama-se "Pictures", e é inevitavelmente um momento a referir no álbum. Uma boa canção, a fazer esquecer a boa da Sia das baladas tristes, apresentando-nos uma melodia mais alegre, e uma letra bastante razoável.
Enfim, um álbum de Sia, para o bem para o mal, com o bem e o mal. Uma referência para o título, muito engraçado.
Veredicto: 16/20


quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Maria de Medeiros em Viana do Castelo

Foi com a plateia lotadíssima que Maria de Medeiros se deparou quando, Terça-Feira, subiu ao palco do Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo. Em apresentação estava o álbum "A Little More Blue", em que a cantora/actriz desenha jazz em cima de clássicos brasileiros saídos de referências como Caetano Veloso, Chico Buarque, Dolores Duncan e Ivan de Lins.
Tímida dentro do seu vestido azul, Maria começa com "Joana Francesa" que, tal como no álbum, surge ligada com "Acorda Amor", ambas de Chico Buarque. É precisamente em "Joana Francesa" que tem a pior interpretação da noite: não por ter cantado mal, mas por, talvez devido á timidez, se ter colado demasiado á versão de estúdio. Mas em "Acorda Amor" já são imperceptiveis os rastos de timidez, e consegue, por contraste, um dos melhores momentos da noite.
Após algumas palavras em que reafirma e reforça a carga política das canções, entra a matar por "A Little More Blue" de Caetano. A partir daí, tanto desfila com as canções que compõe o seu álbum de estreia, como apresenta outras, principalmente do reportório que Chico e Caetano escreveram no exílio, em Roma e Londres, respectivamente.
Aqui, quase disfarçadamente, Maria retira alguma consistência ao álbum: é óptimo que interprete canções exteriores a ele, especialmente quando o faz com tanto brilhantismo como em "Adolescente Sentimental", mas se, para isso, abandona temas que fazem parte do álbum, como "O Quereres", já não é tão bom.
Áparte disto, nada a dizer. Maria canta bem, muito bem, soube conduzir os músicos, o alinhamento estava bem feito, pensado para realçar não só a pessoalidade de Maria de Medeiros, como também as qualidades da sua voz.
Brilhou em "Samba de Orly", na dupla interpretação de "Tanto Mar", do qual fez questão de realçar a história, e ainda lhe acrecentou uma porção de "Grândola Vila Morena" de José Afonso, que não deixa de surpreender.
"A Noite de Meu Amor" assenta como uma luva tanto á voz como á postura de Maria, assim como "Começar de Novo" de Ivan de Lins parece reforçar um certo ar revolucionário que a filha do maestro Vitorino d´Almeida por vezes assume, consciente ou inconscientemente.
No meio de algo tão bonito, só tive pena que o público, na sua maioria, fosse pouco participativo, uma vez que me parece que algo tão bom merecia um pouco mais de reacção. Enfim.
Veredicto: 19/20

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Caroline Lufkin - Drove Me To The Wall

Ao vivo no KLPAC, Caroline interpreta "Drove Me To The Wall", certamente uma das melhores canções de "Murmurs".

Caroline: Murmurs

INOCÊNCIA TARDIA

Quando a voz de Caroline Lufkin se ouve pela primeira vez, em “Bycicle”, nota-se que há qualquer coisa nela. Não só na voz, como na música, e até na própria letra, em que, puerilmente, Caroline diz “I don´t remeber your face, but I remember your bycicle”. O que se segue não foge em nada a estas primeiras ideias. De facto, a génese do álbum “Murmurs”, o primeiro LP desta japonesa radicada nos USA, fica bastante explicada nos primeiros quase quatro minutos, a primeira faixa.



Mais a fundo: Caroline não fez nada completamente bem, mas também não fez nada completamente mau. No seu primeiro álbum tem boas canções, e tem outras menos boas. Cai, por vezes, no entanto, no erro de lhes dar um toque demasiado inocente, que acaba por parecer forçado. Essa inocência tem o seu interesse, e acaba por ser uma forma de individualizar Caroline, mas, há muito que se sabe, o que é demais é erro, e ela por vezes exagera. Exagera principalmente em “Where´s My Love”, precisamente o single que lançou um ano antes de “Murmurs”. Tudo em “Where´s My Love” é abusivamente infantil, como se Caroline andasse a saltar entre flores muito maiores do que ela, e a deitar-lhes pozinhos mágicos… Nisto tudo, o que temos? Só a pior canção do álbum. Aparte destas, nenhuma exagera tanto que se torne um abuso. Ou seja, a interpretação de Caroline é consideravelmente positiva, não deixando de dar, ainda assim, alguns passos em falso.
A nível instrumental, “Murmurs” é um exercício excelente da fusão do electrónico com o acústico, sem deixar de ser, alguma vez, minimalista. Veja-se “Everylittlething”, onde a beat salta sobre os cristalinos sons do fender rhodes. E esta composição instrumental acaba, muitas vezes, por amparar Caroline quando ela cai nos tais excessos. “Everylittlething” é, mais uma vez, um bom exemplo.
A melhor canção, não obstante, parece-me ser “Drove Me To The Wall”, onde a electrónica faz a história, não sem uma trama de arranjos que acabam por resultar numa canção acolhedora e esteticamente muito bem conseguida.
As comparações com Bjork, perdoem-me, são ridículas. A voz de Caroline não soa a mais nenhuma, ainda que por vezes lembre uma espécie de Joanna Newsom menos agressiva. A nível instrumental, é mais normal inseri-la entre os Zero7 e os Telepopmusik.
No resultado, Caroline promete-nos vir a ser irrepreensível, o que, por enquanto, não é, mas a construção instrumental e os arranjos (Da autoria da própria Caroline Lufkin.) são, certamente, de aplaudir. Uma vez que perca os excessos de inocência e os substitua por alguma garra, que é o que aqui falta, Caroline estará perfeita. Venha ela.

