quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Maria de Medeiros em Viana do Castelo
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Caroline Lufkin - Drove Me To The Wall
Ao vivo no KLPAC, Caroline interpreta "Drove Me To The Wall", certamente uma das melhores canções de "Murmurs".
Caroline: Murmurs
Quando a voz de Caroline Lufkin se ouve pela primeira vez, em “Bycicle”, nota-se que há qualquer coisa nela. Não só na voz, como na música, e até na própria letra, em que, puerilmente, Caroline diz “I don´t remeber your face, but I remember your bycicle”. O que se segue não foge em nada a estas primeiras ideias. De facto, a génese do álbum “Murmurs”, o primeiro LP desta japonesa radicada nos USA, fica bastante explicada nos primeiros quase quatro minutos, a primeira faixa.
Mais a fundo: Caroline não fez nada completamente bem, mas também não fez nada completamente mau. No seu primeiro álbum tem boas canções, e tem outras menos boas. Cai, por vezes, no entanto, no erro de lhes dar um toque demasiado inocente, que acaba por parecer forçado. Essa inocência tem o seu interesse, e acaba por ser uma forma de individualizar Caroline, mas, há muito que se sabe, o que é demais é erro, e ela por vezes exagera. Exagera principalmente em “Where´s My Love”, precisamente o single que lançou um ano antes de “Murmurs”. Tudo em “Where´s My Love” é abusivamente infantil, como se Caroline andasse a saltar entre flores muito maiores do que ela, e a deitar-lhes pozinhos mágicos… Nisto tudo, o que temos? Só a pior canção do álbum. Aparte destas, nenhuma exagera tanto que se torne um abuso. Ou seja, a interpretação de Caroline é consideravelmente positiva, não deixando de dar, ainda assim, alguns passos em falso.
A nível instrumental, “Murmurs” é um exercício excelente da fusão do electrónico com o acústico, sem deixar de ser, alguma vez, minimalista. Veja-se “Everylittlething”, onde a beat salta sobre os cristalinos sons do fender rhodes. E esta composição instrumental acaba, muitas vezes, por amparar Caroline quando ela cai nos tais excessos. “Everylittlething” é, mais uma vez, um bom exemplo.
A melhor canção, não obstante, parece-me ser “Drove Me To The Wall”, onde a electrónica faz a história, não sem uma trama de arranjos que acabam por resultar numa canção acolhedora e esteticamente muito bem conseguida.
As comparações com Bjork, perdoem-me, são ridículas. A voz de Caroline não soa a mais nenhuma, ainda que por vezes lembre uma espécie de Joanna Newsom menos agressiva. A nível instrumental, é mais normal inseri-la entre os Zero7 e os Telepopmusik.
No resultado, Caroline promete-nos vir a ser irrepreensível, o que, por enquanto, não é, mas a construção instrumental e os arranjos (Da autoria da própria Caroline Lufkin.) são, certamente, de aplaudir. Uma vez que perca os excessos de inocência e os substitua por alguma garra, que é o que aqui falta, Caroline estará perfeita. Venha ela.
Veredicto Final_ 15/20
Maria João: João
Muito se tem falado dos álbuns de Maria João, Maria de Medeiros, Teresa Salgueiro e JP Simões, por terem em comum uma coisa: serem álbuns de portugueses a cantar canções brasileiras. Sobre isso, já disse o que tinha a dizer quando comentei “A Little More Blue” de Maria de Medeiros.
Mas, sobre “João”, o álbum de Maria João, tenho outras coisas a dizer. Para começar, há que realçar uma coisa, que a própria Maria João já realçou: muito antes de estar na moda ser-se português e cantar com sotaque do Brasil, já ela o fazia. Exemplos recentes são as excelentes versões de “Undercovers”, a par com Mário Laginha, de “O Quereres” de Caetano Veloso, “Esse Seu Olhar” de António Carlos Jobim, “Marco Marciano” de Lenine, ou do tema folclórico “Cantiga (Caico)”. Isto para ir só ao mais recente. Ou seja, em Maria João, a escolha de cantar músicas brasileiras soa a algo muito coerente, e não inesperado, como acontece com Maria de Medeiros e Teresa Salgueiro.
