Veredicto Final_ 18/20
sábado, 30 de junho de 2007
Amy Winehouse: Back To Black
Veredicto Final_ 18/20
Placebo: Creamfields Lisboa 2007
Eu gostei daqueles cinquenta e cinco minutos em que os Placebo estiveram em cima do palco. Não vou dizer que fiquei muito feliz por o Brian ter perdido a voz... "Coisas que acontecem" pensei eu. Como disse, não fiquei radiante, mas, primeiro que tudo, cinquenta e cinco minutos é melhor do que nenhum, depois, o Brian não teve culpa, deve ter sido muito frustrante para ele, e eu próprio estava com frio, e terceiro, a parte que tocaram tocaram muito bem.
Quanto ao concerto em si, ele passou essencialmente pelo sexto álbum, "Meds", com "Infra Red", um delicioso "Drag", o fenomenal "Because I Want You To", "One Of a Kind", e, claro, "Song To Say Goodbye", além da versão em piano do tema-título.
Claro que o concerto não aconteceria sem retornos ao passado, e eles marcaram-se, claro. Passou-se por "Bionic", do primeiro e homónimo álbum, o obrigatório "Every You and Every Me" de "Without You I´m Nothing", o fortíssimo "Special K" de "Black Market Music" e ainda "Special Needs", "Sleeping With Ghosts (Soulmates Never Die)" e, a terminar, my personal favourite, "The Bitter End", num final que, infelizmente, foi mesmo bitter.
Entretanto, passei pela net e estive a ler comentários ao concerto, muito por alto, sem grande atenção, mas, no geral, toda a gente falava como se o Brian tivesse feito de propósito para ficar sem voz, ou como se fosse uma coisa que se resolvia com um rebuçado para a tosse, o que é falso. Em apenas 55 minutos, eles conseguiram ultrapassar em qualidade a hora e três quartos do ano passado no SBSR, uma vez que um ano de digressão os habituou ás canções, que aparecem transmutadas e melhoradas.
Lamentei muito quando descobri que para os encores estavam prontos "20 Years" e "Taste In Men", mas, principalmente, por "Running Up That Hill", de Kate Bush, cuja versão dos Placebo é comovente.
Enfim, c´est la vie. Terá que ficar para a próxima.
Todd Haynes: Velvet Goldmine
A certa altura, em "Velvet Goldmine", Jonathan Rys-Meyers, no papel de Brian Slade, diz a um jornalista
"_O rock é uma prostituta. Tem que parecer vamp e produzida."
e temos aqui a explicação das quase duas horas do filme de Todd Haynes, que estreou em Cannes em 1998.
Oscar Wilde é aqui apontado como o progenitor de todo o estilo que se viria a chamar glam rock. Jack Fairy, o primeiro personagem que encontramos, ainda criança, encontra uma joia que pertencera ao escritor gay, e, a partir dessa joia, cria todo o seu estilo, andrógino e sonhador. Como Toni Collette, perfeita no papel de Mandy Slade, explica mais tarde:
"_Todos roubavam do Jack."
Tudo começa quando em 1974, Brian Slade, o rei do glam rock, forja o seu próprio abatimento em palco. A farsa é descoberta, e a carreira e a vida de Slade começa a declinar, até não ter, aparentemente, retorno.
Dez anos depois, Arthur Struart (Christian Bale) é pago para fazer uma reportagem com o título "O Que Aconteceu a Brian Slade", porque estava presente no concerto que pôs fim ao artista.
O Arthur que encontramos é uma criatura melancólica e pouco comunicativa, chegando a ser inerte, pelo que se percebe porque associa a sua adolescência a outra pessoa qualquer.
Fala primeiro com Cecil (Michael Feast), o primeiro manager de Slade, que o descobriu quando tocava no bar da mulher, Mandy Slade (Toni Collette), e que o conduziu nos primeiros e conturbados tempos da sua carreira.
As explicações de Cecil terminam quando Jerry Divine (Eddie Izzard) descobre Slade e o transforma numa estrela.
É pela voz de Mandy quye ouvimos a vida da estrela de Brian Slade (Rhys-Meyers), dono de uma voz interessante, de um talento peculiar, de um estilo libertino, bissexual, e polémico cada vez que abre a boca.
A sua maior influencia seria o músico Curt Wild (Ewan McGregor), gay, (Aparentemente.) esquizofrénico e viciado em vários tipos de droga. É também por ele que se apaixonará, quando o conhece pessoalmente.
Com os relatos destas pessoas, Arthur acabará por descobrir mesmo o que aconteceu a Brian Slade, ainda que se perceba que essa é uma questão mais pessoal do que profissional, na medida em que a influencia de Slade e Wild na vida do jornalista foi mais do que seria de esperar.
A história, apesar de ser contada cronológicamente, parece dar várias reviravoltas, sem se tornar confusa. O filme é bom, mas é pouco claro se a crónica do glam rock se faz através da música ou através da estética.
São notórias certas referências que, ainda que coerentes, seria preferível não estarem tão expostas: Curt Wild é uma personalidade que relembra Iggy Pop, visulamente, Kurt Cobain, e o nome próprio idem aspas- Kurt, Curt... Brian Slade- Brian Molko, e até fisicamente são parecidos, ainda que Slade contenha ainda as referências da praxe a Bowie e Lou Reed.
Os actores são, ainda assim, a melhor parte do filme, sendo de Toni Collette a melhor interpretação, não desfazendo a de Christian Bale, com particular á-vontade para papéis mais melancólicos, Rhys-Meyes que surpreende por encaixar tão bem em Slade, Ewan McGregor que, aparte de todas as mudanças visuais, consegue fazer esquecer as referências que carrega em si.
E não podia deixar de realçar a participação de Brian Molko, dos Placebo, num papel curtinho, mas cómico. Muito bem.
Veredicto final_ 16/20
Tori Amos: American Doll Posse
Como é que no décimo primeiro álbum Tori conseguirá manter a fasquia de qualidade que ela mesma colocou com "American Doll Posse", não sei. Mas acredito dela. Depois disto...
