8 AQUECIMENTOS
Veredicto Final_ 18/20
8 AQUECIMENTOS
Neste primeiro álbum em que interpreta autores contemporâneos, Ute Lemper não podia, afinal, ter estado mais irrepreensível: tem a capacidade de nos fazer esquecer a proveniência das canções, e se o seu nome constasse nos créditos como compositora, seria fácil acreditar. É difícil ouvir Nick Cave neste "Little Water Song", como é difícil ouvir Elvis Costello neste "Punishing Kiss".
Se há maus momentos neste álbum, eles estão muito bem camuflados, não damos por eles. Mesmo a última faixa, "Scope J", que poderia pecar por ser demasiado calma para ser a última, não soa mal, nem parece deslocada.
Percebe-se, no final, porque é tão justo que Ute Lemper seja uma diva por excelênica. Primeiro porque, não fosse ela, e a tradição do cabaret alemão era já uma memória, e segundo, porque quem faz álbuns destes, tem que ser reconhecido, senão não há justiça no universo.
Da esquerda para a direita, Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip
Veredicto Final_ 20/20
CANTO DA FANTASIA
E por falar no Bienal de Veneza, não posso deixar de gabar a escolha de Ângela Ferreira para a representação portuguesa de 2007.
Fui ao Rivoli, uma das minhas salas preferidas, na Sexta Feira, ver o filme "Oculto" que passava no Grande Auditório no âmbito do Fantasporto 2007. A película, de António Hernandez é protagonizada por uma actriz de novelas colombianas, Angie Cepeda, e por Leonardo Sbaraglia, actor de nacionalidade argentina.
Em traços gerais, a história é a seguinte: o Centro Cultural onde trabalha Beatriz recebe uma palestra sobre o significado e poder dos sonhos. No final, Natália, designer de moda, expõe as suas dúvidas em relação a três sonhos envolvendo monólitos com inscrições, que acredita serem premonições. Mais tarde, Natália conhece Beatriz, através de um jornalista, uma vez que a última acredita que uma tatuagem que (Supostamente.) havia feito há seis anos atrás a relaciona com a primeira. Á medida que a história e a psicose de Natália avançam, vamos descobrindo que a conexão de Beatriz com Natália não advém dos sonhos, mas sim de uma situação mal resolvida que envolve o desaparecimento de Javier, o antigo marido de Beatriz que a havia deixado por Natália, que, por sua vez, o havia deixado a ele, precisamente no dia em que ele desaparece.
Num enredo assim, não deixa de ser irónico que a protagonista seja uma actriz de telenovelas da América Latina, conhecidas pelas seus enredos de faca e alguidar, uma vez que, por vezes, a história de "Oculto" não tem pejo em aceitar lugares-comuns de todo dispensáveis. No final do filme, também é inevitável uma sensação de que afinal, o "oculto" em que supostamente o filme vivia não passa de uma desculpa para uma narrativa que tem como assunto uma vingança, perdendo-se o tão promissor assunto dos sonhos, da sua influência e do seu significado. Referências directas a Kubric (2001:Odisseia no Espaço.) ou indirectas ao "Pesadelo em Elm Street" de Wes Craven ficam assim em suspenso, existindo sem um motivo real, mas apenas para mascarar a verdadeira massa do filme. Tudo isto exposto em sequências que não surpreendem, á mistura com frases filosóficas que se revelam descontextualizadas, misticismos sem razão de ser e cenas de sexo explícito. Resultado: uma pergunta: O que faz este filme no Fantas???
Juízo Final: 7/20
O título do terceiro romance de José Luís Peixoto é "Cemitério de Pianos". Se a experiência da leitura de "Nenhum Olhar" ou "Uma Casa Na Escuridão", os dois romances anteriores do autor, não nos levasse á temática da morte, mais uma vez o título levaria. E isso é importante, porque o assunto da morte percorre cada uma das 314 páginas do romance, ou não fosse a primeira frase do livro
"Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer."