Veredicto Final_ 15/20

Maria João: João

CANTO DOS DEUSES



Muito se tem falado dos álbuns de Maria João, Maria de Medeiros, Teresa Salgueiro e JP Simões, por terem em comum uma coisa: serem álbuns de portugueses a cantar canções brasileiras. Sobre isso, já disse o que tinha a dizer quando comentei “A Little More Blue” de Maria de Medeiros.
Mas, sobre “João”, o álbum de Maria João, tenho outras coisas a dizer. Para começar, há que realçar uma coisa, que a própria Maria João já realçou: muito antes de estar na moda ser-se português e cantar com sotaque do Brasil, já ela o fazia. Exemplos recentes são as excelentes versões de “Undercovers”, a par com Mário Laginha, de “O Quereres” de Caetano Veloso, “Esse Seu Olhar” de António Carlos Jobim, “Marco Marciano” de Lenine, ou do tema folclórico “Cantiga (Caico)”. Isto para ir só ao mais recente. Ou seja, em Maria João, a escolha de cantar músicas brasileiras soa a algo muito coerente, e não inesperado, como acontece com Maria de Medeiros e Teresa Salgueiro.
De todos esses álbuns, “João” é, provavelmente, o melhor.
Maria João faz, como sempre fez, a opção de cantar as coisas como lhe soam melhor. Assim sendo, muitas vezes nem chega a usar o sotaque brasileiro, usando outros, ou usando mesmo a pronúncia portuguesa de Portugal. Isso é bom. Assume as canções como se as tivesse feito, com total liberdade de interpretação, e evita colar-se aos originais. Ao mesmo tempo, também se mantém na linha que a caracteriza ao longo dos dezassete álbuns anteriores.
A nível dos instrumentos, e dos arranjos (De Miguel Ferreira, dos Blind Zero e dos Clã.), escolhe também caminhos menos óbvios. Evita (E esse é um caminho que também Maria de Medeiros escolheu, mas de uma forma mais direccionada.) assim a pretensão de criar uma sonoridade “abrasileirada”, limitando-se a colocar aquilo que lhe parece, e á equipa da produção, o mais adequado.
Escolheu, também, um reportório diversificado, e, ao contrário de Maria e de Teresa, que se ficaram pelos veteranos, Maria João escolhe também autores mais recentes, interpretando Chico Buarque, António Carlos Jobim, Marcelo Camelo, Ary Barroso, Caetano Veloso, Edu Lobo, Marisa Monte, Geraldo Pereira, Vinicuis de Moraes e Zequinha de Abreu. Oferece-nos, então, estas interpretações, com toda a expressividade a que nos habituou, e com uma autenticidade omnipresente, criando, assim, performances únicas.
Temas de destque, “Retrato a Preto e Branco” de António Carlos Jobim, abre o álbum, e muito bem. Uma canção promissora, que contém já alguns dos traços genéricos daquilo que será o restante. “Choro Bandido” de Cida Moreira é outro, “A Outra” de Marcelo Camelo, que é o single de avanço, é, certamente, uma das interpretações mais valiosas do álbum, com arranjos de harpa simplesmente deliciosos, “Partido Alto” de Caetano Veloso, merece também referência.
Enfim, aparte de todas essas teorias da música brasileira em Portugal, “João” é, sem dúvida, um dos discos do ano, ou não fosse ele o decimo sétimo de uma cantora que, por dezassete vezes, já mostrou que é única.

Veredicto Final: 19/20

Maria João - A Outra

Video de apresentação do álbum, "A Outra" dos Los Hermanos, escrita por Marcelo Camelo

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Tracey Thorn: Out Of The Woods

O QUARTO DESARRUMADO





Seis anos depois do último álbum dos Everything But The Girl, treze anos depois de dar voz a "Protection" e "Better Things" dos Massive Attack, e vinte e cinco anos depois do seu primeiro álbum a solo, Tracey Thorn lança, de repente, "Out Of The Woods". O seu primeiro álbum a solo, que muita gente desconhece, foi lançado em 1982, com o nome de "A Distant Shore". Sendo uma espécie de solo, em que a voz de Thorn fazia suaves duetos com a guitarra acústica, quem o conhece, e agora ouve "Out Of The Woods", pode reparar logo numa coisa: este álbum tem um som muito mais 80´s do que "A Distant Shore". O facto do debut ser a tal gravação voz/guitarra e de "Out Of The Woods" ser mais diversificado, pode contribuir, mas a verdade é que estas compoisções nos transportam com mais rapidez para os anos oitenta. Nada contra. Nada contra, porque, na verdade, este segundo álbum da vocalista dos Everything But The Girl é bastante bom. A tal diversidade nos instrumentos ajuda a criar uma sonoridade que, no resultado, é mais intimista. As canções parecem fechar quem ouve num pequeno quarto, um quarto desarrumado, com muita coisa escondida no meio da desarrumação, tal como nos mostra a capa. Os arranjos são calculados ao milímetro, com pequenos pormenores que, sinceramente, não seriam de esperar em Tracey Thorn. Acontece, por exemplo, em "Easy", e ainda bem. Ora, "Easy" é, precisamente, uma das melhores canções do álbum, criada no ponto rebuçado entre os ritmos dançáveis de "It´s All True" ou "Get Around To It" e os sons mais melodiosos de "Here It Comes Again" ou no excelentíssimo "A-Z". Logo depois, esses sons inesperados surgem-nos de novo em "Falling Off a Log", outra das melhores canções do álbum, certamente, produzida também na linha do ponto rebuçado da anterior.
No meio dessa decisão de enveredar pelos eighties, Tracey só falha por questões de alinhamento, uma vez que as baladas, ao surgirem no meio de canções mais dançáveis, parecem ser rapidamente apagadas.
As letras vagueiam entre narrativas pessoais e mensages, como a "palavra de esperança" que deita aos adolescentes gays em "A-Z".
Alegou que este álbum é exactamente isso, este álbum, e que não terá promoção ao vivo. Thorn decidiu escolher a vida familiar á vida dos palcos, e quem somos nós para a julgar? Mas é pena, porque algumas canções mereciam mesmos ser colocadas ao vivo.
Sem um disco perfeito, ainda assim, Tracey Thorn fez um disco muito bom, e isso é, claro, muito bom. Vinte e cinco anos fazem a sua diferença, ainda que aqui pareça ao contrário.




Veredicto Final_ 17/20

Tracey Thorn

Video de avanço de "Out Of The Woods" para o single "It´s All True".