Da esquerda para a direita, Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip
Veredicto Final_ 20/20
domingo, 24 de junho de 2007
Katia Guerreiro: Tudo Ou Nada
CANTO DA FANTASIA
Woody Allen: Match Point
"Match Point" parece não contar, á primeira vista, com uma história inédita, mas é os contornos que Allen lhe desenha que tornam o filme numa referência obrigatória na sua filmografia.
Quanto aos actores, eles estão, claro, muito bem. Jonathan Rys-Meyers acaba por, com ou sem intenção, lembrar o seu próprio papel em "Velvet Goldmine", principalmente nas primeiras sequências em que o vemos. Consegue, de resto, uma excelente performance. Johansson, apesar de não ter uma má interpretação, não deixa de ter a seu cargo um papel previsível, que parece ter sido feito para ela, mais do que parece ter sido ela a adaptar-se a ele. Emily Mortimer é também impressionante, e foi claramente escolhida a dedo para o papel de Chloe: o seu ar frágil e suspectível vai perfeitamente de encontro á personagem que encarna.
sábado, 9 de junho de 2007
Lídia Jorge: Combateremos a Sombra
A genialidade de Lídia Jorge começa logo aqui: como contar uma história usando as personalidades de quatro pessoas tão heterogenias? A escritora algarvia, de 60 anos, sabe, e muito bem. Cada um interfere e é referido no momento certo, de maneira que a história se desenvolve sem o recurso a lugares-comuns e aos habituais truques para criar suspense no leitor.
E se se fala em brilhante, há que referir também a maneira como, em particular pela presença de Maria London Loureiro, o protagonismo gradualmente deixa a psicanálise e passa para o esquema de tráfico humano e de droga que Osvaldo descortina: o professor Campos que encontramos no início, completamente absorvido pelos delírios dos seus pacientes e sem tempo para si mesmo, não é o mesmo que encontramos já nos últimos capítulos, que mal tem tempo para a psicanálise, de tanto querer salvar o Mundo, de tanto querer combater a sombra…
Por atender certos pacientes, sem lhes cobrar (Os “miserabilus”.), Osvaldo Campos acaba por ter, deitados no seu divã, os personagens-tipo da sociedade actual portuguesa, e, ainda por cima, entregando-lhe tudo, até o subconsciente. O Eça não faria melhor. Mas mais que expor a sociedade á psicanálise, Lídia Jorge deixa Osvaldo Campos em frente a um esquema de tráfico que passa pelo Prédio Goldoni, onde o psicanalista tem o seu consultório. É através deste esquema que os personagens se entrelaçam como um novelo, e que a escritora retrata aqueles que são dois dos maiores podres desta sociedade em que vivemos: a inércia e o comodismo.
“Não suportamos enfrentar a cara do culpado” diz Lídia Jorge, em entrevista ao Ípsilon. Não, não suportamos, e este livro mostra-nos isso, e sem nos deixar espaço para tentar negar ou ignorar que assim é. Todos os dias, andamos na rua, e cruzamo-nos com o Arquitecto London Loureiro, com José Maria Adolfo, e com Junô d´Almeida, vemo-los e sabemos exactamente o que fazem, e, no entanto, não suportamos dizer que são culpados. Nisto, esquecemo-nos que, ao negarmos a existência de um culpado, somos nós mesmos culpados, de ignorar, de não querer saber. Deixamos que a consciência seja apenas uma visita da noite (Como Maria London Loureiro era a visita da noite do seu psicanalista.) e não pensamos com ela durante o dia.
Posto isto, é muito grave, muito perigoso, que este romance seja realmente realista, mas é. É realista, uma crónica dos nossos dias, uma metáfora fenomenal, e, indubitavelmente, o melhor romance de Lídia Jorge.
Veredicto Final: 20/20
Arcade Fire: Neon Bible
Serve de epígrafe ao romance “O Homem Duplicado” de José Saramago uma frase do “Livro dos Contrários” que diz que “O caos é uma ordem por decifrar”. E não, não me enganei. Este início pertence a um texto sobre o segundo LP dos canadianos Árcade Fire.
Há quatro anos atrás, os nomes de Win Butler ou de Régine Chassagne não diziam nada a ninguém, mas hoje, eles são líderes de uma das bandas mais importantes da cena musical contemporânea, não só pela indiscutível qualidade da sua música, como pelo burburinho que se gerou á volta do septeto.
O álbum “Funeral” (2004), em dez canções, conseguiu fazer correr oceanos de tinta pela imprensa da especialidade, e moveu um sem-número de fãs.
Eis que, em 2007, se dá o aguardado regresso. Chama-se “Neon Bible”. Ao ouvir, sabemos que é Árcade Fire, sabemos que é bom, que é muito bom, sabemos que a pior música de “Néon Bible” consegue ser melhor que a melhor música de muita gente, mas, ao mesmo tempo, sabemos, sem equívoco, que alguma coisa mudou, e que não foi para melhor.
Aquilo que fazia de “Funeral” indefinível, a sonoridade variada, solta, libertina, todo aquele caos, perdeu-se. É triste e cortante, mas é assim mesmo. “Néon Bible” é a decifração do caos de “Funeral”, e isso não é bom, porque, em certos momentos, por exemplo na faixa que dá nome ao álbum, ficamos com a noção de que os Árcade Fire estão perto de se tornar catalogáveis.
Como objecto individual, este segundo álbum não tem quase nada de negativo. Com a excepção de algumas canções mais previsíveis (“Néon Bible”, “The Well and the Lighthouse”.), o som é maximalista, grandioso (“Intervention”.), enérgico (“No Cars Go”.), fluido (“Windowsill”.) e, sem dúvida, agradável. É, por vezes, demasiado composto, não há muitos solos, e pouquíssimas mudanças repentinas de ritmo (Como víamos acontecer em “Crown Of Love”, por exemplo.). Win Butler cai também no erro de variar menos a tonalidade em que canta.
As comparações com o predecessor são inevitáveis, é a natureza humana: sente-se a falta do caos, da rebelião. Agora, tem-se um caos decifrado, que ainda não é ordem, mas está mais perto do que seria desejável. No entanto, não deixa (Mesmo.) de ter grandes canções, que nos rasgam alguma coisa lá dentro: como ficar indiferente a “My Body Is a Cage”, a “No Cars Go” ou a “Intervention”?