De todos esses álbuns, “João” é, provavelmente, o melhor.
Maria João faz, como sempre fez, a opção de cantar as coisas como lhe soam melhor. Assim sendo, muitas vezes nem chega a usar o sotaque brasileiro, usando outros, ou usando mesmo a pronúncia portuguesa de Portugal. Isso é bom. Assume as canções como se as tivesse feito, com total liberdade de interpretação, e evita colar-se aos originais. Ao mesmo tempo, também se mantém na linha que a caracteriza ao longo dos dezassete álbuns anteriores.
A nível dos instrumentos, e dos arranjos (De Miguel Ferreira, dos Blind Zero e dos Clã.), escolhe também caminhos menos óbvios. Evita (E esse é um caminho que também Maria de Medeiros escolheu, mas de uma forma mais direccionada.) assim a pretensão de criar uma sonoridade “abrasileirada”, limitando-se a colocar aquilo que lhe parece, e á equipa da produção, o mais adequado.
Escolheu, também, um reportório diversificado, e, ao contrário de Maria e de Teresa, que se ficaram pelos veteranos, Maria João escolhe também autores mais recentes, interpretando Chico Buarque, António Carlos Jobim, Marcelo Camelo, Ary Barroso, Caetano Veloso, Edu Lobo, Marisa Monte, Geraldo Pereira, Vinicuis de Moraes e Zequinha de Abreu. Oferece-nos, então, estas interpretações, com toda a expressividade a que nos habituou, e com uma autenticidade omnipresente, criando, assim, performances únicas.
Temas de destque, “Retrato a Preto e Branco” de António Carlos Jobim, abre o álbum, e muito bem. Uma canção promissora, que contém já alguns dos traços genéricos daquilo que será o restante. “Choro Bandido” de Cida Moreira é outro, “A Outra” de Marcelo Camelo, que é o single de avanço, é, certamente, uma das interpretações mais valiosas do álbum, com arranjos de harpa simplesmente deliciosos, “Partido Alto” de Caetano Veloso, merece também referência.
Enfim, aparte de todas essas teorias da música brasileira em Portugal, “João” é, sem dúvida, um dos discos do ano, ou não fosse ele o decimo sétimo de uma cantora que, por dezassete vezes, já mostrou que é única.
Veredicto Final: 19/20
Maria João - A Outra
Video de apresentação do álbum, "A Outra" dos Los Hermanos, escrita por Marcelo Camelo
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Tracey Thorn: Out Of The Woods
O QUARTO DESARRUMADO
Veredicto Final_ 17/20
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Kate Walsh: Clocktower Park
ROÇAR O CÉU
Apesar de saber como "Clocktower Park", o álbum de estreia de Kate Walsh, é bom, só agora me apeteceu comentá-lo. Em poucas palavras´, porque já me habituei a ele, é como se o conhecesse desde sempre, e torna-se cada vez mais difícil encontrar nele defeitos, uma vez que me afeiçoei a ele e aos sentimentos que consigo carrega. Mas digamos que "Clocktower Park" só peca por arriscar muito pouco. Só é mau na medida em que não foge daquilo que se espera de uma menina de 21 anos, com uma boa voz e que sabe tocar guitarra. Não é o som solista da Jewel de "Pieces Of You", mas não é a surpresa de um começo como o de Fiona Apple em "Tidal". Em tudo o resto, este é um excelente álbum. Pouco insistente, muito preciso: em dez faixas, diz-nos tudo. Passamos pela melancolia em todas elas, mas umas vezes num sentindo mais introspectivo, como acontece em "It´s Never Over" ou "Impressionable", outras vezes caminhando para um storytelling que, ainda assim, não abandona a primeira pessoa, o que acontece em "Animals On Fire" ou "Quicksand". Sem nunca resvalar para os dúbios trilhos da pop, Walsh remete-se ao seu rock, num som acústico e sóbrio, que vai desde o sussurrante em "June Bug", por exemplo, a um neo-barroco em "Sullen" ou a um som mais brilhante, como em "Holes In My Jacket". Desconhecida como qualquer bom músico em início de carreira, Kate Wlash escreveu, afinal, um álbum como poucos: falei em Jewel e em Fiona Apple, e ainda bem, porque Kate recusa dois erros que estas assumiram: não quis expor demasiado a voz como fez Jewel em 94, nem quis revelar demasiado a sua intimidade como fez Fiona em 95. A ver, fica o vídeo de "It´s Never Over", o lonínquo single de avanço, que, diga.se de passagem, foi muito bem escolhido. Obrigatório.
