domingo, 28 de outubro de 2007

Teresa Salgueiro: Você e Eu

SAMBA E AMOR

Teresa Salgueiro era a voz (E que voz!) dos Madredeus. De repente, "Obrigado" mostra-nos uma Teresa não só, uma vez que o álbum reunia algumas das suas melhores colaborações com outros músicos (De Dulce Pontes a Jah Wobble.), mas sem os músicos dos Madredeus. Em "Você e Eu", segundo álbum em que está fora dos Madredeus, mas continua acompanhada, neste caso pelo Septeto de João Cristal, Teresa Salgueiro foge numa direcção nada óbvia que nos deixa boqueabertos: música brasileira. Maria João e Maria de Medeiros fazem-no ao mesmo tempo, mas nenhuma nos deixa a piscar os olhos tanto como Teresa.



Ora, e, comparações são o mais básico vício do ser humano, e, sem ser um mau álbum, este "Você e Eu" é, ao lado de "João" e "A Little More Blue", o pior destes três testemunhos desta vaga de ir ao outro lado do Atlântico buscar canções. E pior precisamente porque, uma vez mais não querendo vir sozinha, Teresa Salgueiro se faz acompanhar por uma banda de músicos... brasileiros.

Aqui reside o problema do segundo álbum da senhora fora dos Madredeus. É uma portuguesa a cantar músicas brasileiras. Mas, em vez de fazer como fizeram Maria de Medeiros e Maria João, e procurar dar uma roupagem nova ás canções, despindo-as do ambiente típico da música tradiconal brasileira, ela surge com uma banda de músicos brasileiros que escreveram para as canções brasileiros arranjos de som muito brasileiro, resultado: soa-nos ao álbum de uma cantora portuguesa a tentar ser brasileira. Má ideia.

Como seria uma má ideia que um brasileiro pegasse na guitarra portuguesa e tentasse cantar o fado como o cantam portugueses de sangue, também é má ideia Teresa Salgueiro tentar "sambar" com a voz.

E vai ser esta mesma voz, sambando ou não sambando, que vai dar a "Você e Eu" a redenção. Porque sobre estes brasileirismos todos, não deixa de ser bizarro ouvir voz tão melódica e agúda. A postura de Teresa é perfeita, dela outra coisa não se espera, e interpreta estas canções com alma, evidenciando a parte pessoal de cada uma.





O alinhamento é interessante, dá destaque a Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim, mas há também espaço para Chico Buarque, Ary Barroso ou Dolores Duran. Um alinhamento pessoal, pois claro, e ainda bem.
Pecando por ser um pouco comprido, se nos esquecermos do contexto do álbum, ele é fácil de ouvir sem aborrecer, até pelos diferentes sabores que "Você e Eu" vai assumindo.
Se há destaques, eles têm que ir para "Chovendo na Roseira" de Jobim, "A Banda" de Chico Buarque e "Estrada do Sol" de Dolores Duncan e Jobim.
A direcção de arte do album tem que ser referida, e por ser péssima. Boa foto na capa, estragada pelo excesso de letras (Less is more.), contracapa horrível.
Salva, aqui, pela voz cristalina, não deixa de ser um tiro ligeiramente ao lado para Teresa Salgueiro.
O terceiro álbum, entretanto, já chegou. Com toda a crença que tenho em Teresa Salgueiro, acredito que, com mais alguns álbuns, "Você e Eu" se torne numa referência menor, uma vez que a acredito capaz de bem melhor. Até lá.





Veredicto Final: 15/20

sábado, 6 de outubro de 2007

False Flags

O início, quando o pequeno grande Robert Del Naja interpreta "False Flags" um dos temas centrais do album em apresentação. Fica a letra:

In city shoes
Of clueless blues
Pays the views
And no-mans news
Blades will fade from blood to sport
The heroin's cut these fuses short
Smokers rode a colonial pig
Drink and frame this pain i think
I'm melting silver poles my dear
You bleed your wings and then disappear
The moving scenes and pilot lights
Smithereens have got 'em scaling heights
Modern times come talk me down
And battle lines are drawn across this town
Parisian boys without your names
Ghetto stones instead of chains
Talk 'em down cause it's up in flames
And nothing's changed
Parisian boys without your names
Riot like 1968 again
The days of rage yeah nothing's changed
Well pretty flames
In school i would just bite my tongue
And now your words they strike me down
The flags are false and they contradict
They point and click which wounds to lick
On avenues this christian breeze
Turns its heart to more needles please
Our eyes roll back and we beg for more
It frays this skin and then underscore
The case for war you spin and bleed
The cells you fill screensavers feed
The girls you breed the soaps that you write
The graceless charm of your gutter snipes
The moving scenes and suburbanites
And smithereens got 'em scaling heights
Modern times come talk me down
The battle lines are drawn across this town
English boys without your names
Ghetto stones instead of chains
Hearts and minds and u.s. Planes
Nothing's changed
And english boys without your names
Riot like the 1980's again
The days of rage yeah nothing's changed
More pretty flames