Veredicto final: 19/20
Annie Lennox: Bare
“Bare” é a prova disso: lançado em 2003, ao longo de quatro anos, foi-lhe dada pouca importância. E em 4 anos, chegámos ao cúmulo de o Robbie Williams e os Da Weasel serem capa do Blitz, e nem uma palavra sobre Annie Lennox. Mas esqueçamos as injustiças da indústria musical, e passemos ao álbum em concreto: não se trata de um álbum feito ao acaso, longe disso. Bem pelo contrário: a evidente ausência de arestas mal limadas, e o perfeccionismo técnico de cada faixa confirma aquilo que a própria Annie escreve na contracapa do álbum, “I am not a young artist in their early twenties. I am a mature woman…” e eu acrescentaria “mature musicien”. Autora das onze canções, Lennox consegue com elas as suas melhores composições: além das letras escritas com mestria, boas não só por serem claramente intimistas, como também por estarem bem feitas, formalmente; também nas músicas Annie Lennox atinge em pleno uma característica que procurava desde “Medusa”: mesclar a sonoridade dos 80´s com métodos de produção mais actuais. E se, por um lado, os arranjos nos soam perfeitamente a 2003, os ritmos, muitas vezes, levam-nos a 83(+-). “A Thousand Beautiful Things”, “Oh God (Prayer)” ou “Loneliness” são exemplos claros da sonoridade dos anos 90 a impor-se, ao passo que outras como “Honestly”, “Wonderful” ou “Bitter Pill” vivem mais no passado. Nada contra. Bem pelo contrário.
É, enfim, um regresso em grande, que não é por ter sido ignorado que é menos bom. Um destaque também para a capa, com uma foto da autoria de Allan Martin: um grafismo perfeito. Equilíbrio!!!
Veredicto Final: 17/20
António Lobo Antunes: Ontem Não Te Vi Em Babilónia
28 anos depois (Visto eu ter gostado do filme “28 Dias Depois”.), com todas as inevitáveis (E ainda bem.) evoluções, a escrita de António Lobo Antunes é uma das mais importantes e apreciadas quer no contexto da literatura portuguesa, quer no contexto da literatura mundial.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é o romance mais recente do autor. Nas entrevistas, Lobo Antunes afirma não querer contar histórias, mas sim vidas, e foi o que fez, no seu 18º romance: ele conta as vidas destas pessoas, e entrelaça essas vidas, mas sem criar um enredo, colocando-as a deambular por uma terra sem dono.
Uma noite, estas pessoas não adormecem, têm insónias. Deitadas na cama, revisitam o seu passado, relatam-no, comentam-no, descobrem-no e por vezes, inventam-no. Nem todos os personagens falam o mesmo número de vezes, havendo quatro que se destacam, e essas quatro têm em comum o facto de terem sido testemunhas do suicídio de uma rapariga, que se enforcou numa macieira.
São encontros e desencontros, mas há sempre uma tremenda melancolia, em cada linha, em cada frase que se repete como um eco (Característica muito lobo-antuniana.), há o sofrimento de quatro pessoas vítimas de si mesmas e das suas escolhas. Todas têm um segredo. E vão revelando o seu segredo, sem pressa, aos poucos.
A força do livro é impressionante. É honesto e realista, chegando por vezes a ser agressivo ou a atingir quem lê (O exemplo de uma das personagens que acusa quem lê de ir esquecer-se dela quando terminar a leitura do livro.), revelando-se, no fim, um texto que ultrapassa as potencialidades reais que tem: aquilo que o livro é, na realidade, não oferece muitas possibilidades de este ser um romance assinalavelmente bom, nem sequer no contexto da obra do seu autor; mas a verdade é que é tão bem conduzido, e de uma forma tão pouco enganadora, que acaba por contornar essa condenação prévia.
Ao fim de 479 páginas (Algumas a menos, ainda assim, não seriam fatais.), Lobo Antunes afirma que o que escreve pode ler-se no escuro. E pode. Infiltra-se e morde de tal forma o leitor, que pode ser lido no escuro, talvez seja melhor que nos morda no escuro.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é obviamente incapaz de ultrapassar a grandiosidade do magma de romances como “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” ou “O Manual dos Inquisidores”, mas é igualmente óbvio que é um dos melhores livros do ano.
Veredicto final: 18/20
quinta-feira, 24 de maio de 2007
camera
sábado, 21 de abril de 2007
Os Anéis do Meu Cabelo
Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz á terra que não coma
Os anéis do meu cabelo
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer um do teu desgosto
Nem te lembro que beijásses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
A quem eu amo... J.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
The Nobodies
I want to be pretty
Tomorrow, I know
I'm just dead
Today I am dirty
I want to be pretty
Tomorrow, I know
I'm just dead
We are the nobodies
we wanna be somebodies
we're dead,
they'll know just who we are
Yesterday I was dirty
wanted to be pretty
I know now that I'm forever dead
Yesterday I was dirty
wanted to be pretty
I know now that I'm forever dead
We are the nobodies
we wanna be somebodies
we're dead,they'll know just who we are
Some children died the other day
we fed machines and then we prayed
puked up and down in morbid faith
you should have seen the ratings that day
MARILYN MANSON sobre o Massacre de Columbine, 20 de Abril de 1999 para o álbum HOLY WOOD (IN THE SHADOW OF THE VALLEY OF DEATH)
terça-feira, 27 de março de 2007
"Dois Espaços" de Helena Almeida
Ou isto só veio a público agora, ou sou eu que ando muito distraído ultimamente.
"Dois Espaços" surge depois de um "Estudo Para Dois Espaços" dividido entre uma colecção de fotografias e um vídeo apresentado no Bienal de Veneza de 2005, que foi, aliás, a última colecção de que ouvi falar da artista.
Ficam algumas das imagens que integram a colecção mais recente, em que, após uma fase em que utilizava apenas o seu corpo fotografado, Almeida volta ao vermelho com que se estreou na série "Sem Título" de 1994/95.