Veredicto Final_ 19/20
terça-feira, 31 de julho de 2007
Avanca´07
CÃES MARINHEIROS
Realizador: Joana Toste (Portugal)
Curta Metragem de Animação
Baseado num conto homónimo de Herberto Hélder, "Caes Marinheiros" assume uma inversão da realidade: os cães possuem um marinheiro, é ele o seu animal de estimação. Vemo-lo como tal de início a fim, e é nessa inversão de papéis que reside a mensagem do filme. A animação é simples, bonita, com contrastes que reforçam as ideias e os sentimentos. Boa animação, e simples.
Juízo Final: 15/20
ÁREA PROTEGIDA
Realização/ Argumento: José Miguel Moreira (Portugal)
Curta Metragem
Produzido pelo cine-clube de Avanca, "Área Protegida" é uma história baralhada, com uma resolução comovente, o que não chega para anular as abusivas presenças do factor cliché que vemos ao longo de, pelo menos, um quarto de hora, até chegarmos á verdade. Uma história bonita num filme não tão bonito.
Juízo Final: 10/20
O GUARDIÃO DO NINHO (Le Gardien du Nid)
Realizador/ Argumentista: Olivier Pesch (Luxemburgo)
Curta Metragem de animação
Esta é a cómica história do cómico Robert (Apesar de lhe não ouvirmos o nome.), cuja função é guardar e cuidar de uma seis ovos a desenvolverem-se. Entre eles, há um que se não cresce, sendo, por isso, rejeitado pelos outros. Robert, no entanto, acaba por se afeiçoar a ele, protegendo-o dos outros, e dando-lhe o seu carinho. A certa altura, parece-nos que o final será dramático, mas, na verdade, é extremamente divertido. A nivel da animação, ela é fantástica, com bonecos bem-feitos, e com apurado sentido estético, o som é também uma escolha interessante. Uma história mais metafórica do que simólica, que resulta bem pela escolhas menos óbvias numa história simples. Bom.
Juízo Final_ 17/20
O DILEMA DO PRISIONEIRO (Prisioner´s Dilemma)
Realizador/ Argumentista: Masanori Yoshida (Japão)
Curta Metragem de Animação
Fortemente marcado por imagens que nos remetem para uma certa violência psicológica, ainda assim exposta de uma forma quase inocente, "Prísioner´s Dilemma" arrasta-nos para uma série de voltas e reviravoltas na vida deste pobre prisioneiro torturado por tudo o que o rodeia. Boa animação aplicada a uma história que peca por não ser eloquente.
Juízo Final_ 14/20
ROB
Realizador/ Argumentista: Niko Kühnel (Nova Zelândia)
Actores: James Stewart, Brony Hughes
Curta Metragem
Filmado de uma forma inevitavelmente impactante, "Rob" é a história de Rob que tenta, repetidamente, roubar um banco, mas é repetidamente mal-sucedido, devido á sua própria distração. Ao fim de algum tempo a tentar, a sua sorte muda inesperadamente. Mais um final irónico, definitivamente interessante, e que, no fundo, diz muito sobre o nosso lado fraco e sacana.