Massive Attack: Coliseu do Porto

COM QUE VOZ?
Passavam pouco mais de vinte mintuos das dez e meia do dia 18 de Setembro, no Coliseu do Porto, quando mensagens passando em ecrãs de luzes anunciam o início do concerto dos Massive Attack. Com o Coliseu a abarrotar, literalmente, Robert "3D" Del Naja entra no palco para começar com "False Flags", segundo single de "Collected", o best of em apresentação. Um início cheio de força, surpreendente na medida em que ao vivo a densidade da versão de estúdio não se perde. A partir daqui, ao longo da noite, a promessa é sempre cumprida: além de apresentar algumas faixas do próximo álbum, revisitar uma boa parte da ainda curta discografia dos Massive Attack, dentro do possível tendo em conta os convidados: um simpático Horace Andy sempre a altura, com "Angel", "Hymn Of The Big Wheel", respectivamente de "Mezzanine" e "Blue Lines" a marcar as suas melhores presenças. Liz Fraser era, provavelmente, aquela de quem se esperava mais, e também a responsável pelo pior momento da noite, precisamente aquele que muitos estavam a espera: "Teardrop". Ainda que a versão que substitui o cravo pela guitarra acústica seja estranhamente boa, a canção correu mesmo mal a Liz, que ao começar um ou dois tons acima não se encontra capaz de acompanhar. Uma vergonha que viria a fazer esquecer definitivamente com "Group Four", onde, apesar da vocalização ser mais exigente, ela se porta irrepreensivlemente, e na última canção, antevisão do próximo álbum. Volta, Liz, estás perdoada. Deborah Miller é a terceira vocalista, aqui a fazer as vezes de Shara Nelson em "Safe From Harm" e "Unfinished Sympathy", os dois primeiros singles dos Massive Attack. Deborah tem uma voz incirvelmente semlhante á de Shara, chegando mesmo a confundir. A sua presença destaca-se, sem dúvida não só na voz, como também na sua pose, é certamente uma das pessoas mais charmosas a pisar o palco.
Quem também canta são os músicos dos Massive Attack, "Robert Del Naja e Grant "Daddy G" Marshall, por vezes juntos como no fantástico "Karmakoma" resgatado do álbum "Protection", outras vezes com Del Naja a solo, como em "Inertia Creeps", "Future Proof" ou "Butterfly Caught". Daddy G peca por estar demasiadas vezes fora do palco, fazendo-o parecer mais um convidado.
Em relação ao que mostaram do próximo álbum, "Weather Underground", as canções parecem continuar no caminho de "100th Window", que já de si era um desvio daquilo que se tinha feito até "Mezzanine". Com uma sonoridade densa e pesada, não deixa de ser entusiasmante a ideia de vermos vozes como as de Liz Fraser ou Terry Callier, já confirmados, a cantar sobre tudo isto. Destaque para a última canção da noite, uma novidade com Liz Fraser ao microfone, onde a presença de dois bateristas se denota mais do que nunca. Das canções já conhecidas, escolheram-se as que já são da praxe, caso de "Teardrop", "Angel" ou "Unfinished Sympathy", mas sente-se sempre a falta de outras músicas de menos projecção da banda de Bristol, caso de "Dissolved Girl" com Sara Jay á voz, "Black Milk/ Black Melt" com Liz Fraser, das três faixas de Sinead O´Connor naquele que é afinal o mais recente álbum de originais dos Massive Attack ou das duas de Tracey Thorn e Nicolette. Claro que ter tantos convidados numa só noite seria bom de mais para ser verdade, mas podemos sempre sonhar. O problema, queria eu dizer, foi um e só um: não se foi muito para além daquilo que se espera. Dentro daquilo que se cantou, tudo foi perfeito, sem sombra para dúvida.


Veredicto Final_ 19/20

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

a frase

"Não é porque alguém chama que alguém responde. Não é porque alguém quer que a obra é feita. Só por vezes."

LÍDIA JORGE
in "A Costa dos Murmúrios"
1984

ISABEL LHANO, "Pulsar", 2001, acrílico sobre tela

domingo, 9 de setembro de 2007

Sarah McLachlan: Afterglow Live

A TEMPESTATE PERFEITA





Sarah McLachlan é, injustamente, um nome principalmente desconhecido do grande público. E injustamente, porque a sua música, gostemos ou não gostemos, é construída com base na qualidade. E é este princípio, ao qual Sarah se tem mantido fiel ao longo dos quase vinte anos de carreira que tem, que faz com que o seu trabalho, principalmente como compositora, seja geralmente incompreendido. Ainda assim, confirmações ao seu talento não faltam, ainda que sejam poucos, mas as suas canções são utilizadas em filmes (City Of Angles, Kissing), séries de televisão (Six Feet Under, Roswell, Charmed, CSI, Queer As Folk, etc), já venceu vários Grammy Awards, e conta com inúmeras nomeações, só não consegue grandes sucessos de vendas.


Lançado no Natal de 2005, "Afterglow Live" tem no seu título a maior incongruência que se pode encontrar: o alinhamento do concerto a que assistimos no CD/DVD engloba todos os temas de "Afterglow" com excepção de "Time", é verdade, mas o álbum parece ser mais um best of ao vivo do que propriamente uma apresentação do mais recente álbum de originais da musicien canadiana. A abertura é feita, estranhamente, com "Fallen". E estranhamente porque além de ter sido o primeiro single de "Afterglow" foi o tema mais badalado do álbum, já utilizado num episódio de Six Feet Under e no final de um de CSI: Las Vegas. E, após tão bela introdução, continuamos a ser conduzidos por um longo mas irrepreensível concerto. Irrepreensível, se esquecermos o facto de faltar "Time" no alinhamento, por acaso uma das minhas preferidas. No entanto, a certa altura torna-se dificil encontrar seja que defeito for em todo este espectáculo, quando encontramos as versões tão melhores que as de estúdio de "Ice", "Fear", "Possession", "World On Fire", "Perfect Girl" ou "Building a Mystery". Ainda que sem ultrapassar significativamente as versões de estúdio, também pontuam "Angel", "Answer", "Dirty Little Secret" ou "Wait".

Simpática e comunicativa, Sarah traça, após seis anos de ausência uma retrospectiva que só não é perfeita por praticamente esquecer "Touch" e "Solace", que, por muito que já nos pareçam menores ao lado de "Fumbling Towards Ecstasy", "Surfacing" ou "Afterglow", não deixam de conter pérolas como "Steaming", "Vox", "Black", "Into de Fire" ou "Ben´s Song". Fora isto, nada de mau há a dizer.
É verdade que o que "Afterglow Live" nos diz, já "Mirrorball" nos havia dito, há anos atrás- que Sarah é uma mestra de palco- mas se por um lado é injusto que momentos tão paradísiacos se possam tornar quotidianos ao serem gravados e, logo, possivelmente repetíveis, a verdade é que esses momentos não merecem morrer na memória de quem os presenciou. Portanto, este álbum vale a pena.
É pena que o DVD contenha o concerto na íntegra, e o CD não, uma vez que no CD nem sequer estão os mais memoráveis momentos dessa noite.
Mas Sarah McLachlan é sempre Sarah McLachlan. Só isso merece muita coisa...





Veredicto:20/20

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Song To The Siren


On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me,
sail to me;
Let me enfold you."
Here I am,
here I am
waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning,
broken love lost on your rocks.
For you sang,
"Touch me not, touch me not,
come back tomorrow.
"Oh my heart, oh my heart
shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me,
let me enfold you."
"Here I am.
Here I am,
waiting to hold you."


letra de TIM BUCKLEY
imagem: PAUL M PAGI SEPUYA

sábado, 1 de setembro de 2007

As Minhas 20 Canções Tristes

Isto é uma selecção de 20 canções tristes, puramente pessoal, e independente de qual o genero, autor, intérprete ou proveniência da canção. Interessa ser triste, e a selecção não foi fácil, uma vez que 80% do que eu ouço é triste, deprimente, melancólico, etc, etc, etc, etc.