E por falar no Bienal de Veneza, não posso deixar de gabar a escolha de Ângela Ferreira para a representação portuguesa de 2007.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Blind Zero- Time Machine: Memories Undone 1993-2007
Ao fim dos primeiros 13 anos de carreira, de seis discos, e de muitos palcos percorridos, os Blind Zero editam "Time Machine: Memories Undone 1993-2007", uma espécie de Best Of ao vivo. O conceito de fazer uma retrospectiva ao vivo não é inédito (Olhemos para "Vivo" dos Clã ou "Fácil de Entender" dos The Gift.) mas merece, claro, o seu mérito, principalmente quando se fala de uma banda como esta, em que os concertos conseguem ultrapassar, e sem dificuldades, os álbuns de estúdio. "MTV Live In Milan" era uma (Literalmente.) pequena demonstração. "Time Machine..." é outra abordagem. Para começar, cobre os álbuns de uma forma mais abrangente, e depois, a selecção é calculada sem atender ao sucesso comercial etc, sendo uma colecção das melhores canções, ou pelo menos, com mais potencial ao vivo, sem a ideia de promover um dos álbuns que é necessária ao alinhamento de um concerto.
Algumas canções, obrigatórias, estão presentes ("The Down Set Is Tonight", "Skull".), outras surgem, ainda que não fosse previsível, mas ainda bem ("Absent Without Permission"; "Another One") e algumas... faltam... claro que isto é só uma opinião pessoal, mas faltava ali "Criminal Grace" ou "Nothing Else Goes", ou uma das minhas preferidas de sempre: "Wish Tonight". O álbum está muito bem equilibrado entre as canções mais melancólicas, as mais calmas ("Super8") e as mais agressivas ("You Owe Us Blood"), e é de notar a presença de um dos momentos mais intimista (Senão o mais intimista.) de toda a discografia da banda do Porto, "Sad Empire", numa versão que tem um interessante efeito secundário: perguntamo-nos qual das versões é a melhor: a de estúdio ou esta?
No fim... nem todas as bandas se podem orgulhar de memórias assim. As escolhas da banda de Miguel Guedes podem nem sempre ter sido as mais óbvias, mas acabaram sempre por se revelar tão coerentes como decisivas na evolução que a banda atravessou e que, neste álbum, mais do que nunca, se torna evidente. Só essa visão periférica já faz a compilação valer a pena. Mas este disco é algo mais... um retrato de momentos dispersos que, ao serem colocados juntos, como uma manta de patchwork, conseguem, sem dificuldade fazer uma unidade. Ainda bem.
Juízo Final_ 19/20
segunda-feira, 5 de março de 2007
Bjork: Drawing Restraint 9
Vasculhando os livros de arte na Fnac, descobri uma peça imprescindível, que não podia deixar de ter: um livro com imagens (E não só.) do filme de Matthew Barney "Drawing Restraint 9". Não vi (Ainda.) o filme, e (Ainda.) não sei como o vou ver, mas sei que vou. Serve isto de introdução para o comentário ao álbum da banda sonora, composta pela mulher do realizador, a não menos invulgar Björk, de quem eu tanto gosto. Quando comprei "The Music From Drawing Restraint 9", em Agosto de 2005, sabia muito pouco sobre o seu contexto. O que li, depois, em termos de críticas, não foi bom. No Blitz ainda admitiam a hipótese da música nos soar de uma outra forma após termos apreciado o filme, mas, por exemplo, na Magazine das Artes, chamaram-lhe um naufrágio. Escrevo, mais de um ano depois, para contrapor tudo isto.
Diga-se de passagem que não é fácil gostar deste álbum da pequena islandesa mais famosa do mundo. "Drawing Restraint 9" é feito de sons estranhos, aguçados e por vezes quase hostis. Mas, na sua essência o álbum é bom.
Mas bom não quer dizer perfeito, e esta banda sonora tem vários erros: é muito dispersa, de maneira que o disco em si não é uma obra, mas 11, cada faixa é individual e não encaixa nem na anterior nem na seguinte (Com excepção de Hunter Vessel e Vessel Shimenawa, em que o segundo é quase uma continuação do primeiro, ou de Shimenawa e Antarctic Return, idem aspas.), algumas faixas têm menos do que se anuncia ( Onde se ouve a harpa de Shimenawa?), e outras contêm, de facto, menos do que seria de esperar (Holographic Entrypoint quase á capella pedia por um outro fundo instrumental.), e, quando se acaba de ouvir o álbum fica uma pouco agradável sensação de que há uma predisposição para colar nestas canções conceitos de álbuns passados de Bjork: o caso da importação de Tanya Tagaq de "Medúlla" para o tema "Pearl", do som de "Frosti" do álbum "Vespertine" para "Cetácea", etc.
Mas não é só de manchas que é feito "Drawing Restraint 9": "Gratitude" com a voz de Will Oldham enrolada na harpa de Zeena Parkins não podia ser um melhor início, os estados de espírito misturam-se, faixa a faixa, a sonolência de "Bath", a isaltação de "Hunter Vessel", o dramatismo de "Storm" ou a felicidade de "Cetácea". A nível das composições, elas são simples, melodiosas, gravadas e arranjadas de maneiras pouco óbvias, com bastante energia, e principalmente, um perfeccionismo pouco exagerado.
"Drawing Restraint 9" é incapaz de fazer sombra a "Debut" ou "Homogenic", os seus sons não conseguem ser tão celestiais como em "Vespertine", não há nem réstias da agressividade de "Post", nem da soltura de "Gling Glo", nem da sobriedade de "Medulla", mas a banda sonora deste filme de Matthew Barney está bem longe de ser um mau disco, bem pelo contrário. Só não deixa um caminho muito óbvio pela frente. E depois???
Veredicto final: 16/20
"Oculto" de António Hernandez
Fui ao Rivoli, uma das minhas salas preferidas, na Sexta Feira, ver o filme "Oculto" que passava no Grande Auditório no âmbito do Fantasporto 2007. A película, de António Hernandez é protagonizada por uma actriz de novelas colombianas, Angie Cepeda, e por Leonardo Sbaraglia, actor de nacionalidade argentina.