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Kate Walsh: Clocktower Park

ROÇAR O CÉU

Apesar de saber como "Clocktower Park", o álbum de estreia de Kate Walsh, é bom, só agora me apeteceu comentá-lo. Em poucas palavras´, porque já me habituei a ele, é como se o conhecesse desde sempre, e torna-se cada vez mais difícil encontrar nele defeitos, uma vez que me afeiçoei a ele e aos sentimentos que consigo carrega. Mas digamos que "Clocktower Park" só peca por arriscar muito pouco. Só é mau na medida em que não foge daquilo que se espera de uma menina de 21 anos, com uma boa voz e que sabe tocar guitarra. Não é o som solista da Jewel de "Pieces Of You", mas não é a surpresa de um começo como o de Fiona Apple em "Tidal". Em tudo o resto, este é um excelente álbum. Pouco insistente, muito preciso: em dez faixas, diz-nos tudo. Passamos pela melancolia em todas elas, mas umas vezes num sentindo mais introspectivo, como acontece em "It´s Never Over" ou "Impressionable", outras vezes caminhando para um storytelling que, ainda assim, não abandona a primeira pessoa, o que acontece em "Animals On Fire" ou "Quicksand". Sem nunca resvalar para os dúbios trilhos da pop, Walsh remete-se ao seu rock, num som acústico e sóbrio, que vai desde o sussurrante em "June Bug", por exemplo, a um neo-barroco em "Sullen" ou a um som mais brilhante, como em "Holes In My Jacket". Desconhecida como qualquer bom músico em início de carreira, Kate Wlash escreveu, afinal, um álbum como poucos: falei em Jewel e em Fiona Apple, e ainda bem, porque Kate recusa dois erros que estas assumiram: não quis expor demasiado a voz como fez Jewel em 94, nem quis revelar demasiado a sua intimidade como fez Fiona em 95. A ver, fica o vídeo de "It´s Never Over", o lonínquo single de avanço, que, diga.se de passagem, foi muito bem escolhido. Obrigatório.

Veredicto Final_ 19/20

terça-feira, 31 de julho de 2007

Avanca´07

Não assisti nem a metade dos filmes a que gostaria de ter assistido, devido ao longo trabalho desenvolvido na workshop de Svetozar Ristovski na qual participei. Mas do que vi, aqui ficam pequenas impressões.












CÃES MARINHEIROS
Realizador: Joana Toste (Portugal)
Curta Metragem de Animação

Baseado num conto homónimo de Herberto Hélder, "Caes Marinheiros" assume uma inversão da realidade: os cães possuem um marinheiro, é ele o seu animal de estimação. Vemo-lo como tal de início a fim, e é nessa inversão de papéis que reside a mensagem do filme. A animação é simples, bonita, com contrastes que reforçam as ideias e os sentimentos. Boa animação, e simples.



Juízo Final: 15/20











ÁREA PROTEGIDA
Realização/ Argumento: José Miguel Moreira (Portugal)
Curta Metragem

Produzido pelo cine-clube de Avanca, "Área Protegida" é uma história baralhada, com uma resolução comovente, o que não chega para anular as abusivas presenças do factor cliché que vemos ao longo de, pelo menos, um quarto de hora, até chegarmos á verdade. Uma história bonita num filme não tão bonito.


Juízo Final: 10/20





O GUARDIÃO DO NINHO (Le Gardien du Nid)
Realizador/ Argumentista: Olivier Pesch (Luxemburgo)
Curta Metragem de animação


Esta é a cómica história do cómico Robert (Apesar de lhe não ouvirmos o nome.), cuja função é guardar e cuidar de uma seis ovos a desenvolverem-se. Entre eles, há um que se não cresce, sendo, por isso, rejeitado pelos outros. Robert, no entanto, acaba por se afeiçoar a ele, protegendo-o dos outros, e dando-lhe o seu carinho. A certa altura, parece-nos que o final será dramático, mas, na verdade, é extremamente divertido. A nivel da animação, ela é fantástica, com bonecos bem-feitos, e com apurado sentido estético, o som é também uma escolha interessante. Uma história mais metafórica do que simólica, que resulta bem pela escolhas menos óbvias numa história simples. Bom.


Juízo Final_ 17/20





O DILEMA DO PRISIONEIRO (Prisioner´s Dilemma)
Realizador/ Argumentista: Masanori Yoshida (Japão)
Curta Metragem de Animação

Fortemente marcado por imagens que nos remetem para uma certa violência psicológica, ainda assim exposta de uma forma quase inocente, "Prísioner´s Dilemma" arrasta-nos para uma série de voltas e reviravoltas na vida deste pobre prisioneiro torturado por tudo o que o rodeia. Boa animação aplicada a uma história que peca por não ser eloquente.

Juízo Final_ 14/20




ROB
Realizador/ Argumentista: Niko Kühnel (Nova Zelândia)
Actores: James Stewart, Brony Hughes
Curta Metragem


Filmado de uma forma inevitavelmente impactante, "Rob" é a história de Rob que tenta, repetidamente, roubar um banco, mas é repetidamente mal-sucedido, devido á sua própria distração. Ao fim de algum tempo a tentar, a sua sorte muda inesperadamente. Mais um final irónico, definitivamente interessante, e que, no fundo, diz muito sobre o nosso lado fraco e sacana.


Juízo Final: 15/20








LIÇÃO DE ADIÇÃO
Realização/ Argumento: Andreia Luís, Vitor Pedrosa (Portugal)
Curta Metragem/ Video-Animação

Resvalando sem demasiadas para as tendências do videoclip, "Lição de Adição", com música dos Pluto, revela-se bom na medida em que nos assoberba com uma sequência alucinante de imagens que não aparentam relacionar-se entre si. Uma espécie de plano subjectivo de uma montanha russa em paisagens dalinianas ou lynchianas, tanto faz...

Juízo Final: 17/20








NOUVELLE GENERATION
Realização/ Argumento: Artemio Benki (França)
Curta-Metragem


Com um título que se relaciona der forma dúbia com o que designa, "Nouvelle Génération" é um muito bom exemplo de uma muito boa curta-metragem. Em poucas imagens ficamos a conhecer as personagens, e o que fazem ali. A história dá uma série de reviravoltas, para pôr a protagonista frente-a-frente com o seu objectivo, ainda que esta se veja impossibilitada de o alcançar. Um drama e tanto.