1. Sia: BREATHE ME
(-Sia Furler; Dan Carey-)
Momento de tristeza mórbida demarcada por um piano a desabar e um extraordinário arranjo de cordas. Sia Furler mostra que é mais do que uma das vocalistas dos Zero7, e faz uma canção tão triste que nos dá mais vontade de morrer do que o poema de Álvaro de Campos “Se te queres matar porque não te queres matar?”
"Hurt myself again today
And the worst part is there´s no one else to blame...
Be my fiend, hold me... "
(Do álbum "Colour The Small One" 2004)

2. Placebo: 20 YEARS
(Brian Molko; Stefan Olsdal; Steven Hewitt)
Delírio de pranto do trio de Brian Molko, complementado por um videoclip de estética perfeita. A premonição da morte assusta ou dá esperança? Aceitam-se opiniões. Os Placebo têm a deles. Esperança que os 20 anos que faltam sejam the best of all I hope.Molko; Stefan Olsdal; Steve "But it´s you I take cause you´re the truth not I
There are 20 years to go... the best of all I hope..."
(Do álbum "Once More With Feeling" 2004)

3. Fiona Apple: NEVER IS A PROMISE
(-Fiona Apple-)
História de um desamor agressivamente melancolico. Piano, violoncelo e voz fazem a história da canção mais triste não só de “Tidal”, como de toda a discografia de Fiona. Feliz ou infelizmente, a polémica loirinha nunca mais compôs nada tão severamente triste.
"You say you understand but you don´t understand
Yoy say you never give up looking eye to eye
But never is a promise and you can´t afford to lie..."
(Do álbum "Tidal" 1996)

4. Antony and The Johnsons: THE LAKE
(-Edgar Allan Poe/ Antony Hegarty-)
Antony e os seus Johnsons interpretam Edgar Allan Põe e não se espalham. A história é dramática e arrepiante, pois claro, e a composição não lhe fica atrás. Povoada de um som moribundo e gótico, “The Lake” é uma das melhores canções desta peculiar banda, e uma das melhores composições de Hegarty.
"But when the night had thrown her pall
Upon that spot as upon all
And the wind would pass me by
In its stilly melody
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake"
(Do EP "The Lake" 2004)

5. Aimee Mann: WISE UP
(-Aimee Mann-)
Composta para o filme “Magnólia” de Paul Thomas Anderson, “Wise Up” é uma canção conhecida de todos nós. Mann troca a guitarra pelo piano, e conta-nos histórias de quem se encontra perdido a meio da vida. E diz-nos como reverter a situação. Precisamente por nem sempre conseguirmos, é que ela diz coisas destas.
"You're sure
There's a cure
And you have finally found it"
(Da OST de "Magnólia" 2001)

6. Sarah McLachlan: FALLEN
(-Sarah McLachlan-)
O desgosto e a perda dentro de uma canção digna de génio. Sarah McLachlan abrilhanta a letra triste com a sua voz etérea, e o seu inconfundível piano. Single de avanço do mais recente álbum de originais, a confimar o talento da pianista para as sad songs.
"Heaven bent to take my hand, I´ve nowhere left to turn
I´m lost to those I thought were friends,
Everyone I know, they turn their heads emabarassed
Pretend that they don´t see
That it´s one misstep, one slips before you know it..."
(Do álbum "Afterglow" 2005)

7. Anathema: ARE YOU THERE
(-Vincent Cavanaugh, Danny Cavanaugh, Lee Smith, Jamie Cavanugh, John Douglas-)
Já dizia Fernando Ribeiro que o que interessa é o metal. A banda dos irmãos Cavanaugh, no entanto, não faz disso principio. Balada de choro e de morte, "Are You There" é um dos momentos mais interessantes da discografia da banda de gothic metal.
" but since you've been gone I've been lost inside
tried and failed as we walked by the riverside
and I wish you could see the love in her eyes
the best friend that eluded you lost in time
burned alive in the heat of a grieving mind"
(Do álbum "A Natural Disaster" 2005)

8. Jewel: FOOLISH GAMES
(-Jewel Kilcher-)
A senhora que veio do frio conta-nos, acompanhada de piano e violoncelo como lhe despedaçaram o coração. Pois claro. "Foolish Games" deu Jewel a conhecer ao mundo, estávamos nós em 1994. E não foi injusto. Uma canção simples, sem pretenções, que resulta num dos momentos mais tristes da discografia da menina Kilcher.
"Excuse me, I think I´ve mistaken you for
Somebody else, somebody who gave a damn
Somebody more like myself...
And you took your coat off, stood in the rain
You´re always crazy like that..."
(Do álbum "Pieces Of You" 1994)

9. Bliss: SLEEP WILL COME
(-Stefan Aaskoven; Marc-George Andersen; Banzai Republic-)
Abertura do álbum "Quiet Letters", mais que triste, "Sleep Will Come" é uma canção deprimente. História improvavel de violoncelos chorando, violinos desesperados, e uma estranhamente compassada beat electrónica, a culminar num acordeão violento. Fica um vazio, depois de ouvir.
(Do álbum "Quiet Letters" 2005)

10. Royksopp: TRIUMPHANT
(-Torbjorn Brundtland; Svein Berge-)
Uma música vinda do frio, do gelo e da neve. A duo electrónico grava uma canção orgânica e visceral. "Triumphant" é a introdução de "The Understanding", e um início cheio de força. Canção rara e cheia de vida, que culmina na morte.
(Do álbum "The Understanding" 2005)

11. Marilyn Manson: IN THE SHADOW OF THE VALLEY OF DEAD
(-Marilyn Manson/ John 5-)
Coma Black guia o seu povo pelo Vale dos Mortos. Pelo caminho, fala-nos da necrofilia da televisão, e do massacre de Columbine. “In The Shadow Of The Valley Of Death” é um dos temas mais tristes, e melhores, de Marilyn Manson, e também o subtítulo do seu melhor álbum.
"We have no future
heaven wasn't made for me
we burn ourselves to hell
as fast as it can be
and I wish that I could be a king
then I'd know that I am not alone"
(Do álbum "Hollywood" 2000)

12. Blind Zero: ABSENT WITHOUT PERMISSION
(-Miguel Guedes/ Blind Zero-)
As ruas do Porto ficam todas dentro desta canção. E os dias nublados e pesados também. Miguel Guedes escreve um dos seus melhores poemas e os Blind Zero fazem uma das suas melhores canções de sempre. O sentimento de revolta pela chegada ao point of no return é o assunto, e todos ou quase todos nos podemos identificar com ele.
"On everyday break on every street light
You´re absent without permission
Everywhere is the place I find
To learn by jeart that you´re watching over me..."
(Do álbum "The Night Before and a New Day" 2005)

13. Massive Attack feat. Terry Callier: LIVE WITH ME
(-Robert DelNaja; Neil Davidge; Terry Callier-)
Voz de negro sobre acústica/electrónica inclassificavelmente boa. Uma das canções mais potentes da banda de Bristol, com grande orquestração, percussões crescentes e electronica subtil. A não esquecer.
"Nothing´s right if you ain´t here
I´d give all that I have just to keep you near
I wrote you a letter tryin to make it clear
But you just don´t believe it- I´m sincere..."
(Do álbum "Collected" 2006)