Juízo Final: 15/20
LIÇÃO DE ADIÇÃO
Realização/ Argumento: Andreia Luís, Vitor Pedrosa (Portugal)
Curta Metragem/ Video-Animação
Resvalando sem demasiadas para as tendências do videoclip, "Lição de Adição", com música dos Pluto, revela-se bom na medida em que nos assoberba com uma sequência alucinante de imagens que não aparentam relacionar-se entre si. Uma espécie de plano subjectivo de uma montanha russa em paisagens dalinianas ou lynchianas, tanto faz...
Juízo Final: 17/20
NOUVELLE GENERATION
Realização/ Argumento: Artemio Benki (França)
Curta-Metragem
Com um título que se relaciona der forma dúbia com o que designa, "Nouvelle Génération" é um muito bom exemplo de uma muito boa curta-metragem. Em poucas imagens ficamos a conhecer as personagens, e o que fazem ali. A história dá uma série de reviravoltas, para pôr a protagonista frente-a-frente com o seu objectivo, ainda que esta se veja impossibilitada de o alcançar. Um drama e tanto.
Juízo Final_ 18/20
THE RUNT
Argumento/ Realização: Andreas Hykade (Alemanha)
Curta-Metragem de animação
Feito de imagens que, primeiro, nos comovem, e depois nos chocam, "O Pequeno Coelho" é uma visita ao passado de todos nós, numa forma metafórica. O tio oferece ao sobrinho um coelho, na condição de ele tratar dele e, dentro de um ano, de o matar. Desatque para a animação, simplória, mas estética. Bom.
Juízo Final: 16/20
IRON ISLAND
Argumento/ Realização: Mohammad Rasoulof (Irão)
Longa Metragem (90')
"A Ilha de Ferro" é uma visão simultâneamente realista e irónica das pessoas ignorantes, que deixam que outros se aproveitem da sua ignorância. Nemat leva milhares de famílias sem abrigo do Sul do Irão para um petroleiro perdido no meio do mar, a troco de dinheiro. Ao mesmo tempo que os explora, cobrando-lhes por um espaço com cerca de um metro-quadrado, ainda obriga os homens a retirar as partes de ferro do navio, derrete-as e vende-as. Esperto. A certa altura, o professor das crianças do barco repara que o navio se está a afundar. Ao mesmo tempo que a ilha de ferro se afunda, os donos legítimos donos decidem vendê-lo, e os novos querem levá-lo dali. Manipulando uns e outros, Nemat consegue garantir que não perde o seu ganha pão. Um filme brilhante, merecedor do prémio, com toda a certeza.
Juízo Final_ 19/20
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Du côté de chez Swann
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Avril Lavigne: The Best Damn Thing
Veredicto Final_ 7/20
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Nazuc
Lento suave e firme
é o assentar das minhas patas no chão.
As ruas carregam coisas
ruidosas que se empurram e
me empurram sem razão, separando-me de mim.
Caminho pesado e o meu corpo,
rugoso e sagrado, tem pintadas
as muitas cores que os homens fazem.
Aqui estou eu, enorme e frágil,
no meio da cidade, com a minhas presas intactas.
Aqui estou eu, debaixo deste sol
escaldante que nunca me deixa
esquecer as selvas, montanhas e
imensas planícies verdes e livres
duma Índia que é minha.
do álbum "Mumadgi" de Maria João e Mário Laginha.
Letra: Maria João
Imagem: Henri Matisse
segunda-feira, 16 de julho de 2007
+10 Discos Para o Verão
MASSIVE ATTACK: "Mezzanine" (1998)
ANATHEMA: "A Natural Disaster" (2003)
Veredicto: 18/20
SIA "Colour The Small One" (2004)
Veredicto_ 17/20
TEXAS: "The Redbook" (2005)
Com temas melhores que outros, sendo os melhores geralmente os mais ignorados, "The Redbook", o oitavo e mais recente álbum dos escoceses Texas, é outro dos álbuns que segue a lógica dos outros álbuns dos Texas: o público ignora tudo o que for muito bom. Portanto, pouco se falou deste álbum. Feito de canções de ritmos dançáveis, mas com elaborados arranjos, percussões fortes, quer sejam electrónicas quer acústicas, guitarras afirmadas e linhas fortes de baixo. A voz de Sharleen Spiteri revela-se uma vez mais flexível, encontramo-la em modelados deiferentes ao longo das faixas, mas vestindo como se de uma luva se tratasse. É sempre bom ouvir coisas como "Getaway", "What About Us" ou "Nevermind". Quanto a "Can´t Resist", uma só palavra: repeat...