Juízo Final_ 18/20








THE RUNT
Argumento/ Realização: Andreas Hykade (Alemanha)
Curta-Metragem de animação


Feito de imagens que, primeiro, nos comovem, e depois nos chocam, "O Pequeno Coelho" é uma visita ao passado de todos nós, numa forma metafórica. O tio oferece ao sobrinho um coelho, na condição de ele tratar dele e, dentro de um ano, de o matar. Desatque para a animação, simplória, mas estética. Bom.

Juízo Final: 16/20



IRON ISLAND



Argumento/ Realização: Mohammad Rasoulof (Irão)
Longa Metragem (90')

"A Ilha de Ferro" é uma visão simultâneamente realista e irónica das pessoas ignorantes, que deixam que outros se aproveitem da sua ignorância. Nemat leva milhares de famílias sem abrigo do Sul do Irão para um petroleiro perdido no meio do mar, a troco de dinheiro. Ao mesmo tempo que os explora, cobrando-lhes por um espaço com cerca de um metro-quadrado, ainda obriga os homens a retirar as partes de ferro do navio, derrete-as e vende-as. Esperto. A certa altura, o professor das crianças do barco repara que o navio se está a afundar. Ao mesmo tempo que a ilha de ferro se afunda, os donos legítimos donos decidem vendê-lo, e os novos querem levá-lo dali. Manipulando uns e outros, Nemat consegue garantir que não perde o seu ganha pão. Um filme brilhante, merecedor do prémio, com toda a certeza.

Juízo Final_ 19/20

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Du côté de chez Swann



Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n'avais pas le temps de me dire : «Je m'endors». Et, une demi-heure après, la pensée qu'il était temps de chercher le sommeil m'éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir encore dans les mains et souffler ma lumière; je n'avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire, mais ces réflexions avaient pris un tour un peu particulier; il me semblait que j'étais moi-même ce dont parlait l'ouvrage : une église, un quatuor, la rivalité de François 1er et de Charles-Quint. Cette croyance survivait pendant quelques secondes à mon réveil; elle ne choquait pas ma raison mais pesait comme des écailles sur mes yeux et les empêchait de se rendre compte que le bougeoir n'était plus allumé. Puis elle commençait à me devenir inintelligible, comme après la métempsycose les pensées d'une existence antérieure; le sujet du livre se détachait de moi, j'étais libre de m'y appliquer ou non; aussitôt je recouvrais la vue et j'étais bien étonné de trouver autour de moi une obscurité, douce et reposante pour mes yeux, mais peut-être plus encore pour mon esprit, à qui elle apparaissait comme une chose sans cause, incompréhensible, comme une chose vraiment obscure. Je me demandais quelle heure il pouvait être; j'entendais le sifflement des trains qui, plus ou moins éloigné, comme le chant d'un oiseau dans une forêt, relevant les distances, me décrivait l'étendue de la campagne déserte où le voyageur se hâte vers la station prochaine; et le petit chemin qu'il suit va être gravé dans son souvenir par l'excitation qu'il doit à des lieux nouveaux, à des actes inaccoutumés, à la causerie récente et aux adieux sous la lampe étrangère qui le suivent encore dans le silence de la nuit, à la douceur prochaine du retour.J'appuyais tendrement mes joues contre les belles joues de l'oreiller qui, pleines et fraîches, sont comme les joues de notre enfance. Je frottais une allumette pour regarder ma montre. Bientôt minuit.[...]






MARCEL PROUST, 1913
Foto: Francesca Woodman

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Avril Lavigne: The Best Damn Thing

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA...








É com a palavra "cliché" estampada na testa que Avril Lavigne chega aos discos pela quarta vez. Quem se lembra daquelas roupas mais masculinas que costumava usar, pode esquecer: a primeira coisa que se percebe em "The Best Damn Thing" é que Avril Lavigne está mais pronta para protagonizar "The O.C." do que a própria Mischa Barton. Portanto, apenas folheando o livrinho, já é notório que no terceiro registo de estúdio, Avril se revela incongruente e até mesmo contraditória: ela, que dizia que a pop era para meninas bonitas, dando os exemplos de Britney Spears, que inclusivé criticiou por esta última ter dito que ela devia dançar; aparece-nos agora com madeixas cor-de-rosa, camisas ás pintinhas, e calções que parecem um cinto, meias de rede, enfim, que mais do que uma menina bonita da pop, que até pinta a capa do álbum de cor-de-rosa. E, depois de ter criticado Britney por causa de um comentário tão inocente, aparece-nos no videoclip de "Girlfriend" a dançar, e a cantar em "I don´t have to try"

"_I´m the one, I´m the one who knows to dance..."

Conclusão: aquela Avril Lavigne supostamente muito rebelde e má não passava de uma fachada, porque Avril Lavigne não passa de uma menina igual a todas as outras, o que só vai de encontro ao facto de ela nem rebelde saber ser.

Agora a música. O álbum abre com o irritante "Girlfriend", em que, uma vez mais pretenciosamente, ela diz

I don´t like your girlfriend

You should get a new one

I could be your girlfriend

ou seja, uma presunção que já não lhe víamos desde que dizia que era uma cantora rock. Mais tarde, dirá ainda

I am the best damn thing

That your eyes have ever seen

só para que se perceba que ela está realmente convencida que é muito boa.

O registo e o esquema das canções não varia nas quatro primeiras faixas, chegando ao cúmulo de "The Best Damn Thing" ser uma cópia de "Girlfriend". A primeira balada chega na quinta faixa, com "When You´re Gone". Um lugar-comum da pop, balada de piano, bateria e supostos arranjos de cordas. Ou seja, tem que se ser um muito bom músico para conseguir disto tirar uma boa música. Não é o caso.

E é nisto que andamos. Ora temos canções pretenciosamente rock, onde previsíveis compoisções pop se exploram com guitarras eléctricas desmedidas, baterias rápidas com beats previsíveis, vozes que chegando ao primeiro refrão já nos levam a dizer

"_Ó rapariga, cala a boca..."

de tão irritantes que são, como "Everything Back But You", "Runaway" ou, principalmente "I Can Do Better"; ora temos baladas assumidamente pop, que nos levam a perguntar se não são todas construídas da mesma maneira, e a resposta é que são mesmo. Acontece com "When You´re Gone" e "Innocence" por exemplo. "Keep Holding On" tem uma construção diferente a nível de instrumentos, mas a composição é a mesma.