14. Cecilia Bartoli: SI PIANGETTI PUPILLE DOLENTE
(-Antonio Caldara-)
O barroco do século XVIII no seu melhor. Cecília Bartoli resgata Antonio Caldara da treva do anonimato, e interpreta-o brilhantemente.
(Do álbum "Opera Proibita" 2006)

15. Lou Rhodes: WHY?
(-Lou Rhodes, Andrew Barlow, John Thorne, Oddur Mar Runnarson, Nikolaj Bjerre-)
A última canção composta pelos Lamb, interpretada por Lou Rhodes, no seu primeiro álbum a solo. Toada de quem está de partida, e vê a sua vida desabar. A terminar "Beloved One" e a antecipar "Bloom".
"So much of what I´d want for
I couldn´t let it be
So I made me a world where
You had to leave
Tell me why
Why can´t we let the good things in?"
(Do álbum "Beloved One" 2oo6)

16. Katia Guerreiro: VALSA
(-António Lobo Antunes/ Miguel Ramos-)
O lado escondido de António Lobo Antunes. Simplicidade metafórica, e simplicidade de linguagem. Katia Guerreiro canta, e, logicamente encanta. Uma canção de noite de insónia, de medo, e de amor.
"Se chamo som das ondas ao rumor
Dos passos dos vizinhos pela escada
É porque á noite acordo de terror
De me encontrar sem ti de madrugada..."
(Do álbum "Nas Mãos do Fado" 2003)

17. The Devlins: WAITING
(-Colin Devlin-)
Final do episódio piloto de Sete Palmos de Terra, "Wainting", canção de quietude, de espera, de slow motion, e de falta. Um masterpiece dos irmãos Devlin.
"Waiting with the orphans
Waiting for the bee stings,
they tell me that success brings
Waiting in the half-light
Waiting through your whole life."
(Do álbum "Waiting" 2000)

18. Amália Rodrigues: COM QUE VOZ?
(-Luís de Camões/ Alain Oulman-)
A canção que conduziu a grande diva do Fado ao tribunal, no tempo do Antigo Regime, pela interpretação de Luís de Camões. Por sinal, valeu a pena. Alain Oulman, pianista que dedicou toda a sua vida profissional a Amália, tem neste soneto de Camões uma das suas melhores composições. Amália brilha como de costume.
"Com que voz chorarei meu triste fado?
Que em tão dura paixão me sepultou
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo de meu bem, desenganado..."
(Do álbum "Com Que Voz" 1970)


19. Arcade Fire: OCEAN OF NOISE
(-Win Butler; Regine Chassagne; Tim Kingsbury; Richard Roux Perry; William Butler; Sarah Neufeld; Howard Billerman-)
Numa espécie indie de valsa, os canadianos Árcade Fire têm uma das melhores faixas de “Néon Bible” que nos narra a história do oceano de barulho entre duas pessoas. Não ao acaso, Saramago disse há uns anos que “é mais fácil chegar a Marte do que ao outro.” O septeto de Win Butler parece estar de acordo.
"No way of knowing
What any man will do
An ocean of violence
Between me and you
You've got your reasons
And me I've got mine
But all the reasons I gave
Were just lies to buy myself some time"
(Do álbum "Neon Bible" 2007)


20. Rufus Waiwright: THIS LOVE AFFAIR
(-Rufus Wainwright-)

Tema dos mais simples em “Want Two”, voz, piano e orquestra. O rock barroco presenteia-nos por vezes com canções assim. Wainwright perde-se numa narrativa sufocante, que é, á semelhança de um trabalho de Isabel Lhano, “Como se te afastasse e agarrasse ao mesmo tempo”.

"I can't say that I'm waltzin'
Not that I don't like waltzing
Would rather be waltzin' with you
So I guess that I'm going
I guess that I am walking
Where?
I don't know
Just away from this love affair"
(Do álbum "Want Two" 2005)

Dito isto, choremos e soframos todos. Peace.

domingo, 26 de agosto de 2007

Cecilia Bartoli: Opera Proibita

TRÊS HOMENS E UMA MULHER






O que percebo eu de ópera? Sinceramente, não percebo nada. Mas sinto-me obrigado por mim mesmo a falar do mais recente álbum de Cecília Bartoli, "Opera Proibita", uma vez que é um dos álbuns que mais me tocou, de sempre. Canta composições de George Frideric Handel (1685- 1759) enquanto jovem, António Caldara (1670-1736) e Alessandro Scarlatti (1660-1725), todos eles compositores Barrocos italianos.
Esta época particular, o Barroco é, como se sabe, uma época de dualidades. No século XVII, após a "crise das consciências"do Renascimento, em que, em vez de Deus, era o Homem o centro do universo, a Igreja decide contra-atacar, também para se defender do Protestantismo. Assim nasce a génese do Barroco, a estética do exagero, com o intuito de seduzir quem vê, de atraír e sensibilizar as pessoas sobre Deus. Com base nesta manipulação se construíram algumas das mais belas igrejas de sempre, e se produziram as mais prodigiosas peças de arte. Bernini, Caravaggio, Georges de la Tour, Maderno, Borromini ou Nicolas Nasoni são alguns dos artistas que mais se destacam nesta época. No campo da música, no entanto, as coisas eram diferentes. A igreja decide proibir a ópera, dizendo que agora é tempo de rezar e não de nos divertirmos, e proíbe as mulheres de interpretar música, o que acaba por originar a existência dos castrati, homens com vozes efiminadas que interpretavam mulheres. Mas os compositores da época não desistem de compor ópera, e fazem-no, mas garantem que o que compõem é música religiosa. Destacam-se nomes como Antonio Vivaldi, Bach ou o português Carlos Seixas.
É este tipo de árias que Cecilia Bartoli interpreta aqui, e é a sua carga histórica que dá título ao álbum, gravado com a orquestra dos Musiciens du Louvre, sob a direcção de Mark Mikowski.
Abre com "All´Arme Si Accesi Guerrieri" de Scarlatti, uma ária alegre e glamorosa, ideal para a abertura do álbum. Roma cabe lá dentro, sem dúvida. A voz de Cecília é bonita (Ela também.), digo eu que será potente, parece bastante á-vontade com a ginástica vocal que faz, ou seja, uma boa intérprete.
De todas as árias que interpreta, as que mais me tocaram foram "Notte Funesta... Ferma L´Ali" de Handel, "Caldo Sangue" de Scarlatti e, principalmente "Si Piangete Pupille Dolente" de Antonio Caldara. Uma das mais belas coisas que já ouvi na vida.
Não posso dizer muito mais, porque corro o risco de dizer disparates, isto se já não o fiz. O que eu queria mesmo dizer é que gostei muito deste álbum, independentemente do que disserem os especialistas na área.