Veredicto: 16/20
JONI MITCHELL: "Court And Spark" (1974)
Sexto álbum da cantora/compositora/letrista/pianista/guitarrista/pintora canadiana. Um álbum que chegou ao segundo lugar dos tops americanos, "Court And Spark" é uma história feita de cançãos simples, mais ou menos acústicas, certamente grandiosas, mas sem perder a pessoalidade e a emoção que canções tão temperamentais como estas exigem, e sempre com a sensualidade que a voz de Mitchell tem. Obrigatórias são "Same Situation", "Down To You", "Raised In Robbery" ou "People´s Parties". Quanto a convidados há vários, e de peso, David Crosby, Graham Nash, Dennis Budimir, Joe Sample, Susan Webb ou Wayne Perkins. A capa é da autoria de Joni Mitchell que, além do mais produz o álbum.
Veredicto: 18/20
VIVIANE: "Viviane" (2007)
BILL CALLAHAN: "Woke On A Whaleheart" (2007)
Veredicto: 16/20
FINAL FANTASY: "He Poos Clouds" (2006)
Veredicto: 18/20
SARA TAVARES: "Balancê" (2006)
Veredicto: 16/20
MARIANNE FAITHFULL: "Before The Poison" (2005)
Veredicto: 18/20
domingo, 15 de julho de 2007
Patrick Wolf: The Magic Position
Ele não sabe se está destinado a passar o resto da sua vida com um homem, com uma mulher ou com um cavalo, mas há uma coisa que ele sabe e muito bem: fazer música. Patrick Wolf é uma figura bizarra, mas muito interessante. Apresenta-se em palco sempre de uma forma inesperada (Tanto pode estar a vestir roupa preta, como uma camisa simples, como uma t-shirt prateada com a gola em barco e umas calças de padrão de zebra.), e tocando os mais variados instrumentos.
A primeira coisa que pode saltar á vista em "The Magic Position", para quem conhece os dois trabalhos anteriores, é precismante uma radical mudança de postura, musical e visual.
sábado, 14 de julho de 2007
Laurie Anderson no Theatro Circo
Com um longo e bem-sucedido percurso na música experimental, que começa em 1976 com o álbum "For Instants" e se prolonga por (Até agora.) 12 álbuns, que passam pelo megalómano sucesso de "O Superman" em 1982. O seu próximo álbum, objecto de análise de dois espctáculos em Portugal (Um no Theatro Circo, outro na Culturgest, a 15 de Julho.), inseridos na corrente digressão europeia, chama-se "Homeland", e são-lhe aliados conceitos como "poema épico" e um olhar "para as obsessões que a América tem com a segurança, a distância, a informação, a relação entre o medo e a liberdade, a aceitação crescente da violência e a persistente nova linguagem de guerra". Estão correctos. Tudo isto é baseado em factos verídicos.
Laurie Anderson entrou no palco com os três músicos, com pouco tempo de atraso, e lança-se numa estupenda história que relata a origem da memória. A partir daí, somos avassalados por uma espécie de ópera experimental, com a famigerada dimensão épica, a omnipresente e directa componente de ataque político á América de Bush e á América típica, a que tão bem conhecemos, dos adolescentes obesos, trôpegos, estúpidos e com pouco para dizer. Há também os retratos da América que já não sabe pensar por si mesma, questiona a hegemonia da nação de W. Bush, tudo com uma adorável ironia e uma invejável perspicácia. E, no meio de tudo isto, Anderson ainda tem tempo de nos falar de histórias de humanidade, tanto pessoais, como num sentido mais geral.