Se há uma coisa boa em "The Best Damn Thing" é o esforço, que por vezes é quase bem sucedido, de não se repetir aquilo que já se fez. Mas, no essencial, o quarto álbum acaba por ser como todos os que se seguiram a "Let Go": tiros ao lado. Com o primeiro álbum até havia uma ou duas coisas que se salvavam, mas os restantes serviram só para deitas por terra o pouco que se ganhara com "Let Go": "My World" continha faixas ao vivo, o que é um erro, quando é óbvio que a voz de Avril é feita em estúdio, e que ao vivo ela não canta literalmente nada (Quem duvidar pode procurar no YouTube e vão ver que eu tenho razão.), "Under My Skin" era uma repetição barata de "Let Go", mas sem as tais poucas coisas que se salvavam. Por fim, "The Best Damn Thing" não só não é um bom álbum como ainda tem a brilhantismo de nos dizer que os primeiros três são falsos.

Enfim, alguém ensine á menina canadiana o significado das palavras "coerência" (Devia encontrar uma personalidade e mantê-la.), "realismo" (Para ver se enfrenta de uma vez que não sabe fazer música.) e "humildade"(Para ver se deixa de criticar as pessoas como se ela fosse um modelo, quando, a verdade é que não é). Enfim, uma tristeza.





Veredicto Final_ 7/20

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Nazuc



Lento suave e firme
é o assentar das minhas patas no chão.

As ruas carregam coisas
ruidosas que se empurram e
me empurram sem razão, separando-me de mim.
Caminho pesado e o meu corpo,
rugoso e sagrado, tem pintadas
as muitas cores que os homens fazem.

Aqui estou eu, enorme e frágil,
no meio da cidade, com a minhas presas intactas.
Aqui estou eu, debaixo deste sol
escaldante que nunca me deixa
esquecer as selvas, montanhas e
imensas planícies verdes e livres
duma Índia que é minha.

do álbum "Mumadgi" de Maria João e Mário Laginha.
Letra: Maria João
Imagem: Henri Matisse

segunda-feira, 16 de julho de 2007

+10 Discos Para o Verão

Pelo segundo Verão consecutivo, deixo 10 sugestões de música para ouvir no Verão:







MASSIVE ATTACK: "Mezzanine" (1998)


Terceiro álbum, dos pioneiros do Bristol-Sound. Fusão de trip-hop com arranjos orquestrais, alternando as vozes melodiosas de Sara Jay e Liz Fraser (Cocteau Twins) com as vozes rasgadas de Horace Andy e Robert Del Naja. Por um lado a suavidade de "Dissolved Girl", uma canção com um esquema simples, mas muito conveniente, "Teardrop" ou "Black Milk" com a voz aveludada de Elizabeth Fraser, a quem já chamaram "a voz de Deus", e por outro as canções-alucionogénio "Inertia Creeps", os ritmos com ligeiras influências do árabe, e a voz de 3D a narrar uma história que foge em várias direcções, ou "Angel", onde Horace Andy consegue uma das suas melhores performances, senão mesmo a melhor, no contexto das suas colaborações com os Massive Attack. Ritmos acelerados ou envolventes para aquecer como o Sol ou refrescar.
Veredicto: 17/20







ANATHEMA: "A Natural Disaster" (2003)



Publicado em 2003, oito anos após Lee Smith se ter tornado vocalista dos Anathema, "A Natural Disaster" é provavelmente o melhor registo da banda inglesa, até á data. Mais afastados agora do doom metal, e mais próximos do rock gótico ou do gothic metal, num registo mais melódico, melancólico e enegrecido, os Anathema correm tanto na direcção de canções mais "bonitas" e simples, como o belíssimo "Are You There?", como na direcção de coisas mais agressivas como "Electricity" ou mais extremistas como "Pulled Under At 2000 Metres A Second", mas sem nunca perder a noção do lado melodioso. Muito bom.

Veredicto: 18/20






SIA "Colour The Small One" (2004)

Sia Kate Isobelle Furler, ou só Sia, ficou conhecida ao dar a voz a "Distractions" e a "Destiny" (Aqui a meias com Sophie Barker.), no álbum de estreia dos Zero7, "Simple Things". Prolongou a sua colaboração com a banda ao álbum "When It Falls", e o registo mais recente, "The Garden", é-lhe entregue quase na totalidade. O seu primeiro álbum dava-se pelo nome de "Healing Is Difficult", e seguiu-se-lhe "Colour The Small One". O segundo á construído com músicas mais harmoniosas, mas também mais pop. Ainda que alguns momentos não soem a mais do que meros clichés numa voz fenomenal, algumas canções do álbum merecem ser ouvidas, e várias vezes, especialmente num dia de bastante calor... "Sunday", "Rewrite", "Don´t Bring Me Down" ou "Where I Belong" são bons exemplos. Grande destaque, no entanto, para "Breathe Me", a canção que fecha o último episódio da excelente série "Six Feet Under-Sete Palmos de Terra" de Allan Ball.

Veredicto_ 17/20






TEXAS: "The Redbook" (2005)


Com temas melhores que outros, sendo os melhores geralmente os mais ignorados, "The Redbook", o oitavo e mais recente álbum dos escoceses Texas, é outro dos álbuns que segue a lógica dos outros álbuns dos Texas: o público ignora tudo o que for muito bom. Portanto, pouco se falou deste álbum. Feito de canções de ritmos dançáveis, mas com elaborados arranjos, percussões fortes, quer sejam electrónicas quer acústicas, guitarras afirmadas e linhas fortes de baixo. A voz de Sharleen Spiteri revela-se uma vez mais flexível, encontramo-la em modelados deiferentes ao longo das faixas, mas vestindo como se de uma luva se tratasse. É sempre bom ouvir coisas como "Getaway", "What About Us" ou "Nevermind". Quanto a "Can´t Resist", uma só palavra: repeat...