Em traços gerais, a história é a seguinte: o Centro Cultural onde trabalha Beatriz recebe uma palestra sobre o significado e poder dos sonhos. No final, Natália, designer de moda, expõe as suas dúvidas em relação a três sonhos envolvendo monólitos com inscrições, que acredita serem premonições. Mais tarde, Natália conhece Beatriz, através de um jornalista, uma vez que a última acredita que uma tatuagem que (Supostamente.) havia feito há seis anos atrás a relaciona com a primeira. Á medida que a história e a psicose de Natália avançam, vamos descobrindo que a conexão de Beatriz com Natália não advém dos sonhos, mas sim de uma situação mal resolvida que envolve o desaparecimento de Javier, o antigo marido de Beatriz que a havia deixado por Natália, que, por sua vez, o havia deixado a ele, precisamente no dia em que ele desaparece.
Num enredo assim, não deixa de ser irónico que a protagonista seja uma actriz de telenovelas da América Latina, conhecidas pelas seus enredos de faca e alguidar, uma vez que, por vezes, a história de "Oculto" não tem pejo em aceitar lugares-comuns de todo dispensáveis. No final do filme, também é inevitável uma sensação de que afinal, o "oculto" em que supostamente o filme vivia não passa de uma desculpa para uma narrativa que tem como assunto uma vingança, perdendo-se o tão promissor assunto dos sonhos, da sua influência e do seu significado. Referências directas a Kubric (2001:Odisseia no Espaço.) ou indirectas ao "Pesadelo em Elm Street" de Wes Craven ficam assim em suspenso, existindo sem um motivo real, mas apenas para mascarar a verdadeira massa do filme. Tudo isto exposto em sequências que não surpreendem, á mistura com frases filosóficas que se revelam descontextualizadas, misticismos sem razão de ser e cenas de sexo explícito. Resultado: uma pergunta: O que faz este filme no Fantas???
Juízo Final: 7/20
sábado, 3 de fevereiro de 2007
José Luís Peixoto: Cemitério de Pianos
O título do terceiro romance de José Luís Peixoto é "Cemitério de Pianos". Se a experiência da leitura de "Nenhum Olhar" ou "Uma Casa Na Escuridão", os dois romances anteriores do autor, não nos levasse á temática da morte, mais uma vez o título levaria. E isso é importante, porque o assunto da morte percorre cada uma das 314 páginas do romance, ou não fosse a primeira frase do livro
"Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer."
Mas não só de morte é feita a história deste livro, ou, se se quiser ser mais preciso, a(s) história(s) deste livro, porque há duas entidades que monologam, que olham e relatam as suas vidas. É assim, como um shampoo, dois em um... Partilham o nome, Francisco Lázaro, e um Francisco Lázaro é pai do outro. Mas é impossível perceber quem é quem. José Luís Peixoto garantiu na apresentação do livro, na Fnac de Sta. Catarina, que não era importante perceber-se qual dos dois fala, e certificou-se de que isso seria impossível, ao passar nomes de uns familiares para os outros, por exemplo: uma Marta é filha do que parece ser o Francisco filho, mas depois é tia do que parece ser o pai... confuso. Não que isto retire qualidade ao livro, pelo contrário, apesar de tornar a leitura muito confusa, torna-a também mais intensa.
Em relação ao enredo propriamente dito, Peixoto partiu da personagem real de Francisco Lázaro, primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo, em 1912. Este curioso personagem morreu devido á brilhante ideia de untar a própria pele com óleos e graxa, o que, em vez de lhe manterem o corpo a uma temperatura amena, só impediram a pele de transpirar e de respirar. Resultado: morreu, após os trinta quilómetros corridos. A maneira como JLP pegou nesta figura e lhe inventou uma vida (E, num dos casos, uma morte.) é fantástica. O único defeito fica no facto de se deixarem algumas pontas soltas (O caso da morte de Maria.), que, ainda que não retirem nada de importante á história, por certo acrescentariam qualquer coisa.
A nível da escrita, o vocabulários é simples, as frases desligam-se umas das outras criando um "efeito poesia" e a história move-se passo por passo, e, ainda que se avancem anos, nada é precipitado: nem revelado antes de tempo, nem revelado tarde demais...
A ler, sem dúvida, mas só se se tiver uma fortíssima crença na máxima que diz
"Quem muito pensa pouco acerta"
porque, se se pensa demais, a questão da divisão dos Franciscos tornará a leitura secante.
Juízo Final: 17/20
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
morreu Fiama Hasse Pais Brandão

Iniciou o seu percurso com as prosas poéticas de "Em Cada Pedra um Voo Imóvel", 1958, edição de autor, que conquistou o prémio de poesia Adolfo Casas Monteiro. Continuou pela prosa poética em "O Aquário", de 1959. Em 1961, integra o grupo "Poesia 61" com o folheto "Morfismos". A partir daí, publica poesia, de onde se destacam por exemplo "Barcas Novas" (1967), "Melómana" (1979) ou "Âmago 1: Nova Arte" (1985); no domínio da prosa poética acaba por esbater as separações entre a poesia e ficção com "Falar Sobre o Falado" (1988) e "Movimento Perpétuo" (1991); produz abundantemente para teatro, iniciando o seu percurso como dramaturga com "Os Chapéus de Chuva" (1961); e escreveu ainda um único romance, "Sob o Olhar de Medeia" (1998).
Reuniu a sua obra em 1974, "O Texto de Joao Zorro" e em 1990, "Obra Breve".
Foi-lhe atribuído o Prémio APE para poesia por duas vezes, "Epístolas e Memorandos" (1997) e "Cenas Vivas" (2000).
O seu último livro de poesia foi publicado em 2002 pela Quasi, "As Fábulas".
Morreu ontem, aos 69 anos, e lega-nos uma obra que não é breve, nem em quantidade nem em qualidade.
Aqui fica um poema do seu úlltimo livro
URBANIZAÇÃO
Tudo o que vivêramos
Um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Nao na memória
Mas no puro espaço
Dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.