Veredicto Final (E De Um Ponto de Vista Puramente Pessoal)_ 19/20

Alergias Legítimas

A Rolling Stone levou a cabo uma sondagem em que o resultado seria uma lista das dez canções mais irritantes de sempre. Um comentário pessoal para cada um, uma vez que adorei a lista:
1. "My Humps" BLACK EYED PEAS: Um primeiro lugar muito justo, sim. De facto, Fergie e os seus comparsas poderiam fazer tantas coisas, porquê música? Não é justo que tanta gente ande a cantar em bares na noite da guitarra e que os Black Eyed Peas que não estão a fazer nada andem a gravar álbuns. Essa senhora, ainda por cima tem o descaramento de nos dizer que gravou um álbum a solo, quando a verdade é que o que muda é o nome que aparece na capa. Will.I.Am e o resto desses atrasados mentais está por lá, e nos videoclips também. "My Humps" é uma canção irritante, mas não mais que outras como "Shut Up", "Where Is The Love" ou "Don´t Phunk With My Heart". Uma tristeza.
2. "Macarena" LOS DEL RIO: Eu já nem me lembrava que esta música existia. Do pior. A música latina sempre nos mostrou que por vezes não gosta de legitimar Glória Estefan, e é uma pena, porque isso dá origem a coisas como esta. Coisas como estas nem merecem que se lhes chame música. Sem comentários.
3. "Who Let The Dogs Out" BAHA MEN: Esta música só tinha piada quando passava no genérico de "100 Deeds For Eddie". Fora daí, deviam proíbi-la. Umas vozes que fazem lembrar um personagem dos Batanetes sobre umas percussões de quinta categoria e resultado: nunca soubémos quem deixou os cães saír.
4. "My Heart Will Go On" CELINE DION: Bom exemplo de uma música arruínada pelo abuso. Tudo bem, foi muito gira no Titanic, aparte de ser uma sentimental do pior, Celine merece crédito pela voz potente, mas toda a gente abusou de My Heart Will Go On. Resumo da ópera: já ninguém suporta ouvir esta canção que há não tão poucos anos atrás venceu o óscar de Melhor Canção.
5. "Photograph" NICKELBACK: Todos sabemos que a banda de Chad Kroeger teve momentos mais felizes que este. "Photograph" é de facto álgo de irritante, uma mistura de letra do Bazar Oriental com uma melodia composta sobre os joelhos a meias com uma guitarra. O produto final é para esquecer. Lembremo-nos de "How You Remind Me".
6. "Mambo nº5" LOU BEGA: Esta não conheço. Acho eu.
7. "You´re Beautiful" JAMES BLUNT: Dêem-lhe um tiro! Por favor. A voz é irritante ao fim de escassos segundos, a música é exasperante, as guitarras hispânicas já estão mais usadas que as Vans nestes dias, e ainda falta falar da letra. Diz-nos este génio: "Eu vi um anjo disso estou certo, ela sorriu para mim no metro, estava com outro homem, mas não vou perder o sono por causa disso porque tenho um plano: tu és linda, é verdade." Belo plano. Não admira que no fim ele diga que nunca vai estar com ela.
8. "Wannabe" SPICE GIRLS: Como devem achar que ainda não nos torturaram o suficiente com coisas como esta, parece que estas meninas ainda se vão juntar de novo, devido á falta de algo para fazer de Victoria Beckham. "Wannabe", o cúmulo do previsível. Ficará na história, decerto, como uma das piores músicas de sempre. Alguém tem de ficar.
9. "The Thong Song" SISQO: Também não me parece que conheça.
10. "Believe" CHER: Realmente, já não há paciência para ouvir este hino de libertação feminina fora de tempo. E também não há paciência para aquelas piruetas que ela faz para escamotear a falta de boa voz. Podia sempre voltar ao cinema, mas pronto, ela prefere fingir que acredita que nos acreditamos que ela sabe cantar. Ou preferia, uma vez que já fez a sua "Farewell Tour". Boa ideia.
QUEM EU ACHO QUE FALTA:
"Umbrella" RHIANNA: se traduzirmos, dá para perceber que ela diz "fica debaixo do meu guarda-chuva, uva, uva, uva, yeah, yeah, yeah." Muito giro.
"Sexyback" JUSTIN TIMBERLAKE: Shoot him!
"Candyshop" 50 CENT: Torture him!
Peace guys!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Zero7: The Garden