Nota Final_ 19/20
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Bjork: Volta
Sinto-me, após repetidas e deliciadas audições do sexto álbum da minha islandesa preferida, Bjork Gudmundsdottir, a falar de tal objecto. “Volta”, ao contrário do que se possa dizer, não é voltar á pop, nem voltar a coisa nenhuma. Quando muito, é voltar aos primórdios, ao ancestral, mas voltar no tempo cronológico, não nos conceitos patentes na discografia de Bjork.
Ou seja, sem que eu lho dissesse, Bjork deu-me aquilo que dela queria ouvir desde “Medulla”. Foram três anos de espera que valeram bem a pena. O que marcava Medulla eram as beats de sonoridade animalesca, ancestral, mas produzidas com a voz. A primeira coisa que pensei, quando me habituei aos conceitos do quinto álbum, foi em como seria bom ouvir a mesma sonoridade, mas com instrumentos. E é essa uma das melhores e mais exploradas ideias de “Volta”. Fica aí, igualmente, o ponto de partida: o álbum abre com “Earth Intruders”, o primeiro single, com uma beat criada por Timbaland, sopros, sintetizadores (Isso sim, é um retorno, já não os víamos desde “Vespertine”, em 2001, com excepção da faixa “Storm” de “Drawing Restraint 9” de 2005.), e o lado tribal é a primeira coisa em que se repara. Também aqui podemos estabelecer uma discreta ponte com “Medulla”, pela voz feminina que entoa algumas notas, tratada como um instrumento. Timbaland surpreende. Quem ouve as afrontas que escreve para Nelly Furtado, Justin Timberlake ou as Pussycat Dolls tem dificuldades em acreditar que seja capaz de uma criação tão genial. Ou então, como eu, decide acreditar que essa famigerada beat tem mão de Bjork. “Earth Intruders” é uma excelente canção, mas talvez uma escolha imprópria para abertura do álbum: é nela que Bjork aglomera, sintetiza os conceitos das outras canções, ou seja, dá-lhe o tudo por tudo, e talvez isso fosse mais interessante para encerrar o álbum.
Prosseguindo, encontramos “Wanderlust” que, segundo a cantora, é o ponto de partida ideológico de todo o álbum. E uma belíssima canção, nesse sentido literalmente, é bela, bonita. A voz vagabundeia sobre os sopros dos Konono nº1 e a beat, suja e demarcada.
É na terceira faixa que a voz de Antony Hegarty, dos Antony and The Johnsons, se faz ouvir pela primeiríssima vez. E muito bem. “The Dull Flame Of Desire” cabe também no conjunto das canções bonitas do álbum. Certo é que somos arrastados para uma atmosfera deprimente, mas, sem dúvida, o dueto entre Bjork e Antony é perfeito, e as percussões, crescentes, só engrandecem mais ainda aquilo que podemos chamar uma potentíssima balada.
“Innocence” volta a trazer-nos uma beat de Timbaland, não menos má que a do primeiro single, mas certamente mais reconhecível. Uma boa canção que só peca por viver demasiado do ritmo, que, por bom que seja, não chega para fazer uma canção. Mas a postura vocal de Bjork, e os discretos arranjos, a juntar a uma audição atenta, salvam tudo.
“I See Who You Are” sai prejudicada por se seguir a “Innocence”. O ritmo frenético da quarta faixa abafa quase até ao apagamento a quinta. Mas a linha de kora de Toumani Diabaté é, sem dúvida, uma traço interessante, e a marca do interesse de Bjork pelo lado acústico, que já estava óbvio em “Drawing Restraint 9”.
“Vertebrie By Vertebrie” nasce do reaproveitamento de “Vessel Shimenawa”, uma secção de sopros pertencente ao álbum anterior, á qual se acrescentou uma beat, e a voz que narra uma história um tanto violenta. O título diz tudo. Mas é, sem dúvida, uma das canções mais carnais e mais humanas de “Volta”.