Veredicto: 16/20






JONI MITCHELL: "Court And Spark" (1974)



Sexto álbum da cantora/compositora/letrista/pianista/guitarrista/pintora canadiana. Um álbum que chegou ao segundo lugar dos tops americanos, "Court And Spark" é uma história feita de cançãos simples, mais ou menos acústicas, certamente grandiosas, mas sem perder a pessoalidade e a emoção que canções tão temperamentais como estas exigem, e sempre com a sensualidade que a voz de Mitchell tem. Obrigatórias são "Same Situation", "Down To You", "Raised In Robbery" ou "People´s Parties". Quanto a convidados há vários, e de peso, David Crosby, Graham Nash, Dennis Budimir, Joe Sample, Susan Webb ou Wayne Perkins. A capa é da autoria de Joni Mitchell que, além do mais produz o álbum.

Veredicto: 18/20







VIVIANE: "Viviane" (2007)

Poderia ser uma presença da praxe, mas não é. O álbum homónimo de Viviane merece referência, tal como merecia o álbum de estreia, o ano passado. Com uma familiar sonoridade suave, brilhante, simples e envolvente, "Viviane" divaga entre o lado mais solarengo e uim outro mais intimista e triste, marcado acime de tudo pelos "Fados..." que fazem parte do alinhamento. Peca por não ser particularmente inovador, mas não deixa de ser um bom álbum, com uma alma muito vivaz, e muito algarvia.
Veredicto_ 16/20






BILL CALLAHAN: "Woke On A Whaleheart" (2007)


Sendo o 12º registo de Bill Callahan, "Woke On a Whaleheart" é o primeiro em nome próprio, visto que os anteriores onze estão assinados por Smog. Canções consideravelmente mais alegres, mas sempre com uma sonoridade essencialmente acústica, com a marca inconfundível da voz de Callahan, acompanhada por um violino e guitarra. O próprio define o álbum como uma mistura de gospel, pop e ópera americana. Talvez sim. Numa sonoridade definitivamente afastada de Smog, Bill consegue aqui criar canções menos depressivas, antes sim com um toque de brilho que anteriormente não lhe conhecíamos. Talvez seja o namoro com Joanna Newsom... A ouvir "Diamond Dancer", "Day", "Night" e "A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man".

Veredicto: 16/20






FINAL FANTASY: "He Poos Clouds" (2006)





Owen Pallet é violinsta dos Arcade Fire, para quem faz os arranjos de cordas, mas é também Final Fantasy, uma espécie de alter.ego. Toca violino ou viola de arco para acompanhar a sua voz. E é um violinta e compositor raro, capaz de composições bastante irregulares, mas que executa sem a mínima dificuldade. A voz, essa, não é muito boa, limita-se a ter um timbre quente, mas é pouco flexível. A boa notícia, é que Pallet tem noção disso, e compõe de acordo com as suas limitações. Essa inflexibilidade não o impede de transparecer as suas emoções, pelo que grita e sussurra várias vezes ao longo das músicas, oferecendo-lhes personalidade. "He Poos Clouds", "The Arctic Circle" ou "I´m Afraid Of Japan" são referências obrigatórias.

Veredicto: 18/20






SARA TAVARES: "Balancê" (2006)

As origens cabo-verdianas de Sara Tavares vêm agora ao de cima, felizmente, e assim, longe ficam os tempos onde se canta na Eurovisão. "Balancê" é o sucessor de "Mi-Ma-Bô", e o melhor álbum de Sara, até á data. Marcado por canções leves e bem-construídas, cantadas em português, crioulo e inglês, caracterizadas por uma certa hedonia, "Balancê" contém momentos incontornáveis, como "Bom Feeling" (É bom ouvir qualquer coisa como Deixa a janela do sorriso aberta.), como "Balancê", a música dedicada a Maria José Sobral, a mãe da cantora, ou, principalmente, "De Nua", a canção onde a sua voz se cruza com a de Ana Moura, criando uma fenomenal dualidade entre o fado e a música cabo verdiana. Além de ser autora da maior parte das canções, Sara participa ainda como multi-instrumentista.

Veredicto: 16/20






MARIANNE FAITHFULL: "Before The Poison" (2005)


Após um best-of, nada como um álbum de originais. Marianne Faithfull pede canções a PJ Harvey, Nick Cave, Damon Albarn e Jon Brion, e consegue um dos seus melhores álbuns, talvez até o melhor desde "Broken English". Assim sendo, ficamos com um misto de canções mais calmas e outras mais isaltadas, mas todas envolvidas numa espécie de torpor do qual se deseja saír. Assim acontece em "Before The Poison", onde PJ Harvey musica palavras de Marianne Faithfull, em "There Is A Ghost", onde Nick Cave faz o mesmo, em "Last Song", música de Damon Albarn, ou "City Of Quartz" de Jon Brion. O que se passou depois do veneno ficará para o próximo álbum, mas antes, havia, de certeza, canções excelentes.

Veredicto: 18/20

domingo, 15 de julho de 2007

Patrick Wolf: The Magic Position

POSIÇÃO DELICADA






Ele não sabe se está destinado a passar o resto da sua vida com um homem, com uma mulher ou com um cavalo, mas há uma coisa que ele sabe e muito bem: fazer música. Patrick Wolf é uma figura bizarra, mas muito interessante. Apresenta-se em palco sempre de uma forma inesperada (Tanto pode estar a vestir roupa preta, como uma camisa simples, como uma t-shirt prateada com a gola em barco e umas calças de padrão de zebra.), e tocando os mais variados instrumentos.

A primeira coisa que pode saltar á vista em "The Magic Position", para quem conhece os dois trabalhos anteriores, é precismante uma radical mudança de postura, musical e visual.

Ele que surge vestido de menino na capa de "Lycanthropy" e vestido de preto em "Wind On The Wires", tem agora um ardente cabelo vermelho, veste-se ás cores, e está montado num pequeno veado de carrossel, abaixo das palavras "The Magic Position". Portanto, o visual é, de longe, mais alegre e colorido. Depois ouvimos o álbum, e é quando entendemos que a música é, também ela, mais alegre e colorida. A "Overture" diz tudo. Depois, vamos ouvindo canções que nos falam de mistérios como posições mágicas, jardins secretos ou simplesmente estrelas.


Musicalmente, "The Magic Position" é o registo mais próximo da pop da ainda curta discografia de Wolf, isto sem se tornar um mau álbum. Aqui temos também as canções mais alegres e simples. O que era a complexidade, o maximalismo de "Wind On The Wires", o que era a sensação de que tudo era irrepetível, fica esbatido em "The Magic Position".