O JARDIM E O QUINTAL


"Simple Things", o primeiro álbum dos Zero7 é um álbum digno de ficar na memória de todos nós. Electronica bem-construída, e discreta, canções compostas com mestria, e as vozes de Sia Furler, Sophie Barker e Mozez, era,m razões inequívocas que faziam da banda de Henry Binns e Sean Hardaker uma promessa. O que em tal peça era original, interessante e bom, no entanto, perdeu muita originalidade em "When It Falls", onde se juntava a voz de Tina Dico, e onde se jutava também um aumento de predictabilidade. As canções eram ainda boas, e ainda eram interessantes. O problema de "When It Falls" era soar a uma versão melhorada de "Simple Things". Mas acabava por não ser um tiro falhado, devido ao brilhantismo de canções como "Somersault", entregue a Sia, ou "Warm Sound", com Mozez, "Passing By" com Sophie Barker, ou "The Space Between" com Tina.
Em "The Garden", é impossível evitar o sentimento de confusão: as canções continuam a não ser originais, mas agora, algumas tornaram-se também desinteressantes. São boas composições, complementadas com boas letras e boas vozes, a electrónica tão bem construída como sempre, mas as canções, por vários motivos, não despertam interesse, porque se simplificaram no sentido da pop.
"Futures" e "Throw It All Away" fazem bom começo, envolvente, o problema é que que o que se segue contém raríssimos momentos que consigam, pelo menos, igualar estes dois. O primeiro tem a voz de José Gonzales, e essa voz tem um timbre suave, adapta-se bem, mas não é brilhante. No entanto, a instrumentação, principalmente no final, faz da canção consistente. "Throw It All Away" tem Sia na voz, e é uma boa música alicerçada pela fusão surpeendente do lado acústico com o electrónico, rematada por uma bateria acelerada.
E é precisamente Sia quem engrandece uma boa parte das canções, com a sua excelente performance (Que, de resto, não é surpresa alguma.) sensual e suave, além de grande perfeccionismo. "You´re My Flame" é um exemplo. O instrumental é seguro, mas tem uma beat parecida com alguma que já ouvimos até aqui, e isso torna-se preocupante quando esta é só a quinta faixa. A letra é excelente, ainda que nos relembre demasiado "Somersault".
Ainda sobre Sia, enquanto que "This Pageant Of Bizarre" e "If I Can´t Have You" não são particularmente interessantes, "This Fine Social Scene" acaba por pontuar tanto como "Throw It All Away" (É o tal momento raríssimo que iguala os primeiros.) e "Waiting To Die" vai ganhando consistência quanto mais se ouve, e revela-se uma boa música, interessante no contraste criado pela tonalidade muito alegre com que Sia canta "La, la, la, la, la, we´re waiting to die."
Gonzalez não deixa de despertar interesse por ser uma novidade, mas acaba por não ser uma mais-valia para a dupla ("Futures" só se torna brilhante pelos instrumentos.), e não deixa de parecer um pouco deslocado daqui, por ter uma performance bastante "aluada", e, consequentemente, distante da personalidade musical dos Zero7, e das performances de Sia, Barker, Mozez ou Dico, que se apropriavam mais.
Outro foco de atenção em "The Garden" é este: não só se deixa Tina Dico, como também se deixam colaborações de há muito, Sophie Barker (O seu timbre não era assim tão diferente do de Sia, mas tinham posturas completamente diferentes.) e Mozez (Uma postura oscilante, mas mais rica em emoção do que a voz masculina de agora.), o que faz com que este álbum se apoie imenso em Sia: primeiro porque as músicas de Gonzalez não se destacam assim tanto, como já se disse, e segundo porque as de Sia sim.
Em relação aos temas instrumentais, eles não diferem particularmente do que já se fez nessa área. São boas composições, mas que acrescentam menos do que seria desejável.
Longe de estarem no pico da criatividade e da qualidade, os Zero7 não fizeram um álbum mau, apenas um tanto desinteressante, e caminhando no pouco seguro caminho da pop. Sia ajuda a salvar o trabalho, mas esperemos que no próximo não seja preciso a loirinha estar a salvar os dois senhores...

Veredicto Final: 15/20

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Matthew Dear: Asa Breed

ALTOS VOOS






Afastado dos escaparates desde "Backstroke", em 2004, Matthew Dear regressa com "Asa Breed", finalmente. Classificado com indecisão como música electrónica, house minimalista, downtempo, etc, etc, etc (A história do costume.), Matthew consegue, agora, o seu melhor álbum, qualquer que seja o ponto de vista de que olhamos o seu trabalho, no conjunto.
"Asa Breed" começa com "Fleece On Brain", a um ritmo viciante, adornado com os barroquismos habituais em Dear, a repetição, a polifonia, e um certo ambiente caótico, tudo existindo á volta da sua voz, gutural e cavernosa. E é nestes conceitos que este trabalho se movimenta, mas sem que cada faixa se torne simplesmente mais do mesmo.









Em relação á estética da repetição quase psicadélica das notas, ela resulta bem, porque, sem dúvida, envolve-nos na canção, e leva-nos a conhecê-la rapidamente, e, logo, a aderir a ela. Acontece, por exemplo em "Shy" onde a construção, perfeita, cresce á volta da repetição não só de determinadas notas como dos sons electrónicos que as produzem, e também na letra. A questão das letras aqui também deve ser referida, porque, em comparação a "Leave Luck To Heaven" e a "Backstroke", "Asa Breed" apresenta as letras mais cuidadas, e, consequentemente, mais bem escritas, até porque, de qualquer forma, se adptam perfeitamente aos conceitos musicais do álbum.
A ultilização que Matthew faz dos diferentes samplers neste álbum pode, por vzes, deitar por terra as opiniões que lhe atribuem a house minimalista. Não é que seja tão maximalista como Bjork, mas certamente utiliza mais sons do que habitualmente, o que, por sinal, foi uma boa opção, uma vez que ajuda a diversificar a sonoridade, no total, e também individualiza um pouco o álbum, em relação aos anteriores.
Tudo isto resulta, realmente, numa sonoridade mais temperametal, que prima por saír dos canones da música house como ela é feita normalmente. Aproxima-se, por vezes, mais da electropop do que daquilo que tinha feito até agora. Em certas canções, o ritmo á maioritariamente dançável ("Neighbourhoods" ou o primeiro single "Deserter".), noutros, é principalmente um agradável caos, ou uma deliciosa psicose ("Elementary Lover", "Will Gravity Win Tonight".).
A voz, por fim, é também abordada como uma voz que realmente canta, no sentido literal da palavra, muitas vezes, afastando-se ligeiramente do hábito de Matthew de, principalmente arrastar e sussurrar.
Um álbum digno de ouvir, pois claro, por mais que não seja, para celebrar o Verão e as noites típicas... não que uma coisa implique a outra, claro.



Veredicto: 17/20

Matthew Dear @ Field Day - Neighbourhoods

Neighbourhoods, uma das faixas de "Asa Breed".

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sia - Breathe Me (live)

"Breathe Me", captado por um retardado mental que se esqueceu de gravar o arranjo de cordas do final. Mas uma boa canção, ainda assim.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sia: Lady Croissant

CROISSANT MISTO








O terceiro registo a solo de Sia Furler, aka Sia, é um álbum ao vivo. Após colaborações nos três álbuns dos Zero7 (Para o bem e para o mal.), após o despercebido "Healing Is Difficult", após a descoberta de "Breathe Me" no final de "Sete Palmos de Terra", que acabou por dar uma injecção de popularidade ao álbum "Colour The Small One", Sia decide mostrar-nos o que faz ao vivo. Numa lista muito curta, devo dizer. "Lady Croissant" é constituido por oito faixas ao vivo, e uma faixa bónus de estúdio.
Numa coisa é indiferente se os álbuns de Sia são em palco ou em estúdio: são sempre mistos de coisas muito boas e coisas muito más. Sia Furler não é daquelas artistas que subindo ao palco nos faz esquecer os defeitos de estúdio.
O alinhamento começa com "Don´t Bring Me Down", de "Colour The Small One" (Também da BSO de "Sete Palmos de Terra".), uma das suas canções mais melancólicas e bem construídas. A coisa não corre mal, a única coisa que aqui não vem mesmo nada a calhar é a pronúncia arrastada de que Sia abusa por vezes, deixando-nos indecisos em relação ás palavras que está a dizer. Segue-se a primeira bomba dos Zero7, "Destiny", aqui sem Sophie Barker. Um momento interessante, instrumentalmente diminuído, como era de esperar, mas nada mau. "Blow It All Away", a única testemunha neste álbum de que "Healing Is Difficult", o primeiro, existiu, é um momento quase irrepreensível, por ser um dos poucos que ultrapassa mesmo a versão de estúdio.
"Lentil" é um original daqui, e uma boa canção, em que a voz aparece particularmente bem colocada. Sem nenhum defeito em especial, é um dos melhores momentos.