Depois alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo
ou a sós em silêncio,
ou narrando esse meu ver.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
Arcade Fire: Funeral
A vida é mesmo assim, há discos menos felizes e outros mais. O primeiro LP dos canadianos Arcade Fire é um bom exemplo de um disco muito feliz. E este feliz não quer dizer que o som de "Funeral" é sempre alegre, ao longo das dez canções que o constituem, mas sim que a qualidade é omnipresente. O som é rock, um rock caótico, agressivo, enérgico, sobrexaltado, esquizofrénico e acentuado. No entanto, não estamos perante um álbum simples e muito menos minimalista... todas as canções vivem de grandiosos arranjos de cordas, de pequenos pormenores criados com a harpa, o xilofone ou o upright bass. Os Arcade Fire são seis, mas fazem-se acompanhar por mais nove músicos, logo, a nenhum momento do álbum falta complexidade. Como em qualquer álbum, há canções melhores que outras, sem que nenhuma seja má. "Neighborhood #2 (Laïka)" é um excelente representante dos conceitos-base da música dos Arcade Fire, "Neighborhood #3 (Power Out)" idem aspas, "Neighborhood #1 (Tunnels)" (Bonita história de amor.) ou "Wake Up" são indispensáveis, sem dúvida.
No final do disco, o que fica é uma sensação de satisfação que dá vontade de ouvir de novo. De discos assim é feita a música alternativa. A prova disso são as críticas tão positivas a projecção que os Arcade Fire adquiriram desde o lançamento de "Funeral", além de terem dado também visibilidade a músicos que colaboram neste, o exemplo de Owen Pallett aka Final Fantasy, violinista, que publicou em Julho de 2006 o seu segundo álbum de originais, "He Poos Clouds".
O próximo álbum dos Arcade Fire tem de título provisório "Neon Bible", e está a ser gravado numa igreja. Independentemente do resultado, uma coisa os Arcade Fire já têm: uma estreia como poucas, e a oportunidade de, mantendo a fasquia, terem o nome entre os nomes dos grandes. Veremos...
Veredicto-20/20
domingo, 31 de dezembro de 2006
Maria Rita: Segundo
De Maria Rita já se disseram maravilhas, e já se disseram palavras menos boas. A estreia da filha de Elis Regina aconteceu há três anos atrás, com um álbum homónimo muito bem sucedido. O disco não era nada mau, ainda que não fosse exactamente a maravilha que muitos proclamavam. O reportório era coerente, e cada canção era obviamente escolhida a dedo. Um problema: Maria Rita tentava levar a sua voz para lugares onde ela não pode chegar. Sim, isso era um problema, e principalmente ao vivo. Não é que a menina desafine, mas a voz é que se nota muito mais insegura, e claramente inadaptada. Em "Segundo", as coisas mudam um pouco de figura, mas só algumas coisas.

Há, numa primeira audição, a sensação de que "Segundo" intenta ser a versão corrigida e refeita de "Maria Rita". Vejamos: os músicos são os mesmos, o principal compositor continua a ser Marcelo Camelo, e a sonoridade mantém a complicada mescla de MPB com jazz. E em "Segundo", Maria Rita repete até um tiro no escuro (Que não acerta em bom sítio, por sinal.) que já tinha dado no primeiro disco: cantar em castelhano. Em "Maria Rita", "Dos Gardenias" já soava a um intervalo para descansar, e o sotaque da cantora já deitava por terra a genuinidade da canção. Em "Segundo", a diferença é que o intervalo com "Mal Intento" chega uma faixa mais cedo.
Apesar deste aspecto, há que referir que o segundo álbum de Maria Rita não é mau, e, em certos aspectos, consegue até utrapassar o seu antecessor. A questão dos terrenos que a voz desta brasileira explora é agora abordada de uma forma mais realista, contentando-se a cantora com os registos adequados ao seu timbre. A sonoridade, de um modo geral, não regista muitas diferenças, o que não é bom, a não ser a nível do ritmo, que é aqui muito mais forte.
No fim, a ideia principal de "Segundo" é a oscilação. Somadas e/ou subtraídas todas as correcções, todas as aceitações, todas as mudanças, e todos os conceitos mantidos, o resultado tanto dá em canções muito boas, o caso da abertura com "Caminho das águas", "Ciranda do Mundo" e principalmente "Muito Pouco", como resulta em momentos indefinidos ("Despedida".) ou até mesmo momentos maus, como "Sem Aviso" ou "Feliz".
Em geral, "Segundo" parece, em certos momentos, ser melhor que "Maria Rita", mas, bem vistos todos os aspectos, esta colecção de canções, colocada ao lado da primeira que incluia pérolas como "A Festa", "Santa Chuva", "Pagu" ou "Agora Só Falta Você", pode no máximo igualá-la, mas ultrapassá-la... ultrpassá-la ainda não.
Juízo final: 14/20
sábado, 30 de dezembro de 2006
Running Up That Hill (A Deal With God)
It doesn't hurt me
Do you want feel how it feels
You don't want to hurt me
And if I only could make a deal with God
You
And if I only could make a deal with God
If I only could
Massive Attack: Collected
Tenho que falar de um disco que me ofereceram no Natal, e que, por acaso, eu já devia ter adquirido há muito tempo, ou não fosse uma colectânea do melhor de uma das minhas bandas de eleição e numa edição excelente. Falo de "Collected" dos Massive Attack, ou dos senhores Robert Del Naja (3D), Grant Marshall (Daddy G) e Andrew Vowles (Mushroom).
A edição especial contém, além do disco do best of, um outro dual side, que é um DVD com a videografia completa do trio que depois ficou duo, e um CD com inéditos, raridades e temas de OSTs.
Aparentemente, seria incoerente juntar canções do longínquo "Blue Lines" (1990) com "100th Window" (2003), mas, a verdade é que até nem soa mal. Bem pelo contrário. Traça-se uma evolução jeitosa, e temas antigos como "Safe From Harm" ou "Unfinished Sympathy" não ficam mal perante outras como "Butterfly Caught" ou "Special Cases". Pelo meio há "Protection" (1994) e "Mezannine" (1998).