Sem perder a identidade musical, Wolf acaba por fazer, ao terceiro álbum, uma mudança de rumo que não deixa de ser arriscada, mas que resulta bem. Um tiro certeiro. Ele já tinha dito que o seu décimo álbum poderia vir a ser um álbum de black metal, o que demostra que não anda muito preocupado com criar unidade. Esta atitude é negativa apenas se ele não for capaz de enveredar na diversidade com o mesmo á-vontade em todas as áreas. Não é o que acontece. Ao mover-se de uma sonoridade mais indie/ folk para outra mais electrónica, Wolf não sofre de uma queda de qualidade.


Quem aprova este álbum são Edward Larrikin, que empresa a voz a "Accident and Emergency", o primeiro single, e Marianne Faithfull que empresta a voz a "Magpie". Duas participações de peso que não deixam de tornar o álbum mais descentralizado. A irmã do músico, Jo Apps participa com os backing vocals, e Derek Apps toca baixo e clarinete.


Seguindo um esquema em que as músicas são, realmente, tratadas como peças de um álbum, começando em "Overture", seguindo para o tom festivo do titletrack, e continuando por sonoridades heterogénias, mas subordinadas a um mesmo estilo. Encontramos canções que podem bem ser algumas das melhores de Patrick, coisas como "The Kiss", "Augustine" ou o interlúdio "The Bluebell" seguido de "Bluebells". Para terminar, uma "Finale" rápida.


Sem a complexidade de "Wind On The Wires" ou a inocência maldosa de "Lycanthropy", "The Magic Position" não é o melhor álbum de Patrick Wolf, mas é um álbum bom, e que ainda dá mais um motivo para aplaudir o multinstrumentista britânico: teve a coragem de mudar de direcção, e de caminhar num trilho tão mal-amado como a pop.

Veredicto Final_ 17/20

sábado, 14 de julho de 2007

Laurie Anderson no Theatro Circo

ODISSEIA










Esta Sexta-Feira 13 não correu nada mal nem a mim, nem a Laurie Anderson, ela porque brilhou apresentando o projecto que lançará em breve, "Homeland", no Theatro Circo de Braga; e eu porque assisiti.
Com um longo e bem-sucedido percurso na música experimental, que começa em 1976 com o álbum "For Instants" e se prolonga por (Até agora.) 12 álbuns, que passam pelo megalómano sucesso de "O Superman" em 1982. O seu próximo álbum, objecto de análise de dois espctáculos em Portugal (Um no Theatro Circo, outro na Culturgest, a 15 de Julho.), inseridos na corrente digressão europeia, chama-se "Homeland", e são-lhe aliados conceitos como "poema épico" e um olhar "para as obsessões que a América tem com a segurança, a distância, a informação, a relação entre o medo e a liberdade, a aceitação crescente da violência e a persistente nova linguagem de guerra". Estão correctos. Tudo isto é baseado em factos verídicos.




Face ás barrocas decorações da sala, onde o vermelho joga com o dourado, e ambos jogam com a luz; o palco parecia muito minimalista. Quatro cadeiras, teclados, uma guitarra, uma tela no fundo, lâmpadas pendendo desde o tecto em longos cabos brancos, e muitas velas acesas pelo palco.
Laurie Anderson entrou no palco com os três músicos, com pouco tempo de atraso, e lança-se numa estupenda história que relata a origem da memória. A partir daí, somos avassalados por uma espécie de ópera experimental, com a famigerada dimensão épica, a omnipresente e directa componente de ataque político á América de Bush e á América típica, a que tão bem conhecemos, dos adolescentes obesos, trôpegos, estúpidos e com pouco para dizer. Há também os retratos da América que já não sabe pensar por si mesma, questiona a hegemonia da nação de W. Bush, tudo com uma adorável ironia e uma invejável perspicácia. E, no meio de tudo isto, Anderson ainda tem tempo de nos falar de histórias de humanidade, tanto pessoais, como num sentido mais geral.
Era impossível, literalmente, dizer qual foi o melhor momento de todos, ter-se-ia que referir obrigatóriamente (E os títulos podem não ser exactamente estes.) "Only An Expert Can Deal With A Problem", a beat mais forte, e um fenomenal arranjo de violino, uma letra fantástica que nos diz que só um perito pode lidar com um problema, porque detectar o problema é metade do problema, e, por surpreendente que possa parecer, ainda consegue um espacinho para o programa de Oprah Winfrey, para os Óscars, e para (Lá está.) os bombardeamentos da América. Depois, claro, "This Transitory Life" uma letra mais filosófica, com laivos de inteligência que não encontramos em muita gente; "The Sky, The Land" em que nos conta uma história de um mundo que não existe, onde o que existe são apenas imagens desse mundo, "I´m a Bad Guy", a história do tal típico americano, contada na primeira pessoa, com um irresistivelmente sarcástico
"_Cause I´m a bad guy..."
a deslizar por dois violinos em linhas diferentes.
Por muito bom que tudo isto tenha sido, fiquei sem resposta para a pergunta
"Para onde foi o expectáculo multimédia que costumava acompanhar os concertos de Laurie Anderson?"
isto porque gostaria de ter visto este último. Mas pronto, perdoa-se.
Com tudo isto, só é uma pena que este tipo de músicos passe apenas por salas mais pequenas. Claro que o Theatro Circo não deixa de ser um espaço agradável, e, a nível de programa, é provavelmente a melhor sala do Norte, precisamente porque músicos como Laurie Anderson, ou Joanna Newsom, Andrew Bird ou Patrick Wolf, ou seja, do universo da música alternativa, que folk, quer experimental, quer indie, não vão aos Coliseus, não vão ás salas grandes. Não percebo porquê, mas não deixo de lamentar que se recebam os D´ZRT nessas salas e não se receba Laurie Anderson. Uma trsiteza e um clássico português.