“Hope” é mais uma beat de Timbaland, a última, numa canção que se aproxima da sonoridade de “I See Who You Are”, sem a decalcar, o que é importante. Ao mesmo tempo, há uma enorme harmonia e paixão efusiva em todas as notas.
“Declare Independence” é o momento mais hardcore, agressivo e violento de todo o álbum. Para já, a utilização da guitarra eléctrica é uma novidade, a beat atinge proporções de proibitivo brilhantismo, e, no fim, ficamos com um hino de libertação e anti-colonialismo, gritado com toda a vivacidade por Bjork. Uma música que não se deve ouvir sentado. E vamos dizer só isto.
Para terminar, “My Juvenille”, ainda que com os fenomenais traços da voz de Antony e da kora de Diabaté, é demasiado neobarroca para um final. Isto porque, se tivéssemos algo mais energético, não poderíamos deixar de repetir a audição. Com isto, ficamos como se tivéssemos tomado um brandy depois de uma refeição abundante.
Agora, a parte em que me assumo como fanático de Bjork, e em que chamo demagogos a essas criaturas que deturpam as escolhas dela.
Acho muito bem que ela procure na natureza aquilo que é a génese do seu som, e das suas temáticas. Bem vistas as coisas, toda a gente procura falar do que tem dentro de si. Bjork recusa frequentemente esta atitude. Nada contra quem a assume, mas não deixa de ser original não o fazer. Em relação á imagem, há que separar as coisas. Bjork é uma compositora de talento raro (Para não dizer único.), capaz de criações absolutamente fora de série, e não catalogáveis, mas a imagem é outra coisa. A imagem é o suporte, e, também no suporte, Bjork é assinalável. Cada álbum é um objecto individual que, como tal, é acompanhado pela sua própria imagem. É errado criticar Bjork por mudar de visual de acordo com as mudanças na sua música, porque ela não faz mais do que faz uma actriz, e do que fazem muitos outros músicos. Mísia faz o mesmo, Tori Amos em “American Doll Posse”. Porquê descarregar em Bjork?
Quanto ás suas participações, oportunismo não só não é a palavra certa, como não chega sequer a caber. Há que saber ter á nossa volta as pessoas certas, e Bjork não fez outra coisa. Esteve muito na berra trabalhar com o Dallas Austin, e no entanto ela não o fez. É selectiva, e tem dedo, Matmos, Nellee Hooper, Tagaq, e o próprio Timbaland têm, certamente, aos olhos da pequena islandesa, qualidades adaptáveis ás suas ideias. Se leva isso por diante, não vejo onde está o problema.
Isso ou não são críticas sinceras, ou é não ter inteligência capaz para entender o contexto da música da Bjork (Entender NÃO é gostar.) Eu acho que é mais a segunda.
Juízo Final_ 20/20
domingo, 8 de julho de 2007
Delta Goodrem: Mistaken Identity
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Maria de Medeiros: A Little More Blue
SBSR 2007
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Lídia Jorge: Marido e Outros Contos
8 AQUECIMENTOS
Veredicto Final_ 18/20
Jewel: Goodbye Alice In Wonderland
domingo, 1 de julho de 2007
Vanessa Carlton: Harmonium
Enfim, "Harmonium" é um álbum pop como por vezes desejaríamos que muitos fossem. Vanessa Carlton está de parabéns. Graças a musiciens como ela, ainda conseguimos acreditar que a pop se pode salvar das garras de Britney Spears ou da Rhianna...
Ute Lemper: Punishing Kiss
Neste primeiro álbum em que interpreta autores contemporâneos, Ute Lemper não podia, afinal, ter estado mais irrepreensível: tem a capacidade de nos fazer esquecer a proveniência das canções, e se o seu nome constasse nos créditos como compositora, seria fácil acreditar. É difícil ouvir Nick Cave neste "Little Water Song", como é difícil ouvir Elvis Costello neste "Punishing Kiss".