O álbum cobre quase todos os vocalistas que já trabalharam com a banda: Shara Nelson (Que entretanto segue uma carreira a solo.), Horace Andy (Emblemático músico da Jamaica, tocou no Porto há pouco tempo.), Tricky (Colaborou com Björk em "Post".), Liz Fraser (Cocteau Twins.), Tracey Thorn (Anything But The Girl.), Nicolette (Nigeriana/ Escocesa, tem uma carreira a solo no acid jazz.), Terry Callier (Guitarrista de Jazz e Funk.), Sinead O´Connor (Quem não a ouviu em "Nothing Compares 2 U"?) e Mos Def (Rapper com pouca projecção em Portugal, ainda assim.), além de outras vozes que participam aqui por outras razões, o caso de Madonna em "I Want You", e de Damon Albarn (Blur, Gorillaz.) em "Small Time Shotin Em Up". Fica de fora Sara Jay, a minha preferida em "Dissolved Girl" e isso é pena.
Quanto aos vídeos, encontramos aqui Dani Levi, Michael Gondy, Wiz... mas uma colecção muito equilibrada, e cuja evolução acompanha a evolução da música.
Ainda apesar de tudo isto, "Collected" prima por mostrar as várias vertentes e contaminações da música dos Massive Attack, desde o soul de "Live With Me", "Safe From Harm" ou "Unfinished Sympathy", até ao hip hop em "Karmacoma" ou "Daydreaming" (Só presente em vídeo.), á electronica de "Butterfly Caught" ou "Inertia Creeps", ás influências orientais de "Sly" com Nicolette á voz, até sons mais melodiosos, como em "Protection" ou "Teardrop" a outros mais agressivos como em "Five Man Army" ou "Future Proof".
domingo, 24 de dezembro de 2006
Royksöpp: The Understanding
"Melody AM", o filho promogénito de Svein Berge e Torbjorn Brundtland, era feito com ritmos suaves mas fortes, e com melodias tristes, essencialmente. Desde então até "The Understanding", os tirmos é que se tornaram menos suaves, e a melancolia acentuou-se.
"Only This Moment" ou "Follow My Ruin" são, de facto, as provas de que a tristeza é dançável, e muito dançável. Obviamente que não é um disco perfeito para ouvir em casa, mas, num bar, num café... algures fora de casa, a história é outra.
O início engana quem ouve: o piano acústico dá o mote em "Triumphant", os sintetizadores engrandecem a coisa, mas em "Only This Moment", tudo muda de figura, o registo é agitado, electonico, faz lembrar os bares do underground de que eu tanto gosto. "49%" é o pior momento do álbum, mas é logo compensado por "Sombre Detune" e a música mantém-se oscilando entre o bom e o medíocre até fechar com "Tristesse Globale", um talvez regresso a "Triumphant". Não é um disco de que se goste á primeira. Á primeira audição, gostei apenas de "Triumphant" e "Only This Moment". Mas, á medida que se ouve, coisas como "Circuit Breaker", "Alpha Male" ou "Someone Like Me" vão ganhando consistência...
sábado, 23 de dezembro de 2006
All The Good Things

by Nelly Furtado
Honestly
what will become of me
don't like reality
It's way too clear to me
But really life is daily
We are what we don't see
Missed everything daydreaming
Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an end
Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an endcome
Travelling I
only stop at exits
Wondering if I'll stay
Young and restless
Living this way ~
I stress less
I want to pull away when the dream dies
The pain sets in and I don't cry
I only feel gravity and I wonder why
Well the dogs were whistling a new tune
Barking at the new moon
Hoping it would come soon so that they could
Dogs were whistling a new tune
Barking at the new moon
Hoping it would come soon so that they could
Die die die die die
De chamas a cinzas, de amantes a amigos, porquê que todas as coisas boas acabam? Adorava poder acrescentar alguma coisa a isto, mas a verdade é que a menina Nelly Furtado diz tudo. A minha pergunta é mesmo essa: why do all the good things come to an end? Eu espero que nem sempre seja bem assim...
fotografia tirada pelo je, em frente ao CCB, Lisboa, a 3 de Fevereiro de 2006
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
Minha Alma de Amor Sedenta, Sequiosa

Minha alma de amor sedenta, sequiosa
Barco sem rumo e sem Deus, fora do mundo
Anda á mercê da tormenta, tenebrosa
Desse mar dos teus olhos, negro e profundo
Essa dádiva total e quase louca
Que me pedes hora a hora, a cada instante
É o que a minha alma de dá, sem nada em troca
Quando de amor por ti chora, soluçante
Se eu um dia te perder, na tua vida
Jurarei virado aos céus, ao sol e á lua
Os perdoes que Deus me der, arrependido
Meu amor, são todos teus como eu sou teu
É uma causa perdida, pois não deve
O ser proibido amar e desejar
Quem perde um amor na vida, que é tão breve
Jamais deveria cantar e até sonhar...
fotografia de Gabriele Basilico
Disse-te Adeus Á Partida, O Mar Acaba A Teu Lado

Disse-te adeus á partida
Digo-te adeus á chegada
Se quero tudo da vida
Já de ti não quero nada
Disse-te adeus e depois
Fiquei no mesmo lugar
O leito de nós os dois
Só tem raízes no mar
Dizer adeus é diferente
Quando te digo baixinho
No meio de tanta gente
É que me sinto sozinho
Com uma gaivota na voz
Disse-te adeus e parti
Se esta cama somos nós
Não hei-de morrer sem ti...
António Lobo Antunes
Fotografia de Jorge Molder
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
As Minhas Queixas
Chegando o Natal, é tempo de fazer uma retrospectiva. Para merecer os meus presentes de Natal, posso não ter feito muito, mas aconteceram-me coisas muito desagradáveis este ano, que bem me fazem merecer as All Stars e o pack das Donas de Casa Desesperadas.
1.º- A atruibuição do Nobel da Literatura a Orhan Pamuk. Tinha que começar por aqui. Há anos que ando a dizer que depois do Saramago, o António Lobo Antunes já deveria ter ganho o Nobel. Isto está a tornar-se pessoal, a academia sueca está a fazer isto para me irritar. Estou farto disto.
