O QUARTO DESARRUMADO
Veredicto Final_ 17/20
O QUARTO DESARRUMADO
ROÇAR O CÉU
Apesar de saber como "Clocktower Park", o álbum de estreia de Kate Walsh, é bom, só agora me apeteceu comentá-lo. Em poucas palavras´, porque já me habituei a ele, é como se o conhecesse desde sempre, e torna-se cada vez mais difícil encontrar nele defeitos, uma vez que me afeiçoei a ele e aos sentimentos que consigo carrega. Mas digamos que "Clocktower Park" só peca por arriscar muito pouco. Só é mau na medida em que não foge daquilo que se espera de uma menina de 21 anos, com uma boa voz e que sabe tocar guitarra. Não é o som solista da Jewel de "Pieces Of You", mas não é a surpresa de um começo como o de Fiona Apple em "Tidal". Em tudo o resto, este é um excelente álbum. Pouco insistente, muito preciso: em dez faixas, diz-nos tudo. Passamos pela melancolia em todas elas, mas umas vezes num sentindo mais introspectivo, como acontece em "It´s Never Over" ou "Impressionable", outras vezes caminhando para um storytelling que, ainda assim, não abandona a primeira pessoa, o que acontece em "Animals On Fire" ou "Quicksand". Sem nunca resvalar para os dúbios trilhos da pop, Walsh remete-se ao seu rock, num som acústico e sóbrio, que vai desde o sussurrante em "June Bug", por exemplo, a um neo-barroco em "Sullen" ou a um som mais brilhante, como em "Holes In My Jacket". Desconhecida como qualquer bom músico em início de carreira, Kate Wlash escreveu, afinal, um álbum como poucos: falei em Jewel e em Fiona Apple, e ainda bem, porque Kate recusa dois erros que estas assumiram: não quis expor demasiado a voz como fez Jewel em 94, nem quis revelar demasiado a sua intimidade como fez Fiona em 95. A ver, fica o vídeo de "It´s Never Over", o lonínquo single de avanço, que, diga.se de passagem, foi muito bem escolhido. Obrigatório.
Veredicto Final_ 19/20
Juízo Final: 16/20
IRON ISLAND
Argumento/ Realização: Mohammad Rasoulof (Irão)
Longa Metragem (90')
"A Ilha de Ferro" é uma visão simultâneamente realista e irónica das pessoas ignorantes, que deixam que outros se aproveitem da sua ignorância. Nemat leva milhares de famílias sem abrigo do Sul do Irão para um petroleiro perdido no meio do mar, a troco de dinheiro. Ao mesmo tempo que os explora, cobrando-lhes por um espaço com cerca de um metro-quadrado, ainda obriga os homens a retirar as partes de ferro do navio, derrete-as e vende-as. Esperto. A certa altura, o professor das crianças do barco repara que o navio se está a afundar. Ao mesmo tempo que a ilha de ferro se afunda, os donos legítimos donos decidem vendê-lo, e os novos querem levá-lo dali. Manipulando uns e outros, Nemat consegue garantir que não perde o seu ganha pão. Um filme brilhante, merecedor do prémio, com toda a certeza.
Juízo Final_ 19/20
FINAL FANTASY: "He Poos Clouds" (2006)
Ele não sabe se está destinado a passar o resto da sua vida com um homem, com uma mulher ou com um cavalo, mas há uma coisa que ele sabe e muito bem: fazer música. Patrick Wolf é uma figura bizarra, mas muito interessante. Apresenta-se em palco sempre de uma forma inesperada (Tanto pode estar a vestir roupa preta, como uma camisa simples, como uma t-shirt prateada com a gola em barco e umas calças de padrão de zebra.), e tocando os mais variados instrumentos.
A primeira coisa que pode saltar á vista em "The Magic Position", para quem conhece os dois trabalhos anteriores, é precismante uma radical mudança de postura, musical e visual.
Quanto ás suas participações, oportunismo não só não é a palavra certa, como não chega sequer a caber. Há que saber ter á nossa volta as pessoas certas, e Bjork não fez outra coisa. Esteve muito na berra trabalhar com o Dallas Austin, e no entanto ela não o fez. É selectiva, e tem dedo, Matmos, Nellee Hooper, Tagaq, e o próprio Timbaland têm, certamente, aos olhos da pequena islandesa, qualidades adaptáveis ás suas ideias. Se leva isso por diante, não vejo onde está o problema.
Isso ou não são críticas sinceras, ou é não ter inteligência capaz para entender o contexto da música da Bjork (Entender NÃO é gostar.) Eu acho que é mais a segunda.
Juízo Final_ 20/20
8 AQUECIMENTOS
Neste primeiro álbum em que interpreta autores contemporâneos, Ute Lemper não podia, afinal, ter estado mais irrepreensível: tem a capacidade de nos fazer esquecer a proveniência das canções, e se o seu nome constasse nos créditos como compositora, seria fácil acreditar. É difícil ouvir Nick Cave neste "Little Water Song", como é difícil ouvir Elvis Costello neste "Punishing Kiss".
Se há maus momentos neste álbum, eles estão muito bem camuflados, não damos por eles. Mesmo a última faixa, "Scope J", que poderia pecar por ser demasiado calma para ser a última, não soa mal, nem parece deslocada.
Percebe-se, no final, porque é tão justo que Ute Lemper seja uma diva por excelênica. Primeiro porque, não fosse ela, e a tradição do cabaret alemão era já uma memória, e segundo, porque quem faz álbuns destes, tem que ser reconhecido, senão não há justiça no universo.