Se há maus momentos neste álbum, eles estão muito bem camuflados, não damos por eles. Mesmo a última faixa, "Scope J", que poderia pecar por ser demasiado calma para ser a última, não soa mal, nem parece deslocada.
Percebe-se, no final, porque é tão justo que Ute Lemper seja uma diva por excelênica. Primeiro porque, não fosse ela, e a tradição do cabaret alemão era já uma memória, e segundo, porque quem faz álbuns destes, tem que ser reconhecido, senão não há justiça no universo.
videos para American Doll Posse de Tori Amos
Bouncing Off Clouds, primeiro single na Europa, canção de Clyde, aqui e aqui e aqui.
Big Wheel, primeiro single americano, canção da própria Tori, aqui e aqui e aqui.
(parece-me que o primeiro em cada uma é o oficial, e os outros são resultados de concursos lançados pela Epic)
Ana Moura: Para Além da Saudade
Ao terceiro álbum, Ana Moura cotinua a confirmar o que afirmava em "Guarda-me a Vida Na Mão" (2002) e "Aconteceu" (2003): que o seu nome é digno de estar entre as fadistas que realmente o são, isto numa fase em que toda a gente quer cantar fado. Não é o caso de Ana Moura. Veio para ficar, o fado está-lhe na alma, e quando assim é, vê-se.
Após uma única audição de "Para Além da Saudade", torna-se fácil perder todas as dúvidas em relação ás razões que levaram Ana Moura aos palcos dos EUA ou da Holanda, entre tantas outras. Um dos melhores discos de fado de 2007, senão de sempre.
Inês Pedrosa: Fica Comigo Esta Noite
O primeiro livro de contos assinado por Inês Pedrosa tem o belo título de "Fica Comigo Esta Noite" e é uma colectânea de doze contos escritos entre 1993 e 2002, e editados nas mais variadas publicações, desde a excelente revista "Egoísta" dos Casinos do Estoril e da Póvoa, ao "Europaexpress".
O primeiro chama-se "Só Sexo", e fala de uma relação cujo teor varia de acordo com a visão de cada uma das pessoas que a conhece, e acaba por ser um relato extraordinário, com passagens pela revolução do 25 de Abril e pela doença do cancro.
Depois, deambulamos por diferentes universos que, de várias poerspectivas, vão abordando questões relacionadas com o íntimo das mulheres e o íntimo dos homens, com a morte, a vida, o amor, a traição, a perda, a fantasia, a desilusão, o desamor. Relatos alegres e tristes, uns ainda exaltados, outros resignados, cada um com a sua voz, mas todos claramente pela mão de Inês Pedrosa.
De repente, há á nossa frente um universo cheio de vozes, por vezes rindo, por vezes chorando, mas que nos falam como acontece no conto "Conversa de Café", publicado sob o título de "Café F" na "Egoísta", em que uma mulher encontra um desconhecido no café é diz-lhe
"O senhor importa-se que eu lhe conte a história da minha vida?"
e assim nos falam das suas desgraças, e das suas alegrias. Há quem tenha assassinado o marido, há quem tenha perdido a filha, há quem tenha perdido a pátria, há quem veja a família escapar-se-lhe entre os dedos, há quem esteja a morrer, há quem não queira relações sérias, ou seja, há existências e crises existenciais, há pessoas, pessoas como nós.
E é, e sempre foi essa a melhor razão para ler Inês Pedrosa, o facto da sua escrita se tornar mais visceral, mais humana, á medida que as histórias avançam, chegando a uma fase em que respiramos o que escreve.
Em "Fica Comigo Esta Noite", parece-me que, ainda que todos os contos sejam muito bons, há quatro que se destacam por serem ainda melhores que os outros. São eles, mais ou menos por esta ordem: "Europa Plano Nocturno", "Só Sexo", "Todo o Amor" e "A Cabeleireira".
Um livro que vale a pena ler, e reler, enquanto se aguarda pela chegada do próximo romance.
Veredicto Final_ 18/20







