2.º- Não fui á exposição da Frida Kahlo ao CCB. Problemas de agenda, problemas de agenda, e quem ficou a ver navios em vez de ver "A Coluna Partida" ou "Auto Retrato com Macaco" fui eu. Aliás, a ver barcos rabelos, porque no Douro nem há navios.
3.º- O final da série "Senhora Presidente" sem a promessa de uma segunda temporada. Privem-me de quase tudo, mas não da Geena Davis a interpretar MacKenzie Allen, senhora da Casa Branca, e Donald Sutherland como Presidente da Câmara de Representantes, ou simplesmente Nathan Templeton.
4.º- Mais uma vez, esqueci-me de metade dos aniversários dos meus amigos. Não faço por mal, mas tenho muita dificuldade em fixar datas, principalmente quando são datas tão parecidas no nome como Aniversário da Né, Aniversário do Fred, Aniversário da Nita, Aniversário do Diogo... enfim... é desgradável...
5.º- A minha irmã nem cresceu nem se tornou menos chata, e isto está na minha lista de prendas do Pai Natal há sabe Deus quantos anos...
6.º- Os Morangos com Açúcar continuam aí... apesar de eu tanto ter cortado na casaca do sr. José Eduardo Moniz...
7.º- Ainda não foi desta que provei Kibe Cru, que é um prato colombiano que eu ando curioso para experimentar.
8.º- O Justin Timberlake voltou aos discos com o FutureSex/LoveSounds, para mal dos meus pecados. Ouvi-lo cantar Rock Your Body era mau. Ouvi-lo em Let Me Talk To You My Love é pior...
9.º- Ainda não comprei uma casa no Algarve. É uma coisa de que ainda não desisti. Mas tinha sido tão bom, se tivesse sido este ano... principalmente no Halloween...,
10.º- Não foi desta que consegui gostar dos Sissor Sisters (As noites no Maus Hábitos não contam.) apesar de prometer a mim mesmo que vou conseuir descobir qual o motivo para que tão bem se diga deles.
11.º- Não consegui gostar de nenhuma música do novo álbum da Beyoncé Knowles, B Day, e eu acho que, depois de um ano de obsessão, na altura de Dangerously In Love, eu devia isso a mim mesmo.
12.º- Não descobri quem é o Tubarão. Andam praí ás voltas com o Bráulio, com a Raquel... e nada.
13.º- Não arranjei coragem para vestir uma T-Shirt cor-de-rosa...
14.º- Não consegui despir-me do veneno do sarcasmo nem um bocadinho...
15º- O Rui Rio entregou o Rivoli ao Felipe La Feria, e já lhes chamei todos os nomes...
Por tudo isto, querido Pai Natal, quero umas All Stars cinzentas e o pack dos DVDs da primeira temporada das Donas de Casa Desesperadas, e á meia-noite de 24, se faz favor. Um abraço, teu
SuperMassive Black Hole
O Meu Filme de Natal
Adoro cinema. Tive essa disciplina o ano passado, na Soares, no módulo de Comunicação Audiovisual, adoro ir ao cinema, vasculhar os DVDs nas lojas, e ver o Onda Curta, porque adoro curtas-metragens. Portanto, e lobo-antunianamente repetindo-me
Adoro cinema.
Mas, confesso que o ano passado desisti de ir ao cinema no Natal. Passo a explicar. Fui ao cinema com alguns colegas, a Guimarães. Como foi? Nada bom. O único que ainda nenhum de nós tinha visto era um de desenhos animados, que não posso garantir que não fosse o Lillo & Stitch 2. Estava cheio de famílias felizes com os filhinhos sorridentes, segurando com esse sorriso um colossal balde de pipocas. Sentámo-nos numa das filas do meio, e eu fiquei na ponta. Pus-me a pensar na minha vida, já que os filmes de desenhos animados raramente me agarram, e, a certa altura, estava a suspirar tanto que um rapazinho de seis anos me mandou calar. Um mimo. De uma forma ou de outra, passei o resto do dia em baixo, suponho que precisava de alguém que me dissesse que tudo ia ficar bem. Enfim, coisas natalícias.
Portanto, agora, não vou ao cinema, do meio de Dezembro até ao meio de Janeiro. Fugi.
Agora, limito-me a ver o meu filme de Natal, que é The Nightmare Before Christmas- O Estranho Mundo de Jack, do Tim Burton (Um dos meus definitivamente preferidos.) porque tenho uma edição especial em DVD, logo posso ver em casa dos meus pais, ou no meu PC, no primeiro caso, na sala, debaixo de um cobertor que detesto ficar constipado, e não me ponho a pensar na minha vida, uma vez que este filme me prende, apesar de já o ter visto um número de vezes nunca inferior a 584865497508435646752364162537804945859069, e, mesmo que pusesse, como o vejo sozinho, não haveria criancinha de seis anos que me mandasse calar. Pode ser que um dia ganhe coragem de voltar ao cinema na altura do Natal, não sei. Espero que sim. Por enquanto, não consigo ir. Se fosse, faria o máximo dos máximos por não ficar numa da pontas, porque, ao menos entre os meus amigos, estaria protegido, protegido como acabo de ouvir que a Carolina Salgado vai passar a andar, uma vez que corre perigo, derivado ás graves acusações que faz em "Eu, Carolina"... próxima candidata ao Nobel de Portugal. Isto era um parêntesis. O que eu queria mesmo era perceber porque não vou ao cinema nesta altura. Acho que descobri...
domingo, 17 de dezembro de 2006
post blue
(brian molko; stefan olsdal; steve hewitt)
it´s in the water baby
it´s in the pills that bring you down
it´s in the water baby
it´s in your bag of golden brown
it´s in the water baby
it´s in your frequency
it´s in the water baby
it´s between you and me
it´s in the water baby
it´s in the pills that pick you up
it´s in the water baby
it´s in the special way we fuck
it´s in the water baby
it´s in your family tree
it´s in the water baby
it´s between you and me
bite the hand that feeds
tap the vein that bleeds
down on my bended knees
i break the back of love for you
O Quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor...
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor...
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Caetano Veloso
Imagem: "Máquina Assassina" de Kurt Schwitters







