Nota Final_ 19/20

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Bjork: Volta

VOLTAR AOS PRIMÓRDIOS










Sinto-me, após repetidas e deliciadas audições do sexto álbum da minha islandesa preferida, Bjork Gudmundsdottir, a falar de tal objecto. “Volta”, ao contrário do que se possa dizer, não é voltar á pop, nem voltar a coisa nenhuma. Quando muito, é voltar aos primórdios, ao ancestral, mas voltar no tempo cronológico, não nos conceitos patentes na discografia de Bjork.
Ou seja, sem que eu lho dissesse, Bjork deu-me aquilo que dela queria ouvir desde “Medulla”. Foram três anos de espera que valeram bem a pena. O que marcava Medulla eram as beats de sonoridade animalesca, ancestral, mas produzidas com a voz. A primeira coisa que pensei, quando me habituei aos conceitos do quinto álbum, foi em como seria bom ouvir a mesma sonoridade, mas com instrumentos. E é essa uma das melhores e mais exploradas ideias de “Volta”. Fica aí, igualmente, o ponto de partida: o álbum abre com “Earth Intruders”, o primeiro single, com uma beat criada por Timbaland, sopros, sintetizadores (Isso sim, é um retorno, já não os víamos desde “Vespertine”, em 2001, com excepção da faixa “Storm” de “Drawing Restraint 9” de 2005.), e o lado tribal é a primeira coisa em que se repara. Também aqui podemos estabelecer uma discreta ponte com “Medulla”, pela voz feminina que entoa algumas notas, tratada como um instrumento. Timbaland surpreende. Quem ouve as afrontas que escreve para Nelly Furtado, Justin Timberlake ou as Pussycat Dolls tem dificuldades em acreditar que seja capaz de uma criação tão genial. Ou então, como eu, decide acreditar que essa famigerada beat tem mão de Bjork. “Earth Intruders” é uma excelente canção, mas talvez uma escolha imprópria para abertura do álbum: é nela que Bjork aglomera, sintetiza os conceitos das outras canções, ou seja, dá-lhe o tudo por tudo, e talvez isso fosse mais interessante para encerrar o álbum.







Prosseguindo, encontramos “Wanderlust” que, segundo a cantora, é o ponto de partida ideológico de todo o álbum. E uma belíssima canção, nesse sentido literalmente, é bela, bonita. A voz vagabundeia sobre os sopros dos Konono nº1 e a beat, suja e demarcada.
É na terceira faixa que a voz de Antony Hegarty, dos Antony and The Johnsons, se faz ouvir pela primeiríssima vez. E muito bem. “The Dull Flame Of Desire” cabe também no conjunto das canções bonitas do álbum. Certo é que somos arrastados para uma atmosfera deprimente, mas, sem dúvida, o dueto entre Bjork e Antony é perfeito, e as percussões, crescentes, só engrandecem mais ainda aquilo que podemos chamar uma potentíssima balada.
“Innocence” volta a trazer-nos uma beat de Timbaland, não menos má que a do primeiro single, mas certamente mais reconhecível. Uma boa canção que só peca por viver demasiado do ritmo, que, por bom que seja, não chega para fazer uma canção. Mas a postura vocal de Bjork, e os discretos arranjos, a juntar a uma audição atenta, salvam tudo.
“I See Who You Are” sai prejudicada por se seguir a “Innocence”. O ritmo frenético da quarta faixa abafa quase até ao apagamento a quinta. Mas a linha de kora de Toumani Diabaté é, sem dúvida, uma traço interessante, e a marca do interesse de Bjork pelo lado acústico, que já estava óbvio em “Drawing Restraint 9”.
“Vertebrie By Vertebrie” nasce do reaproveitamento de “Vessel Shimenawa”, uma secção de sopros pertencente ao álbum anterior, á qual se acrescentou uma beat, e a voz que narra uma história um tanto violenta. O título diz tudo. Mas é, sem dúvida, uma das canções mais carnais e mais humanas de “Volta”.



“Hope” é mais uma beat de Timbaland, a última, numa canção que se aproxima da sonoridade de “I See Who You Are”, sem a decalcar, o que é importante. Ao mesmo tempo, há uma enorme harmonia e paixão efusiva em todas as notas.
“Declare Independence” é o momento mais hardcore, agressivo e violento de todo o álbum. Para já, a utilização da guitarra eléctrica é uma novidade, a beat atinge proporções de proibitivo brilhantismo, e, no fim, ficamos com um hino de libertação e anti-colonialismo, gritado com toda a vivacidade por Bjork. Uma música que não se deve ouvir sentado. E vamos dizer só isto.
Para terminar, “My Juvenille”, ainda que com os fenomenais traços da voz de Antony e da kora de Diabaté, é demasiado neobarroca para um final. Isto porque, se tivéssemos algo mais energético, não poderíamos deixar de repetir a audição. Com isto, ficamos como se tivéssemos tomado um brandy depois de uma refeição abundante.
Agora, a parte em que me assumo como fanático de Bjork, e em que chamo demagogos a essas criaturas que deturpam as escolhas dela.
Acho muito bem que ela procure na natureza aquilo que é a génese do seu som, e das suas temáticas. Bem vistas as coisas, toda a gente procura falar do que tem dentro de si. Bjork recusa frequentemente esta atitude. Nada contra quem a assume, mas não deixa de ser original não o fazer. Em relação á imagem, há que separar as coisas. Bjork é uma compositora de talento raro (Para não dizer único.), capaz de criações absolutamente fora de série, e não catalogáveis, mas a imagem é outra coisa. A imagem é o suporte, e, também no suporte, Bjork é assinalável. Cada álbum é um objecto individual que, como tal, é acompanhado pela sua própria imagem. É errado criticar Bjork por mudar de visual de acordo com as mudanças na sua música, porque ela não faz mais do que faz uma actriz, e do que fazem muitos outros músicos. Mísia faz o mesmo, Tori Amos em “American Doll Posse”. Porquê descarregar em Bjork?


Quanto ás suas participações, oportunismo não só não é a palavra certa, como não chega sequer a caber. Há que saber ter á nossa volta as pessoas certas, e Bjork não fez outra coisa. Esteve muito na berra trabalhar com o Dallas Austin, e no entanto ela não o fez. É selectiva, e tem dedo, Matmos, Nellee Hooper, Tagaq, e o próprio Timbaland têm, certamente, aos olhos da pequena islandesa, qualidades adaptáveis ás suas ideias. Se leva isso por diante, não vejo onde está o problema.
Isso ou não são críticas sinceras, ou é não ter inteligência capaz para entender o contexto da música da Bjork (Entender NÃO é gostar.) Eu acho que é mais a segunda.

Juízo Final_ 20/20