"Numb" é que já não corre tão bem. Sia deixa-se arrastar para vocalizações mais arrastadas e sentimentais, e em "I Go To Sleep", uma cover dos The Pretenders, cai no mesmo erro.
Em "Breathe Me", peca por querer saír demasiado da versão de estúdio. Ainda que ao longo da canção não se vá saíndo mal, acaba por, em certas partes, soar demasiado fria ou inexpressiva. Os ad libs que acrescenta no final são bons, contrpõe esta frieza. É uma pena que não se possa dizer que este é o melhor momento do álbum, porque é, certamente, a melhor canção que Sia já fez.
Em "Distractions", faz uma boa reconstituição, soando por vezes a uma espécie de smooth-jazz, só estraga tudo em, arrastar por vezes mais do que nunca a pronúncia, tornando algumas palavras literlamente incompreensíveis. Ainda assim, não deixa de ser um bom final.
A canção de estúdio chama-se "Pictures", e é inevitavelmente um momento a referir no álbum. Uma boa canção, a fazer esquecer a boa da Sia das baladas tristes, apresentando-nos uma melodia mais alegre, e uma letra bastante razoável.
Enfim, um álbum de Sia, para o bem para o mal, com o bem e o mal. Uma referência para o título, muito engraçado.
Veredicto: 16/20


quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Maria de Medeiros em Viana do Castelo

Foi com a plateia lotadíssima que Maria de Medeiros se deparou quando, Terça-Feira, subiu ao palco do Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo. Em apresentação estava o álbum "A Little More Blue", em que a cantora/actriz desenha jazz em cima de clássicos brasileiros saídos de referências como Caetano Veloso, Chico Buarque, Dolores Duncan e Ivan de Lins.
Tímida dentro do seu vestido azul, Maria começa com "Joana Francesa" que, tal como no álbum, surge ligada com "Acorda Amor", ambas de Chico Buarque. É precisamente em "Joana Francesa" que tem a pior interpretação da noite: não por ter cantado mal, mas por, talvez devido á timidez, se ter colado demasiado á versão de estúdio. Mas em "Acorda Amor" já são imperceptiveis os rastos de timidez, e consegue, por contraste, um dos melhores momentos da noite.
Após algumas palavras em que reafirma e reforça a carga política das canções, entra a matar por "A Little More Blue" de Caetano. A partir daí, tanto desfila com as canções que compõe o seu álbum de estreia, como apresenta outras, principalmente do reportório que Chico e Caetano escreveram no exílio, em Roma e Londres, respectivamente.
Aqui, quase disfarçadamente, Maria retira alguma consistência ao álbum: é óptimo que interprete canções exteriores a ele, especialmente quando o faz com tanto brilhantismo como em "Adolescente Sentimental", mas se, para isso, abandona temas que fazem parte do álbum, como "O Quereres", já não é tão bom.
Áparte disto, nada a dizer. Maria canta bem, muito bem, soube conduzir os músicos, o alinhamento estava bem feito, pensado para realçar não só a pessoalidade de Maria de Medeiros, como também as qualidades da sua voz.
Brilhou em "Samba de Orly", na dupla interpretação de "Tanto Mar", do qual fez questão de realçar a história, e ainda lhe acrecentou uma porção de "Grândola Vila Morena" de José Afonso, que não deixa de surpreender.
"A Noite de Meu Amor" assenta como uma luva tanto á voz como á postura de Maria, assim como "Começar de Novo" de Ivan de Lins parece reforçar um certo ar revolucionário que a filha do maestro Vitorino d´Almeida por vezes assume, consciente ou inconscientemente.
No meio de algo tão bonito, só tive pena que o público, na sua maioria, fosse pouco participativo, uma vez que me parece que algo tão bom merecia um pouco mais de reacção. Enfim.
Veredicto: 19/20

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Caroline Lufkin - Drove Me To The Wall

Ao vivo no KLPAC, Caroline interpreta "Drove Me To The Wall", certamente uma das melhores canções de "Murmurs".

Caroline: Murmurs

INOCÊNCIA TARDIA

Quando a voz de Caroline Lufkin se ouve pela primeira vez, em “Bycicle”, nota-se que há qualquer coisa nela. Não só na voz, como na música, e até na própria letra, em que, puerilmente, Caroline diz “I don´t remeber your face, but I remember your bycicle”. O que se segue não foge em nada a estas primeiras ideias. De facto, a génese do álbum “Murmurs”, o primeiro LP desta japonesa radicada nos USA, fica bastante explicada nos primeiros quase quatro minutos, a primeira faixa.



Mais a fundo: Caroline não fez nada completamente bem, mas também não fez nada completamente mau. No seu primeiro álbum tem boas canções, e tem outras menos boas. Cai, por vezes, no entanto, no erro de lhes dar um toque demasiado inocente, que acaba por parecer forçado. Essa inocência tem o seu interesse, e acaba por ser uma forma de individualizar Caroline, mas, há muito que se sabe, o que é demais é erro, e ela por vezes exagera. Exagera principalmente em “Where´s My Love”, precisamente o single que lançou um ano antes de “Murmurs”. Tudo em “Where´s My Love” é abusivamente infantil, como se Caroline andasse a saltar entre flores muito maiores do que ela, e a deitar-lhes pozinhos mágicos… Nisto tudo, o que temos? Só a pior canção do álbum. Aparte destas, nenhuma exagera tanto que se torne um abuso. Ou seja, a interpretação de Caroline é consideravelmente positiva, não deixando de dar, ainda assim, alguns passos em falso.
A nível instrumental, “Murmurs” é um exercício excelente da fusão do electrónico com o acústico, sem deixar de ser, alguma vez, minimalista. Veja-se “Everylittlething”, onde a beat salta sobre os cristalinos sons do fender rhodes. E esta composição instrumental acaba, muitas vezes, por amparar Caroline quando ela cai nos tais excessos. “Everylittlething” é, mais uma vez, um bom exemplo.
A melhor canção, não obstante, parece-me ser “Drove Me To The Wall”, onde a electrónica faz a história, não sem uma trama de arranjos que acabam por resultar numa canção acolhedora e esteticamente muito bem conseguida.
As comparações com Bjork, perdoem-me, são ridículas. A voz de Caroline não soa a mais nenhuma, ainda que por vezes lembre uma espécie de Joanna Newsom menos agressiva. A nível instrumental, é mais normal inseri-la entre os Zero7 e os Telepopmusik.
No resultado, Caroline promete-nos vir a ser irrepreensível, o que, por enquanto, não é, mas a construção instrumental e os arranjos (Da autoria da própria Caroline Lufkin.) são, certamente, de aplaudir. Uma vez que perca os excessos de inocência e os substitua por alguma garra, que é o que aqui falta, Caroline estará perfeita. Venha ela.