Mas não só de morte é feita a história deste livro, ou, se se quiser ser mais preciso, a(s) história(s) deste livro, porque há duas entidades que monologam, que olham e relatam as suas vidas. É assim, como um shampoo, dois em um... Partilham o nome, Francisco Lázaro, e um Francisco Lázaro é pai do outro. Mas é impossível perceber quem é quem. José Luís Peixoto garantiu na apresentação do livro, na Fnac de Sta. Catarina, que não era importante perceber-se qual dos dois fala, e certificou-se de que isso seria impossível, ao passar nomes de uns familiares para os outros, por exemplo: uma Marta é filha do que parece ser o Francisco filho, mas depois é tia do que parece ser o pai... confuso. Não que isto retire qualidade ao livro, pelo contrário, apesar de tornar a leitura muito confusa, torna-a também mais intensa.
Em relação ao enredo propriamente dito, Peixoto partiu da personagem real de Francisco Lázaro, primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo, em 1912. Este curioso personagem morreu devido á brilhante ideia de untar a própria pele com óleos e graxa, o que, em vez de lhe manterem o corpo a uma temperatura amena, só impediram a pele de transpirar e de respirar. Resultado: morreu, após os trinta quilómetros corridos. A maneira como JLP pegou nesta figura e lhe inventou uma vida (E, num dos casos, uma morte.) é fantástica. O único defeito fica no facto de se deixarem algumas pontas soltas (O caso da morte de Maria.), que, ainda que não retirem nada de importante á história, por certo acrescentariam qualquer coisa.
A nível da escrita, o vocabulários é simples, as frases desligam-se umas das outras criando um "efeito poesia" e a história move-se passo por passo, e, ainda que se avancem anos, nada é precipitado: nem revelado antes de tempo, nem revelado tarde demais...
A ler, sem dúvida, mas só se se tiver uma fortíssima crença na máxima que diz
"Quem muito pensa pouco acerta"
porque, se se pensa demais, a questão da divisão dos Franciscos tornará a leitura secante.
Juízo Final: 17/20

A vida é mesmo assim, há discos menos felizes e outros mais. O primeiro LP dos canadianos Arcade Fire é um bom exemplo de um disco muito feliz. E este feliz não quer dizer que o som de "Funeral" é sempre alegre, ao longo das dez canções que o constituem, mas sim que a qualidade é omnipresente. O som é rock, um rock caótico, agressivo, enérgico, sobrexaltado, esquizofrénico e acentuado. No entanto, não estamos perante um álbum simples e muito menos minimalista... todas as canções vivem de grandiosos arranjos de cordas, de pequenos pormenores criados com a harpa, o xilofone ou o upright bass. Os Arcade Fire são seis, mas fazem-se acompanhar por mais nove músicos, logo, a nenhum momento do álbum falta complexidade. Como em qualquer álbum, há canções melhores que outras, sem que nenhuma seja má. "Neighborhood #2 (Laïka)" é um excelente representante dos conceitos-base da música dos Arcade Fire, "Neighborhood #3 (Power Out)" idem aspas, "Neighborhood #1 (Tunnels)" (Bonita história de amor.) ou "Wake Up" são indispensáveis, sem dúvida.
No final do disco, o que fica é uma sensação de satisfação que dá vontade de ouvir de novo. De discos assim é feita a música alternativa. A prova disso são as críticas tão positivas a projecção que os Arcade Fire adquiriram desde o lançamento de "Funeral", além de terem dado também visibilidade a músicos que colaboram neste, o exemplo de Owen Pallett aka Final Fantasy, violinista, que publicou em Julho de 2006 o seu segundo álbum de originais, "He Poos Clouds".
O próximo álbum dos Arcade Fire tem de título provisório "Neon Bible", e está a ser gravado numa igreja. Independentemente do resultado, uma coisa os Arcade Fire já têm: uma estreia como poucas, e a oportunidade de, mantendo a fasquia, terem o nome entre os nomes dos grandes. Veremos...
Veredicto-20/20