Veredicto Final_ 15/20

Maria João: João

CANTO DOS DEUSES



Muito se tem falado dos álbuns de Maria João, Maria de Medeiros, Teresa Salgueiro e JP Simões, por terem em comum uma coisa: serem álbuns de portugueses a cantar canções brasileiras. Sobre isso, já disse o que tinha a dizer quando comentei “A Little More Blue” de Maria de Medeiros.
Mas, sobre “João”, o álbum de Maria João, tenho outras coisas a dizer. Para começar, há que realçar uma coisa, que a própria Maria João já realçou: muito antes de estar na moda ser-se português e cantar com sotaque do Brasil, já ela o fazia. Exemplos recentes são as excelentes versões de “Undercovers”, a par com Mário Laginha, de “O Quereres” de Caetano Veloso, “Esse Seu Olhar” de António Carlos Jobim, “Marco Marciano” de Lenine, ou do tema folclórico “Cantiga (Caico)”. Isto para ir só ao mais recente. Ou seja, em Maria João, a escolha de cantar músicas brasileiras soa a algo muito coerente, e não inesperado, como acontece com Maria de Medeiros e Teresa Salgueiro.
De todos esses álbuns, “João” é, provavelmente, o melhor.
Maria João faz, como sempre fez, a opção de cantar as coisas como lhe soam melhor. Assim sendo, muitas vezes nem chega a usar o sotaque brasileiro, usando outros, ou usando mesmo a pronúncia portuguesa de Portugal. Isso é bom. Assume as canções como se as tivesse feito, com total liberdade de interpretação, e evita colar-se aos originais. Ao mesmo tempo, também se mantém na linha que a caracteriza ao longo dos dezassete álbuns anteriores.
A nível dos instrumentos, e dos arranjos (De Miguel Ferreira, dos Blind Zero e dos Clã.), escolhe também caminhos menos óbvios. Evita (E esse é um caminho que também Maria de Medeiros escolheu, mas de uma forma mais direccionada.) assim a pretensão de criar uma sonoridade “abrasileirada”, limitando-se a colocar aquilo que lhe parece, e á equipa da produção, o mais adequado.
Escolheu, também, um reportório diversificado, e, ao contrário de Maria e de Teresa, que se ficaram pelos veteranos, Maria João escolhe também autores mais recentes, interpretando Chico Buarque, António Carlos Jobim, Marcelo Camelo, Ary Barroso, Caetano Veloso, Edu Lobo, Marisa Monte, Geraldo Pereira, Vinicuis de Moraes e Zequinha de Abreu. Oferece-nos, então, estas interpretações, com toda a expressividade a que nos habituou, e com uma autenticidade omnipresente, criando, assim, performances únicas.
Temas de destque, “Retrato a Preto e Branco” de António Carlos Jobim, abre o álbum, e muito bem. Uma canção promissora, que contém já alguns dos traços genéricos daquilo que será o restante. “Choro Bandido” de Cida Moreira é outro, “A Outra” de Marcelo Camelo, que é o single de avanço, é, certamente, uma das interpretações mais valiosas do álbum, com arranjos de harpa simplesmente deliciosos, “Partido Alto” de Caetano Veloso, merece também referência.
Enfim, aparte de todas essas teorias da música brasileira em Portugal, “João” é, sem dúvida, um dos discos do ano, ou não fosse ele o decimo sétimo de uma cantora que, por dezassete vezes, já mostrou que é única.

Veredicto Final: 19/20

Maria João - A Outra

Video de apresentação do álbum, "A Outra" dos Los Hermanos, escrita por Marcelo Camelo

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Tracey Thorn: Out Of The Woods

O QUARTO DESARRUMADO





Seis anos depois do último álbum dos Everything But The Girl, treze anos depois de dar voz a "Protection" e "Better Things" dos Massive Attack, e vinte e cinco anos depois do seu primeiro álbum a solo, Tracey Thorn lança, de repente, "Out Of The Woods". O seu primeiro álbum a solo, que muita gente desconhece, foi lançado em 1982, com o nome de "A Distant Shore". Sendo uma espécie de solo, em que a voz de Thorn fazia suaves duetos com a guitarra acústica, quem o conhece, e agora ouve "Out Of The Woods", pode reparar logo numa coisa: este álbum tem um som muito mais 80´s do que "A Distant Shore". O facto do debut ser a tal gravação voz/guitarra e de "Out Of The Woods" ser mais diversificado, pode contribuir, mas a verdade é que estas compoisções nos transportam com mais rapidez para os anos oitenta. Nada contra. Nada contra, porque, na verdade, este segundo álbum da vocalista dos Everything But The Girl é bastante bom. A tal diversidade nos instrumentos ajuda a criar uma sonoridade que, no resultado, é mais intimista. As canções parecem fechar quem ouve num pequeno quarto, um quarto desarrumado, com muita coisa escondida no meio da desarrumação, tal como nos mostra a capa. Os arranjos são calculados ao milímetro, com pequenos pormenores que, sinceramente, não seriam de esperar em Tracey Thorn. Acontece, por exemplo, em "Easy", e ainda bem. Ora, "Easy" é, precisamente, uma das melhores canções do álbum, criada no ponto rebuçado entre os ritmos dançáveis de "It´s All True" ou "Get Around To It" e os sons mais melodiosos de "Here It Comes Again" ou no excelentíssimo "A-Z". Logo depois, esses sons inesperados surgem-nos de novo em "Falling Off a Log", outra das melhores canções do álbum, certamente, produzida também na linha do ponto rebuçado da anterior.
No meio dessa decisão de enveredar pelos eighties, Tracey só falha por questões de alinhamento, uma vez que as baladas, ao surgirem no meio de canções mais dançáveis, parecem ser rapidamente apagadas.
As letras vagueiam entre narrativas pessoais e mensages, como a "palavra de esperança" que deita aos adolescentes gays em "A-Z".
Alegou que este álbum é exactamente isso, este álbum, e que não terá promoção ao vivo. Thorn decidiu escolher a vida familiar á vida dos palcos, e quem somos nós para a julgar? Mas é pena, porque algumas canções mereciam mesmos ser colocadas ao vivo.
Sem um disco perfeito, ainda assim, Tracey Thorn fez um disco muito bom, e isso é, claro, muito bom. Vinte e cinco anos fazem a sua diferença, ainda que aqui pareça ao contrário.




Veredicto Final_ 17/20